Amarras do Passado

42 I Hurt Too - Katie Herzig


Notas iniciais
Olá pessoas ^^ Mais um capítulo para vocês. Estou doente :/ Febre e dor no corpo, então eu peço desculpas por não fazer uma revisão melhor. Só quero deitar e dormir. Logo, Logo vai começar a contagem regressiva dos últimos 10 capítulos de Amarras do Passado. Nem sei com lidar com isso :/ Mais uma vez eu tenho que agradecer a todas as pessoas que comentam na minha fanfic e fazem da minha escrita muito melhor. Amarras do Passado já foi apenas minha, mas agora eu sinto que ela é mais de vocês do que já foi minha. Sim, sou eu que a escrevo. Porém, vocês são a motivação para isso aqui acontecer. Muito obrigada! Também queria agradecer a vish por favoritar a minha fanfic. Obrigada ^^ Enfim, enjoy!

Passado — Seis meses depois

Peeta

"...When you're weary. And haunted
And your life is not what you wanted
When you're trying so hard to find it
When the lies speak the loudest
When your friends are starting to leave
When you're broken by people like me
I hurt too, I hurt too..."

***

– Você não vai voltar para a cama? — Glimmer me pergunta ao me abraçar pelas costas, suas mãos macias passeiam pelo meu peito nu. Eu não me assusto ou movo um músculo sequer, apenas olho pra ela rapidamente e não demoro a voltar a minha atenção para as luzes da Capital brilhando na minha frente.

Esse apartamento é frio, muito frio e desconfortável. E isso é bom, me mostra que eu estou vivo, todo esse desconforto me ajuda a lembrar que eu ainda estou vivo.

Aonde você esta? Eu me pergunto em pensamento. As luzes brilham do lado de fora, é plena madrugada e as luzes apenas brilham. Para que elas ainda brilham? Por que elas estão brilhando? Já não há mais luzes dentro de mim, todas estão silenciosamente apagadas, está muito frio, entretanto eu não sei se o meu apartamento é frio, ou se sou eu que não tenho mais fogo nenhum dentro de mim, meu espirito está inquieto e gelado.

As vezes sinto que uma parte de mim morreu, esse é um buraco difícil de tapar. Esse silêncio que se apodera de tudo, essa inquietação sem fim. Não sei mais o que é ter uma boa noite de sono à muitos meses. Não consigo descansar, não totalmente.

Aonde você está? Volto a me perguntar ao trocar o peso do meu corpo de um pé para o outro, Glimmer continua a me abraçar, todavia o calor do seu corpo não é suficiente para me distrair da dor em meu peito. Acho que nunca vai ser o suficiente e isso me enche de medo.

– Já estou indo dormir. — Digo para ela, me forço a beijá-la castamente nos lábios. — Volte para a cama, amanhã você tem um dia importante.

– Eu sei, estou tão ansiosa. Nem acredito que vou começar o meu primeiro dia de trabalho. — Ela me diz ao sorrir amplamente. Seus olhos estão cheios de calor, por que esse calor não consegue me atingir?

– Você vai ser perfeita. — Eu digo para ela, quero incentivá-la. Quero que ela se sinta confiante. Quero que o calor em seus olhos azuis continue a iluminá-la.

Glimmer sorri para mim. Ela está vestida em uma camisola rendada na cor rosa claro, seus cabelos loiros estão soltos em suas costas, ela é muito bonita.

Fecho os meus olhos e suspiro longamente quando minha mente é inundada de lembranças de minha morena de olhos cinzentos, Katniss não gostava de camisolas, sempre preferiu dormir com as minhas camisetas, seus cabelos escuros caiam por suas costas como uma cascata de mogno suave. E seu sorriso podia me fazer ficar de joelhos.

Onde ela está? Por que me deixou? São as perguntas que não saem dos meus pensamentos.

Na maioria dos dias eu apenas a odeio por isso. Não sei de seus motivos, não conheço nada de sua mente traiçoeira. Eu me culpo por ter ido naquela viagem com o meu pai, se eu estivesse aqui na Capital, ela nunca teria saído das minhas vistas. Cada dia é uma provação nova, cada dia é uma tortura.

– Você está pensando nela...- Abro os meus olhos quando ouço Glimmer dizer, sua voz é triste e preocupada. — Está pensando nela, você me prometeu Peeta, prometeu que tentaria esquecê-la, que faria isso por mim.

– Desculpe, eu seu que prometi, e vou me esforçar mais. — Digo ao me afastar de onde ela está, vou até a cozinha do meu novo apartamento e caminho até a minha geladeira, abro a porta dela apenas para me distrair. Não estou com fome ou sede.

Na verdade, eu sinto muito pouco agora, e ao mesmo tempo eu sinto tanto. Não tenho fome alguma, mas o buraco em meu estômago insiste em crescer. Não tenho sede, mas frequentemente me pego sedento por experimentar o gosto dos lábios de Katniss.

– Eu te amo, Peeta. Te amo tanto, por favor me dê uma chance de fazê-lo feliz. Eu quero que nós dois tenhamos um final feliz...

Não percebi que Glimmer tinha me seguido até aqui, ao a espio sem realmente a ver. Por mais que eu tente eu não consigo botar mais animação na minha voz.

– Eu sei, Glimmer. E eu realmente estou tentando, você não precisa ficar preocupada. Por favor, volte para a cama, eu estarei lá daqui a pouco, amanhã eu vou te levar para o seu primeiro dia de trabalho. Pense apenas nisso. — Falo ao encará-la.

Volto a encarar a geladeira por dentro, mas não estou prestando atenção em nada especifico, tudo se resume e não encarar minha ex/atual namorada.

Para falar a verdade não sei bem o que somos, talvez apenas dois adultos que dividem a mesma cama? Não quero pensar muito nisso, não quero me estender em pensamentos de certo e errado. Glimmer foi a melhor coisa que me aconteceu nesses últimos meses. Me mostrou que realmente é minha amiga, que esta aqui ao meu lado para o que der e vier.

A solidão é muito difícil de ser encarada. Esse apartamento é muito frio, ou apenas será a geladeira aberta que enche os meus ossos de gelo. Fecho a geladeira e Glimmer já não está mais parada na entrada da cozinha, ela deve ter voltado para a cama, e isso é muito bom, não sei se consigo lidar com ela nesse momento. Não quando acordei assustado depois de ter sonhos muito eróticos com minha morena desaparecida.

Sonhos muito, muito reais. Ainda me sinto pesado e excitado por dentro. É a primeira vez que acordei tão quente, tão necessitado por ela. Ao ver Glimmer dormindo pacificamente ao meu lado eu me enchi de nojo, e não pude permanecer mais um minuto sequer deitado ao lado dela. Não quando o meu corpo está tão necessitado do alivio que somente o corpo de Katniss pode me dar.

Não que o ato seja muito diferente com Glimmer, sexo é sexo em qualquer lugar e com qualquer casal, e eu tenho três anos de experiência apenas com Glimmer. Sem contar os meus casos na adolescência. Sexo é sexo. Um pênis e uma vagina são apenas isso, e corpos se roçando também são apenas isso. E Glimmer é receptiva e participativa em nossas noites de paixão.

E eu digo paixão, porque é apenas isso. É algo carnal, uma necessidade do corpo. Não faço amor com ela. Eu a fodo e é apenas isso. Não existe palavras bonitas ou carinho em nossas noites, não que eu seja rude, longe disso, eu apenas me mantenho distante. Eu sei que ela sabe e nota a minha mudança, mas não me importo, não consigo me importar com muitas coisas. E amor é algo que eu já não tenho em meu coração, estou frio e eu sei que esse apartamento não é o culpado.

Todo o amor, carinho e calor me deixaram no momento em que eu soube que Katniss tinha ido embora, ainda não consegui superar esse choque, é como se eu estivesse em um perpetuo estado de anestesia. E é por isso que o sonho que tive essa noite foi tão difícil de ser processado pelo meu cérebro confuso.

Eu estava fazendo amor com Katniss, um amor lento e quente. Eu a estava penetrando muito profundamente, suas coxas estavam em volta do meu quadril me prendendo em seu calor enquanto nossos corpos se roçavam suados. O que quero dizer é que estava conectado a ela, da maneira mais primitiva possível, e não era apenas algo carnal, era a sensação certa de que o meu espirito estava completando o dela. Seus olhos cinzas me prendiam a gravidade da terra, e eu chupava os seus lábios de maneira muito doce.

Por isso, quando eu acordei tive que me afastar de Glimmer. E não foi pelo sonho erótico, foi pelo que veio depois. No sonho eu fazia amor com Katniss e depois de gozarmos juntos eu apenas a agarrava apertado e ficava olhando para ela, Katniss estava com suas bochechas rosadas e molhada de suor, seus olhos brilhavam como as estrelas de verão e um sorriso saciado estampava os seus lábios.

Logicamente eu, muitas vezes, tive o prazer de vê-la assim, e de ser o responsável pelo seu sorriso. E foi isso o que me acordou, quando eu a vi sorrir eu tive a certeza de que isso era um sonho, pois Katniss não estava em meus braços, eu não a vejo a seis meses, seis longos meses. Rapidamente o meu coração se encheu do frio costumeiro e eu acordei assustado em minha cama. Para o meu desprazer, meu corpo ainda estava queimando por ela, todavia o meu coração estava gelado.

Caminho para a sala do meu apartamento e volto a encarar a Capital e suas luzes brilhantes. Eu queria estar de volta em meu antigo apartamento, aquele pequeno e aconchegante lugar, cheio de calor e do perfume de Katniss, de tintas e de quadros pintados para a minha morena. Eu queria ouvir o seu cantar suave quando ela estivesse distraída e sem achar que alguém a escutava, eu queria ouvir sua voz novamente, só mais uma vez. Eu queria tocar em sua pele macia e me aconchegar em suas curvas femininas, e daria qualquer coisa para provar os seus lábios e fazê-la gemer em meus braços. Minha Katniss.

Onde você está? Volto a me perguntar ao respirar irritado.

Tive que devolver o apartamento, não pude suportar ficar em um lugar que me lembrava tanto de Katniss. Isso aconteceu a que dois meses atrás, agora não sei se fiz bem, eu quero voltar a olhar todos os lugares em que fizemos amor, até o chão do corredor daquele apartamento carrega alguma lembrança de quando eu a fiz minha.

Deixo um sorriso triste escapar quando lembro que naquele dia, nós dois estávamos tão excitados que não conseguimos chegar ao quarto, em um minuto eu a estava prensando contra uma parede, no outro nós estávamos no chão, sob o meu tapete e eu tinha puxado o vestido dela para cima e depois de revestir o meu pau com uma camisinha eu estava entrando muito lentamente dentro dela. O vestido foi o grande culpado por tudo isso.

Acontece que Katniss quase nunca usa vestidos, e naquele dia ela apenas tinha passado algumas horas desfilando no apartamento dentro daquele vestido azul. O tecido era muito leve a abraçava as curvas dela, desenhando a sua forma para mim. Não pude resistir, eu tentei não parecer um animal faminto e no cio, mas duvido que tenha conseguido quando, depois de algumas horas de uma doce tortura visual, eu apenas a peguei como queria e me fartei de seu corpo.

Como eu poderia ficar morando em um lugar tão cheio de lembranças? Chorando noite sim e noite não, e sendo atormentado pelos fantasmas de minha memoria? Katniss me deixou, me abandonou. Eu não sei de seus motivos, e esse descaso com os meus sentimentos me deixou tão puto da vida, que as vezes eu apenas o odeio com todas as forças. Não que o sentimento dure, mas a dor de ser abandonado é muito forte. Eu merecia pelo menos uma explicação. Um misero adeus.

Eu me apaixonei por ela, estava completamente perdido de amor por aquele mulher. Eu ainda a amo desesperadamente. E diariamente sou envenenado por essa incerteza. Por que ela foi embora?

Haymitch não sabe explicar, ele também foi pego de surpresa quando regressou de sua viagem e não a encontrou em lugar algum. Fomos até na delegacia de policia, mas como não somos parentes e ela tinha desistido da Universidade, não havia nada que pudêssemos fazer, a policia não abriria um inquérito apenas porque eu não conseguia encontrar a minha namorada. Nunca vi Haymitch tão zangado em todos os anos que nos conhecemos.

A policia nos informou que ela tinha comprado um bilhete na estação de trem, descobriram isso através das câmeras. Mas, não podíamos nos informar para onde ela foi por se tratar de invasão de privacidade. Isso é uma grande besteira.

Pouco tempo depois, eu voltei a falar com Glimmer, ela veio me oferecer apoio na minha busca por Katniss, e isso foi um gesto muito lindo e doce, comparado a toda traição que fiz com ela. Sem ao menos notar, nós estávamos passando muito tempo juntos, e para voltar a nos beijarmos não foi muito complicado, eu estava enfurecido pelo abandono de Katniss e me sentindo muito sozinho. Glimmer estava disposta a me dar carinho e aceitação. Sem ao menos notar eu já estava caindo em uma cama com ela, tive que tomar muitos copos de uísque antes, e transar com ela não foi tão complicado.

Rapidamente eu aprendi a mascarar os meus pensamentos culposos por estar fodendo-a mais uma vez. Não permiti que Glimmer entrasse no antigo apartamento, isso era macular algo muito puro que tive com Katniss, era sujar algo que eu queria preservar, então guardei as pinturas na minha conta no banco, e num ato de raiva, que hoje eu me arrependo, eu me livrei de tudo o que era dela, doando suas roupas, sapatos e livros, todas as coisas que ela havia deixado no meu apartamento, para a caridade.

Eu queria me livrar dos quadros, mas não consegui. Eles são as provas mais perfeitas de tudo o que eu passei com ela, dos nossos melhores momentos. Quando eu penso nesse tipo de coisa eu me assusto, parece que estou falando e pensando em alguém que já morreu. E temo que isso seja verdade em meu coração, pois eu me sinto morto sem ela ao meu lado. Frio e morto.

A aliança de noivado esta guardada no banco de Panem, durante muito tempo eu apenas a carregava para cima e para baixo em meus bolsos, e todo o momento eu pegava o anel perfeito de ouro branco, e aquele perola cintilante e perfeita, rodeada de seus pequenos diamantes parecia que zombava de minha desgraça. No final eu tive que guardar isso também. Acho que Glimmer me viu com a aliança nas mãos, em algum momento de contemplação e agora secretamente ela espera que eu a peça em casamento. Isso não vai acontecer tão cedo.

A grande verdade é que eu não sei se algum dia eu vou superar a partida de Katniss, se vou conseguir estar longe dela sem sentir que estou morrendo lentamente. Se vou me sentir quente mais uma vez.

Finnick tem sido um bom amigo, ele e Annie vão se casar no próximo final de semana, eu sou o padrinho. Annie não chamou Glimmer para ser madrinha, acho que ela mandou um convite para Katniss, minha esperança é que ela venha ver a casamento de sua amiga. Se isso acontecer eu não vou permitir que ela me deixe mais uma vez sem explicação alguma. Ela me deve isso.

Talvez seja por isso que estou tão ansioso ao ponto de sonhar com ela. Talvez em uma semana eu volte a encontrá-la. Minha mandíbula travada por causa da ansiedade.

Eu vou voltar a deitar agora, mas não sei se vou conseguir dormir.

Eu quero que Katniss Everdeen olhe nos meus olhos e me diga o que aconteceu para ela me abandonar, eu sei que ela prometeu fazer isso se eu a fizesse chorar mais uma vez, se eu a fizesse sofrer. Entretanto eu cumpri com a minha palavra, eu fui verdadeiro com ela, eu não a fiz chorar. Ela não tinha motivo algum para me abandonar sem ao menos dizer um adeus.

Para onde ela foi? Meu cérebro me atormenta de forma incessante.

Essa sensação de impotência, medo, ansiedade e cansaço, aos poucos esta acabando com o meu espirito. Eu me sinto frio e sozinho, e posso dar todas as chances, porém eu sei que Glimmer não vai preencher o vazio do meu coração.

***

Katniss

"...When an ocean sits right between us
There is no sign that we'll ever cross
You should know now that I feel the loss
I hurt too, I hurt too..."

***

– Você parece um balão. — Ouço Johanna me dizer quando me vê entrando pela porta da frente do apartamento que divido com ela. — É sério, os seus pés sempre foram tão grandes ou você só esta andando estranho por estar do tamanho do mundo?

– Eu não estou gorda, estou grávida. — Eu repito a minha frase mais usada para a minha amiga. Olho para ela muito sarcasticamente. Johanna pode ser bem difícil, mas esta cuidando de mim, por incrível que pareça.

E isso é muito estranho já que eu nunca tive ninguém cuidando de mim. O pai de meu bebê fazia isso as vezes, mas eu nunca me senti confortável com alguém tomando todas as rédeas da minha vida. Já minha amiga não me deu opção.

Ela me faz comer constantemente, e no trabalho exige que eu me sente por pelo menos vinte minutos a cada duas horas de trabalho. O meu chefe não tem coragem de dizer nada, acho que Johanna o mataria se ele tentasse. Sem contar que ela esta dormindo com o cara, o que o impede de ser um filho da puta comigo. Ele bem que podia, afinal eu faço muitas pausas e isso não é legal para uma garçonete. Porém, o que posso fazer se estou enorme e me canso muito rapidamente?

E quem pode negar alguma coisa para Johanna? É sério, essa mulher pode ser bem insistente quando quer alguma coisa. Ela está convencida de que eu tenho que descansar bastante. Alias, ela anda dizendo para todo mundo que vai ser tia, acho muito fofo isso. Meu bebê vai precisar de toda a ajuda possível.

– Eu não estou andando estranho. — Digo para Johanna quando ela me olha cheia de humor.

– Está sim, Kateimosa. — Ela retruca depois de gargalhar. — Você anda igual a um pato gordo.

– Você é tão irritante. Não tem louça para lavar nesse apartamento, onde está o seu namorado? — Eu pergunto assim que descarrego a minha bolsa em um cabideiro e me sento toda desajeitada em uma poltrona. Não pode deixar de gemer feliz quando os meus pés relaxam.

Eu não estou tão gorda assim. Ela esta deliberadamente tentando me irritar, e eu suspeito que ela faz isso apenas para me distrair de pensar no pai da minha filha, o homem que eu não falo mais o nome, nem sequer me permito pensar no desgraçado. Ainda não pude aceitar e engolir que ele estava de casamento marcado poucos meses depois que eu fui embora da Capital.

Aquele loiro desgraçado. Eu estou aqui toda grávida e sozinha, e ele está fodendo aquele loira aguada.

Sem que eu perceba eu levo as minhas mãos até a minha barriga a faço carinho no bolo redondo que eu sou agora. Estou no sétimo mês de gravidez. Minha obstetra esta muito feliz com a minha gravidez, não tive nenhuma recaída, nenhum novo inicio de aborto. Meu bebê esta muito saudável. E isso para mim, é tudo o que mais importa no mundo, não vejo a hora de olhar no rosto da minha criança.

Uma menina! Foi o que a doutora me disse. Eu vou ter uma menina. Ainda estou pensando nos nomes para a minha filha. Minha princesinha. Estou em dúvida entre Elika, Marnina ou Elisa. Eu gosto muito de Marnina, mas meu bebê sempre chuta quando eu penso em chamá-la de Elika. Também acho a sonoridade de Elisa muito bonito. Estou tão em dúvida. As vezes me pego pensando em que nome o pai dela gostaria mais. Acho que ele não gostaria de Marnina, mas eu gosto tanto desse. Tenho quase certeza que ele escolheria Elika, esse nome tem uma sonoridade divertida e leve, muito doce. E sinto que minha menina combina com esse. Entretanto, eu gosto tanto de Marnina. E o cretino não está aqui para opinar em nada, então a decisão é minha.

Todos os dias eu mudo de ideia sobre o nome. Ontem eu tinha certeza que ela se chamaria Elisa, hoje quando acordei eu descartei o nome anterior e coloquei na cabeça que quero Marnina. Vai saber o que eu vou escolher amanhã. No final de tudo eu posso descartar todos esses nomes e chamá-la de algo que nunca imaginei antes, como Cintry, ou Lediny. Eu não sei, existem tantos nomes por ai.

Johanna gosta de Elika e Elisa. Detestou a ideia de chamar meu bebê de Marnina, disse que esse nome é idiota e que minha filha vai crescer uma sem noção ao ser chamada por um nome tão cheio de mimos.

As vezes, eu também imagino o que Haymitch pensaria ao me ver tão grávida e enorme, ainda bem que ele não pode me ver assim, eu sofreria de suas piadas eternamente, tenho certeza que ele não me deixaria em paz um dia sequer. Se Johanna é ruim, ele é dez vezes pior. Acho que ele gostaria de Marnina. Esse nome é lindo. Muito perfeito para o meu pequeno anjo.

Mas, Elika é...

Sou interrompida em meus pensamentos quando a minha menina me chuta com força. Esta vendo? Todas as vezes que eu penso no nome Elika, a minha menina me chuta. Será isso um sinal? Não sei.

– Você não vai chorar olhando o pôr do sol como da última vez, não é mesmo? — Johanna me acorda abruptamente de meus pensamentos, eu estava como sempre apreciando a vista das cores alaranjadas do crepúsculo, olhando muito distraidamente pela pequena janela de nossa sala de estar. — Não vai virar uma daquelas malucas que ficam aplaudindo o pôr do sol, não é? Esse tipo de pessoa sempre me deu arrepios, e eu me recuso a ser amiga desse tipo de gente.

– Aplaudir o pôr do sol? — Pergunto divertida ao encarar a minha amiga. Ela esta terminando de se arrumar para ir a um encontro com nosso chefe. Seu batom vermelho é reluzente como um farol. — Não, não acho que eu vá fazer esse tipo de coisa.

– Ainda bem, Katkat. Sabia que era amiga de alguém estranha, mas maluca já é demais. — Ela retruca ao sorrir. — E minha menina, está bem? Você a alimentou hoje? Já te disse que não vou ser tia de uma menina desnutrida não.

– Eu comi, ok? Muito! — Digo indignada, tudo o que eu faço é comer e comer. Nunca comi tanto em minha vida. Minha filha me enche de fome. E vou ao banheiro para esvaziar a minha bexiga a cada poucos minutos. Estar grávida é algo surreal.

As vezes eu me pergunto como as mulheres conseguem passar por isso, todos os dias e não enlouquecer? É sério. Todo dia é algo novo, uma emoção surpreendente atrás da outra. Nunca estive tão amedrontada e feliz em toda a minha vida, sem contar o tesão que sinto. Por todo céu, é muito tesão. Em algumas noites eu acho que vou enlouquecer de desejo, e o pai de minha filha é tudo o que eu quero na minha cama. Não sabia que grávidas tinham tanto apetite sexual. Será que todas passam por isso? Não conheço nenhuma outra grávida para perguntar, e tenho vergonha de perguntar isso para a minha obstetra.

Banho gelado ajuda, mas é difícil matar a vontade que algumas vezes me bate de lamber o pai de minha filha da cabeça aos pés, logico que eu pararia no meio do caminho e me fartaria com seu membro. Eu preciso que ele me foda com força. E isso não é tipo de assunto que eu penso em ter com a minha médica.

Sem contar que isso é muito injusto. Eu não deveria sentir nada disso por ele. O pai do meu bebê deveria estar enterrado em meu coração, não invadindo os meus sonhos e os transformando em algo erótico e quente.

– De qualquer forma eu fiz o jantar, espero que você jante bastante para que a minha menina nasça bem gorda. — Ela me diz ao me dar as costas e ir em direção ao seu quarto. Eu aproveito e me levanto, com dificuldade e vou em direção ao meu. Quero tomar um bom banho quente, jantar mais uma vez e depois deitar em minha pequena cama de solteiro e dormir.

Minha filha se meche preguiçosa dentro de mim. Acho que ela gostou da parte em que eu pensei em deitar, relaxar e dormir. Meu passarinho. Eu acaricio minha barriga mais uma vez, desde o momento em que eu sei que ela estava aqui dentro eu não pude deixar de tocar em eu estômago dilatado.

Ao entrar no meu quarto e ascender a luz, eu me deparo com minha cama forrada em um edredom verde floresta, um guarda roupas velho de madeira escura, e entre esses dois móveis, um berço de madeira branca.

Foi um presente de Johanna, o berço é de segunda mão, ou seja não é novo, mas esta muito bem conservado. Ela me deu o berço uma semana depois que eu descobri que o pai de minha menina iria se casar. Foi um gesto tão bonito, eu chorei por uma hora inteira. Claro que culpo esses hormônios malucos da gravidez. Nós duas o mantivemos desmontado até duas semanas atrás, quando eu decidi que já era hora de montá-lo. Estou no sétimo mês de gravidez, meu bebê ainda não vai nascer, mas a obstetra me mandou ficar de olho em qualquer sensação nova e estranha. Pode ser a minha menina querendo sair para o mundo.

Tenho que admitir que isso me enche de medo. Dentro de mim, ela esta protegido dos males do mundo, eu sempre vou protegê-la, porém ao estar dentro da minha barriga ela tem tudo o que necessita. Não passa fome ou frio, não tem pessoas estranhas e desconhecidas olhando para ela. Ela é somente minha, e não tenho certeza se quero dividir a minha menina com mais ninguém. O pai dela era uma exceção, mas a família dele nunca aceitaria a minha menina, e acho que ele também não.

O problema é dele e de seu família perturbada. Minha filha é somente minha. Ainda assim, eu não posso deixar de suspirar de forma triste todas as manhãs. Estou cada dia mais cansada, e não posso dizer o quanto isso é físico e o quanto é emocional. Até quando eu vou poder levar essa gravidez. A hora do parto me enche de medo, tem mulheres que morrem disso. Tenho tanto medo disso, e se eu não for forte o suficiente para tê-la, quem vai cuidar do meu passarinho?

Não posso pensar nisso agora, morrer no parto é raro. Acontece, mas não é frequente. Mesmo que eu tive uma complicação no começo da minha gravidez, eu tenho me mantido muito saudável desde então.

Johanna e eu lixamos o berço e o pintamos de branco, depois de dois dias secando, nós duas o montamos e agora ele parece novo em folha. Eu gastei um pouco e comprei um colchão pequeno e um jogo de berço, mantas e algumas roupinhas de recém nascido. Johanna também me comprou algumas roupinhas e fraudas descartáveis. Já tenho uma pequena banheira cor de rosa e vários potes de lenços umedecidos.

Sou a mais nova sensação do Clont's, lanchonete onde eu trabalho. Sou mimada por todos os funcionários. Ganhei muitos presentes até então. Já posso dizer que tenho todos o enxoval pronto. Todas as roupinhas que eu ganhei já foram lavadas e passadas e estão devidamente guardadas no meu guarda roupa, que é mais guarda roupa do meu bebê do que meu, já que eu tenho poucas roupas, mas minha filha tem muitas.

E existe tanta coisa linda, quase todos os dias eu me pego abraçando mantas cor de rosa e brancas como neve recém caída do céu em um dia de inverno no Doze. Ou fico cheirando os pequenos e delicados macacões de frio de minha menina, e todas as pequenas meias e luvas e gorros de lã. Estou no paraíso da maternidade, me sinto explodir de felicidade ao pensar que meu passarinho logo vai estar no meus braços.

Estou tão curiosa para olhar em seu rostinho, ver os seus olhos, os dedos das mãos. Com quem será que ela vai parecer? Secretamente eu espero que minha filha pareça com pai, e não é apenas por ele ser incrivelmente lindo. É porque eu quero ter algo dele comigo, quero olhar para o meu pequeno milagre e ver as características dele, nela. É maluquice, eu sei, e só vai me fazer sofrer, mas eu acho que mereço isso. Eu ainda o amo profundamente, e é justo que ele me dê algo em troca de meu amor não correspondido. Assim eu sempre terei um pedacinho dele perto de mim, algo que me pertence.

Eu queria que minha menina nascesse no Distrito Doze, igual ao seu pai e a mim. Entretanto, não posso voltar agora, seria imprudente, principalmente por minhas finanças. Hoje, mais do que nunca eu tenho que tomar cuidado com os meus gastos, desça vez não é apenas com a minha vida que eu estou jogando, eu vou ser mãe daqui à poucos meses.

Hoje foi o dia em que eu fui ao banco fazer o meu primeiro deposito desde que cheguei aqui no Distrito Sete, todo o dinheiro que eu ganhei, eu estava escondendo dentro da bolsa com o arco que o meu pai me deu. Hoje, reuni todo o valor e o depositei em minha conta corrente. Para meu horror eu confirmei um deposito feito pelas empresas Mellark's em minha conta, um valor muito alto, que poderia me manter por um ano inteiro. E sei que foi a mãe do pai de minha filha que fez o deposito, esse dinheiro é destinado para o meu aborto, para assassinar a minha menina. Quando coloquei os meus olhos nesse valor, eu prometi nunca utilizar nenhum centavo dessa soma. Posso morrer de fome, mas não vou utilizar esse dinheiro maldito. Não preciso dos Mellark's para nada, e muito menos do dinheiro dessa família.

***

Estou congelada no lugar, meu coração salta em meu peito com muita força. Por um breve momento, muito rápido, mas muito real eu apenas acho que vou desmaiar. Ainda bem que isso não acontece, não sei o que aconteceria com o meu bebê se eu apenas cair no chão com todo o meu peso. Com certeza não vai ser benéfico para a minha menina.

Não sei quem esta mais surpreso, e mais chocado. Eu? Ou meu velho amigo, Gale Hawthorne.

O que ele esta fazendo aqui no Distrito Sete? O que esta fazendo aqui na lanchonete onde eu trabalho? Como conseguiu me encontrar? Essas são perguntas que inundam o meu cérebro confuso e agitado. Eu até toco em meu peito para garantir que meu coração não sai sair pulando para fora.

Os seus olhos cinzentos estão arregalados ao olhar para mim. Mais precisamente, olhando para a minha barriga grande de grávida. Seus olhos voltam aos meus e eles queimam com algo que eu não posso dizer que é. Mas, certamente não são sentimentos felizes.

Não sei como tive coragem de me mover e ir até onde ele está. Minhas mãos vão para onde minha filha esta chutando com força. Ela esta agitada e não é de um jeito bom, é o tipo de chute que ela só usa quando eu estou com muita fome. O chute de "Mamãe, me alimente agora!".

Eu circulo o meu estômago dilatado muito lentamente, para acalmá-la. E depois de alguns segundos os seus chutes parecem diminuir bastante.

– Gale. — Digo ao sorrir para ele, estou tão chocada e feliz de encontrá-lo. — O que você esta fazendo aqui?

Ele não me responde, apenas me olha da cabeça aos pés, enquanto vejo suas narinas abrirem em sua inspiração profunda. Ele expira logo em seguida e volta a me encarar.

– Tem algum lugar onde podemos conversar? — Sua voz grossa me surpreende mais do que o seu olhar cortante.

Eu tenho que pensar um pouco antes que possa responder. Então é isso, nada de beijos, abraços ou sorrisos? Apenas essa intensidade alarmante. Ele esta fervendo por algo. E eu sei o que é.

É a minha gravidez, ele sabe que eu sempre fui reticente em ter filhos, que eu dizia, quando eramos jovens caçando na floresta que nunca teria os teria. Nunca me imaginei sendo uma mãe, nunca foi meu interesse ser mãe. Quer dizer, eu praticamente criei Prim quando ainda era uma menina, logo depois da morte de meu pai. Uma criança cuidando da outra, foi muita responsabilidade, eu nunca quis tal responsabilidade em minhas costas jovens.

Engravidei por acaso, por descuido, não foi a minha intenção. Agora não existe nada que eu possa fazer. Apenas arcar com as consequências de meus atos imprudentes, já que o pai da minha menina não quer nada conosco. Eu nunca permitiria que essa vida fosse jogada no lixo. Minha filha ainda não nasceu, todavia já é o meu mundo todo, a estrela mais brilhante no céu. Nada é mais importante que ela, nada.

– Sim, eu vou sair para almoçar agora, nós dois podemos ir ao parque que tem aqui do lado, o que acha? Ou prefere ficar por aqui? — Eu pergunto quando descubro onde a minha voz foi se esconder. Seus olhos cinzentos ainda queimam nos meus.

– Vamos ao parque. — Ele me responde de forma fria.

– Ok, apenas espere um pouco que eu vou bater o meu ponto de almoço e avisar a minha colega de setor. Já te encontro lá fora. — Eu o aviso e logo vou atrás de Johanna.

Ela não esta muito longe e mantem os seus olhos curiosos em meu amigo.

– Johanna, vou sair para almoçar, ok? — Digo para ela de forma discreto, afinal estávamos entre as meses dos clientes, e a lanchonete estava bem cheia.

– Quem é o gostoso? — Ela me pergunta em voz baixa, e eu posso ver a luxuria queimar em seus olhos.

– É uma amigo meu, do Distrito Doze. Eu não sei como ele me encontrou aqui, mas tenho que conversar com ele...

– Promete que vai me apresentar, eu já posso até imaginar os nossos filhos. Que homem! Qual é o nome dele? — Ela me pergunta muito rapidamente.

– O nome dele é Gale e você tem namorado, esqueceu? Ele também é noivo, então não se iluda. — Eu respondo depois de engolir a minha indignação. Johanna e Gale juntos?

– O Trodys é uma idiota, você sabe disso. E eu não sou ciumenta, depois que ele provar o que eu tenho para oferecer eu estou certa que ele nunca mais vai me abandonar...

– Nada de dar em cima do meu amigo, Johanna! — Eu retruco rapidamente. — Pelo menos não na minha frente, ok?

– Ok, kateimosa. Apenas vá almoçar e não se esquece de nos apresentar depois. Eu exijo isso! — Ela e diz e depois se afasta rebolando mais do que o normal. Quando eu olho para trás eu vejo Gale ainda me esperando, e é por isso que ela estava rebolando descaradamente. Johanna é inacreditável.

Eu corro, na medida do possível, para fazer tudo o que tenho antes de ir almoçar, e poucos minutos depois eu me encontro com Gale ainda parado no mesmo lugar, seus olhos estão presos em minha barriga e isso me deixa um pouco desconfortável, quer dizer, ele podia disfarçar o seu espanto.

– Podemos ir agora. — Eu digo e não espero que ele diga nada, apenas me afasto de onde ele esta parado e sigo para a porta de vidro na entrada da lanchonete. Eu sei que ele está me seguindo por mais que esteja quieto, igual a um defunto. O que diabos deu nele? Eu estou apenas grávida, isso não é o fim do mundo, na verdade, nesse exato momento Panem está cheia de mulheres grávidas.

Quando chegamos ao parque que eu estava falando, um lugar arborizado não muito bonito, mas funcional para o que eu tenho em mente, eu novamente não espero por ele, apenas vou até uma barraca de cachorro quente e compro dois, estou morta de fome. Meu estômago faz barulhos altíssimos, e minha filha me chuta tanto que eu tenho medo que ela consiga pular para fora da minha barriga a qualquer momento.

– Eu sei, eu sei...Você está com fome, eu também estou. — Começo a dizer muito baixinho, quase como um sussurro.

– Com quem você esta falando? — Ouço a voz de Gale ao meu lado, ele me olha muito atentamente.

– Com meu bebê. — Eu respondo depois de sentir o meu rosto queimar de vergonha. Esse é um hábito que eu peguei que não consigo mudar. — Você quer comer alguma coisa?

Minha filha é muito real, e mesmo que ela ainda não tenha nascido, eu não consigo ser fria em relação a ela. E converso com minha barriga o tempo todo. Sei que parece maluquice, mas minha menina me responde as vezes, com chutes ou apenas se movendo. Ela é muito expressiva.

– Não estou com fome. — Ele me responde depois de olhar para a minha barriga. É sério isso já esta começando a me irritar.

Depois que eu recebo o meu pedido e pago ao senhor na barraca de cachorro quente, eu e Gale nos afastamos até um banco embaixo de uma árvore grande e nos sentamos confortavelmente. Eu não consigo conversar com ele até ter terminado os meus dois cachorros quentes, minha barriga faz muito barulho, é a fome. Gale não parece se importar, apenas fica me observando atentamente, eu me sinto um rato de laboratório em suas vistas.

– Você realmente estava com fome. — Ele me diz e pela primeira vez sorri para mim. Esse é o amigo que eu conheço e amo.

– É o bebê. — Eu digo sorrindo de forma amarela, levo uma das minhas mãos até a minha barriga e faço um leve carinho. — A gravidez me deixa faminta, o tempo todo.

Nós dois ficamos em uma silêncio bem constrangedor depois disso.

– O que você esta fazendo aqui na Distrito Sete, Gale? Como me encontrou? — Eu me escuto perguntar, meus olhos estão focados em um par de passarinhos em uma galho próximo. A curiosidade volta a queimar dentro do meu peito.

– Você sabe porque eu estou aqui. Eu estive todos esses meses te procurando, Katniss. Estava tão assustado com a sua última ligação, você disse que me ligaria, que me manteria informado, mas não ligou. A alguns dias atrás eu consegui rastrear um deposito que você fez no banco, e agora eu estou aqui...- A voz dele é austera quando me explica os seus motivos. Sim, eu prometi que ligaria, entretanto confesso que com tudo o que aconteceu eu esqueci completamente disso. — Você esta grávida. É dele?

– Sim. — Eu respondo eu olhar o seu belo rosto. — Eu engravidei dele, nós dois fomos muito irresponsáveis, eu não imaginei que estava grávida até chegar aqui no Distrito Sete. Agora não existe nada que eu possa fazer. Eu liguei para avisar que estava grávida e a mãe dele me pediu para abortar, eu decidi que não faria, eu não poderia fazer nada para machucá-la.

– A mãe dele pediu para você abortar? — Ele parece cansado e indignado com o que eu disse, eu sei que falei mais do que ele perguntou, mas eu achei que seria melhor assim.

– Não só pediu, como me mandou um bocado de dinheiro. — Eu respondo depois de um suspiro.

– E a canalha? Por que não esta aqui do seu lado? — Ele faz a pergunta de ouro da minha vida.

– Ele vai se casar com a antiga namorada. — Eu respondo e fico surpresa por não engasgar nenhuma vez, não gosto de pensar nisso, sempre acabo chorando.

Gale não me responde, apenas fica encarando o nada, sua expressão é muito séria. Eu queria abraçá-lo, queria ser confortada por alguém que amo, mas sei que não devo pedir esse tido de coisa para ele, eu sei que a amizade que temos é forte e ao mesmo tempo esta equilibrada na ponta de uma faca, a qualquer momento nós dois podemos nos separar para nunca mais nos encontrarmos. Somos demasiadamente parecidos. Duas peças de quebra cabeça feitas do mesmo molde.

– Eu sabia que aquele filho da puto não servia para nada. Desgraçado! Queria ter sido mais duro com ele, queria desfigurar aquele riquinho metido a besta. — Ele resmunga sozinho e eu não entendo nada do que ele disse. — Como você pode não usar camisinha? Não se prevenir, Katniss eu achei que você fosse mais inteligente do que isso...

– Eu sei, eu também achei. E nós usamos camisinha, não todas as vezes, mas usamos as vezes, eu apenas não sabia que iria acontecer, ok? Não engravidei de proposito. Você sabe que eu nunca quis filhos, mas agora que minha menina está aqui eu vou ter que lidar com isso de uma forma ou de outra. — Tento me explicar. Fui estupida em não me prevenir direito, eu sei disso.

– Sua menina? — Ele me pergunta e seus olhos voltam para a minha barriga.

– Sim, é uma menina. — Eu digo ao sorrir.

– E o que você pretende fazer agora? — Gale me pergunta, seus olhos voltam a encontrar com os meus. Ele me encara muito seriamente.

– Eu ainda não tenho certeza, estou começando a arrumar a minha situação financeira, graças a uma grande sorte que eu não fui demitida quando descobri da gravidez. Eu pretendo juntar dinheiro, reformar a casa dos meus pais no Distrito Doze e me mudar para lá. Você sabe que lá é o meu lugar, eu estou aqui apenas pelo emprego, mas quero criar minha filha lá. — Começo a recitar os meus planos, eles não são muitos bons, porém é o que eu tenho no momento. — Talvez, fazer um curso de verão, se eu conseguir dinheiro para pagar por isso. Minha única prioridade no momento é minha filha, é a única coisa que consigo pensar.

– E como estão as coisas por aqui? — Ele me pergunta ainda muito serio.

– Bem, eu acho. Melhor do que caçar para comer, com certeza.- Eu digo e deixo uma pequena risada escapar de meus lábios. Estou rindo de puro nervoso, não sei porque, mas a presença do meu amigo esta me deixando muito desconfortável.

– Catnip, Catnip. — Ele diz ao voltar a encarar o nada.

Eu também fico em silêncio, ele está muito concentrado, não sei onde a sua mente está, mas não gosto de vê-lo tão quieto.

– Não se preocupe, Gale. Eu vou ficar bem, eu sempre fico. — Eu me escudo dizer, até estico o meu braço e o toco no ombro, nosso primeiro toque depois de meses. Ele olha para a minha mão e depois para os meus olhos. — É bom ver você novamente.

– Venha. — Ele me diz ao estender a mão e pegar na minha, antes que eu note eu estou em seus braços e ele esta me abraçando apertado. — Eu quero que você venha comigo para o Distrito Dois.

Distrito Dois? Penso rapidamente, e logo sei que não é uma boa ideia. O que eu faria lá? Quem empregaria uma mulher grávida? E ficar com ele não é uma ideia muito inteligente. Gale tem Madge, ela surtaria se soubesse que eu estava morando com o noivo dela. Sem contar que os favores da amizade vão até certo ponto.

– Eu agradeço. Mas, não acho uma boa ideia. — Respondo ainda em seus braços. — Aqui eu tenho um emprego e um teto.

– Eu cuidaria de você, Catnip. — Ouço a sua voz grossa dizer em meu ouvido.

– E viver as suas custas, Gale? Você sabe que eu não poderia, e não vejo como Madge poderia aceitar essa situação. — Eu digo de forma bem sincera.

– Madge não se oporia, não depois que eu explicasse as coisas para ela. Ela sabe tudo o que eu sinto por você, sabe que você é minha melhor amiga. E eu quero cuidar de você, quero cuidar dessa menina que você carrega, não eram os meus planos quando eu cheguei aqui, eu tenho que admitir, mas agora que eu sei o que você esta passando eu apenas não posso virar as minhas costas para isso. — A voz dele e decidida e suave.

Meus olhos se arregalam e eu me afasto para olhá-lo. Não estou entendendo muito bem o que ele esta propondo. Ele quer que eu divida um apartamento com ele, não é mesmo? Igual ao que eu faço com Johanna? Ou ele esta pedindo, o que eu acho que esta pedindo...

Não pode ser. Eu devo estar entendendo errado.

– Pense nisso, Catnip. Sua menina poderia ser minha também, eu vou aceitá-la e amá-la. Prometo cuidar dela como se fosse minha. O cretino seria esquecido, e seria apenas nós dois novamente. Igual a quando nós dois eramos adolescentes. Eu te darei um lar, e seriamos uma família. — A mão dele esta no meu rosto, afastando uma mecha de meu cabelo escuro e a colocando delicadamente atrás da orelha.

– Eu não tenho certeza se estou entendendo onde você quer chegar. — Eu consigo cuspir, minha voz não passa de um sussurro amedrontado.

– Eu quero que você seja a minha esposa, quero me casar com você. Dar um lar a sua filha. — Ele me diz muito seriamente. — Nós dois somos amigos, sabemos que nos damos bem. E meus sentimentos por você nunca mudaram.

– Mas, e Madge? — Pergunto confusa, isso é algum tipo de pegadinha, meu corpo esta tremulo e gelado.

– Madge superaria. E agora eu moro no Distrito Dois, eu sei que você quer voltar para o Doze, mas Katniss, o Distrito Dois é um lugar muito bonito, ótimo para viver. Eu tenho um bom emprego, e estou crescendo dentro da corporação. E eu quero você ao meu lado, nós dois poderíamos fazer isso hoje mesmo, em uma capela aqui no Sete. Nós embarcaríamos amanhã para o Dois e você nunca mais estaria sozinha novamente. — ele me diz cheio de esperança.

Oh, não! Penso nervosa, isso é pior do que eu imaginava. É a nossa adolescência se repetindo, a mesma coisa que aconteceu naquele dia na floresta, naquele manhã de domingo, depois que eu terminei com Tom e Gale achou que seria uma boa ideia me beijar.

Ele quer que eu me case com ele? Que me torne a sua esposa, a futura Senhora Hawthorne?

– Não, Madge não vai aceitar, você sabe o quanto ela te ama. Gale, pense direito. Ela faria qualquer coisa por você, espera o casamento de vocês à anos. Isso não é justo com ela. — Eu digo ao segurar em sua mão. Minha filha esta muito quieta dentro de mim, parece que sabe que as coisas não estão muito bem aqui do lado de fora.

Um lado muito racional dentro da minha mente, pensa na proposta do meu amigo. Me casar com ele me traria uma estabilidade financeira e emocional muito grande, ele esta certo quando disse que eu nunca ficaria sozinha novamente, e isso seria ótimo para minha filha. Ter um pai para cuidar dela, para vê-la crescer. Gale não é rico, igual ao pai de minha menina. Mas, ele é muito batalhador, e eu sei que nada no mundo me faltaria.

E bom, não é como se Gale fosse feio, ele é lindo. Tem uma beleza clássica, austera e forte. Ele é um homem muito integro. Da minha maneira eu o amo, ele é meu melhor amigo, nós dois carregamos um história juntos. Mas, ser esposa dele? Tê-lo me beijando e colocando as mãos no meu corpo?

De repente sou inundada de imagens de olhos azuis profundos me olhando, de um riso rouco ao meu ouvido, do cheiro suave do pai de minha filha a minha volta. Meu coração se enche de calor, e eu sei que não poderia pertencer a mais ninguém. Eu já amo alguém, eu ainda amo alguém muito desesperadamente.

Eu sei que nós dois não vamos mais nos encontrar, que ele não me ama, que me pediu para ir embora, para me afastar dele de uma vez por todas, que eu fui um grande erro em sua vida. Todavia, eu ainda o amo. Pensar em estar nos braços de qualquer outro homem me deixa enjoada. Não poderia entregar o meu coração para mais ninguém.

– Eu não posso Gale, você sabe que eu gosto de você, que é meu melhor amigo. Mas, não posso aceitar o que você esta me pedindo. Você acha que eu te faria feliz, mas a verdade é que eu não sou o que você precisa. E você me honra com essa proposta, e me mostra o quanto é meu amigo. Isso eu não vou esquecer jamais. — Eu respondo o mais sincera possível. — Não posso aceitar, não posso.

– Você nem ao menos pensou a respeito. — Ele me diz ao pegar na minha mão. — Tudo o que eu quero é proteger você, cuidar de você...

– Eu sei, eu sei. E isso é muito doce, mas não posso aceitar. Eu...bom, eu... é difícil dizer isso, mas eu ainda amo o pai da minha filha, sou apaixonada por ele, mesmo que ele não me ame e não me queira, eu não sei ser de outra forma, não sei deixar de sentir o que sinto. Eu não poderia ser sua esposa, Gale. Não, amando outro homem. Eu faria você infeliz, e eu não seria feliz. — Não tenho coragem de olhar para ele, sei que a minha recusa vai magoá-lo muito. Mas, eu realmente achei que ele tinha enterrado os sentimentos românticos que tinha por mim. Isso é tão complicado, tão constrangedor.

Minha filha me chuta uma vez, é como se ela estivesse me dando forças.

Gale continua apertando a minha mão, todavia não me diz nada. Eu não quero perder a sua amizade, e não quero ser esposa dele. Madge vai fazê-lo feliz, eu confio que vai. Ele apenas precisa dar uma chance a ela.

– Eu não sei se vou conseguir te ajudar estando tão longe de você. — Gale me diz, sua voz é forte, mas eu posso notar a nota de decepção. — Você promete que vai me avisar se precisar de alguma coisa?

– Eu prometo. — Digo quando encontro coragem para encará-lo. Seus olhos cinzentos estão cheios de dor, ele me olha com um silencioso adeus. Meu peito se enche de alivio e dor.

– Ele não merece você, Catnip. Não merece o seu amor e a sua devoção. Você vai sofrer apenas por ser obstinada, não posso mudar a sua opinião, e os céus sabem o quanto eu estou cansado de esperar por um sinal seu. Se isso é o que você quer, eu vou respeitar, mas se você mudar de ideia pode me procurar, nem que seja apenas para passar um tempo comigo no Dois. Eu vou gostar de te ver lá. — Ele me diz e eu o acho tão maduro por entender o minha posição. Nunca quis magoá-lo. Nunca. Apenas não posso retribuir os seus sentimentos.

– Obrigada Gale, eu sei que não mereço a sua amizade, mas ainda assim eu sou egoísta o suficiente para não querer que você se afaste. — Eu confesso depois de um suspiro.

–Vem, vamos voltar, você precisa continuar a trabalhar e eu vou voltar para o Dois. — Suas palavras me cortar o coração. Eu o estou machucando nesse exato momento.

Tudo o que eu sei é que não posso segurá-lo ao meu lado, e depois da minha recusa eu nem sei se vou revê-lo novamente, eu espero que sim, mas não ficaria chocada se ele nunca mais quisesse olhar no meu rosto.

Tudo é tão confuso, tão difícil. Por que eu apenas não posso amar alguém que me ama? Por que tive que me apaixonar por um homem que me despreza? Me sinto sozinha e perdida.

Não posso trazer Gale, meu amigo, para isso. Ele merece ser feliz. E eu vou ficar bem, vou lutar para ficar bem.

Johanna vai ficar decepcionada por ele ir embora tão rápido.

Notas finais
Uhuuu mais um capítulo finalizado. Gostaram? Vocês esperavam esse pedido do Gale? Acham que a Katniss fez bem em recusar? Os comentários do capítulo anterior serão respondidos até quinta. Um grande abraço e até a próxima (=