Amaterasu
31 Capítulo 30
Notas iniciais
Sentiu um pano úmido sobre sua face e com o susto acabou respirando fundo, inalando o produto que nele continha. Apagou. Mas antes disso, conseguiu ver a face do homem refletida no espelho. Naruto Uzumaki.
Quando acordou, estava amarrada, a visão turva. Sentiu uma forte dor de cabeça e no quadril. Gemeu em agonia.
— Ah, você acordou. – Ouviu a voz do homem que a sequestrou.
— Naruto... – Lembrou-se daquele rápido momento em que sequer teve tempo de reagir.
Se não estivesse presa numa cadeira, com certeza teria caído, tamanho o medo que sentia naquele momento.
Seu ventre apertava, era uma contração seguida de várias outras. Começou a chorar.
O Uzumaki estranhou a agonia da rosada até o momento em que ela disse “Haruka”.
Levantou o vestido da mulher até a coxa e arregalou os olhos surpreso. Era um aborto.
Sakura olhou para o sangue que saía de si em pânico, gritava um “não” cada vez mais alto.
Estava perdendo sua filha. Alguém que ela havia amado fortemente.
Gritou por Sasuke, chamou pelo seu nome e tudo o que escutava era o eco de sua própria voz. O desespero tomava conta de si como nunca antes, sentia como se estivessem arrancando algo de si. De fato, a pior dor.
Sasuke não veio. Não escutou sua voz.
Naruto nada disse neste momento, apenas observava tudo com uma expressão indecifrável. Acendeu a lanterna do celular da Haruno e mostrou Sarada que estava deitada no chão, desacordada.
A rosada abaixou sua cabeça em luto e chorou amargamente até ficar inconsciente.
Acordou novamente, mas por conta de uma voz que ela conhecia muito bem e ficava cada vez mais nítida:
“...kura! Sakura! Por favor, acorda! Sakura!”
Olhou para o homem que estava deitado no chão e chorava como nunca antes.
Não esboçou reação alguma diante a voz dele. Apenas o viu desfalecer, não sabia o que pensar, então apenas dormiu novamente.
[...]
Toská, Rússia
08 de agosto de 2016
05:56 A.M.
Acordou assustada após o sonho. Abriu os olhos tão rapidamente que a luz os incomodou, fazendo-a fechá-los novamente por alguns segundos até se lembrar novamente do acontecido.
Suava frio, o ar faltou, sentia uma grande pressão sobre seu corpo.
Retirou os lençóis com pressa de cima de si e tremeu ao ver que sua barriga estava menor.
Tocou a região e sentiu uma forte dor, não física, mas emocional. As lágrimas escorreram num som agudo.
As enfermeiras que escutaram correram até a Haruno e viram o que estava acontecendo. Não sabiam o que fazer, por algum momento, a dor da rosada se tornou a dor delas.
Sakura abraçava os lençóis numa tentativa falha de dissipar o que sentia.
Imaginou uma menininha brincando com Sarada, chorando no primeiro dia de aula, sorrindo ao receber um presente, assistindo desenhos, o abraço, o beijo, ela se formando num curso... Esta menina seria Haruka.
Nada disso aconteceu e nem iria, pois agora a criança não está em lugar nenhum.
E onde estava sua primogênita? Onde estaria ela? Estaria viva ou morta?
Só queria saber isso naquele momento. Se a perdesse também, não saberia mais como viver.
Ao voltar em si, uma das enfermeiras aplicou um calmante na mulher chorosa.
E lentamente adormeceu. Quisera ela que fosse para sempre.
[...]
Toská, Rússia
07 de agosto de 2016
03:43 P.M.
Sasuke recebeu a notícia de que Sakura havia acordado novamente e respirou aliviado. Abaixou a cabeça em lágrimas e murmurou um “Graças a Deus”.
Itachi passou as mãos livremente pelas costas do irmão numa tentativa de dizer “pode chorar à vontade”.
Mikoto pegou a mão direita do filho e a beijou, também chorando.
— Sinto muito, Irmãozinho... – Suspirou o moreno. Não sabia mesmo o que dizer.
Sasuke estava irado. Se pudesse se mover, sairia dali imediatamente e iria atrás de Naruto. Mas como o faria sem um braço e o pé esfolado? Fora os outros ferimentos.
Seu corpo doía por completo, mas nada tirava a cena de sua amada ensanguentada da sua mente.
— Aquele filho da puta me paga! – Reclamou com a voz embargada. – Eu o quero morto!
Madara adentrou o quarto e respirou fundo ao ver o filho. Como dói para os pais verem seus filhos chorando.
Aproximou-se do homem e afagou seus cabelos.
— A polícia ainda não o encontrou. – Disse com pesar. – Já mandei alguns membros da Amaterasu também irem atrás dele, mas até agora nada.
— Eu o acharei e o farei implorar por perdão! – Era nítido o ódio de Sasuke em seu olhar.
— Não quero parecer insensível, mas você sabe que ele fez isso apenas por vingança. – Suspirou. – Ele não merecia o que passou.
— Está dizendo que foi bem feito para o meu irmão? – Itachi levantou da cadeira num rompante e encarou de cabeça erguida o homem que era um pouco mais alto que ele.
— Óbvio que não. – Devolveu seriamente. – O Uzumaki era inocente em toda esta história, foi acusado injustamente, sua filha foi morta sem motivo, sua esposa fazia apenas o trabalho dela. Sasuke é um mafioso, matou dezenas e nessas dezenas há inocentes, traficou e vive de dinheiro ilegal, e foi ele quem tirou a vida das pessoas mais importantes do Uzumaki. Me diz, Itachi, quem menos merece passar por isso?
Depois desta pergunta, o homem se calou e se assentou novamente. Não tinha argumentos, Madara estava certo.
— Não era para ninguém estar passando por isso, esta máfia nunca deveria ter existido. Sasuke foi vítima de erros cometidos por seus antepassados. – Pegou no rosto do filho e o fez olhar bem no fundo se seus olhos. – Está me ouvindo? Você não é culpado de nada. Você, Sarada, Haruka, o Uzumaki e Sakura são vítimas nessa história toda.
O homem no leito deixou suas lágrimas escorrerem e se permitiu ser abraçado pelo pai. Pensou somente na sua dor e esqueceu que isso era apenas reflexo do que ele fez para Naruto. Mesmo sendo vítima do sistema, merecia tudo aquilo, mas não Sakura.
— Eu não quero mais isso... – Murmurou. – Eu quero sair dessa máfia, quero recomeçar, eu quero paz, eu só quero ser feliz.
Mikoto, em lágrimas, beijou o filho e o abraçou juntamente com Madara.
— Tudo vai melhorar... Eu não vou deixar que mais nada de ruim lhe aconteça. – Disse a mãe. – Nunca mais.
[...]
Olhando para a janela, Sakura via um céu livre de qualquer nuvem. O quarto estava frio, queria sentir um pouco do calor lá fora.
Fechou os olhos e acariciou sua barriga que ainda estava um pouco inchada, mas já havia diminuído bastante. Tinha a esperança de que sentisse sua bebê se mexer como aconteceu durante o evento, mas não. Nada.
Suspirou pesadamente e sentiu um nó na garganta. Haruka foi tirada de si, não conseguiu segurar, tudo o que pôde fazer foi clamar por Sasuke e ele chegou tarde demais.
Algumas lágrimas escorreram de seus olhos, era impossível segurar, mas ela tentava. Chorar não traria sua filha de volta.
Suas memórias não estavam claras, como se não tivessem passado de um sonho ruim. Lembrava-se vagamente da voz do moreno, que dizia que Sarada estava morrendo. Um aperto no coração foi sentido pela Haruno ao lembrar-se disso. Sasuke chorava, ela tinha certeza absoluta. Jamais imaginou que fosse vê-lo chorar algum dia, mas viu... Preferia não ter visto, mas viu.
Abriu os olhos quando ouviu alguém bater na porta e, pensando que fosse uma enfermeira, pediu para que entrasse. Teve uma surpresa, quando viu Mikoto ali.
— Posso entrar? – A Uchiha indagou meio receosa.
Após secar o rosto com as mãos, Sakura assentiu minimamente.
Mikoto, de fato, não se parecia com Sasuke apenas fisicamente. Era óbvio que estava chorando, dava pra perceber pelos olhos vermelhos e rosto inchado. Mikoto estava despedaçada, mas, por fora, mantinha-se forte e firme como uma rocha. A mulher jamais gostou de demonstrar fraqueza na frente de ninguém, o que foi claramente herdado pelo seu caçula.
— Vim para ver como você está. – Fechou então a porta do quarto e caminhou até a cama onde estava a rosada.
— Viva... – Sentiu um nó na garganta.
— Sinto muito pela... Haruka. – Suspirou pesadamente, afinal, também estava triste pela neta.
— Ela era uma bebê saudável. – Riu sem humor. – Eu não a perdi porque ela tinha alguma má formação ou algo do tipo... Não... – Sua voz começou a ficar embargada. – Perdi porque sou uma inútil, porque eu sou fraca...
— Não, não foi culpa sua. – Segurou na mão da rosada. – Sakura, foi uma fatalidade, como iríamos saber que o Uzumaki faria o que fez? – Enxugou o rosto da Haruno.
— Eu sei, mas se eu tivesse me mantido calma naquele momento... – Soluçou.
— Você e Sasuke são novos e poderão ter outros filhos...
— Se Sasuke morresse você faria outro filho para substituí-lo? – Perguntou um pouco irritada.
— Tem razão, desculpa. – Abaixou sua cabeça e recolheu sua mão após se dar conta do que disse.
Ficaram em silêncio por um tempo. Sakura havia parado de chorar, mas sua alma estava abatida. Era a segunda vez que perdia Haruka, como superar isso? Apesar de ter se reencontrado com Sarada, a rosada viveu o luto naquela época.
— Como o Sasuke está? – Indagou.
— O Sasuke está aqui no hospital, mas não há previsão de alta. – Falou com tristeza. – Ele não pode se levantar por enquanto, um dos pés está muito machucado... – Suspirou com pesar. – Se já não bastasse, ele perdeu o braço esquerdo.
Sakura arregalou os olhos verdes e levou as mãos até a boca aberta. Estava realmente chocada. Não conseguia nem imaginar a dor física dele.
— E a Sarada? – Perguntou agoniada. – Cadê a minha filha? Como ela está? – A morena ficou calada, o que deixou Sakura mais irritada e amedrontada. – Mikoto! – Sua respiração começou a falhar e seu peito começou a doer. – O que aconteceu com ela?
— Sakura, acho melhor você esperar que um médico mesmo lhe diga. – Suspirou com pesar.
— Como assim? – Travou o maxilar tentando segurar as possíveis lágrimas que viriam. – Sarada... Morreu?
Lembrou-se de quando Sasuke gritava dizendo que a filha estava morrendo. Seria possível que ela e Haruka tenham partido?
— Ela está em estado grave. – Disse a Uchiha um pouco receosa. – Está viva, mas não está nada bem.
Sakura suspirou um pouco mais aliviada, embora tenha ficado preocupada com o estado da filha.
— Onde ela está? Quero vê-la.
— Na UTI.
— UTI? – Os olhos verdes se arregalaram. – Por quê? O que aconteceu com ela?
— Sakura, ela perdeu muito sangue. Mais ainda que o Sasuke. – Explicou. – Deslocou o pé, levou uma facada na perna e estava com marcas de agressão.
— Meu Deus! – Falou horrorizada.
— Levou três tiros, um passou de raspão na cabeça.
— E os outros? – Ela mal esperou a mãe de Sasuke terminar de falar.
— Um pegou no ombro e o outro... – Suspirou pesadamente e abaixou o olhar. Também estava inconformada com o estado de Sarada. – O outro atingiu a coluna.
— Coluna?
— Sarada foi operada com urgência. – Mikoto criou a neta por alguns anos, a tinha como uma filha e é claro que estava profundamente abalada. No entanto, sabia que a situação de Sakura não era melhor e precisava manter-se forte. – Ela pode ficar com sequelas, poderá ficar sem os movimentos das pernas, mas tudo depende dela. Se tudo ocorrer bem, ela vai se recuperar em certo tempo.
— Quanto tempo, Mikoto? – Sakura tentava engolir o choro e se irritou com o silêncio da mais velha. – Quanto tempo vai demorar até que a minha filha se recupere totalmente?
— Não sei. – Respondeu com dor no coração. – Ninguém sabe. Pode ser que ela esteja andando normalmente quando receber alta, mas pode ser que demore cerca de um ano ou até mais. Ou então... Nunca mais. – Sakura derramou ainda mais lágrimas, tentando controlar sua respiração que só ficava mais acelerada. – Acalme-se. – Disse Mikoto. – Existem casos que surpreendem até os médicos. Pessoas que viram a morte de frente e vivem normalmente... Pessoas que superaram doenças terríveis. – Falou com otimismo. – Sarada é jovem e saudável. Tem tudo para ter uma boa recuperação, mas, claro, depende muito dela... Da própria força de vontade dela. Isso é fundamental.
— Minha filha é tão jovem... – Abraçou as próprias pernas e pôs-se a chorar mais ainda. – Isso não podia ter acontecido com ela... Por que não comigo? Por que com ela?
— Sakura, você não ouviu o que eu disse? – Questionou a morena. – A Sarada vai se recuperar.
— Mikoto, eu quero vê-la. – Com os olhos encharcados, Sakura olhou para a Uchiha. – Por favor, me leve até ela.
— Ela está sendo mantida sedada. – Explicou. – Em outras palavras, está em coma induzido... Sem falar que eu duvido muito que deixarão você entrar no quarto.
— Eu só quero vê-la, por favor. – Implorou. – Mesmo que eu não possa tocá-la. Eu preciso ver a minha filha.
— Sakura, não. – Falou com a voz firme.
— Ela é minha filha! Você também é mãe, então se coloque no meu lugar. Mais do que qualquer pessoa, Mikoto, você deveria entender minha agonia!
— Eu sei como você está se sentindo, o Sasuke também já ficou na UTI quando era mais novo e me deixou com o coração na mão por não poder ficar o tempo todo ao lado dele. – Ela aumentou o tom de voz, mas depois se recompôs. – Não vão deixar você entrar. Sem falar que o horário de visitas acabou.
— Não tem jeito mesmo?
— Não. – Negou com a cabeça. – Mas não se preocupe. Você logo será liberada e poderá vê-la.
— Enquanto isso eu fico de mãos atadas! Sem poder ver minha filha, sem poder ficar ao lado dela.
— Sarada está sedada. – Enfatizou. – Sua presença não faria diferença, Sakura. Você estando aqui ou lá com ela, que diferença vai fazer?
— Se é assim, então vá pra casa e deixe o Sasuke sozinho. – Rebateu. – Com certeza você só saiu do lado dele pra vir aqui me ver. – Isso era verdade. – Mas, se as coisas são como você diz, vá pra casa. Sua presença aqui não vai fazê-lo melhorar mais rápido.
Mikoto ficou por alguns segundos em silêncio. Ela, assim como Sakura, é mãe e conseguia compreendê-la, até porque a morena já se viu numa situação parecida, com seu caçula correndo risco de vida no hospital.
— Seja compreensiva. – Disse Mikoto. – Eu sei o que você está passando, realmente não é fácil. Mas entenda que você não pode ver a Sarada. Você não pode entrar lá.
— Merda! – Praguejou.
— A médica falou que você será liberada logo. Então veja pelo lado bom, Sakura, logo você verá a sua filha.
Sakura sorriu sem humor. Queria muito ver a filha, não estava suportando ficar longe dela, tampouco suportava a ideia de vê-la numa cadeira de rodas. Contudo, era melhor do que vê-la num caixão.
Pelo menos estava viva e era o que importava naquele momento.
A Haruno se levantou da cama e sentiu um arrepio ao colocar os pés descalços no chão frio, mas não se importou com isso, também sentiu uma leve tontura que passou após alguns segundos. Sem nem pensar duas vezes, e para a surpresa de Mikoto, Sakura puxou todo e qualquer esparadrapo que tinha em seu braço e tirou o acesso venoso, deixando o soro pingando no chão.
— Você é louca? – Indagou a Uchiha. – Se uma enfermeira entra no quarto e vê isso...
— Já estou melhor, vai ser um problema andar arrastando isso comigo. – Respirou fundo. – Cadê o Sasuke? – Virou-se para Mikoto.
Estava decidida a ir ver o moreno, uma vez que Mikoto não citou absolutamente nada sobre Sasuke estar em estado grave na UTI, então ela poderia vê-lo no quarto.
— O quarto dele fica nesse mesmo corredor. – Respondeu.
Mikoto não conseguia crer que aquela louca estava mesmo querendo sair daquele jeito.
— E ele está acordado?
— Sim, ele provavelmente está. Pelo menos estava quando o deixei lá para vir ver você.
— Quero vê-lo.
— Sakura... – Suspirou pesadamente. – Disseram que a médica iria examiná-la quando você acordasse. Era bom você estar no seu quarto.
— Não. – Insistiu. – Eu quero ver o Sasuke!
— Ele deve estar dormindo. – Mikoto tentou fazê-la mudar de ideia. – Sabe, Sakura, os remédios pra dor o deixaram meio grogue... – O que de fato não era mentira. – É melhor você ir vê-lo mais tarde ou amanhã.
— Eu preciso falar com ele, por favor. – Implorou. – Eu já não posso ver minha filha, então me deixe ver o Sasuke! Não aguento essa aflição toda! Mikoto, me deixe ver o Sasuke.
— Sakura...
— Ou você me diz qual é o quarto dele ou eu vou sair abrindo porta por porta até achá-lo! – Falou decidida. – Escolhe! Vai me levar até ele?
Sarada realmente não negava o gênio forte, era idêntica à mãe. A rosada com certeza não mudaria de ideia e Mikoto a compreendia. Provavelmente faria o mesmo se estivesse na pele dela.
— Tudo bem, Sakura. – Rendeu-se. – Eu te levo até o quarto dele, mas seja rápida.
Sakura assentiu e acompanhou Mikoto até o quarto de número 225, onde Sasuke estava. Ficava bem perto do seu, que era o 221. Por sorte nenhuma enfermeira passava pelo corredor na hora.
Mikoto ficou do lado de fora, preferia deixar os dois a sós. Sem falar que queria vigiar o quarto da rosada, para saber caso algum médico ou alguma enfermeira entrasse lá.
Sasuke estava sonolento, deitado sobre a cama. Havia sido sedado, anestesiado e o efeito ainda não passou totalmente, tanto que ainda não tinha comido nada desde que acordou.
Ele próprio havia pedido para a mãe ir até o quarto de Sakura para ver como ela estava, uma vez que não estava em condições de se levantar e sabia que demoraria um pouco para estar. Estava aflito com a demora de Mikoto, fitava aquele teto branco, sem vida... Sempre detestou o clima hospitalar e estar cercado por paredes totalmente brancas lhe dava agonia.
Fechou os olhos e lembrou-se da cena que viu quando olhou para Sakura naquela oficina. Estava com sangue entre as pernas e a médica afirmou para Mikoto que o bebê não teve como ser salvo. No entanto, Sakura foi a que menos se feriu ali, pior mesmo estava Sarada.
O moreno sentiu vontade de chorar ao lembrar-se de sua filha naquela situação e imaginou o tanto que ela havia sofrido nas garras de Naruto até ele finalmente chegar lá. Não se importava com o braço que perdeu, tampouco com o pé que foi machucado e estava com incontáveis pontos, ele estava mais preocupado com sua filha, já estava ciente do estado dela e não se perdoava por ter deixado aquilo acontecer.
— Sasuke? – Ele se espantou ao ouvir a voz da rosada. Não esperava vê-la ali. – Tá acordado?
Ele apenas olhou em direção à porta, vendo a Haruno parada ali, descalça e usando as roupas do hospital.
— Sakura? – Perguntou espantado, vendo a mulher se aproximar após fechar a porta. – O que faz aqui?
— Eu vim te ver. – Caminhou até a cama do moreno e sentou na beirada. – Como você está?
— Destruído. – Suspirou.
Sakura tinha que admitir que, mesmo tendo perdido Haruka, o estado dela era o menos pior entre os três. Pelo menos não havia sofrido um único arranhão.
— Eu... Eu perdi a Haruka.
— Eu sei... – Assentiu.
— O que aconteceu lá, Sasuke? – Indagou aflita a mulher. – Como vocês dois acabaram desse jeito?
Era difícil de acreditar que Naruto, um homem comum e que provavelmente não sabia nem segurar uma arma, deixou dois membros de uma máfia daquele jeito. Embora Sarada fosse bastante nova, Sasuke tinha quase dezesseis anos de experiência dentro da Amaterasu.
— O Naruto está realmente desequilibrado. – Falou calmamente, estava um pouco tonto por causa dos fortes remédios que estava tomando para dor, fora outros medicamentos. – Eu estava confiante... Acabei subestimando o Uzumaki.
— A Sarada... – Os olhos esverdeados se encheram de lágrimas. – Não é justo... Aquele homem acabou com a minha filha!
— Infelizmente eu não pude fazer nada. – Era quase palpável a culpa que o Uchiha sentia. – Ela já estava praticamente desacordada quando eu cheguei lá. Não pude fazer muita coisa... Se meu irmão não tivesse chegado lá com o Shisui e a Ino, nós três teríamos morrido. Eu sou um inútil mesmo. Nada é mais abominável do que fracassar em proteger aqueles que amamos
— Sei que você fez o que podia, Sasuke... – A mulher mostrou-se compreensiva. Era o que ela acreditava.
— Se a gente tivesse ficado em casa ontem à noite, com certeza nada disso estaria acontecendo... – Sasuke deixava transparecer a culpa que sentia. – Eu não estaria nessa situação, Sarada estaria bem... E... – Suspirou com pesar. – E a Haruka estaria viva.
— Haruka... Ela já estava se mexendo, eu já podia sentir... – Sakura passou a derramar grossas lágrimas e levou ambas as mãos até sua barriga. – Você me prometeu, Sasuke... – Falou amargamente, sem pensar nas consequências de suas palavras. – Você prometeu que ficaria tudo bem... Que nosso bebê nasceria e cresceria forte, com muito amor e carinho. – Limpou as lágrimas e olhou para o rosto do moreno que também estava com lágrimas nos olhos.
— Perdão, mas eu não pude manter a minha promessa. – Abaixou o olhar. – Me perdoa.
— Sasuke... – Sussurrou, enfim se dando conta de que suas palavras abalaram o Uchiha. – Perdão, eu não deveria ter dito isso. – Abraçou o moreno. – Perdão. Eu, mais do que ninguém, sei como as palavras machucam e não deveria ter falado essas coisas...
— Entendo que você esteja abalada. Eu também estou.
— Eu fiquei sabendo que a Sarada levou um tiro que atingiu a coluna. – Desprendeu-se do moreno e olhou nos olhos negros. – Sasuke, isso é de partir o coração. Ela é tão jovem...
— Eu queria tanto estar ao lado dela... Poder segurar na mão dela e dizer que está tudo bem... – O homem fechou os olhos e deixou uma lágrima cair. – Me sinto impotente nessa situação.
— Sua mãe disse que a Sarada tem tudo para se recuperar. – Falou esperançosa. – Sei que ela pode ter dito isso só pra eu não me preocupar, por causa do meu estado emocional, mas, ainda assim, acho que precisamos acreditar nela.
— Qual será a reação dela? – Sasuke indagou aflito.
— Não sei. – Sakura abaixou o olhar. – Provavelmente não será muito boa, mas temos que agradecer por ela estar viva.
— Viva... – Suspirou com pesar. – Não quero parecer pessimista, mas... – Mordeu o lábio inferior e desviou o olhar por uns segundos. – Será que Sarada escapa dessa?
— Sasuke! – Sakura o repreendeu. – Temos que ter fé!
— Fé... – Riu em escárnio e Sakura, ignorando o estado do moreno, deu uma tapa em seu rosto e Sasuke a encarou surpreso.
— Nunca mais diga isso! – Ralhou entredentes. – Sarada vai sair dessa... Ela precisa sair dessa.
— Tem razão, desculpa... – Sasuke levou sua mão até o local da bofetada.
— Entendo que você esteja preocupado, eu também estou... A nossa filha está dopada numa cama, toda machucada... Uma cena horrorosa de se imaginar. Eu realmente não gosto de pensar nisso, na verdade sequer consigo imaginá-la assim. Mas nós, mais do que quaisquer outros, precisamos acreditar nela.
— Você está certa. – Assentiu. – Eu estou ficando louco, minha cabeça está confusa... – Falava com a voz sonolenta. – Perdão...
Sasuke lembrou-se de quando era um pouco mais velho que Sarada, tinha, no máximo, vinte e um anos e Fugaku o mandou para uma missão que era aparentemente tranquila, mas Sasuke, que estava sozinho, foi surpreendido por inimigos da Amaterasu que fariam qualquer coisa para ter a cabeça de um Uchiha. É óbvio que Fugaku não o mandou sozinho à toa, mas Sasuke conseguiu sobreviver e realizou a missão com sucesso. Todavia, o rapaz ficou extremamente machucado – até hoje leva as marcas daquele dia em seu corpo, e por pouco não perdeu sua vida – e ficou vários dias no hospital, inclusive alguns pensaram que ele não sobreviveria, mas, como o próprio Fugaku dizia, vaso ruim não quebra.
Se Sasuke, que ficou numa situação semelhante quando mais novo, conseguiu sobreviver, então sua filha também poderia conseguir.
Mas, diferente de Sarada, não havia sido torturado e não tivera lesão na coluna. O psicológico dela certamente estaria destruído também.
Sakura olhou para o lado e viu uma bandeja com algumas frutas, suco e iogurte sobre uma mesa. Lembrou-se de ter visto a mesma coisa em seu quarto e deduziu que, pelo horário, serviram o lanche. Mas a rosada estava aflita demais para comer, pois precisava ver a filha e só conseguia pensar nela. No entanto, Sasuke também nem tinha tocado na comida.
— Não vai comer? – Indagou a rosada e Sasuke apenas negou com a cabeça. – O que você comeu hoje?
— Não comi nada. – Respondeu, fazendo a Haruno arregalar os olhos.
— Sasuke... Você precisa comer. Desde que horas você está acordado?
— Desde de manhã. Acho que acordei por volta das oito ou nove horas... Não sei exatamente.
De qualquer forma ele já estava acordado há um tempo e se recusava a comer, o que deixou a rosada preocupada.
— Como quer se recuperar? Precisa comer.
Era admirável como Sakura, independente da situação, sempre demonstrava preocupação para com as pessoas de quem ela gostava. Com Sasuke não era diferente. Ela não estava aflita somente por causa da filha, afinal, também gostava de Sasuke e queria vê-lo se recuperar.
— É como se o meu estômago estivesse de cabeça pra baixo. – Admitiu o moreno.
Sasuke ainda sentia aquele cheiro, não dava para esquecer... Era como se o odor de sua própria carne queimando não saísse de suas narinas, isso somado ao mal estar que sentia desde que passou o efeito da anestesia, acabou deixando Sasuke com fortes náuseas e ele simplesmente não conseguia nem olhar para a comida.
— Entendo que você esteja enjoado, mas tenta pelo menos tomar um suco.
— Vou tentar... Mais tarde, não agora.
— Sasuke... – Falou em tom de aviso. – Se você não quer comer, pelo menos beba alguma coisa.
— Olha só que coisinha interessante... – Sasuke falou normalmente e olhou para o soro pendurado ao lado da cama, fazendo a Haruno bufar. – Não se preocupe, pois eu não vou ficar desidratado.
— Sasuke, a Sarada vai precisar de nós dois ao lado dela. Precisamos estar bem, precisamos estar fortes para podermos dar todo o apoio que ela precisará.
— Eu queria estar ao lado dela quando ela acordar, mas vai ser complicado. – Suspirou. – Você logo será liberada, mas eu não tenho nem previsão de alta. Eu ainda não posso nem levantar sozinho e nem sei quando vou poder.
O pé de Sasuke ainda doía bastante, estava com vários pontos e havia sofrido uma fratura no osso. Sasuke mal conseguia movê-lo.
— Eu vou ficar aqui com vocês. – Falou docemente. – Não sairei daqui até que você e a Sarada recebam alta. Eu prometo.
Nesse momento a porta do quarto foi aberta e ambos viram Mikoto, que parecia um pouco impaciente.
— Eu falei pra você ser rápida. – Olhou com reprovação para a rosada. – Volte para o seu quarto, Sakura. Você está internada, não pode ficar perambulando pelo hospital dessa forma.
— Tá bom. – Ela levantou as mãos em sinal de rendição. – Eu vou... Mas depois eu volto. – Sorriu minimamente para Sasuke antes de sair do quarto.
O moreno se surpreendeu. Por mais que estivesse nitidamente abalada, Sakura estava melhor do que ele imaginou que estivesse. Assim como ele, estava triste por Sarada e também pela perda de Haruka, mas parecia bastante conformada, o que confortava o Uchiha.
Sakura voltou para o quarto 221, fechou a porta e subiu no leito, pondo-se a chorar feito uma criança com o rosto no travesseiro.
Era tudo atuação. Queria transmitir boas energias para Sasuke, mas a verdade é que ela estava acabada, perdida e desamparada.
Perdeu uma filha, outra estava em coma induzido e Sasuke também não estava numa situação muito boa, pois perdeu um braço e estava com o pé bastante machucado. O aborto que Sakura sofreu não era nada se comparado ao que aconteceu com Sasuke e Sarada. Claro, falando de sofrimento físico. Sentia-se na obrigação de agradecer por estar inteira e sã.
Estava sofrendo? Sim, muito, não somente por ela. Mas Sasuke e Sarada precisavam da rosada e ela ficaria ao lado deles sempre e lhes daria todo apoio, afinal, isso é ser uma família.
[...]
Toská, Rússia
07 de agosto de 2016
06:08 P.M.
— Senhor Madara, por favor...
— Fugaku! – Exclamou após entrar na sala do primo.
— Que invasão é essa? – Perguntou o mais velho impaciente. – Disse que não queria ser interrompido.
— Desculpe, senhor Fugaku, tentei impedi-lo, mas ele não deu ouvidos. – Explicou Shizune.
— Você sabe muito bem que quando eu digo que é importante tem a obrigação de me deixar entrar. – Replicou Madara. – Agora, por favor, saia.
A mulher olhou para o outro Uchiha e este assentiu, rapidamente ela se retirou do recinto.
Madara estava sério, não furioso, mas seu olhar era completamente superior. Fugaku odiava isso, odiava perder.
— Fala logo, porque eu tenho que trabalhar.
— Eu só tenho uma pergunta a fazer: como deseja morrer? – Disse friamente.
O outro estremeceu um pouco, mas não perdeu a pose. Levou a mão discretamente até a gaveta, onde estava sua arma.
— É melhor você não fazer nada e me responder. – Sacou sua arma. – Sabemos quem é o mais rápido aqui.
— Posso saber por que está apontando a arma para mim? Você sabe quem eu sou? – Aumentou o tom.
— Brevemente um homem morto. – Destravou. – Acha que eu não sei? Você permitiu que o Uzumaki entrasse no evento.
— Por que eu faria isso? – Franziu o cenho. – Acredite, estou muito irritado que esta situação toda tenha acontecido! A festa era para ser um local seguro, os seguranças não honraram seus postos, foi perda de dinheiro.
— Meu filho está numa cama de hospital e você está preocupado com dinheiro? – Bradou.
— Fala baixo. – Replicou. – Eu estou tão furioso quanto você, mas digo com sinceridade que eu não planejei nada disso.
— E como ele entrou sem ser convidado? Como ele saiu de Woodhaven?
— Primeiro abaixa essa arma e vamos com... – Foi interrompido pelo som do cão da pistola sendo acionado. – Não sei! Que droga, por que desconfia tanto de mim?
— Porque você já tentou matar meu filho diversas vezes por meio de terceiros? Porque você era o dono do evento? Porque você tem medo do Sasuke? – Falou como se fosse óbvio. – Não se finja de sonso.
— A polícia já veio aqui encher o meu saco, se você quer saber. – Bufou. – Eu não soltei o Uzumaki. – Falou pausadamente.
Madara abaixou a arma.
— Não posso te matar sem ter certeza, não quero ser preso à toa. – Suspirou. – Embora eu ache que você deveria estar morto há muito tempo. – Fugaku se remexeu desconfortável com a situação. – Acho bom que você não esteja mentindo.
Ainda olhando para o primo, Madara deu uns passos para trás até chegar à porta. Não daria as costas para seu inimigo.
Retirou-se da sala e guardou a arma. Fugaku respirou fundo e se assentou novamente.
Levou sua mão ao mouse e, ao perceber que estava tremendo, arrastou o braço direito por completo na mesa, derrubando boa parte das coisas que nela havia. Praguejou furioso e passou a mão pelos cabelos.
Lia as notícias que estavam no computador que só falavam do tal “Degolador” que entrou no Centro de Convenções Romanov e sequestrou duas pessoas. Estava furioso. Se encontrasse Naruto com certeza o mataria.
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