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3 O Cap II


Notas iniciais
Hey galerê, td certo? Muuuuito que bem. Não recebi nenhum comentário até aqui, mas, sei que existe uma ou duas pessoas que leram. Então, por essas e as por vir, postarei O CAP II! Nos vemos nas notas finais!

O tic-tac incessante do relógio em forma de granada ecoava em meus ouvidos, obrigando-me a permanecer acordada. Senti a cabeça martelar, e virei-me, mais uma vez, sob a cama cedida por Maximilliam, buscando uma posição mais confortável. Ou menos desconfortável, o que vier primeiro!

Não estava nos meus planos me demorar na casa da família Dixon, menos ainda dormir nela. Contudo, pareceu-me que os garotos estavam empenhados em garantir que Billy comparecesse à festa de aniversário de Nichollas. Portanto, nada mais eficiente do que fazê-lo não ir embora, para não ter que retornar. Muito inteligente, devo dizer.

Meu corpo protestou, quando me virei mais uma vez, impaciente. Toda vez que ousava fechar os olhos, os pesadelos vinham assombrar-me. Não me subestime, tenho pesadelos praticamente todas as noites desde o acidente. Entretanto, eles nunca foram tão lívidos quanto estavam teimosamente sendo àquela noite.

Pior ainda, foi a onda de dor de cabeça à qual fui acometida após adentrar a casa atrás da senhora Dixon, na noite passada. Eram como choques da realidade. Meu psicólogo diria que é o estresse. Vai saber!

Ainda assim, não pude deixar de me sentir profundamente aliviada, ao perceber que a Sra Dixon era a única presente na casa, no primeiro momento. Eu não suportaria encarar toda a família de uma vez, embora eu tenha dado essa certeza ao meu irmão.

Curiosamente, ou não, a matriarca passara o jantar inteiro ignorando minha presença, e, para mim, aquilo foi melhor do que eu esperava. Não tê-la me encarando e lançando sobre mim aqueles olhos frios, era melhor do que receber qualquer atenção.

Collin e Maxí chegaram algumas horas após o jantar. Nichollas vinha de um treino de futebol, e o irmão o havia dado carona. Foi engraçado vê-los parando estáticos debaixo do portal da sala de jantar, olhando-me como a um fantasma. Ambos estavam tão diferentes do que eu me lembrava. Ora, dez anos se passaram, Collin tinha apenas nove quando o vi pela última vez, e Maxí ainda não era esse jovem excêntrico de hoje em dia.

O caçula já era um rapaz, os cabelos dourados como dos mais velhos, os olhos azuis como os da mãe, mas, mais calorosos. O corpo era atlético, e pude saber mais tarde, que era devido os esportes aos quais praticava. Nichollas seria o atleta da família!

Já Maximilliam, havia mudado, da água para o vinho. Mantinha os cabelos negros, mas, passou a usar piercings, roupas um tanto peculiares, e havia entrado para uma banda. Que grande surpresa não foi a minha, ao ver meu antigo melhor amigo, em seu atual estado de rebeldia incontida.

Ri baixinho, e sem qualquer humor. Minha cabeça latejou novamente e decidi que dormir estava fora de cogitação no momento. Calcei os coturnos, e estiquei os lençóis sobre a cama. Força do hábito, não me julguem!

Desci as escadas com cuidado para não fazer qualquer barulho. Encaminhei-me até a cozinha espantosamente limpa e abri a geladeira em busca de água fria. Recostei-me na bancada polida e permiti que meus olhos se fechassem automaticamente apreciando o silêncio. Ouvi o som das ondas adentrarem pela janela entreaberta e, junto ao som, pude sentir o cheiro inebriante da maresia. Quanta falta eu havia sentido daquele lugar, sem que eu me permitisse dizer?

Abri os olhos e sobressaltei-me, ao ouvir barulhos de passos e batidas vindos da porta que dava para a garagem. Alguns sussurros quase inaudíveis passavam pelas frestas da porta. Boa coisa não podia ser àquela hora da madrugada.

— Não tenho certeza de que isso funcione, cara. Já vi vários filmes onde clipes de papel abrem portas. Mas, acho que o sistema de segurança dos Dixon não vá falhar apenas com isso! — ouvi a voz grave sussurrar próxima a fechadura da porta. Tive que suspirar pesadamente com tamanha inocência, de quem quer que fosse do outro lado.

Observei a sombra brincar por baixo da porta. Tateei meu canivete escondido dentro do coturno, e segurei-o junto ao corpo. Porque, comigo era assim, eu sairia do Batalhão, mas o exercício da função militar não sairia de mim. E tenho dito!

— Não diga asneiras. Continue tentando e não faça tanto barulho. Da última vez a velha quase chamou “os homens”! — era outra voz masculina, mais distante, uns dois metros.

A porta se abriu devagar, e eu aproveitei a deixa para puxar o meliante pelo colarinho, envolvendo-o pelo pescoço, pressionando meu braço contra este e o canivete seguramente do outro lado, mirando a jugular.

— Estava certo, garoto. O sistema de segurança dos Dixon não falha por qualquer coisa! — apertei a lâmina contra sua pele, o suficiente para que o garoto sentisse a frieza do metal.

Pensando melhor, não era um garoto qualquer. Ele era mais alto, uns dez ou quinze centímetros, magro, embora os braços ostentassem músculos, e, a pele fina e perfumada demais pra quem estava prestes a roubar.

— Okay. Vamos manter a calma, Tigresa. — Como é, ele realmente soltou uma palavra em espanhol?— Minha carteira está no bolso direito! — a voz dele era firme, mesmo que eu pudesse ver claramente o suor se acumulando em sua nuca.

— E para que fim eu iria querer a tua carteira, garoto? — ele só podia estar brincado. Afrouxei-o do aperto, permitindo que ele se virasse para que eu o analisasse melhor. Ele vestia-se bem, usava uma jaqueta de couro negro, jeans surradas, porém de marca, e tênis tão brancos quanto a bancada da cozinha da Sra. Dixon. — Tu é um daqueles mauricinhos, não é? Se está buscando adrenalina, eu posso te fazer o favor de arrancar um desses teus dedos, só pra ter uma prova, quando tu contar que conseguiu entrar na residência dos Dixon! Afinal, com dez, um não lhe fará falta! — ameacei mesmo! E ainda levantei o canivete pra fazer valer a minha palavra.

— Eita moça, calma! — outro jovem, mais alto que o primeiro e de cabelos escandalosamente laranja, adentrou a porta da garagem com duas caixas nos braços. Seus olhos aterrorizados iam e vinham de mim, com o canivete apontado para o companheiro, e para o segundo a minha frente. — Ouça, ninguém irá bancar o herói aqui, tudo bem? Mas por favor, pelo amor de Deus, deixe o garoto inteiro, sim? É que ele não é meu! — o quê? Eu quase ri, não fosse a situação em um todo.

— Foi contigo que ele apostou? — tirei o canivete da mira do garoto e apontei para o outro. — Quando é que vão aprender que os Dixon não reforçam a segurança à toa? Não é engraçado se desafiarem à burlá-la apenas por mero capricho, sabiam? — enrijeci o nariz e abaixei o canivete a contragosto. O rapaz de cabelo laranja a minha frente estalou a língua divertido.

— Não ando mais espalhando boatos de que existe uma segurança indecifrável para entrar em casa, Nakayama! Não é do meu feitio, não mais! Já estou desgastado e velho demais para isso! — o rapaz colocou as caixas que trazia em cima do balcão e sorriu divertido. Ele parecia-me mais aliviado do que temeroso, contudo.

— De onde me conhece? — fitei-o sorrir ladino, olhei para o garoto moreno, porém, este parecia mais perdido do que nunca, e, voltei para o alaranjado. Analisando mais precisamente, ele não me era estranho e, devo dizer, sou ótima com fisionomias. Talvez se eu desconsiderasse a cor peculiar dos cabelos...

— Iosha Dixon, minha cara! — ele estendeu-me as mãos sujas de algo, certamente graxa, e sorriu mais largo com meu espanto.

— Santo Deus, Dixon! Que grande merda fez em teu cabelo? - eu sei, eu sei, poderia ter sido mais educada, entretanto, a surpresa impediu meu cérebro de oxigenar. Eu estava preparada para encontrar um Iosha diferente, mas nem tanto.

O Iosha Dixon ao qual estava acostumada era magricela, cabelo loiro... Todavia, o homem a minha frente era um completo selvagem, com a licença da palavra, é claro. Não apenas os cabelos estavam diferentes, mas todo o seu corpo mudara; uma coleção de músculos estava espalhada por ele. Ossos do ofício, eu diria, reconheço trabalho duro de longe. Uma costeleta ruiva e espessa acompanhada por uma barba loira, prosseguia pelo maxilar e queixo.

Algumas tatuagens visíveis pelos braços sujos. Bem, ironicamente falando, a única coisa que o denunciaria, seriam os olhos expressivos iguais aos da mãe. O homem gargalhou meio contido, e deu de ombros, não respondendo a minha pergunta que, nem eu mesma responderia, sinceramente.

— Teu amiguinho quase perdeu os dedos, devo lembrar! O que o fez querer arrombar a própria casa? — contenha-se Sabine, não é da tua conta!

— O que?! OS dedoS, no plural? — o moreno sibilou de olhos arregalados, encarando-me incrédulo. — Prometeu arrancar UM dos meus dedos. Não cumpriria com tua palavra?

— Um dedo, dois dedos... Quem está contando? — dei de ombros sorrindo. Porque, sim, eu sei ser sádica também.

— Havia me esquecido dessa tua bravura, Nakayama! — Iosha não parava de sorrir divertindo-se com a situação. Eu não riria se soubesse que falava sério sobre tirar um dos dedos do garoto.— Respondendo a tua pergunta, eu esqueci minha chave na oficina. Mamãe pediu pra que eu trouxesse esses engradados pra festa.

— Então, você é a famosa Sabine Nakayama?!- o rapaz moreno aproximou-se, quando percebeu que já seria seguro. Mal sabe, coitado!

— Segundo Tenente Nakayama, para você! — tentei sorrir, e apertei a mão que ele me estendeu. Essa é minha maneira de ser simpática e receptiva, se querem saber.— E você, é o famoso quem?

— Noah Blaize, o dono da tua antiga casa! — ele sorriu não intimidando-se com a mão praticamente esmagada pelo aperto da minha.

— Tua família foi a felizarda por comprar o covil Nakayama? Boa sorte e, meus pêsames, então! — voltei para a geladeira em busca de mais um copo de água.

— O que faz acordada às quatro da manhã, Sabine? — questionou o tal Noah. Suspirei impaciente. Já notaram que adorei esse moleque, não é?

— Tenho patente, idade, e permissão para estar de pé a essa hora. Devo perguntar se tem o mesmo? Ou, ao menos, uma autorização dos responsáveis? — levantei uma sobrancelha questionadora, me apoiando sobre os cotovelos na bancada, e o sem noção apenas sorriu. Okay, tática número dois.— Primeira chamada do Batalhão, troca de turno do acampamento, primeira sessão de bombas no Vietnã... — fui enumerando e dei de ombros. — Força do hábito. Vulgo, ou levanta, ou morre!

— Fico feliz que tenha voltado inteira, Nakayama. E, sobretudo, por ter retornado mais sã e menos tenebrosamente sádica! — o ruivo falsificado riu com gosto.

— Vai mesmo ficar de papo com a donzela, e me deixar carregar todas essas caixas, Iosha? — outra voz passou pela porta aberta e adentrou a cozinha.

— Algum outro amigo noturno que, coincidentemente, tenha comprado mais uma das residências Nakayama? — debochei.

— Marlon? Não, no momento ele está bem longe de ser noturno, Tigresa! — Blaize riu de alguma piada interna e foi se sentar na cadeira ao lado da porta de vidro que dava para a praia.

— Se ele não colocar o sono em dia enquanto há tempo, não poderá fazê-lo daqui uns meses. — Iosha saiu para a garagem e eu pude ouvir seus passos ecoando até a porta de entrada.

Continuei fitando Noah, descaradamente. Não que houvesse gostado da visão, muito pelo contrário, o garotinho ali não tinha nada de excepcional. Contudo, se desviasse o olhar, temia ter que encarar o motivo de todos os meus pesadelos mais sombrios. A dor debaixo das costelas aumentou consideravelmente, e eu podia sentir cada músculo do meu corpo se enrijecer e paralisar. Ainda havia ar para sugar, eu ainda sabia respirar? Não poderia dizer!

Avistei algumas caixas passarem flutuando pela porta carregada por mãos invisíveis atrás delas. Iosha depositou-as no chão ao lado de Noah e me encarou temeroso. Não havíamos nos falado ou despedido após o acidente, eu não tive tempo ou coragem para fazê-lo. E, agora, eu não poderia dimensionar o quanto ele sabia sobre mim ou sobre o próprio ocorrido. Entretanto, eu via estampado em seus expressivos olhos, o medo pelo reencontro que estava prestes a presenciar. Seu irmão mais novo ficaria frente a frente, com a garota responsável por colocá-lo na cadeia.

Marlon adentrou a cozinha com mais algumas caixas empilhadas até o queixo, depositou-as em cima das que o irmão havia deixado ao lado de Noah e deu um soco de leve no ombro deste, sorrindo em seguida. O paspalho retribuiu o cumprimento com uma careta fingida de dor enquanto massageava o ombro atingido. Eu estava achando tudo aquilo muito patético, é claro, porém, precisei lutar para não desviar o olhar do rapaz que acabara de conhecer, e olhar para a figura do passado que me assombrava anos a fio.

Olhos nos olhos. Verde no Cinza.

Senti meu estômago embrulhar-se e, mesmo que não quisesse, fui obrigada a me lembrar da primeira vez que tive aqueles olhos frios sobre os meus. Marlon pôde — e ouso dizer que ainda pode — ler-me por inteira através deles.

Permita-me introduzi-los a tal fatídico.

“Fora num verão, e disto nuca me esqueço. O sol estava mais forte do que nunca e queimava nossa pele através da capota aberta do jipe 4x4 que, misteriosamente, Josh havia emprestado ao irmão mais novo.

A estrada pela qual viajávamos era pouco movimentada, mal passavam-se veículos. Uma montanha íngreme cercava a direita da estrada forçando-a a tomar a forma de perigosas curvas. Um penhasco jazia à esquerda e apenas algumas árvores e rochas cobertas por lodo separavam o jjipe do que habitava o silêncio abaixo.

Muitas horas depois, Marlon estacionou o automóvel e desceu com um sorriso presunçoso nos lábios. Haviam semanas que o infeliz nos importunava com uma história muito duvidosa sobre um "paraíso particular". Segundo ele, tratava-se de uma certa praia privada que descobrira em uma das suas escapadas para Avalon. Ninguém nunca ouvira falar do lugar, como é que poderíamos dar crédito a um desmiolado daqueles? Dado ponto, até mesmo William começou a duvidar da existência de tal refúgio. Depois de muito insistir e prometer que faríamos sigilo, Marlon concordou em levar-nos ao local onde se escondia quando não queria contato com a família.

Olhei para o meio do nada, desconfiada. Bem ao longe podia-se ver algumas frestas de água marinha por entre as muitas rochas do penhasco. William sorria frenético, a pontinha de incredulidade que havia nele, desapareceu como fumaça e deu lugar à uma agitação que contagiou Marlon. Ótimo, era só o que faltava, dois desajuizados!

— Te fiz saber que não haviam motivos pra ele mentir! — acusou Will fitando-me divertido.

— Mentir é o que ele faz de melhor, Billy. Sobretudo para nós. E, veja, ainda não chegamos ao lugar. Tenho muito a considerar. Quando chegarmos lá, e se chegarmos inteiros, possa ser que haja pedido de desculpas da minha parte. Do contrário, prefiro me abster de certas empolgações, obrigada! — falei ainda incrédula. Marlon olhou-me com certo interesse. Não o culpo, não sou do tipo que peço desculpas, principalmente a ele. E, acreditem, meu sangue gelou ao constatar que, agora sim, ele faria de tudo para provar ter dito a verdade.

O loiro pegou sua prancha de surf no jipe, andou mais alguns metros até uma fenda estreita entre duas rochas muito altas, afastando alguns galhos que escondiam estrategicamente a entrada para o paraíso e adentrou-a. Will, não preciso nem dizer, seguiu-o cegamente. E eu, bem, já comentei que cautela é meu segundo nome, não é? Pegamos cada qual sua própria prancha, e passamos pela fenda com alguma dificuldade.

A mãe natureza fizera um belo trabalho naquela parte da ilha, não nego. As rochas que se amontoaram ao longo dos anos formando o grande penhasco abaixo, estavam organizadas de forma a manter um espaço entre elas, como um pequeno desfiladeiro. A água salgada que escorria pelos grandes paredões de pedra possibilitaram a abertura de novos caminhos, mais íngremes e largos. Algumas plantas parasitoides surgiam no meio de uma rocha ou outra, entre musgo, lodo e água.

Alguns minutos foram o suficiente para que percorrêssemos todo o caminho até chegarmos a base do penhasco. As pranchas estavam com a tintura lascada em alguns pontos devido ao choque contra o paredão. Nada que eu não pudesse cobrar de Marlon, mais tarde. Uma gruta escura e torta se formava onde deveria ser o fim da trilha de pedregulhos. O eco dos passos e o som das ondas batendo contra a montanha saíam como uma música natural. Se toda história do paraíso não fosse real, eu daria o braço a torcer e diria que aquele lugar já era mais do que eu esperava.

Marlon, que ia à frente durante todo o percurso, jogou sua prancha para dentro da gruta, que media pouco mais de um metro de altura, e sentou-se jogando as pernas para dentro também.

— Cuidado com a cabeça! — ele sorriu e escorregou para a escuridão. Pude ouvir o som de um corpo batendo contra a água e, sem demora, Will correu para acompanhar o mongoloide do melhor amigo.

— Já passou pela tua cabeça, que ele pode estar premeditando a nossa morte? — murmurei. Mas, já sabem, Billy não deu bola e se foi. Agachei para observar os contornos do meu irmão e Marlon flutuando sobre suas pranchas no que parecia um lago natural.

Respirei fundo, pedindo a Deus que meu comentário anterior não fosse alguma premonição, e despachei minha prancha pulando em seguida. Poucos segundos passaram-se até eu sentir a água gelada contra meu corpo. Ainda debaixo da água, pude ver alguns raios solares invadirem a pequena caverna. Aquela sensação era revigorante, o modo como os raios adentravam, passavam pela água e, por fim, chegavam até mim, davam-me algum tipo alívio. Paz. Plenitude.

Evidentemente, meus pulmões começaram a arder e o ar se fez necessário. Emergi e observei melhor enquanto meu irmão e o melhor amigo contornavam uma grande rocha e rumavam para fora da "toca".

O sol machucou meus olhos quando eles, finalmente, tomaram o mundo para si. O percurso entre o paredão não era tão bem iluminado e a gruta que acabávamos de deixar para trás era tão escura quanto. Esperei até que meus olhos se acostumarem com a luz, e observei o lugar com mais atenção.

A saída da caverna dava para o "mar aberto", a água verde e cristalina refletia-se ao encontro dos raios solares, alguns peixes coloridos e recifes de corais davam ainda mais beleza ao mar. A direita podia avistar o amontoado de pedras e árvores que, presumidamente, seria o paredão por onde acabamos de passar. Os sedimentos que saíam da água, continuavam até alguns quilômetros mais adiante onde, uma praia de seixos multicoloridos, margeavam-nos.

Marlon remou, deitado sobre a prancha, até a praia com William, boquiaberto, em seus calcanhares. Enfim, o paraíso agora nos pertencia, de alguma forma. Afundei a prancha nos seixos, assim que alcancei a costa, e sentei observando o mar. Fitei Billy ao longe. O sol projetava luzes alaranjadas em seu rosto, sua expressão era serena e calma, algo raro, único! Ele sentou-se ao meu lado e permaneceu em silêncio. Aquele lugar era muito parecido com a casa do Oji-san, no Hawaii, e ambos sabíamos que era impossível não sentir falta dele, numa praia como aquela.

— Não me deixará em paz, enquanto não ouvir eu me desculpar com teu amiguinho, não é? — arrisquei sem encará-lo.

— Não são minhas as palavras. Se a consciência manda... — defendeu-se ele, olhando de esguelha para Marlon que tentava inutilmente fazer uma fogueira mais para longe da água.

Levantei-me impaciente e respirei fundo, olhando de Billy para Marlon. Kuso. Respirei fundo novamente, fechei os olhos e me permiti respirar fundo uma última vez antes de caminhar rumo ao projeto de fogueira e seu executor.

O loiro assustou-se com minha aparição repentina. Parei ao seu lado, pegando, com certa brutalidade, os dois seixos das mãos sardentas do melhor amigo de meu irmão, e joguei-os contra o paredão que formava um grande "U" a nossas costas. Os seixos se partiram, como esperado, e resgatei-os impaciente. Não me julguem, era oito, ou oitenta, quando se tratava de Marlon e minha digníssima pessoa! Caminhei até as folhas que ele juntara para queimar e fiz o que se esperava que ele já tivesse feito: acendi a fogueira!

Bufei sentindo-me contrariada. Encarei-o. Olhos nos olhos. Eu não queria admitir, dar o braço a torcer e, por assim dizer, perder a razão para Marlon. Entretanto, eu era uma garota de palavra, não daria para trás agora.

Ondas de choque começaram percorrer meu corpo, e as pontas dos dedos formigaram, quando ele me encarou de volta, tão profundamente. Senti-me exposta, desprotegida e nua! Estava me sentindo desconfortavelmente analisada, mas, tudo que o desgraçado fez, foi sorrir ladino e dar-me as costas para ir embora.

— Desculpas devidamente recebidas, olhos de Tigre! — mesmo de costas para mim, pude ouvir o riso baixo de puro escárnio. O loiro apenas continuou caminhando rumo ao mar e molhou os pés, não dando-me crédito.

Verde no Cinza. Cinza como chumbo. Como uma tempestade turbulenta que fazia minhas emoções e sanidade ir de encontro umas contra as outras. Me destruía, me desnudava, me esmagava.”

Agora, eu estava sentindo-me exatamente da mesma forma. Exatamente como na primeira vez. Inteiramente decifrada. E, mesmo que eu me forçasse a desviar-me daqueles orbes, algo me prendia no oceano cinzento. Curiosidade, remorso, medo, culpa. Quem poderia me dizer?

Notas finais
Voilá!!! O que acharam? Marlon finalmente apareceu. Não como todos esperavam, mas, apareceu! O que esperam pro próximo CAP? Será que vai ser só "tiro, porrada e bomba", ou vai rolar umas tremedeiras, desmaio, confissões? (Pq vcs sabem, Sabine é explosiva e intempestiva, mas, ela está instável emocional e psicologicamente. Então... Podemos esperar de tudo, certo?) E, quanto a Noah pé-no-saco Blaize, e Iosha o-lenhador Dixon? Qual vcs gostaram mais? Já têm opinião formada sobre eles? Deixem-me saber! E lembrem-se, aqui é tudo por diversão, mas, é bom saber oq ue vcs estão pensando! Vejo vocês no CAP III. Até lá! Kissus!