Amaterasu
25 Capítulo 24
Notas iniciais
Toská, Rússia
14 de abril de 2016
07:56 A.M.
Pela segunda vez encarava o prédio da Corte de Toská. Em algumas horas saberia o seu destino. Estava sendo acusado injustamente.
Não tinha culpa de nada, então por que era tão difícil provar sua inocência? Por que aquelas pessoas mentiam?
Os Uchiha eram tão poderosos assim? Até mesmo uma colega de sua esposa estava ao lado deles!
Adentrou aquela mesma sala da semana anterior. O mesmo público estava presente.
A família Uchiha de um lado e a família Hyuuga do outro. Shikamaru estava ali naquele dia também.
Boruto estava abatido, podia notar de longe. O que se passava pela cabeça dele? Ele acreditava em todas aquelas mentiras? Queria abraçar o filho e consolá-lo pelas mortes em sua família. Sentia vontade de correr dali, fugir daquilo. Não era justo!
Os culpados estavam bem ali, na plateia, porque ele quem estava sendo julgado?
Os jornalistas estavam ali novamente, prontos para saberem o resultado do seu julgamento. Aquilo viraria notícia em Toská, talvez se expandisse. Que nome ridículo eles dariam àquele caso?
Suas esperanças eram mínimas. O advogado que contratara de última hora não parecia ser muito experiente, sem falar que as únicas testemunhas de sua inocência, aparentemente, estavam do lado dos Uchiha.
Sentou-se em seu lugar, ao lado de Shino.
Apenas mais algumas horas e aquilo estaria encerrado. Iria para a cadeia ou estaria livre?
— Hoje estaremos retomando o caso de número 37, do qual o réu é o senhor Naruto Uzumaki, dono do restaurante Kyuubi, culpado por sequestro e possível homicídio da meia-irmã, Karin Uzumaki, da esposa, Hinata Hyuuga, e da filha, Himawari Uzumaki. Culpado também pelo homicídio de quatorze membros do corpo policial da cidade de Toská. – O juiz, Tobirama Senju, deu início à sessão.
Shino levantou-se de seu lugar e foi até a frente.
— Meritíssimo senhor juiz... – Saudou. – Bom dia a todos. Todos já estão a par da situação do meu cliente, o senhor Uzumaki. Ao que tudo indica, ele não estava trabalhando na manhã do dia 29 de março do corrente ano, nem estava em uma reunião. Porém isto não quer dizer que ele estivesse em casa. O fato é que o senhor Uzumaki é acusado de ter matado doze... Repito: doze guardas! – Deu ênfase no número. – Doze guardas que vigiavam sua casa dia e noite. Não é possível que apenas um homem tenha sido capaz de fazer isso sozinho sem ser notado. Os policiais estavam em busca dos corpos, sequer sabiam onde procurar, procuraram nos locais possíveis para que meu cliente tivesse os escondido. Mas uma pessoa os encontrou e comunicou à polícia. Convido o senhor Gai Maito a se fazer presente no tribunal.
As portas foram abertas. Um homem de olhos negros e cabelos na mesma cor, em um corte tigelinha, adentrou o tribunal, escoltado por um policial.
Logo ele assumiu seu posto.
Naruto franziu o cenho, o homem era estranho. Sobrancelhas grossas demais, quase formando uma monocelha, isso somado ao corte tigelinha.
— Senhor Maito... – Shino chamou. – Explique a todos como o senhor encontrou os corpos.
— Bem... Eu... – A testemunha tremeu um pouco. – Eu trabalho na fazenda da família Uchiha...
Naruto prensou os lábios... Aquela família estava envolvida em tudo, mas parece que não foram capazes de comprar um reles fazendeiro. O loiro notou que algumas pessoas do júri comentavam algo diante daquela afirmação.
— Eu cuido da fazenda, já que eles raramente a usam. Vou lá todos os dias... – Gai voltou seus olhos para a família Uchiha na plateia e engoliu em seco. Eles assustavam um pouco, exalavam superioridade. Provavelmente seria demitido por comunicar aquilo. – Eu encontrei os corpos no celeiro... Pouco uso o local, por isso não vi logo... Mas então eu percebi que alguns animais ficavam um pouco perturbados quando passavam perto. Entrei para verificar o que tinha de errado e vi os corpos... – Deu uma pausa, demonstrando estar perturbado. – Estavam perfeitamente alinhados e... – Fez uma careta. – Sem cabeça.
O loiro fez uma careta, assim como a maioria das pessoas que estavam presentes no tribunal.
— Eu demorei um pouco para sair do choque... Quase não consegui sair do canto para comunicar aquilo à polícia. O cheiro era horrível, afinal estavam ali há dias, não consigo esquecer a cena. – O moreno baixou a cabeça. – Fiquei com medo dos meus chefes por causa daquilo, admito. Eles são os únicos que usam a fazenda, então...
— Então o senhor acha que foram eles? – O Aburame perguntou.
— Não estou dizendo que foram... Mas, ninguém frequenta o local além deles. – Passou a mão nervosamente pela nuca. – Eu fiquei confuso, afinal o senhor Sasuke sempre foi um bom garoto... Eles iam com mais frequência quando a senhorita Sarada era criança, ela gostava de andar a cavalo. Na época eu era mais novo, ajudava meu pai por lá. A Senhora Mikoto é uma ótima patroa... O senhor Fugaku e o senhor Itachi visitam a fazenda raramente, mas são bons patrões também. Acho um pouco difícil eles terem feito algo como isso, mas... Os corpos estavam lá.
— Às vezes as pessoas não são o que aparentam. Encerro minhas perguntas. – Shino voltou a sentar-se em seu lugar.
— Promotor, o senhor tem alguma pergunta? – Tobirama indagou.
— Sim, meritíssimo. – Yamato acenou e dirigiu-se à frente. – Bem, o que posso ver é que temos alguém querendo incriminar a família Uchiha. Quando foi a última vez que um de seus patrões foi à fazenda, senhor Maito?
— O senhor Sasuke foi lá em fevereiro, foi arrumar o quarto para uma noite romântica. Mas ele não chegou a levar a mulher lá... Quer dizer... Pelo que conheço daquele garoto, ele não acorda cedo e, sempre que leva alguma mulher, ela ainda amanhece por lá... E no dia seguinte ele não estava lá, muito menos a vítima dos encantos dele... A fazenda estava como deixei.
Naruto sentiu o ódio invadi-lo. Seria Karin a mulher?
— Lembra-se qual foi o dia que isso aconteceu? – Yamato perguntou.
— Não, mas já foi mais pro fim do mês. – Respondeu.
— Karin Uzumaki foi vista pela última vez no dia 28 de fevereiro. Foi vista entrando em um carro sedã negro, de acordo com os vizinhos. O carro não entrou no condomínio, então não foi filmado, mas o vigia que estava no dia afirma ter sido um Corolla. Não é o modelo de seu carro, senhor Uzumaki?
— Eu não fui à casa da Karin naquele dia... Eu estava em casa com minha família! – O homem se alterou. – Estes desgraçados querem colocar a culpa em mim!
— Ordem! – O juiz bateu o malhete. – Senhor Uzumaki, exijo comportamento.
— Mas...
Foi interrompido por um golpe atrás de seus joelhos, fazendo-o sentar novamente.
— O senhor não viu nada de suspeito na fazenda depois disso? – Yamato perguntou.
— Vi cinzas, queimaram algo por perto, mas não há ninguém que more próximo à fazenda dos Uchiha... Depois disso, só os corpos. Logo comuniquei à polícia e eles encontraram mais coisas por lá. Como o distintivo de uma policial desaparecida e uma faca da coleção de um cara suspeito...
— O distintivo encontrado foi o de Karin Uzumaki e a faca encontrada foi esta... – O promotor pegou um pacote sobre sua mesa e mostrou a todos. – Reconhece o utensilio, senhor Uzumaki?
Naruto arregalou os olhos, conhecia a faca muito bem. Era da coleção que usava em casa. Como aquilo fora parar na fazenda? O distintivo encontrado era de Karin, então ela estava mesmo morta?
— O utensílio tem suas digitais e, de acordo com os especialistas, os cortes feitos para arrancar as cabeças foram feitos por esta lâmina.
— E-eu não... – Sequer conseguia falar.
Como aquilo estava acontecendo? Como todas aquelas mentiras não eram notadas pelo júri? Só ele ali sabia que tudo aquilo era mentira?
Olhou para trás, encarando os Uchiha... Onde estava Sasuke? A única Uchiha que conhecia pessoalmente ali era Sarada, nunca vira o restante, a não ser pelos veículos da mídia. Sentia raiva quando a olhava e via que a mesma fingia estar triste por ele.
Eles também sabiam que aquilo era mentira. Seus rostos impassíveis apenas comprovavam seu pensamento. Apenas Sarada e a mulher de cabelo rosa pareciam não concordar com aquilo. Mas ele sabia que a culpa era de Sarada, tudo aquilo começara com um assassinato que ela cometeu.
Mas por que destruir sua família? A família do namorado dela.
Voltou-se para frente novamente. Não conseguia ver um fim onde ele se desse bem. Onde estavam as provas contra os Uchiha? Sua esposa possuía diversas provas que os acusavam.
— E antes deste dia, alguma vez viu algo suspeito? – Yamato perguntou.
— Não... – Fez uma pausa tentando lembrar. – Não, nunca notei nada diferente por lá...
— Encerro minhas perguntas. – O promotor falou.
— Está dispensado, senhor Maito. – O juiz informou.
O homem saiu do tribunal.
— Gostaria de chamar ao tribunal o senhor Sasuke Uchiha. – Yamato falou.
Naruto sentiu o sangue ferver ao ouvir o nome do Uchiha. Olhou para trás para vê-lo entrar.
As portas foram abertas e o homem entrou acompanhado por um guarda.
Estava sério, um pouco emburrado. Não queria estar ali, mas não via a hora de tudo aquilo acabar e tentar ficar em paz com Sakura e Sarada, em seu lar, sem ter que se preocupar com as buscas incessantes da polícia.
Sentou-se em seu devido lugar para dar seu falso testemunho. Não sabia como tudo estava indo exatamente. Por ser testemunha, não podia assistir ao julgamento.
O pouco que sabia era que tudo estava dando certo para eles, e que havia grandes chances de Naruto ser preso. Sarada se recusara a falar sobre o julgamento na semana anterior, ela estava com raiva por ele ser testemunha de acusação. Sakura era boa demais para estar do lado de sua família, mas ficava imparcial por causa da filha. Sabia que as duas estavam desconfortáveis com tudo aquilo.
Ele próprio estava desconfortável, afinal estava destruindo a família de Boruto. Sabia o quanto Sarada o amava. Queria ver a filha feliz. Mas se aquilo não fosse feito, sua vida seria em uma cela solitária, esperando uma sentença de morte. Este seria o destino de Sarada também.
Era este o pensamento que o fazia dormir à noite, o de que fazia aquilo por um bem maior... Por Sarada.
— Senhor Uchiha, o senhor conhece este homem? – Apontou para Naruto.
Sasuke olhou para o loiro, podia ver o ódio e a dor em seus olhos azuis.
— Sim, é o pai do namorado da minha filha. – Comentou.
— Vocês são amigos? – Yamato ergueu uma sobrancelha.
O Uchiha virou a cabeça um pouco para o lado.
— Bem... A Sarada, minha filha, me levou uma vez na casa deles para conhecê-los. Eu não me senti muito bem-vindo pela esposa dele, a Hinata... – Fez uma pequena pausa. – Não sei explicar, ela parecia desconfiada quando falei que trabalhava na Tsukuyomi e no Izanagi. Mas ele... – Apontou para Naruto com um movimento de cabeça. – Ele pareceu gente boa.
— O senhor conhecia Karin Uzumaki? – Perguntou o promotor.
— Uzumaki? Não sei se este era o sobrenome dela, mas eu lembro de uma Karin, ela era ruiva e tinha olhos castanhos meio avermelhados. Ela me disse que era professora de Matemática, ou seria de Russo? – Tentou lembrar, ela havia falado das duas disciplinas para ele. – Eu dormi com ela algumas vezes, mas ela sumiu. – Falou. – Quero dizer, eu marquei um encontro com ela, ia levá-la para a fazenda da minha família, afinal eu tinha gostado dela. Mas ela não apareceu, não atendeu mais o celular, nem respondeu minhas mensagens. Achei que eu tinha sido feito de trouxa, mas parece que a situação é mais séria que isso... – Abaixou a cabeça, fingindo tristeza.
— A última vez que ela foi vista foi no dia 28 de fevereiro. Foi este o dia de seu encontro com ela? – Yamato perguntou.
— Acho que sim, era no fim de fevereiro, num domingo. – Respondeu.
— O senhor falou que não se sentiu bem-vindo pela detetive Hyuuga em sua casa... Houve mais alguma vez que sentiu hostilidade por parte dela? – Yamato cruzou os braços.
— Várias. Depois de conhecê-la, lembro-me de termos nos encontrado por acaso em um supermercado, ela soltou algumas indiretas para mim, eu não entendi muito bem, mas depois de alguns dias eu compreendi. Ela levou um mandado de apreensão e prisão, alegando que minha filha e eu portávamos armas ilegais. Ela, o delegado e mais alguns colegas revistaram a minha casa inteira.
— E encontraram alguma arma?
— Sim, eu tenho uma Heckler & Koch USP Compact. Mas eu tenho documento de porte legal. Aparentemente não era a arma que eles procuravam. – Franziu o cenho, fingindo estar incomodado com aquilo, o que não era de todo mentira, afinal aquilo fora realmente um incômodo. – Depois isso, aparentemente, a Hinata colocou na cabeça do filho que minha família não era uma boa influência, então ele terminou com a Sarada. Os dois ficaram arrasados. Eu fiquei irado... Se ela tinha algum problema comigo, que resolvesse comigo e não envolvesse a Sarada e o Boruto nisso. – Alterou um pouco a voz.
— Não se altere, senhor Uchiha. – Tobirama alertou.
— Desculpe-me, meritíssimo. – Se encolheu um pouco na cadeira. – Eu conversei com o Boruto depois disso e ele se acertou com a Sarada. Achei que estaria tudo bem depois disso... – Suspirou. – Mas, então, a Hinata apareceu em minha porta falando algo sobre eu ameaçar a filha dela, me chamando de covarde por falar coisas ruins para uma criança.
Naruto se levantou em um rompante.
— Ela era uma criança! O que fez com ela, maldito? – Gritava enquanto saia de seu lugar.
Os dois guardas que o escoltavam o seguraram pelos braços e sentaram-no de volta.
Sasuke assistia à cena com o cenho franzido e ao mesmo tempo lançava um olhar de pena.
— Ordem! Senhor Uzumaki, o seu comportamento em nada te ajuda. – O juiz o olhou friamente.
— O senhor realmente se encontrou com Himawari Uzumaki? – O promotor perguntou, quando o silêncio retornou.
— Ah, é... Eu me encontrei sim, ela estava sozinha em uma praça, ajudando um passarinho. – Sorriu docemente enquanto falava. – Ele tinha caído do ninho... Eu a mandei voltar pra casa, afinal é perigoso ficar só, ainda mais uma criança como ela. – Franziu o cenho novamente. – Aparentemente, a Hinata entendeu errado... Muito errado. Ela disse para eu ficar longe da família dela, chamou a minha família de baixa e disse que, por ela, nós estaríamos definhando atrás das grades.
Naruto estava com os punhos cerrados, tudo o que o Uchiha falava dava-lhe a certeza de que ele era culpado pelo desaparecimento de sua família. Primeiro Karin, depois Hinata e Himawari. Ao menos Boruto estava vivo e em paz. Aparentemente o moreno não fizera nada com ele fisicamente... Mas destruiu toda a família e deixaria o garoto sozinho.
— O senhor sabe de algo sobre os corpos encontrados em sua fazenda? – Yamato perguntou.
— Bem, apesar de eu ser o que mais frequenta o local, a última vez que fui até lá foi no fim de fevereiro. Eu não cheguei a ver os corpos, mas o senhor Maito parecia desesperado falando sobre aquilo. Meu pai, Itachi e eu fomos interrogados, mas nós não sabíamos de nada sobre os corpos. O que me pareceu foi que alguém queria nos acusar... Admito que cheguei a pensar na Hinata, mas... – Abaixou a cabeça para aparentar que sentia muito pela morte dela. – Ela foi sequestrada junto com a filha dela. Eu não gostava dela, não vou mentir, mas... Ela não merecia isso, muito menos aquela criança. – Cerrou os punhos, ele realmente pensava isto de Himawari, sentia-se horrível por ter tirado a vida de uma criança. – Eu não esperava que o suspeito fosse o Naruto, ele parecia uma boa pessoa em todas as vezes que o vi.
Sarada derramou uma lágrima, ouvir Sasuke admitir que matara Hinata e Himawari foi horrível, mas vê-lo mentir diante do tribunal, diante de Naruto e Boruto, que eram os que mais sofriam com aquilo, era ainda pior. Não conseguia aguentar. Olhou para o lado, vendo Boruto.
O loiro não derramava lágrimas, mas era visível o quão abatido estava.
Sentia-se horrível, não sabia se conseguiria permanecer ao lado dele, não se sentia no direito de fazê-lo.
Sentiu Sakura abraçá-la. Sentia-se protegida ao lado da rosada e gostava da sensação, mas ainda não havia se acostumado totalmente com a ideia de ter sua mãe perto de si.
Do outro lado, Hanabi e Neji estavam confusos, os relatos do Uchiha em nada se pareciam com a sua irmã. Hinata sempre fora doce, em nada se parecia com uma policial, apesar de ser extremamente bem-sucedida na carreira, fora do trabalho ela era um anjo.
Boruto ouvia tudo aquilo sem acreditar. Mas a verdade era que sua mãe realmente tinha mudado nas últimas semanas e implicava com os Uchiha. Mas também não acreditava que a família de Sarada fosse culpada.
Sua namorada era forte e destemida, enfrentara até mesmo um bandido. Sasuke parecia um homem frio, mas depois da conversa que tiveram, quando o moreno pediu para que ele voltasse a namorar a filha dele, não conseguia imaginar que ele era capaz de ferir alguém. Parecia um bom homem.
Quanto ao seu pai... Conseguia ver o quanto ele estava sofrendo com tudo. Tudo que ouvira no tribunal o levavam a imaginar que ele era realmente culpado, mas então lembrava-se do sorriso dele. Não... Seu pai era inocente, mas por que não tinha provas disso?
Estava confuso com tudo, estava arrasado com a morte de sua mãe e de sua irmã. E agora o sentimento da perda de sua tia, Karin, também estava de volta. As três haviam sumido. Será que estavam mesmo mortas? Talvez não... Talvez ainda houvesse esperança.
Talvez seu pai pudesse ser livre se encontrassem as três. Será que era querer demais?
— Encerro as minhas perguntas. – Yamato retornou para seu assento.
— A defesa tem alguma pergunta para o senhor Uchiha? – O juiz indagou para o advogado.
— Sim, meritíssimo. – O Aburame levantou-se e dirigiu-se até a frente. – Senhor Uchiha, não acha estranho que seus empregados estejam envolvidos na história? Tem certeza que não sabe de nada?
— Protes... – Yamato ergueu-se, mas foi interrompido pela voz do Uchiha.
— Desculpa, mas eu não persigo meus funcionários para saber o que eles fazem... Soube que Shizune e o senhor Maito foram testemunhas aqui e, respondendo sua pergunta, sim, eu acho estranho eles estarem envolvidos nesta história. Conheço o senhor Maito desde que eu era criança, ele é um bom homem, sempre feliz e animado com todo aquele tal “fogo da juventude” dele. Shizune também está conosco há um tempo, ela também é uma ótima pessoa. – Respondeu convicto. – O que eu acho estranho é este homem querer usá-los para nos culpar... Como disse antes, se tem problemas comigo, resolva comigo, não envolva inocentes. – Olhou com raiva para Naruto.
O loiro retribuiu o olhar. Como alguém podia ser tão terrível àquele ponto? Ele não tinha coração ou qualquer tipo de sentimento? Tinha vontade de soca-lo ali na frente de todos, até ele confessar os crimes.
— Não tenho mais perguntas. – Shino recolheu-se para o seu lugar.
Aquilo estava perdido, não havia mais como inocentar o Uzumaki. Havia apenas como livrá-lo da morte e dar a oportunidade de um dia viver livre. Era tudo que restava para o loiro.
— O senhor acha que isso pode ter algo a ver com o dinheiro de sua família, senhor Uchiha? Não seria a primeira vez que os Uchiha sofrem algum tipo de ataque por causa de dinheiro e status. Há quase dezenove anos houve o atentado contra Izuna Uchiha por causa de status perante a sociedade. Então, o que o senhor acha? – Tobirama mostrou-se interessado.
Lembrava-se claramente do atentado, afinal seu escritório de advocacia, na época, ficava próximo ao prédio onde ocorreu a explosão que matou Izuna Uchiha.
— Sequer sabemos se o Naruto é mesmo culpado, meritíssimo. Mas se foi ele, não acho que tenha o feito por dinheiro... Mas nunca se sabe. – Deu de ombros.
— O senhor tem razão, o senhor Uzumaki ainda não recebeu seu veredicto, mas, quem quer que tenha sido, pode-se pensar nesta possibilidade. – O juiz voltou-se novamente para frente. – Está dispensado, senhor Uchiha.
Sasuke acenou de leve com a cabeça e se encaminhou para a saída.
Naruto sentiu vontade de socá-lo, mas precisava manter o controle, as coisas já estavam ruins demais para o seu lado, sem contar com o fato de que estava algemado.
O Uchiha olhou brevemente para Boruto. Sentia mais pela situação dele do que pela de Naruto. Sabia que as coisas não ficariam bem para Sarada e o loirinho. Isto lhe doía quase tanto quanto a morte de Himawari.
Voltou seu olhar para Sarada. Viu rastros de lágrimas no rosto dela e viu que Sakura tentava consolá-la. Naquele momento ele pensou que jamais seria perdoado por Sarada, mesmo que ela entendesse, ela não o perdoaria. Teria que conviver com isso pelo resto de sua vida, mas preferia ser odiado por ela a vê-la morta.
Abaixou a cabeça e saiu em completo silêncio.
Shino levantou-se. A última testemunha que tinha não era muito boa, mas ela já estava ali e iria usá-la, mesmo que não fosse ajudar muito.
— Chamarei agora uma das vizinhas do senhor Uzumaki, a senhorita Moegi. – Informou.
A mulher adentrou o tribunal, sendo escoltada assim como as outras testemunhas. Possuía olhos escuros e cabelos ruivos alaranjados, aparentava estar na faixa dos 25 anos.
— Senhorita, pode nos falar um pouco sobre como o senhor Uzumaki é como vizinho? – O advogado indagou.
— O senhor Uzumaki é... – Prensou os lábios. – Ele era um bom vizinho. Nunca demos notícias de brigas entre ele e a esposa. Parecia um exemplo maravilhoso de família, sempre felizes, brincando com os filhos. A casa deles sempre era a mais bonita no natal. – Sorriu. – Ele era o melhor vizinho, sempre fazia tortas deliciosas ou outros doces... Chamava-nos para comer na casa dele. Ele é um grande chef de cozinha. – Seu sorriso morreu. – Foi muito chocante ver o que houve na casa dele naquele dia.
— Nunca notou nenhum comportamento estranho no senhor Uzumaki? – Shino perguntou.
— Não, nunca... Ele sempre pareceu uma pessoa alegre e espontânea. Sempre sorridente e alegre, era simpático com todos. Sempre fazia festas de despedida para algum vizinho que ia embora e sempre fazia festa para algum novo vizinho. Fazia questão de se entrosar com todos. – Riu. – Ele fazia tudo a sua volta ficar mais alegre, era impossível não sorrir quando se estava com ele.
— Não tenho mais perguntas. – O advogado voltou para seu lugar.
— Promotor, deseja fazer alguma pergunta? – O juiz indagou.
— Sim, meritíssimo. – Levantou-se. – A senhorita conhecia os moradores da casa 22, vizinhos do senhor Uzumaki?
— Não muito, apenas de vista, alguns deles. – Comentou.
— A senhorita disse que o senhor Uzumaki costumava dar comida par os vizinhos. Isso acontecia com os homens daquela casa também? – Yamato perguntou.
— Acredito que sim, o vi conversar com aqueles homens algumas vezes. – Respondeu.
— Na necropsia dos doze corpos foram encontradas doses de Diazepam. Os investigadores suspeitam de que o senhor Uzumaki tenha utilizado a substância para poder matar os doze guardas, encontraram caixas de comprimidos deste medicamento na residência do réu. Acredito que agora saibamos como o senhor Uzumaki deu a substância para os guardas. – Yamato comentou.
— Eu não tenho posse deste tipo de remédio! – Naruto esbravejou.
— Encerro minhas perguntas. – O moreno voltou para seu lugar.
Yamato estava satisfeito, já se sentia vitorioso. Não havia como Naruto não ser culpado pelos seus crimes.
— Está dispensada, senhorita Moegi. – Tobirama informou.
A mulher se retirou do tribunal.
— Não havendo mais testemunhas de nenhum lado, convido a psiquiatra, Doutora Shiho, a se fazer presente ao tribunal para apresentar ao júri o laudo médico do réu, o senhor Uzumaki. – O juiz deu continuação.
Uma mulher de cabelos loiros mal presos em um rabo de cavalo baixo e óculos fundo de garrafa adentrou o local, sendo escoltada.
Naruto lembrou-se das consultas desagradáveis com a mulher.
O loiro sabia que, diante dos testemunhos, seu destino só poderia ser a prisão. Apesar de ser inocente, os Uchiha deram um jeito de culpá-lo por tudo.
— Doutora Shiho, após os acontecidos com a família Uzumaki, os investigadores levaram o patriarca até a senhorita para avaliação psiquiátrica com suspeita de algum distúrbio mental. Antes de qualquer decisão do júri, apresente o laudo médico do réu para agirmos justamente diante do caso. – O Senju deu a permissão para que Shiho começasse.
O loiro teve vontade de revirar os olhos diante da palavra “justamente”. Nada ali estava sendo justo. A maioria das provas apresentadas contra si eram mentiras.
— Meritíssimo... – Saudou. – Diante do curto tempo desde o ocorrido, foram poucos momentos que tive com o senhor Uzumaki. Os investigadores vieram até mim com a hipótese de que o suspeito sofresse de esquizofrenia, o que não é incomum entre suspeitos deste tipo de crime. – Começou a falar sobre o caso. – De fato, o paciente sofria alguns delírios, falava que alguém estava perseguindo ele e sua família, que estas pessoas mataram sua família, o que é bastante comum em casos da doença...
— Não era delírio! – Naruto gritou e olhou para os Uchiha na plateia. – Foram eles! Destruíram minha vida e do meu filho. Mataram aquelas que nos eram mais importantes.
O Uzumaki foi puxado bruscamente para o assento pelos guardas.
— Ordem! Espero que esta seja a última vez, senhor Uzumaki! – O juiz o olhou. – Prossiga, doutora.
— Como estava dizendo, este... – Apontou para o réu. – É um sintoma comum em pacientes esquizofrênicos. É comum o comportamento explosivo que o senhor Uzumaki apresenta. – Olhou para os papeis que tinha em mãos. – Outro sintoma apresentado foi a desmotivação. Ele parece bastante abatido, o que pode ser devido às possíveis mortes de sua irmã, esposa e filha. Ainda assim, não se pode descartar este fator, afinal ele mudava repentinamente para agressividade, bem como demonstrava crises de ansiedade.
Naruto franziu o cenho. Não estava acreditando que até mesmo a psiquiatra iria mentir. Remexeu-se incomodado na cadeira. Odiava os Uchiha, isto era um fato. Sua esposa tinha razão sobre eles.
— Em dados momentos, ele demonstrava estar indiferente ao que se passava. Era realmente possível ser um caso de esquizofrenia, mas... – Suspirou pesadamente.
Shiho observou os Hyuuga sentados atrás do réu. Neji Hyuuga era um homem rico, com certo poder em suas mãos, diferente de sua irmã, Hinata, esposa – possivelmente falecida – de Naruto Uzumaki.
Tudo o que conhecia sobre o caso vinha das informações recebidas dos policiais. O lado do seu paciente era totalmente diferente. Ele culpava a família Uchiha por tudo.
— O senhor Uzumaki, em alguns momentos, se comportava de maneira totalmente diferente, como se fosse outra pessoa. – Fechou os olhos. – Percebi que ele demonstrava ter alguns lapsos de amnésia dissociativa. Logo pude notar que os comportamentos diferentes não eram parte de um diagnóstico de esquizofrenia e sim partes de outra personalidade.
As expressões de surpresa podiam ser notadas em quase todos os presentes no tribunal.
— O senhor Uzumaki apresentou ter algumas personalidades a mais. Algumas personalidades se destacaram na consulta. Aparentemente, o senhor Uzumaki é realmente inocente de seus crimes.
Naruto ficou boquiaberto. Seria aquela a sua chance de sair impune? Não iria preso?
Por outro lado, Madara, apesar de não expressar emoção alguma, sentiu-se frustrado. Como alguém poderia dizer que o Uzumaki era inocente depois de tudo? Se o Uzumaki ficasse livre, seria uma pedra no sapato da família Uchiha.
Yamato franziu o cenho. Não conseguia acreditar que havia a possibilidade de perder naquele caso.
— Os ataques de fúria que o senhor Uzumaki apresentava não eram, necessariamente, dele. Eles eram acompanhados por outro nome, uma personalidade agressiva que se identificava como Kurama, suponho que esta personalidade seja responsável por algumas mortes, pois, ao que me parecia, ele gostava de... – Suspirou. – Fatiar. Aparentemente o Kurama é uma personalidade psicopata do senhor Uzumaki.
Naruto demonstrava-se incrédulo diante da história da psiquiatra. O que era aquilo? Ela queria culpá-lo ou não? Não conseguia compreender completamente.
Boruto observou as costas do pai. Também se sentia confuso. Afinal seu pai era ou não inocente. Não tinha mais certeza de nada. Amava seu pai, não conseguia vê-lo como culpado. Mas o que era aquela história que a psiquiatra estava contando?
— Outra personalidade notável era um homem que demonstrou ser bastante ciumento, aparentemente ele sentia ciúmes de sua esposa e irmã, envolvidas com... – Olhou para os Uchiha. – Sasuke Uchiha. Ele acreditava que as duas tinham algo com ele. Este se apresentava como Menma e ele queria manter as mulheres longe do Uchiha. Começou pela irmã, depois foram a esposa e a filha. A mais nova sofreu isso por, de acordo com esta personalidade, precaução. – Mexeu as mãos nervosa. – Infelizmente as atitudes dele foram muito extremas.
— Está dizendo que eu matei minha própria família? Está dizendo que eu tenho outras personalidades? Eu... – Naruto falava assustado. – Eu não sou louco... Você está dizendo que sou louco?
— É comum que uma personalidade não se lembre de outra personalidade distinta, senhor Uzumaki. – Shiho explicou. – Resumindo, o senhor Uzumaki sofre de Transtorno Dissociativo de Identidade. O senhor Uzumaki não é responsável pelas mortes pelas quais ele está sendo julgado, mas sim as outras personalidades dele.
— É possível diagnosticá-lo tão rápido? – Yamato perguntou desconfiado.
— A palavra não foi dirigida ao senhor, promotor. – Tobirama alertou. – Porém, compartilho da mesma dúvida, doutora.
Estava desconfiado também. Já ouvira sobre casos onde o réu fora absolvido devido ao transtorno, como Billy Milligan, mas passava longe de ser algo comum e tão simples.
— De fato, os senhores estão certos, é um diagnóstico difícil e requer um tempo. Porém o caso foi bem favorável, as personalidades se mostraram presentes nas consultas, inclusive falando seus nomes. Pode-se dizer que dei sorte de identificar tão rápido. Foi possível notar mais personalidades, acredito que possam existir ainda mais, mas, diante do caso, estas duas foram as que considerei relevantes, chegando, praticamente, a confessar o que fizeram, talvez por não lembrar que estavam sendo julgados. – A psiquiatra respondeu a dúvida.
— Não é possível que o senhor Uzumaki esteja fingindo para que seja absolvido? – O juiz perguntou.
— Já analisei vários casos criminalísticos, meritíssimo. Alguns deles eram vítimas de alguma doença, outros fingiam tê-las. Mas é notável quando estão mentindo. Geralmente recorrem a distúrbios mais comuns, diferente do senhor Uzumaki. Este transtorno é bastante complicado de se entender, acredito que o paciente não tenha domínio sobre o assunto, são diversos sintomas, seria muito fácil achar alguma controvérsia. Este não é o caso, o senhor Uzumaki apresentou vários dos sintomas da doença, além de mostrar várias personalidades. Se me permitirem consultá-lo por mais tempo, acredito que será possível ver mais algumas personalidades.
“O senhor Uzumaki precisa de tratamento para que possa reduzir as personalidades ou, até mesmo, uni-las. Talvez, com o tempo, haja alguma sintonia entre elas, diminuindo os lapsos de amnésia.”
O silêncio dominou o local. As palavras da doutora causaram diversas reações.
Os Uchiha pareciam mais apreensivos, afinal com o Uzumaki livre, havia riscos de que o loiro conseguisse provar quem eram os reais culpados. O que tranquilizava Madara era que o loiro estava saindo impune devido a um problema mental, então a palavra dele não valeria muito.
Yamato estava dividido. Ora acreditava que ganharia, pensava que o júri não acreditaria na médica, ora sentia-se derrotado, afinal Shiho já participara de vários outros crimes, não era uma psiquiatra qualquer.
Shino ainda tinha receio se ganharia a causa ou não, mas suas esperanças eram bem maiores. Acreditava que Naruto seria inocentado. O único porém era que o mesmo passaria um tempo indeterminado em alguma instituição mental.
Naruto mal conseguia acreditar que seu julgamento foi completamente a base de mentiras, apesar de esta última ter sido a seu favor. Parecia um diagnóstico tão real que o loiro se pegou pensando se era realmente possível que tivesse outras personalidades.
— A sessão está encerrada. – Tobirama informou. – O júri se reunirá para decidir o veredicto do réu, o senhor Naruto Uzumaki. Assim que a decisão for tomada, passaremos a informação.
[...]
O tempo de espera para decisão do júri era sufocante. Naruto estava impaciente, estava assustado com qualquer que fosse a decisão. De acordo com Shino, se ele fosse inocentado, ainda teria que passar algum tempo em alguma instituição mental.
Porém, seu advogado informou que, como era saudável, seria liberado em menos tempo que o necessário, já que demonstraria melhora muito rápida. Isto ficou martelando em sua cabeça, afinal estava certo: a psiquiatra mentira sobre seu caso.
Mas, por quê? Por que ela mentiria por ele?
Estava nervoso, se descobrissem aquilo, estaria condenado, afinal aquele era seu único álibi, apesar de ser realmente inocente.
Sorriu com a possibilidade de voltar para seu filho algum dia, sorriu por ser considerado inocente, apesar das circunstancias. Mas ainda tinha o veredicto, talvez o júri não levasse em conta seu falso laudo médico.
Estava cada vez mais nervoso com a espera e os dois guardas o vigiando não ajudavam em nada.
[...]
Em outro recinto, Hanabi e Neji observavam Boruto. O loiro estava abatido, mas parecia mais tranquilo diante da possibilidade do pai não ser condenado à morte.
— O que foi aquilo? – A mais nova perguntou desconfiada.
Praticamente sussurrou para que seu sobrinho não ouvisse.
— O que? – Neji indagou indiferente.
— Transtorno Dissociativo de Identidade... – Respondeu como se fosse óbvio.
— Não sou eu o psiquiatra, Hanabi. – Deu de ombros.
— Naruto nunca apresentou isso... Por que só agora? Não acha arriscado mentir sobre as condições psicológicas de alguém? – A Hyuuga sabia que o irmão comprara a psiquiatra.
— Naruto é inocente, Hanabi, os culpados pelo que houve com nossa irmã são outros. Não acha injusto que ele fosse preso? – Respondeu.
— Inocente? – Esbravejou entredentes. – Ele sequestrou a própria irmã! Naruto não merece estar livre, Neji!
— Você não conhecia o Naruto como eu o conhecia, então não o condene!
— Você estava no mesmo tribunal que eu estava? Ele é culpado! Ele matou pessoas, Neji! Aquele homem é doente, ele não é quem você pensa que ele é!
— Você sempre foi a mais distante, mas lembra como o Naruto sempre foi bom, por que o condena? Naruto é inocente, sei que é... Ele merece mais uma chance... Na verdade nem merecia passar pelo que está passando! – Olhou sério para a irmã.
— Eu lembro como ele era... – Abaixou a cabeça. – Mas ele sequestrou nossa irmã, nossa sobrinha... Até mesmo a própria irmã! Neji, eu não consigo mais ver a mesma pessoa com quem a Hina se casou. Ele é um psicopata! Você tem noção de que está dando liberdade a um psicopata? E os Uchiha? Apesar de seu poder financeiro, você é apenas um peixinho perdido em um ninho de tubarões. – Comentou. – Eles não são culpados, você viu as provas, nada leva a eles! Naruto é perigoso... Como você não consegue ver isso?
— Não vou culpar os Uchiha, eu não sou louco... Mas o Naruto é inocente! – Resmungou.
Boruto estava alheio à conversa dos tios. Estava confuso sobre o diagnóstico do pai, mas, se aquilo iria livrá-lo de ser condenado, sentia que era o melhor, sentia que aquela era a melhor opção. Seu pai poderia ser livre em algum tempo.
Apesar de se sentir mais tranquilo em relação ao destino do pai, também sentia um pouco de medo destas outras personalidades... Elas eram reais? A psiquiatra parecia tão convicta no que falava, como nunca percebeu que seu pai tinha algum distúrbio?
Mas depois que ele passasse pelo tratamento tudo ficaria bem. Boruto sentia isso.
Estava decidido, passaria um tempo longe, esperaria o pai melhorar. Teria um novo começo com ele algum dia.
[...]
Madara estava irritado, tentava não transparecer, mas estava completamente incomodado com o fato de haver a possibilidade de Naruto não ser condenado. Planejara tudo minuciosamente, mas não esperava que a psiquiatra fosse mentir sobre as condições psicológicas do Uzumaki. Como pôde deixar passar este detalhe?
Ao menos o loiro estaria em algum manicômio. Não estaria à solta, não haveria a possibilidade de ele procurar como culpar sua família. Sasuke e Sarada ainda estavam seguros, bem como os demais.
Mikoto estava preocupada com o destino de sua família. Não sabia dizer se Uzumaki seria uma ameaça. Ele podia saber a verdade, mas teria poder para condená-los?
Olhou para Madara, o homem estava visivelmente incomodado. Aquilo fugira dos planos dele, podia notar. Será que ainda estavam seguros?
Itachi parecia não se importar muito. Nunca se importava muito com nada, quanto menos preocupação demonstrasse, menos suspeitas levantaria para o lado de sua família. Mas, ainda assim, era impossível não ficar frustrado diante do falso laudo médico. O júri acreditaria naquilo? Esperava que não.
Sakura observava cada um dos Uchiha. Abominava cada um deles. Não sabia como Sasuke conseguia ter resquícios de bondade tendo sido criado por aquelas pessoas. Se não fosse o fato de sua filha estar envolvida, entregaria os Uchiha para a polícia.
A família Uzumaki não merecia passar aquilo que estava passando. Ao menos Naruto tinha a chance de ser inocentado, graças à psiquiatra. Tinha vontade de rir pelos planos dos Uchiha terem sido prejudicados pela doutora Shiho.
— Ele vai ser livre, não vai? – Ouviu a voz mansa de Sarada.
Voltou seus olhos para a garota cabisbaixa ao seu lado. Não sabia dizer o que mais entristecia sua filha, se era a morte de Himawari e Hinata, a situação de Naruto e Boruto, o fato de que ela não se sentia no direito de estar com o Namorado ou o fato de Sasuke ter grande parcela de culpa em tudo aquilo. Tudo aquilo deixara a jovem devastada. A morena sentia o grande peso da culpa. Era difícil de suportar.
— Não sei, Sarada... Ele tem chances agora. – Respondeu sinceramente.
— O Boruto vai sofrer menos agora... – Fungou. – Por que eu me deixei manipular? Eu fui egoísta, nunca tentei ver o lado do papai. Se eu tivesse o obedecido, nada disso estaria acontecendo.
E lá estava a Sarada frágil que chamava Sasuke de papai. Apesar de estar com raiva do pai, ela sabia que ele não era totalmente culpado.
— Sarada, não tente carregar o peso disso sozinha. Você foi criada em meio a criminosos, não tem culpa disso. – A Haruno passou as mãos no rosto da mais nova, enxugando as lágrimas insistentes. – Você e o Sasuke são vítimas da crueldade da máfia... Vocês são bons! Acha que o Sasuke está confortável em fazer aquilo? Ele só o fez porque não tinha mais escolhas. Há coisas que os pais fazem pelos filhos sem pensar nas consequências.
— Como não se importar com a própria vida? – Estreitou os olhos para a rosada.
Sakura abaixou o olhar.
— É... – Respondeu sem graça. – Nós queremos o melhor para você. Queremos que siga seu sonho e saia desta vida de crimes. – Olhou novamente nos olhos negros da jovem. – Naruto vai ser livre, estou torcendo por isso. Vai ficar tudo bem, Sarada, ele é um bom homem pelo que ouvi lá dentro, não será condenado.
Sarada sorriu minimamente. Era realmente bom ter alguém com quem contar na família. Alguém que não fosse mafioso como os Uchiha.
— Obrigada, Sakura. – Abraçou a mulher.
— Vai ficar tudo bem... – Repetiu e sorriu.
Não tinha certeza se tudo estaria bem. Esperava que Naruto não fosse condenado, isso melhoraria o humor de Sasuke e Sarada, tinha certeza. O clima na casa do Uchiha ficaria mais leve. Sabia que os dois deixariam a Amaterasu de lado, então poderia ter um pouco de paz com os dois. Ter a oportunidade de viver com Sarada significava estar bem para si. Faria de tudo para tirar o peso da culpa dos ombros de Sarada, mesmo que precisasse carregar por ela.
A Uchiha também não tinha certeza que estaria tudo bem, mas as palavras de Sakura a tranquilizavam. Nunca se sentira tão protegida em sua vida. Ter ambos, pai e mãe, ao seu lado era algo que nunca imaginou para si e agora os tinha.
Se não fossem as condições atuais, poderia dizer que estava feliz. Mas nem tudo são flores na vida, principalmente na vida de uma criminosa.
[...]
Todos foram chamados de volta ao tribunal, o veredicto seria dado, finalmente.
Naruto estava nervoso. Sentia ódio dos Uchiha. Queria abraçar Boruto. Sentia-se abatido pelas perdas que teve. Estava em um misto de sentimentos, não conseguia definir tudo. Mas era fato que estava muito preocupado com o resultado de seu julgamento.
— O veredicto do senhor Uzumaki foi decidido. Cada membro do júri deu o seu voto, levando em consideração todas as provas e tudo o que foi falado pelas testemunhas. Todos de pé... – Solicitou.
Todos os presentes ficaram de pé, para esperar o resultado.
— Declaro o réu, o senhor Naruto Uzumaki... – Aquele pequeno segundo antes da palavra parecia uma eternidade para o loiro. Estava apreensivo. Sentiu vontade de sair correndo pela milésima vez. – Inocente.
“Inocente”, a palavra se repetiu diversas vezes na cabeça de Naruto.
Sentiu vontade de correr gritando para todos que era inocente. Poderia preparar algum prato especial para comemorar aquilo, mas a expressão facial do juiz demonstrava que havia algo além daquilo.
— No entanto, diante do diagnóstico apresentado pela doutora Shiho, o senhor permanecerá no Sanatório Woodhaven, sob observação médica e, se necessário, uso de medicamentos, por tempo indeterminado, até que a equipe médica declare que o senhor possui capacidade de voltar a ter interações sociais. Demais detalhes serão decididos pela equipe do Sanatório.
Não estava totalmente livre, mas estava feliz por não ter sido condenado à prisão ou mesmo à morte, como achou que seria. Fora declarado inocente por motivos errôneos, mas era um homem saudável, se demonstrasse bom comportamento, falsa melhora e não ficasse batendo na tecla de que os Uchiha eram culpados, estaria livre em pouco tempo. Poderia voltar para Boruto e aí talvez, só talvez, conseguisse dar aos Uchiha o destino que mereciam.
[...]
Toská, Rússia
14 de abril de 2016
03:42 P.M.
— Senhor Madara. – Obito entrou no escritório do hotel após bater na porta. – A senhora Mikoto deseja falar com o senhor.
— Mande-a entrar. – Disse sem tirar os olhos da tela do notebook.
O homem assentiu e se retirou. Segundos depois voltou com a mulher.
— Obito, deixe-nos a sós, por favor. – O Uchiha mais velho disse após se levantar e receber a morena com um abraço.
Sem questionar, o mais novo saiu e fechou a porta.
— O que a traz aqui? – Madara a fez se assentar numa das cadeiras ali perto e se sentou na frente dela.
— Vim falar sobre o julgamento de hoje. – Suspirou. – Fugaku é muito despreocupado, confia demais em você.
— E você não confia em mim?
— Confio, mas eu preciso saber se nossa família está mesmo segura. – Sorriu minimamente. – Fugaku já meteu o Sasuke em problemas demais.
— Está tudo bem, Mikoto. – Disse com convicção. – Consegui, junto com a Yamanaka, alterar as provas. Você mesma viu no julgamento.
— Como fizeram isso? – Perguntou curiosa. – Se eu não o conhecesse tão bem, acharia que o Uzumaki realmente fez aquilo tudo.
— Bom... – Madara sorriu. – Já estava planejando colocar a culpa nele há algum tempo. Pedi ao Obito, juntamente com Itachi e o primo dele que vigiassem a casa da Hyuuga por um tempo. A Yamanaka me alertou que haviam seguranças, mas não sabia quantos.
— Eles foram eliminados e os corpos foram encontrados na nossa fazenda... Não foi arriscado isso? – Perguntou receosa.
— Já sabia que o Uzumaki acusaria nossa família, até porque estávamos trazendo muitos problemas para a esposa dele. – Colocou uma perna sobre a outra. – Sabendo disso, a polícia investigaria nossa família e encontraria os corpos em nossa fazenda, onde o distintivo ensanguentado de Karin Uzumaki também estaria. Confirmando a morte dela.
— Por que os corpos estavam sem a cabeça e lavados?
— Com certeza não seriam encontradas as digitais dele nos corpos, então fizemos parecer com que ele tivesse lavado. E queimamos as cabeças para eliminar as balas e a polícia não fazer avaliação. Por se tratar de um rifle Dragunov, nosso culpado seria inocentado, é preciso muita experiência para manusear a arma.
— Mas Madara, foram 12 corpos, doze! – Falou incrédula. – Pelo o que Itachi me contou, eles mataram com um tiro na cabeça, de onde surgiu Diazepam desta história?
— Injetaram Diazepam na cabeça dos guardas depois de mortos. – Gesticulou. – Com a vizinha dizendo que o Uzumaki costumava fazer doces para a vizinhança, a fim de defendê-lo, acabou favorecendo o nosso lado.
— Então foi uma coincidência?
— A vizinha depor, sim. – Suspirou. – Mas não mudaria em nada os nossos planos sobre o envenenamento, o Uzumaki ainda seria acusado.
— A polícia identificou o corte na garganta dos corpos como uma das facas do tal Naruto, e tinha as digitais.
— Pegamos da cozinha dele quando sequestramos sua filha. Por ser algo pertencente a ele, obviamente teria suas digitais. – Virou seu Macbook para a mulher e mostrou as notícias que só falavam do “O Degolador”, como era chamado aquele caso. – Com as digitais dele na faca, sua acusação a nossa família, o distintivo da Uzumaki no mesmo local, e as investigações constantes da Hyuuga sobre os Uchiha mesmo com provas contrárias, fica fácil deduzir que era ele quem tentava nos incriminar.
— Realmente. – Mikoto balbuciou impressionada. – Mas foi muita coincidência o Uzumaki ter vestígio de pólvora na mão.
— Lembra que Shizune Katou trabalha para nós? – A morena assentiu. – Ela era a tal “investidora” nova do restaurante Kyuubi, ela e o Uzumaki apertaram as mãos, assim passando a pólvora. Fiz com que ela o convencesse a lhe dar carona, assim ela deixou o pente no carro dele. Obviamente que ela colocou luvas antes de entrar.
— Não acredito que você pensou até mesmo nisso. – Comentou.
— Com um bom planejamento se faz grandes coisas. – Sorriu.
A Uchiha repetiu o mesmo gesto e olhou para as mãos. Procurava algum furo na história, mas nada encontrava. Outro caso perfeito.
— Aquele menino que atirou uma pedra na câmera do restaurante... – Voltou-se para o homem a sua frente. – Você comprou até mesmo ele?
— Mandei Shisui resolver isto. Ele disse que desafiou a criança valendo um doce. – Deu de ombros. – Deu certo.
Mikoto balançou a cabeça em sinal negativo e riu.
— Eu percebi que você estava incomodado quando a tal psiquiatra foi dar o laudo do réu. – O fez a olhar.
— Não esperava que ele fosse mandado para um sanatório, meu plano era que ele fosse para o corredor da morte. – Confessou. – Sabia que haveria a consulta com a psiquiatra, mas não imaginava que ela fosse dizer que ele tinha Transtorno Dissociativo de Identidade...
— Isso muda algo? – Indagou preocupada.
— Não, só não esperava mesmo. – Deu de ombros. – Nosso caminho fica livre enquanto o Uzumaki estiver internado, ele provavelmente ainda ficará reclamando que é inocente, então ficará lá por um bom tempo.
— Aquele laudo era mentira? – Disse surpresa.
— Obviamente, embora eu tenha quase acreditado. – Riu.
— Por que a tal Shiho iria querer favorecê-lo? Eles se conhecem ou ela sentiu compaixão? Isso não faz sentido.
— A explicação mais lógica... Inclusive andei pesquisando assim que o julgamento acabou... – Abriu uma nova guia e digitou rapidamente o nome “Neji Hyuuga”, apareceram imagens do homem em questão e uma página para o Facebook. – É que eu o vi conversando com a psiquiatra e comecei a suspeitar de que ele a comprou para favorecer o cunhado.
— Ele é irmão da Hinata Hyuuga?
— Sim, e ao que parece, eram bem próximos.
— Ele parece um homem rico também. – Apontou para uma foto em que ele estava com sua esposa encostados num Mercedes GLA 200.
— Sim, fora que também parece ser bem apegado ao Uzumaki. – Mostrou outras fotos em que os dois cozinhavam ou jogavam juntos.
— Mas só com isso você deduziu que ele a comprou?
— Basta ter um pouco de afeto e dinheiro que você é capaz de salvar alguém, Mikoto. O mundo é movido por interesses. – Virou-se para ela e tocou em seu ombro. – Mas não se preocupe, nossa família está segura agora.
— Isso é ótimo. – Respirou aliviada. – Espero que Fugaku sossegue e não dê mais nenhum trabalho para o Sasuke e a Sarada, isso tudo começou por causa dele. Sei que ele não faria nada contra Itachi, já que Fugaku quer que ele seja seu sucessor.
— Meu primo é um tolo, sabe disso. – Se levantou e caminhou um pouco pela sala. – Ele odeia o Sasuke. É capaz de mandá-lo para outra missão perigosa.
— Se ele fizer isso, eu mesma irei matá-lo. – Se levantou num rompante. – Madara, por favor, você é o único a quem ele escuta. Convença-o de tirar meu filho desta máfia!
— Fugaku não dá ouvidos a ninguém. – Suspirou. – Às vezes que ele me escutou foi para proteger a si próprio. Ele odeia ser contrariado, ainda mais porque eu defendo o Sasuke desde que ele era um menino.
Mikoto soltou o ar de uma vez e assentiu. Ambos sabiam que Fugaku jamais tiraria Sasuke da Amaterasu, já que ele queria eliminar o filho.
A Uchiha sentiu o bolso vibrar e retirou seu Zen Phone para ver quem ligava. Era seu marido.
— Tenho que ir, o infeliz está me chamando. – Cancelou a chamada. – Obrigada por me receber.
— Devo acompanhá-la até a porta? – Ofereceu-se.
— Não precisa. – Colocou o aparelho de volta onde pegou. – Peço ao Obito, não precisa se incomodar.
— Se assim deseja. – Apertou um botão em sua mesa. Logo em seguida, Obito entrou para acompanhar Mikoto. – Tenha uma boa tarde.
— Boa tarde. – E saiu.
[...]
Toská, Rússia
14 de abril de 2016
06:20 P.M.
Chegou à casa dos tios, não pode falar com o pai. Só poderia fazê-lo depois de certo tempo. Regras do sanatório e medidas de precaução e segurança.
Não saiu do quarto o dia todo, tampouco atendeu as ligações de Sarada ou respondeu suas mensagens.
Mesmo estando livre para conversar com sua namorada quando quisesse, não sentia vontade. Só conseguia se lembrar de sua mãe, mandando que ele se afastasse da menina. Era paranoia dela, achava aquilo antes e agora tinha certeza, mas tudo o fazia lembrar-se dela, tudo o fazia sentir falta dela.
Sabia qual seria o destino de seu pai mesmo antes do julgamento: injeção letal.
Porém fora surpreendido ao fim do julgamento, seu pai fora diagnosticado com Transtorno Dissociativo de Identidade. Ficou feliz por saber que seu pai era inocente e que um dia poderia estar ao seu lado novamente, porém ficara assustado com as tais personalidades psicopatas das quais a doutora falou.
Era terrível, mas Boruto sabia que era melhor do que a morte, afinal ele poderia sair em breve se mostrasse melhoras e bom comportamento.
Ainda não conseguia acreditar que Naruto tinha sido capaz de fazer uma monstruosidade dessas, mas as provas diziam o contrário. Seu pai o fizera, apesar de ter sido como outra personalidade.
Tenten bateu na porta do quarto e chamou Boruto para jantar, mas este disse que não estava com fome e que não ia comer.
Sua mente estava um caos e ele sabia que, em algumas disciplinas da faculdade, já tinha muitas faltas, sem falar que de acordo com os amigos havia perdido duas provas nas duas últimas semanas.
Não estava com ânimo pra estudar. Não queria sair de casa. Tudo naquela cidade, até mesmo Sarada, o faziam lembrar-se de sua família.
Era um paradoxo pra lá de estranho, mas suas lembranças felizes o deixavam triste. Talvez porque ele sabia que aqueles momentos felizes iriam ficar eternamente no passado. Na memória.
Tomou uma decisão. Pensava sobre isso desde o dia em que fora morar com Neji e Tenten. Ainda estava um pouco inseguro, mas, ainda assim, ele acreditava que era a melhor decisão a ser tomada.
Desceu as escadas correndo, indo até a cozinha onde Neji e Tenten jantavam com a filha.
— A fome apertou? – Akemi brincou. A morena sempre gostou de zoar o primo por ele ser guloso. – Eu sabia que o cheiro do empadão da mamãe iria te arrastar pra cá, Boruto.
— Não é isso, Akemi. – Ele, que não sorria há dias, não conteve um sorriso mínimo. – Tio Neji, preciso falar com você.
— Ora, diga.
— É que... – O Uzumaki se sentou numa cadeira e apoiou os cotovelos na mesa. Embora não quisesse comer, encheu um copo com suco de laranja e tomou um gole. – Eu não aguento mais viver aqui.
— Boruto, você não tá gostando de viver com a gente? – Akemi indagou com tristeza.
— Não é isso, Akemi. – Respondeu o loiro.
— Boruto, não nos importamos que você more aqui. – Tenten falou docemente. – Você será para nós como um filho.
O garoto abaixou o olhar. Definitivamente não seria a mesma coisa. Nada nunca mais seria do mesmo jeito.
— Você prefere ir morar com sua tia Hanabi? – Perguntou Neji.
Ele estava inseguro, mas, se precisava recomeçar sua vida do zero, então que fosse definitivamente do zero.
— Eu quero ir morar na Alemanha.
— Alemanha? – O homem arregalou os olhos perolados. – Por quê? Com quem?
— Meus padrinhos, Asuma e Kurenai. Eles são de lá. – Respondeu o garoto.
— Você não prefere ir morar com seus avós em São Petersburgo? – Neji indagou.
— É. – Tenten assentiu. – Não é tão longe de Toská, você pode até transferir seu curso...
— Não, tia. – O Uzumaki interrompeu. – Não quero ficar em Toská. Não quero ficar na Rússia. Eu quero ir embora daqui... Quero recomeçar.
— Mas, Boruto, você tem seu curso e sua namorada. – Akemi se meteu na conversa. – Vai largar tudo aqui e ir morar num país que você nem conhece?
— Já fui lá uma vez com o meu pai e com a minha mãe, mas quando a Himawari era bebê... – Boruto abaixou o olhar. O aniversário de Himawari era em julho, então uma vez foram passar as férias na casa do pai de Naruto e fizeram o aniversário de dois anos de Himawari lá. – Enfim, não importa! Eu não quero mais ficar aqui, Akemi. Eu entro em outra faculdade lá, não importa... – Suspirou. – Quanto a Sarada, bem, eu a amo, mas minha vida não vai acabar se eu terminar com ela. Se eu sobrevivi à morte da minha mãe e minha irmã e à internação do meu pai, então posso sobreviver a um término de namoro.
— E o idioma? – Tenten retrucou. – Você não vai chegar à Alemanha falando russo, ninguém vai te entender.
— Meu pai é alemão, ele me ensinou. – Explicou. – Sou fluente no idioma, só estou um pouquinho enferrujado, mas posso viver lá sem problema algum... Quando passei as férias lá, conversava com meu avô e meus padrinhos em alemão, então acho que não terei problemas com o idioma.
— Tem certeza de que é isso que você quer, Boruto? – Neji questionou sério e o rapaz assentiu. – Tudo bem. Me passe o contato de seus padrinhos, vou conversar com eles. Assim que tudo estiver resolvido, compramos sua passagem.
[...]
Toská, Rússia
25 de abril de 2016
01:03 P.M.
As malas já estavam prontas e a passagem para Berlim já estava em suas mãos. Boruto tomou sua decisão de abandonar a Rússia e ir para a Alemanha, para viver com os padrinhos.
Deixaria para trás o passado que já virou cinzas. Deixaria a cidade que já lhe trouxe momentos bons, mas que ao mesmo tempo lhe deu lembranças terríveis.
Sua mãe, sua irmã e sua tia sequer tiveram um enterro decente, uma vez que ninguém sabia onde estavam os corpos. Se é que eles ainda existiam. Aparentemente as mortes foram confirmadas por seu pai, ou as personalidades dele, já não sabia. Ele passaria um tempo no Sanatório Woodhalen. Um dia voltaria para vê-lo e levá-lo para a Alemanha, não queria mais viver na Rússia.
Não tinha mais nada pra ele em Toská, nada.
No entanto, tinha uma pessoa pra quem ele devia explicações. Uma pessoa que ele queria levar consigo, mas não podia. Alguém que ele amava muito, mas que era necessário abandonar. Sua namorada, Sarada.
Não gostava de despedidas, não queria vê-la chorar por sua partida. Todavia, devia uma explicação para a Uchiha. Não falava com ela desde que recebera a notícia do sequestro de sua mãe e sua irmã. Como o tempo passava rápido, já fazia quase um mês desde o ocorrido.
Pegou seu celular e discou o número da morena que logo atendeu.
— Boruto? – Ela falou feliz do outro lado da linha, mas logo sua voz pareceu preocupada ao ouvir a respiração pesada do loiro. – O que aconteceu? O que você tem?
— Acabou, Sarada. – Segurou o choro. – Acabou tudo.
— Do que está falando?
— Nosso namoro, acabou. – Falou firme, mas sentiu uma facada no coração. – Estou indo embora. Daqui a duas horas sai meu voo para Berlim. Não volto mais. Acabou.
Desligou o celular na cara da namorada e deixou as lágrimas caírem.
Isso foi necessário. Sua vida não seria mais em Toská. Sarada, assim como sua família, seria só mais uma lembrança boa.
A adolescente ficou chocada, mas não surpresa. Não era de se admirar que Boruto quisesse ir embora e ela se sentia culpada de continuar sendo sua namorada, sabendo que Sasuke era a pessoa que havia matado Karin, Hinata e Himawari.
O pai de Sarada foi o responsável por todo o sofrimento de Boruto, mas, ainda assim, ela o amava. Era doloroso pensar que o loiro iria partir. Não queria ficar longe dele.
Pegou uma foto do casal num porta retrato que ficava na prateleira de seu quarto, olhou os dois adolescentes felizes, se divertindo numa viagem da escola. Eles nem eram namorados ainda, mas já gostava do loiro. Tiraram aquela foto no celular de Sarada e a garota a revelou. Foi a primeira foto que tiraram juntos e a guardava com muito carinho.
Respirou fundo e deixou uma lágrima cair. Não queria acreditar que Boruto fosse mesmo deixá-la.
Na casa de Neji, Boruto também chorava amargamente. Queria dizer para Sarada o quanto o ama, mas não iria conseguir falar sem chorar.
— Vamos? – A voz de Neji tirou o Uzumaki de seus pensamentos. Já era a hora de partir.
— Sim. – Assentiu.
Estava levando pouca coisa, apenas uma mala. Não precisava de muitas roupas, qualquer coisa era só comprar mais por lá.
Despediu-se da tia e da prima. Sabia que dificilmente os veria de novo, pois não queria mais voltar para Toská, apenas quando fosse possível ver Naruto. Sua vida agora seria em Berlim.
Após meia hora no carro, enfrentando o trânsito devido ao horário, Boruto e Neji finalmente chegaram ao aeroporto.
O homem ajudou seu sobrinho com a mala que logo foi despachada.
— Acho que é um adeus, tio. – Ele sorriu sem humor.
— É, mas não pra sempre. – Respondeu.
— Quando eu dei tchau pra minha mãe naquele dia, jamais passou pela minha cabeça que seria a última vez... – Falou cabisbaixo.
— Não fique assim. – Neji forçou um sorriso, uma vez que as palavras de seu sobrinho o fizeram lembrar-se de sua irmã, consequentemente foram palavras que também o feriram. – Tudo nessa vida acontece por algum motivo. Se Hinata e Himawari partiram, então é porque já era a hora delas. Se você está indo pra Berlim, então é porque seu lugar é lá.
— Eu sei. – O rapaz assentiu, então deu um abraço em seu tio. – Tchau.
— Tchau, Boruto. Se cuida, garoto.
Após a despedida, Neji foi embora e Boruto seguiu para a sala de embarque.
Andava tranquilamente, uma vez que ainda não era a hora do voo. Aproveitava seus últimos minutos em Toská, a cidade onde nasceu, cresceu, viveu momentos felizes e tristes. Agora seria somente uma lembrança, nada mais.
Estava se aproximando do portão da sala de embarque quando ouviu uma voz feminina e bastante familiar que fez seu coração bater mais forte.
— Boruto!
O rapaz se virou para trás e viu a última pessoa que imaginou ver por ali: Sarada.
Independente do frio, suas mãos suaram. Seu estômago revirou, como se as borboletas tivessem ressuscitado depois de tanto tempo.
— Sarada? – Sua voz saiu quase como um sussurro e o loiro não conseguiu conter um sorriso mínimo.
A jovem, trajando roupas escuras como sempre, correu até Boruto e o abraçou forte. O Uzumaki ficou surpreso, inseguro, mas retribuiu o gesto. Nunca mais veria Sarada novamente.
— Como você se despede de mim daquele jeito? – Questionou com a voz um pouco alterada, mas ao mesmo tempo carinhosa.
— Eu... Eu não gosto de despedidas.
— Eu queria que você ficasse aqui... – Olhou fundo nos olhos azuis e viu lágrimas brotarem. – Não acredito que você vai morar na Alemanha... Vai me deixar.
— Sarada... – Ele suspirou.
Não queria se despedir de Sarada pessoalmente justamente por causa disso. Seria doloroso para ambos.
— Mas eu compreendo perfeitamente seus motivos. – Admitiu, deixando Boruto surpreso. A verdade é que Sarada, por mais que amasse o loiro, não conseguiria continuar namorando ele depois de Sasuke ter assassinado Hinata e Himawari. – Vai doer. Eu vou sofrer pra te esquecer. Mas, depois dos últimos acontecimentos, eu compreendo que você queira ir embora desse lugar.
— É uma pena que eu não possa levar você. – Esboçou um sorriso torto. O sorriso que Sarada tanto gostava.
— É. É mesmo uma pena. – Sorriu. – Espero que você seja feliz, Boruto. Você vai sempre estar aqui. – Ela levou a mão até o peito, sobre seu coração.
— Vou guardar você sempre no meu coração, junto com meus pais e minha irmã.
Sarada sentiu um nó na garganta. Não se sentia digna de ocupar o mesmo lugar que Naruto, Hinata e Himawari no coração de Boruto.
— Me sinto honrada. – Falou meio chorosa, segurando as lágrimas que queriam sair. – Adeus.
— Adeus.
Eles se abraçaram novamente e Boruto se despediu de Sarada com um beijo na testa.
Foi doloroso, mas Sarada não iria insistir para Boruto ficar naquela cidade que tanto trazia lembranças para torturar a mente do rapaz.
Tinha que concordar que manter a distância era a melhor decisão a ser tomada.
Precisava esquecer Boruto e seguir em frente.
Os dois viraram as costas e seguiram seus caminhos. Nenhum deles olhou para trás.
[...]
Sarada chegou em casa abalada, com os olhos vermelhos e se sentindo a pior pessoa do mundo. Mas já não tinha mais jeito. Precisava ser assim.
Boruto já deveria estar dentro do avião, rumo à Berlim, e, com certeza, não voltaria mais. Não tinha mais motivos para viver em Toská.
— Pra onde você foi? – A voz de Sasuke tirou Sarada de seus devaneios, então a adolescente secou as lágrimas como se isso fosse fazer Sasuke pensar que ela não estava chorando.
Mas não importava. Não queria mostrar fraqueza na frente de ninguém, muito menos na frente de Sasuke.
— Fui até o aeroporto. – Respondeu enquanto limpava uma lágrima por baixo dos óculos.
— Aeroporto? – Questionou confuso, então se sentou ao lado da filha no sofá da sala. – Posso saber o que a senhorita foi fazer lá?
— Me despedir do Boruto. – Respirou fundo. – Ele vai embora da Rússia. Acho que os últimos acontecimentos foram demais pra ele.
— É compreensível. – Assentiu. – E o cacho de bananas vai pra onde?
— Alemanha. – Riu sem humor. – Vai morar em Berlim. Os padrinhos dele moram lá.
— Ele deve estar sofrendo.
— Com certeza está. – Olhou séria para Sasuke, mas prometeu não mais bater nessa tecla. Ela já havia compreendido os motivos de seu progenitor, mas isso não a deixava menos triste pelo ex-namorado, apenas conformada. – Espero que ele supere tudo isso e que seja feliz. Espero que ele encontre alguém que o faça feliz.
— Boruto com certeza não vai se esquecer de você, Sarada. Aquele garoto te amava.
— Quem sabe não nos encontremos um dia... – Sarada sorriu um pouco mais contente. – Já ouviu falar em Akai Ito?
— Akai Ito? – Sasuke uniu as sobrancelhas, nitidamente confuso. – É chinês?
— Japonês. – Corrigiu a menina. – "Um fio invisível conecta os que estão destinados a conhecer-se, independentemente do tempo, lugar ou circunstância. O fio pode esticar ou emaranhar-se, mas nunca irá partir." – Ela terminou com um sorriso aberto, sincero.
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Seu apoio é fundamental. Torne-se um herói!— E esse fio faz o que? – Sasuke se mostrou interessado.
Na verdade estava pouco se lixando pra esse maldito fio invisível, mas estava gostando de conversar com sua filha como uma pessoa civilizada, sem brigas ou implicâncias.
— Akai Ito é uma lenda japonesa que diz que, ao nascermos, somos ligados a nossa alma gêmea por um fio vermelho.
— Se decide, o fio é vermelho ou é invisível?
— Ninguém merece. – Revirou os olhos. – De acordo com essa crença, não importa quantos relacionamentos tenhamos, pois só viveremos a experiência do amor verdadeiro com a pessoa que estiver na outra ponta do fio. – Explicou. – É o fio vermelho do destino.
— E você acha que o Boruto está na outra ponta do seu fio?
— Quem sabe. – Deu de ombros. – Isso só o tempo dirá.
— Hum...
— E você? – Sarada sorriu de canto e Sasuke até se espantou.
— O que tem eu?
— Acha que a Sakura está com a outra ponta do seu fio?
— Sarada, não seja ridícula. – Bufou. – É só uma lenda chinesa.
— Japonesa. – Resmungou. – Cacete, você não presta atenção em nada do que eu falo!
— Chinês e japonês é tudo a mesma coisa. – Revirou os olhos. – Mas, você acredita nisso?
— Por que não acreditaria? – Retrucou.
— Você nunca foi do tipo menininha delicada e fantasiosa que acredita em contos de fadas e príncipes em cavalos brancos.
— Talvez fosse, mas você nunca viu isso. – Sarada abaixou o olhar. – Boruto era meu príncipe encantado.
— Tava mais pra bobo da corte. – Murmurou baixinho, mas Sarada ouviu. Poderia ter ficado com raiva, mas achou graça. Sasuke sempre implicou com Boruto, mas no fundo até que gostava um pouquinho do garoto.
— Vou sentir falta das suas implicâncias com ele. – Admitiu.
— Não tem chances de vocês se verem de novo? – Sasuke questionou. – Nossa, o que é uma passagem pra Berlim? – Bufou. – Você pode ir visitar ele...
— Sasuke! – Sarada o interrompeu. – Não. Eu não quero mais. Se Hinata e Himawari tivessem morrido por qualquer outro motivo, sim, eu iria querer ficar perto do Boruto. Poderia até ir estudar na Alemanha só pra ficar perto dele, porque eu o amo demais. – Ela suspirou com pesar, então prosseguiu. – Hinata e Himawari morreram por causa da nossa família, e Naruto ainda levou a culpa. Eu não me sinto bem estando perto dele depois disso. Não quero ter que olhar para o Boruto e lembrar que a família dele foi destruída por causa da minha!
Sarada deixou as lágrimas rolarem. Sasuke sabia que seria difícil pra ela, inclusive imaginou que a menina pensaria dessa forma... Qualquer um pensaria.
Foi necessário, mas Sasuke se sentia mal por ver a filha chorando daquele jeito. Se Hinata estivesse viva, com certeza Boruto ainda estaria em Toská. Em contrapartida, a Hyuuga ainda estaria tentando incriminar os Uchiha, procurando furos nas provas falsas de Ino.
— Sarada, não chore. – Sasuke pediu com a voz calma e puxou a filha para um abraço.
Sarada se espantou na hora. Qual foi a última vez que Sasuke a abraçou? Sinceramente, ela nem se lembrava, mas gostou da sensação e retribuiu o gesto de carinho, o que deixou o moreno também surpreso.
Sasuke nunca foi de demonstrar o que sente. Nunca foi do tipo carinhoso, isso definitivamente não era de seu feitio. Todavia, puxou Sarada para um abraço e ela gostou.
Ninguém pode negar que um gesto vale mais do que mil palavras e isso realmente resumia o momento. Sasuke a ama, se preocupa com ela e demonstra como pode, do jeito dele.
— Obrigada... – Hesitou por uns segundos, pensando em qual substantivo usar. Após ficar um pouco insegura, resolveu usar o mesmo de sempre. – Sasuke...
Sakura desceu as escadas para ir até a cozinha, foi quando presenciou o momento entre pai e filha. O moreno, ainda abraçado com Sarada, olhou para Sakura que estava ainda sobre um degrau da escada e sorriu. A rosada piscou um olho para Sasuke como se dissesse "Eu não falei?", então seguiu para a cozinha e deixou os dois a sós.
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