Amazona
5 O Cap IV
Notas iniciais
O sol já estava prestes a se por, quando os muitos amigos de Nichollas, finalmente, começaram a chegar e tomar conta de toda a extensão da praia pertencente aos Dixon. A maioria deles eram jogadores do time de futebol de Two Harbors ou da faculdade de Avalon, para onde — fiquei sabendo — o caçula irá no final do mês.
Apesar da pouca idade, Collin foi escolhido por um dos olheiros da escola secundária, e agora tinha uma bolsa integral para jogar na faculdade da ilha. O que ouvi dizer, inteiramente merecido uma vez que treinava dia e noite.
Comecei a me sentir ainda mais desconfortável, ao perceber que os garotos Dixon mantiveram o habito do grude em demasia. E, a cada hora diante dessa constatação, mais sufocada ficava por ter que admitir que não pertenço mais a este lugar, como fora outrora.
Em contrapartida, desde que desembarcamos na ilha, Billy não parava de rir e agir de forma engraçada. Agora, meu irmão ajudava Blaize a pendurar algumas luzes no deque da nossa antiga casa. Eu conseguiria enxercar com extrema clareza o garoto que cresceu a beira mar, que jogou futebol com os vizinhos incontáveis vezes, que vivia pregando peças nos amigos. Ele estava genuinamente feliz ali!
— Ele nunca amadurecerá, não é? — começou Maxi puxando assunto. Só então percebi que estava encarando meu irmão por tempo demais.
— O ambiente faz o delinquente! — ponderei divertida, vendo Maxi tomar uma feição horrorizada. Rimos.
— Por outro lado, me parece séria demais! Não está contende em ter sido forçada a voltar, certo? — terminei de enterrar a última tocha no chão, levando algum tempo para pensar a respeito.
— Não me leve a mal, Maxi. Ter que me desligar dos Dixon foi a decisão mais difícil que tomei, em todos esses anos! — revelei sincera. — Entretanto, Marlon... — eu não sabia o que dizer, como dizer, ou se deveria continuar com aquela conversa. — Fui desfibrada em partes incontáveis, Maxi. Nem sei se algum dia estarei inteira novamente!
— Não havia um dia em que não sentíssemos falta de vocês! No início foi bem mais difícil, e se amenizou com o retorno do Will. Ainda assim, continuou não sendo fácil. Você realmente deixou um buraco enorme em nossas vidas, Sabine! — tive que sorrir. Não foi à toa que Maximilliam tornou-se meu melhor amigo, notem.
— Sinto-me profundamente culpada por Billy ter embarcado para Nova York comigo! — revelei meio amarga. Nunca havia contado isso a ninguém exceto aquele psicólogo fajuto do batalhão. Até o momento.
— Will não é bobo, Bine. Ele sabia muito bem o que estava fazendo, e o que estaria renunciando, quando tomou essa decisão. — caminhamos até a beira da água. — Ele estava preocupado com você. Sabia perfeitamente que estaria abalada depois do acidente e de todo o acontecido. Ele agiu como o irmão protetor que sempre foi! Isso diz respeito apenas a quem ele é, e ao seu caráter. Não deve culpar-se!
— Alistar-se é um preço muito alto a ser pago, principalmente, por quem não o deseja fazê-lo. — suspirei pesadamente. — Precisava tê-lo visto quando descobriu que eu havia me alistado para mais alguns anos, sem que ele soubesse. Eu o decepcionei, Maximilliam. — observei a onda vir molhar meus pés descalços. — Decidi servir, mesmo sabendo que aquela não era a vida que ele queria, porque era a única forma de afasta-lo, de libertá-lo para voltar, se assim o desejasse. Eu havia encontrado o meu lugar no mundo, minha vocação, e não poderia pedi-lo que me acompanhasse. Precisei forçá-lo a entender que eu estava bem, e estava apta a seguir sozinha! — voltei minha atenção para o deque dos Blaize. — Eu os afastei. A todos vocês!
— Não foi a única a fazê-lo, Bine! — replicou ele com pesar. — Marlon tornou-se irreconhecível. Sabe, não consigo enxergá-lo genuinamente, quando o vejo! — Vejam só, Maxi é compositor, por vezes ele fala em enigmas, contudo, desta vez eu compreendo o que quer dizer. — Na época do ocorrido, mamãe deixou claro que não moveria um músculo pela causa dele. Que não se mobilizaria para ajudá-lo a pagar os advogados e que, se quisesse, teria que se virar com o advogado cedido pelo tribunal. — arrisquei olhá-lo de soslaio. Sua feição, antes vibrante, agora estava muito séria. — Josh adiou o semestre na faculdade para acompanhar o processo de perto. Contudo, não havia muito a se fazer, considerando a situação. A pena foi de quatro anos, mas, o advogado de Marlon conseguiu diminuir alguns meses. Ele fez-se uma pessoa egoísta, mal-humorada, frígida, desde então. — eu sabia que as consequências seriam catastróficas para todos e, não pude deixar de me sentir ainda mais culpada. — Eu entendo que a cadeia o tenha ensinado lições severas, porém, ele não é o mesmo!
— Sinto muito que as coisas tenham tomado esse rumo! — eu precisava fazê-lo entender que eu não tive escolha. Mas, não havia justificativa, tampouco. — Eu não...
— Não ouse pedir desculpas por algo que não estava sob teu controle, Sabine! Eu entendo perfeitamente os teus motivos. Mais ainda, que Marlon estava caminhando para um futuro perigoso, em muitos sentidos, e levando vocês na bagagem! — ele suspirou longamente antes de continuar. — Depois que a bomba estourou, e Josh ficou à frente da situação, ele nos fez saber que Marlon estava nessa vida a bem mais tempo do que suspeitávamos!
— As escapadas na madrugada sempre quiseram dizer algo, não é? — ouvi-o rir pelo nariz sem humor evidente.
— Nós sabíamos, Bine. No fundo sabíamos. Mas, não estava claro para todos! Mamãe nunca nos deu ouvidos, quando a alertamos sobre as atividades estranhas de Marlon, sobretudo, seu comportamento suspeito. Queríamos confrontá-lo, colocá-lo contra parede, fazê-lo confessar, o que quer que fosse. Porém, ela preferia fechar os olhos e fingir que nada acontecia. Eu conseguia sentir o medo no olhar dela quando dizia que não queria perder o filho!
— Por isso ela me olha com tamanho ódio! — voltei a caminhar de volta para casa. — Coloquei o filho dela atrás das grades, o nome da família na lama...
— Ela não te odeia. Apenas... Você foi quem a forçou a enxergar a verdade, da qual ela tanto se escondia!
— E minha presença na casa dela é, no mínimo, ofensiva! — esclareci.
Voltei a caminhar para a casa dos Dixon, deixando Maxi parado sozinho no meio da praia. Eu não conseguia fingir que a rejeição da matriarca não me afetava profundamente. Eu podia sentir meus nervos em frangalhos.
Parei no meio da escada para o andar superior, notando algumas sombras que dançavam no vidro da porta de entrada. A julgar pela altura das silhuetas, eram dois homens.
Esgueirei-me com certo cuidado para o lado de fora, fechando a porta sem fazer qualquer barulho. Blaize usava a viga de sustentação do deque frontal da casa para exercitar os membros superiores, enquanto Billy observava com ar professoral. Já mencionei que odeio esse lado dele?
Meu irmão colocou as mãos na cintura avaliativo quando o garoto pulou de volta pro chão, produzindo um barulho estrondoso. Porque é que o desmiolado estava sem camisa mesmo? Ah, sim. Saquei tudo quando ouvi os risinhos contidos de quatro garotas, notoriamente mais novas, que estavam sentadas na calçada da casa a frente.
— Acho prudente começar a exercitar os membros inferiores também, ou acabará caindo para trás com o peso dos músculos! — zombei fitando Blaize checar a evolução que a sequência evidentemente não lhe trouxera.
— O mestre acabou de me fazer saber, Tigresa! — lá vem esse garoto com a palavra em espanhol de novo! Olhei para Billy que encarava as garotas do outro lado com olhar galanteador. Credo!
— Mestre?! Ah, agora sim compreendo! Achei que cafetinagem fosse mais lucrativo em Oyster Bay! — zombei fazendo-o engolir o sorriso.
— Não brinque com isso, Sabine! — ameaçou.
— Como não? Está introduzindo o estagiário à libertinagem! — acusei.
— Recruta! — corrigiu o pirralho idiota.
— Novato! — rebateu meu irmão divertidamente, devo dizer.
— Decididamente, seja qual for o codinome, você não passa de um garotinho pervertido, se quer saber! — apontei para o mais novo, que fechou a cara. — Não deveria seguir conselhos improdutivos!
— Só o estou ajudando com os exercícios, Sabine! — riu Billy voltando o olhar para as garotas.
— Acredito! — fitei-o mais séria desta vez. — Faça-me o favor de passar longe daquelas garotas. Sim, Billy? — pedi. — Está velho demais para brincar disso!
— Elas não me parecem preferir os novatos! — meu irmão sorriu escarnecido.
— Não me preocuparia com a preferência delas, se fosse você. E sim, com a idade. — Billy já havia entendido meu ponto, mas, achei necessário me fazer mais clara. — Elas podem ser menores!
— Está dizendo que, da tua parte, há uma preferência pelos novatos, Tigresa? — o que? Se enxerga coisinho!
— Não vai mesmo parar de me chamar de “Tigresa”? — meu espanhol era ruim, mas valia de alguma coisa.
— Sabe falar espanhol? — agora sim, o sem noção parecia estar sem graça!
— Conheço e compreendo muitos idiomas, garotinho! — enfatizei o codinome.
— Touché! — exclamou Will segurando o riso enquanto entrava para vestir-se.
— Entende que não está mais no Batalhão, certo Sabine? Deveria permitir-se relaxar mais, ser menos arisca! — arriscou Blaize sentando-se no degrau.
— Essa é a origem do apelido? — encarei-o séria. Ele ficou temeroso, concordando com um aceno. Dei de ombros permitindo-o acalmar-se. Antes um apelido pela fibra energética com que conduzo as coisas, do que pela aparência, certo?
— Você deveria divertir-se mais, sorrir, entregar-se ao momento, e permitir que ele te guie. — Blaize gesticulava com as mãos fazendo o movimento das ondas. Eu sabia que não seria muito aconselhável dar corda pra esse tipo de gente!
— Cuidado com os anabolizantes, Blaize. — entrei deixando o garoto seguir a vibe dele.
Já era quase sete da noite quando sai do banho. Seria uma árdua missão encontrar algo mais apresentável para usar na festa do Collin. No geral, tudo o que havia dentro da mochila camuflada fazia parte das vestimentas militares. Bufei contrariada, tudo o que podia fazer era caçar algo mais fresco, uma vez que, quase cozinhei aquela tarde usando uma camiseta e calças.
Olhei-me no espelho apreensiva. Estar entre civis — pior ainda conhecidos, que poderiam julgar a minha aparência o tempo inteiro — não era algo com o qual estivesse acostumada. Na realidade, ninguém nunca ligava para esse tipo de infortúnio. Contudo, tratava-se de pessoas com certa importância em minha vida.
Bufei mais uma vez, tentando achar uma forma do meu cabelo cooperar. Eu os havia cortado na altura do pescoço para facilitar a minha vida, mas, os mantinha presos o tempo todo e, agora que estavam soltos, eles eram um verdadeiro caos. Minha pele também não ajudava, horas exposta ao sol sem qualquer cuidado, havia a deixado com uma textura seca e rígida. De fato, minha aparência poderia passar desapercebida, não fosse os músculos aparentes demais para ser aceitável em uma mulher.
Agora, com uma regata branca e shorts, minhas cicatrizes ficavam mais evidentes e, talvez, isso sim fizesse com que mantivessem algum olhar julgador sobre mim durante toda a festa. Mas bem, não é como se eu não tivesse orgulho delas, visto que cada uma carrega alguma história de quem me tornei!
Estava preparada para descer, quando uma pancada descortês foi desferida contra a porta. Estranhei o fato, e caminhei com certa urgência para abri-la e, qual não foi a minha surpresa ao me deparar com Marlon caído no chão.
— Não tente atrapalhar os meus esquemas novamente, Dixon. Ou ganhará bem mais do que apenas uma surra! — um homem estava parado a sua frente, apontando para o loiro. Depois este saiu ante pé desaparecendo pelas escadas.
Voltei minha atenção para o infeliz jogado a meus pés. Marlon sentou-se sem me encarar e cuspiu sangue no local onde o outro homem estivera minutos antes, massageando a maçã do rosto em seguida. Aquilo vai inchar, tenho certeza! Ele percebeu, só então, a minha presença, e que eu o fitava com curiosidade. Levantou-se apressado e saiu.
Desci, não necessariamente atrás dele, e passei pela cozinha. Rebecca Dixon falava ao telefone gesticulando animadamente. Vê a expressividade? Peter, o patriarca de quem os filhos herdaram o senso de humor, conversava socialmente com alguns vizinhos, enquanto sorvia de um copo com conhaque.
A praia estava completamente tomada por jovens e adolescentes. As tochas, que havíamos enterrado ao longo da propriedade dos Dixon pela manhã, iluminavam alguns corpos que dançavam ao som da banda de Maxi. O "Survive", tocava desenvoltamente no deque dos Blaize. Uma onda de corpos parecia mover-se de acordo com os acordes soprados sobre eles. Algo dos anos 80 ou 90, acho.
Esquadrinhei a multidão sem muito interesse, encontrando Billy e Blaize. Esses dois não se largavam não? Francamente! Até quando meu irmão estaria disposto a bancar o babá do novato?
— Festa animada! — um garoto de, no máximo, dezesseis anos, aproximou-se recostando seu corpo magricela sobre a mureta do deque. Qual é, eu tenho algum doce, ou estou cheirando a leite?
— Nota-se! — disse séria. Minha paciência para infantilidade está por um fio filhinho, acho bom não me amolar!
— É mesmo do exército? — ele apontou para minha corrente de identificação dependurada para fora da regada.
— Sim. Alguma queixa civil a ser feita à autoridade presente? — voltei minha atenção para as pessoas dançando. Blaize e Billy já haviam dado no pé.
— Não. Apenas, estou pensando em me alistar quando alcançar a idade! — ele sorriu condescendente. Eu falo, ou vocês falam?
— Aproveite a vida que tem garoto. É um pensamento muito honrado e patriótico, porém, não é uma brincadeira tão divertida quanto parece! É algo a se pensar com muita cautela! — ele pareceu desapontado, mesmo eu notando que o brilho não deixou seus olhos. Decididamente não sei lidar com pirralhos. — Ouça, me expressei mal. Nem tudo é desastrosamente sádico por lá. Contudo, espere amadurecer mais alguns anos para decidir, okay? — ele apenas balançou a cabeça.
Aproveitei a deixa e me esgueirei de volta para casa. Antes que alguma outra criança venha me importunar! Virei o corredor rumo ao banheiro, e alguém esbarrou em mim. Era uma das garotas de mais cedo, que estavam observando meu irmão auxiliar o novato com os exercícios. Ela me encarou assustada num primeiro momento, porém, abaixou o olhar e sorriu dissimulada. Eu ein!
Ignorei. Vai entender o que se passa com essas garotas de hoje em dia. O susto eu até entendo, as pessoas não estão acostumadas com uma mulher de postura firme, olhos desafiadores, cheia de músculos e cicatrizes. Para não mencionar as tatuagens. Mas, o sorrisinho é uma incógnita!
Todavia, tudo ficou evidentemente claro, quando vi o novato saindo do banheiro um tanto corado, para combinar com as roupas desalinhadas e a boca vermelha e inchada.
— Will estava enganado quanto as preferências, se quiser saber! — riu-se pelo nariz.
— Não consigo enxergar um prisma em que essa informação me seria útil! — levantei uma sobrancelha séria. O idiota apenas deu de ombros.
— De qualquer forma, caso encontre teu irmão, faça-o saber que elas são maiores de idade! — apontou-me um dedo acusador.
— Achei que ele estivesse aí dentro, também. Só para ter a certeza de que está fazendo como o instruído! — debochei. Ele ruborizou fortemente e ficou extremamente sem graça, ou reação.
— Não é isso que estamos fazendo. Billy não é disso. Muito pelo contrário, ele me enche o saco para ser mais respeitoso com as garotas. Marlon, por outro lado, é quem me entala de ideias indecentes! — vou ignorar que ele chamou o MEU irmão pelo apelido que somente EU o chamo.
— Seja mais discreto garoto. Ninguém quer saber das tuas desventuras. Eu, menos ainda! — desisti de entrar no banheiro e voltei para o lado de fora. Vai saber o que ele estava fazendo lá dentro, corrompendo a limpeza exagerada da Sra. Dixon.
Ouvi a música começar a cessar, dando lugar a voz sonoramente agradável de Peter. Ele estava no deque vizinho onde, pude ver, a família inteira reunira-se. Inclusive Joshua, o filho mais velho — e gêmeo de Iosha — que acabara de chegar do continente.
— Peço um minuto da atenção de todos, por favor. — Peter sorriu aguardando a balburdia acabar. — Não pretendo demorar-me. Contudo, sinto-me inclinado à um discurso mais do que acalorado esta noite. Como todos sabem, estamos comemorando o aniversário de nosso caçula e, consequentemente, o seu sucesso em ingressar a faculdade. — alguns assovios dos amigos de Collin cortaram o silêncio e todos riram. — Sim, concordo. É motivo suficiente para nos orgulharmos. Todos nós estamos felizes por sua conquista, Nichollas e, sobretudo, por nos ensinar, pela quinta vez, como sermos pais e irmãos! — uma onda de aplausos sequenciou-se, os olhos marejados da Sra Dixon encaravam o filho como quem o visse pela primeira e última vez. Peter abraçou-o forte.
— Também tenho algo a dizer, se não se importam! — desta vez era Josh quem estava com o microfone em mãos. — Querida, pode vir até aqui um instante? — ele chamou uma moça que esteve escondida atrás da família. Ela tinha os cabelos cheio de finas tranças avermelhadas que caiam até a cintura, a pele negra e reluzente, e uma covinha brincava em seu queixo. — Iosha? — o irmão mais velho chamou pelo gêmeo.
— Tudo pronto! — o ruivo de farmácia virou o notebook, que estava em suas mãos, para o casal e apertou um botão qualquer, fazendo a figura de dois negros aparecerem na tela.
— Meu bem, faz tanto tempo que estamos juntos, que sinto como se uma parte de mim não estivesse comigo tempo o suficiente!
— Esse aí sou eu, Josh! — cochichou Iosha, alto o suficiente para todos ouvirem e caírem na gargalhada.
— Contenha-se Iosha, estou em algo importante aqui! — todos se calaram para ouvir o mais velho. — Anikka Kwame, diante da minha família, e possivelmente de toda a ilha.... — nisso ele olhou para as pessoas na praia. — ... e diante dos teus pais, presentes em vídeo chamada direto da Namíbia, graças a tecnologia!
— Pare de enrolação! — preciso dizer que foi Iosha a pronunciar-se?
— Anikka Kwame, desejo que seja minha para o resto de nossas vidas! Quer casar-se comigo? — ele afagou ambas as mãos da negra junto as próprias mãos brancas em demasia, aguardando ansioso pela resposta. Esta, veio em forma de um aceno tímido de cabeça. Toda a praia explodiu em aplausos e assovios. Josh beijou-a apaixonado.
Maxi aproveitou-se da cena, para iniciar um dedilhado suave e envolvente em seu violão, seguido harmoniosamente pelo resto da banda. A música era calma e lenta, os acordes conversavam entre si contando uma história de amor desconhecida. Os jovens que estavam na praia iniciaram uma dança sincronizando-se com as notas.
A família Dixon começou a cumprimentar os noivos e, somente nesse momento, percebi que Marlon não estava entre eles. Procurei desconfiada entre a multidão de corpos. Encontrei o novato dançando com uma garota diferente a qual atracava-se no banheiro minutos antes. Billy, bebia refrigerante enquanto conversava com um rapaz qualquer. Todos estão aqui. Todos, menos Marlon.
Voltei minha atenção para meu irmão, no momento em que ele pausou sua conversa com o rapaz asiático, e rumou até o deque dos Blaize. Curiosamente vi a Sra Dixon balançar as mãos no ar chamando sua atenção. E, quando ele chegou até ela, vi-o ser apresentado a noiva de Josh.
— Enfim, alguém interessante na família que mereça apresentações! — ouvi Marlon suspirar atrás de mim, vindo sabe Deus lá de que buraco!
— Se é o que quer, vá até lá e apresente-se. Ou está esperando virem te buscar? — bufei. Marlon era tão infantil.
— A ele, Rebecca fez questão de chamar! — eu conheço esse tom de voz. Já o ouvi inúmeras vezes quando Billy deixava-o para dar-me alguma atenção. Será que devo lembra-lo que o irmão pelo qual está brigando por atenção, é o meu? — De qualquer forma, se eu me aproximar, ela não fará questão alguma de fazê-la saber que sou irmão do querido “primogênito” dela! — cuspiu o apelido.
— Não foi o “primogênito” em questão, quem trancou um semestre inteiro da faculdade para cuidar dos teus negócios? Não foi ele quem fez de tudo para tirá-lo da prisão o quanto antes? — sinceramente, ele precisava enxergar a injustiça que estava cometendo contra o próprio irmão. Marlon devia muito a Josh.
— Sim, foi. E, foi você quem me colocou lá, se não se recorda. E veja só, estamos todos aqui, reunidos como a grande família feliz que somos. Sem qualquer resquício de que estamos fodidamente quebrados! — ele abriu os braços sorrindo forçadamente com todos os dentes a mostra. A maçã do rosto estava inchada, o olho roxo e o lábio cortado.
— Não estaria nessa situação, se tivesse parado quando eu o instruí a fazê-lo! — eu queria gritar de nervosismo e frustração, mas mantive a foz calma e inalterada. — Estaria em situação pior, e há muito mais tempo, não fosse a insistência de William para não o denunciar pelos assaltos!
— Imagino que devo agradecer imensamente à Janeth, então. Por ter usado toda a sua artimanha para apagar os registros. O que seria da minha humilde vida sem a Janeth — ele começou a alterar a voz. — Aquela víbora peçonhenta...
— Se quiser, posso acrescentar mais alguns xingamentos à tua lista! Contudo, não pode tirar a razão do que digo. Precisávamos parar, Marlon. Estávamos nos afundando, buscando desenfreadamente superar a adrenalina anterior com uma pior. Estávamos caminhando para uma estrada sem volta, enfiados nessa merda até o pescoço!
— Eu tinha razão. — ele sussurrou claramente assustado, como se diante dele estivesse um fantasma. — Transformou-se em uma cópia exata dela. Uma pequena víbora venenosa. Cobra domesticada! — antes que eu pudesse refrear, minha mão voou para o rosto do infeliz. De punho fechado, porque, ele não merecia pouca coisa. Vi-o sangrar pela segunda vez aquele dia.
Ouvi a música baixar consideravelmente, e senti todos os olhares sobre nós. Sacudi a mão para relaxar os músculos manchados pelo sangue de Marlon, que o cuspia no deque.
— Não, ainda! — vi sua expressão mudar-se de furiosa para alívio, quando me encarou nos olhos. — Não é como ela, se escondendo atrás do dinheiro e da influência. Você ainda encara as coisas de frente. — ele riu-se – Espero que ainda haja algo de você ai dentro, Menininha! — ele entrou para a cozinha e desapareceu pela porta da garagem.
Senti que todos haviam prendido a respiração. Até mesmo eu o havia feito. Olhei para a família Dixon, as desculpas na ponta da língua, porém, eles pareciam estar aliviados. A bomba, que explodia sempre que eu e Marlon brigávamos, não era mais tão catastrófica como antigamente, afinal. Todos estavam esperando pelo pior com o nosso convívio, e, por este não ter vindo, imagino que ignorariam o que houve ali.
Fale com o autor