Amarras do Passado

41 The Words - Christina Perri


Notas iniciais
Olá pessoas ^^ Mais uma vez eu peço desculpa pelo atraso na postagem ^^ Com o feriado de sexta eu talvez vou postar um capítulo no sábado. Ainda não é certeza, mas se tudo der certo eu vou conseguir ^^ Torçam por mim! Gostaria de agradecer a ana chan por favoritar a minha fanfic, muito obrigada! Também gostaria de agradecer a todos os comentários, muito obrigada por todo o carinho, muito obrigada pela paciência. Faltam cerca de 15 capítulos para o fim de Amarras do Passado, eu sei que pode parecer muito, mas por tudo o que eu já escrevi eu me sinto aliviada por estar finalizando a minha fanfic (= Enfim, enjoy!

Dias Atuais

Peeta

"...And I know the scariest part is letting go
'Cause love is a ghost you can't control
I promise you the truth can't hurt us now
So let the words slip out of your mouth

And all of the stairs that land me to you
And all of the hell I have to walk through
But I wouldn't trade a day for the chance to say, "My love, I'm in love with you...""

***

– Você pode sair agora. — Eu ouço o guarda da delegacia onde estou preso me dizer. O seu olhar é de sono e tédio. Eu não consegui dormir em nenhum momento.

Minha mente esta em looping perfeito dos acontecimentos dos últimos dias. Tudo, desde o momento em que eu reencontrei Katniss esteve passando incessantemente em minha mente, quase como um filme de terror. E o rosto de uma garotinha não sai de meus pensamentos, estou sendo assombrado pelo seu rosto angelical, isso faz com que eu me sinto impotente, eu quero olhá-la mais uma vez, quero estudar cuidadosamente o seu rosto infantil. Minha filha, minha menininha. Quero conhecer exatamente a sua personalidade, ela se parece mais com Katniss ou comigo?

E quando eu fecho os meus olhos eu só vejo uma Katniss preocupada, seus olhos cinzentos cheios de medo com uma menininha nos braços, preocupada se vai ter o que dar de jantar para a nossa filha. Isso é um veneno da alma, algo que eu não consigo afogar. Sim, elas não estão mais famintas, e como eu disse para o meu pai, eu tenho certeza de que Katniss fez tudo o que podia para manter o nosso maior tesouro bem. Eu não duvido de sua capacidade. Eu já disse isso antes, mas sempre achei que Katniss é uma força da natureza, não pode ser contida, entendida ou aprisionada. Ela é escrava de sua natureza livre. Tem algo que eu nunca vou poder entender, apenas desejar.

Ela faz com que eu me sinta livre, e sem saber acaba emprestando a sua força e por ela eu sempre me esforcei para ser melhor. Tento me lembrar disso todas as vezes em que a imagem das duas, tão sozinhas e famintas me vem a cabeça.

Eu tive o direito de fazer uma ligação quando fui trancafiado aqui, ninguém parece se importar quando eu insisto que Elika é minha filha e que é meu direito vê-la. Todos apenas prestam atenção no que eu tentei fazer. Tirar uma menina de quase quatro anos de uma escola primaria. Brigar com os seguranças da escola e depois com os policiais. Eu estava fora de mim, fora de meu corpo e mente, estava vendo tudo em vermelho. É claro que eu me arrependo do que fiz, esse não sou eu, não sou violento, não costumo perder a cabeça. Mas, algo em perder Katniss me tira tudo o que eu tenho de sanidade, não quero perdê-la, não agora que eu a reencontrei, não agora que eu sei que nós dois dividimos um verdadeiro laço de sangue, uma filha.

Não posso perder Elika, não agora que eu acabei de conhecê-la. Eu quero as duas de maneira tão desesperada que não sei o que fazer para tê-las ao meu lado, quero convencer Katniss de que nós dois temos que ficar juntos. Ela é a mulher que eu mais amo na vida. Ela foi tirada de meus braços, lançada para longe de mim.

Eu fico imaginando o que teria acontecido se ela não tivesse ido embora, se minha mãe e Glimmer não tivessem nos separado. Em poucos meses nos dois descobriríamos que ela estava grávida, eu teria enfim feito o meu pedido de casamento, e insistiria nisso até que ela aceitasse, eu entregaria o anel de noivado que comprei no Distrito Cinco e todos saberiam que agora ela era minha para todo o sempre. Nós dois nos casaríamos em uma cerimonia pequena, cheia de nossos amigos e sorrisos. Katniss estaria com uma barriga redonda, carregando a nossa filha. Eu a acompanharia em todas as consultas médicas, nós faríamos um álbum de sua gravidez, e todas as noites eu a faria minha.

Quando nossa filha nascesse, Katniss e eu discutiríamos os nomes perfeitos para o nosso pequeno anjo, mas eu permitiria que ela tivesse a palavra final de qualquer forma, porque eu a amo tanto que não poderia ir contra esse pequeno desejo dela.

De repente eu tenho que parar o meu devaneio para me questionar, com grande pesar o por que de Katniss ter dado a nossa filha o nome de Elika. É um lindo nome, eu tenho que admitir, mas estou curioso sobre ele. Será que foi a sua primeira opção? E se tivesse sido um menino, qual nome ela colocaria em nosso garotinho?

Eu quero tanto conversar com ela, mas não sei se ela vai querer falar comigo novamente, não depois do que eu fiz na escola de Elika.

Em minha ligação, eu conversei com Haymitch, não queria falar com a minha família, não quero ver a minha mãe nunca mais, não consigo perdoar o que ela pediu para Katniss fazer. Matar o nosso bebê, eliminar a nossa menina sem pensar duas vezes. Minha mãe nunca vai entender o que eu sinto por Katniss, nunca vai aceitar que eu verdadeiramente a amo. Isso me doi muito, mas ela sempre foi egoísta e mesquinha, esnobe e superficial, o que eu poderia esperar de alguém assim? Mesmo que seja a minha mãe, isso não a dissolve de seus crimes.

Na ligação Haymitch estava muito nervoso, gritou comigo como se eu fosse um garotinho. Algumas coisas que ele me disse:

" Você não pensa, garoto. O que fez dessa vez? Por que foi na escola da menina?"

" Você vai ter muita sorte se eu conseguir convencer a docinho de não ir embora com a menina. Por que você não deixou eu terminar de falar com você naquela maldita ligação, acha que eu faço mágica para resolver as suas burradas?"

" Se você aprontar mais uma dessas, eu te juro que eu mesmo compro as passagens para Katniss e Elika sumirem do mapa sem você. Esta na hora de você crescer Peeta Mellark, agir impulsivamente igual a um adolescente não vai te ajudar a reconquistar Katniss."

Não tive muito o que argumentar depois disso, ele é a única pessoa que pode convencer Katniss a me dar uma segunda chance, ele é o único que ela vai ouvir.

Estou caindo em desespero. Não sei o que fazer. O que eu posso fazer de diferente para mudar tudo isso? O pior é que nada me vem a mente, eu estou perdido no escuro, sem luz nenhuma para seguir, sem porto seguro para atracar.

Olho para o guarda parado na minha frente, segurando a porta da minha liberdade. Alguém deve ter pagado a fiança, quem será que foi? Meu pai? Haymitch ou Finnick? Talvez algum de meus irmãos, por mais improvável que isso pareça. Seja lá quem foi eu não sinto que esta me fazendo um favor, o que eu vou fazer do lado de fora, sem katniss ao meu lado? Me manter afastando é a pior prisão que ela poderia ter me jogado, não quero esperar nada para falar com ela, não quero esperar os dias que ela me pediu, eu quero ir agora mesmo para a casa dela, para o lar que ela construiu para nossa filha e fazer parte disso.

Não me surpreendo ao encontrar o meu pai do lado de fora da delegacia.

– Filho. — Ele me cumprimenta quando eu me aproximo de onde ele está parado. — Haymitch me disse onde você estava e eu vim o mais rápido que pude. O que aconteceu no seu rosto?

Ah, sim! Penso resignado ao levar a minha mão até o meu olho inchado, consigo enxergar muito pouco com ele no momento, levei uma bela surra dos policiais que me prenderam, tudo para tentar me deter de derrubar aquele portão estupido da escola em que minha filha estuda. Meu lábio também foi cortado e está inchado, devo estar com uma péssima aparência, mas isso não é nada comparado ao que eu estou sentindo por dentro. O furacão constante de sentimentos que não me deixam em paz. Estou me perdendo, estou em conflito.

– Você andou brigando. Não é do seu feitio fazer esse tipo de coisa, seus irmãos eram brigões, você sempre foi o mais calmo de todos. Não gosto disso, Peeta. Não gosto de receber ligações de que você esta preso, que andou brigando com policiais. Eu sei que você está com raiva e não tiro os seus motivos para tudo isso, mas a violência nunca é a saída para nada.

– Eu sei que não é. Apenas não consegui me controlar, eu perdi a cabeça...o que ela esta fazendo aqui? — Minha voz muda em questão de segundos quando noto a mulher se aproximando apressada de onde estamos, minha mãe carrega um olhar culpado e preocupado em seu rosto, seus olhos estão inchados devido as lágrimas e ela me olha com um verdadeiro inferno nos olhos castanhos.

– Sua mãe estava preocupada com você, assim como eu estou. Nós todos devemos conversar.- Meu pai diz com sua voz potente, ao pedir que minha mãe se aproxime com um aceno.

– Peeta, filho. Eu estava tão preocupada com você. — Minha mãe me diz. Sua voz é temerosa e cansada.

– Você não deveria tê-la trazido junto, não quero ver essa mulher nunca mais enquanto viver...

– Essa mulher é sua mãe, Peeta. Um pouco mais de respeito. Nós temos problemas, mas vamos resolver isso em família. — A voz de meu pai é forte e decisiva.

– Seu pai tem razão, eu tenho tanto a te falar, tanto a explicar, vamos resolver tudo isso como uma verdadeira família...

– Família? Você é realmente uma hipócrita. Qual a parte de você mandar dinheiro para Katniss abortar um filho meu, entra no seu conceito de família? — Eu pergunto para a minha mãe, mas não deixe espaço para ela responder. — Eu realmente não quero te ver nesse momento...

– Por favor, Peeta...- Ela me pedi ao estender a mãe para o meu braço, eu me afasto antes que ela consiga encostar um dedo em mim. — Você é meu filho, e eu te amo, você tem que entender que eu não sou perfeita, eu errei. Mas, quero acertar as coisas com você e aquela mulher, Katniss. Quero conhecer a minha neta...

– Você vai se manter afastada de Elika, te proíbo de chegar perto da minha filha. — Digo muito calmamente, meu rosto começa a doer onde estão os piores machucados. — Katniss é problema meu, não de vocês, minha filha é uma problema meu. Não quero você e suas mentiras perto da sua inocência. Tenho certeza de que Katniss também não vai querer, então fique longe.

Viro para olhar o meu pai e me afasto alguns passos para longe.

– E você, se insistir em trazer essa mulher para perto de mim mais uma vez é melhor esquecer que eu sou o seu filho, não quero ter nada com essas mentiras...

– Sou o seu pai, Peeta. Nós temos que resolver isso em família. — Ele me diz.

– Se continuar a insistir nisso eu vou me demitir da Mellark's. Qual é a parte do eu não quero minha filha envolvida nessas mentiras você ainda não entendeu? Eu nem ao menos posso culpar Katniss por esconder a menina de mim durante todos esses anos? É essa a família que espera Elika? Uma avó que mandou dinheiro para matá-la quando ela ainda estava na barriga da mãe, um avô que quer fingir que nada disso aconteceu? Tios que somente se importam com eles mesmos? E um pai que ela não reconhece? Essa não é família que eu quero que Elika cresça, eu prefiro que ela fique com Katniss pelo resto da vida, sem sequer imaginar que tem pessoas tão perturbadas como os seus familiares.

– Você esta sendo radical e injusto, Peeta. Não pode tomar essas decisões assim, não pode nós dizer essas coisas sem ao menos pensar, sua mãe está arrependida e merece uma chance, eu também quero conhecer a minha neta, a família é muito importante...

– Eu passei anos de miséria por causa dos caprichos dela. — Rosno ao apontar um dedo para onde minha mãe está parada aos prantos. — Vá destruir a vida de outra pessoa, você já fez o bastante por mim, não quero você do meu lado, não quero minha filha perto de você.

Digo essas coisas para ela, não consigo me comover com as suas lágrimas. Eu tive quase cinco anos de lágrimas escondidas dentro de mim, amargando a minha vida e os meus sorrisos. Sabe-se lá o que Katniss carrega de bagagem emocional por causa das mentiras da minha mãe.

Eu dou as costas para os dois e sigo para longe, estou sem as chaves do meu carro, estou apenas com a minha carteira dentro do bolso do meu casaco de frio, ela me foi devolvida quando eu fui liberado da delegacia. Preciso de uma bebida, preciso colocar os meus pensamentos em ordem, ou apenas afogar um pouco do desespero instalado no meu peito.

Quero chorar igual e um garotinho. Não posso conversar com minha mãe agora. Não estou preparado para perdoá-la, se um dia eu for perdoá-la, não sei se tenho essa capacidade no momento, tudo o que eu sinto quando olho para o rosto dela é raiva e rancor. Fico me perguntando como ela conseguiu esconder esse segredo todos esses anos? Manter isso dentro do peito e me ver sofrer por seus erros. Se eu não tivesse reencontrado Katniss o segredo ainda se manteria, eu estou certo disso, e então eu nunca saberia da existência da minha filha. Não faria parte da vida dela de jeito nenhum. Com o tempo eu aprenderia a aceitar que Katniss já não fazia mais parte da minha vida, e teria me casado com alguma outra mulher desconhecida, alguém que me faria bem, mesmo que eu sempre sentisse que algo muito importante tivesse sido arrancado do meu coração, eu não questionaria mais o destino.

E Elika, o pequeno passarinho cresceria sem saber que eu existo. Katniss também se casaria, eu posso ver isso acontecendo. E por causa da minha mãe, eu nunca olharia nos olhos da minha garotinha, nunca mais me perderia nos olhos cinzentos de Katniss, e não significaria nada para elas. Não que eu signifique alguma coisa agora, mas estou certo de que se mais alguns anos tivessem se passado eu teria perdido as duas para sempre.

Isso é algo difícil de aceitar. Um veneno difícil de engolir.

Eu realmente preciso de uma bebida, amanhã eu penso no que fazer, talvez eu vá no serviço dela, talvez na casa. Não consigo pensar em nenhum plano agora, mas alguma coisa vai surgir. Eu sei que vai. Ainda é incio da tarde, muito coisa pode acontecer no dia de hoje.

***

Katniss

"...I know that we're both afraid
We both made the same mistakes
An open heart is an open wound too
And in the wind there's a heavy choice
Love has a quiet voice
Still remind now I'm yours to choose

And I know the scariest part is letting go
Let my love be the light that guides you home..."

***

– Não posso falar com você agora. — Eu digo irritada.

– Não me interessa o que você está fazendo, você vai me ouvir queridinha, por telefone ou pessoalmente. Essa é sua escolha, mas você vai me ouvir. — Haymitch me diz carrancudo pelo telefone.

O que é pior, conversar com ele pelo telefone, ou pessoalmente? Vou me irritar com ambos os casos, sei que vou. Mas, pelo telefone eu tenho a chance de não ver o seu olhar debochado ao me encarar.

– Vamos lá Haymitch, me diga o que é dessa vez. — Eu falo para ele, escolhi uma conversa por telefone. — Mas, vamos logo porque eu tenho que ir buscar Elika na escola.

– Você se acha o último biscoito do pacote, não é mesmo. Somente o seu sofrimento importa, somente os seus pesares existem. Quando você vai amadurecer e entender que nem tudo gira em torno de você? O que você esta fazendo com Peeta Mellark, o pai da sua filha, é algo que deveria te encher de vergonha. O garoto não tem culpa de nada, como eu sempre te disse, mas você me escuta? Não! Você não escuta, e eu apenas gostaria de saber o porque disso? — Ele desabafa tudo de uma vez só.

– Isso é assunto meu, Haymitch, você sabe o que ele tentou fazer com Elika? Ele tentou tirá-la de mim...

– Pare de fingir. — Haymitch me interrompe bruscamente. — Você não acredita nisso, se acreditasse que ele estava tentando isso, você já teria sumido com a pequena a muito tempo. O garoto descobriu todas as tramoias da mãe, ele está desesperado. O que você estava esperando que ele fizesse, que esperasse igual a um bom cachorrinho e dona dele vir e resolver escutá-lo. A menina é filha dele também, o que importa é que ele não estava envolvido em nada disso, você deveria agradecê-lo por isso, e não puni-lo por algo que estava muito além de seu alcance. Ele não sabia, mas quer conhecer a menina, quer fazer parte da vida dela. Eu te disse que isso aconteceria. Te disse que você deveria contar logo para ele, você errou em ficar enrolando e a culpa do ataque dele na escola de Elika é sua e não dele.

Eu não posso deixar de pensar que Haymitch está certo em muitas coisas, não acho que a culpa seja minha, todavia não posso deixar de pensar que se Peeta soubesse de Elika à mais tempo, nada disso estaria acontecendo, e saber que ele não sabia de nada. Nada de nada, me deixa desconfortavelmente aliviada.

– Ok, Haymitch. Amanhã eu vou procurá-lo, amanhã vou conversar com ele, é isso que você quer para me deixar em paz, eu realmente preciso ir atrás de Elika agora, não posso esperar um minuto a mais. — Falo para ele, depois de passar uma das mãos pela minha nuca suada, somente pensar nessa conversa enche o meu peito de medo.

Medo não sei do que. Não sei de que exatamente eu estou com medo, mas meu coração dispara quando eu penso em falar com Peeta mais uma vez. Olhar os seus olhos azuis tão de perto.

Minha conversa com meu antigo mentor não dura muito depois disso, nós dois nos despedimos de forma mecânica e eu só quero deixar de pensar nisso por alguns instantes, quero me concentrar em minha filha. Darius não vai vir me buscar hoje, eu estou por conta própria então não posso me atrasar em ir buscar Elika, hoje ela sai um pouco mais tarde da escola. Tem aulas de balé, então eu vou conseguir assisti-la dançar durante alguns minutos, é algo que eu adoro fazer. Minha menina fica muito bonita toda vestida de rosa, sapatilhas de dança, com um coque prendendo os seus longos cabelos escuros e fitas de cetim nos cabelos.

Haymitch está certo em uma coisa, eu fiquei com bastante raiva na hora em que a escola de Elika me ligou para contar o que tinha acontecido hoje mais cedo, porém não foi uma raiva genuína, foi apenas passageira, eu sei que Peeta não teria coragem de tirar Elika dos meus braços, não para sempre. Ele não faria isso comigo, ou faria? Estou tão confusa, eu realmente quero acreditar que ele não faria nada contra a minha menina. Ele a quer tanto ao ponto de tentar invadir a sua escola?

Ou apenas fez isso para chamar a minha atenção? Hoje de manhã eu tinha ido com Cinna fazer algumas fotos para a nova coleção. Dessa vez eu não sou a modelo, graças a tudo o que é sagrado. Iria morrer de vergonha se saísse em mais alguma foto promocional para ele, ser modelo não é algo que eu quero para a minha vida, eu quero Elika, e uma casa confortável onde eu posso criá-la e educá-la. Minha filha e eu vivendo em paz.

O que Peeta estava pensando para tomar uma atitude tão drástica? Ele perdeu a cabeça? Eu disse que nós conversaríamos em alguns dias. Ele não pode esperar esse prazo? Apenas alguns poucos dias para eu colocar a minha cabeça em ordem. Não é pedir muito. Pelo menos eu acho que não é pedir muito.

Será que eu deveria passar na delegacia e verificar como ele está? Não, não vou passar com Elika nesse tipo de lugar, não quero que a primeira aparição verdadeira do pai dela seja um homem atrás das grades. Eu posso pedir para a escola tirar a acusação dele, afinal Peeta estava fora de si. Não pode ser culpado por seus atos insanos. Ele realmente descobriu toda a verdade? A mãe dele, aquela mulher horrível, contou o que pediu para eu fazer com a nossa filha?

Antes que eu posso perceber eu já estou na escola de Elika, tomei os caminhos mais rápidos para chegar a pequena escola primaria, a recepcionista me olha torto quando eu passo, alguns seguranças também me olham de esguelha. Todos devem saber do caso, todos devem estar comentando. Ainda bem que Elika e não não vamos demorar em ir embora. Logo, tudo estará esquecido.

Vou direto para a sala de dança, na parte esquerda, onde uma porta esta aberta, eu entro no lugar o mais quieta possível, outros pais estão sentados em cadeiras esperando o final da aula chegar, todos estão com expressões cansadas em seus olhos, a maioria é mulher, mas posso ver um pai ou dois, esperando por suas filhas.

A minha pequena Elika está no canto mais distante da entrada, duas professoras estão treinando as meninas presentes, todas estão vestidas de rosa, as bailarinas mais lindas que eu já vi. Meu coração se aperta quando eu penso em Prim, ela nunca teve a oportunidade de tentar nada tão artístico e bonito, e sendo tão delicada como era, balé seria algo perfeita para a sua natureza doce. Elika é igual a minha irmã nisso, ambas tem corações cheios de luz, são doces e delicadas. Nada parecidas comigo em suas naturezas.

Lentamente para não chamar a atenção de ninguém eu apenas me sento, e espero o fim da aula. Faço isso duas vezes por semana, já estou acostumada com essa rotina e minha filha também está.

Mal decorreu dez minutos que estou esperando quando sinto alguém tocar o meu ombro esquerdo, eu olho para cima e tenho que piscar algumas vezes para colocar o meu cérebro em ordem e aceitar que estou olhando para o pai de Peeta. Qual era mesmo o nome dele? Eu esqueci totalmente, mas eu não deveria estar preocupada com o nome do homem, eu deveria estar me questionando o que ele esta fazendo aqui.

– Desculpe interrompê-la. Eu não queria aparecer aqui sem avisar, mas realmente preciso conversar com você. Haymitch me passou o endereço da escola, e me disse que eu poderia encontrá-la aqui. — O pai de Peeta me diz com uma voz calma. — Podemos conversar ali?

Ele aponta para um lugar para afastado do lugar destinado aos pais, eu apenas aceno afirmativamente com a cabeça e depois de me levantar eu o sigo, sinto que o meu estômago afundou em gelo puro. Não sei o que esta acontecendo, não sei o que esse senhor quer conversar comigo. E principalmente, não sei por que Haymitch o ajudou a me encontrar. Será possível que eu não vou ter um minuto de paz.

– Senhor Mellark, o que você está fazendo aqui? — Pergunto ao manter a minha voz o mais estável possível. Ele é mais alto que eu, e parece tanto com Peeta, esses olhos azuis nunca vão deixar de me perseguir, é isso que eu tenho que aceitar. O senhor Mellark, Peeta e Elika. Eu estou rodeada de pessoas com olhos azuis. Isso é de enlouquecer qualquer pessoa.

Ele tem um rosto abatido, seus olhos estão levemente vermelhos nas bordas, será que estava chorando? Faz muitos anos que nós dois não nos encontramos. Eu realmente não sei como manter uma conversa com ele. E ele parece tanto com Peeta. Ou será que é Peeta que parece muitíssimo com o pai.

– Katniss Everdeen, é tão bom vê-la novamente, olhar para você enche o meu peito de alegria. — Ele me diz ao sorrir calorosamente, seus olhos estão mais brilhantes que antes, eu acho que ele vai chorar. — Eu sei que você não esperava me ver, por favor não brigue com Haymitch por autorizar a minha entrada aqui na escola, mas eu realmente preciso conversar com você.

Eu não digo nada para ele, não sei se conseguiria dizer qualquer coisa. Minha mente ainda esta muito lenta por causa da surpresa.

– Peeta esteve em casa hoje de manhã, muita coisa aconteceu. Parece que minha esposa andou tendo algumas atitudes drásticas e horrendas, que meu filho e eu desconhecíamos. Peeta me contou que você deu a luz ao um filho dele, e que eu tenho uma neta. Eu sei que eu ou qualquer pessoa da minha família somos as últimas pessoas que você quer encontrar, eu sei que não deve ser fácil para você estar conversando comigo e eu agradeço a sua gentileza. E agradeço ainda mais você nunca ter usado o dinheiro que minha esposa mandou para que você abortasse a minha neta. Ela não sabia o que fazia Katniss, e está arrependida do que pediu naquela época.

O pai de Peeta deve ter visto algo muito ruim no meu rosto, pois logo mudou para outra tática, pelo visto ele sabe que eu não estou disposta a perdoar ninguém, muito menos a mulher horrível que ele chama de esposa. Não me interessa nem um pouco que ela esteja arrependida, na minha opinião ela pode ir para o inferno que eu não levantaria um dedo para ajudá-la. Todas as coisas que ela me disse nunca serão esquecidas da minha memoria. E não quero minha filha perto dessa mulher. Elika é boa demais, pura demais para se contaminar com esse tipo de pessoa. Se depender de mim, ela nunca vai ser humilhada da forma que eu fui. Nunca vai precisar ouvir que nada de bom nasce de uma Everdeen, e que somos mortas de fome.

– Senhor Mellark, se você veio aqui para defender a sua esposa eu receio que você perdeu o seu tempo. Em todos esses anos eu criei a minha filha sozinha, e não preciso da ajuda Mellark para nada. Não quero ter nada a ver com o dinheiro da sua família. — Digo o mais serena e sincera possível, tento manter o meu desconforto em controle, ao fundo a música clássica da aula aumento um tom. — Sim, seu filho é o pai da minha menina. Mas, nós duas não precisamos de vocês. Com todo o respeito, eu não sei o porque de você estar aqui, mas não me sinto confortável com essa conversa.

– É muito triste ouvir isso, Katniss. Espero que algum dia o seu coração se encha de perdão. — Ele me diz e suas bochechas são cobertas de vermelho ao me encarar. — Eu me sinto envergonhado pelas atitudes de minha esposa, nada disso deveria ter acontecido, se eu tivesse prestado atenção na época, você não precisaria ter fugido de nós...

– Eu não fugi, senhor Mellark. Eu fui expulsa, existe uma diferença nisso e sua esposa deixou bem claro o que eu significava para a sua família, e o quanto a minha filha seria motivo de vergonha para vocês. Eu estou vivendo a minha vida, cuidando da minha filha. É isso o que estou fazendo. — Acho melhor deixar bem claro para ele algumas coisas antes que ele fale mais. — De acordo com a sua esposa, eu sou o tipo de prostituta que ela adoraria cuspir na cara, que eu engravidei de Peeta apenas pelo dinheiro e que uma bastarda nunca seria aceita pelas Mellarks, eu não sei até que ponto e senhor também acredita nessas coisas, ou se sua esposa acha que eu estou aqui para conseguir dinheiro de vocês. Bom, olha só, eu criei minha filha sozinha, sem a ajuda do pai dela, e Elika está muito bem, ela tem muitas pessoas que a amam e que gostam dela, não importando que eu não tenho muito dinheiro. Mas, senhor Mellark, eu tenho algo que é mais importante do que todo o dinheiro da sua família, eu tenho amor para dar a ela. Elika será criada cheia de amor e aceitação, não a quero perto da sua esposa e espero que o senhor entenda os meus motivos.

– Você nunca deveria ter sido humilhada dessa forma, minha esposa nunca deveria ter se vingado em você. Eu entendo o que você diz, entendo o seu receio, mas ainda quero ter a minha neta por perto, ainda quero conhecê-la e amá-la. Katniss Everdeen, eu te prometo que essa menina nunca será menosprezada pela minha família. Ela é uma benção. — O pai de Peeta me diz, e dessa vez ele realmente tem algumas lágrimas para enxugar. — O tempo será a cura, eu estou certo disso. Mas, existe algo que eu quero te dizer, o meu filho não estava envolvido nisso, ele não sabia de nada, assim como eu não sabia de nada. Por favor, eu imploro que você reconsidere isso, e que em seu coração descubra um modo de nos perdoar. Peeta é meu maior orgulho, meu filho mais querido e eu nunca o vi agindo tão impulsivamente assim, ele está tão desesperado Katniss, que me dá medo pensar que ele vai perder a cabeça a qualquer momento, eu paguei a fiança dele, ajude-o. Eu imploro, ajude o meu filho, ele precisa tanto dessa chance, precisa tanto estar perto de vocês duas...

Somos interrompidos quando uma pequena bailarina se enrosca nas minha pernas, estamos tão envolvidos em nossa conversa que não notamos que a aula já acabou.

– Mamãe, mamãe. — Elika chama a minha atenção de forma exagerada, seu sorriso é o mais bonito do mundo. — Eu estava com saudades, você me viu dançar?

– Passarinho, eu também estava com saudades. — Eu digo ao me abaixar a pegá-la no colo, minha menina está crescendo. já é difícil segurá-la por muito tempo. — Mamãe quer te apresentar a alguém. Esta vendo esse senhor, ele é o seu avô. Pai do seu papai. Não quer dar um oi para ele, ele veio aqui apenas para te ver.

Elika olha para o avô de modo curioso e receoso, seus olhos azuis são gêmeos dos de seu avô, e o pai de Peeta mal pode controlar a emoção em seu rosto. Grossas lágrimas escorrem de seus olhos, enquanto ele estende os braços para pegá-la no colo. Minha filha vai sem receio algum, seus olhos são curiosos e atentos.

– Você é o meu vovô? — Pergunta ela ao passar uma das mãos pelo rosto do pai de Peeta.

– Sim, eu sou o seu vovô Rodrick. — Diz o pai de Peeta, então esse é o nome dele, eu já tinha me esquecido. — É muito bom conhecê-la, você é muito bonita, igual a sua mamãe.

– Oh, sim. A minha mamãe é a mamãe mais bonita do mundo todo, foi ela que amarrou o meu cabelo, ficou muito bonito, sou uma bailarina, sabia vovô? Eu vou dançar o lago dos cisnes e sou ser a bailarina mais bonita, igual a uma princesa. Não é mamãe? — Elika despeja toda a sua animação infantil sobre o avô que mal consegue tirar os olhos do rosto da minha filha, grossas lágrimas ainda escorrem de seu rosto. — Por que você está chorando? Vovô, o senhor bateu o dedo na cadeira? Uma vez eu bati o meu e doeu muito, então eu chorei, mas a mamãe me deu um beijo e sarou...

– Elika, passarinho. O seu avô está cansado, hoje foi um dia muito longo, venha para o colo da mamãe. — Eu estico os meus braços para tirá-la, mas antes que Elika se lance sobre eles o pai de Peeta a aperta em um abraço.

– Só mais um pouco, Katniss. Eu preciso disso, tudo até agora pareceu um sonho, mas meu filho está certo, ela é perfeita. Eu não podia acreditar até agora. Obrigado por me deixar conhecê-la. Essa sensação é inacreditável, olhe só para a minha neta, olhe como ela é perfeita. — Ele diz ao encarar o rosto de Elika.

Minha filha apenas o encara com os olhos brilhantes, suas bochechas rosadas ao receber o elogio.

Nós ainda conversamos por mais alguns minutos, eu não pude evitar passar esse tempo com o pai de Peeta, Rodrick Mellark é alguém muito intimidante, seus olhos transmitem confiança e consolo, ele não é um monstro igual a esposa, realmente quer o bem de Elika. É difícil baixar a minha guarda dessa forma, a única coisa que eu quero é proteger a minha filha, mas ele não representa nenhum perigo, parece encantado com todas as palavras que a minha pequena diz. A todo o momento a beija sob os cabelos ou na testa.

Ele queria nos deixar em casa, eu não aceitei, não quero depender de nada da família Mellark. Minha filha pode conhecer os seus avôs, mas isso não significa que vai fazer parte da vida deles. Isso eu não sei se posso permitir. Peeta é outra história. Dele eu não posso fugir. E antes que eu despesa do senhor Mellark, ele me abraça e implora em um sussurro que eu salve o filho dele.

" Salve-o, salve-o. Por favor."

Vou ter que procurar por Peeta amanhã, nós temos uma difícil conversa pela frente. Temos que decidir algumas coisas. Eu não sei que estou preparada para enfrentá-lo.

***

Eu não posso acreditar no que vejo quando olho através do vidro da janela do meu quarto, estou escondida atrás das cortinas grossas, olhando por detrás de uma fresta segura.

Eu estava apenas em mais uma de minhas várias noites de insônia, minha mente não conseguia desligar por causa das preocupações crescentes em meu coração. As vezes acho que estou presa em um terrível pesadelo.

Mal sinto quando uma lágrima silenciosa escorre por minha bochecha, a verdade é que me sinto perdida, completamente sem saber o que fazer, no que acreditar, em quem acreditar. Estou tão cansada de toda essa confusão com Peeta, as vezes penso que voltar para a Capital foi um tremendo erro, eu certamente não estaria envolvida em toda essa confusão se tivesse permanecido no Distrito Doze, ou se ao invés de pedir ajuda para Haymitch eu apenas tivesse ido passar um tempo com Johanna no Distrito Sete.

Mas, agora não adianta nada ficar me lamentando. Peeta já sabe a verdade, todos já sabem a verdade.

Ele sabe que Elika é sua filha, mas ao contrario do que eu sempre achei que aconteceria ele não a está rejeitando, não acha que minha filha é uma bastarda que não deveria existir, nem o pai dele acha isso. Pela primeira vez eu entendo que Peeta está desesperado.

E de todas as reações que eu achei que ele teria ao saber a verdade, essa nunca foi uma delas. Peeta quer a nossa filha, ele quer estar com ela em um desespero tamanho que eu não sei como reagir sobre isso.

Sim, as últimas semanas foram bem complicadas, eu tive que escutar de todos um sermão diferente de como eu estou sendo malvada em não deixar Peeta conhecer a nossa filha, ninguém parece entender que o que eu não quero é que ele entre na vida dela apenas para sair poucas semanas depois. Que se canse de brincar de pai e que encontre outra mulher para amar e atazanar. Mas, somente agora ao vê-lo cambaleante pela calçada, nesta madrugada chuvosa e fria, caminhando muito lentamente pelas casas vizinhas a minha é que eu me dei conta do quanto ele esta se afundando em ressentimento.

E a única coisa que sei é que me doí muito vê-lo assim. Pelo homem que um dia eu amei, pelo pai da minha filha e pela amizade que ambos compartilhamos. Eu não posso deixar isso continuar, não quando eu posso fazer algo para ajudá-lo, se eu deixar que ele continue com isso, amanhã cedo ele vai estar morto, congelado na rua da minha vizinhança, eu não posso permitir que ele continue nessas condições.

Correndo pelo meu quarto eu trato de vestir o primeiro roupão que encontro por cima da minha simples camisola e amarro o laço em volta da minha cintura. Com cuidado para não acordar Elika eu entro no meu quarto infantil e ligo um pequeno gravador com músicas de sua preferencia em um volume que não vai acordá-la, depois fecho a porta do seu quarto e bem devagar vou até a porta da frente da minha casa, em algum lugar mais ao longe eu posso ouvir um trovão estourando sobre a Capital.

Sinto o meu peito apertar duramente quando abro a porta e vejo Peeta largado sobre o meu tapete de entrada, todo molhando e sujo, muito pior do que eu imaginava. O cheiro de bebida impregnando as suas roupas era quase insuportável. Seu rosto esta todo inchado e vermelho, eu não sei dizer se é efeito do álcool ou se é os hematomas de uma briga recente.

Tinha que fechar as minhas mãos em punhos várias vezes e suspirar mais algumas muitas para me acalmar. O que diabos eu vou fazer com ele? Chamar a policia? Ligar para Haymitch? Para o pai dele? O que ele esta fazendo desmaiado na porta da minha casa? Por que veio para cá nessa madrugada chuvosa?

"Salve-o, Salve-o." Foi o que o pai de Peeta me implorou para fazer.

Eu não posso deixar que ele vá para a prisão, não posso permitir que alguém faça mal para ele. Acabo por tomar uma decisão que amanhã eu certamente vou me arrepender, eu me abaixo ao lado dele e com dificuldade passo um dos meus braços pelas costas molhadas.

Tento erguê-lo, mas ele é muito pesado para a minha frágil força.

– Peeta, Peeta. Vamos lá acorde. — Eu chamo perto de seu rosto, tive que engolir em seco a vontade de vomitar que se apodera de meu corpo. O cheiro dele é insuportável. — Vamos, Peeta! Peeta, pode me ouvir?

Ele resmunga algo incoerente e tenta se levantar, todavia esta bêbado demais para conseguir sozinho, e acabou escorregando no chão molhado quase me levando com ele.

– Vamos, Peeta! — Insisto um pouco mais alto, dessa vez apenas decido sacudi-lo um pouco para despertá-lo de seu estado de embriaguez, essa é uma boa estrategia para chamar a atenção dele. — Peeta, acorde, tenho que te levar para dentro. Vamos, Peeta.

Dessa vez as minhas suplicas parecem que surgiram efeito, Peeta abre o olho que não esta inchado e me encara sonolento, o outro olho também abre, mas não muito. Dava para notar em sua expressão abobada que ele não entendia nada do que estava acontecendo, uma barba rala cobria o seu maxilar o que indicava que ele estava a alguns dias sem fazê-la.

– Isso, olhe para mim. Pode me reconhecer, sou eu, Katniss. — Incentivei ao passar a mão delicadamente por seu olho inchado, quem será que bateu nele assim? E seu lábio também está inchado. Não gosto disso, não gosto de saber que alguém bateu nele, isso me deixa violenta. — Peeta, você tem que me ajudar a te levantar. Isso, isso mesmo! — Incentivo quando eu puxo ele para ficar ereto com toda a força que tenho, ele me ajuda como pode. Seus olhos turvos presos no meu rosto.

Levo mais tempo do que esperava para levá-lo para dentro da minha casa, foi desconcertante que o tempo todo ele chamou e chorou o meu nome. É claro que tive que sustentar mais da metade de seu peso e a todo momento eu cambaleava, e era difícil andar com ele, principalmente quando ele me agarrava com forma, quase como se quisesse provar para si mesmo que eu estava mesmo ali.

– Vamos, Peeta. Tudo vai ficar bem, eu prometo. — Novamente insisto ao força-lo para a escada. — Isso, uma passo de cada vez, muito devagar. Vamos tomar um banho, que tal? Essa parece uma ótima ideia.

Minhas palavras parecem que o animaram um pouco mais, pois ele passou a colaborar com um pouco mais de afinco. Mas, se trazê-lo para dentro da minha casa foi difícil, levá-lo até o banheiro no andar de cima é quase impossível. Eu estava muito exausta quando o coloquei sentado dentro da minha banheira no pequeno banheiro, tive que tomar alguns instantes para recuperar o fôlego, em seguida tive que retirar os brinquedos de banho de Elika de dentro da banheira, coloquei os brinquedos dentro de um cesto e voltei para onde Peeta estava largado.

– Katniss...- Ouvi Peeta me chamar cheio de medo na voz, ainda estava muito incoerente pela quantidade de bebida que ingeriu. — Eu não sabia...eu juro que não sabia de nada...

– Eu estou aqui. — Digo quando não consigo me controlar e acabo por acariciar os seus cabelos loiros. — Fique tranquilo, eu já volto.

O mais rápido que pude eu fui verificar se tinha realmente trancado a entrada da minha casa e depois aproveitei para passar no quarto de Elika e verificar se ela ainda estava dormindo. Ainda bem que a minha menina tem um sono pesado. Já é um pequeno milagre que a minhafilha não escutou a voz grossa de Peeta.

Respiro fundo mais uma vez ao me aproximar do banheiro, tenho que me concentrar na tarefa que tenho pela frente, já tenho certeza de que essa madrugada vai ser longa, muito longa.

E acabou por realmente o ser.

Quando eu enfim deitei ao lado de minha filha, em sua pequena cama de solteiro já passava das quatro horas da manhã. Dar banho em Peeta foi um dos maiores desafios que eu tive em muitos anos, teria sido uma tarefa mais fácil se ele não tivesse passado tanto tempo vomitando em si mesmo na banheira o que pareceu um mar de álcool. Eu apenas abri o chuveiro em cima dele e deixei que a água morna o lavasse, tive que tirar suas roupas, que estavam imundas e encontrei dentro de um bolso a sua carteira, toda ensopada. O ajudei a não se machucar enquanto ele vomitava.

Depois do que pareceu uma eternidade de vômito e sujeira indo pelo ralo abaixo eu, enfim, pude dar banho nele, não me preocupei em vesti-lo pois as roupas dele estavam nojentas e eu não tenho roupas masculinas em casa. Afinal de contas, moro sozinha com Elika.

Eu apenas o enxuguei da melhor forma que pude e depois o levei até o meu quarto, a sua nudez não chega a me incomodar tanto quanto eu achei que faria, esse não é um momento erótico, esse é um momento muito preocupante e triste para eu me sentir excitada. Por isso eu apenas o deitei em minha cama e o cobri para que ficasse bem quentinho. Ele apagou imediatamente, e se aconchegou em meus travesseiros chamando o meu nome ao suspirar. A aparência dele ainda era péssima, mas pelo menos ele já não fedia.

Ainda levei algum tempo olhando para ele, apenas deitado em minha cama, tão frágil igual a uma criança. Ele não sabia de nada, não teve culpa. Não posso puni-lo por algo que ele não tinha conhecimento. Haymitch está certo sobre isso, mas o que devo fazer para mudar tudo isso? Talvez eu posso ajudá-lo, e assim eu ajudo a minha filha. Entretanto, o que devo fazer?

Quando fecho a porta do quarto atrás de mim, eu me sento no chão e choro por quase uma hora. Assim que consigo me acalmar eu volto para a banheiro e começo a limpara a bagunça que Peeta e eu fizemos, ou melhor dizendo, a bagunça que eu fiz ao dar banho nele. Depois de o banheiro estar limpo eu recolho as roupas sujas de Peeta, incluindo a sua cueca e vou até a lavanderia para lavá-las, isso não me toma muito tempo, eu ainda estou muito ligada pela adrenalina para me sentir cansada. Depois que as peças estão lavadas e secas, eu as dobro e as levo cuidadosamente para a cabeceira da minha cama, amanhã quando ele acordar, vai ter o que vestir.

Assim que termino isso, eu vou tomar uma ducha rápida e finalmente me deito para dormir ao lado da minha filha, daqui a três horas vou ter que estar acordada, e amanhã será um longo dia. Peeta vai estar a minha espera, e acho que já sei o que vou fazer para ajudá-lo.

Notas finais
Próximo capítulo dos Dias Atuais vai acontecer a conversa mais esperada dessa fanfic kkkk Katniss e Peeta vão lavar a roupa suja, ou tentar. Elika não vai ficar de fora disso. Estão preparadas? Eu estou ^^ Gostaram do capítulo? Um grande abraço e até a próxima (=