Notas iniciais
Capítulo grande para vocês, em especial para Nancy Noyon que nos presenteou com uma linda recomendação *------* Muito obrigada, você nos fez muito felizes ♥ ♥ ♥ ♥ Esperamos que goste do capítulo, é dedicado a você ;**** Enfim, vamos ao capítulo =D

Toská, Rússia

16 de março de 2016

7:04 P.M.

Sakura estava inconsolável. Não parava de chorar, porém a intensidade do choro tinha diminuído um pouco. Sasuke optou por levá-la para o seu apartamento.

No carro, a mulher mantinha a cabeça encostada no vidro da janela. Algumas vezes ele via, pela visão periférica, ela enxugando as lágrimas com as mãos. No caminho inteiro, o único barulho feito era os soluços de Sakura. Sasuke queria consolar a rosada ao seu lado. Não gostava de vê-la daquele jeito. Sarada havia sido realmente muito impulsiva com as palavras. Porém achou melhor ficar em silêncio e dar um tempo para a Haruno colocar os pensamentos em ordem.

Ao chegarem ao apartamento de Sakura e estarem devidamente sentados no sofá da sala, Sasuke resolveu se pronunciar e acabar com o clima tenso que tinha se instalado desde que entraram no local.

— Sakura, não fique assim. – Disse qualquer coisa que lhe veio em mente. Ele sempre foi péssimo com palavras de incentivo. – A Sarada agiu sem pensar. Ela está atordoada por causa da notícia. Saber que durante todo o tempo que ela teve de vida foi enganada pelas pessoas que mais amava... Deve ser muito duro. – Suspirou, encostando as costas no encosto do sofá.

Sakura permaneceu calada por um tempo, apenas observando as mãos que estavam sobre as pernas.

— Deixe-me sozinha, por gentileza. – As palavras saíram sofridas da boca da mulher. – Você não sabe a dor que estou sentindo, então, por favor, não diga nenhuma palavra.

Sasuke olhou para a rosada pelo canto dos olhos. Estava ciente de que ela tinha sofrido muito mais do que ele. Nossa, não tinha nem comparação, mas ela não podia falar que ele não sabia o que era ser desprezado pela própria filha.

— Não se esqueça de que a Sarada também não me preza. Você pode apontar o dedo e me acusar de muitas coisas, menos de receber um amor que um pai gostaria de receber do filho. – Ele falou com uma voz calma. Não queria brigar e também não tinha a menor razão para tal. Ele não sabia nem ao menos o porquê de estar sentado ali, tentando consolar aquela mulher.

— Sasuke... Fala com o vácuo. Ele tem mais interesse em te ouvir do que eu. – Sakura fungou, passando a mão pelo rosto. As lágrimas já haviam se esgotado, mas a aparência da face da rosada ainda estava lamentável.

— Eu estou tentando ajudar, Sakura. Quero que você entenda que a Sarada disse aquelas coisas sem pensar. Mas quando ela refletir ainda mais no assunto ela vai perceber que errou em te tratar daquele jeito. – Falou. Sasuke só queria que Sakura se sentisse melhor. Conhecendo a filha que tinha, certeza que Sarada não iria facilitar as coisas assim. Mesmo mudando de ideia em relação ao assunto, o orgulho provavelmente interferiria.

— Sarada é o único motivo que me mantém viva. Se eu a perder, será como perder o ar que respiro. – Ela fechou os olhos, prendendo-se nos seus pensamentos.

— Você não irá perder a Sarada. Olhe, pense nos momentos em que passaram quando você ainda era apenas a Izanami. Eu sei que andaram saindo algumas vezes. – Meio receoso, tocou as mãos da rosada. Ela abriu os olhos, olhando para a mão sobre as suas. – As pessoas se tornam mais fortes porque elas têm memórias que não podem esquecer. Lembre-se dessas memórias, Sakura. Não deixe a essência da Sarada morrer dentro de você. – Sasuke não fazia a menor ideia de onde estavam saindo tantas palavras bonitas, mas sabia que estava fazendo um bom trabalho. Temia que Sakura fizesse alguma loucura. Não duvidava nenhum pouco do que aquela mulher era capaz de fazer. – Vou pegar um copo de água para você... – Comentou fazendo menção de levantar. Ato que foi impedido por Sakura.

— Não quero água... – Ela falou com a voz um pouco rouca. – Eu quero a minha filha. Ela é o meu tudo. Preciso dela, Sasuke. Preciso muito. – Prendeu um soluço, cobrindo o rosto com as mãos. – Isso está em meu coração e mente... Por favor, não me dê mais desculpas. Eu sei que a Sarada nunca vai me perdoar. – Seus ombros começaram a tremer ao mesmo tempo em que um choro baixo começava.

— Não estou inventando desculpas... – Sasuke desviou os olhos, não sabendo mais o que falar para consolar aquela mulher. – Só espere. Dê um tempo para Sarada pensar e pôr os pensamentos em ordem. – Ele suspirou mais uma vez. – Certeza que não quer a água? – Perguntou. A resposta que recebeu foi apenas um balançar positivo de cabeça.

— Água não resolve a vida de uma flor que já está baqueada. O que resta fazer é matá-la de vez para que pare de sofrer. – Sakura comentou.

Sasuke franziu o cenho, não entendendo muito bem o raciocínio estranho da mulher.

— Não necessariamente. Isso pode ser o que vá salvá-la. – Falou contrariando a mulher.

— Água em excesso pode matar... – Murmurou após um suspiro. Tirou as mãos lentamente da frente do rosto, olhando para um ponto fixo da parede. – Vá embora. Quero ficar sozinha...

O moreno assentiu, levantando-se. Compreendia perfeitamente de que Sakura precisava de um tempo sozinha para pensar.

— Só não vá fazer nenhuma besteira. – Avisou, caminhando para fora do apartamento. Não confiava no que aquela mulher sozinha e destruída por dentro poderia fazer, mas sua presença ali poderia piorar tudo.

Era incrível como as coisas viravam de cabeça para baixo tão rápido.

Mesmo receoso em deixar Sakura sozinha, saiu do apartamento, não podia ficar ali o tempo todo. Precisava falar com Sarada com mais calma. Seria a melhor solução.

Pegou um táxi, visto que viera no carro da Haruno, e voltou para sua casa. Quando chegou, percebeu que tudo estava muito quieto, foi até o quarto de Sarada e ouviu o choro baixo da filha. Resolveu não incomodar, falaria com ela apenas no dia seguinte, daria um tempo. Ela e Sakura eram parecidas em alguns pontos da personalidade.

Foi até a cozinha e pegou uma garrafa de Whisky, gostava de beber para relaxar. Colocou uma dose em um copo e se escorou na bancada, olhando pela janela. Tragou um pouco da bebida.

Sempre fora rejeitado por sua filha, mas sabia que merecia aquele tipo de tratamento, afinal, por mais que a amasse, esteve muito ausente na vida dela. Porém, era fato que estava tentando compensar agora, tentava ser mais compreensivo. Sempre aceitou bem a rejeição de Sarada, então por que se sentia tão horrível agora? Esperava que sua filha o aceitasse melhor, que ela notasse que ele estava tentando mudar por ela, ser um pai melhor para ela.

É verdade que ele jamais entenderia a dor de Sakura, mas ao menos a dor da rejeição de sua filha eles compartilhavam.

Tentou imaginar um fim onde tudo ficasse bem, um fim onde Fugaku parasse de odiá-lo, um fim onde Sarada desse mais uma chance a ele e que aceitasse a própria mãe, que não tinha culpa de nada ali. Tentou imaginar um final feliz para mãe e filha, que elas deixassem de serem vítimas dos caprichos de seu pai, mas não conseguia.

— Eu sou um inútil... – Murmurou, passando a mão em seu rosto.

Talvez Sarada tenha razão, ele sempre foi um covarde. Se tivesse enfrentado seu pai quando o mesmo o obrigou a ir para outro país, se tivesse ficado com Sakura, talvez sua filha tivesse uma família feliz. Não haveria mentiras, a Haruno não teria passado por anos sofridos, ele mesmo teria uma relação melhor com sua filha... O mais importante de tudo: Sarada jamais teria entrado para a Amaterasu, jamais teria que correr risco de ser presa ou, pior, morta.

Suspirou pesadamente e pôs o copo vazio sobre a pia. Estava determinado a resolver aquilo. Faria o possível para Sakura e Sarada terem um futuro melhor.

[...]

Deitada em sua cama, Sarada soltava pequenos soluços. A última vez que havia chorado tanto assim foi quando terminou com Boruto.

Pensou em ligar para o namorado, mas ele com certeza lhe encheria de perguntas, e tudo o que precisava agora era um tempo para si mesma.

Estava com uma dor latejante em sua cabeça. Não sabia se era de tanto pensar ou de chorar.

Sarada se sentia abandonada por completo. As pessoas que ela mais amava na vida, seus avós, a iludiram com mentiras por 18 anos. E seu tio, que o considerava mais um pai do que Sasuke, foi quem teve esta ideia ridícula de sequestrá-la.

— Por quê? – Era tudo o que conseguia pensar.

Por que fizeram isso? Por que a enganaram durante todo este tempo? Com qual propósito?

— Ninguém se importa. – Repetia para si mesma. – Nunca se importaram!

De que adiantava terem contado tudo agora? Depois de tudo o que ela passou, tudo por causa de mentiras. Não sabia mais o que era verdade.

Sua mãe não a abandonou, mas quando soube sobre Sarada, nada fez. Tornou-se cúmplice de tudo a partir do momento em que decidiu omitir a verdade.

“Fizemos isso para o seu bem”, só conseguia rir diante de tamanha hipocrisia.

Como isso poderia ser para o bem dela? Sua vida foi uma ilusão. Não há nada bom nisso.

Levantou-se revoltada e jogou o travesseiro contra a parede. Virou-se para a cama e desferiu golpes sobre o mesmo.

Puxou seus cabelos enquanto soltava um grito abafado contra o colchão. Estava irada.

Tornou a chorar amargamente.

Por que ninguém se colocava no lugar dela? Acham que a única quem sofreu nesta história fora a Sakura?

Quantos anos Sarada passou o dia das mães sem ter uma, quanto tempo ela aguentou vendo seus amigos serem buscados pelos pais na escola e ela não, nunca ouviu uma historinha de princesas antes de dormir, quantos anos ela passou sem receber um abraço, será que nada disso contava?

As pessoas que se aproximavam dela era tudo por causa do dinheiro. Por isso acreditava que só quem se importava com ela era sua família, sem incluir o Sasuke. Mas percebeu que estava errada quando descobriu a mentira.

Quando conheceu Izanami achava que finalmente iria sentir tudo o que gostaria, tudo o que ela aguentou durante muito tempo. E de fato, ela sentiu... E foi isso o que mais doeu. Ela já estava amando-a, e ao descobrir que ela também estava mentindo, sentiu-se completamente abandonada.

Sua raiva contra Sasuke havia se multiplicado. Não só a largou para os avós, como também mentiu para ela. E se Sakura não tivesse aparecido, era provável que morreria acreditando que era verdade.

Pegou suas roupas e jogou numa bolsa. Nem conferiu o que faltava. Apenas saiu de casa passando por seu pai que dormia sobre a bancada da cozinha e foi embora. Não pretendia mais voltar. Nem para sua casa, nem para a Amaterasu.

[...]

Toská, Rússia

19 de março de 2016

07:44 A.M.

Sasuke estava extremamente preocupado, e com razão. Sarada não estava em casa e durante o primeiro dia o homem não se preocupou, então não foi atrás, visto que a menina estava extremamente machucada com aquela história toda e precisava de um tempo pra digerir tudo. No segundo ficou preocupado, mas, tratando-se de sua filha, não era anormal. Porém, devido as circunstâncias da última discussão entre eles, ficou realmente preocupado.

Já era o terceiro dia e Sarada não aparecia, sequer atendia o celular. Não conseguiu dormir naquela noite. Pensou que fosse só uma birra de adolescente e que logo a garota voltaria com o rabo entre as pernas, mas nada.

Atordoado e com mil teorias rondando sua mente – uma pior do que a outra –, Sasuke vasculhou o quarto de Sarada, procurando o passaporte da menina, temia que ela tivesse saído do país. Quando encontrou o documento, se tranquilizou um pouco, mas quem poderia garantir que ela estaria realmente em Toská? Poderia não ter saído do país, mas quem a impediria de sair da cidade? Uma garota rebelde e magoada com os últimos acontecimentos, maior de idade e com o próprio carro poderia muito bem ter sumido.

Na casa de Boruto ela com certeza não estaria, já que Hinata jamais iria aceitar que o filho reatasse o namoro com a ex.

Mas bem que o loiro poderia ser de grande ajuda para o Uchiha, já que ele não podia contar para a família sobre o sumiço de Sarada, uma vez que a partir disso facilmente descobririam que a adolescente já estava ciente sobre sua progenitora.

Não tinha o número do celular de Boruto, mas encontrou o Uzumaki facilmente no Facebook, onde o status de relacionamento do loiro estava como "solteiro", com certeza para que Hinata não soubesse que ele voltou com Sarada. Revirou os olhos ao ver a foto de perfil do rapaz, que na opinião dele era a coisa mais ridícula da face da terra e parecia realmente um cacho de bananas. Por fim, conseguiu encontrar o número de celular.

Discou o número de Boruto e logo o rapaz atendeu.

— Quem é? – A voz do rapaz soou sonolenta e irritada do outro lado da linha. – Eu virei a noite estudando e só pude dormir agora, seja lá quem for, seja breve.

— Sou eu, garoto. – Sasuke respondeu impaciente.

— "Eu" quem? – Bocejou.

— Sasuke. – Respondeu enquanto caminhava de um lado para o outro no quarto, ansiando por alguma informação que Boruto pudesse ter. – Vou direto ao ponto, moleque: Você sabe cadê a Sarada?

— Ah, Sasuke! – Tamanha era a lerdeza de Boruto, que Sasuke sentiu vontade de jogar seu iPhone com tudo na parede. – Olha, eu ando meio preocupado, pois já tem uns dias que ela não me liga e nem manda mensagem. Inclusive faz dias que ela não visualiza o WhatsApp.

— É, disso eu já sabia. – O homem suspirou desanimado. – Ela saiu de casa, não sei mais o que fazer. Não tenho a quem pedir ajuda.

Era humilhante dizer que precisava da ajuda de alguém, principalmente quando esse alguém é o idiota do namorado da sua filha, mas Sasuke precisava admitir que estava pior do que cego em tiroteio.

— Você precisa de ajuda pra procurar por ela, né? – Indagou o loiro.

— É.

— Tô indo pra sua casa agora. – O rapaz falou todo afoito. – Tchau.

Boruto poderia ser uma boa ajuda e Sasuke esperava que o loiro conseguisse convencer Sarada a voltar pra casa.

É claro que, mesmo que Boruto implorasse e chorasse lágrimas de sangue, Sasuke não contaria os detalhes do porquê de Sarada ter fugido de casa. Diria apenas que a filha é uma garota rebelde e que tiveram mais uma de suas discussões infantis.

Sasuke resolveu então deixar Sakura ciente da situação. É claro que ela estava emocionalmente abalada, mas com certeza se sentiria mal se soubesse que Sasuke escondeu isso dela.

Chega de mentiras entre Sasuke e Sakura. Ambos são pais de Sarada, quer a menina queira ou não.

No entanto as chamadas só foram dar na caixa postal. Sasuke, com toda a sua paciência, não ligou mais do que cinco vezes.

— Merda! Agora até ela resolveu me ignorar? – Rosnou. – Foda-se, ela me liga quando vir as chamadas.

Não demorou em o rapaz chegar à residência do Uchiha, então os dois entraram no carro de Sasuke e saíram por Toská, olhando em todos os lugares que Sarada poderia estar.

Por sorte, Boruto conhecia algumas amigas de Sarada, mas nem na casa da melhor amiga ela estava.

— Merda! – O homem praguejou e bateu com força no volante.

Já era a casa da quinta amiga de Sarada que ele ia com Boruto, mas nem sinal de sua filha.

Sasuke estava extremamente nervoso e inclusive chegou a pensar que Sarada estivesse morta.

"Se aquele velho maldito tiver feito alguma coisa...", pensou com ódio, apertando com força o volante.

— Sasuke, por qual motivo a Sarada sumiu? – Boruto indagou desconfiado.

— Ora essa, você não sabe que sua namorada é uma criatura difícil? – Retrucou, então bagunçou os cabelos com seu nervosismo quase palpável. – Nós vivemos brigando e ela simplesmente fugiu de casa!

— Não pensei que as brigas de vocês fossem tão sérias... – Comentou. – Geralmente vocês parecem duas crianças quando brigam.

— Olha aqui, moleque, se for pra ficar fazendo comentários ridículos e inúteis...

— Ei, relaxa... – O loiro falou tranquilamente e Sasuke respirou fundo. Realmente estava precisando se acalmar, pois ficar nervoso não iria ajudá-lo em absolutamente nada. – Vamos fazer o seguinte. Saímos desse carro, cada um vai pra um lado e procura por ela. Estamos com nossos celulares, então manter contato será fácil.

— Tudo bem. – Sasuke destravou a porta do carro e ambos desceram.

Logo Boruto saiu correndo rua a cima, então Sasuke decidiu ir na direção contrária. Toská era uma cidade quase tão grande quanto Moscou, então Sarada poderia estar em vários lugares.

Mas o Uchiha logo se cansou e, por mais que ficasse irritado toda vez que era chamado de velho pela filha, tinha que admitir que já havia passado da idade de ficar correndo feito louco pelos quarteirões.

Voltou para seu Audi e decidiu procurar com ele mesmo. Claro que, hora ou outra, Sasuke precisava descer do automóvel, mas pelo menos não precisou correr a pé de bairro em bairro. Seria cansativo demais.

Sasuke e Boruto se comunicavam por celular, já tinham rodado quase a cidade inteira, já passava de duas da manhã, e nada de Sarada.

O desespero já tomava conta de Sasuke. Suas mãos suavam frio, seu coração já estava quase na garganta, ele tremia de nervosismo... E se alguma coisa de mal tivesse acontecido com sua filha?

Passando por perto de um lago, a atenção de Sasuke foi atraída pelo Mercedes de Sakura.

O que ela estaria fazendo ali numa hora dessas, quando o movimento nas ruas estava mínimo? Era perigoso para uma mulher, mesmo que ela tivesse uma arma, mas Sasuke sabia que Sakura era meio louca – tanto que enfrentou Fugaku –, então nada que viesse dela o surpreendia.

Estacionou perto da praça que ficava ao redor do lago, ao lado do carro de Sakura. Sentiu o frio medonho quando abriu a porta de seu veículo e começou a bater os dentes. Olhou para o carro ao lado do seu, mas a porta do motorista estava aberta e o automóvel estava completamente vazio. Esfregou as mãos uma na outra e se amaldiçoou por não ter levado luvas dentro do carro, mas ele jamais imaginou que ficaria procurando por Sarada até de madrugada, que é quando o frio da Rússia castiga ainda mais.

[...]

O Uzumaki olhava ao redor enquanto caminhava com pressa.

Seu sogro já havia procurado naquela região, mas o mesmo sugeriu que olhasse novamente e com mais calma.

Entrava em alguns estabelecimentos ainda abertos naquele horário, mas não encontrava a menina de jeito nenhum.

— Onde você está? – Perguntou para si mesmo em voz alta.

Parou um pouco para respirar e pensar com calma, fez isso durante 20 segundos. Retirou o celular do bolso e foi ver a conversa no WhatsApp.

Será que ela disse algo suspeito antes de desaparecer? Nada. Tentou o status, mas era o mesmo desde 2015: “November rain”.

Boruto aprendeu com a mãe a sempre olhar nas entrelinhas e formar teorias, mas Sarada não havia deixado nem uma pista.

Resolveu olhar o último acesso e praguejou ao ver que ela desativou esta possibilidade.

Tornou a respirar fundo durante mais alguns segundos e novamente olhou ao redor.

Um local lhe chamou bastante atenção. Era um Hotel simples, porém bonito.

Sorriu de canto e seu coração começou a bater mais rápido. Sarada poderia estar lá naquele hotel tão importante para os dois.

”Quando eu brigava com seus tios, porque eles sempre foram melhores do que eu em tudo, eu ia para um lugar muito especial. Assim minha raiva ia embora.”, lembrou-se desta história contada por Hinata e seu sorriso se abriu mais ainda.

Aquele hotel era um lugar especial para ele e Sarada por conta do momento que passaram ali juntos.

Atravessou a rua com certa rapidez e correu para o local.

Na recepção não perguntou por Sarada Uchiha, não queria parecer suspeito, mas alugou um quarto no quinto andar de número 419.

Foi ao elevador e ao chegar no respectivo andar, caminhou pelo corredor sempre olhando para a esquerda, onde se encontravam os números ímpares.

413.

A passagem não era tão extensa, mas sua ansiedade era tanta que o corredor parecia não ter fim.

417.

E então finalmente chegou ao 419. Olhou para a chave em suas mãos e guardou no bolso. Deu meia volta, ficou de frente para o quarto 420 e tocou a campainha.

Segundos depois, para o alívio de Boruto, uma voz feminina soou por trás da porta.

— Não pedi serviço de quarto.

— Sou eu, Sarada. – Disse por fim.

O silêncio reinou por um tempo e logo depois a porta foi aberta.

— Boruto... – Balbuciou a adolescente surpresa.

— Posso entrar? – Pediu e a menina abriu passagem.

O Uzumaki caminhou até a cama de casal e observou. Aquele lugar não havia mudado nada.

— Como você me ac...

— Por que você desapareceu? – Virou-se para ela com uma expressão furiosa.

A morena até se assustou um pouco. A última vez que o vira tão sério assim foi quando terminaram o namoro.

— Eu não desapareci... – Tentou desconversar.

— Não minta para mim, Sarada. – Franziu o cenho. – Eu sei que você estava ignorando as minhas ligações porque você não me atendia.

— Perdi meu celular. – Dito isto, o loiro apontou para o objeto que estava em cima da cama, com um olhar de insatisfação. Rendida, Sarada resolveu dizer a verdade. – Eu precisava de um tempo...

— Poderia ter avisado.

— Se eu avisasse, você viria atrás de mim e me perguntaria o porquê. – Olhou para algum canto.

— Isso é óbvio. – Bufou. – Eu me preocupo com você. Mas então você resolve sumir, ignorar minhas chamadas, e me deixar igual um louco te procurando em tudo quanto é buraco.

— Desculpa... – Murmurou baixinho, mas audível.

Boruto soltou um suspiro e foi até a namorada para abraçá-la. Ela foi surpreendida com esta atitude, mas ficou feliz ao saber que ele se importava.

— Droga, Sarada, não me assuste desse jeito. – Reclamou fazendo-a rir.

— Foi mal. – Se afastaram. – Mas como me achou?

— Foi uma teoria. – Corou um pouco. – Você sabe, aqui foi onde nós dois tivemos a nossa primeira vez...

— Oh, sim. – Riu da falta de jeito do rapaz.

O loiro a puxou de leve pelo braço e a fez sentar na cama. Ajoelhou-se em frente a ela e a observou.

— Agora me responda por que sumiu.

A Uchiha prensou um lábio no outro pensando se contaria ou não. Não queria que ele soubesse que fora sequestrada, ele poderia voltar a ter o pensamento de que a família dela não era boa influência, já que realmente havia sido eles.

— Você e o seu pai brigaram?

— Como adivinhou? – Sua surpresa era notável.

— Não foi difícil. Seu pai e eu estamos te procurando desde manhã, ele parecia se sentir culpado. – Deu de ombros.

— Não, ele com certeza não se sente assim.

— O que aconteceu?

— Ele se encontrou com a minha mãe. – Sua voz falhou um pouco. – E ele não me falou nada!

— Você se encontrou com ela? – Perguntou surpreso.

— E o pior de tudo é que eu a conhecia. – Reprimia o choro, mas algumas lágrimas teimavam em descer. – Todo este tempo ela esteve debaixo do meu nariz e nunca me falou nada. Sasuke sempre soube o quanto eu queria conhecê-la e fazer várias perguntas, mas ele simplesmente ignorou tudo isso! Eles poderiam ter me dito assim que se encontraram, mas preferiram mentir durante todo este tempo. – Já não se importava mais com as grossas lágrimas que caíam. – E agora ela quer que eu a aceite como mãe, depois de tudo o que me fez passar!

— Me conta isso direito. – O loiro se sentou do lado da namorada e pegou em suas mãos.

— Eu fiquei sabendo por meio do meu avô que meu pai estava saindo com a minha mãe. Eu fiquei revoltada com o Sasuke, mas ele me prometeu que iria me apresentar a ela. – Fungou. – E quando eu me encontrei com a minha mãe, eu já a conhecia há quase um mês. Os dois esconderam a verdade de mim por todo este tempo!

— Por quê?

— Eu sei lá. – Levantou-se com raiva. – Boruto, por que eles não se colocam no meu lugar? Eu passei a vida inteira achando que eu não tinha mãe, achando que fui abandonada, eles mentiram para mim! – Bateu o pé no chão enfurecida. – Como ela quer que eu a aceite depois de tudo?

O drama de Sarada era muito maior do que isso. Todos mentiram para ela, até as pessoas que ela mais amava no mundo, seus avós. Estava perdida, não sabia em quem acreditar, sua decepção era grande. Só tinha o Boruto agora e mesmo assim não podia contar tudo.

O Uzumaki se levantou e tocou nos ombros da Uchiha enquanto a olhava fixamente.

— E o que você respondeu?

— Eu disse que não. – Respondeu como se fosse óbvio. – Ela nunca será a minha mãe! Não depois de tudo o que aconteceu!

— Sarada, eu entendo que você esteja revoltada, até eu estaria. – Suspirou. – Mas você não acha que deveria dar uma chance a ela, assim como deu ao seu pai?

— O Sasuke não é o meu pai. – Travou o maxilar.

— Preste atenção no que você fala. – A sacudiu de leve e aumentou o tom de voz. – Você deveria olhar mais ao redor e prestar atenção. Sarada, o seu pai te ama, só você não percebe isso porque você nunca deu uma chance para ele e está fazendo o mesmo com sua mãe!

— Eu dei, Boruto! Por nove anos! Não preciso de outra decepção! – Vociferou.

— Não, você não deu. Por isso não importa o que ele faça, você só verá os erros dele. – A soltou. – Ele a acolheu aos 12 anos, mesmo que tenha demorado ele voltou para você, esse colar que você usa foi ele quem te deu, ele cumpriu a promessa de te mostrar à sua mãe, e se eu estou aqui na sua frente é por causa dele. Não porque ele me acordou às oito da madrugada em pleno sábado desesperado perguntando por você, mas porque se não fosse por ele, não estaríamos juntos novamente. Ele te ama, Sarada.

As palavras do loiro a deixaram um pouco sensibilizada, percebeu que seu pai vinha mudando nos últimos meses, mas pensava que isso era por causa de Izanami, não por causa dela.

— Dê uma chance aos seus pais. – Suspirou. – Se coloque também no lugar deles, pense no quão difícil é para eles serem rejeitados pela própria filha. É a pior dor que um pai que ama seu filho pode sentir.

Boruto dizia isso porque já havia dito loucuras para seus pais quando pequeno. Desde quando viu sua mãe chorando porque disse a ela que a odiava por ter lhe deixado de castigo, nunca mais se esqueceu.

— Como eu posso fazer isso? – Perguntou sinceramente. – Depois de tudo o que aconteceu...

— Fale com eles. – O loiro pegou o celular que estava em seu bolso e discou o número do Uchiha. – Você não precisa aceitar agora, porque é muito difícil aceitar isso de uma vez, mas dê uma chance.

[...]

Vendo a fumaça esbranquiçada sair de sua boca por conta de sua respiração acelerada, Sasuke foi andando pelo chão gramado e levemente coberto por gelo, mas não conseguia ver a Haruno de jeito nenhum.

Olhou para trás, se certificando novamente que o carro estava vazio e com a porta aberta, indicando que a rosada louca saiu e sequer se lembrou de fechar a porta.

À medida que se aproximava mais do lago congelado, o homem pôde reparar melhor na camada de gelo, que já estava ficando mais fina. A poucos metros da margem havia uma parte quebrada. Quando notou o tamanho do buraco, seu coração acelerou.

— Não! – O homem arregalou os olhos e correu o mais rápido que podia, rezando para que sua teoria estivesse errada.

Chegando à beirada do lago, olhou ao redor, na esperança de encontrar a Haruno. Olhou para o local com o gelo quebrado, alguns pedaços de gelo estavam soltos e havia rachaduras no que ainda estava firme. Da margem até o buraco havia uma trilha com algumas rachaduras.

Desesperado, Sasuke tirou o sobretudo preto e jogou no chão, então, sem pensar nas consequências ou na temperatura bem próxima de zero, pulou na água congelante, quebrando um pouco mais do gelo.

A adrenalina que corria pelo seu corpo o deixou tão anestesiado, que sequer sentia realmente o quanto aquela água estava fria. Só conseguia focar em Sakura naquele momento.

Por sorte aquele pequeno lago não era muito fundo, deveria ter no máximo três metros de profundidade, então logo ele encontrou a Haruno desmaiada no fundo e segurou em seu braço para puxá-la até a superfície.

Quando chegou à superfície soltou a respiração e começou a nadar em meio aos pedaços de gelo, levando a mulher para a margem.

Conseguiu retirar a rosada de dentro da água, ele estava ofegante. O medo ainda tomava conta de si, mas, ainda assim, pôde sentir o frio quando o vendo bateu em seu corpo molhado com aquela água tão gelada.

Olhou para o corpo da mulher ao seu lado, ela estava muito pálida, seus lábios um pouco azulados. Não sabia como deveria agir diante daquilo, tinha que admitir: estava amedrontado. Não sabia há quanto tempo Sakura estava lá, mas deduziu que não fazia tanto tampo, visto que encostou seu ouvido no peito da mulher e conseguiu escutar o coração batendo.

— Você tá viva... – Foi uma enorme sensação de alívio que veio acompanhada de um frio quase insuportável. Sasuke estava molhado, a temperatura naquela madrugada devia estar em torno de 2°C, mas a sensação térmica com certeza estava bem abaixo disso.

No entanto o desespero tornou a tomar conta de Sasuke quando ele percebeu que Sakura não estava respirando, o corpo dela estava totalmente inerte no chão. Embora ainda vivesse e tivesse sido retirada da água antes de morrer, ficou na água tempo o suficiente para que a água bloqueasse suas vias respiratórias. Sem falar que, pela cor e temperatura do corpo da Haruno, ela poderia sofrer hipotermia.

Não tinha tanta noção de primeiros socorros, lembrava-se de uma palestra que o corpo de bombeiros fez em sua antiga escola quando ele estava no primeiro ano do ensino médio quando foi para os Estados Unidos, onde ensinaram para os alunos como deveria agir em caso de incêndio, afogamento, falta de ar, convulsão, ou quando alguém tivesse engasgando.

O primeiro passo que seguiu foi rasgar a blusa da rosada para diminuir qualquer pressão sobre o tórax. Ela sequer estava de casaco ou cachecol naquele frio. Sua teoria estava mesmo certa: aquilo fora suicídio.

Não lembrava quantas vezes precisava fazer cada coisa, só sabia que precisava agir rápido antes que a rosada morresse sufocada. Mas, pelo menos, o básico ele sabia fazer.

Inclinou levemente a cabeça da Haruno para trás e começou a fazer a massagem cardíaca contando até dez, mas Sakura não reagiu, então pôs a respiração boca a boca em prática.

Mais uma vez a Haruno permaneceu imóvel, desfalecida, para o desespero de Sasuke.

— Vamos lá... – Falou entre dentes enquanto fazia novamente a massagem cardíaca. – Sakura, reage... Reage!

Tentou fazer respiração boca a boca mais uma vez. Novamente, não obteve nenhum resultado positivo. Sakura permanecia inerte.

— Porra... Você não pode morrer... – Resmungava enquanto fazia a massagem novamente.

Mais uma vez jogou ar nos pulmões da Haruno. Nenhum resultado.

— Você tem uma filha pra reconquistar, Sakura... – Sua voz começava a falhar enquanto fazia as compressões no peito semidesnudo.

Na quarta vez que fazia a respiração boca a boca, Sakura reagiu e começou a tossir. Sasuke então a virou de lado para que ela conseguisse expelir a água completamente.

Infelizmente ela continuou desacordada, mas só o fato de estar respirando já foi um enorme alívio.

Sasuke então pegou seu sobretudo que estava jogado sobre a grama e usou para esquentar a mãe de sua filha. Ele enrolou a Haruno na roupa, a pegou no colo e levou até o carro. Naquele momento não ligava se iria molhar seu carro, apenas queria salvar a vida da mãe de sua filha.

Quando Sasuke ia dar partida no carro após ligar o aquecedor, notou que seu iPhone, que estava sobre o descanso de braço, tocava e a chamada era de Boruto.

Levou sua mão trêmula de frio até o aparelho e atendeu, levando-o em seguida até a orelha.

— O que é? – O homem questionou agoniado e tremendo de frio.

— Sasuke, achei a Sarada. – O garoto falou do outro lado da linha.

— Graças a Deus... – O moreno suspirou mais aliviado, embora ainda estivesse preocupado e afoito por causa de Sakura que permanecia desacordada.

— Quer o endereço de onde estamos?

— Não. – Deu partida no carro e usou o ombro para manter o celular perto do ouvido. – É o seguinte, diz pra Sarada que eu tô indo com a Sakura pro Bol'shoy Vostok.

— Sakura? – A voz do Uzumaki soou confusa e Sasuke bufou.

Ora essa, o que Sasuke estava fazendo com a mãe de Sarada no hospital?

— Para de fazer perguntas, moleque! – Bradou enquanto dirigia feito doido. Pelo menos as ruas estavam vazias. – Só faz o que eu mandei, merda!

Desligou o celular e o jogou para o banco de trás.

Como o trânsito estava favorável, logo Sasuke chegou com Sakura no hospital. Já estava mais quente por causa do aquecedor do carro, mas ao tocar na Haruno, sentiu que ela ainda estava muito gelada.

Saiu apressado de seu Audi, sentindo o frio gelado bater em seu corpo ainda molhado. Deu a volta e pegou a Haruno em seus braços e correu com ela para a emergência.

[...]

Boruto não teve tempo de retrucar, Sasuke desligou na sua cara.

— O que houve? O que meu pai falou sobre a Sakura? – Franziu o cenho. Não pôde evitar ficar decepcionada ao saber que seu pai a procurava e agora estava com a “puta chique”.

— Ele disse que a estava levando para o Hospital Bol'shoy Vostok. – Seu rosto formou uma expressão confusa. – Ele parecia nervoso.

— Hospital? – Seus olhos arregalaram. – O que aconteceu?

— Ele não disse.

A morena estava um pouco preocupada, ou melhor, curiosa. Algo poderia ter acontecido, certo?

A notícia deixou a Uchiha impaciente, queria saber o que aconteceu.

— Boruto, venha, vou te deixar em casa.

Não deu tempo para o rapaz reagir, visto que ela já o puxava para fora do quarto indo em direção a recepção pagar a hospedagem dos últimos dias.

Foram até a garagem do hotel e entraram no Jaguar da adolescente.

Como a casa do loiro também ficava na zona leste, era na direção do hospital, tudo ficou mais simples e rápido.

— Amor. – A chamou carinhosamente após sair do carro. – Não ficou chateada pelo o que eu disse?

— Não. – Sorriu compreensiva. – Obrigada. Mesmo me contrariando eu pude ver sinceridade em suas palavras.

— Quer dizer que você vai...

— Mas não posso prometer que vou aceitar tudo facilmente. – O cortou. – Há muita coisa para se resolver entre meus pais. Eu ainda não aceitei tudo, mas prometo que ouvirei com mais calma a versão deles. – Sorriu.

— Independente da decisão que for tomar, tome-a quando tiver certeza. – A morena assentiu e ele a puxou para um beijo.

Após se afastarem e Sarada se despedir com um agradecimento, o Uzumaki entrou em casa e ela voltou a dirigir em direção ao Hospital.

Sakura estaria bem? Em sua cabeça a rosada apenas teve um mal estar, e na pior das hipóteses um acidente de carro. Descartou esta última por serem 2 horas da manhã, então não estava desesperada. No máximo um pouco preocupada.

Mas ela mal podia esperar pelo real acontecimento...

[...]

Algumas enfermeiras levaram a rosada numa maca até uma salinha, mas Sasuke ficou de fora, apenas andando de um lado para o outro naquela grande sala de espera.

— Sasuke! – Ele ouviu uma voz feminina e pra lá de familiar, nitidamente alterada, chamá-lo.

Virou-se para trás e viu sua filha entrando naquele local, correndo como se estivesse atrás de alguém num supermercado e não num hospital.

— Sarada! – Sasuke foi abraçar a filha quando ela se aproximou dele, mas a adolescente simplesmente o afastou. – Onde você estava? – Tentou disfarçar seu constrangimento após o abraço mal sucedido.

— Não interessa agora. – Foi curta e grossa. – Cadê a Sakura? Por que você tá todo molhado?

Sasuke olhou para suas roupas molhadas e olhou para as portas da sala onde Sakura estava.

— Responde! – Exclamou impaciente.

O Uchiha passou as mãos nos cabelos molhados. Sentia-se frustrado. O gelo do lago estava muito fino, afinal já estavam na primavera, apesar do frio ainda ser rigoroso. Sakura sabia disso, aquilo não fora um acidente.

Olhou para o rosto impaciente de Sarada, sentia alívio por ela estar bem, por Boruto ter a encontrado. Mas, em compensação, havia encontrado Sakura quase morta em um lago congelado, provavelmente por vontade própria.

Lembrou-se das palavras duras de Sarada para com a mãe e da mesma falando que a filha era sua única razão de viver.

— Você se importa? – Olhou sério para a menina.

— O Boruto disse que ela estava no hospital e eu fiquei preocupada. – Admitiu. – Por que ela está aqui?

— Nem eu sei direito, sabe... – Tentou contornar o assunto sem saber direito como.

— Sasuke, você tá me enrolando. – Rosnou entredentes.

— Sarada, se acalma. – Ele pediu quando viu a filha se alterar. Ela realmente odiava quando alguém tentava enrolá-la, mas Sasuke temia a reação da filha. Não podia jogar uma bomba dessas na cabeça da menina sem mais nem menos.

— É grave? – Franziu o cenho. – Sasuke, por favor, me fala. Ela se machucou? Você tá molhado...

— Eu estava procurando por você hoje e passei perto do lago... Vi o carro da Sakura de longe e...

— Merda! – Interrompeu. – Para de fazer rodeios e fala logo!

— Você quer mesmo saber? – Arqueou uma sobrancelha e Sarada sentiu um frio na espinha. A menina então assentiu. – Sarada... – Suspirou, pensando no que falar. – O gelo do lago estava quebrado, a Sakura caiu na água, eu pulei pra tirá-la de lá.

— Então foi um acidente...

O inverno havia chegado ao fim e o gelo estava derretendo, todos sabiam disso, então já esperava que não fosse um acidente, mas Sarada preferia acreditar que havia sido.

O mais velho suspirou. Não queria falar aquilo com a própria filha, mas não queria mentir mais ainda para a menina.

— Não acho que foi um acidente...

A morena se sentiu sem chão com a confirmação.

Sakura realmente tentou se matar? Por quê?

Não. Ela sabia o porquê.

— Não me diga que... – A morena falou num fio de voz. – Que foi por causa do que eu falei... – Abaixou o olhar.

— Não sei, mas é provável.

Odiava falar aquilo... Sabia que sua filha se sentiria culpada, mas não adiantaria mentir, levando em consideração as circunstâncias.

— Eu não queria que as coisas terminassem desse jeito. – Sarada sentiu um nó na garganta. Um enorme sentimento de culpa se fez presente no coração de Sarada. – Eu não queria que ela tentasse se matar.

— Você por acaso mediu as palavras naquele dia, Sarada? – Sasuke falou firme, mas sem alterar o tom de voz. – Eu entendo que você esteja confusa, mas precisava falar aquilo? Você é o único motivo que aquela mulher tem pra continuar vivendo. Mas você a rejeitou. Você tirou dela a única coisa que a mantinha realmente viva.

— Eu fui enganada a minha vida inteira...

— Você não é a única vítima aqui. – Interrompeu. – Tenta ver as coisas pelo lado da Sakura. Ela era uma criança, você foi dada como morta, eu sumi de Toská! – Percebendo que estava aumentando demais a voz pra quem estava num ambiente hospitalar, Sasuke se conteve. – Culpe a mim se quiser, mas não a ela. Se tem alguém nessa história que realmente não teve culpa de nada, essa pessoa é sua mãe.

— Eu... – Suspirou pesadamente, não querendo acreditar que quase causou a morte de uma pessoa. – Mas ela pode não ter tentado se matar. Ela pode só ter caído na água.

Sarada tentava acreditar que não tinha culpa. Queria que fosse um acidente.

— O que uma pessoa faria naquele lago numa hora dessas? – Retrucou. – O gelo tá derretendo por causa da primavera, por que alguém se arriscaria a andar sobre o lago?

— Não pode ser... – Ela se sentou numa cadeira vazia, ainda atordoada.

Embora estivesse magoada por ter sido enganada por Sakura também, Sarada não queria que ela morresse.

— Eu já agi de forma muito errada com você, Sarada. – O homem então se sentou ao lado da filha. – Você não precisa me perdoar, não precisa me aceitar. Mas, ainda assim, você continuará sendo minha filha e eu continuarei amando você. Mas eu peço sinceramente que repense sobre a Sakura e que dê uma chance pra ela.

Sarada se lembrou das palavras de Boruto. Realmente Sasuke a ama?

Por muito tempo a menina pensou que não, mas estava quase convencida de que se equivocou muito. Sasuke estava mesmo diferente e Sarada não conseguia deixar de unir isso ao aparecimento de sua mãe.

— Sasuke, me responda com sinceridade... – Olhou nos olhos de seu progenitor. Devido às condições, Sarada não achou que o moreno fosse mentir. – O que você realmente sente pela Sakura?

Ele foi pego em cheio!

Estava sem palavras, sem resposta...

Se envolveu com Sakura aos quatorze anos e ambos sequer se amavam, eram apenas amigos. Ou melhor, o que duas crianças recém-chegadas na puberdade sabem sobre amar alguém?

Sakura foi a primeira garota que Sasuke beijou, a primeira que levou pra cama e a única a lhe dar uma filha. Um presente precioso, embora não planejado.

Sentia-se culpado por tudo que a rosada sofreu, queria que tivesse sido diferente e desejava toda a felicidade do mundo pra ela. Nada além disso... Será?

Aquele beijo, mesmo não retribuído, veio à sua mente. Por que tal lembrança o pegou naquele momento?

Sasuke já beijou incontáveis mulheres em toda a sua vida, mas Sakura seria só mais uma? Por que, quase que involuntariamente, Sasuke a beijou naquele estado fragilizado que ela se encontrava? Não tinha motivos pra fazer aquilo, mas ele fez. Se deixou levar.

Por quê?

Estaria se apaixonando pela Haruno?

— Ora. – Desviou o olhar. – Eu deveria sentir algo por ela?

— Sim, deveria. Ou não tem sentimentos?

— Sarada, existem milhões de sentimentos diferentes.

— Então, qual deles você tem pela Sakura?

Engoliu em seco. Como alguém pode responder algo que não sabe?

É como quando aquele maldito professor coloca "Justifique sua resposta" no enunciado de uma questão. Você acaba de ler e já sente que errou.

— Não sei. – Admitiu. – Sarada, sua mãe e eu tivemos uma história juntos. Breve, mas foi uma história. Ela me deu você, então eu acho que só tenho por ela gratidão.

— Gratidão? – Perguntou com deboche. – Desde quando você me quis?

— Sarada, na época foi terrível para nós saber que seríamos pais tão novos, mas isso não significa que não gostamos de você. – Explicou. – Se pensa assim, está errada.

Boruto teria mesmo razão? Sasuke se preocupa verdadeiramente com a filha e a ama mais do que tudo nesse mundo?

Com a possibilidade de a resposta ser positiva, Sarada sentiu um aperto no peito acompanhado de um nó na garganta.

Por todo esse tempo ela julgou mal seu pai e o rejeitou da maneira mais fria possível.

Sim, ele errou muito, mas as pessoas erram. Por que Sasuke não seria digno de perdão?

E Sakura... Realmente enganou Sarada por um tempo, mas não teve culpa de ter tido a filha sequestrada. Não teve culpa do que aconteceu.

Sarada se sentiu uma pessoa horrível.

— Minha cabeça tá confusa. – Resmungou. – Não sei em que eu acredito ou deixo de acreditar. Foram tantas mentiras...

— Compreendo você. Mas peço que veja as coisas pelos olhos da Sakura. – Jamais Sasuke havia sido tão transparente com sua filha. – Dói muito ser rejeitado por alguém que a gente ama. Eu compreendo a dor da Sakura e peço que não faça isso com ela. Eu já errei muito com você e até mereço isso, mas ela não.

Sarada ficou em silêncio por um período de tempo, pensando nas palavras ditas por Sasuke.

— Ela mentiu pra mim...

— Sarada, não faz nem um mês inteiro que ela sabe sobre você. Ela só mentiu porque eu pedi para que a gente preparasse o terreno pra você não ter... Bem, a reação que você teve. – Sasuke explicou.

— Mas e a Izanami? Eu gostava dela, mas ela era uma farsa... Eu não conheço a Sakura. – Resmungou.

— Aquela era a Sakura, a única coisa falsa na mulher que você conheceu e se apegou tanto era o nome.

A mais nova se calou e baixou a cabeça. Não conseguia apagar a mágoa que sentia de sua progenitora. Mesmo que eles repetissem que ela não tinha culpa, as palavras de seus avós ainda pareciam verdade. Os amava demais para acreditar que haviam mentido.

Sentia sua mente mais leve, apesar de todas as dúvidas que ainda a atormentavam, então se sentia preparada para ouvir a versão de Sasuke e Sakura novamente, queria falar com os avós. Precisava pôr seus pensamentos no lugar e descobrir o que era mentira e o que era verdade.

— Droga! – Sasuke praguejou, tirando Sarada de seus pensamentos.

— O que foi? – Perguntou.

— Sempre demora assim para se reanimar uma pessoa que se afogou? – Passou as mãos no rosto.

A morena voltou a baixar a cabeça. Era raro ver seu pai tão preocupado. Se ele estava assim, então a situação de sua mãe era pior do que pensava, resolveu que não faria mais perguntas a Sasuke enquanto estivessem ali. Esperaria para falar com os dois, com mais calma e compreensão do que a primeira conversa.

Os dois ficaram ali, lado a lado, apenas esperando receberem notícias da Haruno. Ambos tentavam parecer tranquilos, mas na verdade estavam inquietos por não terem nenhuma informação.

Havia passado quase uma hora inteira quando uma médica finalmente apareceu, falando das complicações que tiveram para reanimar a Haruno, mas que agora ela estava fora de perigo.

Pai e filha finalmente sentiram alívio desde que chegaram ao hospital. A médica falou que eles podiam vê-la.

Logo Sasuke e Sarada foram até o quarto onde Sakura estava e ficaria em observação pelo menos durante aquela noite.

O moreno entrou no quarto, mas Sarada permaneceu parada perto da porta, longe do campo de visão de sua mãe. Viram a Haruno deitada na cama, ainda desacordada. O homem suspirou aliviado mais uma vez ao ver que ela, apesar de ainda estar um pouco pálida, estava bem mais corada do que quando a encontrou.

Ele se aproximou mais da cama e tocou a mão da rosada, ainda um pouco fria, mas bem mais quente do que quando a tirou da água.

Sentou-se em uma cadeira próxima e fitou o rosto feminino, vendo os olhos verdes se abrirem aos poucos. Ela parecia confusa, fitando o teto branco.

— Sakura? – Sasuke a chamou. – Você está bem?

— Sasuke? – Questionou um pouco confusa, talvez um pouco assustada. – O que faz aqui?

— Eu te tirei da água... – Respondeu enquanto passava a mão pelos cabelos rosados. – Quase me matou de susto.

— O que você fazia lá? – Uniu as sobrancelhas. – Por que me tirou de lá? Por que eu estou aqui?

— O que você fazia em um lago congelado nesse horário, Sakura?

— Por que me salvou? – A Haruno perguntou irritada.

Sasuke baixou a cabeça e se sentiu triste por ter a confirmação, através da reação dela, de que a rosada havia tentado suicídio. Ainda pior, ela não estava arrependida.

— Você tentou se matar? – Era apenas uma pergunta, mas sentiu dificuldade de proferi-la.

Sakura desviou o olhar e permaneceu calada.

— Eu não tenho valor nem mesmo para a morte. – Murmurou, sentia-se frustrada e inútil por não obter sucesso nem mesmo na morte. – Fui rejeitada por amigos, por meus pais, pela minha filha e até mesmo por ela.

— Por que fez isso?

— Por que eu continuaria vivendo? – Respondeu com outra pergunta, deixando algumas lágrimas escaparem de forma involuntária. – Minha filha, a única razão que eu tinha pra continuar viva, me rejeitou.

Sarada, que ouvia tudo, sentiu uma pontada no coração.

Por causa dela, por causa de suas duras palavras, uma pessoa tentou tirar a própria vida.

Por mais que Sarada não visse Sakura como mãe e ainda estivesse um pouco magoada por ter sido enganada, uma pessoa quase morreu.

— Morrer não era a única alternativa, Sakura...

— Não? – Indagou com a voz carregada em sarcasmo. – E o que eu deveria fazer?

— Esperar, a Sarada tá confusa...

— Esperar? – O interrompeu. – Você sempre fala em esperar. Eu não tenho mais ninguém, Sasuke. Tudo o que eu tinha se foi. Saber que a Sarada estava viva acendeu um pouco de esperança em mim. Mas você a ouviu, eu nunca serei mãe dela. Seus pais me fizeram parecer um monstro que abandou a própria filha, essa foi a visão que ela teve a vida inteira, por que agora será diferente? Esperar não vai resolver nada!

— E morrer vai?

— Sim, vai... Vocês não teriam mais que se preocupar com as consequências da minha presença. Seu pai não ameaçaria mais você ou Sarada por eu querer falar a verdade. Eu não faria mais minha filha chorar por causa disso. Eu sequer deveria ter aparecido, eu deveria ter dado fim a minha vida depois que ela foi dada como morta...

Sarada sentiu o peito doer... Sua mãe não havia notado sua presença, então tudo aquilo era verdade, o que queria dizer que seu avô a teria ameaçado de alguma forma. Seu avô não a amava?

— Não fala assim, Sakura. A Sarada precisa de você...

— Ela não precisa, Sasuke... – O interrompeu de novo. – Você e sua família cuidaram dela por mais de dezoito anos e o que eu fiz? Nada, eu nunca estive presente, eu sequer cheguei a segurá-la quando nasceu, apenas a vi enquanto a levavam para o berçário. Ela já tem dezoito anos, não precisa mais de mim, ela tem você e sua família. O que eu tenho a oferecer pra uma garota de dezoito anos? Ela já sabe andar, falar, se alimentar. Ela já é quase uma mulher feita, Sasuke. Ela nunca vai acreditar em mim. Por que ela iria me querer?

— Porque você é a mãe dela e pode oferecer algo que ela só pode ter de você.

— O que, Sasuke? O que ela iria ter de mim? Ela já tem tudo.

— Ela não tem amor materno, nunca teve e só você pode dar. – Sasuke segurou a mão da mulher, que soluçava com o choro. – Ela te queria como madrasta quando não sabia que você era mãe dela, o que quer dizer que ela recebeu esse tipo de amor de você. Mesmo estando longe por dezoito anos, você a amou como se nunca tivesse sido separada dela. Você deu conselhos, você proporcionou diversão a ela, você a consolou quando aquele cabeça de banana terminou com ela, você até mentiu sobre aquele creme de camarão estar bom só para vê-la feliz. – Sorriu minimamente, olhando para a Haruno. – Só mães fazem isso e você é a dela. Então por que não desiste da ideia de morrer e vive para reconquistar o amor que Sarada tem por você? Você não disse que ela é seu motivo de viver?

Sarada ouviu tudo aquilo com lágrimas nos olhos. O que seu pai falara era verdade, ela amou Izanami. Mas estava magoada e com raiva. Talvez com o tempo ela voltasse a amar Sakura como a amou enquanto não sabia a verdade.

— Mas ela falou que não me queria... – Respondeu entre soluços, com a voz embargada.

— Deixe de bobagem. – O moreno respondeu. – A verdade pode ter doído na hora, mas quando ela estiver mais tranquila, vai passar. – Ele desviou o olhar para a filha, que entendeu o recado.

A menina caminhou a passos lentos para perto de Sasuke, depois de limpar as lágrimas, foi quando Sakura arregalou seus olhos verdes ao vê-la ali.

Esperava por qualquer pessoa, menos por Sarada.

— Desculpa se o que eu falei te machucou. – Disse a adolescente.

A Haruno sentiu um aperto no peito por saber que Sarada tinha ouvido tudo aquilo que disse sobre suicídio, não queria fazê-la se sentir culpada.

— Eu jamais teria raiva de você. – Respondeu a rosada.

Sarada estava séria, tentava não demonstrar emoção alguma, apesar de estar com o rosto levemente vermelho e inchado. Era óbvio que ainda estava confusa, mas aliviada por Sakura estar bem.

— Você... – Sarada olhou para a mãe. – Você caiu na água?

Sasuke e Sakura ficaram surpresos diante da pergunta. Ela sabia que a mãe não havia caído, então por que estava perguntando aquilo?

— Você caiu, não foi? Você não fez de propósito... Não caia mais na água, tá certo? Vocês ainda têm muito para me explicar. – Sarada fez uma cara emburrada.

Sasuke sorriu. Aquela foi a maneira de sua filha dizer que daria uma chance para a mãe.

A Haruno também sorriu minimamente depois de um tempo absorvendo o que a filha falou.

— Eu não vou cair. – Respondeu com a voz embargada, limpando as lágrimas.

— Eu tô um pouco cansada. – Falou meio desconcertada com o que acabara de falar. – Eu vou pra casa, Sasuke. – O moreno assentiu sorrindo aliviado por sua filha voltar para casa. – Melhoras, Sakura.

Dito isso, Sarada virou as costas e saiu do quarto, deixando seus pais a sós.

— Ela não me odeia? – Indagou a rosada e Sasuke soltou um longo suspiro.

— Claro que não! Ela está chateada e com raiva, mas ficou desesperada quando soube que você tentou se matar. – Explicou. – Adolescentes são explosivos, principalmente a Sarada. Mas a cabeça dela tá mais fria e até conversou civilizadamente comigo. – Ele deu uma risadinha baixa. – Ela te pediu desculpas, já é um grande passo... Enfim, não se precipite, dê tempo ao tempo, uma hora a Sarada vai ver a mãe maravilhosa que ela tem.

Por fim, Sasuke beijou a testa da rosada. A pele dela estava mais corada e mais quente depois da conversa toda, o que deixou Sasuke feliz.

— Sasuke... – A mulher não conteve um sorriso sincero. – Obrigada...