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6 O cap V


Notas iniciais
Hey galerê, td certo? Muito que bem, não tenho muito o que falar aqui hj, exceto: Obrigada AnaChan pelos comentários! No mais, fiquem com o: CAP V...

O nascer do sol era eminente, os raios alaranjados começavam a despontar no fim do horizonte e se espalhar sobre a água gélida, mas, foram impedidos por uma densa nuvem de fumaça que se formava na costa. Havia uma linha tênue que separava a calmaria do amanhecer, do caos estabelecido na praia.

Eu não conseguia me lembrar como tudo começou, apenas, que estava no meio disso. Desci as escadas indo em direção à areia, quando tropecei em algo muito sólido enterrado nesta. Puxei o objeto boquiaberta, tenho certeza que deixei Charlie, o fuzil, no Batalhão há quilômetros de distância. Segurei-o firme contra as costelas.

Ao longe, pude ver aviões caça sobrevoando Two Harbors, aproximando-se perigosamente. Senti o chão tremer, minutos antes do familiar, e torturante, som das bombas chegarem até meus ouvidos. Que grande merda é essa? Porque estamos sendo atacados?

As pessoas corriam de um lado para outro, desnorteadamente. Gritos, confusão, profusão. Não havia uma única alma que eu reconhecesse no meio do caos. Onde estavam os Dixon, o tapado do Blaize, meu irmão? Céus, o único que eu desejava com todas as forças encontrar, era William.

Apertei Charlie com mais força, sentindo a onda de pessoas carregar-me. Um dos aviões passou por cima da minha cabeça, fazendo tudo estremecer ao redor. Corri em direção à minha antiga casa, quando vi-o abrir o compartimento inferior e expelir um dos mísseis. Kuso. A bomba caiu sobre a casa, fazendo-a voar nos ares. Alguns pedaços atingiram-me, me jogando contra o solo com brutalidade.

Senti minha cabeça doer ao bater em um escombro qualquer. Levantei-me desorientada. Todas as casas da costa estavam em pedaços, ou em chamas. Com exceção da residência dos Dixon. Kuso, onde eles se enfiaram?

Choro. Gritos. O cheiro fétido de carne queimada, misturada à maresia. As bombas que ainda eram lançadas em algum lugar em Oyster Bay. A fumaça sufocante.

Caminhei com dificuldade em direção a casa dos Dixon. Pulei alguns escombros das casas vizinhas. Ouvi uma voz conhecida chamar-me por trás. Não pude reconhecê-la, a explosão da casa ao lado havia prejudicado minha audição notoriamente. Virei-me ansiosa. Eu precisava que fosse Billy. Por favor, que seja o idiota do meu irmão.

Pisquei um par de vezes quando a figura surgiu no meio da fuligem. Não era de longe alguém que eu desejasse ver naquele momento. Não agora, por favor, não hoje! Engoli em seco.

— Diga-me que estão todos a salvo, Marlon. Por favor, diga-me que eles estão abrigados em algum lugar longe daqui! — aproximei-me, porém, ele permanecia imóvel. O rosto não estava mais marcado pelas surras da noite anterior. Os olhos estavam negros, o sorriso, amarelo.

— Sinto dizer, que a única que necessita de salvação é você, Menininha! — ele sussurrava. Mirou o céu com um sorriso diabólico.

Ouvi o avião aproximar-se, o solo tremer e, por fim, a casa a minhas costas ser atingida. Fui jogada para frente pelo impacto. Levei mais algum tempo para recompor-me. A dor no joelho direito incomodando. O medo de olhar para trás corroendo-me.

A casa dos Dixon havia sido reduzida a pó. Não consigo distinguir entre ela e as demais. Eram escombros sobre escombros. Corpos sobre corpos. Sangue sobre sangue.

O que aquele desgraçado fez? Qual o jogo?

Senti a respiração quente bater contra minha nuca, provocando-me ondas de enjoo. Uma mão fria e esquelética subiu pela base da minha coluna. Virei-me apontando Charlie com maior precisão.

Ele me sorriu sórdido, antes que sua mão alcançasse minha costela esquerda, adentrando a ferida. Mordi a parte interna das bochechas. Quanto mais afundava os dedos na carne aberta, mais o gosto de ferrugem e sal se espalhava por minha boca. A visão turvou-se pelas lágrimas contidas. Não cederei. A dor era aguda, o ar estava escasso. Porém, já fui torturada par de vezes suficiente para criar certa resistência.

Meus joelhos protestaram ao baterem contra o entulho. Minhas pernas me traíram, e meu pulmão iria pelo mesmo caminho visto que os dedos de Marlon o estavam impedindo de cumprir sua função.

Senti o sangue descer pelo lado do corpo, quando o desgraçado se afundou dentro da minha carne. Ouvi o som de minhas costelas se partindo. Perdi todo o ar que ainda lutava pra manter. A dor aumentou consideravelmente.

Estava difícil de respirar e, caso não o fizesse, desmaiaria e certamente morreria ali. Por isso, juntei toda a força que consegui para puxar o máximo de ar que conseguia. E, gritei. Gritei porque a única imagem que vinha a minha mente, naquele momento, era a de Billy.

Ouvi o som de tijolos e vidro. Vi a fumaça e fuligem dissipar-se, dando lugar para os raios mornos, finalmente, abraçarem a praia. As pessoas haviam sumido, foram-se junto com a nuvem negra. A casa dos Dixon estava completamente intacta. Até o idiota do Blaize estava sentado no deque de sua casa, exercitando-se.

Senti a dor ir-se no momento em que Marlon soltou minhas costelas. Respirei, reclinando-me sobre a areia. Fitei-o incrédula. A satisfação estava estampada no rosto dele, ao encarar as próprias mãos banhadas pelo meu sangue. Sorriu sádico, levando-as ao rosto, tingindo-os de vermelho. A ira estava me consumindo desta vez. Eu queria esmurrá-lo, socá-lo, matá-lo.

Gritei. Gritei. Gritei.

— Sabine? Acorde. — ouvi a voz me chamando de longe. — Acorde, Sabine! — ordenou Billy. Agora o infeliz aparece para me ajudar, não é?

Foi aí, que percebi que havia desmaiado. Levantei-me de um pulo. Olhei ao redor, notando que estava no quarto dos garotos Dixon. Senti o suor frio escorrer por minha nuca e costas. As lágrimas desciam involuntariamente, o gosto de sangue estava lá, na parte interna das bochechas feridas.

— Kuso! — sussurrei com raiva.

— O mesmo pesadelo? — Billy sentou-se ao meu lado na cama. Pelo visto, o senhor psicólogo o fez saber que meus pesadelos voltaram a ser recorrentes.

— Pior! — me limitei a dizer. Não queria dar muitas informações sobre o que vinha me assombrando.

Remexi-me desconfortavelmente sobre o colchão. Algumas noites eram piores do que outras. E, eu não queria me sentir destruída da maneira que estava. Respirei fundo sentindo a dor aguda debaixo da omoplata esquerda. Reflexivamente levei a mão direita ao local, apertando-o com força. Will estava prestes a ralhar comigo, quando ouvimos a batida na porta. Puxei a mão fitando-a com desgosto. Meus dedos estavam tingidos pelo carmesim do meu próprio sangue.

Levantei-me apressada, e adentrei o banheiro conjugado, trancando-o em seguida. Tranquei também a porta que dava para o outro quarto dos garotos. Odeio me senti assim. Fraca e vulnerável.

— Will, está tudo bem? — ouvi Maxi perguntar aos sussurros quando meu irmão abriu a porta do quarto.

— Sim, são apenas pesadelos. Não se preocupem. — afirmou William tentando acalmá-lo.

— Apenas pesadelos? — desta vez foi Iosha quem falou. — Ouvimos os gritos lá do sótão!

— O que está havendo? Porque estão todos fora da cama, há essa hora da madrugada? — pude ouvir Peter sussurrar do lado de fora do quarto.

— O senhor não ouviu? Parecia que alguém estava torturando Sabine!

— São pesadelos decorrentes de uma situação traumática. É perfeitamente natural em soldados. Não se preocupem, Sabine estará bem pela manhã. Agora, vão se deitar! — Peter é médico. Pediatra, mas ainda assim um médico.

— Não consigo imaginar nem um terço do que Sabine viveu. Porque tiveram que quebrá-la dessa forma? — ouvi mais um sussurro, e certa movimentação do lado de fora, quando os garotos voltaram para seus quartos.

— Precisam de alguma ajuda, Will? — Peter voltou a falar calmamente.

— Uma conversa profissional seria de grande ajuda. E, talvez, ela precise trocar os curativos, tio Peter. — ouvi o som abafado da porta fechando-se adentrar o banheiro acompanhado dos passos cautelosos e mais sussurros.

— Os pesadelos estão mais recorrentes e, possivelmente, mais lívidos e realistas. Por vezes acordou machucada, segundo o psicólogo. — abri a torneira, molhando o rosto com a água gelada.

— Talvez, teria sido mais prudente ela tratar das causas físicas e emocionais que as levou aos pesadelos, junto ao psicólogo e psiquiatra! — estou mais sã do que imaginam. E tenho dito!

— Sabine colocou fogo nos relatórios do psicólogo, quando descobriu que ele estava detalhando seus relatos e enviando-os a mamãe! — surpresos? Eu não ficaria, porque do pulso controlador de Janeth pode-se esperar de tudo! — Depois ela recusou-se a ser tratada, sobretudo, por um psiquiatra.

— Compreendo. E, o que pode me dizer a respeito de Sabine necessitar do meu auxilio com curativos? Ela está ferida? — a dor na costela parece tê-lo ouvido!

— Acreditei que ela já havia superado essa fase. Pensei que não fizesse mais essas coisas. — ouvi Billy suspirar derrotado. — Sabine começou a automutilar-se depois do acidente. Foram meses a fio, até que estivesse confortável o suficiente no Batalhão para não ter que fazê-lo. Contudo, pelo que vejo, algo a perturbou profundamente, e, ela retomou os velhos hábitos. — meu irmão é um belo de um bocudo!

Vi a silhueta de Tio Peter aproximar-se por debaixo da porta. Abri-a e afastei-me esperando-o entrar. O patriarca apenas recostou o corpo no batente e olhou-me ternamente. Sorri e recebi seu sorriso de volta. Ele começou a subir as mangas do pijama de listras, na altura dos cotovelos. Estava esperando uma permissão de minha parte.

— Está tudo bem, tio Peter. Não é como se nunca tivesse me suturado, certo? — ele alargou o sorriso, se aproximando para me ajudar com a regata suja de sangue, expondo o ferimento suficientemente para que pudesse examiná-lo.

— Não é um ferimento tão superficial quanto eu esperava! — Peter abriu o armário de remédios acima da pia e retirou a caixa de primeiros socorros. Fui obrigada a fazer uma careta sôfrega ao senti-lo fazer a assepsia.

— Perdi o controle! — tive que admitir, mesmo a contragosto. — Eu não estava pensando o suficiente. Quando vi já estava feito! — vi a agulha curva sendo preparada junto ao alicate de sutura.

— William me contou, vagamente, do que se trata. — segurei-me firme as bordas da pia, quando a sutura iniciou. — Sabe que nunca concordei com a ideia de colocar crianças em um colégio militar, ou, incentivá-las a servir. Não compactuo de qualquer ideal que Nakayama siga, menos ainda, obtenho qualquer simpatia pela pessoa que ela representa, de forma geral. — apertei até que os nós dos meus dedos ficassem brancos. Senti a agulha passar por minha pele mais uma vez. — Terá um amigo em mim, se desejar.

— Parei de me automutilar quando me alistei, e fui para o campo pela primeira vez. Percebi que lá não havia tempo de pensar na culpa, ou na dor que eu sentia. Que a vida de alguém dependia do meu autocontrole. Porém, comecei a me perder, quando os pesadelos recomeçaram, sobretudo, quando me senti manipulada novamente. — resmunguei pela dor. — Odeio o fato de todos terem certo controle sobre a minha vida.

— Sinto por não ter anestesia disponível, desta vez. — ele falava sobre a sutura, mas, veja bem, poderia aplicar-se a minha situação atual de um modo amplo. — Aguente apenas mais um pouco, sim Menininha! — Kuso. Eu estava lutando comigo mesma para esquecer esse maldito pesadelo!

— Já estive em situações piores. E, perdoe-me a licença poética, mas, para quem causou a ferida, a dor da sutura é a menor das preocupações. — sussurrei mordendo a carne da bochecha. Tenho que parar com essa mania urgentemente.

— Pronto! — Peter fez um curativo com algumas bandagens, passou uma pomada cicatrizante e certificou-se de que as suturas estavam firmes o suficiente. Depois, começou a limpar e guardar os instrumentos. — Tuas suturas romperam-se, decorrente de algum esforço que fez. Possivelmente, a viagem de avião tenha contribuído, mesmo que minimamente.

— Já estou nova em folha, tio Peter. E, de qualquer forma, não pretendo correr uma maratona tão cedo! — brinquei, porém ele ainda estava sério demais pro meu gosto.

— Deve cuidar-se, Sabine. Física e emocionalmente. Imagino, e apenas posso imaginar, o quão difícil seja passar pelo que passou, viver o que viveu, ou, como viveu. Entendo que não consiga confiar nas pessoas, porque acredita que todas elas são marionetes da tua mãe. E, infelizmente, algumas realmente o são. Entretanto, é da tua saúde que estamos falando. — Peter virou-se para encarar-me nos olhos, e, somente nesse momento, notei que Will não havia saído de seu lugar na porta. — Permita-se ser cuidada pelas pessoas certas. As que te querem bem e, especialmente as que te amam e precisam de você sã e viva!

O velhote saiu pela porta do banheiro com a mesma calma com que entrou, deixando-me pensativa e William com uma expressão condescendente. Meu irmão saiu do quarto com a desculpa de que não conseguiria pregar o olho novamente, mas, fez questão de certificar que eu deitaria e descansaria. Que bonitinho ele, não?

Bem, agora que estou sozinha, posso ponderar melhor a respeito do pesadelo. Eu queria poder deixá-lo de lado, mas, não era habitual. Meus pesadelos deixaram de ser sobre a guerra tão repentinamente, e isso me assusta profundamente. Nos últimos meses, a única voz que eu conseguia ouvir na minha cabeça, era a de Marlon. Sempre jogando comigo, sempre me torturando, julgando ou culpando.

— Sabine? — ouvi uma voz estrondosa com sotaque peculiar chamar-me pela porta entreaberta. Billy não perdeu o hábito militar de nunca trancar a porta totalmente.

— Sim? Entre! — chamei ajeitando melhor as cobertas sobre o corpo. Anikka passou pela porta com uma bandeja em mãos.

— Joshua pediu-me que a deixasse descansar. Porém, insisti em lhe trazer isso. — ela indicou a bandeja. O aroma de chá impregnou o quarto. — Receita de família. Minha avó fazia para mim quando eu ainda era um broto. Espanta os pesadelos!

— Obrigada! Muito gentil da tua parte. — sorri sem graça, pegando a xícara preferida da Sra Dixon, a qual repousava o chá. Espero que a desavença, nora versus sogra, não se inicie por essa xícara!

— Sabe, és uma mulher de fibra, Sabine! — fitei as opalas negras, que eram seus olhos, incentivando-a a continuar. — Não consigo imaginar o quanto lutou. E, agradeço por tê-lo feito. Não fossem mulheres como você, mulheres como eu não estariam vivas! No entanto, minha avó costumava dizer que, mãos calejadas tendem a não sentir a dor, mesmo que ela exista. — beberiquei do chá sentindo o torpor formigar em minha garganta. — Rigidez em demasia torna-se um defeito.

— “O vento não quebra uma árvore que se dobra” — citei em meu português enferrujado. Sim, cara Anikka, compreendo o que diz!

— Exatamente! — vi-a alargar o sorriso condescendente. — Tente dormir, Sabine. Nos falamos pela manhã. Tenha uma ótima noite!

— Obrigada pelo chá! — foi tudo o que consegui dizer, antes que ela passasse pela porta.

Terminei a bebida, e aconcheguei-me na cama. Fechei os olhos, ouvido minha respiração misturar-se as batidas calmas do meu coração. Era como uma música tocada em um compasso lento, solene e profundo.

Seja lá quais forem os ingredientes usados no chá da família Kwame, eles surtiram efeito eficientemente, fazendo-me esvaziar a mente e sentir-me plenamente relaxada e serena.

Cai no breu acolhedor, e adormeci.

Notas finais
Eae povinho, esse cap foi curtinho né? Caso fiquem confusos. As vezes nosso cérebro manda mensagens enquanto estamos dormindo, pra avisar que há algo de errado com o nosso corpo. Por isso, e pela dor, Sabine sonhou com Marlon e a ferida na costela. ;) Pelo que me parece, daqui em diante as coisas ficarão meio complicadas pro lado da Bine. Na realidade, tá até demorando pra ela surtar né? Deixo aqui essa questão no ar e saio correndo sem dizer se é ou não um possível spoiler! Me deixem saber o que vcs estão achando disso aqui, certo? Vejo vocês no próximo cap! Kissus' CENAS DO PRÓXIMO CAP (pq sou mto boazinha e quero mtos coments aqui okay?) "— Eca! - uma voz melodiosa soou atrás de mim, vinda da casa dos Blaize. Ignorei-a para seu próprio bem. — Essa coisinha sabe que não somos obrigados a ficar olhando para isso, não é? - Tudo bem, vocês foram testemunhas de que eu estava planejando não me alterar. Mas, não tenho escolha, tenho?" "Porque os gritos não param? Porque ainda correm, do que correm? Minha visão turvou-se, antes de escurecer totalmente. De novo não. Por favor. Não!" "— Saia de cima dele, Sabine! - gritou meu irmão atrás de mim. “Até tu, Brutus?” — É o Noah, Bine. - ele me puxou mais forte. — Olha pra mim! - ordenou. Com aquele tom, eu tive que obedecer. — É só o Noah! - fitei aqueles olhos âmbar. Medo. Preocupação. Pavor!"