Amaterasu
26 Capítulo 25
Notas iniciais
Toská, Rússia
10 de maio de 2016
02:26 P.M.
O homem perdera o sono durante a noite e isso não era novidade. Após tantas missões em sua vida que precisava trocar a noite pelo dia, Sasuke acabou se acostumando a não desfrutar do sono da noite, mas passar o dia dormindo. Isso quando dormia.
Teve vontade de ir ao quarto de hóspedes, onde com certeza Sakura dormia feito uma princesa. Mas não quis atrapalhar o sono da rosada.
Resolveu pegar seu pen drive e assistir algo na televisão de 42 polegadas, que ficava de frente para a sua cama, então se deitou novamente.
Por um momento selecionou a pasta de filmes adultos, a última vez que vira um foi num motel e na companhia de três prostitutas. Realmente não tinha graça vê-los sozinho, já que acabava sentindo tesão. Isso realmente sempre foi algo inevitável.
Já havia assistido todos os episódios de Game of Thrones umas três vezes, sabia os episódios quase que de cor e cada vez que assistia alguma temporada, sua ansiedade pelas próximas apenas aumentava.
Seria melhor assistir alguma que já tivesse todas as temporadas. The Tudors foi uma boa opção. Nessa brincadeira toda, Sasuke foi pegar no sono quando o dia já estava amanhecendo, obviamente que acordou um tanto quanto tarde.
Olhou no relógio digital ao lado da cama e bufou ao ver o horário. Foram quase oito horas de sono, então, mesmo que ele não tenha dormido à noite, não poderia repreender a si mesmo por isso.
Levantou-se preguiçosamente e foi até o banheiro para fazer sua higiene matinal. Tomou um banho demorado de água morna. Pensou que a água fria seria melhor para espantar a preguiça, mas quem é louco de tomar banho de água fria na Rússia? Embora fosse primavera e estivesse próximo de começar o verão, o frio ainda se fazia bastante presente em alguns dias, mas nada se comparava às baixas temperaturas do inverno.
De qualquer modo, um banho frio seria loucura demais, quase uma forma de tortura.
Vestiu uma roupa confortável, secou os cabelos e desceu as escadas com a finalidade de ir até a cozinha, rezando pra ter sobrado alguma coisa do almoço para ele esquentar e matar a fome que o estava matando.
Passando pela sala, Sasuke viu, sobre um móvel de vidro, um envelope que claramente era de um laboratório.
Seria de Sarada ou de Sakura?
Sendo corrompido por sua curiosidade quase que insana, Sasuke pegou o envelope e viu o nome da rosada. Isso o preocupou, uma vez que era resultado de um hemograma.
Por que Sakura faria um exame de sangue? Estaria doente? Por que não contou pra ele? Sasuke se sentiu traído.
Não deveria fazer isso, mas sua curiosidade foi maior do que o seu bom senso. Abriu o envelope para ver os resultados do tal exame.
Glicose, Colesterol... Alguns termos ele conhecia perfeitamente, outros não, principalmente siglas.
O que seria Beta HCG? Parecia nome de doença.
— Isso parece nome de DST... – Murmurou para si mesmo.
Deveria considerar isso, uma vez que Sakura foi prostituta por muito tempo. Ela devia se proteger, mas muita gente não gosta de "Chupar bala com papel", então ele não poderia descartar essa hipótese.
Sakura teria passado alguma coisa pra ele? Sasuke ficou realmente preocupado com relação a isso, ainda mais porque tinha um "Positivo" ali.
Como quem não quer nada, e com o envelope nas mãos, Sasuke foi até a cozinha, onde Sakura montava um enorme sanduíche com tudo que encontrava dentro da geladeira.
— Sakura... Por que você fez um hemograma? – Ele foi direto ao ponto, observando a mulher que parecia não comer há dias.
— Exame de rotina. – Deu de ombros. – Eu ando meio indisposta ultimamente... Suspeito que possa estar com anemia.
“Indisposta?”, o moreno ergueu uma sobrancelha diante do tamanho do sanduiche.
— Acho que não é anemia... – O homem comentou enquanto olhava o resultado do tal exame. – Não sei. Tem muitas coisas aqui que eu não entendo.
— Tipo? – Questionou com a boca cheia e a bochecha suja de mostarda após dar uma mordida em seu sanduíche. Aquele negócio estava embrulhando o estômago do moreno que até perdeu a fome.
— Um tal de Beta HCG... – Uniu as sobrancelhas. – Isso não é DST não, é?
— É um hormônio, gênio. – Bufou.
— E esse hormônio serve pra que diabos?
— É um hormônio que indica gravidez. – Respondeu sem paciência com o Uchiha que empalideceu na hora. – Posso saber por que tantas perguntas?
— Sério isso? – Questionou meio incrédulo, encarando pela milésima vez o resultado daquele exame, como se não quisesse acreditar no que via. – E você tem certeza disso, Sakura?
— Sasuke! – Ela riu das perguntas bobas do Uchiha. – Já fiquei grávida uma vez, esqueceu?
— Não, eu não esqueci, até porque o resultado da sua gravidez me odeia. – Bufou.
— Tá, era só isso? – Encarou seu sanduíche com os olhos brilhando. – Posso ficar a sós com essa belezinha?
— Só pra constar, assim, quando esse negócio dá positivo, significa o que exatamente? – Perguntou como quem não quer nada.
— Que pergunta idiota... – Revirou os olhos. – Significa que a mulher está grávida, ora essa.
— Sakura... – Com os olhos arregalados e tremendo, Sasuke virou o resultado do exame para a rosada. – Essa merda deu positivo.
— O que? – Berrou com a voz esganiçada e tomou o envelope das mãos de Sasuke após largar seu enorme sanduíche sobre um prato.
Sakura olhou fixo para o envelope por quase dois minutos, sem ao menos piscar ou demonstrar alguma reação. Parecia uma estátua. Sasuke começou a ficar preocupado.
Já não sabia mais o que estava acontecendo.
— Sakura, reage, mulher!
— Sasuke... Eu tô grávida... – Sua voz saiu quase que como um sussurro.
— Fala com a boca! – Sasuke falou nervoso, uma vez que mal conseguiu ouvir o que saiu da boca de Sakura.
— Eu tô grávida! – Berrou. – Escutou agora ou precisa limpar os ouvidos?
— Grávida? – Arregalou os olhos e respirou fundo.
— Não! – Falou desesperada e começou a andar de um lado para o outro. – Isso só pode estar errado! Esse exame tá errado! Só pode ter sido trocado.
— Sakura, seu nome tá escrito aí. – Massageou as têmporas. – Acho muito difícil que o laboratório tenha trocado seu exame... Sem falar que esse é o melhor da cidade.
— Só pode estar errado! – Berrou e bagunçou os cabelos rosados. – Não... Eu não posso estar grávida!
— Estou tão surpreso quanto você... – Embora nervoso, Sasuke parecia um pouco mais calmo que ela. – Como isso é possível?
Sakura soltou um riso anasalado, apertou os lábios e estreitou os olhos para o moreno.
Como poderia ele não saber como isso é possível?
— Ninguém melhor do que você sabe como isso foi possível, Sasuke. – Disse irônica, logo em seguida abaixou o olhar para a folha em suas mãos e suspirou com pesar. – Um bebê... Eu deveria estar feliz, mas essa não é a melhor hora.
— Eu ainda estou chocado, mas... – Sasuke sorriu de canto. – É uma notícia boa, Sakura.
— Você não vai fazer um escândalo como fez quando eu contei que estava esperando a Sarada? – Largou o papel sobre a mesa e voltou a se concentrar em seu sanduíche.
— Sakura... – Ele riu e revirou os olhos. – Faça-me o favor, somos adultos.
— Tanto faz. – Deu de ombros, então largou novamente o sanduíche sobre o prato e levou ambas as mãos até a testa após sentar-se numa cadeira de frente para o Uchiha. – Puta que pariu, por que isso agora?
— Sakura, não fale assim. – Sasuke então caminhou para perto da rosada, puxou uma cadeira para bem perto dela e se sentou ao seu lado, colocando a mão em seu ombro logo em seguida. – Você vai ser mãe novamente. E eu vou ser pai... – Logo o moreno ficou confuso e uniu as sobrancelhas. – Esse filho é meu, né?
Sakura virou seu rosto em direção ao Uchiha incrédula, como ele podia perguntar aquilo?
— É claro que é seu! – Irritada, ela deu um tapa no ombro de Sasuke.
— Ai, sua ogra! – Resmungou.
— Eu estou enfurnada na sua casa há quase dois meses, quase não saio por questões de segurança! – Vociferou. Sakura pouco saía, uma vez que Fugaku a tinha ameaçado e Sasuke pediu para que ela evitasse sair sozinha. – Você acha que eu estaria grávida de quem? – Bufou. – Você estava tão afoito naquela noite que sequer se lembrou de colocar uma camisinha.
— Tá, foi mal...
— Infeliz, eu só trepei com você desde que voltei pra essa cidade! – A rosada estava realmente irritada. Já não era mais prostituta há anos e Izanami foi apenas uma personagem para se aproximar do Uchiha. – Está com dúvidas? Peça um DNA quando a criança nascer. Ou melhor, nem precisa disso, porque se esse bebê for como a Sarada, vai bastar olhar pra cara dele e ver você!
— Sakura, eu já entendi, o filho é meu. – Falou com a voz calma.
— Desculpa. – Ela suspirou pesadamente, tentando se recompor. – Eu tô nervosa, perdão.
— Malditos hormônios! – Murmurou baixinho.
— Eu não estava esperando por isso. Sasuke, eu não quero ter um bebê agora. – Fitou seu sanduíche sobre a mesa e deixou as lágrimas rolarem. Já não sentia mais fome.
— Ei, calma. – Sasuke pediu com a voz mansa. – Vamos ver o lado bom das coisas, sim? – Sorriu de canto. – Olha, eu não vou sumir de novo. Estamos juntos e vamos ser pais novamente. Eu vou ter a oportunidade de ver meu filho nascer e você vai poder criá-lo, vai vê-lo crescer... Vamos poder fazer por essa criança tudo aquilo que não tivemos a chance de fazer pela Sarada.
— Sasuke... – Ela enxugou as lágrimas e olhou para Sasuke. – Se fosse só por isso, com certeza eu estaria pulando de alegria. Isso porque eu sei que você não vai me abandonar de novo.
"Eu sei que você não vai me abandonar de novo", essas palavras fizeram o moreno corar levemente.
Sakura realmente tinha confiança nele? Com certeza deveria ter. Depois de tanto tempo, tanta raiva mútua, tantas discussões, uma cumplicidade muito grande surgiu entre os dois e isso foi surpreendente para ambos.
Sakura, mesmo que não se permitisse apaixonar por Sasuke, sabia que sua estadia na casa dele seria maior do que ela achava.
Pela segurança e bem estar do bebê que se formava em seu ventre, ela deveria ficar perto de Sasuke.
— Você diz que estaria pulando de alegria. Então o que te impede? – Indagou curioso.
— Acha mesmo que aquele cretino do seu pai não vai ficar sabendo? – Arqueou uma sobrancelha. – Acha que ele vai aprovar isso? Ah, Sasuke, ele vai ficar possesso de raiva.
— Você teme pela criança?
— Temo por nós. – Respondeu. – Por mim, por você, pelo bebê e pela Sarada. – Soluçou. – Sasuke, ele ameaçou nossa filha. Num momento de raiva ele pode querer descontar na Sarada. Aquele monstro pode matar nossa filha!
— Sakura, eu juro, se aquele desgraçado tocar em um único fio de cabelo da Sarada... – Cerrou os punhos. – Eu o mato!
— Torno a dizer: Você vai esperar que ele faça algo contra a Sarada pra tomar uma atitude? – Arqueou uma sobrancelha. – Pois se você não tomar, eu tomo.
— Sakura, não faça nada irracional.
— Aquele maldito pode fazer alguma coisa ruim contra os meus filhos! – Os olhos esverdeados se encheram de lágrimas novamente. – Contra os nossos filhos. Entende isso, Sasuke?
— O que quer que eu faça? Ele é o líder da Amaterasu! Se eu matá-lo, dezenas de pessoas vão querer minha cabeça.
— Eu estou com medo. – Ela abraçou o moreno. – Não por mim, mas por Sarada e pelo bebê. Se seu pai descobrir, isso vai ser uma tragédia.
— Sakura, se acalma. – Sasuke olhou nos olhos da Haruno. – Ele provavelmente não falava sério. – Tentou acalmá-la. – Não acho que ele vá fazer algo pra machucar a Sarada. Ele a criou e se apegou a ela. E, mesmo que ela pense em algo assim, Itachi tentaria fazê-lo mudar de ideia.
— Seu pai não ama a Sarada. – Aumentou o tom de voz, falando pausadamente. – Eu vi nos olhos dele. Ele não ama a Sarada assim como também não ama você e não vai amar a criança que vai nascer! – Bradou. – Seu irmão com certeza é um pau mandado! Se eles amassem a Sarada de verdade, não teriam a tirado dos braços da própria mãe e não teriam a afastado do pai como afastaram! Não falo só dos três anos que você passou nos Estados Unidos, falo do fato de terem colocado sua filha contra você! Tá certo que você teve seus erros quando ela era criança, mas seu pai, e com certeza seu irmão também, tem culpa nisso!
— Eu sei, Sakura. – Suspirou pesadamente. – Vamos pensar com calma. Meu pai não vai saber tão cedo se depender de mim. Eu tenho raiva daquele homem desde criança, ele ameaçou minha filha mais de uma vez, mas eu creio que estivesse blefando.
— O que você quer dizer com isso, Sasuke?
— Bom ou ruim, Fugaku é meu pai. – Confessou. – Ele não é só o líder da Amaterasu, ele é meu pai.
— Ele nunca te tratou como filho!
— Ainda assim é meu pai! – Retrucou. – Embora eu o odeie, embora o tenha ameaçado de morte caso alguma coisa aconteça com a Sarada, é estranho pensar em tirar a vida da pessoa que me deu a vida. Entende? Fugaku é meu pai e eu não posso mudar isso.
— Eu não compreendo. – Estreitou os olhos. – Você mesmo falou que aquele homem nunca te amou. Por que está amarelando agora?
— Eu não sou esse monstro que você pensa que eu sou. – Respondeu. – Não gosto de matar criancinhas e nunca me imaginei matando alguém que tem meu sangue.
— Mesmo que essa pessoa machuque outra pessoa que também tem seu sangue? – Arqueou uma sobrancelha ao indagar friamente. – Você pode estar inseguro com relação a isso, mas eu não vou deixar aquele louco ameaçar meus filhos. – Falou decidida. – Não vou!
— E o que você pode fazer? – Perguntou sério. – É uma mulher, ainda por cima está grávida.
— Essa mulher, que te prendeu numa cama e te deu um tiro na coxa, pode fazer muitas coisas. – Sorriu maliciosa. – Não me subestime, Sasuke Uchiha, porque eu posso ser mais perigosa do que você.
— Pra descobrir o quão perigosa é uma fêmea, basta mexer com sua cria. – Sasuke comentou como quem não quer nada. – Só te peço que não faça nada inconsequente. Não se esqueça de que agora você carrega o nosso filho.
— Eu sei... – Levou ambas as mãos até seu ventre, acariciando de leve. – Eu tenho mais um motivo pra viver agora... – Sorriu bobamente. – Eu só espero que a história não se repita. Eu não aguentaria ter outro filho tirado de mim.
— Sakura, escuta aqui. – Sasuke segurou no rosto da rosada, fazendo a mulher olhar em seus olhos. – Ninguém vai te separar do nosso filho, entendeu? Ele vai nascer, bonito e saudável, vai crescer rodeado de amor pelos pais e pela irmã mais velha. Entendeu? – Questionou sério, unindo as sobrancelhas. – Nada de ruim vai acontecer com o nosso filho. É uma promessa.
— Você promete mesmo? – Soluçou. – Promete que não vai deixar nada e nem ninguém nos separar do nosso filho?
— Prometo. – O moreno então puxou para um abraço a mulher que chorava em sua frente. – Discordo de você, esse bebê veio na hora certa.
— Se você diz. – Sakura deu de ombros após se desprender dos braços fortes do Uchiha. – Temos que contar para a Sarada.
— É melhor você contar. – Respondeu. – Não sou bom com as palavras, sem falar que vai ser constrangedor dizer isso pra ela.
— Ora, por quê? – Indagou confusa.
— Ué, ela sabe como o irmãozinho foi feito! – Falou como se fosse óbvio. – Dispenso as piadinhas da Sarada.
— Como se você se importasse em tocar nesses assuntos na frente da Sarada. – Revirou os olhos. – Às vezes vocês parecem dois adolescentes.
— Quem fala... A mulher que disse à própria filha que transar é bom e saudável. – Revirou os olhos também. – Tanto faz. – Deu de ombros. – Você vai falar pra ela.
— Tenho que falar, né? – Levantou-se. – Pode comer o resto do meu sanduíche se quiser. Perdi o apetite.
Sakura virou as costas e saiu da cozinha, deixando o moreno a sós com aquele sanduíche enorme.
Ele olhou para o sanduíche e pensou em como um ser humano conseguiria comer aquilo sem sentir ânsia.
Deu uma mordida no sanduíche, mastigou e engoliu com dificuldade. Tinha certeza de que havia sentido o gosto de alface, frango gelado, banana, tomate, creme de amendoim, geleia de morango, mostarda e até maçã.
Definitivamente não gostava dessas misturas loucas. Só mesmo uma mulher grávida para conseguir comer aquilo. Sem pensar duas vezes, Sasuke jogou aquela gororoba no lixo e foi procurar algo decente pra comer.
Como Sakura, ou mesmo ele, não havia notado que ela estava grávida? Agora que sabiam, pensou em todos os sinais claros que ela apresentava há alguns dias.
Enquanto isso, Sakura, parada de frente para a porta do quarto da filha, tomava coragem para conversar com ela.
Talvez Sarada pulasse de alegria, talvez detestasse a ideia. Era ridículo pensar isso de uma adolescente de dezoito anos, mas ela poderia sentir ciúme do irmão ou irmã, afinal o bebê teria o que ela não teve, mãe e pai presentes.
“Ok, Sakura, relaxa, a Sarada apenas vai odiar a ideia, ficar sem falar com você pelo resto da vida e nunca vai te aceitar como mãe.”, pensou consigo mesma.
Ora, demorou tanto tempo para ter sua mãe biológica ao seu lado e, quando isso acontece, chega um bebê para substituí-la e ter tudo que ela não teve?
Era difícil pensar positivo, sempre tinha algum receio quanto à reação de sua filha sobre si.
Sakura balançou a cabeça em sinal negativo para espantar tais pensamentos de sua cabeça, então deu duas batidas na porta do quarto e entrou após ouvir um "pode entrar!" de Sarada.
— Oi... – Falou meio sem graça e foi entrando no quarto. Sarada, deitada sobre a cama, tirou os fones de ouvido quando viu sua progenitora. – Nós podemos conversar um pouquinho?
— Claro. – Ela se sentou e apoiou as costas numa almofada preta com caveiras brancas. – Pode falar. – Ficou séria quando viu o rosto avermelhado da mulher. – Estava chorando?
— S-sim... – Ficou desconcertada, deveria ter esperado mais um pouco para falar com a jovem. – Bem... – Parecia nervosa, não escondia isso. Não conseguia. – Peço que você seja compreensiva, Sarada. – Sentou na cama, ao lado da adolescente.
— Que foi, você vai embora de Toská de novo? – Franziu o cenho.
— Não é isso. – Negou com a cabeça. – Eu tinha feito uns exames de rotina e fui buscar o resultado do hemograma hoje pela manhã.
— Você tá doente? – Sarada arregalou os olhos em desespero. – É grave?
— Não... Eu... – Suspirou. Estava com medo. – O que você acha de... Ter um irmãozinho ou uma irmãzinha?
Sarada arqueou uma sobrancelha. Seus pais queriam ter outro filho? Por isso os exames?
— Eu sabia... – Sorriu maliciosa. – Sabia que você e o Sasuke estão juntos! Agora querem ter um bebê... Ou...
Talvez ela já estivesse grávida, por isso toda aquela enrolação.
— N-nós não estamos juntos... Somos ami...
— Você está grávida? – Interrompeu, odiava enrolação.
Sakura olhou surpresa para Sarada. Ora, ela não era mais uma criança, já deveria ter percebido qual era o objetivo daquela conversa.
— Eu estou grávida. – Confirmou. Não adiantava ficar enrolando, a mais nova já havia percebido.
Sarada permaneceu em silêncio e Sakura ficou ainda mais nervosa, crendo que a morena havia odiado tal notícia.
A ficha de Sarada estava caindo aos poucos, não era surpreendente, mas ainda era estranho pensar naquilo. Ganharia um irmão ou uma irmã.
Não sabia o que sentir. Amava a ideia de que sua família estava unida e que tudo estava correndo bem, assim como Sakura prometera. Sua mãe até se esforçava para se dar bem com Mikoto por ela. Seu pai já não fazia trabalhos na Amaterasu. Aquele bebê os uniria ainda mais.
Mas por que ainda achava que não amava tanto assim a ideia?
Ainda estava se aproximando de Sakura, quando a criança nascesse ainda seria assim? Sua mãe teria tempo para si?
Por Deus, tinha dezoito anos, não poderia ter ciúmes de um bebê. Teve vontade de se bater por esse pensamento.
Sem falar que, durante o tempo que sua mãe esteve ali, notou que a mesma se sentia inferior. Não podia se mostrar negativa com ela, tinha medo que a rosada tentasse suicídio outra vez. Criara trauma desde o dia do quase afogamento.
Fechou os olhos, tentando espantar qualquer sentimento negativo.
Por fim, sorriu. A felicidade era muito maior do que o ciúme. Tinha uma família como sempre sonhou em ter... Quase, afinal seus pais ainda não estavam juntos como queria, mas um dia eles estariam.
A morena abraçou Sakura, quase pulando em cima da mais velha.
— Sakura, parabéns! – A Haruno se surpreendeu com o gesto. – Você vai me dar um irmãozinho ou irmãzinha. Que boa notícia!
Depois de toda a pausa, Sarada se mostrara feliz. Tinha vontade de pular abraçada com a filha de tão feliz que estava.
— Você está feliz? – Sakura retribuiu o abraço, sorrindo.
— Sim, eu estou feliz. – A menina olhou para sua mãe com os olhos brilhando. – Vou ter uma criaturinha pra estragar! – Ela começou a rir. – Acho que vai ser uma menina. Quer dizer, tenho certeza de que vai ser uma menina, eu sinto isso! – Falou completamente empolgada, parecia ter sete anos de idade, e realmente se sentia assim, apesar do pequeno ciúme. – Será que vai se parecer com você ou com o Sasuke?
Sakura mordeu os lábios. Ter a aprovação de Sarada era quase surreal para si.
— Acho que com os dois. – Respondeu risonha, feliz com a reação da filha. Ela pouco sorria desde que Boruto fora embora. – Já que você é a cara do seu pai, bem que esse bebê poderia vir parecido comigo... – Falou pensativa. – Seria justo.
— Sim, eu já vejo uma menininha loirinha dos olhinhos verdes, correndo pela casa.
— E se for um menino?
— Tenho certeza de que vai ser menina. – Respondeu contente.
— Quer saber de uma coisa? – Sakura sussurrou com um sorriso no rosto, como se fosse contar um segredo para Sarada. – Eu também sinto que virá uma menina.
— Nasce esse ano ainda? – Soltou a mãe e voltou a sentar onde estava antes.
— Sim, pelos meus cálculos, nasce em dezembro. Talvez no início de janeiro. – Respondeu. – A não ser que venha antes do tempo, como você.
— Eu só quero que venha com saúde. – Disse com sinceridade. – Eu estou feliz, Sakura, muito feliz. – Pensou um pouco. – E você e o Sasuke?
— O que tem a gente? – Sakura corou.
— Não se faça de desentendida... Vocês agora terão a segunda filha, vocês não são adolescentes, Sakura! – Resmungou. – Você não é cega, sabe que ele te ama, e você o ama também. Não acontece nada de ruim desde o julgamento do Naruto, então... O que está impedindo de vocês dois ficarem juntos?
A Haruno abaixou a cabeça. Sarada tinha razão. Sasuke a amava, nada impedia, então por que não se permitia?
— É complicado... – Murmurou.
— Me poupe, Sakura... Você não é adolescente, não é complicado. São dois adultos apaixonados que têm dois filhos... Será possível que terei que fazer mais jantares para vocês? – Ergueu uma sobrancelha.
— Não! – Quase gritou sobressaltada. Certamente não queria outro jantar daquela qualidade, mesmo que fosse muito carinhoso da parte de Sarada. – Digo... Não precisa... – Falou sem graça.
— Me senti ofendida agora. – A morena riu. – Sakura, você não ama o Sasuke? Quero dizer, é óbvio que você o ama, mas tem algo te prendendo...
Ainda estava achando totalmente surreal conversar com Sarada a sós. A última vez que o fizera, quando Fugaku fez aquela visita desagradável, gritara com ela. Agora estava ali, recebendo conselhos. Deveria se abrir para ela? Era sua filha, afinal de contas.
— Eu não tenho um bom histórico em questão de amor. – Respondeu receosa.
Sarada ergueu uma sobrancelha, não entendendo o que a mais velha queria dizer. Esperou que ela continuasse, mas a rosada ficou calada. A Uchiha pigarreou, chamando a atenção da outra.
— Sofreu alguma decepção amorosa enquanto... – Ponderou sobre a palavra, não era confortável falar sobre o antigo trabalho de sua mãe. – Enquanto trabalhava na Holanda?
Sakura riu de como sua filha foi sutil na pergunta.
— Não... Não tive nenhuma decepção amorosa... – Sorriu sem humor. – Tenho medo de ser abandonada de novo... Então eu não quero me apaixonar, vai doer menos quando eu for deixada.
— De novo? Acha que a gente vai te deixar? – Sarada franziu o cenho.
— Foi o que todos fizeram comigo desde que fiquei grávida de você... Não ficaria surpresa se acontecesse mais uma vez. – Deu de ombros.
— Por que comigo é diferente? Você não nega nem tenta se afastar, pelo contrário, você tenta se aproximar...
— Mesmo que eu não ligue muito para a minha vida, quando a gente acha um motivo para viver, nos agarramos a ele... Meu amor por você vence qualquer medo que eu tenha. Você é a razão que eu tenho para viver... Bem, agora eu tenho outra. – Sorriu e tocou seu ventre. – Mas... Eu não consigo com o Sasuke, me sinto egoísta, mas... – Suspirou. – Eu fui abandonada por meus amigos, por meus próprios pais que, supostamente, deveriam ser as duas pessoas que mais me amavam. – Abaixou a cabeça, segurando as lágrimas. – Eu virei prostituta... Tem noção de como é passar anos de sua vida sendo tratada como mercadoria? Eu praticamente fui comprada por meu marido e ele sequer me tratava como esposa, me traía descaradamente, nem ligava que eu visse as prostitutas que ele levava para casa. – Sentia-se mais leve por desabafar com alguém. – Quando ele morreu, eu voltei para Toská e...
— Foi rejeitada por mim. – Sarada baixou a cabeça envergonhada.
— Não se sinta culpada, eu mereci aquilo. – Sorriu.
— Nós não vamos te deixar, Sakura... Somos uma família. Nós quatro. – Sorriu.
“Uma família.”, pensou.
Sentia-se completa. Sentia que nada de ruim aconteceria agora. Estava ao lado de seus pais, esperando uma irmã.
— Obrigada, Sarada. – Sakura sorriu sincera.
A menina então se levantou da cama.
— Vou pegar um pacote de biscoito lá na cozinha. Quer alguma coisa? – Resolveu quebrar o clima.
— Não precisa, obrigada.
Sarada então saiu do quarto, deixando Sakura sozinha.
A rosada estava ainda mais feliz. A notícia foi um choque, mas ela não precisava ficar triste. Sasuke fez uma promessa de que nada aconteceria, Sarada ficou realmente feliz pela primeira vez desde a partida de Boruto, além de que conseguiu se abrir com ela, que também fez uma promessa.
“Não vou ficar só.”, pensou e sorriu.
Realmente aquele bebê veio na hora certa.
Sarada chegou à cozinha, onde Sasuke terminava de lavar a louça do almoço.
A jovem abriu o armário e pegou um pacote de biscoito recheado, logo em seguida parou de frente para seu pai.
— Tenho que lhe dar os parabéns. – Ela riu. – Você conseguiu fazer um filho com a idade que tem. Admirável.
— Sarada, me poupe! – O moreno revirou os olhos, mas não pôde deixar de rir. – Vou fazer 34, ainda sou fértil.
— Tanto faz. – Deu de ombros. – Mas eu quero te agradecer, Sasuke. – Sorriu. – Uma irmã... Você e a Sakura não poderiam ter me dado um presente melhor do que esse.
— Irmã? – O rosto de Sasuke se contorceu em total confusão. – Ora essa, ainda é cedo demais pra saber o sexo.
— Vai ser uma menina, eu sinto isso.
— É? – Olhou para a adolescente com um olhar desafiador e se encostou a pia. – Pois eu sinto que vai ser um menino.
— A Sakura também sente que é menina. – Lançou um sorriso debochado. – Vai querer ir contra intuição de mãe? É você quem sabe.
— Sua boba... – Sasuke ria enquanto Sarada saía da cozinha correndo para voltar para seu quarto.
De fato não existia bem material mais precioso do que aquilo: Sua família.
Sua filha mais velha, seu filho ou filha caçula que fora recentemente concebido e, claro, Sakura.
[...]
Toská, Rússia
12 de maio de 2016
07:32 A.M.
— Sasuke, pra onde você vai? – A rosada perguntou quando viu o moreno pegar as chaves do carro sobre o móvel de vidro da sala.
— Vou à casa dos meus pais. – Suspirou e olhou no relógio de pulso. – Preciso conversar com a minha mãe.
— E ter o desprazer de olhar para a cara daquele velho repugnante. – Bufou e cruzou os braços em frente ao corpo. Realmente não suportava Fugaku.
— Não. Pelo horário, muito provavelmente meu pai não está mais em casa.
— Pelo menos isso... – Deu de ombros.
— Sakura! – Sarada gritou, chamando a atenção dos pais, e desceu as escadas correndo. – Desculpa por te fazer esperar. Vamos?
Sasuke então percebeu que ambas estavam arrumadas. Sakura usava uma calça preta com uma blusa verde de mangas compridas, calçava botas pretas de cano curto e segurava uma bolsa vermelha. Sarada estava com uma calça jeans meio rasgada, sua camisa era da banda Iron Maiden, usava uma jaqueta de couro e calçava coturnos pretos.
Era até cômico ver como mãe e filha tinham estilos tão diferentes. Até nisso a garota puxou para o pai, que tinha um estilo mais rebelde na adolescência, ao contrário de Sakura, que sempre foi bastante feminina e sempre gostou de coisas alegres e coloridas.
— Posso saber pra onde as duas vão? – O Uchiha arqueou uma sobrancelha.
— Ainda não vi meu bebezinho desde que descobri que estou grávida. – Sakura fez um biquinho infantil e levou sua mão até o ventre.
— Nosso bebezinho. – Sasuke corrigiu, fazendo Sarada olhar enojada para ambos.
— Poupem-me! Vão ficar de melação em outro canto, na minha frente não!
— Tudo bem. – Sakura caiu na risada.
— Vai ao médico? – Sasuke perguntou mais sério para Sakura e a rosada assentiu.
— Mas não se preocupe, Sasuke, está tudo bem. – Respondeu com a voz mansa. – Farei a primeira consulta hoje. Irei ao médico com certa frequência agora.
— Vai fazer ultrassom? – Indagou o homem.
— Isso é meio óbvio. – Sarada revirou os olhos. – Vou junto porque quero ver minha irmãzinha.
— Seu irmãozinho ainda nem tem aparência humana. – Ele rebateu. – E mesmo que tivesse, é impossível ver alguma coisa num exame de ultrassom.
— Não exagera... – Disse a menina. – Se olhar com vontade, dá pra ver sim.
— Com muita vontade. – Enfatizou o Uchiha. – Só vejo uns rabiscos cinza.
— Vocês são impagáveis! – A Haruno riu. – Mas vamos logo, Sarada. – Chamou. – Já estou quase em cima da hora da minha consulta.
As duas se despediram de Sasuke e foram para o Mercedes de Sakura para irem até a Clínica Montgomery de Ginecologia e Obstetrícia, onde Sakura faria seu pré-natal, era a melhor de Toská.
Sasuke, logo depois que as duas saíram, se dirigiu até seu Audi e também saiu de casa, mas este tinha outro destino.
Dirigiu tranquilamente até a casa de seus pais, precisava conversar com sua mãe, até mesmo porque estava com saudade.
Os empregados da casa já o conheciam, a maioria desde criança, então Sasuke entrava e saía da casa dos pais quando queria.
Passando pela sala, Sasuke deu de cara com Fugaku, que saía de casa furioso e com um corte na testa.
— Pai, o que aconteceu? – Sasuke indagou preocupado quando Fugaku passou por ele e esbarrou em seu ombro com brutalidade, como se tivesse feito aquilo de propósito.
— Pergunta pra vadia da sua mãe! – O mais velho vociferou após virar-se para o filho, então virou as costas e saiu andando apressadamente, com um pouco de sangue escorrendo pelo seu rosto.
Preocupado com sua progenitora, Sasuke subiu as escadas e foi direto para o quarto dos pais. Sem pensar duas vezes, abriu a porta sem bater e encontrou sua mãe nitidamente nervosa, encostada na parede e tremendo muito.
— Mãe, o que aconteceu? – Sasuke entrou rapidamente, abraçou sua mãe e a guiou até a cama de casal, onde a mulher se sentou. Ela não chorava, mas o tinha feito e parecia abalada. – Mãe, o que o meu pai fez com a senhora?
— Sasuke, o que faz aqui? – Questionou com a voz embargada, como se o questionamento de seu filho a tivesse tirado de algum tipo de transe.
— Vim pra falar com a senhora. Imaginei que o papai já tivesse saído. – Contou. – Vocês discutiram? – A mulher assentiu. – Mãe, ele estava com um corte na testa que sangrava bastante, a senhora está trêmula, gelada... O que aconteceu?
— Ora, Sasuke. – Bufou. – Discutimos. Vivemos discutindo. Há novidade nisso?
— Ele machucou a senhora? – Indagou sério e a mulher permaneceu em silêncio. – Mãe... – Aumentou seu tom de voz. – A senhora se machucou?
— Não. – Mikoto sorriu e Sasuke seguiu seu olhar, encontrando cacos de vidro no chão do quarto. Obviamente que algum enfeite fora quebrado. – Mas ele se machucou.
— Mãe, a senhora é louca. – Abraçou a morena após se sentar ao lado dela na cama.
— O que tem pra me falar? – Questionou com a voz mais doce, desprendendo-se do abraço do mais novo.
— Eu vou ser pai de novo. – Disse com um sorriso bobo. – A Sakura está grávida.
— Sasuke... – Mikoto não escondia um misto de felicidade e desgosto. – Não acha que essa mulher já trouxe problemas demais pra sua vida?
— Ela é mãe da Sarada e eu a amo. – Admitiu. – Ela vai ter um bebê no final desse ano e eu estou feliz por isso.
— Fico feliz por você. – Fez um carinho no rosto de Sasuke. – Os únicos netos que o Itachi me deu foram aqueles cachorros monstruosos... – Sasuke não conteve um riso. – Vou gostar de ganhar um netinho.
— Sakura e Sarada estão crentes de que é uma menina. – Falou risonho e Mikoto também riu. – Mas eu acho que vai ser um menino.
— Menino ou menina, espero que venha com saúde. – Mikoto falou com um sorriso no rosto e Sasuke suspirou com pesar. Obviamente que, como uma mãe que conhece muito bem seu filho, Mikoto ficou preocupada. – Sasuke, alguma coisa anda te perturbando.
— Mãe, o que será que o papai vai fazer quando descobrir que a Sakura espera um filho meu? – Indagou aflito.
Mikoto abaixou o olhar. Era óbvio que Fugaku não iria deixar barato, que iria ficar possesso de raiva e querer descontar em alguém de alguma forma. Mikoto não queria que nada acontecesse com Sasuke, Sarada e nem com Sakura, uma vez que a rosada carregava seu neto ou neta. Fugaku seria louco o suficiente para fazer algo contra eles, até mesmo matá-los para evitar mais "problemas" como os que surgiram quando Sarada nasceu.
Fugaku poderia mesmo tentar tirar Sasuke do caminho? Sim, uma vez que não havia nenhum motivo que o impedia de fazê-lo.
— Sasuke... – Mikoto respirou fundo. Seu sangue ainda fervia de raiva de Fugaku pela última discussão que tiveram. – Você... Você não faria nada impensado, faria?
Sasuke percebeu na hora o que sua mãe queria saber. "Algo impensado" era nada mais que matar Fugaku Uchiha.
— Me deixa louco saber que meu pai ameaça Sarada e Sakura, às vezes me dá vontade de fazer uma loucura, mas... – Sasuke abaixou a cabeça e fitou o chão. – Ele é meu pai, droga! Ele faz ameaças, mas por enquanto ainda não fez nada, pode ser que ele diga aquelas coisas da boca pra fora, para nos assustar. – Respirou fundo e olhou para sua progenitora. – Eu sou filho dele, Sarada é neta, nós temos o sangue dele... – Ele aumentou o tom de voz e estranhou o fato de que Mikoto havia ficado nitidamente nervosa, quase perturbada com suas palavras. – Mãe, fala a verdade, ele não vai fazer nada, não é? Porra, ele é meu pai!
Sasuke preferia crer que seu pai, embora tivesse feito ameaças, não seria capaz de cumpri-las. No fundo sabia que estava se iludindo, mas não queria fazer algo contra o próprio pai, sem falar que era triste pensar que seu próprio pai teria coragem o suficiente para matá-lo por nada.
— Você quer saber por que nós estávamos brigando, Sasuke? – Mikoto se levantou e caminhou calmamente até um móvel de vidro que ficava no outro canto do quarto. – Há trinta e três anos aquele desgraçado joga a mesma coisa na minha cara, quase todos os dias! Trinta e três anos ouvindo aquele cretino me chamar de vadia, de prostituta...
— Mãe, de que a senhora está falando?
— Eu tinha dezesseis anos na época. Os Uchiha vivem fazendo eventos de caridade para ajudar os pobres, você sabe disso. – Sasuke assentiu. – Assim como também sabe que isso tudo é só fachada. Os Uchiha são muito bons em parecer bons, mas na época isso nem me passava pela cabeça, assim como também não me passava pela cabeça conhecer Fugaku Uchiha. Ele me viu por lá e veio falar comigo, me ofereceu um emprego como sua secretária e eu agarrei a oportunidade, afinal, precisava de dinheiro. No dia da entrevista, percebi, pelos olhares do Fugaku, que ele queria mais do que uma secretária. É claro que eu deveria imaginar que ele não contrataria uma menina pobre, quase uma criança e sem experiência... Eu deveria ter imaginado logo de cara que ele queria se aproveitar de mim. – Virou-se para o móvel de vidro e colocou um pouco de whisky dentro de um copo, logo em seguida colocou dois cubos de gelo. – Aceitei o emprego mesmo assim. Sabia que ganharia muito mais desse jeito. Eu adorava as joias, as roupas de grife, os sapatos caros, os perfumes importados. Imagine só, eu nunca tive nada disso na minha vida, do nada todas essas coisas começaram a cair no meu colo feito mágica. Vi em Fugaku uma verdadeira mina de ouro. – Sorriu debochada e tomou um gole da bebida, então se virou novamente de frente para o filho caçula. – Logo o escritório do Fugaku virou um quarto de motel... É claro que me fiz de difícil por um tempo, ainda era virgem quando comecei a trabalhar pra ele, mas depois dei a Fugaku o que ele queria. Ele me agradava de todas as formas, dava presentes... Eu poderia ter tudo que quisesse, bastava abrir as pernas e fingir que sentia prazer com aquilo. Ele se encantava com o meu jeito de garotinha recatada e inocente, mas mal sabia que eu já o tinha em minhas mãos. Era tudo fingimento!
Fugaku era quase dez anos mais velho que Mikoto. Não era um homem muito bonito, mas tinha seu charme. Não era de encher os olhos, mas sim de encher os bolsos e Mikoto viu uma excelente oportunidade no interesse de Fugaku por ela.
Ela não gostava da situação, de início se sentia uma prostituta, mas percebeu que Fugaku poderia tirá-la de sua vida miserável e lhe dar uma vida de rainha.
Sabia que pagaria um preço, mas faria tudo para melhorar de vida, principalmente depois de se envolver com Fugaku e sentir como é ter coisas caras e ostentá-las.
Definitivamente, Mikoto não nasceu para ser pobre.
— Nasci pobre, entretanto nasci bonita e esse foi meu grande trunfo. – Tomou o resto da bebida alcoólica em seu copo e o encheu novamente. – Um dia ouvi uma conversa entre Fugaku e outro homem, não me lembro quem era. – Bebeu um gole de whisky e virou-se para o móvel, colocando em seguida mais um cubo de gelo em seu copo. – Fugaku disse que estava chegando a hora de aquietar o facho, arrumar uma esposa e ter um filho para assumir seu lugar nos negócios da família. – Gargalhou alto e se virou novamente de frente para Sasuke. – Eu não sabia quem seria a candidata a ser mãe do filho dele e, embora ele estivesse de quatro por mim, duvido muito que uma mulher do meu nível seria apropriada para isso... Senti que meu destino seria como eterna amante do Fugaku, mas eu queria mais, queria carregar um dos sobrenomes mais poderosos e influentes de toda a Rússia. – Um sorriso maquiavélico brotou nos lábios da mulher. – Eu sabia onde ele guardava os preservativos, era na gaveta da mesa que ficava no escritório dele. Peguei uma agulha e furei todos... Todos! – Riu alto, quase como um riso de vitória. – Eu conhecia meu corpo muito bem, meu ciclo sempre foi regular e eu sabia quando estava fértil. Foi fácil demais... Eu estava com dezenove, já quase vinte anos, quando contei pro Fugaku que ele seria papai.
— Sim, não é novidade que a senhora engravidou por interesse. – Suspirou.
— Ele ficou feliz, quis casar o mais rápido possível e me mimou de todos os jeitos. Eu me sentia uma verdadeira rainha. – Sorriu nostálgica. – Sabe... Eu não o amava, mas cheguei a pensar que pudesse ser feliz ao lado dele. Eu era esposa de um dos homens mais ricos da Rússia, morava numa mansão que mais parecia um palácio, tinha tudo do bom e do melhor, ainda estava esperando um bebê que eu já amava mesmo sem conhecer o rostinho...
O fato de Mikoto ter engravidado de Itachi por interesse não significava que ela não o amava. Ela uniu o útil ao agradável, sempre amou o filho, desde o momento em que descobriu que ele residia em seu ventre.
Itachi foi muito mais que uma garantia de riqueza para Mikoto.
— Mas aí o Itachi nasceu. A partir desse dia eu me tornei invisível aos olhos do Fugaku, o mundo dele foi reduzido ao Itachi. Eu já não existia. – Falou amargurada. – Eu não o amava, mas mulheres gostam de ser paparicadas, gostam de se sentir queridas... Fugaku já nem olhava mais pra mim e eu cheguei a pensar que o problema fosse eu! Pensei que a maternidade tivesse me deixado feia, indesejável! Ele raramente me olhava, raramente me procurava... A vida dele era o Itachi!
— Mãe, não tô entendendo aonde a senhora quer chegar...
— Um dia fomos pra Moscou, o Itachi estava com dois anos de idade, ficamos hospedados na casa do Madara. Fugaku às vezes precisava viajar para tratar de alguns assuntos pessoalmente com alguns membros da Amaterasu. – Explicou. – Aproveitamos para fazer turismo por lá e ficamos por alguns dias, já que eu nunca tinha visitado Moscou e Fugaku queria exibir o Itachi pra família inteira. – Revirou os olhos. – Eles passavam o dia todo fora, Fugaku levava o Itachi, um bebê que mal sabia falar e ainda usava fraldas, pra conhecer a cidade toda... O levava em parques, no Shopping, cinema... Mas e eu? – Questionou retoricamente, indignada. – Eu ficava esquecida, enfurnada dentro daquela casa com um desconhecido! – Falou com raiva. – Mas Madara foi uma boa companhia. Nós somos da mesma idade, ele sabia me distrair com uma boa conversa... Apreciávamos a companhia um do outro. – Um sorriso bobo brotou nos lábios da morena e ela tomou mais um gole de seu whisky. – Madara era um homem belíssimo, na verdade ainda é, e eu não conseguia tirar os olhos dele, sem falar que, mesmo não fazendo o tipo carinhoso, ele é gentil e atencioso... Acabamos fazendo o que não deveríamos fazer.
— Mãe! – Sasuke arregalou os olhos. – A senhora traiu meu pai com o Madara?
— Traí! — Respondeu prontamente. – Traí e não me arrependo! O Madara não é egoísta, não pensa apenas nele e sabe como satisfazer uma mulher de todas as formas. Pela primeira vez eu soube o que é sentir prazer de verdade com um homem e precisava daquilo. – Fechou os olhos e mordeu o lábio inferior, recordando do tempo em que frequentava a cama do primo de seu marido. – Madara dizia que minha beleza era inenarrável, ele fez eu me sentir bonita e desejável novamente... Fez eu me sentir mulher e... – Mikoto hesitou por uns segundos, mas prosseguiu. – Eu me apaixonei por ele.
— Mãe... – Sasuke falou apreensivo, franzindo a testa.
— Nos apaixonamos um pelo outro.
— Assim, tão rápido?
— Sasuke, não seja inocente! – Sorriu com deboche e colocou mais whisky em seu copo. Sasuke já via a hora de sua mãe ficar bêbada. – Fomos amantes por vários anos. Madara sempre tinha uma desculpa para vir pra Toská, sem falar que eu sempre inventava viagens com amigas e idas ao Spá nos fins de semana. Fugaku não se importava. – Deu de ombros. – Tendo o Itachi, o deus dele, por perto, a esposa invisível não importava.
— Ora, a culpa foi dele! – Sasuke falou com raiva. – Ele não dava a atenção que a senhora merecia, não a via como mulher.
— Vai convencer ele disso. – Bufou.
— Mãe, se a senhora amava o Madara e ele amava a senhora, por que não ficaram juntos?
— Por causa do seu irmão. – Respondeu. – Fugaku é líder de uma das maiores máfias do mundo, Madara era jovem na época e tinha pouco tempo que estava na Amaterasu. Ganhou mais influência com a morte do Izuna, mas até então não era o que é hoje. – Explicou. – Você acha mesmo que o Fugaku me entregaria o Itachi? – Sasuke negou com a cabeça. – Exatamente... Ele poderia até mesmo dar um jeito de provar que eu não tinha condições psicológicas pra cuidar do meu filho e me trancar num hospício! – Bufou. – Você sabe que ele seria capaz de fazer isso. – O moreno assentiu. – Por isso eu fiquei com ele. Por isso não fiquei ao lado de quem me fazia feliz, por amor ao meu filho. Madara queria ficar comigo, mas eu recusei.
— Mãe, que história louca... – Suspirou. – A senhora falou que o papai te chama de vadia e de prostituta... Ele descobriu a traição?
— Você ainda não entendeu quem é o fruto dessa traição, Sasuke? – Mikoto aumentou o tom de voz e Sasuke arregalou os olhos, sentiu seu sangue gelar. Não queria acreditar naquilo, embora estivesse suspeitando a partir do momento em que sua mãe disse que traía Fugaku com Madara. – Depois de anos sendo amante do Madara, acabei me descuidando e descobri que estava grávida. Fiquei desesperada, Fugaku me mataria se descobrisse que eu esperava um filho do Madara, mas eu não consegui abortar. – Suspirou. – Você não tinha culpa de nada, não era justo tirar a vida de um bebê inocente por causa de um erro que foi meu! Meu e do Madara. Eu não tomei meus anticoncepcionais corretamente, Madara raramente usava algum preservativo, já que confiava nos meus remédios.
Sasuke se lembrou da época em que Sakura lhe contou que esperava Sarada e ele propôs um aborto à rosada.
Era exatamente aquilo. Não era justo tirar a vida de um inocente, mas na hora do desespero tudo se passa pela cabeça de uma pessoa.
Era até engraçado a forma como as coisas se repetiram, com exceção da idade dos protagonistas das duas histórias.
Sasuke, aos quatorze anos, simplesmente não gostava de usar camisinha quando ia transar com Sakura. Mas a rosada dizia que comprava anticoncepcional escondida dos pais e que com certeza faria efeito, sem falar que, qualquer coisa, era só tomar uma pílula do dia seguinte que tudo ficaria tranquilo, não havia com o que se preocupar. Sasuke confiou nos remédios de Sakura – que ele não sabia se falharam ou se a Haruno não os tomava corretamente – da mesma forma que Madara confiou nos remédios de Mikoto.
E, da mesma forma que Sakura e Sasuke foram impedidos de ficar juntos, Madara e Mikoto também foram.
— Eu já te amava muito, filho... – Fechou os olhos e deixou algumas lágrimas caírem. – Eu amava o Madara e você era fruto desse amor... Eu me odiaria pra sempre se tivesse tirado você.
— Então... – Sasuke massageou as têmporas. Tentava digerir aquela história, sentia como se uma bomba tivesse sido jogada sobre sua cabeça. – O meu pai, digo, o Fugaku... Ele descobriu que eu sou filho do Madara?
— Eu não podia deixar isso acontecer, então tive que me humilhar. – Falou amargurada. – Fazia muito tempo que eu não dormia com o Fugaku, mas, por uma questão de necessidade, eu precisei dizer que estava com saudades... – Revirou os olhos, falando enojada. – Eu tinha que explicar a gravidez. Antes eu comecei a tentar convencê-lo de que seria uma boa ideia ter outro filho, dizia que Itachi iria adorar um irmão ou irmã pra brincar, mas Fugaku dizia que não queria mais crianças. – A raiva da mais velha era quase palpável. – Eu comecei a insistir, dizendo que queria outro bebê, mas ele fingia nem me escutar. Ainda assim, voltei a ser mulher dele por uns dias, afinal, eu precisava "ficar grávida". – Fez o sinal das aspas com os dedos.
Quando Mikoto, já grávida, tentou convencer seu marido a ter outro filho e ele se negava, dizendo que apenas Itachi já estava de bom tamanho, a mulher pensou seriamente em tirar a criança. Aquilo evitaria problemas, uma vez que ela até chegou a pensar que Fugaku a mandaria abortar quando descobrisse a gravidez.
No entanto, Mikoto simplesmente não conseguiu. Ela já amava e queria muito o menino ou menina que crescia dentro de si.
— Mas, como a senhora...
— Ele ficou feliz quando eu contei que estava grávida de novo. – Mikoto interrompeu seu filho. – Irônico isso. Eu pensei que ele fosse iniciar a terceira guerra mundial, mas não. Ele não ficou contente logo de cara, mas depois gostou da ideia. Não é mentira que ele nunca quis um segundo filho, mas acabou aceitando a ideia numa boa. Ele até voltou a me enxergar e o Itachi ficou super empolgado com o irmãozinho. Só tinha um problema...
— O tempo de gravidez. – Deduziu.
— Exato. – Assentiu. – Eu já estava quase no quarto mês quando contei que estava grávida, logo minha barriga começou a aparecer e eu tive que apelar pra cintas e espartilhos. Só que chegou uma hora que não deu mais pra esconder... – Riu. – Lembro que o Fugaku uma vez perguntou "Tem certeza de que não são gêmeos?", e eu apenas disse que era um excesso de líquido amniótico. – A mulher gargalhou alto. – Homens não entendem muito dessas coisas e foi fácil enganá-lo nesse sentido.
— Como ele descobriu?
— Não é óbvio? – A mulher colocou mais whisky em seu copo, tomou um gole e prosseguiu. – O dia do seu nascimento se aproximava e eu precisava pensar em alguma coisa, já que o Fugaku saberia a diferença entre um bebê saudável e um bebê prematuro. Ele não podia te ver recém-nascido, foi quando eu decidi ir pra Finlândia.
— Finlândia? – O Uchiha questionou boquiaberto. – Eu nasci na Finlândia?
— Tenho uma prima que mora lá. Meu plano já estava traçado: Eu iria pra Finlândia, você nasceria lá e eu voltaria depois de dois meses, dizendo que você nasceu de oito meses e precisou ficar um mês na incubadora... Minha prima é enfermeira, poderia até conseguir um atestado ou qualquer outra porcaria que comprovasse que você nasceu prematuro, mas cresceu e ganhou peso na incubadora. – Falou irritada. – Eu não estava me importando com o fato de você ser filho do Madara e poder ser parecido com ele, até porque Fugaku e Madara são primos, são da mesma família, então eu estava tranquila... Você só não poderia nascer aqui em Toská.
— E esse plano deu certo?
Sasuke estava confuso, sentia como se tivesse vivido uma mentira. Uma das únicas certezas que o Uchiha tinha era de que ele havia nascido em Toská, mas, pela história que Mikoto estava a contar, tudo indicava que nem russo ele é, mas finlandês.
— Minha passagem já estava comprada, minhas coisas e as suas já estavam prontas. – Explicou. – Mas, três dias antes, eu entrei em trabalho de parto em casa. Rezei para que fosse um alarme falso, mas não, as contrações foram ficando cada vez mais fortes e eu entrei em desespero. Fugaku me levou ao hospital, eu fui gritando daqui até lá, sentindo dores terríveis... – Suspirou pesadamente. – Itachi nasceu de cesariana, com dia marcado, não senti uma contração sequer e não tinha noção de como era a dor... Foi horrível, uma dor indescritível, parecia que tinha alguma coisa me rasgando. Você acabou nascendo de parto normal assim que eu cheguei ao hospital. Não teve jeito.
— Então ele me viu.
— É. – Assentiu. – Quando Fugaku entrou no quarto de hospital, ele estava desesperado. Tinha medo de que você tivesse nascido com algum problema, já que, na cabeça dele, eu havia acabado de fazer sete meses de gestação e você seria um prematuro. Foi quando ele me viu com você nos braços, um bebê enorme, gordinho, perfeito e saudável. Você nasceu maior do que o Itachi, uns 4 ou 5 cm de diferença, se não me engano... – Falou pensativa, tentando se lembrar desse detalhe. Seu primogênito nascera com 48 cm, enquanto seu caçula veio ao mundo com 52 ou 53 cm, ela não se lembrava exatamente, mas Sasuke era um recém nascido bem grande. – Era óbvio que não era um prematuro, mas um bebê nascido no tempo certo. Então ele fechou a cara, me olhou com desprezo e friamente perguntou "Quem é o pai dessa criança?". – Mikoto sorriu sem humor e tomou mais whisky. Sasuke achou que ela estava exagerando na bebida, embora estivesse sóbria, mas sabia que não iria parar tão cedo. – Não havia desculpa a se inventar, não tinha mais como mentir, então eu confessei que o traí com o Madara durante quase três anos e que ele era o seu pai.
— Então é por isso que ele tem tanto ódio de mim... – Sasuke suspirou com pesar. – Porra, mas que culpa eu tenho de ser um filho bastardo? Por acaso eu pedi pra nascer? – Bradou com raiva, mas depois respirou fundo e se recompôs. – O que aconteceu depois?
— Ele foi tirar satisfações com o Madara na mesma hora. Virou as costas e saiu do hospital, pegou o carro e foi pra Moscou com seu orgulho ferido. – Sorriu debochada. – Não sei exatamente o que ele e Madara conversaram, mas ele ficou ciente de que nos amávamos. Fugaku não poderia deixar barato, então disse que assumiria você. "Essa criança não tem culpa da mãe ser uma cadela", foram as palavras dele... Fugaku não me entregaria de bandeja pro Madara, então fez questão de continuar casado comigo pelo Itachi e também pra não gerar um escândalo. Não seria legal pro Fugaku se os membros da Amaterasu descobrissem que a esposa do líder teve um filho do primo mais novo dele. – Mikoto começou a rir freneticamente. – Seria chacota para o resto da vida dele... O orgulho dele jamais o deixaria vazar essa história. Eu concordei, já que me divorciar do Fugaku seria o mesmo que pedir pra ficar longe do Itachi. Ele nunca mais me deixaria vê-lo por pura implicância.
— O Madara não fez nada? Nunca quis me assumir?
— Sasuke, esse escândalo logo se tornaria público. Madara estava tentando subir na política, imagina como o rotulariam se soubessem que ele engravidou a esposa do próprio primo. – Explicou. – O caso ia repercutir num segundo, sem falar que Fugaku também é bastante conhecido. O Izanagi é um dos casinos mais famosos do mundo, o maior da Rússia. Se Madara brigasse por sua paternidade, nossa, seria péssimo pra ambos.
— Então, por causa de uma imagem, o Fugaku resolveu me registrar como filho?
— É. – A mulher assentiu. – Mas Madara o ameaçou, disso eu sei. Fugaku nunca ameaçou sua vida diretamente nem tentou nada contra mim. É por isso que estamos vivos até hoje, Sasuke.
— É por isso que o Madara sempre me defendeu... Sempre pareceu gostar tanto de mim... – Comentou o moreno, ruminando todas aquelas informações.
— Sim, é por isso. Naquela vez que você foi parar no hospital gravemente ferido, Madara levou Fugaku para Moscou... Não sei o que ele fez com o imbecil do Fugaku, mas ele ficou com medo até da própria sombra durante um tempo. – Riu e depois respirou fundo, tentando conter a raiva que começava a tomar conta de si. – E pensar que por pouco, por muito pouco, tudo poderia ter sido diferente! Se você não tivesse nascido naquele dia, se meu plano tivesse dado certo! – Fechou os olhos e apoiou as mãos sobre o móvel de vidro, logo em seguida pegou novamente o copo com a bebida forte. – Eu tive a sorte de você ser parecido comigo, quase uma cópia minha... Ele jamais desconfiaria que seu pai é o Madara, mas você nasceu em Toská, o Fugaku te viu e a minha vida se tornou um inferno! – Olhou para o filho com os olhos vermelhos, contendo um choro. – Não somente a minha, como também a sua. Uma criança inocente, que não tinha nada a ver com os erros dos pais, mas ainda assim sofreu com isso! – Cerrou os punhos. – Quando eu via o jeito que o Fugaku te tratava, o olhar de desprezo dele pra você desde o dia em que você nasceu; Quando eu te via triste e chorando por ser tratado de forma diferente do Itachi, fazendo de tudo pra ser notado; Quando eu via o Fugaku bater em você por qualquer coisa, sempre dando um jeito de fazer você se sentir inferior... – Mikoto, com ódio, deixou as lágrimas rolarem. – Quando eu o via te humilhar e jogar na sua cara que você nunca foi desejado, que nunca deveria ter nascido... A minha vontade era de estourar os miolos dele, pegar você e seu irmão e sumir do mapa!
— Mãe... – Sasuke não conseguiu disfarçar o semblante triste.
— Filho, me perdoa. – A mulher pediu com lágrimas nos olhos. – Eu menti pra você a vida toda, me perdoa. Por minha causa você sofreu tanto dentro dessa casa desde que era só uma criancinha... Me perdoa, Sasuke. Eu só continuei com o Fugaku por causa do Itachi, porque também o amo muito e não conseguiria ficar longe dele. Fugaku nunca mais me deixaria vê-lo, então eu tive que permanecer aqui, mas por causa disso acabei sacrificando você. Eu errei, sei que errei. Você nunca teve culpa de nada, foi odiado a vida toda sem saber o porquê... A culpa é toda minha. – Soluçou. – Por favor, me perdoa.
— Mãe, eu não estou com raiva da senhora. – O homem então se levantou, caminhou até sua progenitora e a abraçou forte. – Estou chocado, claro, mas não com raiva. Itachi também é seu filho, a senhora também se sacrificou pra ficar perto dele e aguentou humilhações durante tantos anos. – Sasuke levou sua mão até a face de sua progenitora para limpar suas lágrimas. – Não chora, vai.
— Eu te enganei a vida toda...
— Também enganei a Sarada. – Completou. – Digamos que é a vida me dando um troco.
"E olha que eu nunca fui um bom pai. Gostaria de ter sido pra Sarada metade do que a senhora foi pra mim durante a minha vida toda.", pensou o moreno.
— Todos nós enganamos a Sarada. Você também foi vítima, sequer estava aqui quando ela... – Suspirou. – Enfim, quando ela foi sequestrada.
— Mas não contei a verdade. – Respondeu. – Omiti tudo, a fiz acreditar que havia sido abandonada pela mãe da mesma forma que a senhora me fez acreditar que o Fugaku era meu pai. – Riu sem humor. – Agora eu conheço essa sensação. Não é legal, mas eu não tenho a idade da Sarada, posso compreender seus motivos, mãe.
— É bom ouvir isso. – A morena esboçou um sorriso sincero. – Pensei que você me odiaria caso soubesse dessa história algum dia.
— Mas, mãe, posso saber por que a senhora está me contando isso agora?
— Porque aquele monstro está passando dos limites. Não duvide que ele seja capaz de matar a Sarada. – Falou séria. – Da minha boca ele não vai saber sobre a gravidez da Sakura, mas ele pode descobrir por conta própria e tomar medidas drásticas como fez quando Sarada nasceu... – Manteve os olhos fixos em seu filho, falando no tom de voz mais sério que conseguia. Sasuke podia ver claramente que a bebida não havia afetado os sentidos de sua mãe, ela estava perfeitamente sóbria. – Se o que impedia você de tirar o Fugaku do caminho era o fato de ele ser seu pai, então eu te dou o sinal verde. Vocês são primos em segundo grau, não pai e filho.
— A senhora está me pedindo para matá-lo?
— Claro que não. Eu falei isso? – Questionou enquanto enchia novamente o copo com whisky e colocava mais dois cubos de gelo. – Apenas tirei o seu impedimento de proteger sua família de uma vez por todas. Se ele ameaça a sua família, Sasuke, então faça o que acha que deve ser feito, sem impedimentos ou remorso.
Não era só isso. Mikoto praticamente implorava para que Sasuke matasse Fugaku, embora não dissesse.
— E a senhora? – O tom curioso de Sasuke fez uma expressão confusa surgir no rosto da mulher. – Durante quase trinta e quatro anos aguentou humilhações de um homem que, pelo que a senhora disse, sempre fez questão de jogar na cara essa traição... Por que nunca fez nada?
— Sasuke... – Falou em tom de aviso. – Não diga isso. Você não sabe quantas vezes eu já pensei em sufocá-lo com um travesseiro. Você não sabe o que eu já ouvi daquele homem desde que você nasceu... Eu também sofri muito, você não foi o único.
— Então por quê?
— Não sei. – Deu de ombros. – A verdade é que eu nunca tive coragem.
Sasuke então percebeu que Mikoto tinha um pouco de Sakura. O Uchiha estava vulnerável, nu, algemado... Sakura tinha uma arma e poderia matá-lo naquele exato momento se quisesse. Na época ela ainda tinha ódio do moreno, uma vez que não sabia o que realmente tinha acontecido. Todavia, Sakura hesitou, não teve coragem de matar Sasuke.
Talvez Mikoto fosse assim também. Decidida, valente, uma mulher de fibra, de atitude. No entanto, no fundo, uma pessoa de coração bom e incapaz de matar alguém.
Mas Sasuke tinha quinze anos de máfia, já havia matado várias pessoas de muitas formas diferentes. Já havia usado de métodos desumanos para fazer alguém confessar alguma coisa – como fez com Hinata e muitas vezes até pior –, então tinha o sangue frio. Não se impressionava com qualquer coisinha, uma vez que já havia presenciado coisas horríveis, já havia matado pessoas de formas extremamente cruéis... Para Sasuke, matar alguém era como parte de sua rotina.
Mikoto não tinha experiência com isso. Não saberia como esconder provas, evidências. Jamais conseguiria arquitetar o crime perfeito como um mafioso faria.
Itachi não tinha motivos para matar o próprio pai, mas Sasuke... Sequer era filho de Fugaku, sem falar que estava com sua família sendo ameaçada.
— Entendo... A senhora jamais seria capaz de tirar a vida de alguém. – Disse o moreno. – Eu também não gosto de fazer isso, mas, se for necessário...
— Agora você já sabe que não é filho do Fugaku, sabe que ele não hesitaria em matá-lo.
— Mas, a Sarada... – Sasuke insistia em se iludir, mas até tinha seus motivos pra isso. – A Sarada cresceu aqui, ele sempre teve mais contato com ela do que eu... Ele seria...
— Sasuke. – Mikoto o interrompeu. – Sarada não é neta dele. Fugaku só finge ser apegado a ela, aquele monstro não hesitaria em matá-la. Aquele homem não tem sentimentos, não duvido que até Itachi ele teria coragem de matar caso achasse necessário. – Bufou, falando enojada sobre o marido. – Toma cuidado, ele é perigoso. Aquele homem não ama ninguém, ele não pensaria duas vezes antes de matar alguém para benefício próprio.
— Juro que cheguei a pensar que ele amasse a Sarada... Por um tempo pensei isso... – Sasuke riu sem humor.
— Ele sempre usou a Sarada, será que você não percebeu? – Mikoto perguntou irritada. – Sua ingenuidade às vezes me assusta, Sasuke! Não pensei que um mafioso no fundo fosse tão bonzinho. – Falou com deboche. – Fugaku percebeu que você queria a Sarada longe da máfia e, unicamente por causa disso, a criou pra ser uma mafiosa. Mantendo a Sarada sob suas ordens, ele poderia controlar você como quisesse. – Bradou. – Abra os olhos, deixe de ser inocente! Fugaku não te ama, não ama a Sarada, ele só ama a si próprio!
— A situação é pior do que eu pensava... — Bufou.
Sasuke pensou que o fato de ser filho de Fugaku impediria o mais velho de matá-lo, afinal, fazer ameaças não é o mesmo que cumpri-las. No entanto o caso era mais complexo. Fugaku nunca foi o pai de Sasuke, o que significava que não havia impedimentos para Fugaku tirá-lo do caminho, tal como seus filhos.
— Fugaku odeia ser contrariado. Ele ordenou que você e a Sakura não revelassem a verdade para Sarada, mas ela ficou sabendo. Vocês o contrariaram e com certeza estão na mira dele. – Falou seriamente, deixando Sasuke preocupado. – Você se lembra das suas aulas de história, Sasuke? – Mesmo confuso com a pergunta, Sasuke assentiu. – Na época do absolutismo, quando alguém traía o rei, o que acontecia?
— A pessoa era executada. – Respondeu.
— Sim. – Assentiu. – A pessoa era executada e sua cabeça ficava exposta numa lança para servir de exemplo. – Explicou. – Fugaku é o rei, o líder da Amaterasu, ele não vai aceitar facilmente essa traição. Você e a Sakura não se importaram com a ameaça e contaram a verdade pra Sarada.
— E a senhora acha que ele nos mataria para servir de exemplo para os outros?
— É bem por aí. – Assentiu. – Quer um conselho? Faça algo antes que o pior aconteça.
Sasuke assentiu, mas ainda estava com a cabeça confusa. A situação era muito mais crítica do que Sasuke pensava e agora estava realmente com medo.
A ameaça era maior do que o moreno imaginava.
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