Amarras do Passado

43 I Won't Give Up - Jason Mraz


Notas iniciais
Olá pessoas. Sim, eu sei que eu sumi, e eu tenho motivos para isso acontecer. Primeiramente eu gostaria de pedir desculpas por isso, não foi a minha intenção. mas fui levada a isso. Estava na época de trabalhos e provas da faculdades, e sério, eu tinha prova TODOS os dias. Então, eu não conseguia tempo para escrever, e quando eu conseguia eu simplesmente não escrevia. Pela primeira vez em Amarras do Passado eu passei por um bloqueio criativo. Não aparecia nada na minha cabeça, tudo o que eu escrevia estava ruim. Esse capítulo foi muito difícil de ser escrito, peço desculpas por isso. Muito obrigada por todos os comentários, prometo que vou responder a todos eles. Prometo! Vocês são minha principal motivação para Amarras do Passado. Obrigada por todo o carinho. A música desse capítulo me faz chorar muito. É tão linda! *.* Enfim, enjoy ^^

Dias Atuais

Peeta

"...I don't wanna be someone who walks away so easily
I'm here to stay and make the difference that I can make
Our differences they do a lot to teach us how to use
The tools and gifts we got yeah, we got a lot at stake
And in the end, you're still my friend at least we did intend
For us to work we didn't break, we didn't burn
We had to learn how to bend without the world caving in
I had to learn what I've got, and what I'm not
And who I am..."

***

Isso doí. É a primeira coisa que penso quando começo a recobrar a consciência. Doí muito mesmo. Meu corpo todo doí, minha cabeça esta explodindo. Onde eu estou?

Tudo é muito confuso, e minha cabeça doí muito. Por isso decido começar pelas pequenas coisas, ainda estou sonolento demais para abrir os olhos. Com o tato noto que estou deitado em uma cama confortável, quente e macia. E isso é a primeira coisa boa que noto, chego até mesmo a me aconchegar ainda mais nos cobertores e puxo o grosso edredom para cobrir a minha cabeça. Debaixo das cobertas e do edredom eu noto o perfume, é forte, muito forte aqui dentro e está em tudo.

Katniss. Meu cérebro dispara, mas tudo é tão comodo que ainda não me permito abrir os olhos. Será que estou alucinando? Isso parece um sonho, um sonho muito bom onde eu estou deitado em uma cama com Katniss Everdeen. Eu já tive esse sonho antes, na verdade eu tive centenas de sonhos com Katniss. Mas nos meus sonhos nós dois não usávamos uma cama para dormir, nós a usávamos para fazer coisas muito mais prazerosas.

A dor na minha cabeça me alerta que não é um sonho. Nenhum sonho pode ser tão doloroso assim, e eu estou com sede, muita sede. O travesseiro que uso tem o cheiro dos cabelos de Katniss, e eu em um ato de pura saudade enterro o meu rosto com força na fronha branca e inspiro profundamente. O perfume dela faz com que minha cabeça pare de doer por alguns instantes.

Eu quero entender o que esta acontecendo, por isso eu apenas relaxo o meu corpo e me permito lembrar o que aconteceu nas últimas horas. Eu me lembro que estava preso e que meu pai pagou a minha fiança, eu discuti novamente com a minha mãe e somente lembrar disso já faz com que uma nova dor de cabeça se forme. Depois eu fui até um bar e comecei a beber, e bebi muito. Deve ser por isso que estou com uma dor de cabeça tão grande.

Aperto os meus olhos com força e me lembro da noite anterior.

A dor era interminável, algo que tomava todo o meu corpo, sem começo ou fim.

Passava pelo mental e se tornava física. E eu já não me importava se era meia noite ou cinco horas da manhã, eu me lembro que a muito tempo já tinha perdido a capacidade de calcular as horas. Meus olhos turvos pela quantidade excessiva de bebida me diziam que os ponteiros do meu relógio de pulso tinham se transformado em algarismos estranhos e incompreensíveis.

Que se foda. Eu pensei depois de dar um longo gole em minha garrafa de uísque.

Lembro que a chuva sob a minha cabeça era implacável, eu estava encharcado e tremendo de frio enquanto dava passos cada vez mais cambaleantes pela calçada, e meus pensamentos confusos continuavam a não ligar para o meu desconforto.

Em outro momento, dessa vez eu já não sabia o quanto tinha andado, eu tive que parar para me curvar em agonia quando senti uma forte onda de dor se apossar do meu coração. Dor pura e lenta, macia e maléfica.

Eu quis gritar por causa da frustração. Mas, não fiz.

Katniss, Darius e minha filha indo embora do parque à alguns dias atras eram tudo o que eu podia ver. Elika acenando um adeus educado de longe, não fazendo ideia de quem eu sou. Os três eram a imagem de uma família perfeita e feliz.

Minha filha. Gritava uma voz dentro do meu cérebro embriagado. Não filha de Darius, minha menina, minha Elika.

E nesse momento eu me lembrei do choque que senti quando coloquei os meus olhos na minha filha pela primeira vez. Esse momento jamais seria esquecido por mim.

A menina era sem dúvida alguma filha de Katniss e minha. Um pequeno anjo perfeito. Suas feições delicadas de criança lembravam os traços perfeitos do rosto de Katniss. Entretanto, haviam os pequenos detalhes, e eram nesses detalhes onde eu podia enxergar eu mesmo.

Minha filha tem os meus olhos, o meu sorriso, o meu jeito de deixar cair a cabeça quando estou pensativo, os meus gestos com as mãos quando estou falando. Coisa que Katniss nunca teve.

Eu cambaleio por mais alguns metros até encostar em um poste de iluminação, a chuva continua a castigar aqui na Capital, e lentamente me força a ficar sóbrio, e isso é algo que eu não quero, não quando a dor da realidade é tão grande. Ainda assim sem me importar com o tempo eu dou um outro longo gole na minha garrafa de uísque e depois que sinto o liquido queimar dentro de mim é que começo a andar sem rumo novamente.

Não posso deixar de me perguntar os motivos para a minha própria mãe ter feito isso comigo. Esconder Elika de minha vida, me impedir de conhecer a minha própria filha. Se Katniss não tivesse arcado com essa responsabilidade imensa sozinha, hoje a menina nem existiria.

Novamente eu volto a me lembrar do pequeno anjo me olhando como se eu fosse um completo estranho, ainda assim sorrindo de maneira tão meiga que derreteu qualquer raiva que eu estivesse. Elika é um farol brilhante em meio a tempestade, um lugar que eu quero alcançar. Porém, depois do que eu fiz na escola dela, eu não tenho mais tanta certeza se Katniss vai permitir a minha aproximação.

Minha mente girou com a lembrança de Katniss histérica quando eu a confrontei no parque, em como eu fui atrás de respostas, da minha espera angustiante pela demora do banco em me fornecer as informações necessárias. Eu culpei Katniss, mas não deveria. A culpa por tudo isso recai nos ombros de outra pessoa.

Com mais raiva do que nunca eu me lembro de pegar a garrafa de uísque e com toda a força que conseguia eu a joguei em um murro qualquer. No final eu descobri a verdade, descobri as tramoias da minha mãe, as mentiras que ela utilizou para me afastar de mulher que eu amo, para feri-la e humilhá-la. Todo o mal que fez, e aquela mulher maligna somente se importou consigo mesma. E por ser egoísta e mesquinha acabou por afastar de mim, aquilo que eu mais queria. Afastou a mulher que eu sempre amei, me tirou a oportunidade de conhecer e fazer parte da vida da minha filha, e de formar uma família com Katniss.

Xingo mentalmente ao perceber tudo o que eu perdi, todas as oportunidades que nunca mais seriam utilizadas, todos os anos que se passaram. Nada disso iria voltar.

Katniss nunca me perdoaria, e Elika nunca saberia que eu era seu pai. Me lembro de pensar, ainda cheio de dor e confusão que nunca teria a oportunidade de amá-las.

Sem saber Katniss me deu o maior presente da minha vida. Ela me deu um elo de sangue nos ligando para sempre. E minha filha nunca me chamaria de pai.

Nesse momento eu tive que me curvar novamente quando uma outra onda de dor me abateu direto no peito, acho que nem mesmo pude controlar os soluços que saiam de mim. A coisa mais quente que sentia eram as minhas lágrimas que escorriam por minhas bochechas.

Eu me sentia destruído, um homem sem nada a perder.

E dessa vez eu não poderia perder Katniss, eu tenho que reconquistá-la, tenho que ter mais uma chance. Ou vou perder Elika também. Mas, como vou fazer com que ela me escute?

Eu lembro de continuar cambaleando e tomei um susto quando reparei que estava diante de uma porta verde. O meu inconsciente me levou para o único lugar onde eu de fato queria estar. De frente da casa de Katniss.

Como eu cheguei até aqui eu não faço a menor ideia. Naquela hora da madrugada ela e minha filha já deviam estar profundamente adormecidas. Sem pensar nas consequências, e mais corajoso do que nunca, um efeito sem dúvida nenhuma do álcool no meu sangue, eu fui até a porta e me sentei desajeitado no tapete de entrada, tudo estava molhado e gelado e muito desconfortável, todavia eu não me importei com nada disso, apenas me sentei com minhas costas apoiadas na parede e fechei meus olhos.

Me lembro de pensar que se o único modo de ter Katniss e Elika ao meu lado fosse eu passar a noite sentado sozinho, na chuva em frente a casa delas, que seja. Tudo bem. Eu faria sem questionar. Eu não tinha nenhum outro lugar onde quisesse estar mais do que aqui, mais importante do que nessa casa com a porta pintada de verde. O importante, na minha mente embriagada, é que ali eu permaneceria.

Meu último pensamente coerente, se é que eu posso chamar aquilo de coerente, foi o de pensar em Katniss deitada em uma cama quente e confortável, protegida dessa noite tão fria.

Será que ela estaria dormindo sozinha? Pensei bêbado e ciumento. Eu esperava que ela estivesse. Seria uma tortura muito cruel saber que ela estava com o namorado.

Depois disso eu não consigo me lembrar de mais nada da noite anterior, tudo é um branco dolorido dentro do meu cérebro. Minha mente apagou completamente tudo o que aconteceu depois disso.

Sem conseguir me conter por mais tempo eu apenas abro os meus olhos debaixo do cobertor e assimilo tudo ao meu redor, não dá para ver muita coisa pois esta muito escuro aqui em baixo, e o perfume suave e gostoso de Katniss faz milagres em meu corpo. Eu tiro as cobertas e o grosso edredom de cima da minha cabeça e olho em volta.

Todo o quarto esta levemente iluminado por fachos de luz que entram por brechas nas cortinas. Mas, as cortinas foram fechadas, o quarto não é muito grande, mas parece ser bem aconchegante. Quando eu me sento, eu noto pela primeira vez que estou completamente nu, logo o meu peito se enche de vergonha. Minha cabeça gira dolorosamente, mas ainda assim eu não consigo me lembrar de nada mais depois de me sentar na porta de Katniss. Ao lado de sua cama, existe um criado mudo, em cima deste estão as minhas roupas lavadas e secas, dobradas cuidadosamente. Também estão um copo de suco da laranja, e ao seu lado um pratinho com dois comprimidos. Cuidadosamente colocado ao lado das roupas e do copo de suco existe um bilhete.

Por mais que eu esteja com sede, não posso evitar de atacar o bilhete com presa.

Abro o pequeno pedaço de papel branco com presa.

Peeta,

Por favor não vá embora, nós dois precisamos conversar.

Tome os cumpridos e beba todo o suco, vai te fazer bem. Se tiver fome tenho comida na geladeira.

Ass.: Katniss

Eu devorei a nota uma centena de vezes. Estou na casa de Katniss, estou dentro da casa de Katniss, dormindo em sua cama. A grande surpresa disso fez com que o meu cérebro desse um giro completo e eu não pude evitar que um gemido de dor escapasse de meus lábios.

Ressaca. Eu dou um nome para a minha dor agora. Muito lentamente eu coloco o pequeno bilhete de volta no lugar e mais mecanicamente do que nunca eu me visto. Minhas roupas estão limpas e exalam um cheiro bom de amaciante. Fico constrangido quando percebo que Katniss deve ter lavado as minhas roupas. O que levanta uma série de perguntas constrangedoras.

O que eu estou fazendo dentro da casa dela? O que aconteceu na noite passada? Será mesmo que eu estava tão bêbado que ela teve que me dar banho e me por para dormir? E Elika, será que minha filha me viu nesse estado lastimável?

Eu, sinceramente, espero que ela não tenha me visto assim. Não faço a minima ideia em que horário da madrugada eu cheguei aqui na casa das duas, e tomando pelo silêncio aqui dentro, eu posso afirmar que estou sozinho.

Depois que estou vestido, eu me sento na cama ainda quente e pego as pilulas que Katniss deixou em um pratinho em minhas mãos. Coloco-as na boca e pego o copo de suco de laranja para tomar alguns goles, lentamente eu me forço a engolir o medicamente, enquanto vou tomando pequenos goles do suco. Ele é natural, e tem um gosto muito bom, não demora muito e eu sinto que o pior da minha sede esta sendo aplacada.

Enquanto espero que o remédio faça efeito, sinto uma curiosidade quase infantil tomar o meu peito e os meus pensamentos. Meu corpo esta muito cansado, o que é um sinal clássico de desidratação causada pelo álcool, sinto os meus músculos fracos e meus movimentos lentos. Ainda assim eu me levanto do meu lugar na cama e vou até a janela fechada pelas cortinas grossas e escuras. Eu as abro e tenho que piscar algumas vezes quando a claridade do dia machuca os meus olhos, essa sensibilidade me irrita, mas eu estou preso em um mundo surreal ao meu. Muito maluco e divergente.

Mal posso acreditar que eu estou aqui, dentro da casa de Katniss e Elika. Que Katniss me pediu para esperar por ela, que quer conversar comigo. Isso é tão louco e ao mesmo tempo é tudo o que eu mais quero. Aos poucos começo a sentir uma ligeira coceira mental vinda com uma ansiedade tremenda. Por isso eu apenas fecho os meus olhos e inspiro e expiro algumas vezes, para tentar me controlar do pior da ansiedade.

Eu olho para a rua do lado de fora e percebo o dia nublado e cinzento que esta fazendo, existe muita umidade na rua o que indica que choveu durante todo o dia. Com muita curiosidade eu procuro por um relógio, e depois de uma olhada em volta do quarto eu consigo encontrar um pequeno relógio em cima de um segundo criado mudo. Já são quatro horas da tarde, eu dormi muito, apaguei completamente.

Depois de um longo suspiro eu me pego respirando tranquilamente pela primeira vez em muito tempo, todo o quarto me lembra Katniss. Uma penteadeira simples com uma escova de cabelo e alguns frascos de perfume e um longo espelho esta encostada na parede esquerda do quarto, e eu posso vê-la sentada ali, penteando os cabelos antes de dormir, sem perceber eu apenas vou até ela e pego a escova marrom nas mãos, levo as cerdas macias até o meu nariz e inspiro o perfume de Katniss. Pelo espelho da penteadeira eu posso ver o estado alarmante do meu rosto, meu olho esquerdo esta inchado e roxo, meu lábio inferior também esta levemente inchado e existe um corte nele, deve ser por isso que doí tanto. Minha barba esta a vários dias sem ser feita o que me deixa com uma aparência de desleixo e descaso.

Não gosto do que vejo no espelho, não gosto do que eu me transformei. Que papel ridículo eu devo ter feito ontem a noite, aparecendo aqui na casa dela com a aparência de um morador de rua.

Devagar eu coloco a escova de cabelo de Katniss de volta em seu lugar e me afasto da imagem no espelho, é quando eu noto que estou descalço, meus pés estão diretamente no assoalho de madeira, mas não me importo com isso, não é como se eu estivesse com frio.

Sem pensar muito, afinal estava com dor de cabeça, eu decido dar uma volta pela casa, conhecer tudo dentro dela. Eu sei que parece com uma terrível invasão de privacidade, porém não penso muito nisso, tento ao máximo não pensar nos contras dessa ideia, apenas me concentro nos prós. Não é como se eu fosse sair por ai contanto para as pessoas o que eu descobri aqui dentro, prefiro ver como uma forma de conhecer Katniss mais uma vez, de aprender sobre o pessoa que ela se tornou em todos esses anos ao estar afastada. O seu closet não me mostra muita coisa, ela tem muitas roupas sociais, e é patético dizer que eu me pego abraçando seus casacos e vestidos, passando os vários tecidos suaves pela bochecha, apertando esses mesmos tecidos em meus punhos, os mantendo seguros em meu agarre.

Katniss tem alguns sapatos sociais, e roupas normais em algumas gavetas, suas bolsas, cintos e lenços, tudo o que uma mulher precisa esta perfeitamente organizado. Eu evito mexer em sua gaveta de lingerie, é engraçado, mas eu acho que isso já é uma invasão de privacidade.

A presença dela é muito grande aqui, se eu fechar os meus olhos eu posso senti-la ao meu redor. Tenho que me afastar do closet dela, ou eu posso cair no choro a qualquer momento. Com cuidado eu fecho a porta do closet e me afasto, antes de sair do quarto eu pego o bilhete que ela me deixou e o coloco dentro do meu bolso.

Abrindo a porta do quarto eu dou uma olhado em volta, acabo saindo para um corredor pequeno, um jarro de flores está em uma pequena mesa próximo a uma pequena janela, e existem duas portas fechadas, uma a minha frente e uma a minha direita.

Sem medo de ser pego no flagra eu apenas caminho até a porta na minha frente e a abro. Entrei em uma pequeno banheiro. Tudo esta organizado aqui também, existem duas toalhas presas em pegadores nas paredes, uma branca e uma rosa, um toalha branca de rosto esta próximo a pequena pia. Fora isso existe um cesto com roupas que eu suponho sejam sujas, mas que no momento esta vazio, uma banheira com alguns brinquedos coloridos de plástico dentro e um vaso sanitário.

Eu posso jurar que mataria por uma chance de ter a minha escova de dentes aqui comigo. Me pego pensando se Katniss ficaria muito chateada se eu usasse a dela, eu sei que ela vai ficar, mas sinceramente falando eu estou com um gosto de coisa morta na boca, eu preciso escovar os meus dentes. Fico nesse dilema por alguns minutos, até que o meu lado mais higiênico toma conta de mim, e eu não posso mais aguentar, apenas procuro a escova de dentes de Katniss e a utilizo rapidamente e tento ser o mais eficaz possível. Depois coloco a pequena escova de dentes branca no seu suporte, e saio do banheiro me sentindo muito mais limpo. Fecho a porta atrás de onde estou para não ter peso na consciência.

Meus olhos imediatamente são chamados para a segunda porta fechada, eu quero entrar lá dentro, sei o que me espera, mas não sei se estou muito preparado para o que vou encontrar. Sem notar que me movi, eu me pego na frente da porta de madeira, com minha mão na maçaneta, olhando a pequena placa presa a porta onde está escrito com letras coloridas e cheias de brilho "Elika".

Meu coração dispara no peito quando eu tomo fôlego e abro a porta. Assim que coloco um pé para dentro do quarto eu travo em pé, cheio de emoções tomando conta de mim.

Esse é o quarto da minha filha. Penso cheio de euforia, ao entrar no pequeno quarto, não preciso acionar as luzes pois ainda esta claro do lado de fora e por mais que a janela do quarto dela estava fechada apenas pela parte de vidro, as cortinas não estão fechadas.

Eu posso dizer que me sinto entrando em outra dimensão. Quero explorar cada pequeno pedaço desse quarto, quero conhecer tudo sobre a minha filha.

O quarto não é grande, é bem menor do que o de Katniss, uma pequena cama de solteiro esta encostada na parede próximo a janela, um edredom rosa esta cobrindo a cama, na parede inversa existe algumas prateleiras presas a parede, sob elas eu posso ver algumas bonecas e ursos de pelúcia, alguns livros de contos infantis e uma caixa que pelo que pude entender estava cheia de fitas para o cabelo, fitas de cetim de todas as cores, muito bonitas e delicadas. O cheiro no quarto é doce e posso jurar que é cheio de inocência.

Elika também tem seu próprio closet, e dessa vez eu não posso evitar que lágrimas escorram pelo meu rosto quando passo os meus dedos entre as suas roupas infantis, vestidos e casacos, shorts e saias, tudo é tão pequeno e delicado. Tudo é dela, da minha menina. Suas botas e sapatos são tão pequenos, e existem sapatilhas cor de rosa. Será que ela faz balé? Acho que sim, isso explicaria muita coisa.

Não sei quanto tempo eu passo lá dentro, exploro tudo o que posso tocar com minhas mãos curiosas e olhos atentos. Uma das paredes do quarto esta pintada com uma infinidade de tons, é muito parecido com o que Katniss tinha no dormitório estudantil, só muda pelo fato de que no dormitório estudantil as paredes do quarto de Katniss eram pintadas na mesmo desordem de tons, mas a cor escolhida por ela, naquela época era o verde. Eu sempre adorei a bagunça verde que ela criou, sempre foi reconfortante olhar para ela. Agora, no quarto da nossa filha ela recriou o que tinha feito antes, a mudança esta nas cores escolhidas, existe um arco iris inteiro aqui pintado, tudo de forma bagunçada, mas essa mistura inusitada não fica estranha, é bonito de se olhar e combina muito com o pequeno lugar. Eu tenho certeza que minha filha ama isso.

Praticamente me chuto para fora do quarto da minha filha e sigo pelo corredor, desço as escadas e vou para o andar de baixo. A casa é menor do que eu esperava que fosse, não que isso me incomode, é o lugar mais aconchegante em que já estive, tudo em volta tem um toque de Katniss ou Elika.

No andar de baixo o primeiro comodo que eu entro, após atravessar um pequeno corredor, é a sala de estar. Posso dizer por este comodo que Katniss não tem muito moveis. Um sofá grande esta encostado em uma parede , ao lado dele existe uma poltrona marrom, um projetor de televisão esta montado em uma peça de madeira de frente a parede oposta a do sofá grande. Uma mesinha de madeira pequena tem um bonito arranjo de flores ao lado da janela da sala, as cortinas desse ambiente estão levemente fechadas em uma bonita renda bege que traz privacidade ao lugar, mas não é pesada ao ponto de deixar tudo escuro. Entretanto, nada disso me chama mais atenção do que olhar para a coleção de fotografias em porta-retratos alinhados em uma estante.

As fotos de seus familiares, as mesmas que estavam expostas em seu quarto no dormitório estudantil estão arrumadas em uma bonita ordem. Lá estão as pessoas que Katniss mais ama. Seu pai, sua irmã, fotos da família que ela perdeu. Existem fotos novas a coleção já existente, agora são fotos de vários momentos perdidos para mim.

Muitas fotos de Elika, eu a vejo crescer sem nem perceber. Uma foto em especial me chama a atenção, eu pego o porta-retrato nas mãos para dar uma olhada mais de perto. Nessa foto Katniss esta deitada no que parece ser uma cama de hospital, seus olhos estão brilhantes, cheios de lágrimas não derramadas e um sorriso grande estampa os seus lábios, enquanto segura um pequeno bebê nos braços, minha filha esta enrolada em uma manta rosa e esta protegida por sua mãe.

Katniss esta radiante nessa foto, acho que nunca a vi tão feliz em toda a minha vida. Eu sei que esse deve ter sido o dia do nascimento de Elika, e eu sinto uma dor amarga me queimar por dentro. Eu deveria estar ao lado dela, meus braços deveriam estar em volta das duas. Tenho que colocar o porta-retrato de volta no lugar, ou vou enlouquecer. As outras fotos mostram momentos aleatórias na vida das duas. Elika com o rosto cheio do que parece ser glace de bolo e um sorriso banguela, enquanto uma Katniss sorridente esta ao lado dela. Minha filha dando, o que me parece ser os seus primeiros passos. Katniss beijando as bochechas de nossa filha, enquanto essa gargalha de felicidade. Elika nos braços de uma mulher que eu não conheço, mas que a abraça sorrindo. Uma outra foto em que Katniss e Annie estão sentadas, minha filha esta no colo da esposa de Finnick que sorri. Tem até mesmo uma foto de Effie e Haymitch com Elika nos braços.

Não existe nenhuma foto minha aqui. A injustiça disso queima profundamente dentro da minha alma. Me afasto das fotos e me encaminho para o segundo comodo.

Entrei em uma cozinha arrumada e aconchegante. De repente sinto uma sede matadora tomar conta de mim. Vou direto para a pia da cozinha e depois de procurar eu consigo encontrar um copo dentro de um armário. Estou bebendo goles deliciosos de água quando alguma coisa chama a minha atenção.

Eu me aproximo da geladeira para dar uma melhor olhada e sou tomado de nova emoção ao notar os desenhos presos na porta da geladeira, são todos desenhos rústicos e toscamente pintados, as coisas mais lindas que eu já vi, porque são todos desenhos de Elika. Eu tenho certeza disso, não preciso nem pensar duas vezes. Meu coração volta a disparar quando eu noto um desenho em particular. Existem três figuras nesse desenho, duas delas eu posso reconhecer como sendo Katniss e Elika. Minha menina retratou as duas muito lindamente. A terceira figura desenhada ao lado delas me intriga muito, e eu sinto as lágrimas banharem os meus olhos muito antes de notar que estou emocionado mais uma vez. Sou eu, a terceira figura pintada por Elika, sou eu. O pai dela.

Essa é a nossa família, Katniss, minha filha e eu. Nós somos uma família. Eu só preciso fazer com que Katniss entenda isso, e me dê uma chance, eu já estou aqui dentro do santuário intimo delas, o lar que eu almejo, que eu quero pertencer. Agora preciso achar um jeito de continuar aqui dentro.

Depois de lavar e guardar o copo que eu usei, eu apenas me encaminho para a sala de estar e me sento, fico olhando para a janela fechada por algum tempo. Eu deveria comer alguma coisa, Katniss disse que eu podia, mas agora que eu sinto que minha cabeça já não doí mais, e que meu corpo não esta incrivelmente dolorido eu apenas quero estar em silêncio, pensar no que vou fazer.

Já é noite na Capital , o que me leva a pensar o quanto tempo eu fiquei na minha exploração pela casa de Katniss. Mais do que eu esperava ficar, tenho certeza disso. Levo um tremendo susto quando escuto o barulho da porta da frente se abrindo. Eu me levanto de um pulo e atravesso a sala de estar saindo para o pequeno corredor entre a porta de entrada e a escada para o segundo andar.

Fico parado com o meu coração saindo pela garganta. É agora. Penso aflito e ansioso.

A porta se abre e uma Katniss cheia de coisas entra na casa. Elika esta em seus braços, seu rosto enterrado no pescoço da mãe, os braços roliços em volta dos ombros de Katniss.

Katniss me olha surpresa, seus braços não estão apenas ocupados em segurar a nossa filha, ela carrega uma infinidade de sacolas, uma mochila cor de rosa, que deve ser da nossa menina e uma bolsa preta. E ainda por cima esta de saltos altos.
Eu corro para ajudá-la, tento pegar Elika de seus braços, mas ela a aperta mais fortemente em seu corpo.

– As sacolas. — Ela me diz em voz sussurrante. — Por favor, e a mochila de Elika.

Eu faço do jeito que ela pediu e retiro tudo de seus braços cansados, Ela chega a soltar um suspiro cansado e cheio de alivio quando eu pego tudo, menos a nossa filha de seus braços. Katniss abraça Elika com ainda mais cuidado.

– Vou colocá-la para deitar e depois nós dois podemos conversar, ok? — Me diz ela ao me encarar, sua voz ainda é sussurrante quando fala.

– Quer que eu a leve? — Pergunto ao apontar para nosso menina adormecida?Elika esta vestindo um casaco vermelho grosso, eu mal posso ver o seu rosto.

– Não precisa, eu consigo com ela. — Katniss me responde ao virar de costas e começar a subir as escadas em seus saltos matadores.

Eu não sei como agir, então fico parado no mesmo lugar, com uma mochila cor de rosa, uma bolsa preta e algumas sacolas nas mãos. Esperando por Katniss.

Não demora muito e eu a escuto descer as escadas, ela me olha seria e para um pouco antes do último degrau. Meus olhos a devoram e eu não posso evitar que isso aconteça. Katniss Everdeen é a mulher mais bonita que eu já vi. Hoje ela veste uma calça social justa e uma camisa social branca de mangas cumpridas e renda. Meus olhos cravam nos seios roliços quando ela tira o casaco preto de frio e o coloca em um armário escondido na parede ao lado da porta.

– Vamos para a cozinha, lá vai ser melhor conversarmos. Elika pode acordar a qualquer momento e eu não a quero participando disso. — Katniss me diz ao estender os braços para pegar as sacolas e todo o resto que estava comigo. Eu a olho irritado e seguro tudo mais fortemente.

– Onde eu deixo tudo isso? — Pergunto ao me recusar a deixar que ela carregue esse peso desnecessário.

Por um breve instante, ela apenas me olha divertida e depois revira os olhos.

– Na cozinha. — Responde ao se virar e se encaminhar para lá.

Eu a sigo um pouco mais confiante do que antes. Quando entramos na cozinha, ela se vira, me olha e aponto para a mesa redonda no canto. Eu coloco tudo em cima da mesa e me viro para ela. Esta na hora da nossa conversa, não posso esperar mais, minha ansiedade esta me matando e eu preciso conversar com ela, como preciso respirar.

– Katniss, eu...

– Espere. — Ela me diz, ao levantar uma mão e se apoiar na geladeira da cozinha, muito lentamente, mas com firmeza ela tira os seus saltos altos e juro que soltou um gemido de alivio tão suculento, que eu me sentir esquentar inteiro. Essa mulher ainda vai me matar, é isso o que sei. Depois de colocar os sapatos em um canto, ela me olha mais animada. — Desculpe, eu já não podia mais com esses saltos. Você tomou os comprimidos que eu deixei?

– Sem problemas, e sim eu tomei os comprimidos. Obrigado por deixá-los, foi muita gentileza sua. — Eu digo ao encará-la, meu cérebro ainda esta processando o seu gemido anterior, eu sei e não foi proposital, mas agora que eu o ouvi, eu apenas quero deitá-la nessa mesa e fazê-la gemer mais uma vez.

– Ok, e você comeu alguma coisa? — Ela volta a me perguntar com as bochechas coradas, será que percebeu que eu estou secando os seus seios?

– Não estava com fome...- Respondi ao passar a língua pelas lábios. Tenho até que cruzar os meus braços para conter a minha vontade de ir até ela.

– Você deveria ter comido, Peeta. — Ela diz ao colocar uma mecha de seu cabelo escuro atrás da orelha.

– Você esta adiando a nossa conversa, Katniss. — Eu digo ansioso.

– Eu sei. — Ela retruca ao me encarar de lado. — Eu apenas não sei como começar a falar sobre tudo isso.

– Que tal eu começar. — Falo rapidamente, minha voz é forte. — Eu sei de tudo agora, eu conferi as contas e descobri do deposito. Eu não fazia ideia de que minha mãe estava escondendo isso, que ela tinha te pedido um aborto. Não fazia a minima ideia de nada disso, eu não estou envolvido com as tramoias dela, Katniss. Você tem que acreditar nisso, e eu não sabia que você tinha sido expulsa, eu nem sequer cogitei a ideia de você estar grávida.

– Eu sei, Peeta. Agora eu sei. O seu pai veio conversar comigo ontem, e me confirmou o que você esta dizendo, eu acredito nisso agora. Mas, isso não muda o fato de que eu não quero sua mãe perto da minha filha, não depois de tudo o que ela me disse. Eu quero que você saiba que eu não estou aqui na Capital para tirar dinheiro de sua família, ou para te exigir qualquer coisa. Elika e eu estamos bem, a vida é difícil para todo mundo, mas eu prometo cuidar dela com todo o carinho e atenção, não quero que minha filha seja humilhada pela sua família. — Ela me diz tudo de uma vez. Seus olhos cinzentos queimam nos meus.

– Eu também não a quero perto da minha mãe, Katniss. Você não sabe o mal que essa mulher me fez, ela tirou vocês duas de mim. Eu passei todos esses anos acreditando que você não me queria, que tinha ido embora por vontade própria. E você estava com a minha filha nos braços, enfrentando o mundo todo nas costas, e eu estava com Glimmer apenas para te fazer mal, apenas para provar que se você não me queria, que havia alguém no mundo que queria...Katniss, eu estou perdendo a minha fodida mente com tudo isso. — Eu retruco muito veemente.

– Isso não tem mais a ver com você e comigo, Peeta. Agora tudo é sobre Elika, sobre nossa filha. Eu nunca quis tê-la sozinha, mas as circunstancias me levaram a isso. Elika é a pessoa mais importante da minha vida, toda a minha vida gira em torna dela, de fazê-la feliz, de dar segurança e estabilidade para ela, mas nos últimos meses, tudo o que ela me perguntava era sobre o "papai" dela, onde você estava, quando vinha encontrá-la? O que você acha que eu podia responder? Que mentiras eu deveria inventar? Você esta perdendo a sua fodida mente? Imagina passar anos com uma criança nos braços, sozinha porque o pai da criança estava com outra mulher, a avó paterna achava que eu estava atrás de dinheiro, por isso me mandou abortar, e minha própria mãe não podia suportar o choro da minha filha e não me queria por perto, eu não tinha dinheiro, eu não conseguia um emprego porque todos achavam que eu era uma vagabunda por ser mãe solteira, e eu não tinha ninguém ao meu lado.

Katniss ia desabafando e lágrimas grossas escorriam por seu bonito rosto. Eu não esperava isso, não esperava o seu desabafo, suas lágrimas. Isso faz com que eu me sinta estranho, perdido e confuso.

– Você nunca vai poder entender o que eu passei, e as coisas já não são mais como eram antigamente, eu não sou mais a garota iludida de amor, que acreditaria em qualquer coisa que você dissesse, apenas porque era você que estava falando, e eu estava tão apaixonada. Mas, quando eu tive que lutar pela vida da minha filha com todas as minhas forças, as minhas perspectivas de vida mudaram. Eu estava lá, Peeta. Sozinha. Sozinha, e você não estava lá...

Katniss para de falar abruptamente quando tampa a boca com as mãos para controlar os soluços, eu nunca a vi chorando assim. Isso foi muito repentino e difícil de escutar, apenas noto que me movi quando eu coloco os meus braços em volta dela e a aperto apertado contra o meu corpo, agi impulsivamente eu sei, mas não pude me conter. O meu corpo todo se dilacera pela dor dela. Katniss também me abraça apertado e me segura com força, eu a deixo chorar o quanto quer, sei que esse momento não é complicado apenas para mim. Ela também tem sua própria carga emocional com o que lidar.

– Por um lado, eu não posso deixar de pensar que você foi a sortuda, Katniss. — Eu digo em seus cabelos, meus braços ainda estão em volta do corpo dela, não posso soltá-la, ainda não posso me afastar dela. — Eu sei que foi horrível para você, eu realmente não posso imaginar o que você passou tendo que cuidar da nossa filha sozinha, mas você foi sortuda em ficar com ela, em ter algo em que se segurar quando o pior da nossa separação aconteceu. Eu também não tinha ninguém. Você conhece Elika, sabe tudo sobre ela, eu não a conheço, não sei nada dela a não ser que ela é minha filha, e eu queria tanto ter estado lá, daria qualquer coisa para poder estar ao seu lado quando nossa menina nasceu, e obrigado por isso, por me fazer pai, por me dar o maior presente de todos.

– Eu sei que Elika é importante para você, Peeta. — Eu a ouço dizer em meu pescoço, seu halito quente faz minha pele arrepiar. — Agora eu sei disso, e não quero afastá-la de você. Eu não quero que sua mãe acabe vencendo no final e que você se afasta de sua filha. Ela quer te conhecer, quer ter um pai e eu não vou negar isso para ela. Eu quero que vocês se conheçam, que criem um laço emocional.

– Eu também quero isso, Katniss. — Respondo ao passar as mãos em seus cabelos escuros, lentamente , sem que Katniss perceba, eu encosto o meu nariz em seus cabelos e inspiro, sou tomado por seu perfume de flores. — Na verdade, eu sou capaz de implorar por isso. Mas, antes eu apenas quero te pedir desculpas pelo o que eu fiz na escola de Elika, eu não estava tentando tirá-la de você, acredite. Não para sempre, pelo menos, apenas algumas horas até você me encontrar para que pudêssemos conversar.

Sinto os dedos da mão esquerda de Katniss nos cabelos da minha nuca, ela faz um carinho preguiçoso ali, o que me deixo todo arrepiado.

– Eu sei que não, mas não faça mais isso, Peeta. Ou posso não te perdoar, eu lutei tanto para tê-la, para mantê-la segura que não suporto a ideia de perdê-la. — Ela me diz ainda em meus braços, não acho que ela sabe o que esta fazendo comigo, ou se notou que esta me fazendo carinho.

– O que você quer dizer com isso? Eu não entendo. — Sussurro nos seus cabelos, lentamente eu me sinto aquecer por dentro, a sensação não é primeiramente erótica, é o fato de eu ter Katniss mais uma vez nos meus braços.

– Depois de alguns meses que eu cheguei no Distrito Sete, eu tive um inicio de aborto. Foi algo espontâneo, eu garanto, mas tive que me estender em turnos puxados de trabalho, já que eu não tinha muito dinheiro, e foi assim que o aborto começou, eu não tinha ideia de que estava grávida, apenas achava que estava engordando, e acabei por passar mal do trabalho. Graças, que Johanna ficou comigo o tempo todo.

– Quem é Johanna? — Eu pergunto curioso, mas minha pergunta esta mais voltada para distrair as sombras malignas que estavam nos olhos dela. Eu mesmo estou abalado por sua declaração de que quase teve um aborto espontâneo.

– É a madrinha de Elika, nós duas dividíamos um apartamento no Distrito Sete, ela me ajudou muito no primeiro ano de vida de Elika. — Responde ao suspirar cansada. — Você vai conhecê-la logo mais, daqui a algumas semanas, no aniversário de Elika.

– Vocês duas nunca mais vão precisar ter medo. — Eu digo convicto, a sensação de que tudo vai dar certo agora é muito grande. — Eu vou cuidar de vocês, nunca mais vou sair de perto de nenhuma das duas.

Pela primeira vez eu sinto Katniss congelar em meus braços.

– Do que você esta falando? — Ela sussurra muito rapidamente, sua mão na minha nuca para com o carinho tranquilo.

– De você e de Elika, agora que nós dois sabemos que tudo em nossa separação foi uma mentira muito grande, eu não vou mais me afastar. Nós dois vamos fazer dar certo, Katniss. Eu prometo. — Minha mente nunca esteve mais tranquila do que agora.

Na mesma hora Katniss escapa dos meus braços, ela se afasta alguns passos e me olha seriamente.

– Vamos deixar uma coisa clara, eu não estou nesse pacote que você esta criando. Eu quero que você faça parte da vida da nossa filha, mas nós dois não temos nada o que consertar...

– É claro que temos. — Eu digo ao tentar me aproximar dela, Katniss é mais rápida e acaba escapando mais uma vez. — Os meus sentimentos por você não mudaram.

– Bom, eu não posso fazer nada a respeito disso, Peeta. Mas, as coisas já não são como antigamente e eu não vou mudar de ideia. Estou saindo com Darius, e vou continuar saindo com ele. O que eu estou te oferecendo são duas semanas dentro da minha casa, para que você conheça a nossa filha, crie um laço com ela e só. Não confunda as coisas.

– Eu não estou confundindo nada. Você ainda acredita que eu fiz aquele ligação, não acredita? Que eu terminei com você? — Eu pergunto sentindo um inicio de irritação crescer em meu peito. — Eu não fiz ligação nenhuma, Katniss. Eu não terminei nada com você...

– Você pode não ter feito a ligação, Peeta. Porém, existindo uma ligação ou não, a fato é que temos quase cinco anos em nosso caminho, eu mudei, você mudou. Eu não vou me envolver nisso mais uma vez, eu já te disse que sofri muito da última vez...

– As coisas vão ser diferentes agora. — Eu insisto, Katniss pode ser bem teimosa quando quer. — Nós dois temos uma filha juntos, temos que ficar unidos.

– Não ouse me chantagear dessa forma. Você vai ter o contato que quer de Elika, mas vai dormir no meu sofá, vamos deixar isso claro. Eu estou te dando uma oportunidade de fazer parte da vida dela, mas não existe mais um você e eu juntos. — Katniss me diz muito seriamente, eu eu sinto a irritação aumentar em meu peito, ela pode ser tão teimosa. Descaradamente eu desço os meus olhos para os seios dela. Eu sei um modo de fazê-la mudar de ideia, e eu vou gostar muito de fazê-la ceder lentamente.

Vejo a respiração de Katniss aumentar, e eu sei que ela sente essa energia gigantesca queimando em nossa volta.

– Pare de me olhar assim. — Eu a ouço sussurrar, seus braços vão imediatamente cobrir o que eu estava admirando. — Não vai acontecer, Peeta. Tire isso da cabeça, ok? Nós ainda temos muito o que conversar.

– A conversa pode esperar para depois. Talvez eu deva te lembrar o que você esta perdendo, antes que você me afaste de vez...

– Espere! — Ela diz ao estender os braços na minha direção, barrando a minha passagem para o seu corpo. — Vamos, Peeta. Apenas espere um pouco, ouça...

No começo eu não escuto nada, mas depois meus ouvidos são tomados por barulhos no andar de cima, pequenas passos apressados que parecem estar vindo direto para a cozinha.

– Mamãe? — Ouço a voz doce e infantil chamar do andar de cima.

Toda a excitação do momento vai embora, e eu fico apenas com a ansiedade e um certo medo. É agora. Penso eufórico. O momento que eu sempre esperei é agora.

Katniss e eu apenas ficamos em silêncio, ouvindo o barulho dos pequenos pés, andando de um lado para o outro no andar de cima, depois no que pareceu ser a escada, e por fim no corredor ao lado da cozinha.

– Elika, mamãe esta na cozinha. — A voz de Katniss me acorda dos meus devaneios.

A entrada dela na cozinha foi muito suave, seus cabelos estavam bagunçados e seu rosto estava inchado de sono. Seus olhos azuis se cravaram nos meus e eu me sinto flutuar e afundar ao mesmo tempo.

Minha filha correu para as pernas de sua mãe e a abraçou de forma desajeitada, ficando um pouco atrás, e me olhando curiosa e temerosa. Katniss passou um braço pelos ombros dela ao se abaixar para ficar da mesma altura que nossa menina.

– Tirou um bom cochilo, passarinho? — Perguntou ela ao alisar carinhosamente o rosto de Elika.

Elika não respondeu, apenas acenou afirmativamente com a cabeça, uma de suas mãos estavam fechadas em punhos, enquanto a passava pelos lábios, ela usava um uniforme comum de uma escola infantil. E não sei porque estava ficando tão emocionado. O fato de ver Katniss, com minha filha nos braços encheu o meu peito de calor, e os meus olhos de lágrimas.

– Onde esta o seu calçado? Não quero que você ande descalça, o chão esta muito frio. — Katniss disse para a nossa menina. Mais uma vez Elika não respondeu, apenas me olhava desconfiada e voltava a encarar a mãe.

Quando ela fez menção de se afastar, provavelmente para calçar alguma coisa, Katniss a deteve.

– Opa, agora não. Depois você pega o seu calçado, primeiro a mamãe quer te apresentar alguém muito importante, é alguém que você queria muito conhecer e ele esta aqui apenas por você. — Katniss diz para a nossa filha, os olhos azuis de Elika estão presos em sua mãe. — Sabe quem é esse homem?

Mais uma vez Elika apenas fez um sinal negativo com a sua cabeça. Katniss me olhou com um pequeno sorriso no rosto e depois voltou a encarar a filha.

– O nome dele é Peeta Mellark. — Ela disse para a nossa pequena. — Ele é o seu papai, não é legal? Ele estava muito ansioso para conhecer você.

Dessa vez Elika me olha mais intensamente.

– Ele é o homem do parque. — A sua voz doce diz para a mãe.

– Sim, ele é. E também é o seu papai. — Vejo Katniss insistir ao passar a mão muito suavemente pelo cabelo escuro de nossa filha. — Você vai lá abraçá-lo, não vai? Ele queria muito te ver.

Sem pensar duas vezes eu me ajoelho no chão e estendo os meus braços para recebê-la. Elika exita por alguns segundos, mas depois com um pequeno sorriso nos lábios ela se solta dos braços de Katniss e vem ao meu encontro.

O nosso abraço é mais desajeitado do que eu esperava, ela é pequena e frágil, tenho medo de apertá-la, de machucá-la. Seu corpo é quente e seu cheiro infantil me faz ter vontade de chorar. Meu coração esta disparado no peito quanto eu sinto os seus pequenos braços me abraçarem pelo pescoço. Eu me afasto o suficiente apenas para olhar em seu rosto infantil.

Elika esta sorrindo, e seus olhos estão brilhando e nada no mundo seria capaz de me afastar dela agora, não faria isso por ninguém, nem mesmo por Katniss.

Essa é minha filha. Sangue do meu sangue.

– Você é o meu papai? — Ela me pergunta ao colocar uma de suas pequenas mãos no meu rosto.

– Sim. — Eu forço as palavras a saírem da minha boca, é difícil falar quando se esta tentando controlar os soluços. — Eu sou o seu papai.

Eu lanço um olhar furtivo para Katniss, e a vejo em pé, à alguns passos de onde eu estou com nossa filha nos braços. Ela definitivamente esta enxugando algumas lágrimas que escorrem por suas bochechas.

– Por que você esta chorando? — Minha filha pergunta muito seriamente. A curiosidade tipica de sua mãe queima nela. — Papai, o senhor caiu? Esse machucado doí muito?

Elika esta apontando para o meu rosto, na verdade para o meu olho inchado. Eu sinto os seus dedos muito delicadamente alisarem a minha pele machucada.

– Sim, Elika. Papai machucou o olho e esta doendo um pouco, não muito, mas eu não cai. — Eu respondo a sua pergunta muito seriamente, depois a minha mão vai até o rosto delicado da minha menina e eu faço um carinho desajeitado nela. Sua pele é macia e delicada.

– Eu vou dar um beijinho para sarar, ok? — Elika me diz ao se inclinar e encostar os lábios no meu olho machucado, ela faz isso muito gentilmente, o que faz com eu perca muito do meu autocontrole, e volto a chorar mais uma vez.

– Muito obrigado. — Eu respondo sorrindo em meio as lágrimas.

– Por que o senhor esta chorando? Por que todos choram quando me encontram? — Minha menina chega a curvar o próprio pescoço para criar um ar divertido quando me pergunta essas coisas de forma seria e curiosa.

– As pessoas ficam emocionadas quando te encontram. — Katniss responde ao enxugar o seu próprio rosto.

– Obrigado. — Eu digo ao olhar para Katniss. — Obrigado.

Katniss não me responde, apenas sorri de forma suave e acena afirmativamente com a cabeça. Ela entende o que estou passando agora, o turbilhão de sentimentos em meu peito. Eu ainda mantenho os meus braços em volta da minha filha. Não sei se tenho forças para me separar dela agora, ou nunca mais.

– Passarinho? Você não quer entregar o presente que comprou para o seu papai? — Ouço Katniss dizer a nossa filha.

– Sim. — Grita Elika feliz, ela faz o maior esforço e se contorce nos meus braços querendo sair do meu aperto. Quando eu percebo a sua intenção eu a deixo no chão mais uma vez, meus braços sentem falta dela na mesma hora, eu até mesmo olho curioso para Katniss que se afasta de nós dois até as sacolas que eu deixei em cima da mesa. Ela pega uma sacola média e vai até Elika.

Minha filha estica os braços e pega a sacola dos braços da mãe, depois ela se virá na minha direção e com as bochechas vermelhas de vergonha caminha até onde eu continuo agachado e muito lentamente ela me entrega a sacola nas mãos.

Eu pego a sacola e a abro para verificar o conteúdo dentro. Não existem muitas coisas, apenas duas camisetas de algodão, bonitas e confortáveis. Um pacote fechado com duas cuecas e um pijama azul.

Elika esta muito silenciosa esperando a minha reação do presente.

– Você não vai contar que escolheu as camisetas sozinha? — Katniss se aproxima de Elika e a incentiva a ser corajosa, mesmo que nossa pequena tenha as bochechas escarlates de timidez.

– Papai, eu escolhi tudo sozinha. A mamãe me ajudou, mas fui eu que escolhi. — A voz doce de Elika é suave e cheia de vergonha, ela gesticula lindamente com as mãos.

– Esse é o presente mais bonito que eu já ganhei. — Digo ao me aproximar de Elika e depositar um beijo em seus cabelos escuros. Ela apenas deixa escapar um risinho feliz e corre para abraçar Katniss. — Eu adorei, muito obrigado.

– Papai, onde esta o meu chocolate? — Minha filha pergunta de modo muito casual, eu não sei do que ela esta falando por isso olho para Katniss em busca de uma explicação. Mas, ela não esta olhando para mim, e sim para Elika.

– O seu papai só vai te entregar o chocolate se você buscar a Bubu para ele ver. Ela é a sua boneca predileta, não é? — Katniss responde antes que eu tenha tempo que me pronunciar. — Vamos, passarinho, vai lá no seu quarto e pega a Bubu para o seu papai ver.

– Ok, mamãe. — Respondeu Elika ao pular alegre e correr para o corredor. No meio do caminho ela volta apenas para me olhar muito seriamente. — Não vai embora papai...

E volta a correr desesperadamente. Katniss me surpreende ao se mover ainda mais rápido pela cozinha, ela corre até onde sua bolsa de couro preta esta, e a abre no mesmo instante. Eu não consigo ver o que ela estava pegando, mas pouco depois, quando ela se vira mais uma vez, eu a vejo estender para as minhas mãos uma pequena caixa com algumas trunfas dentro. Eu olho para a caixa vermelha com uma fita prateada e me surpreendo sem saber o que fazer.

– Quando Elika chegar, você entrega essas trunfas para ela, ok? Apenas diga que foi você que comprou e que não se esqueceu do que disse para ela. — Diz Katniss muito seriamente, seus olhos cinzentos espertos estão atentos nos meus.

– Eu não entendo. Prometi trazer chocolate para ela? — Pergunto confuso.

– Sim, quando você falou com ela por telefone lá na casa de Haymitch, você disse para ela que levaria chocolate, pois então você vai descobrir que não se pode prometer coisas para uma criança de três anos e não cumprir, elas insistem nisso eternamente, e não esquecem com facilidade. — Diz Katniss olhando para a porta por onde minha filha saiu.

Eu me sinto envergonhado por não me lembrar disso, quer dizer, foi uma promessa para a minha filha, eu deveria me lembrar disso, não? Mas, existiram um turbilhão de coisas acontecendo nos últimos dias. Certamente eu não estava focado na conversa que tive com Elika por telefone.

Minha filha entra pouco depois na cozinha, ofegante por ter corrido e trazendo uma boneca bonita nas mãos.

– Olha papai, essa é a Bubu, ela vive de verdade. — Diz Elika correndo para onde eu estou, sinto o meu coração disparar no peito ao notar que ela não exita em nenhum momento para se jogar nos meus braços. Parece que aceitou sem nenhum receio que eu sou seu pai. E não posso negar que a sensação de tê-la em meus braços é a melhor do mundo. Eu me sinto mais completo do que nunca. Katniss esta bem próxima, olhando para a nossa filha com total devoção nos olhos.

Para não me atrapalhar, eu volto a colocar a sacola com os presentes que ela me deu em cima da mesa, e a seguro mais fortemente em meus braços.

– Ual, essa é uma boneca muito bonita. Olha o que eu tenho para você. — Digo ao entregar em suas mãos a caixinha com o chocolate. — Mas, eu não comprei sozinho, a mamãe e eu escolhemos.

Elika pega a caixa depois de me entregar a boneca sem pensar muito e segura a caixinha nas mãos, ela olha para o conteúdo com olhos cheios de desejo. Chega até a passar a língua pelos lábios rosados. Seus olhos azuis estão cheios de desejo pelo doce, e quando ela me olha e sorri contente eu tenho que me segurar para não desabar e chorar.

– Obrigada papai. — Diz ela ao se inclinar e depositar um beijo na minha bochecha. Depois se vira para Katniss e mostra a caixinha vermelha. — Olha mamãe, o que o papai me deu. É chocolate.

– Nossa, que chocolate mais bonito, eu acho que é o chocolate mais bonito do mundo todo, você não concorda com a mamãe? — Katniss diz ao fingir estar super empolgada com os chocolates na caixa que ela comprou.

Tenho que agradecer Katniss depois por lembrar disso. Ela acabou de salvar uma boa parte do meu primeiro contato efetivo com a minha filha.

– Sim! — Minha filha grita feliz, chega até a pular nos meus braços pela empolgação, eu tenho que segurá-la de forma mais firme para evitar que ela caia no chão.- E eu vou comer tudo...

– Mas, não vai comer tudo agora, não é mesmo? — Katniss insiste ao se aproximar e estender a mãos para pegar a caixa de trunfas das mãos de Elika. — Mamãe vai guardar para você comer alguns depois do jantar. Hoje, a mamãe vai fazer o seu prato predileto, batata frita e franguinho. Olha só que delícia, e depois do jantar você vai poder comer o seu chocolate e dividir com o papai.

– Eu posso ficar segurando o chocolate? — Elika pergunta com olhos brilhantes.

– Não, não pode. Ou você vai estragar a caixa. A mamãe vai guardar o seu chocolate e vai proteger para ninguém tomar de você. Pode ficar tranquila, ok? — Insiste Katniss mais seriamente, ela ainda sorri, mas mantém um tom firme na voz. — Agora entregue para a mamãe, e você e o papai vão poder ir brincar.

– Mas, eu queria ficar segurando, eu não amasso a caixa não, eu prometo. — Insiste Elika com olhos atentos.

– Não Elika. — Eu decido interferir, Katniss esta certa. Ela precisa jantar para depois comer doces. E é estranho, e ao mesmo tempo não é nada estranho, ter que assumir uma postura de pai. — Obedeça a sua mãe, depois do jantar você vai receber a caixa de chocolate de volta.

Me corta o coração ver Elika me olhando cabisbaixa ao entregar a caixa nas mãos de Katniss, que recebe a caixa e se afasta para guardá-la em cima da geladeira.

– Que tal, você mostrar para o seu papai todos os seus brinquedos enquanto a mamãe faz o jantar? Ele não conhece as suas bonecas e não conhece os seus livrinhos. — Ela diz para nossa filha sorrindo.

Em questão de segundos o humor de Elika volta a mudar e ela grita feliz.

– Sim, vamos papai. — Ela pede eu querer descer dos meus braços para o chão. Eu resisto em colocá-la no assoalho, meus braços estão famintos por ela. Elika é minha filha, minha menininha e eu não quero soltá-la.

Depois que ela esta no chão, me estende a mão e pega nos meus dedos me puxando para fora da cozinha.

– Vem papai, vou mostrar minhas bonecas. — Ela me diz com uma voz cantada, e vai saltitando na minha frente, cheia de energia e com um sorriso deslumbrante no rosto.

A próxima hora antes do jantar passa muito rápido para o meu desapontamento. Minha filha é inacreditável, ela é a criança mais esperta que eu conheço, nem mesmos os meus sobrinhos, que estão em idades semelhantes a minha filha tem a energia de Elika.

Ela é falante e inteligente, sua mente infantil trabalha de forma perspicaz e atenta. É notável notar que ela bebe todas as palavras dos meus lábios. Ela presta atenção em tudo a sua volta. E pouco a pouco eu descubro muito do seu mundo e da sua forma de pensar. Ela e Katniss sempre viveram sozinhas, ela tem saudade da titia Johanna, que pelo que Katniss me disse é a madrinha de nossa filha. Elika também me conta sobre as aulas de balé, me mostra suas sapatilhas e sua roupa cor de rosa, e gira no quarto me mostrando passos de dança. Também canta musiquinhas infantis que sua professora ensinou, e como é a sua rotina.

Eu apenas aplaudo e vibro com a felicidade dela. Suas bochechas ficam vermelhas frequentemente, e ela tem uma timidez muita fofa de se olhar. Por duas vezes os meus olhos ficam marejados quando ela, em sua inocência, vem até onde eu estou sentado no chão com umas poucas bonecas na mão e me beija muito delicadamente sobre o hematoma no meu olho e diz " É para sarar mais rápido, papai!".

Fisicamente e tirando alguns detalhes, ela é uma miniatura de Katniss quando criança, mas posso notar muitos traços meus, nela. O que faz o meu coração disparar de felicidade. É claro que Elika tem coisas que são inteiramente dela, e eu quero descobrir tudo sobre ela, cada pequeno detalhe é muito importante.

Mal posso acreditar que Katniss vai me permitir ficar aqui com elas. Isso é muito melhor do que eu poderia esperar. Vou poder reconquistá-la, reconstruir a nossa relação, trazê-la para a minha vida de forma permanente. De jeito nenhum eu vou deixar que ela fuja e me afaste, eu apenas tenho que abrir os caminhos para que Katniss possa confiar em mim mais uma vez.

Quando Katniss nos chama, a mesa para a jantar já esta posta. E depois de pedir para que eu ajudasse a nossa filha a lavar as mãos no banheiro nos dois descemos para jantar. Chegando na cozinha ela diz que eu posso escolher qualquer lugar na mesa redonda. Graças aos comprimidos milagrosos que eu tomei mais cedo, eu não estou nenhum pouco enjoado, e minha mente esta bem atenta. Meus olhos estão passeando nas duas mulheres da minha vida.

Katniss se senta ao lado de Elika, deixando que ela fique no meio de nós dois. E fico incrivelmente surpreso ao descobrir que Katniss sabe cozinhar, acho que ela teve que aprender para poder alimentar a nossa filha, no nosso tempo na Universidade, ela não cozinhava quase nada. Tudo na mesa parece delicioso. Existe um pote de vidro com salada, outro com arroz selvagem cozido com milho e ervilha, um terceiro pote de vidro com feijão e espinafre, um outro com batata frita e um último com vários pedaços de frango empanado.

Vejo que Katniss coloca o prato de Elika com tudo um pouco do que temos na mesa, as quantidades são pequenas, afinal Elika é uma criança, mas seu prato é rico.

– Você se serve, ou quer que eu faça? — Ela me pergunta com o rosto corado.

– Pode deixar, eu faço. — Digo para ela, acho lindo as suas bochechas vermelhas. Eu espero que ela monte o seu próprio prato de comida para depois começar a colocar o meu, não posso evitar de sentir água na boca. Estou com tanta fome, não me lembro qual foi a última vez em que eu me sentei em uma mesa para desfrutar de um jantar, ou mesmo de um almoço.

Vejo que Katniss, primeiramente faz com que Elika coma. Ela é muito atenta a nossa menina. Minha filha quer comer sozinha, mas ainda não tem um segurar firma na sua colher, o que faz com que ela derrube aqui e ali a comida que tenta levar na boca.

O clima é um pouco constrangedor entre Katniss e eu. Porém, ela evita grandes constrangimentos ao manter uma conversa suave e alegre com nossa filha. Em certo momento eu me pego alimentando Elika para que Katniss possa comer alguma coisa. Minha filha parece feliz em ter a minha ajuda, e eu não posso deixar de sorrir.

– Não deixe que ela coma somente as batatas fritas, Peeta. — Katniss me diz seria. — Você tem que comer toda a comida do seu prato, passarinho. Ou nada de chocolate hoje.

– Mas, eu não quero esse arroz, tem coisa verde nele. — Elika argumenta para a mãe.

– Pois então, o papai e eu vamos comer toda a sua comida, e vamos dividir tudo com as suas bonecas e você não vai comer nada de nada, nem as batatas fritas. — Katniss diz seriamente, mas existe um incontestável ar de brincadeira em seus olhos.

– Não. — Retruca Elika parecendo indignada. — É minha comida, eu vou comer tudo.

E isso pareceu motivar a nossa menina a comer com mais vontade, eu me delicio apreciando a minha menina nesse momento, e não posso deixar de sorrir pela artimanha inteligente de Katniss.

Katniss até mesmo me lança um sorriso cúmplice ao olhar para Elika comendo.

– Não come a nossa comida, passarinho. Eu e o papai vamos comer tudo. — Ela insiste pouco depois.

– Não, mamãe. É minha comida. — Diz Elika indignada, e volta a comer tudo.

E assim o jantar segue para o seu final.

Eu não posso evitar de suspirar aliviado a todo o momento, a sensação que tenho é de estar dando o meu primeiro suspiro depois de quase ter me afogado. É libertador estar com as duas, eu me sinto em casa, me sinto em paz. Claro que sei que ainda existem muitas coisas a serem ajeitadas, para falar a verdade, eu e Katniss ainda temos que conversar muito seriamente sobre várias questões.

Entretanto, a inegável a sensação boa que estou sentindo. Há anos eu não me sentia tão em paz, e olhando para Katniss eu me sinto cair novamente por ela, mais forte até do que foi da última vez, porque agora eu vejo uma mulher ainda mais interessante, ainda mais cativante. Ela é a mãe da minha filha, e eu a quero por toda uma eternidade.

Ela quer que eu fique por duas semanas, e eu posso jurar que de jeito nenhum duas semanas serão suficientes para mim.

Porém, ela não precisa saber tão imediatamente que eu não pretendo sair daqui tão cedo, e para ser mais sincero, eu vou lutar para não sair do lado dela nunca mais.

Elika vai ser a minha aliada e cúmplice. Eu olho para a minha filha e a vejo sorrindo feliz para mim. Suspiro contente ao perceber que esse é o sorriso mais bonito de toda Panem, esta em pé de igualdade com o sorriso de Katniss.

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Nota da autora.:

Eu imagino a Elika dessa forma.

Elika:

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O que acharam? Existe outra garotinha parecida com a Elika na cabeça de vocês? Me mandem o link...

Notas finais
Essa foi a primeira conversa deles, vão existir outras, afinal ainda existem algumas coisas a serem discutidas pelo nosso casal. Não, Katniss não vai ceder tão fácil, ela não esqueceu a dor que sofreu da última vez que se permitiu amar Peeta Mellark. Mas, muito do drama já acabou. Gostaram? Me digam... Um grande abraço e até a próxima (=