Amaterasu
20 Capítulo 19
Notas iniciais
Toská, Rússia
20 de março de 2016
02:33 A.M.
Boruto entrou em sua casa, sentia-se mais leve por ter encontrado Sarada, porém ainda estava preocupado pelo comportamento da mesma para com o pai dela e a mãe, com quem ela nunca tivera contato. Esperava que finalmente ela visse o quanto Sasuke a amava e que ela não apenas desse uma chance para Sakura, como também se desse a chance de ser feliz com os dois.
Foi tirado de seus pensamentos quando ouviu passos apressados vindos da cozinha quando ele bateu a porta. Só agora notara a luz daquele cômodo acesa, mesmo estando tarde.
— Boruto? – Sua mãe gritou e correu para abraçá-lo.
— Eu... – Respondeu confuso.
— Onde estava? – Seu pai perguntou preocupado. – Estamos ligando há horas.
Só agora Boruto se dava conta de que passara o dia todo fora. Realmente ignorara ligações de Hinata e Naruto enquanto procurava Sarada. Não podia dizer à mãe que estava com os Uchiha, ela ainda não gostava deles. Iria derrubar a casa sobre ele se soubesse.
— Eu estava com uns amigos...
— Você disse que ia estudar... Mas não eram nem oito da manhã! – Hinata esbravejou.
A verdade era que ela temia que ele estivesse nas mãos de Sasuke Uchiha, temia que seu filho estivesse morto. Mesmo que ele dissesse que estava com amigos, ela não acreditava. Quem ficaria quase 24 horas estudando?
— Bem, a gente estudou, depois eles chamaram para sair...
— Mitsuki e Shikadai não me falaram isso. – Naruto cruzou os braços.
Boruto começou a ficar nervoso, deveria ter dito algo aos dois amigos. Não conseguiria esconder a verdade por muito tempo, afinal sua mãe era uma das melhores investigadoras da cidade.
— Eles não estavam comigo... Sabem como Shikadai é preguiçoso e Mitsuki tem aquele pai estranho dele... Ou seria mãe?
— Mais respeito com o pai do seu coleguinha! – O mais velho esbravejou. – Ou seria mãe? – Estreitou os olhos.
— Se você não vai ajudar, não atrapalha, Naruto! – A morena gritou. – Seus coleguinhas não falaram nada de estudo ou de farra, Boruto. Com quem você estava saindo?
— Ah, mãe, eu não tenho só eles de amigos... E para de chamar de coleguinhas, não sou criança! – Bufou.
— Boruto Uzumaki! – O mais novo sentiu um arrepio passar por sua espinha. Quando falam o nome completo, a situação é séria. – Espero que não esteja usando drogas.
— Não sou de Humanas... – Murmurou.
— O que disse? – Hinata perguntou com a voz fria.
— Nada, mãe... Eu só... Eu só... – Tentava pensar em algo que pudesse ao menos liberá-lo para ir dormir, estava exausto. – Eu ainda estou meio abalado por terminar com a Sarada, então eu saí com uns amigos para tentar me animar, sabe... Tirá-la um pouco da cabeça. – Fingiu estar triste para convencer.
— Estava em um puteiro? – Naruto franziu o cenho.
Hinata o fuzilou com o olhar e Boruto corou, jamais imaginou que seu pai falaria esse tipo de coisa em sua frente.
— N-não... Eu estava em um barzinho. – Abaixou um pouco a cabeça.
— Não sinto cheiro de bebida... Para sua sorte. – A mulher estreitou os olhos.
— Não estava bebendo nada alcoólico... Só estava com a galera e... – Uma ideia veio a sua mente. – Fiquei com uma garota.
— Sério? Ela era bonita? – Naruto se empolgou.
— Naruto! – Hinata o repreendeu.
— O que tá acontecendo? – Os três se viraram para a escada, onde Himawari vinha, ainda sonolenta, coçando os olhinhos e segurando uma boneca. – Vocês acordaram a Elsa. – Bocejou.
— Foi mal, princesinha. – O pai a pegou no colo. – Seu irmão chegou agora em casa, mereceu uma reclamação por isso.
— Irmãozão feio, agora a Elsa não vai mais dormir. – Olhou feio para Boruto.
— Está tarde mesmo, vamos dormir, meu amor. – Hinata acariciou os cabelos bagunçados da mais nova.
Boruto sentiu-se aliviado por se livrar de mais conversas sobre o assunto.
— Amanhã terminamos nossa conversa, Boruto! – Sua mãe tirou seu alívio.
— Certo, mãe... – Resmungou.
Em sua mente passavam as mais diversas possibilidades de não entregar a verdade de estar se relacionando de novo com Sarada. Era fácil enganar o pai, mas a mãe, sabia que não conseguiria esconder a verdade dela por muito tempo.
Já Hinata apenas pensava que seu filho estava com os Uchiha, que ele poderia estar correndo perigo, precisava falar com Shikamaru sobre o assunto.
[...]
Toská, Rússia
20 de março de 2016
07:34 A.M.
Hinata simplesmente não conseguia engolir o que seu filho disse. Afinal, quem estudaria o dia todo até àquela hora? Não fazia sentido.
Não queria desconfiar do menino, mas aquela história estava muito mal contada.
Sem contar que ainda tinha a ameaça do Uchiha sobre deixar os passarinhos sozinhos no ninho. Não que ela estivesse preocupada com isso, até porque acredita que os seguranças em torno de sua casa são mais do que suficientes. Mas, ainda assim, era uma ameaça.
Será que Sasuke e Boruto estavam mantendo contato? Bom, isso não faz sentido. Então só conseguia pensar que seu filho ainda estava envolvido com Sarada.
Queria acreditar que estava errada. Queria acreditar que estava ficando louca por conta do estresse. Mas devido à história mal contada do rapaz, a hora que ele chegou, a ameaça do Uchiha e o fato de que ele estava muito feliz para alguém que terminou um relacionamento de dois anos há três semanas... Só conseguia pensar nesta possibilidade.
Acordou até mais cedo naquele domingo porque queria discutir algo com Nara a respeito da segurança.
Na sala do delegado só estava ele, então ela entrou sem muitos problemas.
Estranhando a inquietude da mulher, resolveu perguntar:
— Aconteceu algo?
— Não, mas vai acontecer. – Puxou uma cadeira e se sentou em frente ao homem.
— E o que é?
— Shikamaru, imagino que não há câmeras de segurança em volta da minha casa, certo?
— Quer que eu coloque?
— Não exatamente... – Respirou fundo. – Ontem de madrugada, Boruto chegou depois de passar o dia fora e disse que tinha ido estudar e depois saiu com os colegas para um barzinho.
— Mas pelo o que eu me lembre, não coloquei seguranças para vigiarem seu primogênito... – Franziu o cenho.
— Não, claro que não. – Jogou os cabelos para trás. – O que eu quero dizer é que eu acho que ele tá se envolvendo de novo com a Sarada, a filha do Sasuke.
— Hinata, são só teorias. – Suspirou. – Por que você desconfia tanto assim dos Uchiha?
Ainda relutante, a Hyuuga cedeu e resolveu abrir o jogo.
— Ele ameaçou minha família. Não foi de uma maneira direta, mas eu entendi o recado. – Cruzou os braços. – Não estou preocupada por causa dos seguranças, mas se meu filho está mantendo contato com Sarada, é um problema.
— Ameaça? – Arqueou uma sobrancelha.
— Sobre eu deixar meus filhos desprotegidos. – Deu de ombros. – Aquele homem é louco, Shikamaru.
— Vou reforçar a segurança da sua família, pode ficar tranquila.
— Obrigada. – Respirou aliviada. – Vou tentar falar com meu filho e ver se...
Fora interrompida por uma batida na porta.
— Com licença. – Ino Yamanaka adentrou o local. – Atrapalho?
— Não, já terminamos. – Disse a morena enquanto se retirava com educação. – Licença.
— Pois não? – O moreno deu a volta na mesa e pegou um envelope entregue pela loira.
— É o relatório final do caso do sequestro da Uchiha, está finalizado.
O delegado encostou-se na cadeira, ainda de pé, e soltou um longo suspiro.
— Já perdi as contas de quantas vezes ouvi esse nome...
— Senhor delegado, não acha que a Hyuuga está ficando... – Ponderou um pouco sobre a palavra que diria. – Paranoica? – Cruzou os braços. – Sei que ela é uma excelente investigadora, mas ela está passando dos limites em acusar tanto assim esta família. Já investigamos tudo, o nome Uchiha está limpo.
— Trabalho com a Hinata há anos, sei muito bem que os palpites dela nunca estão errados. – Repetiu o gesto da mais nova. – Mas desta vez não consigo parar de pensar que ela está muito envolvida emocionalmente. Se continuar assim, ela será afastada de vez da profissão.
Ino respirou fundo e se assentou num sofá que havia ali perto.
— Não quero insinuar nada, mas o senhor a está protegendo? – Franziu o cenho. – Começo a achar que você também está se envolvendo emocionalmente por ser amigo dela. Não se esqueça de que ela é suspeita do desaparecimento de Karin Uzumaki, mas eu só vejo o senhor trabalhando contra os Uchiha.
Shikamaru desviou o olhar um pouco corado. Estava sendo advertido por um de seus subordinados.
— E você acredita que ela está realmente envolvida?
— Não se trata de acreditar nela ou não. Eu sigo as provas. – Se levantou e caminhou até o rapaz.
— Então quais são as suas teorias? – Indagou curioso.
— Poderei lhe responder se me contar tudo o que aconteceu desde então, sem omitir nada.
— Certo. – Nara deu a volta e se sentou em sua poltrona, depois indicou para que ela fizesse o mesmo. – Karin Uzumaki, a pedido de Hinata, investigou, em segredo, Sasuke Uchiha. Dizia ela que não confiava que o trabalho dele era totalmente legal.
— Veja só, tudo começou com um problema pessoal. O melhor a se fazer é procurar por câmeras em volta da casa de Karin e ver quando foi a última vez que ela saiu de casa.
— Faça isso, então.
— E depois, o que aconteceu?
— Karin tinha encontros com o Uchiha e depois contou à Hinata que encontrou as armas do crime de Kisame Hoshigaki e Deidara na casa dele. Enviamos nossa equipe para o local e nada encontramos, ele tinha apenas uma arma, que não correspondia com as armas dos crimes, e tinha o documento de porte legal.
— Como elas puderam afirmar com certeza de que eram as armas do crime? – Arqueou uma sobrancelha. – Pelo que eu vejo, a Hyuuga só quer acusar Sasuke Uchiha sem provas.
— E o que sugere que eu faça?
— Há um tempo conversei com meus colegas de Moscou e disse que o legista Kabuto também pode ter armado para cima da Hyuuga. – Percebendo que o delegado estava confuso, Ino prosseguiu. – Creio que há alguém dentro da polícia querendo afastá-la, talvez por inveja, por ela ser uma excelente investigadora. Alguém que esteja fazendo-a pensar que o Uchiha realmente está envolvido nesta história toda. Talvez estejam armando para conseguir mais poder hierárquico.
— E você acha que é o Yakushi?
— Não só ele, provavelmente a própria Karin e mais alguém. – Pousou o dedo indicador sobre o queixo. – Uma coisa é certa, a senhora Hyuuga está sendo influenciada por alguém.
Shikamaru abaixou o olhar pensativo. Fazia tudo muito sentido, já que por diversas vezes escutava alguém dizendo algo sobre Hinata pelas costas. Tudo porque ela era a melhor investigadora dali.
O próprio Kabuto dizia que sentia inveja da morena.
— Chame Hidan e Kakuzu, precisamos por um ponto final nesta história toda. – Finalizou Nara.
[...]
Toská, Rússia.
23 de março de 2016
07:30 A.M.
Sakura finalmente recebeu alta do hospital, após alguns testes e uma consulta com um psicólogo. Ainda estava fragilizada e um pouco deprimida. Sasuke não queria deixá-la sozinha de jeito nenhum, portanto, se sentiu na obrigação de tomar uma decisão:
— O quê? – Sakura berrou com a voz esganiçada enquanto o Uchiha dirigia pelas ruas de Toská.
— Eu não sou surdo, Sakura! – Resmungou. – E é isso aí que você ouviu.
— Me recuso! – Cruzou os braços em frente ao corpo, com o rosto contorcido por conta da raiva. Como aquele Uchiha se acha no direito de decidir as coisas por ela só porque a salvou? – Sasuke, eu quero ir pra minha casa!
— Não vou deixar você sozinha. – Respondeu o moreno, dessa vez com a voz mais calma. – Não é só porque eu temo que você faça uma loucura novamente, mas também porque você não está em condições de ficar só.
— Que bonitinho... – Falou com falsa animação.
— Deixa eu cuidar de você. – Insistiu.
— Tá. – Suspirou. – Vou confiar em você dessa vez... – Sakura mordeu o lábio inferior em sinal de insegurança. – Mas, e a Sarada? Digo, ela ainda tá meio...
— Sakura. – Interrompeu o homem que mantinha os olhos fixos na estrada. – Sarada precisa de um tempo. Quem sabe com você lá em casa ela se reaproxime de você.
Dito isso, o moreno estacionou o carro em frente à casa da Haruno e recebeu dela um olhar pra lá de confuso.
— Não estávamos indo pra sua casa?
— Pegue suas coisas. – Respondeu. – Você vai ficar alguns dias na minha casa, portanto precisa de roupas.
Sakura assentiu e desceu do Audi de Sasuke, indo em direção ao seu apartamento para pegar algumas mudas de roupas e outras coisas que são indispensáveis a uma mulher, como hidratantes e outros produtos de beleza.
O homem não queria admitir, mas estava exausto! Não saiu de perto da rosada no hospital, apenas foi em casa tomar banho uma vez, isso sem falar que sua saúde sofreu após o salvamento de Sakura. Vinha se sentindo um pouco mole desde o dia depois que Sakura dera entrada. Depois, além do corpo mole, a voz começou a ficar um pouco anasalada, isso sem falar nas dores de cabeça e garganta.
Tinha tomado uns comprimidos no dia anterior e antes de sair do hospital com Sakura e finalmente estava fazendo efeito, mas, ainda assim, ele não se sentia cem por cento.
De qualquer forma, Sasuke se sentia na obrigação de cuidar da mãe de sua filha e não seria qualquer gripezinha que iria baqueá-lo.
Sasuke ligou o som do carro e colocou na pasta do Pink Floyd, na música Comfortably Numb, e ficou esperando pela mulher que logo chegou com uma bolsa vermelha de lado.
— Você não muda... – Ela comentou risonha quando entrou no carro novamente e viu o Uchiha com a cabeça escorada no vidro da janela, olhos fechados, deixando-se levar pelo ritmo da música.
— Hum? – Olhou confuso para a rosada após ter sido tirado de seus devaneios. – Que foi? – Abaixou um pouco o volume da música.
— Continua fã do Pink Floyd? – Questionou após afivelar o cinto. – Lembro que você era fascinado por essa banda.
— Ainda sou. – Respondeu com um sorriso sem graça. – As melodias são perfeitas, não tem como não gostar. E eu ainda guardo a discografia do Led Zeppelin.
— Dezoito anos se passaram, mas o antigo Sasuke continua aí.
— Como assim? – Deu partida no carro.
— Nada... – Balançou a cabeça em sinal negativo, com um quase imperceptível sorriso de canto, então escorou a cabeça no vidro da janela. – Não é nada não, esquece...
Alguns minutos em silêncio, apenas ouvindo música, ambos chegaram à casa de Sasuke ao fim de Another Brick in the Wall. Os dois desceram do carro e Sakura entrou naquela enorme casa com uma certa expectativa, mas não viu Sarada na sala e chegou até mesmo a pensar que ela não estivesse em casa.
— Com certeza está dormindo. – A voz de Sasuke até assustou a rosada, mas ela disfarçou e olhou por cima do ombro para o homem que estava atrás de si.
— Como?
— Sarada. – Ele respondeu. – Ainda é bem cedo, com certeza ela está dormindo.
— Ah, sim... – Assentiu. – E onde eu vou ficar?
— Pode ficar no meu quarto, se quiser. – Após tal frase, o Uchiha recebeu um olhar de desaprovação da mulher e não conteve um riso. – Pelo menos assim eu fico mais tranquilo... De olho em você.
— Eu prometi para a Sarada que não iria cair no lago de novo. – Retrucou.
— No lago... – Suspirou. – Mas existem outras formas de...
— Sasuke... – Sakura o interrompeu. – Eu não vou tentar tirar a minha vida novamente. Confia em mim.
Confiar em Sakura? Isso era complicado após a tentativa de suicídio da rosada.
E se ela tentasse fazer novamente?
Ela já deixou claro que não tem amor à vida, isso sem contar no quanto ainda estava fragilizada. Do jeito que Sakura é impulsiva e inconsequente, Sasuke continuava com medo de que algo acontecesse, por mais que ela tivesse garantido que não faria mais nenhuma loucura.
— Tem um quarto de hóspedes lá em cima. – Disse o moreno. – Você pode ficar lá.
Dito isso, Sasuke segurou no braço de Sakura e a guiou até o andar de cima, mais especificamente até o quarto onde ela ficaria hospedada por sabe-se lá quantos dias.
Sarada já não estava mais dormindo. Acordada, pensava sobre Sasuke e Sakura... Sobre como seu pai mudou desde que a rosada reapareceu depois de tantos anos, sobre como "Izanami" conquistou seu amor e carinho de uma forma quase que surreal.
Ninguém podia negar que Sarada tinha para com Izanami um amor enorme, sem ao menos imaginar que ela era Sakura Haruno. Aquilo era muito bizarro para Sarada; ela desejou Izanami como mãe, e ela de fato é sua mãe.
Por que não dar uma segunda chance? A rosada justificou tudo, ela não foi embora porque quis, ela não sabia que sua filha estava viva, ela tentou se matar após ser rejeitada.
Não havia dúvidas de que Sakura realmente amava a filha incondicionalmente.
Por que Sarada tinha que relutar em reconhecê-la como mãe?
E Sasuke, que estava demonstrando que queria mudar, por que não seria digno de mais uma chance? Por que não seria digno de perdão?
Sarada sentia-se mal, pois, por mais que tivesse sido enganada a vida inteira, também causou sofrimento a uma pessoa e suas palavras impensadas quase causaram a morte dela.
Percebeu um movimento do lado de fora do quarto. Obviamente Sasuke não estava sozinho e Sarada estranhou isso, inclusive o fato de ele já estar em casa, visto que o moreno não saía do lado da rosada, só voltara em casa uma vez para tomar banho.
Levantou-se da cama rapidamente, pegou os óculos de armação vermelha que estavam sobre o criado mudo e colocou em seu rosto, logo em seguida caminhou para fora do quarto. Olhou de um lado para o outro no corredor e não viu ninguém, então deduziu que Sasuke já tinha descido.
Desceu as escadas ainda sonolenta, pois não tinha dormido direito à noite. Na verdade não dormia direito desde que descobriu sobre sua mãe biológica... Principalmente nestes últimos dias, que a rosada estava internada devido à tentativa de suicídio.
Chegou à cozinha e viu Sakura sentada numa cadeira e com os cotovelos sobre a mesa, enquanto Sasuke fazia algumas panquecas.
A menina não podia negar que seu pai era ótimo na cozinha. Claro, nunca dizia isso pra ele, mas sempre achou.
— Sakura? – Falou confusa após ver a rosada ali.
Sakura levantou-se rapidamente da cadeira, um pouco nervosa, ficando de frente para Sarada.
— Oi... – Sorriu sem graça, imaginando que sua presença era indesejada ali. – É que... O Sasuke...
— Ela vai ficar aqui por alguns dias. – Sasuke interrompeu a rosada, então desligou o fogão e colocou todas as panquecas empilhadas sobre um prato. – Pelo menos até ela melhorar.
— Ah, sim... – Sarada assentiu, então puxou uma cadeira e se sentou de frente para a Haruno que logo se sentou novamente. – Espero que você melhore, Sakura. – Falou meio sem graça. – Desculpa por qualquer coisa que eu tenha dito.
— Tudo bem. – A mulher sorriu docemente. – Espero que minha presença aqui não incomode.
— Não vai incomodar. – Sasuke colocou uma panqueca com um pouco de geleia num prato e entregou para a rosada.
Tamanho ato de cavalheirismo vindo daquele cafajeste nato até assustou Sarada. Realmente alguém havia mudado da água para o vinho.
Mas acontece que Sasuke sentiu um pouco de tontura e, logo que serviu a Haruno, segurou com ambas as mãos na beirada da mesa para não acabar caindo no chão.
— Sasuke, o que foi? – Sakura se levantou preocupada e segurou no braço do moreno. Como se ela, com a força que tem, fosse impedi-lo de cair caso isso viesse a acontecer.
— Uma tontura de leve. – O homem respondeu.
— De leve... Sei... – Ironizou a adolescente que se levantou e puxou uma cadeira para Sasuke, então Sakura o ajudou a se sentar. – Sua voz tá estranha... Você tá gripado?
— É claro que não. – Fungou.
— E esse nariz escorrendo? – Sarada arqueou uma sobrancelha.
— Que nariz está escorrendo? – O Uchiha colocou as mãos sobre o nariz pra tentar disfarçar. Infelizmente acabou espirrando, então não conseguiu disfarçar de jeito nenhum.
— Argh, que nojo! – Sarada revirou os olhos, então pegou um pouco de guardanapo sobre a mesa e deu para Sasuke. – Limpa esse catarro! – Ordenou.
— Obrigado, você é muito delicada... – Sasuke então pegou o guardanapo e usou para limpar o nariz, logo em seguida o entregou sujo para Sarada.
— O que é isso? – Olhou enojada para o guardanapo enrolado na mão se seu pai.
— Joga no lixo pra mim... – O moreno pediu e logo Sarada contorceu seu rosto. – Eu tô dodói.
— Tudo bem, eu jogo. – Rindo de pai e filha que mais pareciam duas crianças, Sakura pegou o guardanapo sujo e foi jogá-lo no lixo. – Só espero que não tenha catarro na panqueca.
— Que nojo! – Sarada até tentou conter o riso, mas isso foi impossível diante da carranca de Sasuke.
— Ora essa, é claro que não tem catarro na panqueca. – Bufou. – Podem comer sem medo.
As duas mulheres se sentaram e todos tomaram café da manhã juntos. O silêncio reinou na mesa, pois o clima estava tenso e ninguém ali tinha coragem pra puxar algum assunto. A única coisa que se podia ouvir, além de talheres batendo no prato, era Sasuke fungando e, às vezes, espirrando.
Sarada se ofereceu pra retirar a mesa do café e Sasuke, assim que terminou de comer, tinha a intenção de ir direto para seu quarto e se jogar em sua cama. Acontece que ele estava tão ruim que se jogou de bruços no sofá da sala mesmo.
— Sasuke? – Sakura chamou ao ver o moreno que praticamente vegetava ali. – Vamos, vá para o seu quarto. – Ela puxou o braço do Uchiha que sequer reagiu. – Vamos, Sasuke. Você vai acordar todo dolorido se dormir nessa posição. Vai pro seu quarto.
— Ah, não... Eu tenho que subir escadas... – Resmungou feito criança e Sakura revirou os olhos.
— Você não tá bem. – Usando a mesinha de centro como apoio, Sakura se abaixou um pouco. – Vamos... – Passou a mão pelos cabelos lisos e negros como a noite. – Toma um banho, veste uma roupa confortável, deita na sua cama e liga o aquecedor. Com certeza você vai se sentir melhor.
— Não quero. – Grunhiu.
— Porra, é pior do que criança! – Rosnou a mulher.
— O que houve? – Indagou a adolescente que entrou na sala e viu Sasuke jogado de qualquer jeito no sofá.
— Ele não tá bem e fica teimando em ficar aqui. – Respondeu a rosada.
— Ah, o Sasuke é mais teimoso que mula quando empaca. – Sarada então tocou na testa de seu progenitor e arregalou os olhos. – Ele tá queimando!
Sakura então repetiu o gesto e tocou na testa do pai de sua filha, sentindo a temperatura alta.
— Sarada, aqui tem termômetro?
Sarada assentiu e caminhou em direção ao seu quarto, deixando seus pais a sós. Não demorou muito para chegar com uma caixinha, então a colocou sobre a mesinha de centro e pegou um termômetro em meio a alguns remédios e materiais para curativos.
— Aqui está. – A adolescente pegou o termômetro e entregou para a mulher que pegou o objeto cor de rosa, retirou da caixinha e, com um pouco de dificuldade, colocou na axila do Uchiha que já estava nitidamente adormecido.
Após alguns segundos o termômetro apitou, então Sakura retirou o objeto para ver o número que estava marcando e arregalou os olhos ao ver o quão febril Sasuke estava.
— 38,5 °C. – Suspirou a rosada.
— Não está tão alta. – Sarada se sentou perto da cabeça de Sasuke e, com cuidado, a ergueu um pouco e colocou uma almofada para que seu pai ficasse mais confortável. – Acho que é porque... – A morena desviou seu olhar para o chão. – Tipo, você caiu no lago, daí ele teve que pular pra te salvar... Estava frio... Sabe Deus quanto tempo ele ficou com aquela roupa molhada.
Realmente foi bastante tempo. Sasuke havia levado Sakura para o hospital e lá retiraram a roupa encharcada que a Haruno usava. Entretanto, o moreno passou um bom tempo com as roupas molhadas, tanto que elas chegaram até a secar naturalmente enquanto ele passou a noite no hospital ao lado de Sakura. Por mais que as enfermeiras lhe tenham dado toalhas para que ele se secasse, as roupas não secaram de uma hora pra outra e a saúde de Sasuke acabou pagando por isso.
— Ele pegou um resfriado bem forte. – Disse Sakura enquanto guardava novamente o termômetro. – Você tem algum remédio aí que eu possa dar pra ele?
— Sim, aqui tem alguns. – Sarada entregou pra Sakura um remédio para febre e dor no corpo.
A rosada então se levantou e foi até a cozinha para pegar um copo de água, então retornou para a sala onde Sarada, inutilmente, tentava acordar seu progenitor.
— Ele ainda tá dormindo? – A mulher perguntou surpresa, colocando o remédio e o copo com água sobre a mesinha de centro. – Sasuke? – Ela sacudiu um pouco o ombro do moreno. – Vamos, acorda.
— Não quero. – Resmungou com a voz abafada após enfiar o rosto na almofada. – Me deixa em paz, eu quero dormir.
Sakura e Sarada se encararam e então soltaram um longo suspiro, concordando, mesmo que sem dizer nada, que Sasuke realmente era pior do que criança pequena.
— Sasuke, toma o remédio e vai dormir no seu quarto. – Disse Sarada, mas Sasuke nada respondeu. – Anda logo, seu velhote chato! – Ela começou a sacudi-lo com força, o que não é nada legal pra alguém que está com febre e dor no corpo. – Levanta daí e toma logo o maldito remédio!
— Cacete, Sarada! – O Uchiha resmungou e finalmente se sentou, deixando as costas apoiadas no sofá e continuou com os olhos fechados. Sua cabeça estava latejando. – Você é forte, isso machuca!
— Toma esse remédio, Sasuke. – Com calma e paciência, Sakura colocou o comprimido na mão de Sasuke e este o levou até a boca. Em seguida a rosada o entregou o copo com água para que ela pudesse engolir o medicamento. – Doeu? – Ela arqueou uma sobrancelha e colocou ambas as mãos na cintura. Sasuke então encarou a rosada com indignação e os olhos semicerrados, como se perguntasse "Quantos anos você acha que eu tenho?" – Vai deitar no seu quarto, Sasuke. Lá você vai dormir melhor.
— Mas toma um banho quente primeiro. – Aconselhou Sarada. – Vai ajudar a melhorar essa sua dor no corpo.
— Eu tô delirando por causa da febre ou a Sarada tá preocupada comigo? – O moreno perguntou para Sakura, o que deixou a filha de ambos um tanto quanto sem graça.
— Ora essa. – Sarada bufou e cruzou os braços em frente ao corpo. – Eu não quero seu mal, Sasuke! – Explicou, tentando não deixar sua preocupação transparecer. Ela não conseguiu se conter e, quando percebeu, estava toda preocupada com o pai doente. Foi tão natural que Sarada nem percebeu. – Se você ficar aí, jogado de qualquer jeito nesse sofá, não vai melhorar nunca!
— Concordo com a Sarada. – Sakura se manifestou. – Você pode ir tomar um banho e colocar uma roupa confortável enquanto o remédio faz efeito.
— É sério que eu ganhei duas enfermeiras? – Indagou.
— Não exagera. – Sarada revirou os olhos. – Vai logo pro seu quarto antes que eu te arraste, seu traste!
Ela até tentou disfarçar, mas sua preocupação para com o pai ficou pra lá de nítida e Sasuke até se alegrou com isso.
"Eu preciso ficar doente mais vezes.", pensou.
O moreno então se levantou e, como as duas mandaram, foi para seu quarto. De fato tinha que concordar que precisava de um banho quente, roupas confortáveis e um bom sono, uma vez que havia dormido numa poltrona super desconfortável no hospital enquanto fazia companhia para a Haruno.
— Então... – Sarada pigarreou sem graça quando foi deixada a sós com sua progenitora. – Você vai virar babá do Sasuke?
— Não exatamente. – A mulher respondeu também com um sorriso sem graça. O clima entre ela e Sarada não estava dos melhores desde que Izanami revelou ser Sakura. – Ele está doente.
— Você gosta do Sasuke? – A pergunta de Sarada fez Sakura arregalar os olhos, então a morena corou um pouco e resolveu reformular sua pergunta. – Digo... Por que você cuidaria dele? Você vai ficar uns dias aqui em casa e com certeza ele não vai sarar tão cedo.
— Bem, eu o odiava, por pensar que ele tinha culpa do que aconteceu... Mas depois que soube da verdade, talvez eu tenha voltado a considera-lo amigo, e agora, digamos que o que eu tenho por ele é gratidão. – Sakura respondeu sincera. – Ele me salvou não somente de morrer afogada e congelada, as palavras do Sasuke, de alguma forma, me deram forças. Eu sou muito grata a ele.
Sarada não sabia onde enfiar a cabeça. Toda aquela confusão foi porque ela não soube medir as palavras. Tá certo que ela estava nervosa, mas ainda assim foi muito dura.
Jamais imaginou que Sakura fosse tentar se matar e estava profundamente arrependida do que disse, embora ainda estivesse magoada. Mesmo assim, pensou que seria bom tentar dar uma chance para Izanami e conhecê-la como Sakura.
— Isso tudo é por minha culpa. – A garota abaixou o olhar. – Eu não devia ter dito o que disse, foi mal.
— Eu sei que é difícil pra você, Sarada. E, acredite, não é apenas a mim que você machuca com a rejeição.
— Tá falando do Sasuke? – Arqueou uma sobrancelha. – Ele... Ele, por muito tempo, jogou fora o meu amor, sabia?
— Ele tá tentando, Sarada. – Explicou. – Eu vejo que ele tá tentando reconquistar o seu amor. Acredite, não há nada pior do que a rejeição. As pessoas erram, o Sasuke errou, mas ele quer voltar atrás e está se esforçando pra isso.
— Por que diz isso? Por que defende ele assim, Sakura?
— Porque o Sasuke te ama, Sarada. Eu vejo isso... Eu sinto, acredite.
Primeiro Boruto falou sobre Sasuke amar Sarada, e agora Sakura.
Ela seria uma pessoa tão cruel assim?
Talvez seu pai realmente merecesse mais uma chance pra mostrar que realmente ama a filha e se preocupa.
— Talvez você tenha razão. – A menina assentiu. – Eu não sei explicar como, mas o Sasuke tá diferente.
— Sim, ele está. – Sorriu sincera a rosada. – Dê uma chance para o Sasuke ser seu pai e para eu ser sua mãe.
Sarada ficou muda por alguns segundos. Tinha que admitir que a proposta era tentadora, uma vez que, por muitos anos sentia como se não tivesse pai e, de fato, não tinha uma mãe.
— Eu... Eu preciso de um tempo. – A menina então se levantou para poder voltar para o seu quarto. – Não tô com raiva de vocês, acredite em mim. Só tô pedindo um tempo.
Antes que Sakura abrisse a boca para articular uma única palavra, Sarada virou as costas e subiu as escadas.
Sakura então acendeu uma pequena chama de esperança em seu coração, uma vez que Sarada já não estava mais tão irredutível. Talvez Sasuke estivesse certo. Ela só precisava de um tempo.
Preocupada com o Uchiha, Sakura subiu as escadas e foi até o quarto do moreno, onde ele estava só de cueca e parado de frente para o guarda roupa. Ao ouvir o barulho da porta abrindo e fechando, Sasuke levou um susto e rapidamente se virou, dando de cara com a rosada que não conteve um riso.
— Sakura, pelo amor de Deus. – Bufou. – Eu tô me trocando.
— Não tem nada aí que eu nunca tenha visto. – Retrucou, sentando-se na cama de casal que ficava perto do guarda roupa.
Ele revirou os olhos e resolveu nem responder, apenas se concentrou em escolher uma roupa quente e ao mesmo tempo confortável.
Vestiu uma calça de moleton cinza com uma blusa de mangas compridas preta e calçou um par de meias brancas. Jogou-se sobre a cama e se encolheu feito criança após se enrolar no edredom grosso.
— Liga o aquecedor pra mim. – Pediu com a voz baixa e anasalada, então Sakura foi gentil e concedeu tal pedido. – Obrigado.
— Tá precisando de alguma coisa? – Questionou preocupada e se aproximou do corpo masculino todo encolhido, obviamente que morrendo de frio.
— Só tô precisando dormir mesmo. – Respondeu já de olhos fechados.
Sasuke estava com o nariz bastante entupido e mal conseguia respirar direito.
— Eu vou cuidar de você, tá bem? – Sakura questionou com a voz doce.
Era grata pelo que Sasuke fez por ela. O moreno a salvou, cuidou dela no hospital e a levou para a sua casa. O homem foi um grande exemplo de gentileza e estava na hora de Sakura retribuir.
— Engraçado... – Sasuke riu baixinho, permanecendo de olhos fechados. – Eu te trouxe pra cá para poder cuidar de você, mas agora é você quem está cuidando de mim.
— Então que bom que você me trouxe pra cá. – Passou a mão pelos cabelos de Sasuke. – Ficarei aqui até você melhorar... Me desculpa, se eu não tivesse pulado naquele lago, você estaria bem. Me desculpa por ser tão fraca.
— Você não pulou, você caiu, lembra? – Resmungou. – Um resfriado é um preço pequeno a se pagar por salvar sua vida.
— Obrigada, Sasuke...
Sasuke nada respondeu, então Sakura percebeu que seu rosto havia relaxado e sua respiração estava mais lenta, indicando que ele já tinha dormido.
Sakura não gostava de Sasuke de uma forma romântica, mas era grata. Por isso, a rosada achou que o melhor a fazer realmente seria ficar ali com o moreno até ele melhorar, da mesma forma que ele ficou ao lado dela até que ela melhorasse.
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