Amarras do Passado

44 Boston - Augustana


Notas iniciais
Olá pessoas. Aposto que vocês pensaram que eu tinha desistido. Mas, não. Eu não desisti, eu apenas estou MUITO OCUPADA com as provas finais do meu semestre de Pedagogia. Sim, tudo tem sido uma loucura e eu não tive tempo, ou cabeça, para escrever nada e postar muito menos. Peço desculpa por isso, sei o quanto vocês são comprometidas na leitura semanal de Amarras do Passado e eu quero que vocês saibam que finalizar a minha fanfic é MUITO importante para mim. Bom, as provas ainda NÃO acabaram, o que significa que eu ainda estou na correria, essa semana eu tenho três provas importantes para fechamento de notas e mais a entrega de dois trabalhos. Ou seja, eu estou frita, já engordei 3 quilos pela minha ansiedade e compulsão alimentar desgovernada ( Deus, eu quero emagrecer!) e meus cabelos estão caindo totalmente ( medo de ficar careca). Mas, aqui estou eu postando para vocês. Muito obrigada por todo o apoio e compreensão, eu sei que fui insensível, mas não foi proposital. Juro! No próximo capitulo nós vamos começar a contagem regressiva dos últimos 10 capítulos da minha fanfic. Esse capitulo é dedicado a G Hutcherson, que não apenas recomendou a minha fanfic, mas também fez indicação para suas amigas. E também dedico a Crys Batista que fez uma recomendação linda. E a Ana Karolina que favoritou a minha fanfic. Vocês são incríveis. Enfim, enjoy!

Passado

Katniss

"...I think I'll go to Boston,
I think that I'm just tired
I think I need a new town, to leave this all behind
I think I need a sunrise, I'm tired of the sunset
I hear it's nice in the summer some snow would be nice... oh yeah..."

***

– Senhorita Everdeen, sinto muito, mas não podemos mais esperar, temos que te levar para a ala cirúrgica e realizar uma cesariana. — Diz a médica muito jovem ao meu lado, eu a olho de forma firme enquanto sinto uma nova contração queimar em meus ossos, dilacerando mais um pouquinho da minha vontade de não gritar.

Estou em trabalho de parto a quase doze horas. Doze horas! Longas, longas horas, e minha filha simplesmente não quer nascer. Quer dizer, ela até quer nascer, ou eu não estaria sentindo tanta dor, mas ela não tem abertura suficiente para sair do meu corpo. De acordo com a minha obstetra, eu não tenho um dilatamento adequado, e não dilatei os centímetros requeridos para um parto normal.

Eu estou cansada, estou muito, muito cansada. Nunca pensei que ter um filho fosse tão ruim, essa é a pior dor fisíca que eu já senti na vida. Parece que esta me rasgando por dentro em vários pedacinhos, dilacerando tudo o que eu sou. É absurdo, eu sei bem. Entretanto, não sei como descrever o que sinto agora, não quando estou com tanta dor que mal consigo respirar. As contrações foram ficando mais constantes, e mais demoradas em ir embora, minha vontade é de fazer toda a força do mundo para forçar a minha filha a nascer de uma vez por todas, mas não posso fazer isso, não se eu quero que minha menina sobreviva ao parto.

De acordo com a obstetra que esta ajudando no meu parto, o meu bebê não está se movimentando pelo canal do parto porque o meu colo do útero parou de dilatar. Nem me pergunte o que significa isso, não faço a minima ideia do porque isso aconteceu comigo, meu próprio corpo esta me sabotando de modo muito injusto. Quer dizer, mulheres são feitas para darem a luz. Então, por que eu não consigo tirar essa criança do meu corpo?

– Entenda Senhorita Everdeen, você já esta muito cansada e já esperamos tento suficiente longo para o dilatamento vaginal, isso não vai acontecer nesse estágio e o seu bebê pode começar a passar por sofrimento fetal, ou seja falta de oxigênio no cérebro que acarretaria em milhares de complicações mais para frente, além de que poderia morrer se esperarmos mais tempo. — A obstetra me diz com firmeza, sei que estou sofrendo, mas eu realmente queria ter um parto normal.

Minha mãe teve parto normal, isso não deveria ser genético e eu também teria parto normal? Não é assim que funciona? Estou tão confusa, tão, tão cansada. Se a obstetra me deixasse dormir só alguns minutos, ou se as contrações parassem apenas alguns minutos para que eu pudesse descansar, isso seria muito melhor. Eu seria mais feliz assim.

Espera um pouco...O meu bebê esta sofrendo dentro de mim? Por eu não ter espaço suficiente para fazê-la sair em segurança de dentro do meu corpo? Eu escutei direito? Estou tão cansada que tudo isso parece um sonho, um sonho muito ruim e doloroso.

– Pode fazer. — Ouço minha voz dizer. — Faça o que quiser, apenas salve o meu bebê. Minha menina não pode sofrer, não pode...

– Faça Katniss, você consegue, já esta quase acabando. — Johanna me diz de muito perto. Eu tinha direito de ter um acompanhante no parto da minha filha, e eu escolhi chamar a Johanna. Primeiramente porque ela me mataria se eu não a escolhesse, e segundo porque eu realmente confio nela, e se algo acontecer comigo eu quero que ela fique com minha filha, que procure o pai dela e que entrega a minha menina a ele.

Eu estou torcendo para que ele possa amar a nossa garotinha, como eu sei que vou amá-la e protegê-la. Johanna me chamou de idiota quando eu a fiz prometer isso, me disse que eu sou estupida por não mandar estrume de porco para a caixa postal dele pela menos uma mês por ano. Mas, ela é maluca e exagerada, então não a levo a sério de jeito nenhum.

Enquanto sou preparada para receber uma peridural, e sou levada para uma sala cirúrgica, tudo o que eu consigo pensar foi na forma em que acordei na manhã do dia de hoje, em como minha bolsa estourou às seis da manhã, e literalmente o barulho que me acordou foi um grande "ploc", e depois um liquido viscoso escorreu pelas minhas coxas, acho que encharquei todo o meu jogo de cama, meus lençóis estão destruídos e nem quero ver o estado do meu edredom.

Eu sabia o que estava acontecendo, já tinha sido avisada pela minha médica obstetra, então gritei por Johanna até ela adentrar o meu quarto, toda despenteada e raivosa e disse o que estava acontecendo, que eu teria a minha menina a qualquer momento.

Acho que nunca a vi tão assustada igual aquele momento, ela estava hiperventilando, mais nervosa do que eu, muito muito mais histérica, e eu praticamente tive que confortá-la até chegarmos ao hospital. Quer dizer, eu é que vou ter um bebê, entretanto é ela que estava surtando por isso.

Minha bolsa realmente tinha estourado, porém eu não sentia dor alguma, nem um pouquinho mesmo. E eu esperei e esperei por atendimento, quando enfim fui colocada em um quarto, uma enfermeira com cara de quem estava trabalhando em muitos turnos seguidos me olhou com mal humor ao me ajudar a trocar de roupa, então deitei em uma cama de hospital e fui conectada a uma centena de monitores diferentes, quer dizer, eu apenas estava dando a luz, e nem ao menos estava sentindo dor. Por que eu precisaria de todos esses monitores? Não faz sentido, minha mãe saberia me responder isso, mas ela não esta aqui, há muito tempo ela não esta ao meu lado, não falo com ela a mais de dois anos, eu sei que ela esta no Distrito Quatro, sei até em qual hospital trabalha. Talvez eu mande um postal para ela avisando que eu tive uma filha, uma foto da minha bebê.

Acho que ela vai gostar de ver a neta. Ou não. Eu francamente não sei responder a isso. Há muito tempo nós duas não somos próximas uma da outra, e ela nem ao menos sabe da minha grávidez. O único laço forte que tínhamos estava preso em Prim, minha irmã, mas quando ela se foi, minha mãe e eu já não conseguíamos ficar em um mesmo ambiente por muito tempo. Ela foi embora e eu não a impedi, na verdade me lembro que na época, no dia da sua partida para o Distrito Quatro, eu apenas me enfiei dentro da floresta e passei o dia todo caçando, nesse dia eu chorei, não pela partida dela, apenas não conseguia aceitar a morte da minha irmãzinha.

Agora a vida tem um jeito muito estranho de me recompensar pela criança que eu perdi, a irmã que não pude proteger de um incêndio. A qualquer momento vou dar a luz a minha filha, e do grande amor da minha vida, o homem que me rejeitou, que pediu para que eu me afastasse da vida dele, que esta noivo da mulher mais imbecil de toda Panem.

É claro que eu nunca pensei em ser mãe algum dia, e não é que eu repudiasse a ideia, era apenas porque eu nunca tinha pensado nisso antes, não seriamente. Mas, eu não mudaria nada dos dias passados com o pai da minha menina se isso significasse que eu não a teria dentro de mim, nesse exato momento, pedindo para nascer, minha pequena menina corajosa, valente, meu passarinho cheio de amor. Minha filha, eu queria muito que o meu pai estivesse aqui agora, Prim e ele eram tudo o que eu pediria nesse momento.

Eu gostaria muito de olhar nos olhos cinzentos do meu pai mais uma vez, aqueles olhos cansados e gentis, cheios de rugas de sorrisos e sempre brilhantes quando me encaravam. O que ele acharia da neta? O que ele diria ao me ver grávida e imensa?

E Prim, eu queria tanto segurar em suas mãos pálidas e delicadas mais uma vez, esconder o meu rosto em seus cabelos loiro morango e ouvir sua voz delicada no meu ouvido. Minha menina bonita, meu patinho.

A coisa mais difícil hoje, além de descobrir que não posso ter minha filha de parto normal, é não ter as pessoas que mais amo do meu lado. É estar sozinha, e sozinha e sozinha e sozinha...

Eu sei que Johanna é uma boa amiga, e eu verdadeiramente gosto dela.

Todavia, eu nunca mais vou ver os olhos do meu pai brilhando para mim, e não vou segurar nas mãos delicadas de Prim mais nenhuma vez. Minha mãe esta inalcançável em seu isolamento. E Pee...ops...e o pai da minha filha não me quer ao lado dele, a mãe dele me mandou abortar, o que significa que eu não posso contar com ninguém daquela família.

E não poder mais olhar nos olhos azuis dele me mata um pouquinho todos os dias, secretamente eu desejo que minha menina nasça com muitas características de seu pai. Que tenha os cabelos loiros e os bochechas rosadas, o sorriso doce, e os mesmos olhos azuis. Não sei o que "ele" viu em mim. Eu nunca me achei bonita, ou extraordinária. E, não sei como explicar, mas quero ter um pouco dele para mim. Pelo resto da vida. Isso ele não vai poder tirar de mim, nunca, jamais.

Minha filha é minha, só minha. E quando ela nascer eu nunca mais estarei sozinha, sozinha, sozinha...

Pouco depois de receber a injeção, eu sinto que as dores, terríveis e horrorosas vão deixando o meu corpo muito lentamente, é um milagre voltar a pensar com clareza. Me sinto aterrorizada ao ver vários enfermeiros com mascaras e minha obstetra andando pela sala de parto, eles esperam a injeção fazer efeito total. Logo, um pano é suspenso entre minha barriga grande e minha pernas.

O tecido azulado cai bem acima dos meus seios, e sobe na minha frente por pelo menos trinta centímetros. Não consigo enxergar nada da barriga para baixo, e não consigo sentir as minhas pernas, isso é amedrontador, mas eu faço qualquer coisa para minha menina nascer com saúde e bem.

A todo o momento os enfermeiros conversam comigo, não sei se estão tentando me distrair, ou se são de verdade muito simpaticos. Eu prefiro a primeiro opção. Pessoas simpáticas sempre tem algo em mente, ninguém é gentil e simpático sem querer algo em troca. Isso é o que eu sei, é o que a vida me ensinou.

Minha obstetra também conversa comigo, e eu respondo a todas as suas perguntas diretas, se ela começa a enrolar na falação por muito tempo, eu apenas sorrio e aceno com a cabeça, querendo que ela pare de tagarelar sem motivos.

Johanna não pode entrar aqui dessa vez. Somente algum familiar ou o marido podem acompanhar a futura mãe dando a luz na cesariana.

Acho que a pior sensação ainda era a de não sentir nada dos meus seios para baixo, apenas um grande pesar, e nada. Isso era muito estranho. E como eu já não sentia mais dor, posso dizer que a minha ansiedade por ver a minha filha estava a todo vapor.

E posso garantir que eu senti o mundo parar por um minuto inteiro quando eu ouvi o choro da minha menina. Foi estridente e reclamão. Todo abandonado. E se eu não estivesse fortemente sedada, eu certamente teria me levantado e ido até a médica, arrancado a minha filha das mãos dela e protegeria o seu pequeno e delicado corpo com tudo o que tenho. Lógico que as coisas não foram assim, eu estava apenas paralisada, totalmente tomada pelos instintos maternos. Sem que eu notasse os meus braços se levantaram para algo invisivel, querendo a minha menina a todo custo.

Nada nunca foi tão forte dentro do meu peito, nada nunca gritou tão selvagemente dentro da minha mente. A emoção era muito selvagem e certa, puramente instintiva e brutal. Quando eu soube que estava grávida, eu sofri um grande choque, e durante toda a minha gravidez eu me mantive forte e austera, e mesmo com toda a bagunça de sentimentos dentro de mim, eu ainda me mantive forte.

Entretanto, agora tudo mudou, com o choro dela tudo mudou. Eu aceitei pela primeira vez que eu nunca mais vou ser apenas eu, Katniss Everdeen. Agora eu sou mãe, agora esse pedacinho de gente é tudo no mundo para mim. É minha familia.

Quando a minha obstetra me entregou a minha filha enrolada em uma pedaço de tecido macio, toda suja e sangue e liquidos da minha placenta, tão escandalosa e exigente, igual ao pai dela. Minhas lágrimas já não podiam ser contidas, e eu percebi que estava chorando pelos soluços enormes que saiam dos meus lábios e que eu não conseguia controlar.

Eu olhei para o rosto dela, para o pequeno rosto enrugado da minha filha e chorei. A posição onde estava era muito desconfortável para estar com um recém nascido nos braços, ainda assim eu fiz o meu melhor para mantê-la. Seu choro era música em meus ouvidos, tudo nela era maravilhoso, era lindo, era perfeito.

Chorei ainda mais ao notar os cabelos escuros em sua cabeça, ela estava ainda muito suja, porém eu podia notar essas pequenas coisas.

Os enfermeiros tiraram a minha menina dos meus braços e a levaram para fazer os procedimentos médicos, eu tive que deixar que eles nos afastassem, não pude fazer nada para detê-los. Eu queria, bem no fundo mantê-la ao meu lado para sempre. Mas sabia que tinha que deixá-los trabalhar, eu mesma estava toda aberta em uma mesa de hospital. Minha obstetra não estava a vista e somente alguns enfermeiros estavam a minha volta. Minhas lágrimas não podiam ser contidas.

O meu fechamento durou mais do que eu achava que iria durar, ainda bem que estava muito bem anestesiada, e para falar a verdade, eu estava bem entediada e muito sonolenta agora.

Eles só me deixaram segurar a minha filha duas horas depois de eu já estar na sala pós-operatória, eu estava muito ansiosa e morrendo de frio, sentia até mesmo uma coceira muito chata, mas me informaram que era normal porque a anestesia estava me deixando, por isso aplicaram na minha bolsa de soro uma solução para que a coceira aliviasse, poucos minutos depois eu já me sentia bem melhor. Agora aos poucos o frio ia deixando os meus ossos, o que é ótimo, já que eu não gosto do clima frio de jeito nenhum. Principalmente esse tipo de frio que queima de dentro para fora.

E segura-la em meus braços de verdade foi a melhor coisa que eu já fiz. Olhar para o seu rosto tranquilo e doce me desfez um pouco. E o sentimento poderoso que me abateu foi o mais incrível de todos, foi a maior onde de amor que eu já senti em minha vida. Eu jamais poderia imaginar que esse sentimento fosse tão intenso, tão impressionante em sua ferrosidade. Eu sentia que poderia lutar contra um urso por essa criança, que poderia me voluntariar para um Jogos Vorazes, se eles ainda acontecessem, e tenho certeza que em ambos os casos eu ganharia. Seria vitoriosa apenas para proteger a minha filha.

Elika. Esse pequeno pedaço de gente é Elika Everdeen.

Não existe outro nome que combine com a minha menina. O pai dela gostaria desse nome, eu acho. Minha filha enrugou o rosto e se mexeu, seus olhos azuis escuros estavam focados em nada especifico, mas eu os achei lindo de qualquer maneira.

Para falar a verdade eu nunca me senti tão bem, estava exausta em cada milimetro do meu corpo, mas, de modo geral, eu nunca me senti tão...viva. A adrenalina ainda me pulsava nas veias e acho que não conseguiria dormir mesmo que fechasse os meus olhos. O que eu não pretendia fazer, pois nesse momento eu estava muito interessada em observar a minha garotinha, examinar cada dedinho das mãos e dos pés, admirar o doce formato do rosto e a pequena curva da boca pequenina.

Minha. Pensei eufórica, e não pude deixar de sentir uma onda grande de orgulho borbulhar em meu peito ao saber que eu produzira esse ser tão pequenino e milagroso.

Passei as pontas dos meus dedos pelas mãozinhas e me maravilhei com as dez unhas, tão pequeninas. O ar saia devagar pelo nariz de botão de rosa da minha filha e eu não consegui não sorrir. Elika é perfeição pura. Minha menina contraiu as feições, depois fez uma bolha de saliva em seus lábios, para em seguida se acalmar e cada movimento dela era uma passo a mais dentro do meu coração de mãe.

Como era possível amar tão profundamente e tão depressa? Desde o momento em que coloquei os meus olhos em minha filha eu soube que não havia nada no mundo que eu não faria por ela e a profundidade desse sentimento era assombrosa.

Neste momento fui interrompida por uma Johanna sorridente e sua câmera fotográfica, depois de beijar com cuidado o topo da cabeça da minha filha e de também se maravilhar com suas delicadas feições de bebê, ela começou a tirar fotos, eu não pude impedi-la e sabia que estava com uma aparência péssima, mas naquele momento eu não pude me importar com isso.

– Já decidiu o nome? — Perguntou Johanna ao pegar minha filha nos braços. Eu permiti isso, mas já estava com saudade de segurar minha filha.

– Elika. Ela vai se chamar Elika Everdeen. — Respondi ao olhar com amor para a minha menina.

– Ainda bem que você viu a razão. Elika é um nome muito melhor que Marnina. — Ela disse de forma seca, em seguida voltou seus olhos para a minha filha e sorriu amorosa. — Ela é tão pequena e tão linda.

– Sim, ela é. — Respondi orgulhosa. Ainda estou nadando no mar de felicidade materna.

Depois de alguns minutos minha filha resmunga e chora, e eu sei que ela esta com fome. Vou dar de mamar para ela, será a primeira vez, estou tão nervosa por isso, mas sei que não posso errar. Johanna me entrega uma Elika chorona e faminta e eu me preparo para o ato mais puro de uma mãe.

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Passado

Peeta

"...In the light of the sun, is there anyone?
Oh it has begun...
Oh dear you look so lost...
Eyes are red and tears are shed
The world you must've crossed, you said

You don't know me
You don't even care... oh yeah..."

***

– Você não pode achar que eu vou conviver com esse tipo de coisa, não é mesmo? — Escute Glimmer perguntar, sua voz esta calma, mas ligeiramente irritada no fundo. Ela gira preguiçosamente a aliança de noivado que eu dei. É uma aliança bonita, um grande diamante, envolto de pequenas safiras brilhantes. Foi ela que escolheu.

Eu pouco tive voz em nosso noivado, na verdade eu me senti igual a um fantoche nas mãos dela e de minha mãe. Elas organizaram tudo, eu apenas estava lá, participando da festa e sorrindo sempre que alguém se aproximava.

Glimmer meio que impôs isso, o que eu podia fazer além de aceitar? Ela esta sendo ótima nos últimos meses, muito melhor do que jamais foi, eu é que sou o problema em nossa relação, eu é que sou o deficiente emocional. Mas, hoje ela não esta sendo legal, ou coisa parecida. Essa é a Glimmer que eu sempre conheci.

– Não quero nada dessa mulher aqui em casa, Peeta. Queimei todas as fotos e queimei mesmo. Não quero saber da vagabunda aqui na minha casa. Você é meu noivo agora e não pode me tratar com tão pouco respeito. — Ela me diz muito mal humorada. — Katniss Everdeen é seu passado, aceite isso. Já fazem oito meses que ela foi embora, por que você simplesmente não consegue aceitar isso?

– Eu não quero falar dela, Glimmer. Por que você insiste em colocar Katniss em todas as nossas discussões? E você não tinha o direito de queimar todas as fotos que eu tinha dela. Essas fotos eram minhas, e Katniss não estava sozinha nas fotografias, eram fotos de toda a turma reunida, momentos felizes que você não podia apagar assim.

– Foda-se os momentos felizes. Eram momentos felizes para você, eu estava sendo chifrada naquelas fotos, você já estava me traindo com a vagabunda naquele tempo, acha que são fotos felizes? Elas me davam vontade de vomitar. — Glimmer retruca ao tirar os cabelos loiros longos de cima de seu ombro, lançando-os para as costas. — Você disse que iria tentar esquecê-la por mim, que iria nos dar uma chance, mas você não esta verdadeiramente fazendo isso. Esse anel de noivado que você me deu não significa muita coisa para você.

– Você comprou o anel no meu cartão de crédito, você e minha mãe decidiram que nós dois eramos noivos, eu te disse que ainda não estava pronto para assumir esse compromisso, que queria esperar...

– Esperar o que, Peeta? — Pergunta ela histérica. — Esperar que a Everdeen volte? Que reapareça misteriosamente na sua vida. Isso não vai acontecer, acredite. Esse tipo de mulher não se importa com nada e nem ninguém. Você foi um jogo nas mãos dela, uma diversão passageira.

– Eu já te expliquei que não gosto de falar de Katniss, não gosto quando você a coloca em nossas brigas dessa forma. Não tente mudar de assunto, eu não gostei que você queimou as fotografias dela. — Digo depois de passar as mãos pelos cabelos exasperadamente. — Eu sei que ela não vai voltar, e não estou esperando que ela volte.

Mentira. Penso irritado. Eu espero ansiosamente poder encontrá-la mais uma vez. Eu preciso encontrá-la mais uma vez, colocar os meus olhos nela, poder abraçá-la e tocar sua pele macia, sentir o perfume de seus cabelos escuros. Porém, tenho certeza que minha noiva não gostaria de saber as coisas que eu faria com Katniss.

– Eu não poderia voltar com você sem um pedido de noivado, sem que meus pais e meu amigos soubessem que você tinha me prometido mais do que antes. Todos sabem o que você fez comigo, a forma com que me humilhou ao me trair com aquela morta de fome, mas eu esqueci isso, eu superei a vagabunda e decidi te dar uma segunda chance, porque eu te amo. É lógico que eu tive que iniciar esse noivado, você não faria isso tão cedo, mas não vai ficar me enrolando não, Peeta. Não aceito ser feita de idiota. — Glimmer esta apontando um dedo bem no meio do meu peito, seus olhos são raivosos ao me encarar.

Tive que respirar muito profundamente para não surtar com ela. Odeio, vou repetir para ficar bem claro, eu odeio quando Glimmer xinga a Katniss de coisas ruins. Odeio quando ela a humilha dessa forma.

– E nós dois já somos noivos, não tinha necessidade nenhuma de você queimar as fotos onde ela aparecia. São apenas fotos. — Tento justificar.

– Não são apenas fotos, Peeta. Não para você. — Responde ela de forma amargurada. — Aquelas fotos eram lembretes constantes que ela existiu na sua vida e que você não quer esquecê-la. Porém, isso vai ter que acontecer, você gostando ou não. Ela te abandonou, aceite isso e vire homem de uma vez. Eu estou aqui, eu sou sua noiva.

Mais uma briga, eu não consigo acreditar que tudo o que faço com Glimmer é brigar. Eu sei que ela esta certa em supor que não são apenas fotos para mim, eu realmente não consigo enganá-la. Mas, as fotos eram minhas, não dela. E Glimmer não tinha o direito de queimar nada meu. Ela faz de tudo para tirar a Katniss dos meus pensamentos, e sinceramente falando não sei se isso algum dia vai acontecer, não sei se sou talhado para esquecer de Katniss. O meu corpo não é.

Eu estou constantemente me sinto amargurado pelas lembranças dela.

Katniss costuma aparecer em meus sonhos de várias formas, as mais maravilhosas são as lembranças sexuais de nós dois, as lembranças doces de quando eu a fazia minha. Entretanto as lembranças mais perturbadoras ainda são de momentos aleatórias nossos, as nossas mãos dadas, o som da risada dela no fim de uma noite de amor, o perfume de seus cabelos escuros, e seus olhos cinzentos me olhando cheios de sentimentos.

E isso é o mais difícil, aceitar que o que eu via em seus olhos não eram sentimentos de amor, de posse, de companheirismo. Eu não sei o que ela sentia por mim. E mesmo sabendo que ela me disse que estava apaixonada por mim, agora depois de sua partida abrupta eu não sei mais se acredito nisso.

Ela estava mentindo para mim? Penso sombrio.

Mas, se estava mentindo, por que eu continuo a ter essa sensação de que estou perdendo algo importante? De que algo esta acontecendo e que eu não tenho conhecimento?

Minhas mãos chegam a coçar por isso, e frequentemente eu acordo assustado de madrugada, depois de ter várias pesadelos com uma Katniss que eu não posso alcançar, em meus piores sonhos ela esta na estação de trem e esta indo embora da Capital, eu não consigo ver o seu rosto, mas escuto o seu choro suave. Eu corro para ela, mas nunca posso alcançá-la, sempre acabo perdendo-a dentro de uma multidão de estranhos. Fico nisso até acordar assustado e confuso em minha cama.

Foi assim que descobri que o meu pior pesadelo e não tê-la ao meu lado. Isso me deixa assombrado por vários minutos, até que eu respiro profundamente e tento me acalmar.

Hoje mesmo é um dia péssimo para Glimmer e eu estarmos brigando, desde o momento em que eu acordei até agora que simplesmente não consigo tirar a Katniss dos meus pensamentos, e foi por isso que eu procurei as fotos dela, mas é lógico que eu não consegui encontrar nenhuma, foi quanto eu questionei Glimmer e ela de forma muito suave de contou que queimou todas as fotos. Que se desfez de todas.

Para não continuar uma discussão fadada ao fracasso com minha noiva, eu apenas dou as costas para ela, e depois de pegar o meu casaco e as chaves do meu carro eu a deixo em nosso apartamento bonito e rico. Estou começando a odiar esse lugar, odiar as paredes pintadas de forma perfeita e de todos os espelhos e paredes de vidro, e da decoração bonita que a Glimmer fez.

Quando me encontro dentro do meu carro, eu decido que somente por hoje eu não vou me esquecer de Katniss Everdeen, que não vou me policiar para não pensar nela. Eu não sei bem o por quê, mas eu pretendo me afogar em minhas lembranças dela.

Então eu dirijo até o banco onde tenho a minha conta corrente, e depois de deixar o meu carro no estacionamento do lugar eu entro e vou falar com o gerente. Peço para ver as pinturas que eu guardei em minha conta, e que Glimmer ou qualquer outra pessoa da minha família estão proibidos de chegar perto, e peço para também ver a aliança de noivado que eu comprei para ela.

Minha noiva pode ter queimado as fotos que eu tinha de Katniss, mas aqueles momentos, por mais que tenham sido importantes, ainda eram registros de momentos públicos, e nossos amigos sempre estavam perto. Já, os quadros que eu fiz de Katniss são apenas meus, ninguém tem acesso a eles, Finnick foi o único, além da própria Katniss, que os viu. Glimmer nem sonha que eu tenho esses quadros, ou faria um inferno terrível em minha vida para que eu me livrasse deles. E esses quadros eram registros íntimos de Katniss e eu juntos, de nosso tempo sendo amantes e amigos. E é claro que minha noiva não sonha que eu tenha uma aliança comprada para Katniss. Apenas o meu pai sabe que eu tinha a intenção de pedir Katniss em casamento, de fazê-la minha esposa.

Depois de comprovar a minha identificação, eu sou levado a uma sala especial do banco e uma atendente ruiva me pede para aguardar um pouco que logo as minhas pinturas seriam encaminhadas para essa sala.

Graças a tudo no céu, que eu não tive que esperar muito, o meu peito já começava a doer de antecipação. Ainda bem que meu a nossa família tem uma conta bem gorda aqui nesse banco.

Só consigo me concentrar nos quadros quando todos são levados para essa sala, dois atendentes homens e a mesma mulher ruiva entram trazendo as minhas preciosidades com todo o cuidado do mundo. E a caixinha de veludo onde esta o anel de Katniss é depositada cuidadosamente em cima da mesa de aço na minha frente. O que eu gosto muito, já que os meus quadros de Katniss realmente merecem ser tratados com cuidados. Tenho até seguro em todos essas pinturas.

Ao todo são três quadros de Katniss, um esboço não acabado e três desenhos feitos com lápis aquarelados.

Passo os próximos minutos em uma contemplação silenciosa de todos eles. O meu preferia ainda é o que Katniss me autorizou a pintá-la. O quadro onde ela estava sentada tranquilamente em minha cama, vestindo a minha camisa social e me olhando com seus olhos sensuais. Nós dois fizemos amor nesse dia, Katniss estava especialmente lasciva naquela manhã, enquanto me provocava para largar a pintura e ir saciá-la na cama. Não me arrependo de dizer que fiz exatamente o que ela queria, e as lembranças daquela tarde ainda me assombram em sonhos eróticos.

No segundo quadro, eu pintei Katniss me encarando, ou o jeito com que ela me encarava. Seu rosto bonito estava sério e seus olhos cinzentos mais brilhantes do que as estrelas no céu, levei dias tentando chegar na cor exata de cinza, mas estou feliz por ter conseguido, hoje posso olhar para esse quadro e de forma triste me afogar nesse cinza tão amado.

No terceiro quadro eu tenho uma Katniss adormecida em meus lençóis, o quadro não é nada sensual, e apenas terno e bonito, e eu o pintei de forma abstrata então são visíveis apenas contornos da minha Katniss adormecida, seu corpo envolvido em lençóis bagunçados e seus cabelos escuros jogados no travesseiro. No quarto quadro, que ainda é um esboço não terminado, eu tenho Katniss sorrindo timidamente, com suas bochechas coradas de vergonha enquanto estava sentada no gramado do centro universitário.

Nos três desenhos que eu fiz dela, um mostra o seu perfil bonito e sério, no segundo ela à distância lendo um livro, e o terceiro ela está no centro de treinamento de arco e flecha treinando a sua mira perfeita, o arco estendido em seu rosto, seus olhos focados no alvo invisível.

Demoro muito a pegar a caixinha de veludo nas mãos. Quando eu a abro eu noto o quanto eu sentia falta de olhar para essa perola envolta em diamantes. Depois meus olhos preguiçosamente vão até as pinturas de Katniss.

Eu a amo tanto. Eu a amo tanto. Mesmo depois do abandono dela, eu ainda a amo da forma mais desesperada possível.

Tenho que me afastar de tudo isso enquanto eu ainda posso, antes de chorar igual a um menina inocente e sem perspectivas. Por isso eu fecho a caixa com a aliança e a coloco de volta na mesa.

Depois de falar com a atendente mais uma vez e solicitar que tudo fosse guardado, eu deixo o banco o mais rápido possível, sinto as lágrimas queimando através dos meus olhos e toda a minha saudade presa dentro da garganta, me sufocando lentamente.

Começo a dirigir igual a um desesperado na Capital, sem ter lugar para ir, sem ter lugar para me esconder, sem ter nada para acalmar a minha urgência de ter Katniss.

Me sinto caindo e caindo, me afogando em saudade, em raiva e em ressentimento. Essa maldita mulher que me destruiu sem pensar duas vezes.

Sem nem notar eu me pego indo para a casa de Haymitch, tenho que verificar se ele conseguiu alguma noticia dela. Já faz algum tempo que eu não falo de Katniss com ele, tenho fingido para todos a minha volta que eu a esqueci completamente. Deve ser por isso que mais ninguém me olha de forma estranha e cheia de pena.

Apenas Haymitch ainda faz isso, ele é esperto e sabe que eu estou fingindo muito mal. Eu ainda continuo a fazer isso, e apenas finjo não notar os seus olhos atentos.

Eu apenas deixo o meu carro no estacionamento de sempre e depois de atravessar a avenida da casa dele e sem nem ao menos saber se ele esta em casa ou não, eu me pego batendo em sua porta. O meu coração esta tão apertado que eu acho que vou cair a qualquer momento, eu devo estar com uma aparência péssima, mas nem isso faz com que eu desista da visita.

Glimmer me levou ao limite hoje, mas foi ver as pinturas de Katniss no banco o que verdadeiramente me desestruturou, eu não sei porque estou tão aflito por ela hoje, mas não posso deixar de sentir que estou perdendo algo, alguma coisa esta escapando das minhas mãos e a sensação a muito devastadora. É horrível.

Se eu tivesse apenas alguma pista de onde Katniss posso estar, talvez isso acalme a minha cabeça confusa. Eu nem ao menos sei se vou seguir até onde ela esta, talvez eu nem mesmo vá atrás dela. Eu apenas preciso saber se ela esta bem. E por que me deixou? É tudo o que eu preciso saber.

Toco a campainha da casa dele e espero. Estou desmoronando e não sei o que fazer. Preciso que Haymitch me diga algo que me console dessa solidão devastadora.

Ele se tornou um bom amigo. O que é engraçado já que eu não o suportava quando ele era o meu mentor na Universidade.

Fico na espera e estou quase desistindo quando a porta é aberta.

Notas finais
Quando eu acho que não vou precisar mais escrever sobre a Glimmer, eis que a puta volta para me assombrar. Agora vocês vão perceber que vai começar a ocorrer saltos grandes no passado. A passagem de tempo vai ser maior de um capitulo para o outro. Um grande abraço e até a próxima ^^