Amaterasu
30 Capítulo 29
Notas iniciais
Toská, Rússia
06 de agosto de 2016
09:21 P.M.
Sasuke caminhou até uma mesa vazia e se apoiou nela com o braço enquanto passava a mão nos cabelos.
“Você está sabendo que o Uzumaki fugiu?”, foi o que Madara perguntou a ele.
Bom, de certa forma ele sabia, lembrava vagamente de ter ouvido algo sobre “O Degolador” na clínica que Sakura fazia seu pré-natal. Mas a discussão infantil que estava tendo com ela e com a filha não o permitiu que escutasse com clareza o que o noticiário dizia.
Seu pai biológico o chamou naquele momento para alertar que agora Sasuke devia ter cuidado não somente com Fugaku, mas com Naruto também.
“Ele não me parece fazer o tipo de alguém vingativo”, tentava se convencer com isto.
Mas algo maior martelava sua cabeça: Como ele fugiu do Sanatório Woodhaven?
Não que ninguém nunca tenha tentado fugir. Eram inúmeras tentativas e uma ou outra davam certo, mas logo eram capturados novamente. Calculando o intervalo de tempo desde a clínica, fazia bem mais de uma semana que ele escapou e até agora não o encontraram.
Olhou ao redor procurando por Sakura e Sarada por todo o salão, precisava avisar as duas, por mais que achasse que o Uzumaki não representasse perigo.
Imaginava que elas pudessem estar no banheiro, uma vez que mulheres têm esse estranho costume de ir ao banheiro acompanhadas por outras, coisa que os homens nunca conseguiram entender.
Estranhou a demora. Elas, definitivamente, não foram apenas retocar a maquiagem ou algo do tipo.
— Procurando alguém? – Ouviu a voz de seu irmão atrás de si e se espantou.
— Itachi, não me assusta assim! – Resmungou.
— Para de ser neurado e vai comer... – Bufou. – Estão servindo um creme de camarão maravilhoso.
Sasuke sentiu seu estômago embrulhar só de pensar em creme de camarão. Ainda não tinha superado totalmente o jantar "romântico" preparado por Sarada para ele e Sakura, onde o prato principal foi creme de camarão... Carregado de sal.
— Não, obrigado... – Estremeceu.
— Ora... – Itachi uniu as sobrancelhas. – Você adora camarão desde que era pirralho!
— Pois é, acabei enjoando.
— Pois não sabe o que está perdendo. Esse creme está de se comer rezando.
— E desde quando você acredita em Deus? – Arqueou levemente uma sobrancelha.
— Para você ver a situação.
— Me poupe! – Revirou os olhos. – Enfim, você viu a Sakura ou a Sarada por aí?
— Ah, vi Sarada indo ao banheiro já faz uns minutos...
— Merda, tô preocupado. – Falou aflito.
— Irmãozinho, ela deve estar retocando a maquiagem. – Deu de ombros. – Sabe como mulheres são... Bebem uma água e têm que retocar o batom.
— A Sarada? – Sasuke riu em deboche. – Duvido!
— Ah, vai ver ela está virando mocinha...
— Mocinha? – Encarou confuso o irmão. – Itachi, ela não tá entrando na puberdade! Já é quase uma mulher.
— Então! – Falou como se fosse óbvio. – Já não está na hora de aprender a ser vaidosa?
— A Sakura não conseguiria fazer esse milagre em tão pouco tempo. – Suspirou. – E ela também está sumida.
— Ah, cara, duas mulheres no banheiro... Pode esperar que elas não saem de lá hoje. – Riu. – Devem estar arrumando cabelo, vestido, fofocando... Enfim!
— Itachi, você é muito despreocupado.
— Você é que é todo cheio de complexo. – Reclamou. – O nome disso é barriga vazia. Vai comer que passa.
Nesse momento o celular de Sasuke vibrou no bolso, havia chegado uma mensagem em seu WhatsApp e ele estranhou ao ver que era de Sakura.
Por que ela lhe mandaria uma mensagem durante o evento?
Sem pensar muito, Sasuke abriu a mensagem e seu sangue gelou em suas veias ao lê-la.
Ele ficou pálido, trêmulo, incrédulo... Não sabia o que pensar, sua cabeça estava a mil, sentiu-se tonto.
— Itachi... – Ele sussurrou para o irmão que olhava ao redor para saber quando a mesa de doces seria liberada.
O mais velho então encarou o caçula e se espantou.
— Sasuke, você tá mais branco que o normal. – Um garçom passou perto de ambos e Itachi pegou um copo com água. – Cara, senta aí. – Puxou uma cadeira para o outro se sentar e lhe entregou o copo. – Sasuke, você está passando mal?
Ele respirava fundo, nervoso, tremendo.
— Itachi... Eu...
— Bebe água.
— Não quero porcaria de água! – Jogou o objeto com força no chão, extravasando sua raiva.
— O que aconteceu? Por que você ficou assim de repente?
— Leia! – Sasuke então entregou seu celular para Itachi, que o pegou para ler a mensagem que deixou tão perturbado seu irmão caçula.
"Sua filha e a mãe dela estão comigo, Uchiha. Quer tê-las de volta? Estou com a Sarada em uma oficina de ferreiro saindo ao leste da cidade pela E20. Sakura está na fazenda de sua família com uma bomba... Não demore, corra, pois você só tem uma hora, depois desse tempo a bomba explodirá.
Assinado: Naruto Uzumaki.”
— O Uzumaki sequestrou a minha sobrinha? – Itachi arregalou os olhos. – Eu mato esse desgraçado com as minhas próprias mãos! – Colocou o iPhone de Sasuke sobre a mesa e este o guardou no bolso.
— Nós temos pouco tempo. – Sasuke respirou fundo e se levantou, decidido a ir atrás das duas. – Itachi, eu vou precisar da sua ajuda. E, por favor, não conte nada para o nosso pai.
— Por quê? – Questionou. – Ele pode nos ajudar.
— Não, Itachi! – Aumentou seu tom de voz. – Também não diga nada para a nossa mãe, não quero deixá-la preocupada. Vou pedir ajuda ao Madara.
Itachi assentiu. Ele percebeu o quanto seu irmão estava nervoso e temia que isso acabasse atrapalhando o sucesso do resgate. Sasuke mal estava em condições de dirigir, mas não era pra menos.
— Sasuke, se acalma. – Pôs a mão no ombro do caçula. – Eu sei que a situação está péssima, também estou preocupado, mas ficar assim não vai te ajudar.
— Se aquele maldito... Se ele... – Falou entre dentes, cerrando os punhos. – Se acontecer alguma coisa com a Sakura ou com alguma das minhas filhas, eu vou...
— Espera! – O interrompeu. – Filhas? No plural?
— A Sakura está grávida... Enfim, não tenho tempo pra falar sobre isso!
Apressado, Sasuke saiu à procura de Madara, enquanto a ficha de Itachi ainda não tinha caído. Seria tio novamente? Sasuke realmente não perdeu tempo em fazer outro bebê...
O moreno nem pensou antes de falar, uma vez que o nervosismo tomava conta de si de uma maneira surreal. Depois diria para o irmão não comentar nada com Fugaku, mas, por enquanto, tinha que pensar na vida de Sakura, Sarada e Haruka.
Madara conversava com Obito quando Sasuke o interrompeu da maneira mais deselegante possível.
— Preciso falar com você! – Sasuke praticamente implorou, então Madara apenas lançou um olhar para Obito e este deixou seu chefe a sós com Sasuke e Itachi.
— Diga, por que está tão nervoso? – Madara perguntou.
— Madara, o Naruto sequestrou a Sakura e a Sarada! Você estava certo!
— Não... Não faz sentido. – Madara estava confuso. – A festa está cheia de seguranças, como ele ent... – A frase do Uchiha morreu no ar e sua expressão passou de confusa para pensativa. – A não ser que...
— A não ser que o quê? – Sasuke praticamente berrou. – Fala!
— Não é nada. – Balançou a cabeça em sinal negativo. – Você já tem um plano?
— O desgraçado mandou uma mensagem do celular da Sakura para o Sasuke. – Itachi explicou. – A Sakura está na nossa fazenda, ele disse que há uma bomba com ela e que irá explodir em uma hora, e ele está com a Sarada numa oficina abandonada saindo de Toská pela E20.
— Itachi, chame Shisui e vão para a fazenda, ele sabe desarmar bombas, certo? – Itachi acenou concordando e logo foi procurar Shisui. – Sasuke, vá para a oficina o mais rápido possível, não sabemos o que ele pode fazer à Sarada. – Ordenou. – Como ele fugiu do sanatório, a polícia já está atrás dele. – O homem então retirou seu celular do bolso e desbloqueou a tela. – Vou acionar a agente Yamanaka, ela saberá o que fazer.
O mais novo assentiu e foi pegar a chave de seu Audi na recepção. Sequer chamou o manobrista, foi correndo para o estacionamento e logo pegou o carro. Foi para a rodovia E20 e seguiu para o leste.
Itachi chamou seu primo, Shisui, para ir com ele até a fazenda dos Uchiha. Os dois foram rapidamente para o Porsche 911 de Itachi e seguiram para a fazenda.
Sasuke dirigia apressadamente, não tinha tempo para parar nos sinais.
“Maldição!”
Acreditava que Naruto não seria capaz de tal coisa, o subestimou. Aparências enganam.
Socou o volante, fazendo a buzina ser soada. O Uzumaki queria vingança, e se não agisse logo, ele a teria.
[...]
Acordou assustada, sentia suas vias respiratórias arderem, alguém havia usado clorofórmio para apagá-la. Olhou ao redor, viu um fogo aceso em uma fornalha, deixando o local iluminado, ainda que a maior parte estivesse numa penumbra. Conseguiu distinguir alguns instrumentos, maquinaria e pedaços de ferro, percebendo estar em uma oficina de ferreiro. Estava quente devido ao fogo aceso.
— Acordou?
A respiração de Sarada estava entrecortada, virou-se rapidamente para o local de onde vinha a voz conhecida.
— N-naruto? O que faz aqui? Onde a gente está?
Ele estava sentado ao lado de uma mesa. Por estar no chão, a jovem não conseguia ver direito o que tinha sobre ela.
Por que ele estava ali? Naruto deveria estar em Woodhaven!
— Em algum lugar onde ninguém vai te ouvir gritar.
— O que quer dizer? – O tom de voz frio do loiro fez um arrepio correr por sua espinha.
— Que quando eu te machucar, não vai adiantar gritar. – Falou simplesmente e pegou um martelo em uma estante com alguns instrumentos usados por ferreiro.
A morena tentou levantar, sentindo que dali não viria algo bom, mas ainda se sentia levemente anestesiada pela substância inalada. Olhou para o homem a tempo de vê-lo bater o martelo em seu calcanhar. Sentiu o objeto pesado a atingir com força e gritou. Voltou seus olhos para o local atingido e viu seu pé virado em um ângulo que não deveria ser possível. Seu olho lacrimejava com a dor. Não estava quebrado, apenas deslocado, mas doía bastante.
— Isso vai te impossibilitar de correr. – Naruto colocou o martelo no canto de novo.
Sarada estava amedrontada. Apesar de todo o treinamento que teve para entrar na Amaterasu, aquele era o pai de seu ex-namorado. Não sabia o que fazer. Não queria fazer nada contra ele. Sabia o motivo que o levava a fazer aquilo e sentiu-se culpada.
— O-o que está a-acontecendo?
— Assassina! – Naruto gritou.
A morena arregalou os olhos com a acusação. É verdade que matou alguém. Mesmo que já fazia meses, e, desde então, só fizesse entregas por Fugaku para que ele deixasse sua mãe em paz, aquela morte trouxera várias consequências.
O olhar do loiro era frio, diferente do olhar doce que sempre teve. Ela podia ver mágoa, medo, ódio, solidão, angústia, tudo misturado naqueles olhos que eram sempre sorridentes.
— P-por que está fazendo isso? – A menina se perguntava.
— É sua culpa... Karin, Himawari, Hinata. É sua culpa, sua assassina!
Sarada franziu o cenho, sentindo a culpa a consumir, mas foi tirada de seus pensamentos com um soco desferido por Naruto.
O sangue jorrou no chão, deixando um rastro em seu queixo.
O golpe fora forte, a Uchiha ficou desnorteada por alguns segundos. Até que foi jogada na parede. Sentiu uma dor forte nas costas com o impacto.
Naruto prensou seu pescoço com a mão esquerda e, com a outra, socou o rosto feminino mais uma vez.
Sarada começou a perder o ar, devido ao aperto em seu pescoço.
Naruto a socou mais uma vez, mas desta vez foi na região das costelas.
— Seu pai matou três das pessoas mais preciosas para mim. Vou fazer o mesmo com ele. Primeiro você e depois aquela vadia de cabelo rosa... Sua mãe, não é?
O Uzumaki vinha nutrindo seu ódio há meses, desde que sua esposa começara a investigar aqueles assassinatos e não tinha mais tempo para ele ou para os filhos. Sasuke foi responsável pela morte de sua irmã, esposa e filha. Os Uchiha deram um jeito de incriminá-lo injustamente e, por sorte, ele não foi preso, mas foi para um sanatório. Depois de estar lá, soube que seu filho foi para a Alemanha, morar com os padrinhos. Sentia-se perdido e destruído depois de perder quase toda a sua família.
Mas bem ali, na sua frente, indefesa e totalmente a sua mercê, estava o início de tudo. Lembrava-se de que não conseguia acreditar que uma garota tão educada e doce como Sarada pudesse ser uma assassina. Mas agora tudo que sentia era ódio por ela e toda sua família, principalmente Sasuke.
Ele soltou a jovem no chão e chutou continuamente as costelas dela, no local onde socara antes. Os chutes foram fortes o suficiente para quebrar algum osso.
Sarada gritou de dor. Seu rosto ardia e agora suas costelas. Tentava odiar o homem a sua frente por estar fazendo isso. Mas não conseguia, Naruto perdera sua família, tinha apenas Boruto, que estava em outro país, longe de tudo o que acontecera ali.
— P-por favor... B-Boruto p-precisa do senhor. N-não o abandone. – Começou a chorar.
Percebeu sua visão um pouco turva, a lente havia caído de seu olho esquerdo.
— Ele foi embora... – Gritou e chutou a menina, que se abraçou para se proteger. – Aquela sua família de merda me culpou pela morte das pessoas que eu mais amava! – Ergueu-a levemente apertando seu pescoço. – Boruto precisava da mãe... – Golpeou a cabeça dela contra o chão. – Acha que seu pai pensou nisso? – Mais um chute. – Eu faço isso para protegê-lo... Assassina! – Pisou no pé machucado, fazendo-a gritar.
— Eu nunca faria algo contra o Boruto... – Sarada falou entre soluços, com a voz embargada.
Naruto riu em escárnio diante daquelas palavras. Como ela não faria nada se tudo era culpa dela? A odiava mais a cada palavra que ela proferia.
— Você e sua família são assassinos de sangue frio. Só em Boruto ser próximo a você, isso já o tornava alvo para seus inimigos. A morte é pouco para você... Vou torturá-la até seu último suspiro, vadia!
Sempre fora um homem bom, criava amizade facilmente, era sorridente. Mas sentia-se perdido sem sua família, tornara-se frio sem o calor daqueles que tanto amava. Ficava perturbado com as pessoas internadas no sanatório. Apenas seu filho lhe restara, mas ele não sabia a verdade, mesmo que o jovem acreditasse em sua inocência. Porém ele foi para outro país... O único com quem poderia contar não estava mais ali.
Ferir a jovem Uchiha o trazia satisfação, o fazia sorrir, mas não era o mesmo tipo de sorriso. Nem de longe chegava a ser. Era um sorriso sádico. Apenas estava gostando de retribuir a dor que aquela família o causou. Mas o vazio em si era enorme.
Naruto prendeu as mãos da menina para trás com uma corda. Durante o processo Sarada sentiu pontadas de dor na lateral de seu corpo por causa da costela quebrada ou das costelas, não sabia dizer. Sem falar que o aperto da corda machucava um pouco seus pulsos.
— Por onde vamos começar? – Ele analisou o corpo da morena.
Caminhou até uma mesa que havia no recinto e pegou uma faca para ostras.
— Eu notei que você gosta de unhas pintadas... Gosta de vermelho?
Sarada arregalou seus olhos. Naruto sorriu sádico e colocou a ponta da faca entre a unha e a carne do indicador direito da garota. A Uchiha gritou, enquanto sentia o sangue escorrer, pingando no chão.
Naruto repetiu o processo nos demais dedos da mão direita da jovem.
— P-para... Por favor... – Choramingou.
— Você vai sofrer até a morte! – Ele alisou o rosto de Sarada. – Seu pai deve estar chegando em, no máximo, 40 minutos. – Falou depois de uma pausa. – Ainda temos um tempinho para diversão. Que tal um jogo? Eu te faço perguntas, se você responder com sinceridade, passamos para a próxima. Se não responder, eu te machuco de alguma maneira.
Naruto mudara totalmente depois de suas perdas. Era sua família, agora estava sozinho, apesar de Boruto ainda estar bem. Estava sendo consumido pelo desejo de vingança. A loucura o dominava.
— N-não... – Falou em um fio de voz.
— Eu não pedi sua permissão. Quero que conheça todos os utensílios que eu utilizava na cozinha. – Apontou para a mesa e puxou uma cadeira para frente da garota. – Vamos começar. Você realmente matou o tal do Kisame?
— P-por favor, p-para...
O homem fincou uma faca de legumes na coxa esquerda de Sarada e ela gritou.
— Responda.
— S-sim.
— Assassina! – Ele gritou e puxou a faca, fazendo um pouco de sangue jorrar. – Você matou o tal do Deidara?
— N-não.
— E quem foi?
— M-meu p-pai.
— Aquela vadia de cabelo rosa é sua mãe, certo? – Sarada assentiu. – Seu pai gosta dela?
— N-não. – Mentiu.
Seu pai amava sua mãe. Há poucos minutos os dois haviam se acertado na festa. Apesar do que aconteceu, ela também amava a mãe e o pai acima de tudo, já havia os perdoado há tempos e vivia com os dois como uma família quase normal e agora esperava uma irmã.
Mesmo assim mentiu, para que ele não fosse atrás da rosada.
— Que pena. Eu armei uma bomba que vai explodir daqui a... – Olhou o relógio de pulso. – 32 minutos na fazenda de sua família, onde aquela vadia está presa. Seu pai provavelmente vai querer salvá-la antes de vir aqui, se ele usar a razão. Ou ele não vai usar a razão e vai vir salvar a filhinha antes? Se ele vier para cá, ela morre... Se ele for para lá antes, terei mais tempo para brincar com você e te matar. O que acha que ele fará primeiro?
Sarada estava com os olhos arregalados. Não reconhecia o homem a sua frente. Ele era um pai maravilhoso, um homem gentil e sempre sorridente. Ele estava daquele jeito por culpa dela. A morte de Kisame foi o princípio de todos os problemas dele.
Por um momento, um pensamento egoísta passou por sua cabeça. Queria que seu pai viesse salvá-la antes. Não aguentava mais aquela tortura, suas costelas doíam, bem como seu rosto, coxa e pé esquerdos e mão direita, estes dois últimos sequer conseguia mover. Não aguentava mais olhar para Naruto daquele jeito.
O loiro a chutou fortemente no estômago, fazendo a menina cuspir um pouco de sangue e faltar-lhe ar brevemente.
— Você não respondeu. Onde acha que seu pai vai primeiro?
— A-aqui... – Respondeu.
Seu pai era emotivo, apesar de parecer frio em alguns momentos. Não iria salvar sua mãe. Por mais que Sasuke amasse Sakura, sabia que estava em primeiro lugar na vida dos dois, disso ela tinha certeza.
— Ah... Sendo assim, ele já deve estar a caminho. – Levantou-se e pegou uma arma sobre a mesa.
Sarada a olhou e reconheceu como sendo sua própria arma, sua P220 Elite.
— O início de todo o meu sofrimento foi causado por esta arma... – Falou olhando para o objeto. – Peguei emprestado em sua casa. Achei que vocês sempre andassem armados... Mas parece que não.
Sarada queria sair daquela vida, apenas estava usando a arma quando Fugaku a mandava para algum trabalho para ele, e aquilo tinha se tornado raro desde o julgamento do Uzumaki.
A morena observou a postura de Naruto. Ele estava perturbado e nunca pegara numa arma antes, a mira dele com certeza não era boa e mal sabia como segurar o objeto.
— Naruto, p-por favor, não faça isso... O senhor n-não é assim. – Sarada tentava não gaguejar, mas estava tremendo. – Se fizer i-isso, nunca irá se p-perdoar.
— Não me diga o que fazer! – Gritou. – Você não sabe como é ter sua família assassinada por causa de alguém que seu filho amava tanto! – O loiro derramou algumas lágrimas. – Você se perdoa pelo que fez com minha família? Se sim, você é um monstro da pior espécie! – Cuspiu as palavras.
A jovem sentiu a culpa, o arrependimento. Acabou levando seus pensamentos a como seria sua vida se não tivesse entrado para a Amaterasu, se tivesse ouvido seu pai. Aquilo nunca estaria acontecendo. Quase causou a morte da própria mãe, causou a morte de várias pessoas, destruiu a vida do garoto que amava e do pai dele.
Ela não sabia daquilo no início, seu pai carregou o fardo por ela, não contou nada para que não se sentisse culpada. Mas Naruto sabia, Hinata e Karin sabiam antes de morrerem.
Deveria estar definhando numa cela enquanto esperava o dia da sua sentença de morte chegar. Era o mínimo que deveria acontecer.
Um barulho de motor foi ouvido. Sarada conhecia perfeitamente aquele som.
— Parece que seu papai chegou. – Naruto apontou a arma. – Últimas palavras?
Apesar de se corroer em culpa, o medo que a consumia era maior, então Sarada apenas abaixou a cabeça e rezou, pela primeira vez na vida, para que Naruto errasse o tiro.
Mas o loiro encostou o cano em sua testa.
— Sarada! – A voz de Sasuke ecoou no recinto.
O som de dois disparos simultâneos foi ouvido.
Naruto se assustara com o tiro de Sasuke, acabou mudando a direção da arma na hora que disparou contra a garota.
Sarada estava jogada no chão, o tiro atingira a lateral de sua cabeça.
Mais uma vez ele mirou e atirou, desta vez no ombro, tentara atingir o coração. O loiro não estava acostumado com o recuo da arma, nem tinha boa mira. Desta vez não foi à queima roupa.
Sasuke sentiu o ódio o consumir. Agarrou o pescoço do loiro por trás. O loiro deu uma cotovelada nas costelas do Uchiha.
— P-papai... – Sarada choramingou, vendo tudo rodar. Sua visão estava turva, não só pela ausência da lente.
Sasuke olhou para ela. Ele se desesperou ao vê-la sangrando.
Naruto aproveitou a distração do moreno para livrar-se do aperto, o golpeando com mais força. Sasuke cambaleou para trás e o Uzumaki prendeu o braço dele nas costas, fazendo-o derrubar a arma. O loiro a chutou para longe.
— Me deixa tirá-la daqui, por favor. Você pode fazer o que quiser comigo, mas deixe-a em paz. – Falou entredentes.
— Não! Você matou as pessoas que eu mais amava. Vou te fazer passar o mesmo.
Naruto correu para o lado oposto. Sasuke achou que ele iria fugir e correu para Sarada.
— Hey, eu vou te tirar daqui. Você vai ficar bem. – Tocou o rosto da filha carinhosamente.
O desespero cresceu quando percebeu que a pele da garota estava fria e pálida e ela transpirava em demasia.
— C-cuidado... – Sarada falou com a voz fraca. Seus olhos estavam quase fechando.
Sasuke se virou a tempo de ver Naruto descer um cutelo em sua direção.
O moreno se jogou contra o loiro, derrubando-o no chão.
Os dois se levantaram e começaram a se encarar. O ódio entre os dois era quase palpável.
— Sabe onde está sua namorada? – Naruto perguntou.
— Eu mandei meus companheiros tirarem-na de lá, idiota... Eu não estou sozinho nessa.
— Seria uma pena se ela não estivesse lá. – Naruto comentou pensativo.
Sasuke arregalou os olhos.
— O que? – Gritou e socou o rosto do loiro, segurando pelo colarinho. – Onde ela está?
— Não vou dizer. – Sorriu.
O loiro bateu o cabo do cutelo no rosto de Sasuke, derrubando-o de cima de si. Ele se ergueu do chão, olhando para o moreno.
— Bastardo! Por que está no mundo? Nem sua filha gosta de você! – Naruto gritou e cuspiu no Uchiha. Lembrava-se que a relação dos dois Uchiha não era das melhores, não sabia que isto havia mudado. Virou-se para a mesa e pegou uma faca de chef. – Morra!
O loiro desceu o cutelo na direção do pescoço de Sasuke, porém o Uchiha se esquivou a tempo. O moreno olhou para o lado, vendo que Sarada estava desacordada.
Ele atacou Naruto mais uma vez, socando seu rosto. Estava agindo sem pensar, sua mente se cobria em desespero. Não podia perder a filha, ela era seu bem mais precioso, a luz de sua vida.
Naruto o agarrou, tentando derrubá-lo. Tudo o que conseguiu foi empurrá-lo para o lado e então se abaixou, fincando a lâmina da faca no pé do seu oponente, partindo-o em um corte que se prolongava de entre o indicador e o anelar até o meio do pé. Sasuke sentou e o chutou com a perna livre, puxando a faca que fora deixada em sua carne.
Naruto protegeu-se de um golpe da faca que o Uchiha tinha em mãos, que havia se impulsionado para conseguir ficar de pé. Balançou o cutelo, cortando dois dedos da mão esquerda do moreno, e pisou sobre o pé ferido dele. Sasuke fincou a faca nas costas do loiro, enquanto o mesmo bateu o cutelo no braço esquerdo do outro.
Sasuke se afastou, caindo sobre um dos joelhos, sentia uma dor forte no pé e no braço com um grande corte aberto. Porém sua mente estava tão afogada no medo de perder Sarada, que simplesmente ignorava sua condição física, querendo agir impulsivamente.
Tinha vantagem sobre o loiro por sua experiência na Amaterasu e Naruto provavelmente nunca usara aqueles utensílios fora da cozinha, mas tinha que admitir que estava cansado e mal podia ficar de pé ou mexer o braço agora.
“Droga...”, praguejou mentalmente e olhou para Sarada. “Tenho que te salvar, custe o que custar”.
Ele voltou o olhar para Naruto, ele estava segurando o cutelo e indo em direção à Sarada.
— Não se aproxima dela! – Sasuke gritou em desespero.
O Uchiha se levantou e tentou ir em direção a sua arma, não estava tão longe agora, porém não conseguiu se manter de pé, seu pé estava quase partido ao meio.
Não iria desistir, então começou a se arrastar em direção a sua arma.
Naruto ficou de pé ao lado de Sarada.
— Imagino como elas morreram... – Sua voz era carregada de dor. Virou-se para Sasuke, queria saber se foram mortes rápidas ou se elas haviam sofrido antes do fim. Parou de falar e a dor foi substituída por irritação quando viu o Uchiha se arrastando pelo chão. – Ah, droga... Você é um saco!
Caminhou em direção a Sasuke e chutou o rosto dele, fazendo-o parar de se arrastar e cuspir sangue.
— Vou deixar os dois sangrando até morrerem. – Naruto desceu o cutelo no braço esquerdo do Uchiha, onde havia cortado antes, mas desta vez separou o braço do corpo completamente.
O moreno soltou um grito agonizante, vendo o membro mutilado e o sangue jorrando.
Naruto pegou uma pinça na estante dos instrumentos e se dirigiu à fornalha, colocando seu cutelo lá por alguns segundos e voltou para o Uchiha.
— Que tal estancar um pouco do sangramento? – Sorriu sádico, sua mente estava nublado, tudo que sentia era ódio.
Encostou o cutelo no local onde antes havia o braço do Uchiha. Sasuke gritou. Seu estômago revirou com o cheiro da própria carne queimando. Não conseguindo segurar, virou de lado, vomitando.
O loiro sorriu satisfeito com o resultado.
— Ah... E sua namorada está ali.
Naruto apontou para um canto escuro, onde, com um pouco de esforço, dava para se ver a rosada desacordada presa a uma cadeira e uma bomba em sua frente.
Sasuke lembrou-se de como a rosada o tratara quando descobriu que Sarada era sua filha. Ela sabia usar armas, sabia torturar, então um fio de esperança acendeu dentro dele. Torceu para que Sakura acordasse e conseguisse se soltar. Naruto provavelmente subestimara ela.
— Faltam pouco mais de dez minutos para a bomba explodir. Os três vão morrer juntos.
O loiro pegou a arma de Sarada, que jazia esquecida em um canto do recinto e se aproximou da jovem, que estava desmaiada. Se ajoelhou e prensou o cano na barriga dela e atirou sem medo de errar, por ser à queima roupa.
O loiro já se virara para sair do local.
— Você vai se arrepender por isso! – Sasuke falou entredentes.
— Pelo menos vocês já vão estar mortos. – Deu de ombros.
— Você não vai tirar minha filha de mim! Você não vai conseguir!
Naruto riu. Ele pegou o celular da Haruno sobre a mesa e ligou a lanterna.
— Eu acho que já consegui. – Apontou a luz para a rosada.
O Uchiha olhou para Sakura e sentiu uma dor imensa, mas não era física. Havia sangue no meio das pernas da mulher, o vestido nude tinha uma mancha vermelha. Ela havia perdido o bebê. Sasuke sentia a dor de perder um filho.
Olhou para o lado novamente. Estava desesperado, perdera uma filha antes dela sequer ter nascido e não conseguia ver se Sarada estava respirando ou não. Nunca sentira tanto medo assim, nem mesmo quando viu a Haruno quase morta no lago.
— Sarada... – Murmurou.
Olhou para o outro lado, não viu mais Naruto ali. Passou os olhos ao redor e não viu mais o celular da Haruno. Pegou o seu, mas estava sem sinal, não poderia falar com Itachi ou Madara. Jogou o aparelho no chão com raiva.
Seu pé sangrava, mas ele ignorou a perda de sangue e fez esforço para levantar, sem sucesso. Sua esperança era Sakura, mesmo que ela também estivesse inconsciente.
— Sakura... Acorda! – Gritou em meio à dor. – Acorda! – Sua dor e desespero eram tamanhos que tudo que conseguiu fazer foi chorar. – Por favor! – Começou a se arrastar em direção à rosada. – Nossa filha... Sakura, ela tá morrendo! Acorda, por favor! – Murmurava com a voz embargada.
Não tinha forças para chegar até a Haruno, parou de se arrastar, sua visão estava embaçada pelas lágrimas e o único som ouvido era de seus soluços. Morreria ali, ao lado de sua família. Não conseguira dar a elas a felicidade que as duas mereciam... Era realmente um inútil, um covarde!
Estava tão absorto em sua própria dor que não ouviu quando a porta do recinto foi aberta com brutalidade.
— Eles estão aqui! – Itachi gritou.
Ele apontou a lanterna entre os três. Seu irmão estava jogado no chão chorando, pelo rastro de sangue, ele havia se arrastado até ali. Estava sem um braço e com o pé quase partido ao meio.
Sakura estava desacordada presa a uma cadeira, havia sangue escorrendo de entre suas pernas. Aquilo não parecia estupro. O Uchiha acabou arregalando os olhos ao constatar que a mãe de sua sobrinha sofrera um aborto.
Mas a que estava em condições piores era Sarada, estava praticamente morta em um canto, pálida e com vários ferimentos aparentes.
Ino entrou logo atrás de Itachi, acompanhada por Shisui, e olhou ao redor apontando sua G37 em busca do Uzumaki. Não o encontrou, mas analisou rapidamente a situação. Logo se ajoelhou ao lado da mais nova, cujas condições eram as piores.
— Ela está viva! – Falou para que os dois Uchiha ouvissem.
Vendo que a menina tinha dificuldade para respirar, rasgou o vestido da mesma e virou-a de lado.
Itachi se aproximou de Sakura e viu a bomba, faltavam menos de cinco minutos.
— Shisui, temos menos de cinco minutos! – Alertou.
— Vamos tirá-los daqui, não há tempo para desarmar isso. – O outro respondeu.
Ino pegou o celular e fez uma chamada de emergência, pedindo ambulâncias com urgência.
Shisui tocou o ombro de Sasuke.
— Sasuke, temos que sair da...
Foi interrompido por um soco do moreno. Conseguiu desviar e imobilizá-lo, que se debatia abaixo de si.
— Me larga! Não vou deixar você tomá-las de mim! – Gritava em agonia.
O irmão mais velho ouviu um gemido de leve vindo da Haruno. Viu a mesma erguer um pouco a cabeça e olhar na direção dos gritos.
— Sasuke, sou eu, Shisui! Vim te ajudar! – Shisui falou em vão.
Itachi olhou para o irmão com compaixão enquanto cortava as cordas que prendiam a rosada à cadeira.
— S-sarada? – Ouviu a voz fraca da mulher.
Shisui aplicou um mata leão em Sasuke até que ele perdesse a consciência.
— Vamos tirá-los daqui, Sakura. – Itachi falou para ela com a voz calma.
Viu que a rosada não estava totalmente acordada e fechou os olhos de novo. Pegou-a nos braços e começou a caminhar para fora dali.
Ino fazia o mesmo com Sarada e Shisui carregava Sasuke apoiado em seu ombro.
Afastaram-se da oficina e esconderam-se atrás dos carros em que vieram, não demorou para que a bomba explodisse, lançando alguns destroços contra os carros, amassando a lateral e quebrando algum vidro.
A loira tentava estancar os ferimentos da Uchiha. Itachi passou a fazer o mesmo com os de Sasuke.
— Ela vai viver? – Perguntou preocupado com a sobrinha, que, aparentemente, era a única que corria risco de vida.
— Eu não sou médica, mas, pelos meus conhecimentos, ela não está nada bem. Ela está transpirando muito, está pálida e um pouco gelada... Talvez tenha alguma hemorragia interna. – Tocou o pescoço da menina com o indicador e o dedo médio, procurando a artéria carótida. – O pulso está muito fraco. – Falou após alguns segundos. – Se os socorros demorarem ela pode morrer. – Falou preocupada.
— Não, ela não pode... Merda! – Itachi socou o chão. – Eu vou matar aquele maldito! – Resmungou.
— Acho que Madara não previu que isso aconteceria, não é? Ele dá mais valor ao Sasuke do que ao resto da família. – Shisui comentou.
— Com certeza não... – A Yamanaka olhou ao redor, impaciente com a demora da ambulância.
— Senhora Yamanaka! Não encontramos o Uzumaki nos arredores. – O oficial Inuzuka alertou, aproximando-se do grupo acompanhado de outro oficial e um cachorro. Franziu o cenho ao ver a jovem Uchiha. – Ela está morta?
— Não! – Os três responderam em uníssono. – Não encontraram nada?
— Havia marcas de pneu, o Uzumaki fugiu de carro ao que tudo indica. – Respondeu.
— Chamem reforços e continuem a busca. – A Yamanaka ordenou. – Tragam um especialista para analisar as marcas do pneu.
— Sim, senhora! – Os dois responderam e usaram os comunicadores para chamar mais policias.
Não demorou muito para que as ambulâncias chegassem e os três fossem levados para o hospital.
Itachi e Shisui os seguiram no carro do primeiro e Ino foi na viatura, além de trabalhar para os Uchiha, era uma policial e tinha que garantir a segurança do hospital pela polícia enquanto os três estivessem lá, Naruto poderia atacar. Entraria em contato com o delegado para providenciar isto.
A Yamanka pegou o celular do bolso e ligou para Madara assim que conseguiu sinal. Afinal, ele a enviou, precisava ser informado.
— E então? – Disse ao atender.
— Conseguimos salvar as duas. – Do outro lado, Ino escutou uma respiração aliviada. – Mas não estão nada bem... Sarada tá quase morrendo e a Haruno estava sangrando por entre as pernas... O que achei estranho, visto que não havia sinais de estupro.
— Não. – Disse o Uchiha um pouco tenso. – Ela provavelmente abortou.
— Ela estava grávida? – Perguntou surpresa e recebeu como resposta afirmativa um murmúrio.
— Qual a situação da menina?
— Múltiplos ferimentos. Ela foi baleada na barriga, no ombro e uma bala pegou de raspão na cabeça. Creio que está com alguma hemorragia interna.
— Deixa eu falar com o Sasuke.
— Não estou mais com ele, estou indo para o Hospital Bol'shoy Vostok... Ele não poderia falar de qualquer forma. – Suspirou. – Naruto acabou com ele.
— O quê? – Perguntou num fio de voz.
— Ele está vivo, mas completamente fora de si. – Explicou rapidamente.
— Como ele está? – Perguntou preocupado.
— Ele perdeu um braço e está com um ferimento horrível no pé direito.
— Droga! Estou indo diretamente ao hospital. – E desligou.
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