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8 O cap VII
Notas iniciais
“Mistakes, we all make them
(Erros, todos nós cometemos)
But they won't let it go, no
(Mas eles não vão esquecer)
'Cause she's got a bad reputation
(Porque ela tem uma má reputação)
But I know what they don't,
(Mas eu sei o que eles não sabem)”
Bad Reputation – Shawn Mendes
William Nakayama
Eu poderia fingir que não percebi os olhares assustados e curiosos para o meu lado quando Sabine deixou a praia. Todavia, todos sabiam, ou haviam sido informados que éramos aparentados. Iosha deu de ombros quando uma garota qualquer começou a interrogá-lo, inquirindo saber sobre minha irmã e suas peculiaridades.
— Ora, ora! A que devemos a honra de tão ilustre presença, depois de meses sem dar as caras? Te deixaram cair do pacote docinho? — suspirei meio contrariado e desconfortável, fitando a acompanhante de Marlon. — A propósito, da última vez que nos vimos foi bastante proveitoso. Poderíamos repetir a dose, o que me diz? — senti os olhos amendoados correrem por meu corpo despudoradamente.
— Da última vez que nos vimos Sarah, eu não fazia ideia de quem você era! — comecei apontando para a mão entrelaçada a do meu melhor amigo. — E, você não estava tão redondinha, quanto agora! — satirizei.
— Acredite, nada mudou, realmente! — seus olhos ainda estavam sobre mim e, desta vez, ela acrescentou uma morder de lábios a expressão sedutora. — Quem era? — olhei-a confuso, vendo-a apontar com a cabeça para a silhueta de Sabine que desaparecia rapidamente do outro lado no fim da praia.
— Sabine! — meu melhor amigo me interpelou, não muito impressionado com o rumo da conversa.
— A Sabine Nakayama?! — Sara ergueu as sobrancelhas, numa visível máscara de surpresa e incredulidade. — Sinceramente, da forma com que falava dela, eu esperava mais da venerada “olhos de Tigre”! — notei-a olhando de esguelha para o loiro. — Porque ela está aqui, depois de todos esses anos, afinal não foi ela quem fugiu pra guerra, ou algo assim?
— Não foi por escolha própria, eu diria que é mais por obrigatoriedade. A saúde de Bine está por um fio, não seria prudente mantê-la em serviço. Os danos pela vida que levou estão perturbando-a, consideravelmente e, embora fosse esperado, parece não estar lidando nada bem com eles. — a morena bocejou tediosa. Pigarreei requerendo sua atenção. — Eu agradeceria imensamente se conseguisse se manter distante, ao menos por hora. Sabe, existem certos aspectos em mulheres como você aos quais Sabine é adversa!
— Nakayama tem aversão a mulheres exorbitantemente bonitas? – ela deu um gargalhada escarnecedora antes do dar de ombros — Sem problemas, cariño. — assobiou o apelido fitando as próprias unhas indiferente. — Não é como se eu quisesse a companhia da coisinha. A tua, por outro lado... Diga-me, o quão grato estaria disposto a ser e, mais importante, o quanto tua gratidão poderá fazer-me satisfeita? — ela me olhou e sorriu torto. Senti o sangue subir para as bochechas.
— Certo, Sarah. — Marlon bufou. — Ao menos tenha respeito a tua condição e vá para dentro, sim? — o loiro largou a mão dela, e empurrou-a pela base da coluna, até a porta de onde vieram.
— Ela não se atreveria a aparecer apenas para eu ter que reforçar o pedido e fazer-me claro, não é? — sentei-me no primeiro degrau e meu amigo me acompanhou segurando o riso sem humor.
— Não me preocuparia com isso. Sarah está mais empenhada em me ferrar, se quer saber! — ele soprou o ar desgostoso.
— Vocês estão juntos novamente? — eu tive que rir da careta contorcida que se transfigurou no rosto dele.
— Não. Apenas rolou uma recaída como sempre e... voilà! — vi-o passar a mão pelo próprio abdômen para ilustrar o casulo fetal, um pouco mais divertido desta vez. — Deve haver algo muito errado na genética dos Blaize para que eles sejam tão...
— Sedutores? — arrisquei. Eu conhecia — e aqui devo dizer que não me orgulho disso — a sedução Blaize bem demais para meu próprio agrado.
— Tarados! — corrigiu meu amigo, gargalhando convicto. — Claramente, há perversão nos genes dos Blaize, estou certo disso!
— Me diga, Marlon. Tem certeza que o moleque é mesmo teu? — senti o bolo que estava em minha garganta — desde que eu vira Sarah em seu “atual estado” — descer como uma pedra de gelo e bater no meu estômago despreparado.
— Não é um molequinho, temos uma garotinha a caminho. Mitsuko! — vi-o sorrir orgulhoso.
— Mitsuko? — repeti lentamente, tentando assimilar o motivo que o levara aquela escolha curiosa para o nome da própria filha.
— Ouvi Sabine dizer uma vez que era o nome da vovó Nakayama! — ele sorriu, desta vez meio sem graça. — Considere uma homenagem, da minha parte! — assenti desconfortável pela revelação. Marlon não tinha motivos para querer homenagear Baa-san. Ele deu de ombros como se a informação não fosse grande coisa. Para mim, por outro lado, representa muito!
— Não respondeu a minha pergunta! — apontei antes que ele se esquivasse. Eu precisava saber. Mesmo que eu estivesse arruinado dali em diante.
— Relaxe, Willie. A bomba estourou em minhas mãos, antes mesmo de passar pelas tuas! — encarei o mar, respirando um tanto aliviado. A pulga ainda estava atrás da minha orelha, contudo. — Eu sou o pai.
— Por isso a tia Becca anda tão intempestiva! — compreendi. — Isso não ajuda em nada, aos nervos dela. Nem contribui, minimamente, para o tratamento. — tive que respirar profundamente, sentindo uma impotência enorme pesar sobre minhas costas. — Deveria ter se cuidado, Marlon. Ela avisou o que aconteceria caso...
— Há anos ela vem avisando muitas coisas, Willie. E todas resultam em expulsão da casa dela! Rebecca só permitiu que eu retornasse para o seio da família, porque o primogênito a pediu. Caso contrário, eu estaria na rua da amargura. O “acordo” foi quebrado quando a velha descobriu que Sarah estava grávida! — se eu não conhecesse o meu amigo bem o bastante, eu diria que ele estava fazendo um bom trabalho tentando esconder a amargura.
— Dê um desconto, Marl. Sabe que as duas nunca se deram bem, não é algo fácil de lidar!
— Tua irmã ficará bem? — está aí algo ao qual meu melhor amigo é extremamente bom: demover-se de assuntos dos quais não deseja discutir.
— Ela irá sobreviver. Sabe como foi difícil para mim. Imagine toda aquela carga, sete anos mais pesada!
— O que houve com ela? — eu sabia que ele se referia às cicatrizes, uma vez que o gênio forte de Bine não mudara uma vírgula desde a última vez que se viram.
— Sabe que Sabine me proibiu efetivamente de dar qualquer informação a você. — ele me olhou pidão. — Contudo, dadas as circunstâncias atuais, acredito que deva saber coisa, ou outra. — respirei fundo, já imaginando a bronca que levaria por estar expondo a vida da minha irmã, justamente a ele. — Após o acidente, e o episódio no hotel, ela ficou profundamente abalada e desestabilizada. — senti meus músculos retesarem. A raiva ainda me consumia quando era forçado a relembrar. — Junte estes, ao fato de ter visto muitas pessoas, entre elas amigos próximos, irem aos ares sem ter muito o que fazer a respeito. Certas coisas, tornam uma pessoa um tanto suscetíveis à atos desesperados de autopunição.
— Algum dia a teremos de volta? Sabe, insuportavelmente irritante, que seja. — ele deu de ombros novamente. — Ou, ao menos entendê-la? — Marlon levou a mão ao bolso da bermuda, resgatando um maço de cigarros e isqueiro, o acendendo e levando-o aos lábios imediatamente.
— O dia que algum homem conseguir entender qualquer mulher, avisa-me para que o façamos uma estátua de ouro! — debochei recusando, com um aceno, o cigarro oferecido.
— É completamente incabível que ela tenha preferido fugir e refugiar-se num colégio militar, a permanecer e tentar resolver as coisas entre nós. — ele fez um esgar de contradição. — Digo, não precisávamos ter nos envolvido em um acidente ou, matado uma pessoa. Era só ela ter engolido toda a infantilidade dela, e esperado as coisas se encaminharem. Estava tudo dando certo, era a última vez. Depois disso, podíamos ter sentado e conversado como pessoas civilizadas, se era o que ela preferia!
— Acredito que foi justamente o que ela tentou fazer. Sabine estava decidida a resolver tudo aquela noite. Ademais, conhece-a muito bem para saber que com ela as coisas devem declinar para o lado que apraz o seu autoritarismo. — ele sorriu saudosista. — Ela o odiava, Marl. O odiava com todas as forças, e, mesmo assim, preferiu resolver antes que fugissem do nosso controle. Ela enxergou algo para o qual nós fechamos os nossos olhos. — tive que recuperar o fôlego antes de continuar. — Acha mesmo que ela quis que as coisas acabassem daquele jeito? Ela saiu tão machucada quanto você nessa história toda! — suspirei resignado, aquele assunto sempre me requeria uma boa dose de autocontrole. — A propósito, talvez ela não o odiasse tanto quanto eu imaginava, já que preferiu se mandar, a ter que depor oficialmente contra você no tribunal o que, devo lembrar, seria substancialmente mais complicado pro teu caso!
— Preferia um milhão de vezes ter tido que encará-la do lado acusador no tribunal, a ser deixado para mofar na cadeia sem ter ouvido a “verdade” da boca dela. — ele estava consternado, e eu sabia que mais um pouco e explodiria. — Ou, ao menos, um adeus! — sua voz saiu como um sopro, e pude notar que ele não falava para ser ouvido. Era mais um eco de seus próprios pensamentos. Fingi não ter escutado.
— Não vamos ter essa conversa novamente, Marlon. Ela já está desgastada, e nada do que eu fale será novidade. Não posso falar por Sabine! — levantei-me esperando ter sido claro, dando aquela conversa por encerrada. Sacudi a areia da bermuda e encarei-o. — Tua mulher não vai ficar se jogando pra cima de mim, descaradamente, vai? Isso não deveria incomodá-lo? Porque a mim, incomoda!
— Sabe que ela não é minha mulher, Willie! — ele bufou impaciente. Se tinha algo que o irritasse mais do que o “assunto Sabine”, era sem sombra de dúvidas o “assunto Sarah Blaize”. Segurei o riso, por puro respeito, é claro. — É só que... — ele pareceu ponderar a respeito, soltando uma nuvem densa de fumaça pelos lábios. — ...é complicado. Sarah é visivelmente desmiolada. Parece não ter percebido que há um ser humano no ventre. Alguém precisa ser responsável nessa história, entende? Não quero que nada aconteça a minha garotinha por irresponsabilidade dela!
— Esclareça-me apenas uma coisa, sim? — segurei o riso, eu tinha que arriscar a piada sem graça que estava em minha mente. — De qual das garotinhas estamos falando, mesmo? — soltei a gargalhada conseguindo que ele desfizesse a carranca a e me acompanhasse.
— Eu não brincaria se fosse você, Willie. Ambos sabemos em quem ela gamou! — ele continuou a rir, mas para mim já tinha perdido a graça por ali.
— Marlon, sobre isso... — pigarreei tentando organizar as ideias. — Da última vez que estive aqui, vocês estavam na Costa Leste, depois as campanhas se iniciaram e, eu fiquei bastante atolado com o trabalho. Não tivemos a oportunidade de conversar a respeito e esclarecer as coisas. -Marlon soltou um riso pelo nariz.
— Não esquenta, cara. Não há ressentimentos da minha parte e, eu não o culpo pelo lance que tiveram. Sarah e eu nunca tivemos um relacionamento efetivamente. E, ademais, naquela época não estávamos tendo nada. De qualquer forma, nunca esperei fidelidade de Sarah. — ele riu sincero.
— Eu compreendo essa parte, honestamente. Contudo, sinto-me um traidor sem escrúpulos por ter me envolvido com a mulher do meu irmão! — senti o comichão da culpa me corroer.
— Olhe para mim, William. E, ouça bem o que vou dizer. — ele ficou sério, deixando o cigarro pender pelo canto da boca. — Eu não resisti as investidas de Sarah todas as outras vezes que tentamos manter-nos distantes, ela é ardilosa e tem uma lábia atraente. Não esperaria autocontrole o suficiente vindo de nenhum cara, mesmo que este fosse meu melhor amigo. Além do mais, não haveria como saber que tínhamos um lance, uma vez que nunca nos demos ao trabalho de fazer-nos claros sobre isso. Blaize aproveitou-se dessa situação para lhe instigar.
— Sobre Mitsuko, você... realmente tem certeza? — arrisquei, ainda não tinha me dado por convencido. Apenas a perspectiva dava-me calafrios. — Quero dizer, se fizermos as contas...bem... — ele capturou meu nervosismo.
— Ela já estava grávida quando vocês transaram! — a informação me pegou desprevenido e fui obrigado a sentir-me um pouco ultrajado e usado. — Sarah tentou esconder e fingir que era de outro, chegou até a apontar para você. Contudo, me conhece bem. Quando eu sou o pai, EU SOU O PAI!
— O que a paternidade faz a um cara! — sibilei referindo-me ao sentimento paternal visivelmente aflorado no meu amigo.
— Você não faz ideia! — ele sussurrou sério, encarando algo às minhas costas. Senti uma presença e o cheiro de perfume feminino inebriar-me. Virei-me para encarar a mulher de intensos olhos marrom esverdeados. — Você não faz ideia! — ele repetiu levantando-se com pesar e jogando o cigarro pela metade na areia quente.
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