Notas iniciais
Para aqueles que estão em horário de verão, me perdoem, sou do RN e eram 00:10 quando comecei a coisar isso aqui u.u Enfim, vamos ao capítulo ^-^

Toská, Rússia

21 de agosto de 2016

04:42 P.M.

Sasuke acordou meio assustado e confuso, demorou alguns segundos para perceber que estava dentro do quarto da filha.

— Eu já saí do hospital... – Comentou.

Odiava quando isso acontecia, quando dormia à tarde e acordava sem saber onde estava ou que horas eram.

Arregalou os olhos quando viu as horas no relógio digital no criado mudo ao lado da cama.

— Dormi demais. – Ele se levantou e pôs a mão sobre a testa, respirando fundo enquanto sentia as pálpebras pesadas.

Sua cabeça doía, talvez tenha chorado um pouco demais, mas se recusava a tomar mais remédios. Já bastavam os que precisava tomar quando estava internado.

Levantou e saiu do quarto, sendo atraído para a cozinha por um cheiro delicioso. Sua mãe nunca precisou cozinhar desde que casou com Fugaku, então poderia ter perdido a prática, mas, de qualquer forma, preparava alguma coisa e Sasuke estava morrendo de fome.

— O cheiro tá bom. – Ele comentou quando entrou na cozinha, sentando sem seguida numa cadeira.

— Você sempre foi atraído pelo cheiro de comida, como aqueles personagens de desenhos animados. – Mikoto comentou divertida, mexendo alguma coisa numa panela.

Sasuke nem queria saber o que era, uma vez que qualquer coisa seria melhor do que aquela comida sem graça que serviam no hospital.

— É, eu tô com fome. – Admitiu.

— Novidade... – Ironizou a mulher, colocando um pouco de sopa num prato fundo e logo em seguida pegando uma colher dentro da gaveta para entregar para o filho. – Olha, faz muito tempo que eu não cozinho.

— Faz mesmo, eu nunca vi a senhora cozinhar. Achei que a senhora nem soubesse.

— Essa receita é da minha mãe e eu sempre soube fazer perfeitamente desde criança.

— Receita da minha avó? – Sasuke olhou surpreso para a mãe. – Interessante.

Mikoto sentou numa cadeira ao lado do filho e apoiou os cotovelos sobre a mesa.

— Acho que não é tão boa quanto a sopa que ela fazia. Sem falar que aqui não tem manteiga, só margarina, o que não é a mesma coisa...

Sasuke experimentou uma colherada da sopa preparada por sua mãe e achou uma delícia, talvez porque dizem que o melhor tempero que existe é a fome. Ele nunca havia comido nada preparado por Mikoto, inclusive achava que ela não sabia, mas pelo visto improvisou bem. Sua mãe nunca gostou de ir para a cozinha, ela dizia que não nasceu pra ser dona de casa.

— Está muito boa. – Elogiou o moreno. – O que a senhora colocou aqui?

— Segredo de família. – Ela riu e Sasuke revirou os olhos. – Minha mãe nunca colocou sal na comida, usava apenas temperos naturais mesmo.

— Não entendo disso. – Deu de ombros. – Só sei que está muito boa. Na realidade, até mesmo a comida do Itachi deve ser melhor do que a do hospital.

— Nossa, a do Itachi já é apelar demais. Ele nunca morou sozinho, então nunca entrou na cozinha pra fazer outra coisa além de comer.

— Pra senhora ver a situação. – Suspirou.

Mikoto notou que seu filho estava com um pouco de dificuldade pra comer, uma vez que é canhoto, consequentemente sua habilidade com a mão direita não era lá essas coisas.

— Meu filho, quer ajuda? – Indagou aflita a mulher, visto que Sasuke não iria terminar de comer tão cedo.

— Mãe, me poupe. – Ele soltou um riso anasalado. – Já passou o tempo em que a senhora me dava comida na boca.

— Você tá com dificuldade pra conseguir comer.

— Preciso me acostumar. – Retrucou. – Vou pegar o jeito, a senhora vai ver.

Mikoto assentiu. Precisava concordar com Sasuke, ele tinha que, aos poucos, se adaptar com o fato de que já não podia mais contar com os dois braços. No início seria um pouco complicado, mas logo Sasuke já estaria sabendo lidar com a situação.

— Desculpa, você tem razão.

— Mãe. – Sasuke olhou preocupado para sua progenitora, o que também a preocupou. – Se pra mim já está sendo difícil, como será para a Sarada? – Seu semblante estava triste. – Sabe, mesmo que ela volte a andar, isso vai levar um tempo. Como vai ser essa adaptação dela?

— Vai ser difícil, filho. – Mikoto foi sincera. – E não é só a Sarada quem vai ter que se adaptar à nova condição dela.

— Eu não posso nem pegá-la no colo. – Sasuke riu sem humor.

— O melhor a fazer é contratar uma equipe de enfermeiros para cuidarem dela. – Sugeriu. – Sarada não é uma criança pequena, está sem os movimentos das pernas e vai precisar de outras pessoas para realizar tarefas simples como tomar banho, por exemplo. Só você e a Sakura não darão conta de cuidar dela sozinhos, pelo menos não no início.

— Sarada sempre foi tão independente... – Fitou o prato de sopa. Esse assunto conseguia lhe tirar até a fome. – Não vai ser fácil pra ela se ver tão dependente desse jeito.

— Infelizmente não podemos fazer nada, Sasuke. Também me dói pensar nisso, mas temos que agradecer pela Sarada estar viva. Eu prefiro vê-la numa cadeira de rodas a ter que vê-la num caixão.

— Nisso eu preciso concordar com a senhora, mas ainda assim é doloroso.

— Ninguém disse que seria fácil. – Suspirou. – Agora coma logo, ou então perderemos o horário de visitas.

Sasuke assentiu e se concentrou em terminar de comer a sopa que sua mãe havia feito. Mesmo que já tivesse perdido a fome por causa daquele assunto, precisava forçar um pouco ou acabaria passando mal depois.

Subiu para poder escovar os dentes assim que terminou de comer. Outra tarefa antes simples, mas agora complicada.

Fazer tudo com uma mão só era terrível e o simples fato de escovar os dentes, coisa que todo ser humano faz, estava sendo horrível. Colocar a pasta na escova, abrir a torneira, escovar os dentes, depois fechar a torneira... Fácil, mas pra quem é desprovido de ambas as mãos fica difícil.

Mas não adiantava se lamentar, pois isso não iria trazer seu braço de volta. O jeito era tentar, ir se acostumando, errar, deixar a escova cair no chão e se sujar todo de pasta, lutar pra aprender usar apenas a mão direita... É, um dia ele conseguiria escovar os dentes com a mesma facilidade que fazia antes. Tudo era apenas uma questão de tempo.

Ele pôde finalmente voltar para o hospital com Mikoto. Colocar o cinto de segurança no carro também foi complicado, mas o Uchiha negou qualquer tipo de ajuda que sua mãe pudesse oferecer. Não queria se sentir dependente.

Chegaram ao hospital quase na hora de começar o horário de visitas, Sasuke agradeceu mentalmente por isso. Não iria suportar ter que esperar até o dia seguinte. Porém, se tivesse dormido uns trinta minutos a mais, o moreno não chegaria a tempo de ver a filha.

Caminhando na direção da UTI, Sasuke viu a rosada sentada numa cadeira perto do setor, provavelmente ela também esperava pelo horário de visitas.

Todavia, o coração do moreno se apertou, visto que a expressão de Sakura não era nada agradável. Muito pelo contrário, ela parecia abatida a profundamente triste... Olhava para o nada, sua mente parecia estar bem longe.

— Sakura, o que foi? – Ele se sentou ao lado dela, mas Mikoto permaneceu de pé e igualmente preocupada. – Por que você está assim?

— A Sarada... – Suspirou pesadamente, tentando manter a calma, mas as lembranças do pânico de sua filha a perturbavam.

Embora Sakura já não chorasse descontroladamente, continuava aflita, triste, talvez um pouco amedrontada e também aérea.

— O que tem ela? – O sangue do Uchiha gelou nas veias. Ele temia que alguma coisa terrível tivesse acontecido à filha.

— Ela teve uma crise de pânico. Nossa filha... Ela estava dormindo, mas teve pesadelos... Tentei acordá-la, mas, sei lá, ela parecia ver alguma coisa horrível... – Respirou fundo. Sakura mal conseguia explicar com exatidão o que tinha acontecido. – Ela perguntou pelo Naruto, perguntou se ele iria machucá-la de novo... Ouvia a voz do Naruto falando com ela... Ela acha que você está morto e que eu menti pra ela... Sarada não confia em mim, ela nunca confiou em mim.

— Sakura, calma... – Sasuke abraçou a rosada. Ela parecia estar calma, mas Sasuke sabia que não estava. Enquanto isso, Mikoto foi ao bebedouro para pegar um copo com água para Sakura. – Ela estava nervosa. Ela confia em você sim. – O homem olhou nos olhos esmeraldinos. – Acredite em mim.

— Ela se lembra, Sasuke... – Falou com dor no coração. – Ela se lembra do que o Naruto fez com ela...

— Você tem...

— As memórias dela... – Sakura interrompeu o moreno antes que ele concluísse o que ia dizer. – Elas estão voltando aos poucos e é por isso que ela acordou perturbada.

— Mas... – Sasuke se recusava a acreditar. Preferia mil vezes que sua filha nunca se lembrasse da tortura física, e com certeza psicológica, que sofreu. – Ela pode achar que foi apenas um sonho. No fundo, Sarada ainda deve estar confusa.

— Sakura. – Mikoto estendeu o copo com água para a Haruno e esta o pegou. – Eu sei que deve ter sido perturbador ver a Sarada tendo uma crise, mas agora já passou.

— Enfim... – Ela soltou um suspiro alto após beber a água. – Uma pessoa sabe distinguir memórias de um simples sonho. A Sarada sabe que aconteceu, com certeza sabe. Ela pode não ter se lembrado de tudo perfeitamente, mas pelo visto logo lembrará.

— Sabíamos que esse momento possivelmente chegaria. – Mikoto falou com pesar. – É triste, mas teremos que lidar com outra Sarada. Isso, com certeza, mexeu com ela.

— Mexeu com todos, mãe. – Disse o moreno. – Nós já não somos mais os mesmos desde que tudo aconteceu.

— Por algum motivo, Sarada acha que você morreu. – Sakura falou para Sasuke. – Ela falou alguma coisa sobre o Naruto estar atrás de você. Não me lembro bem.

Sasuke se lembrava... O exato momento em que Sarada desfaleceu em seus braços. Ela também tinha aquela memória e a última coisa que viu foi Naruto atrás de seu pai, pronto para matá-lo.

— Mas eu me lembro bem. – Falou com pesar. – Quando poderei vê-la?

Antes que alguém pudesse responder, Fuu apareceu para chamar a rosada, uma vez que o horário de visitas tinha começado.

Sasuke estava ansioso e levantou o mais rápido possível para ver a filha. Como era permitido entrar duas pessoas por vez, Sakura foi atrás do moreno, mas sentia-se desconfortável. Pensou em deixar que Mikoto entrasse em seu lugar, mas, depois de presenciar a crise da filha, ela queria ver como a menina estava.

Não conseguia esquecer das palavras de Sarada. Todo esse tempo, Sarada nunca confiou de verdade nela? Nunca a aceitou como mãe?

Sasuke dizia que era apenas questão de tempo para que Sarada passasse a chamar Sakura de mãe, mas a rosada começava a se perguntar se isso de fato aconteceria. Começava a se perguntar se sua filha realmente a via como mãe ou como uma pessoa qualquer... Como uma mentirosa.

Sarada estava pensativa, acordou mais calma e estava lúcida. Remoía sobre o que aconteceu em seu sonho. De fato algumas coisas foram apenas fruto de sua imaginação, como sentir o pequeno corpo de sua irmã morta sobre seu colo. No entanto, algumas coisas foram reais. Não foi apenas um mero sonho, foram memórias adormecidas voltando à tona.

Naruto, friamente, a chamou de assassina. De fato o loiro não estava errado, pois Sarada era uma assassina. Não só era uma assassina, como também era, de certa maneira, a culpada pela morte de Karin, Himawari e Hinata. Naruto tinha motivos para ter ódio dela.

Fechava os olhos e via perfeitamente a faca de ostras na mão do loiro antes de machucá-la de forma lenta e muito dolorosa. Quando os abria, olhava para sua frente e lembrava-se de vê-lo ali, morrendo em seu quarto.

Foi tirada de seus pensamentos pelo barulho da porta se abrindo e olhou para ela. Ficou surpresa com o que viu, ou melhor, quem. Diferente do que acontecia até então, quando somente sua mãe e às vezes sua avó iam visitá-la – apenas duas vezes seu tio foi visitá-la, mas prometeu ir mais –, Sarada viu Sasuke entrar ali.

Sakura não mentiu, realmente Sasuke estava vivo, estava bem e agora estava finalmente ali.

— Sarada... – O homem não conteve um sorriso ao ver a filha, embora a visão dela presa sobre uma cama lhe doesse o coração. – Minha filha, eu senti tanto a sua falta...

O homem pôs a mão sobre a testa da filha, tirando os fios negros que caíam ali, então lhe deu um beijo na bochecha. Mesmo usando uma máscara, era visível que Sasuke sorria.

— Papai... – Ela falou com lágrimas nos olhos. – Papai, eu fiquei com tanto medo... Pensei que você tivesse morrido.

"Papai", Sasuke não sabia qual tinha sido a última vez que ouvira Sarada chamá-lo dessa forma. Ouvir Sarada se referir a ele dessa maneira tão carinhosa era algo lindo e ele só ficava triste pela circunstância.

Por outro lado, Sakura sentiu seu coração em pedaços. Jamais ouvira Sarada chamar-lhe de mamãe ou de mãe. Ela parecia extremamente emocionada ao ver Sasuke, emoção que não demonstrou ao ver Sakura.

— Eu estou vivo, meu amor. – Disse ele. – Estou vivo e estou aqui com você, viu?

— Pai... – Ela estreitou os olhos. Embora estivesse sem óculos, sabia o que estava vendo. Ou melhor, o que não estava vendo. – O que aconteceu com o seu braço?

— Bem... – Sasuke ficou mudo por alguns segundos. Esperava que sua filha fosse notar, mas não sabia o que responder. – Sabe, Sarada...

— O Naruto fez isso com você. – A morena chorou mais ainda. – Ele... Ele fez isso com aquele cutelo, não foi?

— Sim. Mas se acalma, por favor.

— É culpa minha. – Falou amargamente. – Você estava distraído. Estava ocupado comigo e ele estava atrás de você.

— Não... Sarada... – Suspirou. – Não foi nessa hor...

— É culpa minha. – A menina interrompeu seu progenitor. – Desculpa.

— Você não tem culpa de nada. Tire isso da sua cabeça.

Era ridículo Sarada se culpar, isso fazia Sasuke sentir ainda mais culpa. Ele era o culpado de tudo, ele não chegou a tempo, ele subestimou o adversário... Ele era o culpado por sua filha estar ali, naquela situação.

— É tudo minha culpa...

— Não fale mais disso, Sarada. – Disse o mais velho. – Já passou.

— E o seu pé? – Perguntou preocupada. Lembrava-se de quando Sakura disse que Sasuke estava com um pé muito machucado.

— Relaxa, eu não perdi o pé. – Sasuke respondeu e Sarada riu minimamente da piada idiota de seu pai.

Sakura se sentiu completamente excluída. Sua filha parecia não vê-la ali, estava distraída com seu pai.

Discretamente, enquanto Sasuke e Sarada conversavam, a rosada saiu do quarto e foi procurar por Mikoto.

A Uchiha estranhou ao ver Sakura, visto que a Haruno mal tinha ficado cinco minutos dentro do quarto.

— Sakura... – A mais velha caminhou até a rosada. – Por que...

— Você pode entrar, Mikoto. – Ela cortou a mulher antes que terminasse de falar. – Sei que você quer ver a Sarada, então pode ir lá. – Abriu um sorriso mínimo, visivelmente forçado.

— O que você tem? Por que saiu do quarto? Você não perde a oportunidade de estar perto da sua filha.

— Pois é. – Soltou um longo suspiro. – Mas, no momento, quem ela quer por perto é o pai dela.

— Isso não é hora pra se sentir enciumada. A Sarada pensou que o pai estivesse morto.

— O tempo está passando, Mikoto. Vá logo, antes que o horário de visitas acabe.

Mikoto assentiu, uma vez que já conhecia a rosada bem o suficiente para saber que discutir com ela seria o mesmo que dar murro em ponta de faca, então seguiu para o quarto, onde Sasuke estava junto com Sarada.

— Sarada? – A voz de Mikoto pôde ser escutada dentro do quarto, então Sasuke e Sarada olharam em direção à porta. – Oi, meu amor...

— Mãe? – Sasuke uniu as sobrancelhas. – Ora, a Sakura estava aqui. Cadê ela?

— Ela deixou que eu entrasse um pouquinho. – A mais velha se aproximou da neta e lhe deu um beijo na testa.

— A Sakura... – A menina olhou em volta e realmente não viu sua progenitora ali. – Eu nem falei com ela... – Entortou os lábios. – Acho que ela ficou decepcionada comigo.

— Não, não. – Mikoto tentou acalmar a garota. – Ela já ficou com você pela manhã, por isso permitiu que Sasuke e eu ficássemos agora.

— É justo, não acha? – Indagou o moreno, mas Sarada sabia, de um jeito ou de outro, que não era totalmente verdade. – Sua mãe sabe que você está melhor.

— Que bom então... – Comentou a menina. – Não quero que ela fique chateada pelo que eu disse... – “De novo” pensou.

— Ela não vai ficar. – Sorriu o moreno.

— Pai... Você não sabe o alívio que é saber que você está vivo.

— Está vendo, Sarada? Seu pai está vivo e está bem. – Mikoto falou docemente.

— Bem ele não está. – Ela soltou um longo suspiro. – Vó... Meu pai perdeu um braço.

— Pelo menos eu estou vivo, Sarada. – Ele fez um carinho nos cabelos da filha. – Estou aqui do seu lado.

— Isso não é justo. – Soluçou. – Você perdeu um braço, a Haruka morreu e eu... Eu... – Ela derramou grossas lágrimas. – Eu estou presa nessa cama sem poder mexer minhas pernas.

Ouvir tais palavras de Sarada era doloroso. Ela obviamente sofria por saber que estava sem seus movimentos. Era desesperador mandar comandos para seus membros e não receber resposta alguma, não conseguir fazer algo tão simples como se mover. Era como se não tivesse membros inferiores, pois não sentia absolutamente nada.

— É temporário. – Mikoto respondeu. – Você vai voltar a andar logo.

— E se eu não voltar?

— Vai voltar. – Disse Sasuke. – Todos nós temos fé em você, meu amor.

— É difícil ter fé em mim mesma quando eu sequer posso sentir minhas pernas.

Estava claro para Sasuke o quanto sua filha estava pessimista, isso com certeza não era bom para a recuperação dela.

— Está tudo tão recente, filha. – O moreno respirou fundo. As palavras dela o deixaram triste. – Logo sua sensibilidade voltará e seus movimentos também. Você verá, confie em mim.

— Confiar... Pai, você disse que ia ficar tudo bem. – Uma lágrima brotou no canto do olho de Sarada. – Disse que Haruka nasceria e encheria nossos dias de alegria. Disse que seríamos uma família feliz e eu acreditei nisso.

Mikoto notou que aquelas palavras mexeram com Sasuke, o que não era pra menos. Ele se sentia impotente, um completo inútil que sequer conseguia proteger a família.

— Desculpa. – O moreno abaixou o olhar. – Eu daria a minha vida por você e sua irmã, mas infelizmente tudo que eu fiz foi em vão.

— Sabem o que eu acho? – Mikoto chamou a atenção de ambos para si. – Não adianta mais remoer o passado, agora vamos olhar para o futuro. Sarada, logo você irá para o quarto e seus pais poderão ficar com você dia e noite.

— Há quanto tempo eu estou aqui? – Perguntou.

— Desde a noite do baile de gala. – Mikoto respondeu. – Há duas semanas.

Os olhos da jovem arregalaram levemente. Duas semanas?

Apertou os lençóis e tentou ficar calma. Duas semanas e ninguém tinha achado Naruto... Ele passava despercebido por todos? Lembrou que Sakura havia dito que havia mais policiais nas ruas. Seria mentira apenas para acalmá-la e fazê-la se sentir segura?

“Não, não... Ele vai me machucar de novo!”

Sasuke e Mikoto notaram que os batimentos de Sarada estavam acelerando.

— Sarada? – O moreno tocou o rosto da filha e virou-o para si.

A jovem saiu de seus devaneios e tentou manter a calma.

— Quando eu saio da UTI? – Perguntou com a voz trêmula.

— Logo. – Disse Sasuke. – Por enquanto você está aqui só por precaução, mas está fora de perigo e logo irá para o quarto.

— Quando eu terei alta? – Indagou.

— Bem... – O moreno mordeu o lábio inferior. – Aí eu já não sei responder. Mas creio que não vai demorar.

— Hum...

Enquanto Sasuke curtia a filha, do lado de fora do quarto, Sakura estava abatida e segurava as lágrimas.

Tudo passava por sua cabeça. Sarada estava feliz com Sasuke ao seu lado naquele momento, não precisava dela. Nunca precisou dela... Foi tudo uma ilusão, Sarada jamais a aceitaria como mãe. Mikoto era a mãe de Sarada, a mulher que sempre cuidou dela e a viu crescer, Sakura não passava de uma estranha que apareceu de repente.

Não iria abandoná-la, de maneira alguma, mas sentia-se péssima por pensar que a aproximação com Sarada nos últimos meses era apenas ilusão.

Passado o tempo do horário de visitas, Sasuke saiu do quarto de Sarada com Mikoto. Ambos viram a rosada triste, embora não chorasse.

Mãe e filho se olharam e Mikoto entendeu que Sasuke queria ficar sozinho com sua amada, então a morena assentiu e seguiu seu caminho sem dizer nada.

— Quer desabafar? – O Uchiha foi direto ao ponto e recebeu um dar de ombros como resposta. – Venha, vamos sair daqui.

Os dois foram juntos até o restaurante do hospital e pediram apenas um chocolate quente.

As poucas pessoas que estava no local lançavam olhares para o casal. Apesar de fazer duas semanas desde o ocorrido, a família Uchiha ainda era um dos assuntos mais tocados nas fofocas.

— Como foi com a Sarada? – Indagou indiferente a rosada, fitando sua xícara. – Ela ficou realmente emocionada ao te ver.

— Pois é, ela pensava que eu estava morto. Deve ter sido um alívio.

— Ela não acreditou em mim. Sarada simplesmente não acreditou que você está vivo... Ela não confia em mim.

— Ela estava nervosa, Sakura. – O homem tomou um gole de seu chocolate quente. – Ela gosta de você. Ela confia em você. Mas é fato que a Sarada ainda está aterrorizada pelo que viu. Você sabe que ela não é de medir palavras quando está nervosa.

— Eu... – Suspirou pesadamente e levou ambas as mãos até a testa. – Eu tento ser compreensiva, mas isso me machucou. – Abaixou o olhar. – Ela te chamou de papai...

— Você não sabe o quanto eu esperei pra ouvir isso da boca dela novamente... – Sasuke não conteve um sorriso mínimo. – Eu queria que as circunstâncias fossem diferentes.

— Por que ela não me chama de mãe? Por que ela não me aceita? Por que... Por que ela não confia em mim, Sasuke?

— Ela confia, Sakura. Ela só está um pouco sensível, só isso.

— Eu não vou aguentar ser rejeitada pela minha filha mais uma vez, não vou.

— Você não vai ser rejeitada! A Sarada te ama. – O moreno olhou fundo nos olhos dela.

— Ela... Ela falou sobre o sonho?

— Não. – Negou com a cabeça. – Sequer tocou no assunto e eu não quis perguntar nada. Acho que pensa que foi só sonho mesmo.

— Não, Sasuke. Ela não pensa que foi sonho, ela sabe o que viu. – Insistiu. – Você não estava ao lado dela no momento da crise, então não fale o que você não sabe.

— Ok, desculpa. – Suspirou. – Sabe... Ela ficou triste quando notou que você tinha saído do quarto sem falar com ela. Ela não quer que você fique magoada com ela novamente.

— Isso é realmente verdade ou você está dizendo só pra eu me acalmar?

— Você não confia em mim, Sakura? – Indagou retoricamente. – A Sarada ainda está sensível, precisa da nossa compreensão.

— Me doeu ouvir que eu só faço mentir desde que apareci... – Abaixou o olhar.

— Também me doeu ouvir da Sarada que eu não cumpri minha promessa de que tudo ficaria bem... De que a Haruka iria nascer e todos nós seríamos felizes.

Sakura sentiu uma pontada no coração. Lembrou-se das palavras de Sasuke no dia em que descobriram que seriam pais novamente... Ele disse que a criança nasceria forte e saudável e que encheria aquela casa de alegria. Sasuke fez a promessa de que não deixaria nada de mal acontecer à Sarada e nem ao bebê que se formava no ventre da rosada.

Infelizmente a promessa não pôde ser cumprida.

— Você prometeu isso pra mim também. – Sakura desviou o olhar. – E eu acreditei nas suas palavras. Elas me davam segurança.

— Nós... – Suspirou sem saber o que dizer diante daquilo. – Nós podemos tentar ter outro filho daqui a um ano mais ou menos.

Sakura olhou indignada para Sasuke.

— Um filho não substitui o outro, sabia?

— Não estou dizendo para colocarmos outra criança no lugar da nossa Haruka, até porque, mesmo que seja outra menina, o nome dela não será esse.

— Com certeza não será.

— Mas... Sabe, uma criança pode nos ajudar a superar isso tudo. Será uma alegria para nós, Sakura. Pra mim, pra você e para a Sarada.

— Minha preocupação nesse momento é a Sarada, Sasuke. Não estou com cabeça pra pensar em ter outra criança.

— Nem eu. Vamos esperar a Sarada melhorar, vamos esperar esse pesadelo horrível acabar, então tentamos outro filho. Vai ser o nascimento de uma vida nova para nós.

— Você é tão otimista. – Riu sem humor. – Nem sei como consegui engravidar da Haruka, com os vários problemas que eu tenho, isso sem falar na minha idade. Você sabe disso, Sasuke. – Suspirou. – Você diz "Vamos esperar a Sarada melhorar", mas e se ela não melhorar? E se ficar dependente de nós pelo resto da vida?

— Não vai. Sakura, a Sarada vai melhorar.

— Acredito nela, mas... E se?

— Não existe "E se?". – Falou convicto. – A Sarada vai melhorar. Nós vamos ficar juntos. Vamos todos ser uma família... Nós vamos ser felizes. Muito felizes.

— Pra quem você diz isso, Sasuke? – Uniu as sobrancelhas. – Pra mim ou pra si mesmo?

— Eu preciso... – Abaixou a cabeça. – Eu preciso de paz...

— Paz... – Respirou fundo. – Há muito tempo não sei o que é isso.

— Pensei que teria paz depois que... Depois que a Hinata... – Desviou o olhar. – Enfim, você sabe...

— Não há como ter paz após tirar a vida de alguém. – A Haruno falou quase que como um sussurro, uma vez que as pessoas ali perto não poderiam ouvir. – Principalmente... Principalmente de uma criança.

— Himawari... – Suspirou pesadamente. – Você não sabe o quanto me arrependo. Aquilo devia ter sido melhor planejado. A menina não precisava... Enfim, já era.

— Eu sabia que você tinha sangue frio... Mas não pensei que fosse tanto a esse ponto.

— Evito pensar nisso, mas admito que lembrar da morte daquela criança ainda me assombra um pouco. – Fechou os olhos. – Hinata viu a filha morrer. Eu vi a Sarada desfalecer em meus braços e vi você perder a Haruka. Naquela hora, também pensei que Sarada estivesse morta... Foi agonizante. – Olhou para a rosada que ouvia tudo atentamente. – Me senti encurralado. Eu mal podia me mover, a bomba estava prestes a explodir. Naquele momento, percebi que não tinha saída, que aquele seria meu fim... Seria o nosso fim. – Ele levou a mão até a testa, bagunçando alguns fios de cabelo.

— Talvez tenha sido assim que Hinata se sentiu. Ela sabia que morreria, que não tinha mais saída... Você sentiu na pele o que fez, Sasuke. – Falou seriamente. – Eu não queria ver minha filha condenada à morte, mas isso não significa que eu ache certo o que você fez àquela mulher e àquela criança.

— Não foi por falta de aviso. – Retrucou. – Mas de que adianta remoer isso agora? Ambas estão mortas, assim como Karin. Naruto está solto em algum lugar por aí e nós estamos aqui, frágeis, abalados e com as esperanças machucadas.

— Só quero que minha filha melhore... E que o Naruto deixe de ser uma ameaça para nós.

— A polícia o pegará, eu acredito nisso. Naruto não conseguirá se esconder por muito tempo.

— Não sei por que, mas, ultimamente, ando pensando que o Fugaku pode estar por trás disso.

— Fugaku não iria querer esse escândalo em torno dos Uchiha. Ele é um cretino, mas não se arriscaria tanto.

— Ainda que ele não tenha feito nada agora, pode fazer futuramente. Sasuke, ele está sumido demais, está quieto demais... Fugaku ainda é uma ameaça.

— Mas não posso fazer nada contra ele. Pelo menos não agora.

— A Sarada foi torturada! O que mais vai esperar acontecer? – Arqueou uma sobrancelha. – Torno a dizer que se você não tomar uma atitude, eu vou tomar. Eu posso ser mais perigosa do que você, Sasuke, não duvide disso.

— Jamais duvidei. – Respondeu. – Mas não posso enfrentar o Fugaku na situação que estou.

— Vai esperar que ele tente matá-lo novamente? Vai esperar que algo mais aconteça com a Sarada?

— Vou esperar a poeira abaixar.

— Só não espere muito, Sasuke.

[...]

Toská, Rússia

31 de agosto de 2016

07:57 P.M.

As ruas estavam movimentadas. O trânsito fluía bem, apesar da grande quantidade de automóveis.

Pessoas andavam um pouco inseguras desde que fora noticiado nos telejornais que Naruto Uzumaki, mais conhecido como “O Degolador”, fugiu do sanatório Woodhaven e atacou uma das famílias mais ricas da Rússia, os Uchiha.

Olhavam o tempo todo de um lado para o outro. Pais seguravam firmemente a mão de seus filhos e se mostravam em alerta.

A criminalidade diminuiu 18%, segundo o jornal Toská News. Não só porque Naruto era considerado uma ameaça terrorista, mas também porque a segurança foi aumentada muito mais.

Migrantes enfrentavam várias normas para entrar ou sair da cidade. O número de blitz aumentou e a vistoria em aeroportos também.

Apesar de a segurança ter sido reforçada, as pessoas ainda andavam inseguras.

Os televisores que havia nos prédios transmitiam, sem som, ora ou outra algumas instruções para a população sobre como agir em caso de encontro com o loiro. Sobre como é importante manter a calma e alertar a polícia o mais rápido possível. Caso houvesse mentiras no depoimento, a pessoa seria punida, logo, ninguém arriscava contar uma mentira para causar tumulto.

Nas casas também era informado.

Sarada estava deitada no leito e com seus pais ao seu lado. Havia deixado a UTI há pouco mais de quatro dias. Não queria dormir e sonhar novamente com aquilo.

Na televisão passava um programa educativo. Os médicos sugeriram que ela não visse as notícias que provavelmente só falavam sobre o Uzumaki.

Sakura olhou para a filha. Até agora ela não havia comentado nada sobre aquela crise. Poderia ser que teria dito ao pai?

Não. Se fosse o caso, Sasuke com certeza diria a ela. Mas e se sua filha não confiasse mais nela?

Sarada estava muito quieta e sem expressão. Isso preocupava seus pais. Nem mesmo o psicólogo conseguia extrair algo dela.

Sasuke tocava na filha, mas ela não esboçava emoção alguma. Sequer parecia sentir.

Foi quando de repente, o programa que a adolescente assistia virou uma tela escura e passou a ser dito o seguinte:

“Interrompemos nossa programação para uma mensagem de suma importância.”

Após isso, a imagem de uma pessoa tão conhecida pela Uchiha foi mostrada. Ao menos isso a fez esboçar alguma reação.

“Boruto Uzumaki falando, filho de Naruto Uzumaki mais conhecido como ‘O Degolador’. Dia seis de agosto o senhor sequestrou duas pessoas e as feriu gravemente. Uma delas estava grávida e a outra é alguém muito importante para mim.

Sei que você não é um assassino, pai. Nem mesmo tem algum problema mental, como muitos alegam. Você é uma pessoa sã que passou por muitos problemas emocionais e não está sabendo lidar.

Pai, eu, mais do que ninguém, entendo perfeitamente como você se sente agora. Perdemos as pessoas que mais amamos neste mundo e nem sabemos o porquê. O senhor sequestrou estas pessoas acreditando que elas foram a causa da nossa família ter sido destruída. Na sua mente, justiça, na dos outros, vingança.

Sei que você não é assim, pai. De muitas formas o senhor me ensinou a perdoar, a respeitar e a amar os outros com pequenos gestos. A mamãe, todas as vezes que ela falava de você, sorria largamente e dizia o quanto você é bondoso, gentil e amoroso com todos. Himawari (risos), não preciso nem citar. Ela sempre o admirou muito e queria trabalhar com o senhor no futuro. A tia Karin sempre disse que você era muito protetor, mal a deixava respirar, mas... Por mais que não fosse totalmente de sangue, ela sempre o considerou como um irmão, o melhor amigo dela. E eu... Apesar de eu nunca ter sido muito aberto à conversa dentro de casa, eu adorava quando o senhor vinha falar comigo, dar algum conselho ou até mesmo uma bronca quando eu merecia. Sempre quis ser como você, pai. Mais do que profissional e socialmente, sempre quis ser um pai e um marido como você. Um que minha esposa, ao falar de mim, estivesse sempre sorrindo e dizendo coisas boas, um que meus filhos sempre sonhassem em ser como eu e me admirassem, um que traz orgulho para a família.

O que eu quero dizer, é que eu sei que o homem que me ensinou tudo isso ainda existe dentro de você. Por favor, se o senhor estiver vendo esta transmissão, pai, se entregue à polícia. Pague pelos seus erros e volte para mim. Quero muito continuar aprendendo essas coisas contigo. Obrigado.”

A mensagem também foi mostrada nos televisores dos prédios e com som.

As pessoas que andavam pela cidade grande e pararam para escutar ficaram em silêncio. Outras se mostraram indignadas.

“Se entregar? Este homem tem que ser morto!”.

“Aposto que a família dele está envolvida e fizeram isso para acobertar!”.

“Deveriam prender o filho também, quem sabe assim aquele assassino se entregue!”.

Algumas refletiam o que foi dito e diziam que “O Degolador” estava com problemas emocionais e precisava de apoio. Ou que “todo mundo merece uma segunda chance”.

Sarada viu aquilo e desligou a televisão.

Os pais, preocupados, tentaram conversar com ela. Sem sucesso.

A Uchiha abaixou a cabeça e sem perceber, chorou silenciosamente.

“... a outra é alguém muito importante para mim”.

Sabia que era ela a quem Boruto se referia. Não podia negar, ainda amava aquele garoto mesmo que já tenha superado o término.

Vendo que alguém que ela tanto amou ainda sente algo por ela, mesmo que a culpa fosse sua, as palavras de Naruto pesavam ainda mais em sua mente.

“Assassina!”.

Sasuke e Sakura não sabiam o que fazer, ver a filha deles chorando era a pior sensação do mundo, mais do que todas as dores que já sentiram.

Abraçaram a morena, mas ela pareceu não sentir. Choraram junto com ela porque a dor dela parecia terrível.

Sarada podia estar viva, mas sua alma estava morrendo aos poucos. Já não era mais a mesma. Sasuke e Sakura sabiam muito bem disso...