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7 O cap VI


Notas iniciais
SURPRISE!!! Ou não, não sei! ¯_(ツ)_/¯ Enfim, um cap novo em tempo recorde! Como esse esta bem polêmico, não vou me estender aqui não. Boa leitura e até as notas finais!

Abri os olhos um bocado confusa. A claridade, que adentrava pelas cortinas do quarto, escorria pelo tapete quadriculado tomando formas animalescas conforme a cortina dançava sob o vento. Estou em outro sonho?

Procurei pelo relógio em forma de TNT em cima da mesa de cabeceira. Levantei-me sobressaltada. Eram onze horas da manhã. ONZE horas! Não consigo me lembrar de um único dia, em toda a minha mediocridade, em que tivesse me levantado tão tarde. Anikka só pode ter colocado sonífero naquele chá!

Pois bem, não há muito a ser feito a respeito, de qualquer forma. Muito pelo contrário, eu devia um agradecimento extenso à noiva de Joshua, pela sua contribuição à noite de sono mais tranquila que tive, em meses.

Sai arrastando meus pés sobre o assoalho. Todo o meu corpo estava leve, e um tanto preguiçoso. Eu me sinto relaxada e plenamente calma. Curiosamente, parecia que nada poderia me abalar, nem minimamente.

Desci as escadas ainda me espreguiçando gostosamente. A casa tinha uma atmosfera convidativa. O sol amarelo invadia os cômodos pelas janelas abertas, colorindo todas as paredes. Não fosse os gritos ruidosos do lado de fora, eu diria que a casa reinava em uma calmaria absoluta. Puxei o ar, o cheiro de água salgada e areia molhada invadiram meus pulmões. A pontada na costela debilitada sinalizou que nem tudo eram flores! Contudo, estou viva!

Encarei o mar, ainda do deque. Era por toda aquela imensidão azul, que vivia na adolescência. Era para tê-la todos os dias, que suportava Marlon e suas afrontas. O vento morno bateu sutilmente contra meu rosto, convidando-me a voltar àqueles dias. Como um amante há muito esquecido.

— É uma visão magnífica, não é? — Josh saiu pela cozinha, encarando o mar sorrindo levemente nostálgico.

— Mais do que isso! — resfoleguei. — É como se todo o caos da minha vida se esvaísse. Aqui. Agora!

— Não há lugar como o lar! — parafraseou suspirando. — Estou feliz por, finalmente, tê-la em casa novamente, Sabine! — fitei aqueles olhos azuis brilharem ainda encarando a paisagem.

Havia muito do nerd, que desfilava por toda Catalina em seu 4x4, naquele homem ao meu lado. Sua confiança e sabedoria ao falar, por vezes, assustava-me. Eu estava em casa? Realmente podia dizer, com todas as palavras, que pertencia aquele lugar?

Os gritos energéticos fisgaram minha atenção. Corri os olhos pela extensão da praia defronte à casa dos Blaize. Os garotos haviam improvisado traves com as tochas da noite passada, e, estavam jogando futebol, assistidos por um par de pessoas. A nostalgia invadiu meus poros, a adrenalina correu por minhas veias. Kuso. Senti mais falta da ilha do que havia imaginado. Aqueles garotos também eram minha família, afinal. Meu sangue. Meus irmãos.

— Lembre-me de agradecer Kwame, novamente. — minha voz saiu em um silvo meio abalado pelas constatações anteriores. — Não durmo tão bem assim em anos, sobretudo, nos últimos meses.

— Quisera salvar-me de igual modo! — observei-o levar a mão a têmpora massageando-a levemente.

— Está se sentindo bem? — já estava ficando preocupada com a careta dele.

— Fiquei toda a madrugada tentando produzir algum conteúdo aceitável, para que meu editor consiga me liberar, pelo menos no dia do meu casamento! — ele riu sem muito humor.

— Não pode se deixar sobrecarregar desta maneira. É algo imprudente a se fazer. Precisa se cuidar, Josh. — pois é, vindo de mim até poderia parecer piada, certo? É aquela velha história: “Faça o que digo, mas não o que faço!”

— Que tua mãe não me ouça. Mas, tive que furtar algumas aspirinas do armário de remédios dela. Considerando as circunstancias atuais, não é aconselhável mantê-los em abundância! — Peter saiu com uma cartela de comprimidos em mãos, entregando-o ao filho. — Não fosse a necessidade, eu estaria ruborizado de vergonha!

— Acredito! — Josh sorriu sem graça. — Obrigado, Pai. Vou deitar-me e tentar descansar. Com licença! — o moreno entrou e sumiu de vista.

— Percebo que acordou bem disposta hoje! — Peter voltou-se para mim, dedicando sua atenção profissional em demasia. Lá vem! — Como se sente?

— Estou bem tio Peter. Muito obrigada pelos cuidados de mais cedo! — tentei sorrir convincentemente. Sem êxito.

— Tudo bem. — ele balançou a mão dispensando o agradecimento. — Pulemos os agradecimentos, e vamos direto a parte em que me descreve, exatamente, o que sente! — ordenou. Bufei.

— Não deixa passar uma não é, tio Peter? — eu sabia que ele estava preocupado, mas, vejam, não estou acostumada a isso. — Certo. Sinto algumas pontadas, de leve. Nada com o qual já não esteja acostumada. E, algum tipo de formigamento nas suturas. É só! — voltei minha atenção para a partida de futebol que se desenrolava a nossa frente.

— Perfeitamente natural. Isso é ótimo, devo dizer. Sinal de que a cicatrização será rápida. — ele sorriu terno, abandonando o ar de médico e assumindo a face paternal.

— Tio Peter? — chamei-o incerta, quando ele se virou para ir embora. O velho girou nos calcanhares, olhando-me curioso. — Acredita que ainda posso voltar a ser quem era?

Se estranhou a pergunta repentina, não deixou transparecer. Não consegui sustentar o olhar, voltando para os rapazes que corriam na praia, atrás da bola.

— Serei extremamente sincero contigo, Sabine. — ele suspirou medindo as palavras. — Não há caminho que nos leve de volta ao passado. Você é incrível, tornou-se uma mulher forte, de fibra e leal. Ainda existe muito da Sabine de antigamente aí dentro, acredite. Só teremos que resgatá-la, e fazê-la crescer com as experiências que tua maturidade trouxe!

Sorri sem graça. Pode haver alguma verdade no que tio Peter diz? Digo, ele é coerente e consegue enxergar as coisas por ângulos inimagináveis. Porém, ainda é muito paternal, suas emoções podem estar fazendo-o agir condescendentemente, apenas, certo?

— Ele faz parecer tão fácil! — acompanhei Billy com o olhar. Ele parecia genuinamente feliz e a vontade no meio dos outros. — Sabe? Esquecer o que aconteceu e seguir em frente, como se nada tivesse nos separado, nunca!

— É deveras antiético o que estou prestes a revelar. Contudo, William também necessitou de alguma ajuda quando retornou. Todos vocês estavam fragilizados em níveis inimagináveis. Não foi nada fácil para teu irmão, voltar a convivência habitual de um civil, perdoar Marlon, vê-se separado da própria irmã. Sobretudo, ser rejeitado por ela! — engoli o bolo que se formou em minha garganta. Fui uma cretina sem escrúpulos esse tempo todo.

— Ele conseguiu se curar, não foi? E voltar a ser o náufrago da Ilha Catalina! — ri pelo nariz. Billy amava aquela ilha.

— Com certa ajuda, poderá fazer o mesmo! — ele passou um cartão para minhas mãos, guardei-o no bolso do short. — Confie em mim, querida. Em Two Harbors está entre família. Nada a atingirá. Aqui poderá ser apenas a Menininha, se desejar!

Tio Peter deu duas batidinhas de leve nas minhas costas. Me lembro como hoje, o dia em que me apelidou. Era verão, havia um festival estúpido na escola, e o patriarca se ofereceu para nos levar. Os garotos insistiram a viagem inteira para que fossemos andar de skate, porém, Janeth havia me feito vestir um vestido ridículo. Quanta audácia, vejam bem!

O velhote, que na época nem era tão velho assim, fez um discurso extenso sobre ser cavalheiro e delicado com uma garota. Um discurso para os meninos, é claro. Isso, porque eles começaram a me avacalhar quando apareci de vestido em sua casa. Peter fez questão de ressaltar o dia inteiro, que eu era uma “Menininha”, e não havia espanto algum eu estar trajando um vestido. No fim das contas, a roupa não me inibiu de acompanhar os garotos nas pistas de skate, se querem saber!

Era aquela garota a quem tio Peter se referia. Aquela que não se importava com as regras de etiqueta, com o que iriam dizer ou pensar sobre a conduta pouco ortodoxa. A que se importava única e especialmente com a diversão, e a companhia dos amigos.

Desci as escadas do deque sentindo a areia quente entrar por entre meus dedos. Um sorriso brincou em meus lábios. Liberdade era algo do qual eu não dispunha. Em nenhuma fase da minha vida, acreditem. Então, o que eu estava fazendo, me prendendo ao passado?

Caminhei até o depósito dos Dixon, cacei uma prancha esquecida, e sai. Corri com ela de encontro ao mar. Tomara que ainda saiba surfar, ou ao menos remar. Caso contrário, vou protagonizar uma cena de puro constrangimento.

Senti a água gelada bater em meus pés. Caminhei, ignorando o som dos gritos da torcida DESorganizada atrás de mim, e a pressão das ondas empurrando-me de volta. Abandonei a prancha na superfície, quando notei que já estava fundo o suficiente, e mergulhei. Senti a água salgada lavar minha alma, se possível fosse.

Abri os olhos observando o sol transpassar a superfície da água cristalina, e formar luzes espectrais sob meu corpo. Fiquei ali por algum tempo, apenas vislumbrando a beleza. Os recifes de corais abaixo destacavam-se em meio às pedras rochosas, as algas e anêmonas dançavam ao som mudo das correntes marítimas. Perdi o fôlego. Literalmente!

Submergi, respirando fundo. A costela protestou. Ignorei, não iria morrer por uma dorzinha. Recuperei a prancha e subi em cima dela. A grande extensão da praia parecia um filete de açúcar, visto ali de longe.

Não vou mentir aqui, e dizer que surfei maravilhosamente bem, apenas para que meu ego e orgulho não seja ferido. Entretanto, não perdi minha habilidade de remar em cima de uma prancha. E tenho dito!

Remei de volta para a costa, e sai da água, caminhando sem qualquer intenção de ir a algum lugar em específico. Minhas bochechas estavam doendo de tanto sorrir. Eu era a Sabine ali. Sabem? Aquela que escondeu os gibis no assoalho da escada, que aprendeu a andar de skate com Maxi, surfar com Marlon e, pasmem, ensinou Collin a jogar futebol. Eu senti que poderia ser a Meninha novamente!

Sentei-me em uma espreguiçadeira, ao lado de Anikka que assistia à partida muito compenetrada. Alguns dos garotos que, estavam de reserva, iniciaram sua preparação. Entre eles, distingui o pirralho da noite passada, e Blaize.

— Por tudo o que é mais sagrado, Will. Mantenha Noah longe do nosso time! Veja, eu nunca te pedi nada! — o fedelho pareceu desesperado quando foi mandado para o time do meu irmão.

— Teu irmão não é tão ruim assim, Iago! Só teremos que tomar certo cuidado com as canelas! — meu irmão riu divertido, arrancando gargalhadas dos demais. Então quer dizer que aquele gaki é irmão do Blaize? Isso explica muita coisa!

— Poderíamos colocá-lo de goleiro, certo? — arriscou Iago. — Quero dizer, ele precisa pensar seriamente em começar a exercitar as pernas. Por outro lado, olha só o tamanho dos ombros dele. Podemos aproveitá-lo pra obstruir a trave! — definitivamente, e sem qualquer dúvida, aquele garoto é meu Blaize favorito!

—Traidor de la sangre! — a frase, em espanhol, saiu em um silvo. Iago apenas sorriu ladino diante da ofensa do irmão. O bichinho mereceu meu total respeito, que seja dito!

— Certo. As madames já terminaram de se engalfinhar? — Nichollas estava suado, e as bochechas tinham uma coloração avermelhada.

Okay. Os times estavam bem mal divididos, se querem minha opinião. A maioria dos rapazes que jogariam contra Billy e os Blaize, eram do time oficial de Catalina. Em contrapartida, além dos já citados, o adversário contava com a magreza de Maxi, e o tamanho de Iosha.

Ouvi um assobio agudo e alto do meu lado, e aos garotos começaram a correr atrás da bola. Pelo visto, Anikka era a arbitra da partida. Curioso!

Senti os níveis de adrenalina aumentarem consideravelmente em meu corpo. Ver os Dixon, e Billy, jogando futebol novamente, fazia-me recordar de muitas coisas que eu julgava já haver fugido da minha memória. Os choques elétricos percorreram minha coluna. Se isso é mais um sonho, eu matarei quem tentar me despertar!

Collin corria agilmente, a bola estava sendo guiada por seus pés. Maxi rapidamente tomou a posição paralela ao caçula, enquanto Billy imitava-o, vindo pela direita. O irmão do meio correu mais adiante, chutando a bola para o companheiro, tirando-a dos pés do loiro. Will começou a conduzir a bola para o lado contrário. Uma onda de vivas e gritos femininos soaram audivelmente. Percebi certo padrão toda vez que o novato, ou meu irmão, tomavam a bola. Por favor, dê-me insulina, porque isso aqui está meloso demais pra o meu paladar!

Eu poderia dizer que a partida fora tranquila, e que, em momento algum, eu havia me estressado. Contudo, não teria história para contar, partindo desse princípio, não é mesmo? Eu já estava de pé, hora sacudindo as mãos para cima com visível agitação, hora andando de um alado para o outro tentando acompanhar os jogadores. Isso, é claro, sempre berrando a todos pulmões. Se existe algo que me irrita profundamente, é não ser ouvida!

— Isso está ficando ridículo! — bufei exasperada, parando ao lado de Anikka. A adrenalina não me permitiu sentar novamente.

— Eles parecem estar se divertindo! — alertou a negra gargalhando muito, provavelmente, do meu estado de nervos.

— Pois bem, diversão com certeza, é a palavra! — já deu para notar minha veia competitiva aflorada, certo? Ri meio contrariada, tentando me conter ao ver o garotinho chutar a canela do irmão. — Kuso. Kutabare!

A partida continuou. Evidentemente, os garotos estavam ignorando meus gritos. Apenas os Blaize, vez ou outra riam verdadeiramente com meus xingamentos. Provavelmente estranhando a língua, claro.

O calor estava me consumindo. Não pelo sol a pino, mas pela agitação interna do meu corpo. Senti as ataduras pinicarem, só então lembrei que ainda estava com a regata molhada sobre o corpo. Isso vai me render um sermão daqueles do tio Peter!

Tirei o tecido pela cabeça, sem qualquer cerimônia, agradecendo ao meu bom senso, por ter colocado um biquíni ao me arrumar na noite anterior. Senti o olhar de Anikka me observar disfarçadamente. Não é como se eu tivesse vergonha do meu corpo, mas senti-me um pouco desconfortável.

Os ônix da noiva de Josh não eram nada, comparados aos demais olhares que, de repente, se voltaram para o meu corpo. Muito bem, eu sabia que minhas marcas criavam certa curiosidade nos civis, e, eu estava minimamente preparada para isso. Entretanto, não foi como eu esperava.

Eu sabia que cochichavam a respeito da linha extensa que corria da costela ao abdômen, do lado direito. Ou, da quantidade de pele morta que formava uma camada grosseira próxima ao seio esquerdo, parcialmente coberta pelo biquíni. Talvez, as mais assustadoras, fossem as cicatrizes que se cruzavam, como teias de aranha, escondidas estrategicamente debaixo das axilas, cintura, costelas, na parte interna dos braços. Aquelas causadas por mim mesma, anos atrás, quando a automutilação havia começado. Grande parte delas, que estavam na parte interna das coxas, eu já havia coberto com tatuagens, porém, apenas três desenhos foram dedicados a parte superior do meu corpo, deixando-o mais exposto aos olhares.

Eu podia sentir os olhos queimando sobre minha pele, ainda mais quentes que os raios solares daquele começo de tarde. Muito que bem, parece-me que sou algum animal exótico que chegou à ilha, certo? Então, nada mais justo do que apreciar, o quanto antes!

— Eca! — uma voz melodiosa soou atrás de mim, vinda da casa dos Blaize. Ignorei-a para seu próprio bem. — Essa coisinha sabe que não somos obrigados a ficar olhando para isso, não é? — Tudo bem, vocês foram testemunhas de que eu estava planejando não me alterar. Mas, não tenho escolha, tenho?

Virei-me pronta para ralhar com a garota. Porém, não era uma garota. Muito pelo contrário, era uma mulher de pele morena, cabelos negros e lisos até a cintura, e os lábios pintados de rubi. Ignore-a Sabine! Certo, eu poderia. Eu deveria! Não fosse o ventre saliente, visivelmente habitado por um serzinho qualquer. Isso, e as mãos entrelaçadas as de Marlon, que posicionou o próprio corpo na frente do da mulher, de forma super protetora.

Senti as pernas bambearem, o estômago revirar, as mãos tremerem, o ar faltar. Voltei minha atenção para a partida. Ou tentei. Vi minha visão ficar turva, e a tontura me sacolejar de leve. Cadê o ar? Onde está o ar? Apoiei-me nas minhas coxas, inclinando-me, tentando puxa-lo de volta pros pulmões.

— ...não é Sabine? — ouvi a voz de Billy me chamando, longe demais para compreender. Tudo o que conseguia ouvir era meus próprios batimentos tamborilando nos tímpanos.

— O que? — forcei-me a olhá-lo. Ele estava com uma expressão preocupada. Colocou uma mão no meu ombro, sério.

— Vamos decidir no pênalti. Você irá entrar no lugar do Noah! — fitei-o confusa. Porque? Pra quê? — Concentre-se no jogo, Bine. Desconte na bola! — ele me deu dois tapinhas, voltando para perto do time.

Tentei me recompor. William estava me dando a chance de me desligar daquele ocorrido. Gesto nobre, porém, não acredito que dará tão certo! Fiquei ereta, respirando fundo.

— Toma, veste isso aqui! — o recruta empurrou a própria camisa nas minhas mãos, desconfiado.

— Pra quê eu quero isso, moleque! — afastei o tecido brutalmente.

— Minha irmã ainda está encarando feio. — ótimo, era tudo o que eu precisava. Mais uma Blaize pra me infernizar a vida! — Não sei até onde vai o teu autocontrole. Mas, odiaria vê-la morrer estrangulada por tuas mãos!

— Ela é uma mulher grávida, Baka! — xinguei empurrando-o pra longe, e puxando a camisa oferecida. Vesti-a mesmo a contragosto. Ele estava mesmo pensando que eu agrediria uma mulher grávida?

Alonguei-me, sentindo meu corpo estalar. Fiz um montinho de areia, e posicionei a bola. Respirei fundo, concentrada. Ignorei os sons externos, a gritaria, os incentivos, os sussurros. Passei o peso do corpo, de uma perna para outra. Concentrei-me nas ondas, no vento, no olhar desafiador do goleiro a minha frente. Calculei o ângulo em que chutaria e, chutei como se aquela esfera fosse a face do melhor amigo do meu irmão.

A bola voou baixo, ao contrário do que o rapaz nas traves esperava. Passou por debaixo das pernas do infeliz. A praia explodiu em gritos e vaias. Vários corpos corriam por todos os lados, esbarrando-se como animais. Senti o cheiro de ferrugem e sal. Porque os gritos não param? Porque ainda correm, do que correm? Minha visão turvou-se, antes de escurecer totalmente.

De novo não. Por favor. Não!

A correria, os gritos, o sangue. A mão que me subia pelas costas. A falta de ar.

Puxei o infeliz, pela mão que pousou na base da minha coluna. Chutei a parte de trás do joelho, fazendo-o cair no chão. Pisei na mão direita, e me abaixei para desferir socos naquela face lívida. Vou tirar esse sorrisinho sádico da tua cara, seu desgraçado!

O primeiro soco atingiu o nariz, fazendo um filete de sangue escorrer. Ouvi-o gritar. Sorri. Quem está gritando agora? Senti mãos me puxarem para longe de Marlon. Me sacudi, tentando me desvencilhar. Ele não vai se safar! Vou torturá-lo, como ele me fez!

— Saia de cima dele, Sabine! — gritou meu irmão atrás de mim. “Até tu, Brutus?” — É o Noah, Bine. — ele me puxou mais forte. — Olha pra mim! — ordenou. Com aquele tom, eu tive que obedecer. — É só o Noah! — fitei aqueles olhos âmbar. Medo. Preocupação. Pavor!

Voltei meu olhar para o corpo debaixo de mim. Billy tinha razão. Aquele não era Marlon. Era o idiota do Blaize. Ele estava estancando o nariz com uma das mãos. Os outros rapazes, o ajudava a se levantar e, consequentemente, me tirar de cima dele.

Me levantei, puxando meu braço com brutalidade, das mãos de Iosha. Ele me olhava com certa condescendência. Não. Pena, seria a palavra correta! Seus olhos voaram para a linha avermelhada que subia pelo meu pescoço, ao lado da queimadura cicatrizada.

—Sabine... — meu irmão começou, mas ignorei, começando a andar pra longe dali.

— Não comece com teu discurso moralista, William. Não estou com humor pra isso, agora! — berrei. Já me viram chamá-lo pelo nome de batismo? Não. Porque só o faço quando estou muito enraivecida. Não com ele, necessariamente.

Quisera eu, poder refrear todas as horripilantes memórias que me inundavam. Porém, estava fora do meu controle. Tudo o que podia fazer era correr, o mais rápido que minhas pernas conseguia. Tamanha a urgência de desaparecer.

Meu estômago embrulhou-se, contorcendo minhas entranhas, assim que pisei na rua asfaltada do bairro seguinte. Me reclinei ao lado de uma árvore qualquer, deixando sair todo o conteúdo do meu órgão. Ou seja, nada! Apenas o suco gástrico de sabor ácido e azedo.

Kuso!

Deus, o Senhor está sendo muito sádico. Espero que esteja se divertindo, arrastando essas inconvenientes peças para perto de mim, no xadrez que se tornou minha vida! Muito engraçado da Tua parte, devo dizer!

Notas finais
EITA!!!! Mais um surto básico de Sabine, só pra provar que ela não está bem, mesmo ela ignorando toda a questão psicológica dela. Ouso dizer que não será o único nem o último surto! O que será que tinha naquele cházinho milagroso de Dona Kwame, uhn? Tiveram algumas coisas nas entrelinhas aqui, quero só ver quem conseguiu pegar! Bine surfando deve ter sido um desastre, né não? E o pirralho do Iago, dissimulado que só ele! Sabine Nakayama é complexa, tanto psico quando fisicamente, percebem? Como vcs reagiriam a uma situação de exposição desse nível? Alguma ideia do porque Bine ter tido um ataque de pânico seguido de um surto? Os Blaize estão começando a dar as caras!!!! Situação meio tensa, mas quando não é em se tratando da Nakayama, certo? Quero saber de vocês, quais as expectativas pro próximo cap? Já adianto que farei um teste de uma coisinha que pretendo colocar ao longo da história! Me deixem saber como estão se sentindo com toda essa bagunça na mente e na vida da Bine? Nos vemos no próximo cap, sim? Kissus' P.s.: Pra quem quiser saber, nossa tenente tem o hábito de xingar em Japonês, mais tarde conto o porquê. Baka: idiota. Gaki: pirralho, fedelho. Kuso: Merda, droga. Kutabare: vá se foder, vá pro inferno, vá se ferrar.