Amaterasu
36 Capítulo 35
Notas iniciais
Toská, Rússia
03 de setembro de 2016
08:36 A.M.
— Tem certeza disso? – Perguntou Shikamaru.
— Me incomoda ficar aqui. – Respondeu Boruto. – Toská me traz muitas lembranças boas e ruins, vou acabar ficando depressivo.
— Mas e o seu pai?
— Se pudesse eu o traria comigo, ele não vai melhorar aqui, penso eu. – Abaixou o olhar. – Mas ele não se entregou...
— Talvez não tenha visto. – Tentou confortar o adolescente. – Vamos continuar transmitindo.
— Tenho medo do que pode acontecer a ele. – Suspirou. – E aos Uchiha.
— Por que não foi visitá-la? – O loiro o olhou. – Sua ex.
— O que eu poderia fazer por ela? – Indagou sinceramente. – Meu pai foi atrás dela porque acredita que foram os Uchiha quem destruiu a nossa família. E se ela se sentir culpada ao me ver?
— Mas não foram eles, a polícia comprovou naquele julgamento.
— Mas também não foi o meu pai. – Replicou. – Enfim, me disseram que ela foi torturada fisicamente, nada impede de ter sido psicológica também.
O delegado ficou calado e o Uzumaki percebeu isso. Acabou se preocupando.
— Sério?
— Sinto muito. – Lamentou o moreno. – O psicólogo dela diz que ela não conversa nem com os pais. – Shikamaru percebeu o garoto engolir em seco. – Talvez ela se abra para você.
— Ou se retraia mais. – Suspirou. – Prefiro não arriscar.
“Passageiros do voo SU 6621, dirijam-se ao portão de número oito.”
A mensagem se repetiu em inglês.
— Eu tenho que ir. – Ajeitou a mochila em suas costas. – Se encontrar o meu pai, me ligue assim que puder.
— Se cuida. – Deu uma tapinha amigável no ombro do Uzumaki.
— Você também. – Deu as costas e partiu.
[...]
Toská, Rússia
03 de setembro de 2016
09:11 A.M.
Era uma manhã com uma temperatura agradável de 22°C. A grama estava verde e as flores muito belas, mas os sinais do outono já começavam a aparecer.
Pequenas aves ciscavam algo no chão, enquanto algumas pessoas passavam acompanhadas de alguma enfermeira ou enfermeiro.
Sasuke estava sentado num banco de madeira e com um copo descartável com água na mão. Estava pensativo, perdido em si mesmo.
Sua filha está viva, mas se sentia incapaz de fazer algo por ela. Ela perdeu o brilho no olhar, o sorriso... Já não é mais a mesma.
Bebeu o conteúdo do copo de uma vez só e jogou numa lata de lixo próxima. Acabou errando. Lançar coisas com um braço que não está habituado a usar pode resultar em desvios.
Um homem maduro se agachou para pegar o copo e o jogou na lixeira. Só então, depois disso, que Sasuke percebeu que era o seu pai.
— Madara. – O cumprimentou sem muita empolgação.
— Eu fui ao quarto da Sarada. – Se assentou ao lado do filho. – Sinto muito por isso.
— Ela vai sair dessa. – Riu sem humor.
— Sasuke. – Tocou no ombro do Uchiha. – Tudo bem mostrar fraqueza, ninguém é de ferro.
O moreno abaixou a cabeça e pôs suas mãos na face. Era frustrante.
— O que eu faço? – Indagou. – Faria tudo por ela, tudo mesmo.
— Seja um pai para ela. – O abraçou. – Ela precisa de amparo mais do que tudo agora.
— Eu não quero perdê-la.
— Não vai.
O Uchiha mais novo conteve o choro e permaneceu um bom tempo em silêncio nos braços do pai.
— Madara... – Se afastou um pouco e o olhou. – E o Naruto?
— A polícia não o encontrou. – Suspirou. – E eu tenho que observar todos os movimentos do Fugaku.
— Ainda acha que foi ele quem o soltou?
— Não vejo mais quem poderia ser.
— E os Hyuuga?
— Eles o colocaram no sanatório, não faz sentido. – Encostou as costas e cruzou as pernas.
Sasuke tinha de concordar. Não sabia dizer se gostaria ou não que fosse Fugaku, afinal, ele é o avô de criação da Sarada. Realmente não se importava com ela?
— Fugaku já amou alguém? – Perguntou.
— Já. – Sasuke o olhou surpreso. – O dinheiro e ele mesmo. Ainda ama, eu diria.
— E o Itachi?
— Ele só queria um herdeiro e ficou feliz com isso, mas amar... Nunca. – Olhou para o filho. – Isso te faz sentir como? Feliz? Triste?
— Não me faz sentir nada. – Observou as pessoas enfermas passando pela sua frente. – Só lamento pela minha filha que foi iludida por ele.
— Não acha que já está na hora de fazer alguma coisa, Sasuke? – Falou em baixo tom. – Diversas vezes ele atentou contra sua vida por meio de terceiros, então nunca fiz nada contra ele, o que é o meu maior erro. – Respirou fundo. – Eu falhei com você, não falhe com a Sarada.
— Mas eu não tenho certeza se foi ele ou não. – Hesitou.
— E todas as vezes que ele pôs a vida dela e da Haruno em risco, isso não conta?
— É claro que conta.
— Então não espere acontecer mais uma para agir.
— Mas o que eu posso fazer? Ir agora à casa dele e matá-lo? – Disse de maneira retórica. – Seria imprudente demais, ainda mais agora que a nossa família está envolvida com essa parada do Naruto.
— Lembra-se da nossa última conversa sobre ele? – Inclinou a cabeça para trás e olhou para o céu com poucas nuvens.
— Sobre que já era a hora de eu aprender mais sobre Fugaku. – Madara assentiu.
— Eu te contei sobre a história da Amaterasu, mesmo que você já soubesse, e sobre como isso influenciou na vida do meu primo. – Olhou fixamente para o filho. – Fugaku é insubmisso, odeia receber ordens e consequentemente, se sentir inferiorizado.
— Ele se sente inferior a você.
— E a você. – Sasuke fez um gesto para que o Uchiha continuasse, alegando que se lembrava. – Falei que ele não iria parar até que você e eu fôssemos eliminados, e ele não se importa em usar até mesmo a neta contra você. Minha sugestão é a seguinte...
[...]
Toská, Rússia
03 de setembro de 2016
09:23 A.M.
Madara havia ficado por pouco tempo no quarto de Sarada, logo saiu para falar com Sasuke. Estava preocupado com a neta e ficou aliviado quando Mikoto contou que a adolescente saíra da UTI. O Uchiha foi vê-la e sentiu um aperto no coração, visto que Sarada perdera o brilho no olhar que sempre tivera desde criança.
Mesmo fora de perigo, Sarada morria aos poucos.
Sakura observava a menina que apenas fitava o teto. Nem havia dado atenção para o homem que há pouquíssimos minutos havia lhe feito uma visita.
Era como se nada existisse aos olhos dela. Sarada já não era mais a mesma e tudo só piorou desde a crise que teve na UTI.
Pela quarta vez em menos de uma hora, sarada apertava a mão. Dez vezes seguidas. Era como uma espécie de TOC, ela repetia a sequência desde a crise e olhava para frente como se procurasse algo ou alguém.
— Filha? – Chamou, mas Sarada não a olhou. – Sarada, fala comigo.
Talvez tenha sido por isso que Sasuke saiu um pouco do quarto. Há dias Sasuke e Sakura sequer dormiam em casa, queriam estar sempre ao lado da filha. Contraditoriamente, era terrível ficar ao lado dela. Era doloroso vê-la em tal situação, ainda mais porque ela não falava com eles.
— Falar o que? – A morena desviou seu olhar para a mãe. – O que você quer falar, Sakura? Não há nada pra falar...
— Você... – Suspirou. – Os psicólogos do hospital não estão adiantando de nada.
— Por que adiantariam? Vão mudar o que aconteceu?
— Sarada, a médica te disse que você tem chances de voltar a andar. Seja confiante, tudo vai...
— Não é disso que eu estou falando, Sakura. – Interrompeu a menina. – Minha condição física é o de menos agora.
— Como? – Uniu as sobrancelhas, nitidamente confusa.
— Mesmo que eu volte a andar como antes, isso não vai apagar o que aconteceu... – Fechou os olhos por alguns segundos. – Não vai me fazer esquecer o que eu fiz com a família do Boruto... Nem o que o Naruto fez comigo.
Sakura empalideceu na hora. Sabia muito bem do que a filha falava e isso só reforçava sua ideia de que Sarada havia se lembrado do que aconteceu na oficina.
— Ele não vai mais te machucar. – Sakura passou a mão pelos cabelos da filha. – A polícia vai pegar o Naruto, não se preocupe.
— Eu mereci... – Falou angustiada. – Sakura, eu sou uma assassina.
— Não...
— Por minha causa a família do rapaz que eu amo foi destruída. – A adolescente deixou suas lágrimas caírem. – A Karin era uma pessoa maravilhosa, divertida e sempre de bem com a vida. Hinata era um doce de pessoa, sempre simpática. A Himawari... – Soluçou. – Ela era uma criança linda, com a vida toda pela frente. Ela me adorava e eu a adorava... – Sarada passou as costas da mão pelo rosto, enxugando as grossas lágrimas que caíam. – Elas três... Elas eram inocentes, não mereciam morrer por nossa causa. Os Uchiha são criminosos. Eu sou uma criminosa. Eu deveria ter morrido, não elas.
— Sarada... Por favor, não diga bobagens.
— É muita hipocrisia da minha parte querer ser médica. Eu não mereço essa chance. Eu estou pagando pelo que fiz.
Em partes ela tinha razão e Sakura até tinha que concordar. Sarada já matou uma pessoa e já trabalhou numa máfia. Ela optou por isso, assim como Sasuke.
Todavia, as circunstâncias a levaram a querer tomar esse caminho obscuro. Sarada fora manipulada, era uma vítima.
— Você foi usada pelo Fugaku. – Disse Sakura. – Você não teve culpa.
— Não, não. – Insistiu. – Se eu tivesse escutado meu pai... – Lamentou-se. – Por causa da minha teimosia ele perdeu um braço.
— Sasuke não se importa com isso.
— Como não se importa? – Alterou seu tom de voz. – Qualquer ser humano se importaria.
— Ter você viva é mais importante para o Sasuke do que o braço dele.
— Eu não mereço isso. Não mereço essa chance. – Fungou.
— Filha, por favor, se acalme. – Sakura começava a se desesperar, embora não pudesse deixar isso transparecer.
— Eu mereço tudo que o Naruto fez comigo...
— Você... – A mulher engoliu seco. – Você se lembra do que aconteceu?
Sarada hesitou por uns segundos. Respirou fundo e prosseguiu.
— Ele me chamou de assassina. Ele torceu meu pé para que eu não corresse... – Apertou a mão e contou até dez, olhou para frente. Aquilo a acalmava. – Ele falou que as mortes das três foram minha culpa... E ele estava certo. Ele falou que ia fazer o mesmo com o papai, disse que mataria nós duas. Ele quebrou minhas costelas me chutando.
O olhar de Sarada estava desfocado, parara de chorar.
— Chega. – A rosada a interrompeu. Não aguentava ouvir aquilo. Não queria que Sarada revivesse tudo. – Eu não quero... – Suspirou. – Eu não quero mais saber.
— “A morte é pouco para você...”, ele disse. – Ignorou o pedido da mãe. – Ele me machucou com uma faca de ostras... – Apertou os lábios e olhou para a mão com os dedos esfolados, não estava mais enfaixada e suas unhas cresciam de novo, porém irregulares. – Ele me fez umas perguntas e me machucava quando eu não respondia.
— Sarada... Para... Você não precisa me contar, eu sei que dói em você e...
— Você queria que eu falasse algo, então escute! – Esbravejou e logo seu semblante entristeceu. – Ele disse que tinha uma bomba onde você estava... Na fazenda do vovô.
Sakura franziu o cenho. Sarada não sabia que elas estavam juntas?
— Eu não estava na fazenda, Sarada. Eu estava na oficina, junto com você. – Abaixou a cabeça, envergonhada. Estava lá e não fez nada.
— Você estava lá? – Indagou e Sakura afirmou. – Você viu tudo? Você não fez nada?
— Eu desmaiei depois do aborto, não consegui me manter acordada. – Respondeu em um fio de voz.
Sarada sentiu um nó na garganta ao ouvir falar da morte de sua irmã que sequer teve a chance de nascer.
— Ele atirou em mim depois disso, quando o papai chegou, na minha cabeça e no ombro. O papai me pegou nos braços, disse que eu ficaria bem e eu vi o Naruto atrás dele com um cutelo... Então eu apaguei. – Pousou a mão direita sobre a barriga, no local onde levara o tiro. – Não me lembro desse tiro... Apenas acordei sem sentir minhas pernas.
— Você vai superar, Sarada. Nós vamos te ajudar.
— Eu não quero mais viver... – Sarada falou quase como um sussurro.
Sakura achou que tivesse ouvido errado... Desejou ter ouvido errado.
— Como? – Questionou. – O que você disse, Sarada?
— Sakura, você me ama?
— Mais do que a mim mesma. Você sabe disso.
— Então faça algo por mim... Você e o meu pai.
— Sarada, você sabe que seu pai e eu faríamos qualquer coisa por você. – A menina, chorosa, assentiu. – O que você quer?
— Eutanásia.
Sakura arregalou os grandes olhos verdes, seu coração parecia querer sair pela boca. Sentiu o quarto girar por um momento, não conseguia crer no que acabara de ouvir.
— Eu não... Eu não entendi. – Falou com a voz fraca.
— Você entendeu, Sakura. E não, você não faria qualquer coisa por mim.
— Isso não, Sarada. – A mulher aumentou um pouco o tom de voz. – É loucura, sem falar que é ilegal aqui na Rússia.
— Vamos para a Suíça... Holanda...
— Holanda?
Esse país trazia péssimas lembranças para Sakura. Foi a pior época de sua vida e ela não conseguia crer que sua filha queria ir para lá com a intenção de colocar um fim na própria vida.
— Qualquer país onde eutanásia ou suicídio assistido seja legal.
— Suicídio assistido... – Sakura pronunciou com dificuldade tais palavras. – Não. Sarada, não.
— Sakura, eu não tenho mais motivos pra viver. Não é pela minha condição física...
Agora Sakura tinha uma noção da proporção que aquilo tudo tinha tomado. Naruto torturou sua filha de tal modo que ela estava implorando para morrer.
— Sarada, nós ficamos tão felizes por você estar viva e fora de perigo. Como você simplesmente ignora isso e pede pra morrer?
— Você é egoísta, Sakura. – Falou simplesmente. – Eu não estou feliz. Meu coração está batendo, mas eu já não estou mais viva... Então por que não permitir que meu coração pare de bater?
— Chega, eu não quero mais ouvir essas besteiras! – Falou com a voz firme. – Eu fiquei dezoito anos chorando a sua morte. Eu não vou permitir que você se mate!
— Você não está pensando em mim. Pensa apenas em você. Na falta que sentirá de mim caso eu parta... Se você me ama mesmo, deveria pensar no quanto eu estou sofrendo.
— Você está sofrendo agora porque as coisas estão recentes. Mas vai passar, minha filha.
— Não, não vai! – Sarada voltou a chorar. – Ninguém vai conseguir apagar minhas memórias. Eu não vou conseguir esquecer a família do Boruto, não vou esquecer aquela noite!
— Sarada... – Suspirou, contendo suas lágrimas.
— A punição para assassinato é a morte. Pense na eutanásia como uma pena justa para mim... Eu estou pagando pelos meus crimes.
— Você é uma vítima, entendeu? Você foi manipulada.
— Não sou mais uma criança, Sakura! Eu sabia muito bem o que estava fazendo quando optei por trabalhar na Amaterasu... Eu sou uma criminosa. Uma assassina da pior espécie!
— Sarada, pare! Você não vai morrer!
— Você é mais egoísta do que eu pensei, Sakura.
Não aguentando mais ouvir as palavras da filha, Sakura saiu do quarto. Queria encontrar uma enfermeira e pedir para dar um calmante para que Sarada dormisse. Não aguentava mais ouvir aquela história de eutanásia e suicídio assistido.
O que Sasuke pensaria de tamanha loucura?
Virou-se rapidamente parra trás quando ouviu o som do aparelho ficar rápido. Seria mais um ataque de pânico?
Arregalou os olhos e sentiu sua boca secar. Seu coração falhou uma batida ao ver que sua filha tentava se enforcar com a mangueirinha do soro. Não pensou muito antes de se aproximar de Sarada e fazer uma força contrária a dela sobre o objeto, falou um "larga!" em voz alta e puxou. Sua filha relutou, mas acabou perdendo as forças devido à falta de ar.
Sakura empurrou o suporte do soro, derrubando-o.
— Por que me parou? – Perguntou com tristeza e com a voz rouca.
Sakura nada disse, apenas sentou ao lado de Sarada e a abraçou.
“Por favor, Deus, não a tire de mim” pensou.
A morena abraçou a mãe de volta e chorou em seu ombro.
— Por favor... Acabe com meu sofrimento, Sakura. – Sussurrou para que só a rosada ouvisse. – Faça o que eu mereço, por favor...
A Haruno permaneceu com Sarada chorando em seus braços, ouvindo seus pedidos para que permitisse o suicídio e acabasse com o sofrimento dela. Nada falou. Não respondeu mais o que Sarada pedia.
A mais nova afastou a mãe e se encostou novamente na cama, limpando as lágrimas. Virou o rosto para não ter de encarar a Haruno.
Sakura observou a filha por alguns instantes, vendo a marca vermelha em seu pescoço, e apertou o botão para chamar uma enfermeira. Ergueu o suporte do soro antes que alguém visse.
— Precisam de algo? – A enfermeira não demorou a aparecer.
— A agulha do soro soltou. – Sakura respondeu com a voz falha.
Não demorou muito para que a enfermeira terminasse. Durante todo o tempo ela olhou desconfiada para as duas, mas nada disse e logo saiu.
As duas permaneceram caladas, sem olhar uma para a outra. Estavam presas nos próprios pensamentos.
— Me dê um tempo... – A Haruno murmurou.
Sarada a olhou confusa.
— Tempo? – Indagou.
— Para pensar... – Mordeu o lábio inferior. – A decisão não é só minha.
Sarada desviou o olhar, pensativa. Conseguiria aguentar até seus pais decidirem? E se eles dissessem que não? Teria que viver com a culpa e ver mais pessoas inocentes morrerem?
— Sakura... – Chamou com a voz mansa e a outra a olhou. – O que você sentiu quando tentou suicídio naquele dia?
Sakura apertou as mãos uma na outra. Como podia convencer Sarada a desistir da ideia se ela mesma havia tentado? Era esse o exemplo que dava para a própria filha? Se as coisas estão difíceis você simplesmente desiste?
— Eu estive sozinha por muito tempo... Sendo tratada como uma reles mercadoria. Vendendo meu corpo para qualquer um com dinheiro...
— Por que fez isso, Sakura? Você é inteligente, poderia ter tido uma vida melhor. – Sarada abaixou o olhar.
— Poderia, mas... – Olhou para um ponto fixo no chão. – Eu não queria ter uma vida melhor. Eu não conseguia ver um longo futuro para mim. Eu só via solidão e ninguém quer viver na solidão... Eu não queria viver na solidão. – Voltou o olhar para a filha. – Foi isso que senti... Foi o que senti por anos.
— Eu... – A mais nova murmurou. – Eu conseguiria conviver com o fato de ter matado o Kisame. Mas eu não posso viver sabendo que isso destruiu a família do Boruto. – Sakura abriu a boca para retrucar, mas Sarada a impediu. – Não diga que a culpa não é minha. A culpa é minha. Eu sou uma assassina e o que eu mereço, o que é justo, é a minha morte. – Finalmente voltou a olhar para Sakura. – Pode parecer egoísta, afinal o papai perdeu um braço para me salvar, os médicos deram o melhor para me salvar, você não sai do meu lado, sempre tentando fazer eu me sentir melhor... E, no fim, eu faço esse pedido. Desculpa, Sakura, mas eu não consigo. É um peso grande demais... Não é justo que eu tenha uma chance, quando pessoas inocentes morreram por causa de um crime que cometi.
O silêncio voltou a dominar o quarto. Sarada repetiu o gesto com a mão e olhou para a frente mais uma vez para se acalmar. Estava chorando, sentia-se agitada e não queria que aplicassem mais calmantes. Estava cansada daqueles medicamentos.
— Me dê um tempo, por favor... Preciso processar a ideia. – Sakura pediu.
Sarada suspirou pesadamente. Não queria esperar.
— Eu vou esperar. Mas, se vocês negarem, faço eu mesma. – Falou com a voz firme.
Sabia que a mãe não estava convencida. Ela negaria. Que mãe iria querer deixar a filha tirar a própria vida?
E seu pai que deu tudo de si para salvá-la? Ele negaria.
Seus pais negariam. Iriam lutar para sanar sua dor. Mas eles não conseguiriam. Não havia como apagar seus erros; Não podia trazer de volta a família de Boruto; Não podia esquecer a noite na oficina.
Olhou para Sakura. Ela sobreviveria? Aguentaria perdê-la uma segunda vez? Perder duas filhas...
Sarada era o motivo que a Haruno tinha para continuar vivendo. Não podia partir e levar sua mãe junto. Não queria isso. Mas não era justo permanecer viva.
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