Amarras do Passado
37 The One That Got Away - The Civil Wars
Notas iniciais
Dias Atuais
Katniss
"...Oh, if I could go back in time
When you only held me in my mind
Just a longing gone without a trace
Oh, I wish I'd never ever seen your face
I wish you were the one
Wish you were the one that got away
I miss the way you wanted me
When I was staying just out of your reach
Begging for the slightest touch
Ooh, you couldn't get enough..."
***
– Olha mamãe. — Diz Elika ao se aproximar de onde eu estou parada em choque, eu tento disfarçar o meu medo, mas acho que não sou bem sucedida. — O titio Finnick, é marido da titia Annie e ele me disse que eu posso visitá-lo sempre que eu quiser.
Eu olho nos olhos verdes de Finnick e posso notar o quanto ele esta controlado para não assustar Elika. Eu não esperava encontrá-lo aqui hoje. Quando eu pedi para Annie buscar minha filha na escola, já que eu teria que fazer algumas horas extras na empresa, eu nunca imaginária que Finnick estaria junto da esposa.
E eu posso notar em seu olhar homicida que eu tenho muita coisa para explicar para ele. É lógico que ele sabe que Elika é filha de Peeta. A menina parece muito com o pai. Na verdade ela é uma mistura entre nós dois. Todavia, qualquer pessoa que tenha conhecido Peeta ao olhar para a minha filha vai saber de quem ela é filha.
– O titio disse isso? — Pergunto para a minha pequena, faço um esforço danado para me manter calma. Finnick é o melhor amigo de Peeta, não existe maneira nenhuma de esse segredo ficar escondido agora. — Você perguntou ao Finnick se ele deixava você chamá-lo de titio?
– Bem...- Disse Elika manhosa, ela estava nós braços fortes de Finnick e ele a segurava muito firmemente. — Titio Finnick, eu posso te chamar de titio? A titia Annie disse que eu podia.
Finnick apenas abraça a minha menina ainda mais apertado e com toda delicadeza deposita um beijo suave em sua bochecha. Eu vejo Elika corar feliz ao ser paparicada.
– É claro que você pode me chamar de titio, boneca. — Ele respondeu sorrindo, sua voz grossa ecoando em volta de nós duas. Essa é uma das primeiras vezes que eu venho aqui na casa de Annie. Só permiti que Elika estivesse aqui uma outra vez, à muitos meses atrás e apenas porque Finnick não estaria em casa de jeito nenhum. Acho que dessa vez eu esqueci de perguntar se o marido dela estaria em casa.
Posso até imaginar o choque que ele teve quando viu Annie entrar na casa deles com uma menina nós braços. Uma menina que se parece muito com dois amigos dele.
– Eu e o seu pai somos quase irmãos. É claro que eu sou seu tio, mesmo que eu não soubesse da sua existência até duas horas atrás. — Ele diz ainda sorrindo. Elika não presta muita atenção no tom controlado de sua voz. Apenas fica olhando para ele totalmente embasbacada. Finnick sempre teve esse efeito nas mulheres e pelo visto não importa a idade da mulher em questão.
– Você é bonito titio. — Fala Elika ao passar a mão no cabelo de Finnick. — Seu cabelo é bonito.
Finnick gargalha alto e volta a beijar a minha filha na bochecha, depois faz algumas cocegas em suas costelas o que a faz pular e gritar de felicidade.
– É claro que eu sou bonito, um deus na terra. Mas, estou casado com sua titia, então nada de ficar me paquerando. — Ele diz a minha filha, ela apenas o olha cheia de diversão em seus olhos azuis.
– O que é ficar paquerando? — Pergunta ela confusa e divertida. — É de comer? É que nem um chocolate? Eu queria chocolate...
Nunca vi Finnick tão divertido igual a esse momento. Ele esta radiante de felicidade ao encarar Elika.
– Titio, você sabia que o meu papai gosta de chocolate? Ele me contou e vai me trazer chocolate algum dia. — Fala Elika feliz, seu rosto todo orgulhoso ao encará-lo.
– Ah, é? — Pergunta Finnick ao desviar os olhos de Elika e me encarar com desconfiança. Eu nunca me senti tão desconfortável em toda a minha vida. Quero pegar Elika no colo e sair correndo da sala de estar de Finnick e Annie. Levar o meu passarinho para bem longe. — E você já viu o seu papai? Sabe o nome dele?
– Finnick... — Eu resmungo pela primeira vez.
– Deixa a menina responder Katniss, depois nós dois vamos conversar. — Ele me diz com uma voz sombria, dá para ver de longe que ele estava escondendo o seu desgosto. E eu me preparo para ouvir Elika dizer o nome do pai dela em voz alta.
– Sim, o nome do meu papai é Peeta. — Ela diz cheia de convicção, um pequeno sorriso feliz. — O titio Haymitch disse que eu me pareço com ele, e a mamãe disse que ele é muito bonito. Por isso eu sou bonita, olha os meus olhos...
Nesse instante minha filha põe as duas mãos em cada lado de seu rosto e puxa a pele de suas bochechas gorduchas para baixo, o que enfatiza os seus olhos claros, mas a deixa com uma careta muito fofa.
–...são iguais aos do meu papai. — Continua Elika depois de sua demonstração. — A mamãe disse que ele é muito ocupado, e é por isso que ele ainda não pode me ver. Mas, ele me disse que vai trazer chocolate, e a mamãe disse que os papais não podem prometer coisas que não vão cumprir para as suas filhinhas. Será que ele vem hoje mamãe?
– Acho que hoje não, passarinho. — Digo depois de engolir em seco. Minhas mãos suam muito agora. — Quem sabe na próxima semana.
Finnick me olha com tanta raiva que eu sou obrigada a desviar o olhar. Não sei porque ele esta com tanta raiva de mim. Ele não conhece nada do meu passado, aposto que não faz a minima ideia do que Peeta me fez, de como me humilhou ao pedir para a mãe dele terminar o nosso relacionamento. Não sabe o que eu tive que passar para cuidar de Elika. Ele não tem o direito de me julgar.
Antes que ele diga alguma coisa, Annie entra na sala de estar com um sorriso preocupado no rosto.
– Elika, querida. A titia terminou o jantar. Vem com a titia e vamos comer alguma coisa. — Diz ela ao se aproximar de Finnick e pegar Elika no colo.
– Titia, eu posso andar, não sou mais um bebê. — Elika diz sorrindo.
– Mas, eu ainda gosto de pensar que você é um bebê. — Fala Annie, entretanto ela coloca a minha pequena no chão.
– A titia faz o melhor franguinho do mundo todo. — Elika diz ao passar as mãos pela barriga em um sinal clássico de fome.
Finnick que só estava observando volta a gargalhar.
– Você tem razão, boneca. Annie faz um frango cozido que é uma delícia. — Diz ele sorrindo para a minha filha.
– Titia, eu posso comer batata frita e franguinho e suco de laranja? — Pergunta Elika muito seriamente.
– Filha. — A repreendo suavemente. — Que coisa feia pedir comida assim. O que Annie preparou vai estar muito bom, não importa o que seja, e você vai comer tudo. Então, peça desculpas.
Elika me olha com atenção e depois de virá para Annie.
– Desculpe titia. — Seu rosto de menina esta cheio de arrependimento.
– Não, não é necessário que você me peça desculpas, querida. — Diz minha amiga sorrindo docemente para a minha filha. — A titia fez tudo o que você queria.
– Eba! — Gritou Elika animada. — Vem mamãe, vamos jantar.
– Daqui a pouco, passarinho. — Digo sorrindo para a minha pequena. — Agora eu tenho que conversar com o Finnick uns minutinhos e depois vou te encontrar na cozinha.
Elika sorri e depois de segurar a mão de Annie, as duas saem da sala de estar. Finnick e eu não dissemos nada um para o outro. Apenas ficamos nos encarando carrancudos.
– Hoje eu acordei, fui trabalhar. Depois fui almoçar, depois voltei para o meu trabalho mais uma vez. E por último fui embora para casa. Quando eu cheguei aqui eu encontrei minha esposa com uma criança desconhecida, que eu nunca tinha visto antes, e ela me diz que a menina era sua filha. — Fala ele muito calmamente, todavia seus olhos verdes queimavam. — Sua filha, Katniss. Eu mal podia acreditar, mas quando eu olhei para Elika eu apenas queria pegá-la nos meus braços e correr para Peeta o mais rápido possível. Eu não sei onde você esteve nesses quase cinco anos, e muito menos o que estava fazendo, porém o que você fez ao esconder Elika do Peeta é imperdoável. O que diabos você tinha na cabeça para fazer algo tão cruel assim?
– Você tem razão Finnick, você não sabe nada da minha vida. Não sabe nada do que eu tive que passar para cuidar da minha filha sozinha. Eu cuidei de Elika. Eu sou a mãe e o pai dela. Você me entende? — Respondo tentando ao máximo controlar o meu tom de voz.
– Não entendo, e nem vou aceitar essa sua desculpazinha barata de que Elika é só sua. Você ficou louca? Peeta nunca desconfiou de nada disso, sabia? Você levou a filha dele para longe e nem ao menos contou de sua existência para ele...
– Você não sabe do que esta falando, ok? Não pode me acusar dessas coisas sem saber o que eu passei. — Respondo mais irritada do que nunca. — Quando eu soube da gravidez eu liguei para a mãe dele, e ela me mandou abortar. Ouviu bem? A mãe do Peeta disse que ele estava de casamento marcado com a Glimmer e me mandou dinheiro para abortar, disse que não queria nenhum bastardo na família Mellark, e que eu não daria o golpe da barriga em seu filho.
Meu olhos queimam pelas lágrimas que eu estou tentando não derramar, me recuso a chorar mais uma vez por essas lembranças ruins. Em nenhum momento eu pensei em me livrar de Elika. Ela é minha filha, tudo o que mais me importo no mundo.
– Aquele mulher é ruim, Katniss. Mas, não pode ter pedido algo tão monstruoso assim...
– Ela não só pediu, como me mandou o dinheiro. Eu nunca faria mal ao bebê que estava esperando, e com certeza eu não voltaria rastejando implorando para Peeta me querer. — Retruco de forma venenosa.
– Voltaria rastejando implorando para Peeta te querer? De onde você tirou isso, aquele cara ficou maluco quando você desapareceu. — Finnick me conta, mas eu não posso imaginar isso sendo verdade, não depois da ligação que ele me mandou. — Você sumiu e fui eu que tive que aguentar o Peeta choramingando de um lado para o outro, tão desesperado que me assustava. Ele nunca ficaria com Glimmer sabendo que você estava grávida. Ele iria ao inferno atrás de você.
– Você pode ser tão inocente, Finnick. Caiu mesmo nessa história de garoto apaixonado, isso é um teatrinho dele. — Respondo ainda mais irritada que antes. — Peeta por acaso te disse que me mandou uma mensagem terminando tudo comigo? Falando que nunca mais queria me ver e que ficar comigo foi um erro terrível? Ele te contou isso? Que me chutou quando eu mais precisei dele, como se eu fosse a porcaria de uma nada.
Finnick apenas me olha confuso, ele esta tentando entender e digerir tudo o que eu disse.
– O Peeta fez o que? — Pergunta ele ao me encarar. — Te mandou uma mensagem terminando com você? Ele não fez isso...
– É claro que fez, eu tinha acabado de ser expulsa da Universidade por uma mentira da Glimmer, então a mãe dele veio até mim e me mostrou a mensagem que ele tinha mandado que ela me passasse. Depois de ouvir a mensagem eu soube bem onde era o meu lugar no coração dele. E fui embora da Capital. Eu não sabia que estava grávida, soube algum tempo depois e quando eu liguei para a mãe dele para contar isso ela apenas me mandou fazer o aborto. — Digo em uma enxurrada.
– Peeta não pode ter feito isso, Katniss. Deve ter sido alguma armação da mãe dele para separar vocês dois. — Diz ele ao se levantar de onde estava sentado. — Acredite quando eu digo que Peeta ficou um pouco maluco quando descobriu que você tinha ido embora da Capital. Eu o acompanhei em sua busca para encontrar você. Ele nunca ficou tão alterado emocionalmente. Peeta não terminaria com você.
– Finnick, ele só queria um motivo para voltar com a Glimmer. Ele deve ter se arrependido de ficar comigo e me chutou, eu não me importo mais com isso. Apenas quero cuidar e educar a minha filha em paz. — Falo ao olhar para as minhas mãos. Pensar em Peeta ainda machuca, eu não quero lembrar daquela mensagem nunca mais.
– Não, Katniss. Eu não posso acreditar que ele fez isso. Isso foi algum tipo de armação, eu tenho certeza. Eu nem sabia que você tinha sido expulsa, nós nunca conseguimos nenhuma informação da direção. A única coisa que sabíamos é que você tinha trancado o curso e ido embora. — Ouço-o dizer, mas ainda não me permito olhar para ele.
– Foi uma mentira que Glimmer falou, ela disse que eu tinha roubado uma pulseira dela, e deu um jeito de colocar a pulseira dentro da minha mochila enquanto eu não estava olhando. Mas, posso entender que a Universidade tenha ficado do lado dela, na época o pai dela iria bancar alguma super reforça na biblioteca e eu não tinha chance alguma contra ela. O reitor não permitiu que eu me defendesse, eu apenas tinha que sair o mais rápido possível do campus. — Contar isso não foi tão difícil quanto eu achei que seria.
Essa é uma história que eu não gosto de lembrar, nunca gostei. Eu ainda posso sentir o gosto amargo da injustiça queimar no fundo da minha garganta. Acho que nunca vou poder me livrar da magoa daquele dia.
– Eles devem ter abafado o caso, porque Glimmer ainda era estudante da Universidade. Haymitch ficou sabendo do caso depois que eu fui embora. Eu achei que todos sabiam disso. — Continuo a contar. — As coisas não foram fáceis para mim, ok? Eu batalhei muito para cuidar de Elika.
– Você contou para ela de Peeta. — Ele me diz quase em um sussurro.
– Haymitch contou. — Digo um pouco indignada. Ainda estou tentando perdoar aquele velho chato de ter contado o nome de Peeta para Elika.
Agora tudo o que ela faz é perguntar de Peeta. Tudo é "o meu papai isso" ou "o meu papai vai me trazer chocolate". O que eu posso dizer para a minha filha, que tipo de mentira eu posso contar que a faça esquecer de Peeta? Não existe nada que eu possa fazer.
– Ele fez bem em contar, o Peeta tem que saber dela o mais rápido possível. — Ele me diz ao se aproximar de onde eu estou. — Isso não pode continuar assim. Eu não vou poder manter o seu segredo. Eu sei disso porque vou ser pai, e o bebê que Annie espera é tudo o que eu mais quero no mundo. Peeta, vai querer conhecer a filha dele, vai querer fazer parte da vida dela.
– Eu sei Finnick, eu já tinha combinado com Haymitch que iria contar a verdade para ele. Apenas não quero que ele magoe Elika, não quero que a família dele machuque a minha filha. — Falo ao encarar Finnick muito séria. — Eu vou dar uma oportunidade de ele conhecê-la, porém se ele magoá-la uma vez sequer, eu nunca mais vou permitir que ele se aproxime dela.
Somos interrompidos quando Elika entra pulando com duas batatas fritas nas mãos e vai até onde Finnick esta e entrega uma batata para ele, depois vem saltitando até onde eu estou e me entrega uma outra batata.
– Uma delícia, não é mamãe? — Pergunta ela ao me fazer comer a batata.
– Claro que sim, já terminou de jantar? — Pergunto para ela. — Amanhã nós vamos no parque brincar, então temos que ir embora rápido.
– O parque? Eu adoro o parque. A titia Annie vai também? — Me pergunta ela sorrindo.
– Não, nós vamos com o amigo da mamãe. O Darius. — Respondo depois de beijar o topo dos cabelos dela.
Elika sorri e pula divertida, com os braços acima da cabeça.
– Eu vou descer no escorrega, depois eu vou brincar no gira-gira e vou pegar florzinhas...
Eu e Finnick sorrimos com o entusiasmo de Elika.
– Ela é tão parecida com ele, Katniss. — Ouço Finnick me dizer.
– Eu sei. — Respondo ao deixar que um sorriso triste escapasse de meus lábios. — Eu sei...
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Peeta
"...I never meant to get us in this deep
I never meant for this to mean a thing
Oh, I wish you were the one
Wish you were the one that got away..."
***
– Mas, que merda. — Grito quando eu sou acordado com um balde de água gelada que foi jogado no meu rosto. — Que porra é essa...
– Ele acordou. — Ouço uma voz conhecida dizer ao meu lado. — Você sabia que ainda tinha pedras de gelo ai dentro?
– Foi justamente por isso que eu resolvi pegar esse balde. — Ouço outra voz também conhecida dizer para a primeira voz.
O que está acontecendo? Onde eu estou? Por que a minha cabeça está doendo tanto ao ponto de eu achar que tem algo martelando dentro do meu crânio. Minha visão ainda esta um pouco turva pelo modo abrupto com que eu fui acordado.
– Eu achei que ele estaria pior. — Ouço a primeira voz dizer para a segunda e quando eu encaro o dono da voz eu posso ver Finnick me olhando com um sorriso sacana. — O dorminhoco acordou.
– Finnick, o que esta acontecendo? Por que você me jogou água? — Pergunto irritado, mas somente o som da minha voz já me dá uma dor de cabeça muito maior do que eu esperava.
Eu olho em volta e vejo Haymitch me encarando do outro lado de onde eu estou meio caído, meio deitado em um banco grande e vermelho.
– Doçura. — Diz ele para uma garota vestindo lingerie ao seu lado. — Traga mais uma balde de água, um só parece que não deu muito certo.
– Não. — Grito novamente, ao fazer um grande esforço e me sentar meio desengonçado no banco de couro vermelho. — Eu já acordei, já acordei, não precisam me molhar de novo. Se bem que não precisavam nem me molhar da primeira vez.
– Nós te chamamos, você não acordava, o que esperava que eu fizesse? — Haymitch diz depois de fazer um barulho indignado com os lábios. — Sabe, eu deveria ter chamado o seu pai.
– Onde estamos? — Pergunto ao ignorar o meu antigo mentor e olhar em volta assustado. Não me lembro de muita coisa da noite passada, nem do dia de hoje. Eu apenas bebi, e bebi. Por qual motivo mesmo?
Sou tomado quase que imediatamente pelas lembranças do dia anterior. Katniss com os braços estendidos pegando sua pequena filha no colo. O grito de "mamãe" ecoando em meus ouvidos, a dor me rasgando o peito. Eu devo ter bebido muito para apagar desse jeito. Ao que posso notar eu ainda estou no saguão principal do clube, não me lembro de ter ido para a cama com nenhuma prostituta, o que é muito bom, ou eu estaria me sentindo muito pior agora.
A dor da traição começou a crescer novamente em meu peito. Me esmagando lentamente, eu tive que me curvar para controlar a dor que começa a crescer em meu coração quando eu sinto outro balde de água sendo despejado em minhas costas.
– Que porra! — Grito ao me me lançar para o lado, estou encharcado da cabeça aos pés. — Porra Haymitch, pare de que molhar.
– Dessa vez fui eu. — Diz Finnick sorrindo, e em suas mãos está a prova do crime.
– Finnick, seu idiota, depois que eu me secar eu vou matar você. — Grunho irritado, não vou admitir, porém até que foi bom eu ter levado essa balde de água à mais nas costas. Agora eu tenho outra coisa para me preocupar que não seja Katniss e suas mentiras. — Como vocês me encontraram?
– Ah, uma moça muito simpática chamada Cara de Raposa me ligou. — Responde Finnick. — Eu decidi ligar para o seu antigo mentor, pois tenho certeza que seu pai não entenderia o seu gosto por casas de diversão iguais a essa.
– Não vim aqui usar mulher nenhuma. Eu apenas queria me esconder e beber. — Digo irritado, tenho que prestar atenção no que eu falo pois estou tremendo tanto de frio que meus dentes começaram a bater.
– Grande ideia garoto, encher a cara em um clube de damas tão bonitas é sempre uma boa ideia. — Haymitch me diz. — Apenas não conte para Effie que eu disso isso.
Eu olho para os dois e me ressinto de suas presenças. Não estou com animo para piadas e não quero ver ninguém. Que dia é hoje? Não sei. Mas, minha cabeça doí tanto que eu acho que estou bebendo aqui à mais de uma semana.
Katniss tem uma filha. Ela está casada com aquele homem ruivo e tem uma filha.
Eu preciso beber mais. Penso depois de uma longo suspiro cansado. Preciso beber um mar inteiro de uísque para começar a aceitar a ideia de que eu tenho que esquecê-la de uma vez por todas.
– Você. — Digo para a moça que esta ao lado de Haymitch. — Eu quero dois copos de uísque, na verdade me traga a porra da garrafa inteira. E vocês...- Eu olho de Haymitch para Finnick com uma careta. — ...apenas vão embora e me deixem em paz.
– Cancele o pedido, doçura. — Ouço a voz de trovão de Haymitch dizer a moça. — A farra desse aqui acabou, nós o estamos levando para casa.
– Obrigada, nós já não sabíamos o que fazer. Aqui esta a carteira dele. — Diz a moça ao entregar a carteira para Finnick. — Tudo esta ai dentro, nós só debitamos o que foi utilizado por ele.
– Ele por acaso foi se divertir com alguma de vocês? — Finnick pergunta curioso.
A moça o olha dos pés a cabeça e sorri de forma devassa.
– Não. Ele só ficou bebendo e chorando. Mas, se você quiser se divertir eu faço de graça. — Ela diz ao passar a língua nos lábios de forma sedutora.
– Coisa linda, não posso. Tenho uma esposa grávida que eu amo muito me esperando em casa. — Ouço Finnick dizer depois de sorrir. A moça ainda faz um beicinho triste e nos deixa sozinhos depois.
Espera um pouco. Penso rapidamente. Esposa grávida?
– Annie está grávida? — Pergunto em voz alta.
– Está sim, Peeta. Vou ser pai. — Ele me diz sorrindo radiante.
Finnick vai ser pai de um filho de Annie, da mulher que sempre foi apaixonado. Da sua querida esposa.
E eu perdi Katniss para sempre.
– E lá vem. — Ouço Haymitch dizer no mesmo momento em que eu me abaixo para conter a dor em meu peito, ouço alguns soluços me escapam e mal posso acreditar que estou chorando na frente dos meus amigos.
– Eu a perdi, eu a perdi. — Sussurro cheio de dor.
– Peeta, do que você esta falando? — Finnick pergunta ao me dar alguns tapas nas costas. — Quem você perdeu?
– Katniss. — Eu digo ainda sem olhar para os dois, minhas mãos estão no meu rosto. Estou fazendo tudo o que eu posso para me controlar. — Eu a perdi para sempre. Ela tem uma filha, vocês sabiam? Ela é casada e tem uma filha com aquele homem ruivo.
– De onde você tirou isso? — Finnick pergunta. — Ela te disso isso?
– Eu a segui. — Respondo ao olhar para Haymitch. — Eu a segui e ela tem uma filha, por que você não me contou?
– Que confusão, é muito drama para uma pessoa só. É sério, depois que tudo isso for resolvido eu prefiro participar de outro Jogos Vorazes ao invés de enfrentar o drama de vocês mais uma vez. — Haymitch me diz com uma expressão cansada no rosto. — De onde você tirou essa brilhante ideia de que ela é casada?
– Ela tem uma filha. — Respondo de maneira obvia.
– Sim, Katniss tem uma filha. Será que esta muito difícil para você entender o que isso significa. Garoto, começa a somar um mais um, põe esses neurônios para funcionar e pensa. — Haymitch praticamente grunhi. — Você falou com a menina à alguns dias atrás, lembra?
– Eu falei? — Pergunto confuso.
E de repente eu me lembro, eu conversei com uma menininha pelo telefone. Uma garotinha com uma voz muito delicada, e que adorava chocolate. Ela disse que a mãe dela não a deixava comer o doce todos os dias, e que seu nome era...
– Passarinho! — Eu afirmo confuso, de algum jeito o meu coração deu um salto dentro do peito.
– Isso garoto, continue pensando. — Me incentiva Haymitch, eu sei que devo estar olhando para ele com uma cara de maluco.
Isso não faz o menor sentindo, e de uma jeito macabro faz todo o sentido do mundo. Quando eu fui procurar por Katniss no Distrito Doze, uma moradora me disse que Katniss tinha um passarinho, e quando eu questionei o meu antigo mentor disso, logo quando eu voltei do Distrito Doze, o Haymitch me disse que Katniss nunca se livraria de uma certo passarinho.
Eu achei que era uma ave, um pássaro de verdade. E não uma menininha. Uma garotinha.
Elika. Esse foi o nome que a moça no Doze me disse, e Haymitch já confirmou esse nome.
Mas, se Katniss estava no Doze, morando naquela casa velha que pertence a sua familia, ela não poderia estar casada com esse homem. E a outra velha do Distrito Doze, avó da mulher confusa que estava conversando comigo, me disse que Katniss estava vivendo sozinha com seu passarinho.
Se o homem ruivo, Darius, me forço a lembrar do nome. Não estava com elas naquele tempo, ele não é o pai da filha de Katniss. E se ele não é o pai da filha de Katniss, quem é o pai da garotinha?
Haymitch me olha com um grande sorriso no rosto. Ele deve ter visto algo estampado no meu rosto, porque em seguida solta uma longa gargalhada e me aperta o ombro com a sua mão.
– Descobriu agora? Ou eu vou ter que desenhar para você? — Ele me diz ainda sorrindo. — Parabéns, papai.
Eu continuo tão imóvel como antes, eu sei que tenho um milhão de perguntas para fazer, mas nesse momento minha língua esta colada no céu da boca e eu apenas sinto o meu coração disparar no peito. Ele bate tão rápido que eu começo a perder o ar, e tenho que me lembrar de respirar, ainda assim eu sinto o meu corpo caindo para o lado e é quando Finnick pula e me segura com força.
– Ele vai desmaiar. — Ouço Finnick dizer ao segurar os meus ombros e me impedir de cair do banco de couro vermelho. Sua voz esta vindo de um longo túnel, muito distante de onde eu estou agora. — Ou vomitar, eu não sei. Vamos Haymitch, pare de rir e me ajude aqui.
– Eu queria tanto filmar esse momento. — Haymitch responde, ele chega a perder o ar de tanto que esta rindo. — Não desmaia não garoto, você vai querer estar acordado para ouvir o resta da história.
Eu não consigo respirar, eu não consigo pensar, eu não consigo fazer nada que exija muito do meu raciocínio. Não pode ser verdade. Isso deve ser algum tipo de brincadeira de Haymitch ou Finnick. Ambos sempre gostaram de rir de mim.
Não pode ser verdade, não pode ser verdade, não pode ser verdade. Começo a pensar como um mantra. Lentamente eu sinto os movimentos do meu corpo voltarem ao meu comando.
– Ela...- Começo a perguntar, mas as palavras ainda vem muito lentamente para o meu cérebro. -...Ela...Katniss disso isso? Katniss confirmou isso?
Sinto uma novo enxurrada de lágrimas escorrerem pelo meu rosto, eu não estou chorando, mas ainda assim as lágrimas estão descendo pelo meu rosto.
Haymitch acena afirmativamente com a cabeça e Finnick também acena com ele.
– Vocês sabiam disso e não me contaram? — A pergunta escapa dos meus lábios como uma maldição.
– Ela me fez prometer que não contaria, sinto muito Peeta. Eu tive que cumprir com a minha palavra, mas eu fiz de tudo para convencê-la a te contar, e ela vai fazer isso. Vocês tem muito o que conversar. — Haymitch diz, dá para notar em seus olhos a dor por não ter me contado antes.
Eu ainda estou tão chocado que não consigo sentir raiva dele. Apenas faço Finnick me soltar e me acerto no banco molhado. Olho para Finnick esperando uma explicação.
– Eu descobri hoje, mais cedo. Katniss pediu para Annie pegar Elika na escola e ela passou algumas horas lá em casa. Depois que Katniss foi embora com a menina, eu recebi a ligação aqui do clube, ai fui atrás do Haymitch e aqui estamos nós. — Finnick me diz muito seriamente. — Você sabe que se eu tivesse descoberto antes eu teria te contado.
Fico muito quieto, tento pensar em todas as informações que estavam na minha cara e eu deixei passar despercebidos. Eu sou o maior imbecil de Panem. Eu sou uma anta, um idiota, um burro...
...eu sou um pai.
Eu sou pai! Katniss tem um filho meu. Ou melhor dizendo, uma filha, uma garotinha. Eu sou pai de uma garotinha.
Sou pai de Elika.
– Eu a vi, Peeta. Ela se parece muito com você. — Finnick me diz cheio de emoção na voz.
– Isso é verdade, a pequena tem os seus olhos azuis. — Haymitch diz com uma voz cheio de carinho. — Elika é uma menina muito doce, um pedaço de céu. Nem parece filha de quem é.
– Por que ela não me disse? Por que não me contou? — Pergunto para ninguém em especial. Katniss me odeia tanto ao ponto de me afastar de nossa filha? — Quantos anos ela tem? Qual é sua cor favorita? Em que escola estuda? O que gosta de comer?
– Katniss me explicou algumas coisas, eu não sei até que ponto tudo o que ela disse é verdade. Mas, eu a questionei de qualquer forma. — Finnick me disse. — Ela me contou que foi expulsa da Universidade, que Glimmer mentiu para o reitor da Universidade dizendo que Katniss tinha roubado uma joia dela. O reitor expulsou Katniss, e depois ela me disse que no mesmo dia a sua mãe apareceu e mostrou para ela uma mensagem que você tinha mandado terminando tudo o que tinha com ela, então ela foi embora e depois de algum tempo ela descobriu que estava grávida e ligou para a sua mãe e...
– E o que? — Pergunto confuso. Que ligação foi essa que eu fiz terminando tudo com ela? De onde Katniss tirou isso?
– Bom, acho melhor você perguntar para Katniss essa segunda parte, eu tenho certeza que ela vai te explicar. — Finnick desconversa. — Mas, o que eu queria te perguntar mesmo é dessa mensagem que você enviou para ela.
– Eu não enviei mensagem nenhuma, eu nem sabia que ela tinha sido expulsa. — Digo irritado, parece que as minhas emoções estavam voltando a tona, mais fortes do que nunca.
Olho para Haymitch e o vejo abaixar a cabeça nessa hora, seu rosto parecia muito culpado.
– Você sabia disso? — Eu pergunto em voz alta, nesse momento eu volto a sentir o meu corpo tremer por causa da água. Acho que agora que o choque esta indo embora, eu estou voltando a sentir as coisas normalmente.
– Sim, eu sabia que ela tinha sido expulsa. Eu não pude te contar porque eu sabia que a sua mãe estava envolvida nisso. — Haymitch me diz. — Não foi somente Glimmer que armou tudo, ela e a mãe estiveram na universidade e fizeram um verdadeiro teatro para o antigo reitor, eu soube que sua mãe também foi conversar com o reitor e pedir a expulsão de Katniss. Sinto muito garoto, você sabe que eu tentei de tudo para encontrar a docinho, para trazê-la de volta, mas eu não pude. Eu sempre vou me sentir um pouco culpado por não estar aqui para defendê-la quando ela precisou, eu tinha prometido sabe, prometi que tudo ficaria bem, e que iria ajudá-la. Porém as coisas não aconteceram como previsto.
E eu não posso culpar Haymitch por ter mantido segredo disso. Ele realmente tentou encontrá-la, nosso antigo mentor sempre teve um carinho muito forte por ela, mesmo que os dois não se deem bem todo tempo.
– Antes de ir embora, ela me deixou uma mensagem sabe. Eu nunca contei dela para você. — Haymitch continua a dizer. — Ela estava tão triste, e chorava no telefone. Me agradeceu por eu ter dado uma oportunidade para ela com a bolsa, e me disse que estava indo embora da Capital. E eu não estava aqui para ajudá-la, Peeta. Mas, no começo desse ano, ela me mandou uma carta, como eu já contei para você. E quando eu fui encontrá-la e vi a situação que ela estava, em que as duas estavam. Eu sabia que a filha era sua, mas Katniss negava e não queria falar no assunto com ninguém. Eu precisava trazê-la de volta, para algum lugar onde eu podia estar de olho nas duas, saber se elas estavam se alimentando...
Haymitch para de falar nesse momento e me olha. Eu sinto o meu estômago afundar com gelo puro dentro. A informação que ele me deu chega até o meu cérebro como um soco forte.
– Você quer dizer que Katniss e a minha filha estavam passando fome? — A pergunta me escapa friamente.
– Você viu a casa velha dela na costura. O que você imaginava? — É a única coisa que ele diz e eu sei a verdade, eu sei que Katniss estava passando fome com a minha filha nos braços, eu não sei o que a levou a esconder a menina de mim.
Todavia, sequer imaginar que ela passou fome no últimos anos, enquanto eu sempre tive uma vida de luxo com Glimmer enche a minha mente de um veneno poderoso.
– Eu preciso falar com Katniss. — Digo e me levanto abruptamente, mais rápido do que eu imaginava eu volto a me sentar, minha cabeça gira e gira sem parar e doí muito pela ressaca. Meu corpo esta fraco pela desidratação que passei nesses dois dias, apenas bebendo e bebendo.
– Calma lá garoto, o que você acha que vai fazer onze horas da noite. Katniss já deve estar dormindo à muito tempo, sabia? — Haymitch me fala.
– É verdade, Peeta. Você vai para a minha casa e fala com ela amanhã. — Finnick fala ao me ajudar a levantar, quando eu estou em pé sem sentir nenhum risco de cair novamente eu me afasto dele e começo a atravessar o clube direto para a porta que leva ao estacionamento.
– Não posso esperar, tenho que conversar com Katniss, tenho que ver a minha filha. Tenho que...
– Você tem que tomar um banho e dormir. — Diz Haymitch barrando a minha passagem para fora do clube. — Você me entendeu?
– Não tenho tempo para isso...
– Quer dizer então que você vai conversar com Katniss cheirando a uma destilaria de uísque e todo molhado? Espera eu passar na minha casa que dessa vez é certeza que eu vou pegar uma câmera para filmar isso. — Haymitch fala com uma voz cheia de deboche.
Eu não tinha notado o meu estado. Estou cheirando tão mal assim? Eu aposto que estou. Mas, não quero ir para o hotel e ficar sozinho essa noite, não posso aguentar um minuto longe de Katniss.
Eu não acredito que ela me escondeu isso durante todo esse tempo. Eu tenho uma filha, eu sou pai de uma garotinha e não fazia a minima ideia. O que deu na cabeça dela para me manter afastado da minha própria filha?
Caramba, os meus pais não fazem a menor ideia que Elika existe. O que será que eles vão dizer quando eu contar que Katniss tem uma filha minha.
Uma filha minha. A filha de Katniss é minha.
Sinto o meu peito se encher de orgulho, de satisfação e alegria.
A menina não é apenas filha de Katniss, ela é minha filha. Minha Elika.
Katniss a chama de passarinho. Eu quero saber o porquê? Eu quero saber tudo sobre Elika, eu quero olhar para ela pela primeira vez. Eu a vi à um dias atrás, mas foi muito rápido e eu só vi a menina de costas, seus cabelos castanho escuro são iguais aos de Katniss.
E o grito de "mamãe" agora ecoa no meu ouvido, não mais como um lembrete que eu perdi Katniss para sempre. Agora é um lembrete que eu nunca a perdi. Agora que eu sei que nós dois temos uma filha juntos, ela vai ter que me escutar, vai ter que me explicar porque sumiu durante tantos anos, porque escondeu Elika de mim, porque me manteve afastado. Eu estou com raiva, com muito raiva, mas eu também estou excitado como a muito tempo eu não estive.
No final eu acato a decisão do Haymitch de ir atrás de Katniss de qualquer jeito e decido voltar para o hotel, tenho que me recuperar e me preparar para ir atrás de Katniss na manhã seguinte, eu falei para eles que iria atrás de Katniss na parte da tarde, mas não vou poder esperar tanto tempo. Vou no inicio da manhã.
Já que Finnick tinha levado Katniss de carro até a sua casa ele acabou por me passar o endereço dela, o precioso endereço. Acho que ele não acreditou que eu iria esperar até a tarde para ir procurá-la, pois me sussurrou que ela estava planejando ir ao parque que tem próximo a casa dela no período da manhã.
Haymitch e Finnick vão para seus carros e vou para o meu. Finnick insistiu em me acompanhar até o Hotel, para se certificar de que eu vou chegar em segurança. Eu estou molhado e com uma ressaca infeliz, mas ainda posso dirigir.
Eu sou pai. Penso quando o meu coração se enche de sentimentos conflitantes. Não consigo parar de pensar nisso.
***
Dizem que quando você morre a sua vida toda passa diante dos seus olhos. Bom, eu nunca morri, então não sei se isso é verdade. Mas quando eu olhei pela primeira vez nos olhos azuis da minha filha eu posso jurar que minha vida toda passou diante dos meus olhos.
Ela é a criança mais bonita que eu já vi em toda a minha vida.
Acho que até então a ideia de ser pai não se fixou muito bem na minha cabeça. Quer dizer, Finnick e Haymitch me disseram que eu era pai, e eu aceitei isso, mas essa informação, essa nova constituição na minha vida só passou a ser verdade no momento em que eu coloquei os meus olhos na menininha sorridente na minha frente.
Como planejado eu fui para o hotel onde estou hospedado e esperei até o dia amanhecer. Me obriguei a dormir, entretanto eu acordava à cada poucas horas assustado e temeroso, cheio de medo de tudo ter sido um sonho. Quando eu me certificava que não, eu conseguia voltar a dormir. Meu coração estava apertado e minha ansiedade estava a mil por hora.
Quando o dia amanheceu, eu fiz minha barba, tomei um café da manhã rápido e fui direto para o endereço que Finnick me passou. A casa onde Katniss morava com a nossa filha era bonita, pequena e parecia ser aconchegante.
Um lar. Pensei aflito. Aquilo era um lar e eu não fazia parte dele.
Isso me deixava com muita raiva e muita dor. Então depois de admirar o entrada da casa por alguns minutos eu passeio de carro pelo quarteirão à procura do parque que Katniss tinha falado que iria cedo com Elika.
Eu encontrei um parque não muito distante dali e logo estacionei o meu carro e fui a procura de Katniss e minha filha.
Meus olhos estavam atentos a qualquer criança nas proximidades, estava tão assustado que todas as meninas pareciam ser aquilo que eu estava procurando, mas elas não eram. Todavia, toda a minha vida mudou assim que eu me aproximei de um grande arbusto cheio de pequenas flores. Uma garotinha estava abaixada perto, colhendo em suas pequenas mãos um buque de flores azuis e amarelas.
Seus cabelos eram os cabelos de Katniss, suas bochechas rosadas e gorduchas eram iguais as minhas memorias de Katniss quando criança. O seu jeito de ficar parada lembrava muito o de Katniss.
Ela usava um bonito vestido cinza, e sapatilhas pretas muito delicadas. Ela me lembrava uma pequena boneca, muito linda para ser real.
Eu podia sentir o meu coração explodindo dentro do peito. A cada passo que eu dava para mais perto da menina, mais nervoso e ansioso eu ficava. Eu sentia que era ela. Eu podia muito bem nunca ter visto a menina na minha frente, mas eu sabia que aquela garotinha era minha.
Minha filha. Pensei ao suspirar audivelmente, e só então eu notei que estava prendendo a respiração. Como Katniss pode fazer isso comigo?
Esconder essa menina da minha vida. Me impedir de saber da existência da minha própria filha.
E a menina nem ao menos sabia que eu sou o seu pai.
Eu nunca vou me esquecer do choque que senti ao olhar nos olhos da minha filha pela primeira vez. A menina é incontestavelmente filha de Katniss e minha.
Elika é um pequeno anjo perfeito. E os traços delicados de seu rosto de criança lembravam os traços perfeitos do rosto de Katniss.
Eu senti uma lágrima escorrer pelo meu rosto ao notar pela primeira vez que era nos olhos de Elika onde eu estava, e até mesmo o sorriso dela me lembra a minha forma de sorrir.
Os sorrisos de Katniss são mais contidos, raros de se ver e por isso que eu sempre amei cada um deles, eram todos preciosos. Nossa filha sorri abertamente, da mesma forma do meu sorriso.
Minha filha. Penso ao me ajoelhar ao seu lado. A certeza da minha paternidade estava nos olhos da minha menina.
– Olá. — Elika interrompe os meus pensamentos. — Você esta chorando.
– Desculpe, eu estou emocionado. — Digo para ela, e é a mesma voz da garotinha do telefone. Muito delicada e doce. Como eu estou ajoelhado ao seu lado, eu posso sentir o seu perfume gostoso de criança — O que você esta fazendo?
Eu quero tocá-la, quero apertá-la em meus braços e nunca mais soltá-la.
– Eu estou fazendo um buquê de florzinhas, minha mamãe disse que eu podia. — A menina me responde ao sorrir. Fico encantado ao perceber que ela gesticula com as mãos como eu faço. — Minha mamãe disse que eu não posso falar com estranhos.
– Eu não sou um estranho, eu sou o seu...
– Elika! — Somos interrompidos por um grito histérico de Katniss. Em questão de segundos Elika é arrancada de onde eu estou para os braços de sua mãe. — Nunca mais faça isso, nunca mais fique longe de mim.
Rapidamente eu me levanto e encaro Katniss. Os seus olhos cinzentos estão arregalados de pavor quando ela me encara.
– Calma mamãe, eu não fui longe e peguei um monte de florzinhas. — Ouço Elika dizer para a mãe. Katniss apenas a abraça com mais força e se afasta de onde eu estou.
– Você não vai fugir. — Eu rosno para ela.
– Nós já vamos conversar, ok? — Diz ela, e eu sei que é para mim. — Eu apenas preciso levar minha filha para longe da nossa conversa.
Vendo Katniss com nossa filha nos braços eu apenas sinto o meu corpo esquentar de emoção. Quero as duas. Elas são minhas. Minha mulher e minha filha.
Logo, vejo o homem ruivo não muito de onde Katniss esta se encaminhando apressada. Elika me olha curiosa, mas não esta mais sorrindo. Minha menina apenas parece apreensiva.
– Darius, você pode levar Elika para brincar nos brinquedos? — Pergunta Katniss ao homem. Ele me olha sem deixar que nenhuma emoção transpareça o seu rosto e depois sorri para Elika.
Katniss entrega a minha filha nos braços do outro homem e me olha irritada.
– Mamãe, não vai não, fica comigo. — Nós dois olhamos para Elika ao mesmo tempo. Nossa filha esta com os olhos marejados.
– Mamãe já volta, passarinho. — Diz Katniss ao se aproximar da filha e distribuir muitos beijos em seu rosto. — Você sabe que eu amo você, não sabe? Daqui a lua?
– Eu te amo, daqui as estrelinhas. — Elika diz ao se acalmar um pouco. — Você volta logo? Eu quero brincar com você?
– É claro que sim, passarinho. Eu vou ficar bem a suas vistas, o que acha? Você vai poder brincar com Darius e ficar de olho na mamãe de qualquer jeito. — Katniss insiste com a filha.
O meu coração se aperta muito ao vê-las juntas. E eu sinto raiva de Katniss, muito raiva por ela ter escondida a minha filha por tantos anos.
– Combinado, mamãe. Mas, depois nós vamos tomar sorvete. — Exigi a minha menina, o que faz o meu coração derreter de amor por ela.
Katniss me olha e faz sinal para que eu a acompanhe para longe dos ouvidos curiosos de nosso filha.
Nossa filha. Adoro pensar assim. Nunca antes eu gostei tanto da palavra "nossa" como agora.
Quando estamos em uma distância segura, nós dois paramos perto um do outro e apenas ficamos nos olhando.
– Eu pedi que você não me seguisse mais. — Ela me diz com olhos brilhando de raiva.
– Ela é minha filha, não é? — Pergunto de forma seca. — E não minta para mim Katniss.
Nossa conversa ainda mantém a atenção de Elika, que mesmo estando longe ainda está nos encarando curiosa.
– Não te devo explicação nenhuma, Peeta Mellark. — Katniss me enfrenta de forma poderosa, igual a uma leoa feroz defendendo a sua cria. — Você não tem direito algum de me seguir e me exigir respostas. Deixa eu te lembrar de uma coisa que você parece estar esquecendo. Foi você que me abandonou, lembra? Foi você que terminou comigo à muitos anos atrás. Eu enterrei tudo o que eu sentia por você, então você não tem nenhum direito de me perseguir.
– Eu te abandonei? Do que você está falando, foi você que foi embora da Capital. Grávida de uma filha minha ainda por cima. O que diabos você estava pensando, Katniss? — Dessa vez não posso evitar que minha voz saia mais forte, quase um grito de ódio. — Foi você que sumiu, que me abandonou...
– Cala a boca, Peeta. — Grita ela, e sua voz tem tanto rancor que eu sou obrigado a me calar por alguns segundos.
– Não vou me calar, não quando você tem muito o que explicar. — Consigo dizer depois de alguns segundos. Para tentar me acalmar eu passo as mãos pelo meu rosto com força algumas vezes. — Eu estou tentando, juro que estou tentando encontrar um motivo realmente bom para você ter feito isso comigo, ter me afastado da minha própria filha. Você ao menos pensou na dor que eu sentiria ao descobrir a verdade? Ao menos cogitou que eu tenho tanto direito de conhecê-la quanto você? Que minha família vai querer conhecê-la? Que minha mãe...
– Sua mãe! — Afirma Katniss ao me interromper e dessa vez a sua voz é tão poderosa que antes que eu perceba, eu sou obrigado a dar dois passos para trás. Nunca vi Katniss com tanto ódio como agora. — Eu quero a sua mãe bem afastada da minha filha, ouviu bem? Você pode ser o pai dela, Peeta, e eu não vou negar isso. Mas, aquela mulher vai ficar bem longe da minha filha.
– Por que você esta dizendo isso? O que minha mãe te fez? — Pergunto confuso, ontem Finnick insinuou que minha mãe tinha feito alguma coisa contra Katniss, mas não me contou o que era. — Você é a errada aqui, você escondeu a minha filha.
– Eu não escondi nada, eu estou vivendo a minha vida e cuidando da minha filha sem a sua ajuda ou a interferência da sua família, é isso o que eu estou fazendo. Você não sabe de nada do que aconteceu nesses últimos anos e tem a coragem de me exigir respostas. — Katniss retruca, seu rosto esta vermelho de raiva e seus olhos brilham de inquietação. — Você não deveria acreditar em todas as mentiras que sua querida mãe disse da minha partida da Capital. Antes de eu despejar todas as trapaças daquela mulher horrenda, procure primeiro saber da verdade.
– Que verdade? — Grito a pergunta, estou farto de ser feito de idiota, de ficar sendo jogado de um lado para o outro. Sem que eu note o que estou fazendo eu seguro Katniss em meus braços e a mantenho presa pelas minhas mãos. — Você vai me dizer agora mesmo, Katniss. Eu exijo uma resposta.
A narinas de Katniss estão levemente abertas enquanto ela inspira e expira com rapidez. Seus olhos queimam nos meus, mas o seu sangue queima muito mais agora.
– Quando eu descobri que estava grávida, eu liguei para você. Liguei para a sua casa, eu tinha certeza que você iria querer saber da noticia, não importasse se você não me queria mais ao seu lado. Mas, eu sabia que um bebê era algo que não podia ser ignorado. — Ela me conta muito lentamente, seus olhos ainda queimam selvagens. — Sua mãe atendeu o telefone e depois de um diálogo muito esclarecedor sobre o quanto eu era uma maldita morta de fome em busca do seu dinheiro, ela me disse que você estava de casamento marcado com a Glimmer e que eu deveria me livrar do bastardo que estava carregando, que nosso bebê seria uma vergonha para o nome Mellark, e me mandou uma boa quantia para abortar e sumir da sua vida.
– É impossível. — Digo em choque. — Minha mãe nunca faria isso...
– Ela fez, o deposito que ela fez ainda esta na minha conta, eu nunca toquei no dinheiro. Não existe nada no mundo capaz de tirar Elika dos meus braços. E nenhuma forma de eu usar aquele dinheiro amaldiçoado. — Katniss praticamente cospe essas informações no meu rosto.
– Elika não é só sua. É minha também. — Digo para ela, está na hora de estabelecermos algumas verdades.
– Ouça atentamente, Peeta. — Retrucou Katniss com uma voz muito fria e controlada. — Eu sou a mãe e o pai de Elika, enquanto você estava feliz com Glimmer, eu estava sozinha com Elika nos braços. Eu precisei de você, mas você não estava lá, você estava curtindo férias na praia com sua noiva, ou comprando coisas inúteis para ela. Eu não preciso mais de você, e minha filha não precisa que você apareça na vida dela apenas para sair em poucos meses e nunca mais aparecer, porque vai estar muito distraído com a próxima mulher bonita que passar. Me ouviu bem? Eu não vou deixar que você, ou a sua família machuque o coração da minha menina.
Eu mal podia acreditar que ela estivesse me dizendo tudo aquilo.
– E tem mais. — Continuou ela. — É melhor você parar de me perseguir, dessa vez eu vou deixar passar, mas do próxima eu vou chamar os policiais, entendeu? Elika Everdeen pode não significar muita coisa para você, mas ela é o meu mundo inteiro. E não vou permitir que você se aproxime dela sem a minha permissão, se tentar vou ligar para a policia. Eu juro. — E ela não estava mentindo, dava para ver em seus olhos a promessa de retaliação por qualquer um que ousar chegar perto de Elika para machucá-la. Eu sei que não devia ter essa reação, mas ver Katniss tão forte e protetora me encheu de excitação.- Vá e descubra a verdade, depois de alguns dias nós dois podemos marcar e sentar em algum lugar para conversarmos.
Katniss me força a soltá-la e quando estávamos em um distância segura um do outro ela me encara seriamente.
– Uma última coisa. Você tem que entender que eu não sinto mais nada por você. Você não é nada meu e eu não sou nada sua. Eu não sou sua esposa, eu não sou sua amante e eu não sou sua amiga. Enterre o passado e me deixe em paz. — Grunhiu ela muito seriamente, mas não estava olhando em meus olhos. Um clássico sinal de que estava mentindo. Eu a conheço, sei quando mente.
Depois disso ela apenas se virá e vai andando muito rápido para longe de onde eu estou, e direto para onde Elika estava. Depois de falar alguns segundos com Darius, ela pega Elika no colo e se afasta para a saída da parque.
Minha filha me olha confusa e se despede com um aceno de mão. Um gesto tão simples, mas que enche o meu coração de ternura. De jeito nenhum eu vou desistir dela. Essa é a minha família, mesmo que Katniss seja teimosa demais para aceitar.
Vou fazer o que ela me disse, vou descobrir a verdade de uma vez por todas. Eu caminho para o lado contrário da parque e vou correndo em direção ao meu carro. Meu destino? A casa dos meus pais. Minha mãe tem muito o que explicar.
Essa história de aborto tem que estar errada, minha mãe nunca pediria algo assim para Katniss. Vou aproveitar e checar no banco os depósitos feitos por minha mãe no ano em que Katniss foi embora. Se ela estiver certa, eu vou encontrar um deposito dos Mellark's para a conta dos Everdeen's.
Em meu peito eu torço para Katniss estar errada. Não sei o que vou fazer se descobrir que esse deposito realmente foi feito, e que Katniss está certa.
Nunca poderei perdoar a minha mãe se descobrir que ela tentou matar a minha filha.
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