Amarras do Passado
25 The First Cut is The Deepest - Duffy
Notas iniciais
Dias atuais
Katniss
"... I would have given you All of my heart
But there's someone Who's torn it apart
And he's taken Almost all that I've got
But if you want I'll try to love again
Baby, I'll try to love again
But I Know
The first cut is the deepest... "
***
– Ei moça, fique tranquila. Vai dar tempo. — Ouço Darius dizer próximo ao meu ouvido, sinto os seus lábios beijarem o meu ombro nu e tento relaxar o meu corpo.
Depois que ele se afasta eu consigo passar as alças do meu sutiã pelos ombros, ajeito as taças de renda para que meus seios caibam perfeitamente dentro, depois visto a minha camisa social branca, enfeitada com pequenas perolas no colarinho delicado, coloco a barra da camisa por dentro da minha saia social preta e rapidamente calço os meus sapatos de salto alto.
– Sabe, eu estou bem nervoso para conhecer a baixinha. — Diz Darius que nesse momento também estava calçando os sapatos, a camisa social do seu uniforme de policial ainda estava com alguns botões abertos, mas ele já estava praticamente arrumado para que pudêssemos ir pegar Elika na saída de seu turno de estudo na escola primária.
Eu também estou nervosa e ansiosa. É a primeira vez que minha filha vai conhecer o Darius, tive que deixar bem claro que nesse primeiro momento eu irei apresentá-lo como o meu amigo, mesmo ele sendo o meu namorado. Não quero confundir a cabeça da minha filha, e principalmente não quero que ela fique confusa e chateada se o meu relacionamento com ele não der certo.
– Não precisa ficar preocupado. Elika vai adorar você. — Digo para ele, com pressa corro para o banheiro do quarto e depois de acender a luz eu me olho no espelho. Tento domar o meu cabelo ao passar os meus dedos pelas ondas macias, depois de nós dois transarmos eu consegui que nós dois tomássemos uma ducha rápida, não tive tempo de lavar os cabelos, mas fico feliz por ele não estar uma bagunça.
Darius adentra o banheiro e para ao meu lado no grande espelho, ele termina de abotoar os botões da sua camisa e colocar a sua gravata, seu perfil é muito bonito ao me olhar com olhos brilhantes. Um sorriso enfeita os seus lábios cheios e seu cabelo esta levemente bagunçado. Culpa minha.
Molho minhas mãos com um pouco de água e levo os meus dedos molhados para o seu cabelo, tento arrumá-los para uma posição mais ajeitada. Darius apenas sorri ao me ver concentrada nessa pequena tarefa, depois se inclina mais perto do meu rosto e me beija suavemente nós lábios. Seus olhos castanhos sempre estão sorrindo. Isso é uma coisa que eu adoro nele. O seu bom humor. Não importa o quanto as coisas estejam bagunçadas, ele sempre tenta ver o lado positivo de todas as situações, ou das pessoas.
Acho incrível ele conseguir enxergar algo positivo em mim.
– Alguém já te disse que você tem os cabelos mais perfumados de todos? — Pergunta ele ao passar as mãos pelo meu rosto. — É sério moça. Eu poderia ficar viciado com o seu perfume.
Eu apenas sorrio e me inclino para receber outro beijo. Faço isso para distrai-lo já que meu coração começou a sangrar lentamente com o seu comentário. Ele não diz isso para me machucar, ou com o intuito de me ferir, afinal ele não pode saber que esse tipo de comentário me perturba. Que me faz lembrar de um certo alguém que também adorava o perfume dos meus cabelos e que se dizia viciado neles. E não quero lembrar do pai de Elika agora. Não quando estou lutando para colocar a vida nos eixos novamente, quando estou lutando para amar novamente. Para esquecê-lo de uma vez por todas. E apagar as cicatrizes de meu coração.
– Nós temos que ir. — Digo depois do beijo. — Não quero me atrasar e deixar Elika me esperando na saída da escola.
– Ótimo, já estou pronto, deixe-me apenas pegar as chaves do meu carro e minha carteira e nós podemos ir buscar a sua filha na escola. — Fala ele já correndo para pegar as coisas que faltavam para podermos sair do seu apartamento. — Depois nós poderíamos ir naquele restaurante que você gostou na semana passada, o que acha? Lá tem aquele lago com peixes e todos aqueles aquários gigantes. Elika pode se divertir com isso, não pode?
– Claro que pode, eu estou certa que ela vai adorar o lugar. — Digo sorrindo ao observar o quanto ele esta nervoso por conhecer a minha filha. Era algo que ele vinha me pedindo á algum tempo e eu protelei sem saber se estava fazendo o certo, agora eu sei que é o momento certo.
Depois de pegar a minha bolsa no sofá da sua sala de estar, nós saímos apressados do lugar e seguimos para o elevador. Ele me faz segurar a sua mão e entrelaçar os nossos dedos. Estou tão desacostumada a ter um homem ao meu lado, a estar em um relacionamento que vivo me esquecendo desses pequenos detalhes.
Darius não parece se perturbar por eu ser estranha, por eu não abraçar nos momentos mais românticos, por não ficar entre risos e beijinhos como todos os casais apaixonados, enfim ele não liga se eu sou uma pessoa mais fria. O que é bom, já que eu não saberia mudar o meu jeito.
Entramos no elevador e ele logo nós leva para o estacionamento no térreo. Darius me leva até o carro dele, eu e ele entramos no automóvel movido a eletricidade e ele dirige para a escola primaria onde minha filha esta matriculada.
Em minha mente faço as contas dos dias do nosso envolvimento. Já fazem um mês e meio que estamos saindo juntos, estamos namorando oficialmente à alguns dias e hoje foi a segunda vez que transamos. Acho que já posso apresentar Elika para Darius, já que ele esta tão ansioso para conhecê-la.
Não é como se eu estivesse extremamente apaixonada por ele, pois eu não estou, mas eu sinto que pode acontecer. Se eu tiver que me apaixonar novamente por alguém, então ele é o tipo de homem ideal para isso acontecer. E essa tentativa de me apaixonar por outra pessoa que não seja o pai de Elika é muito diferente da tentativa falha que eu fiz com meu ex-amigo Thresh.
Naquela época eu era muito ingenua, muito apaixonada, muito cega de amor por ele. E verdadeiramente não dei a oportunidade de Thresh me ganhar, eu parti o coração dele, sei que fiz isso. E me arrependo. Não por não termos ficado juntos, o nosso rápido relacionamento estava fadado ao fracasso desde o inicio. Eu me arrependo de como aconteceu, de como eu magoei o Thresh. É uma vergonha que eu tenho que carregar, e um ensinamento para que eu não faça a mesma coisa com Darius.
Claro que eu sei que nunca vou amar mais ninguém tão profundamente quando eu amei o pai da minha filha. Amar assim não vale a pena o sofrimento que esta envolvido. E eu nem ao menos sei se ainda tenho algum pedaço do meu coração que eu possa dar a outro alguém. Algo que eu já não tenha dado para o meu antigo amor.
Quando o carro para em um sinal de trânsito, Darius se estica o máximo que pode em seu cinto de segurança e beija o meu ombro, sua mão aperta levemente a minha coxa e ele sorri para mim.
Ele é tão carinhoso, tão atencioso e preocupado com a minha felicidade. Nossos encontros iniciais, que eu achei que foram péssimos por minha causa, afinal sou um projeto falho na interação com outras pessoas, ao seu ver não foram nada ruins, e sem que eu percebesse eu passei a ansiar por nossos momentos juntos, passei a esperar com ansiedade a hora do meu almoço, já que eu passaria com ele.
E por incrível que parece nós temos gostos muito parecidos. Nós dois gostamos das mesmas comidas, mesmo não tendo nascido no mesmo distrito, gostamos do mesmo estilo de música, lemos os mesmos livros, temos a mesma opinião sobre os discursos políticos. Não somos divergentes em quase nada.
Foi estranho no começo, a sensação de que eu poderia me abrir com outra pessoa que não fosse o pai de Elika, que poderia rir de uma piada e não me sentir miserável o tempo todo. Um fracasso como mulher, um desastre em me relacionar com o sexo oposto. E devo confessar que antes de Darius aparecer, eu não tinha interesse nenhum em procurar um novo amor.
Acho que foi por isso que está dando certo, porque eu não procurei por ele. Darius me encontrou. Quando nós conversamos eu frequentemente fico corada, e não é porque ele diz coisas impróprias, é o jeito com que ele me trata. Acho que me esqueci como é ser tratada como uma mulher. Como o foco de desejo e admiração de um homem. Ele foi me ganhando aos poucos.
Olhando para ele agora eu posso lembrar perfeitamente do nosso primeiro beijo. Aconteceu no final da segunda semana em que nos conhecemos. Nós marcamos de almoçar juntos e quando eu apareci no restaurante, ele estava me esperando sentado em uma mesa, com um buque de lírios de vários tons de rosa. E quando eu me aproximei, ele levantou da mesa me entregou as flores e me beijou na bochecha, depois puxou a cadeira para que eu sentasse e se sentou em um lugar ao meu lado.
Eu mal podia acreditar no que estava acontecendo, meu coração estava disparado no peito e meu rosto estava pegando fogo. Claro que eu o questionei sobre tudo isso. Darius apenas sorriu e disse que estava mais do que na hora de termos o nosso primeiro encontro, que ele entendia que eu era uma mulher muito ocupada e que não tinha tempo durante as tardes porque tinha que buscar Elika na escola e depois cuidar da minha filha, mas que isso não o impedia de nos dar um encontro de qualquer forma.
– Eu queria fazer isso à muito tempo. Nós podemos continuar a sermos amigos, mas eu quero mais de você do que apenas isso, quero que você me dê uma oportunidade. Para onde isso vai nos levar somente o tempo dirá, mas eu quero saber que eu tentei conquistar a mulher mais bonita que já conheci. — Me disse ele ao finalizar a sua explicação.
É mais do que claro que eu não pude dizer não. Eu nunca antes tinha recebido flores. Nenhuma sequer, e ele tinha escolhido lírios tão lindos. E é isso que é tão encantador em Darius, ele se preocupa com os mínimos detalhes.
Durante o nosso almoço nós não falamos de amor, ou de compromisso. Conversamos sobre o cotidiano, sobre nossos trabalhos, ele queria que eu falasse sobre Elika e minha vida quando criança. Conversamos apenas coisas que sempre conversamos o que não me deixou constrangida em nenhum momento, ele não foi pedante ou maçante.
Seus olhos castanhos, normalmente tão atentos a tudo ao redor, sempre ficam focados em mim. E sempre estão sorrindo. Ele tem algumas pequenas rugas em volta dos olhos, mas isso somente o deixa mais bonito. É fácil manter o interesse em uma conversa com ele. E é tão bom ouvi-lo falar das diversas coisas que já passou na vida. Sua família numerosa que sempre o obriga a passar os natais juntos. Seus pais que são, pela sua descrição, o casal mais apaixonado e briguento que ele já viu, os diversos primos e os jogos de futebol, as crianças ruivas travessas apostando doces, todos ruivos.
E eu passo a querer conhecê-los, a conhecer cada detalhe da sua vida. Nós evitamos conversar sobre relacionamentos passados. Acho que nós dois temos magoas que queremos manter em segredo. Eu sei que não estou pronta para conversar sobre o meu passado com o pai de Elika.
No final de nosso almoço, quando já estávamos fora do restaurante Darius e eu seguimos pela calçada movimentada, meus braços estavam em volta das flores que ele me deu, eu as segurava de forma protetora. Quando estava distraída eu o senti tocar o meu rosto, me fazendo parar de andar e me disse.
– Eu sei que você não esta pronta para assumir nada sério. Eu também não estou. Mas, você me faz desejar estar, quando eu olho para você Katniss, eu sei que posso voltar a acreditar. E nesse momento, eu tenho que ter um beijo seu, sentir os seus lábios nos meus. — Ele se inclinou para o meu rosto, e eu permiti que ele me beijasse. O seu beijo não abalou o meu mundo, como o beijo do pai de Elika costumava fazer, mas despertou algo dentro do meu peito que a muito tempo eu não sentia. Seu beijo fez que eu sentisse o meu coração aquecer.
Nos dias seguintes eu apenas o deixei me beijar, de novo e de novo. Nunca senti nada mais forte do que um leve calor dentro do peito. Mas, esse calor para quem não sentia nada a não ser gelo e magoa era mais do que eu podia pedir e, de certa forma, agradecer. O mês se passou assim.
Naquele dia, na casa do Haymitch, há três semanas atrás, quando eu vi o pai de Elika pela primeiro vez em quase cinco anos, eu achei que não suportaria de dor. Eu pude ver a indecisão dele de entrar na lanchonete onde eu tinha ido me esconder com minha filha nos braços. Ele ficou em pé na entrada, com uma mão na maçaneta da porta por alguns momentos, até que desistiu e nos deu as costas. Eu não sei porque ele decidiu fazer isso, mas no fundo eu estava agradecida e triste. Tenho que admitir que no fundo eu ansiava por encontrá-lo.
Nunca me senti tão nervosa e aliviada em toda a minha vida. Claro que esse susto me abalou muito, Darius percebeu e sem perguntar o que tinha acontecido, já que eu não estava disposta a falar disso com ninguém, ele apenas me abraçou e me distraiu dos pensamentos mais sombrios que passavam pela minha cabeça. Não tenho aparecido na casa de Haymitch desde então.
Vê-lo me abalou, mesmo que de longe. E eu soube que era mais do que urgente que eu me livrasse dos sentimentos que eu tinha por meu antigo amor. Já tinha passado da hora de eu seguir em frente. Ele certamente o fez. Eu não podia mais chorar por causa que nosso amor não deu certo. Não podia mais viver a minha vida como estava vivendo, na sombra de um passado. E mesmo que eu não tenha notado, eu separei uma grande parte dos últimos anos para prantear esse relacionamento, me mantive presa as cinzas do passado.
Mas, ao olhar para Darius, eu sabia que não podia mais viver no presa a isso. E quando alguns dias depois ele me pediu em namoro, eu aceitei, e me senti muito aliviada por estar fazendo isso, por estar dando o primeiro passo em um destino que eu estava escolhendo, e não em algo que me estava sendo imposto.
Dois dias depois do nosso inicio de namoro, ele me levou para o seu apartamento, eu tinha algumas horas antes de ir buscar Elika na escola, então com meu coração disparado no peito deixei que ele me levasse até a sua cama.
Darius foi a segundo homem a me fazer amor, a me tocar. E minha experiência com ele foi bem agradável. Nada de explodir a mente e me deixar atordoada, devo dizer, mas não foi ruim de forma alguma. Ele e o pai da minha filha são totalmente extremos opostos.
Com Darius as coisas são feitas mais lentamente, mais torturantes. Com o pai de Elika eu sentia que tudo estava explodindo em minha mente, sempre que estávamos juntos existia uma urgência a ser acalmada, algo que era impossível de ser negado. E ele gostava de dominar na cama. Já Darius, gosta que eu domine. Nem preciso comentar que nós usamos camisinha em ambas as vezes.
São experiências diferentes na cama. Eu ainda não tive nenhum orgasmo com Darius, mas não vou deixar que ele saiba disso. Não que eu não sinto prazer com o ato em si, apenas não consigo chegar ao ápice do prazer. A culpa não é dele, no fim sei que o problema esta em mim. Eu sou defeituosa. O pai de Elika me estragou para todos os outros homens em Panem. E eu tenho que, vergonhosamente, admitir que ando buscando essa intensidade em Darius, esse fogo que vai me consumir por inteira. Por isso, estou certa que posso alcançar esse desejo com o decorrer do tempo de nosso namoro.
Não dizem que o amor cresce com o tempo. Que somente assim ele se fortalece.
E também posso estar sendo precipitada, nós tivemos apenas duas vezes na cama. É claro que para termos mais intimidade um com o outro, temos que nos empenhar mais. Nós conhecermos melhor, saber mais sobre os nossos corpos. Eu devo ensiná-lo a forma como eu gosto de ser tocada, e ele vai me ensinar a forma como ele gosta de ser tocado. No final tudo pode dar certo.
– Ei , moça. — Sou acordada dos meus devaneios quando ouço a voz de Darius me puxando de volta para a realidade. — Já chegamos, que tal irmos atrás da baixinha?
– Claro que sim. — Digo ao vê-lo estacionar o carro nas vagas destinadas aos pais dos alunos. Que neste horário estava cheio de outras carros com mães e pais apresados. — Você pode vir comigo ou me esperar aqui no carro. A escolha é sua.
– Acho que vou esperar aqui ao lado do carro. — Me responde Darius. Eu apenas aceno com a cabeça ao sair do carro e seguir pela calçada em frente a escola primaria. O tempo todo eu tenho que desviar de crianças correndo felizes em direção aos seus pais ou babás, e pais com o rosto sonolentos esperando as suas crianças chegarem e serem liberadas pelos portões.
Elika sempre esta acompanhada da professora. Fico feliz que essa professora fique com os alunos de sua turma até que todos já estejam devidamente entregues e em segurança nas mãos de seus responsáveis legais. Sendo eles pais biológicos, adotivos ou representantes destas crianças.
Entro pelos grandes portões iniciais da escola, para o primeiro pátio. Dali sigo para onde a turma de Elika costuma ficar no horário de saída. Eu encontro a professora e sua turma debaixo de uma grande placa onde se esta escrito, o saber é o crescer.
Abro um grande sorriso ao ver a minha filha em seu lugar em uma fila organizada, ela carrega a sua mochila cor de rosa nas costas e está de mãos dadas com um outra coleguinha que eu não sei quem é. A menina tem uma bonita pela marrom e muitos cachinhos escuros no cabelo encaracolado. Suas semelhanças com a pequena Rue são assustadoras. O que, por um breve instante, chega a me desconcertar.
– Elika. — Chamo-a ao me aproximar. — Professora, boa tarde.
– Boa tarde, senhorita Everdeen. — Responde a professora me cumprimentando com um sorriso.
Elika me olha com felicidade estampada em seus bonitos olhos claros, e depois de dar um beijo na bochecha de sua amiga, ela solta as mãos e vem correndo ao meu encontro. Eu me abaixo e com um pouco de dificuldade, já que minha filha esta crescendo e ficando pesada, a puxo para os meus braços e a abraço apertado.
– Mamãe, que saudade. — Diz Elika em meu pescoço, os seus bracinhos macios de criança estão em volta dos meus ombros.
– Eu estava com mais saudade, passarinho. Minha saudade vem daqui e vai até a lua. — Digo para a minha filha ao apertá-la em meus braços, nada no mundo se compara ao abraço de minha filha, ao tê-la segura em meus braços.
– A minha saudade vem daqui e vai até o mundo, até as estrelas e as nuvens. — Continua a minha pequena fazendo gestos com as mãozinhas.
– Nossa, tudo isso? — Pergunto ao colocá-la no chão. — É muita saudade então, acho que você venceu, passarinho.
Elika imediatamente sorri orgulhosa. Eu a ajuda a retirar a mochila pesada de suas costas e levo uma de suas alças cor de rosa até meus ombros, depois seguro em uma de suas mãos e juntas nós nos despedirmos da professora, eu a levo até a saída da escola.
– Hoje mamãe vai te apresentar um amigo meu, seu nome é Darius e ele vai nos levar para jantar em um restaurante muito bonito. — Digo a Elika, a todo o momento eu tomo cuidado para que nenhum pai apressado acabe passando por cima da minha filha. Quando saímos pelos grandes portões, eu relaxo mais o meu aperto sobre ela. — Quando nós o encontrarmos você vai cumprimentá-lo e ser educada com ele, combinado?
– Sim, mamãe. — Respondeu minha filha sorrindo. — Combinado.
– Eu sabia que podia contar com você, meu amor. — Digo para ela sorrindo ao nós aproximarmos do carro de Darius.
Ele nos aguardava do lado de fora do carro, encostado na porta lateral do motorista. Seu rosto estava aberto em um expressão de felicidade, enquanto um bonito sorriso enfeitava os seus lábios. Assim que nós aproximamos mais ele logo vem ao nosso encontro. Seus olhos castanhos estão presos em Elika.
Minha menina apenas o encara curiosa. Ela se aproxima mais das minhas pernas, e olha de um para o outro.
– Filha, esse é Darius. — Apresento, ao passar as mãos em seus cabelos cumpridos. — Ele é o amigo da mamãe. Darius está é Elika, minha filha.
– Olá Elika, tudo bem? — Diz ele ao se abaixar para ficar mais próximo do tamanho da minha filha. Impossível já que ele é um homem bem alto. — Eu estava muito ansioso para te conhecer e tenho um presente para você.
Sem que eu perceba ele tira de dentro do seu Uniforme, uma boneca de pano pequena e a oferece para Elika.
Os olhos da minha filha brilham de interesse ao ver a boneca em suas mãos. Mas, ela não estende as mãos para pegá-la, ao contrario, Elika olha bem nos meus olhos pedindo uma permissão silenciosa para aceitar a boneca.
– Pode pegar, filha. É sua nova boneca. — Eu não sabia que Darius tinha comprado nada para Elika, se não eu teria barrado. Mas, foi um gesto bonito. Principalmente por que Elika perdeu a última boneca, sua favorita. O que me levou a ter uma tremenda dor de cabeça.
Depois da minha permissão, Elika muito timidamente estica as mãos e pega a boneca oferecida por Darius. Ele me olha feliz e sorri abertamente.
– Eu quero que nós nos tornemos grandes amigos. — Diz ele para a minha filha. — Você gostou da boneca?
– Sim, muito obrigada Senhor Darius. — Diz minha filha ao soltar a minha mão e ir abraçar o meu namorado rapidamente. Ele aceita o abraço de Elika e a abraça de volta, depois deposita um pequeno beijo no topo da cabeça dela.
Elika se desprende do abraço logo em seguida e volta a sua atenção para a nova boneca. Seus olhos azuis brilham de contentamento ao me encarar. Eu sorrio para ela ao voltar a tocá-lo nos cabelos.
– Olha mamãe, ela é tão bonita. — Elika vira a boneca para a minha visão, mostrando seus traços delicados, a boneca é muito parecida com a que ela perdeu. Ela tem o mesmo rosto de porcelana pintada a mão, o mesmo vestido delicado de renda que reveste o estofamento do seu corpo de pano, as cores do vestido são diferentes da boneca anterior, mas sem dúvida nenhuma esta boneca é da mesma série ou fabricante da que foi perdida.
Eu olho para Darius e sussurro um "obrigada", ele apenas sorri e sussurra um "valeu a pena" ao mostrar a felicidade da minha filha com o presente.
– É uma boneca muito bonita, sabe o que falta para ela ficar perfeita? — Pergunto a Elika.
– Não. — Diz ela sorrindo ao abraçar a boneca apertado.
– Falta um nome. Que tal você pensar em um nome bem bonito para ela? — Incentivo depois de me abaixar e depositar um beijo no rosto da minha filha.
– Sim, sim. — Grita ela feliz ao olhar para nós dois com empolgação. — Eu vou colocar um nome muito bonito nela, o mais bonito de todos. Vou chamá-la de Lili! Não, eu não quero Lili. Vou chamá-la de Sasa, eu também não quero esse. Que tal, Bubu. Sim! Bubu...
Darius solta uma longa gargalhada com a empolgação dela, o que me faz sorrir mais abertamente. Ele sabe que eu me lembro do dia, a uma semana atrás, quando ele me acompanhou na visita a algumas lojas de brinquedos a procura de uma boneca do mesmo fabricante para substituir a que Elika perdeu. Me cortou o coração ver as lágrimas de minha filha pela perda da boneca. Em uma loja especifica, eu consegui encontrar a boneca, essa mesma que esta nos braços de Elika agora. Só que o preço era tão alto, por ser uma boneca artesanal, com porcelana e pintada a mão, que eu desisti da compra. Eu não fazia a menor ideia do preço da boneca, afinal foi um presente de Haymitch para Elika logo que nos mudamos para a capital.
Eu disse para Darius que substituiria por outra, em algum momento. E ele concordou como se não fosse nada demais. E agora ele me aparece com esse boneca. Dando-a para a minha filha. Com toda a gentileza do mundo, em uma bela surpresa. É isso que eu estou falando a respeito de Darius, ele faz esse tipo de coisa sem esperar nada em troca. O que enche o meu coração de calor por ele.
– Bubu é um nome muito bom. — Diz ele a Elika, sua voz grossa ressoa a nossa volta. — Que tal nós irmos jantar agora, sua mãe te contou que o restaurante onde vamos tem muitos peixes para você ver?
– É verdade mamãe? — Pergunta Elika, seus olhos abertos pela animação e um grande sorriso no rosto.
– Sim, filha. — Respondo para ela. — Tem muitos aquários cheios de peixes para você ver.
Nos encaminhamos para o restaurante logo em seguida. Como Darius não tem a cadeirinha obrigatória em carros, para a viagem apropriada de crianças, eu vou com Elika no banco de trás. Ele sugeriu que nós deveríamos parar em algum shopping e comprar uma cadeirinha, mas eu não permiti. Não quero que ele tenha gastos desnecessários com minha filha, já que ela é minha responsabilidade.
Nosso jantar ocorre de maneira muito suave. Tenho muito orgulho em ver a forma educada e acolhedora que Elika demonstra em todo o jantar. Não que eu estivesse preocupada a respeito disso, minha filha tem um gênio doce e bondoso, e encanta todos a sua volta. Posso dizer com toda a certeza que antes do meio do nosso jantar, que Darius já caiu nos encantos dela. Ele e todos os garçons que nós atendem durante a noite. Todos estão apaixonados pela minha filha.
É uma coisa linda ver como ela trata as pessoas em volta dela. Elika sorri a acena com a cabeça como gente grande, como se fosse já uma mocinha. Ela agradece a todos e mostra a boneca nova para todos que querem vê-la, apresentando o seu nome e que essa era sua nova filhinha. Ela é gentil com quem vem falar com ela, e conversa com Darius com tanta doçura que não existe possibilidade de ele não sorrir para ela.
É claro que como eu disse anteriormente, o gênio de Elika vem todo do pai dela. Que era capaz de encantar quem estava perto dele, sendo sempre gentil e solicito, com um bonito sorriso no rosto. O que eu agradeço, já que eu quando criança era uma garotinha espevitada com minhas brincadeiras e silenciosa com estranhos, dificilmente me enturmava com crianças ou adultos que não conhecia.
Então eu agradeço por ter tido uma filha que é um anjo de garotinha.
Tudo ocorre maravilhosamente. Eu estava com um pouco de receio por apresentá-los, mas fico feliz que tudo deu certo. Darius mantém sempre que pode, as suas mãos nas minhas, ou sempre que pode faz um carinho no meu braço ou no meu rosto. Elika não desconfia de nossa verdadeira relação. E eu não permito que ele me beije nos lábios por hoje. Vou nós apresentar como um casal aos poucos para a minha filha. Ainda bem que Darius respeita e concorda com essa decisão.
Elika ficou muito feliz em ver os peixes no restaurante, ela parecia hipnotizada com os grandes aquários, e Darius e eu tivemos que nos revesar para passear com ela algumas vezes pelo restaurante, com Elika em nosso colo para que ela tivesse uma melhor visão dos peixes.
Vê-la nos braços de Darius encheu o meu coração de sentimentos estranhos, não eram sentimentos inteiramente bons, mas também não eram inteiramente ruins. Senti uma forte dor no coração ao constatar que não era ele que deveria estar ali, com minha filha nos braços, que não era ele que eu queria que estivesse ali.
E logo me veio em mente a lembrança do pai de Elika na esquina daquele cruzamento. O que será que Haymitch conversou com ele? Hoje foi o primeiro dia nas últimas semanas que eu conversei com ele, já que por causa do incidente em questão eu me recusava a falar com aquele bêbado traidor. Até então eu tinha me comunicado apenas com Effie, e ela me disse que Haymitch está uma fera por eu não querer levar Elika para ficar com eles.
Me lembro de um trecho em nossa conversa rápida pelo telefone.
– Então, você se dignou a aparecer. — A voz zombeteira dele me disse ao telefone. — Me diz uma coisa queridinha, você já não me permitiu ser padrinho da sua filha com o garoto, e agora quer me afastar da menina. Eu deveria ter deixado você lidar com Peeta naquele final de semana. Você é muito má agradecida.
– Haymitch, eu já disse que naquele tempo eu não tinha contato com ninguém, e Johanna é minha melhor amiga, ela me ajudou muito. E ela é a madrinha de Elika, se você estivesse por perto você seria o padrinho, você sabe que seria. — Agora todas as vezes que eu discuto com Haymitch ele joga na minha cara que eu não permiti que ele fosse padrinho da minha filha. Eu sei que ele ficou sentido quando descobriu que Elika já tinha uma madrinha no Distrito Sete, mas o que eu posso fazer? Na época em que dei Elika para Johanna ser madrinha, eu não fiz pensando em sacanear o Haymitch. Eu nem sabia que era tão importante para ele ser padrinho da minha filha. — E não tente mudar de assunto, tentando fazer eu me sentir culpada por isso. Você sabe que errou em não me avisar que ele iria na sua casa no mesmo dia e horário que eu e minha filha estaríamos ai.
– Eu não sabia que ele viria aqui. — Respondeu rispidamente com sua voz potente. — Você tinha que me agradecer por eu avisá-la de sua vinda e deixar de ficar chorando como uma garotinha mimada.
– Ele quase nos viu Haymitch. — Cuspo para ele, conversar com Haymitch é sempre uma tarefa difícil.
– Eu estava torcendo para que tivesse visto. Assim eu pararia de ser incomodado por ele e por você, nesse jogo de esconde-esconde. — Retrucou ele e eu quase podia ver o sorriso debochado em sua face.- E não mude de assunto. Quem é esse Johanna? Uma garota do Distrito Sete, que eu nunca ouvi falar e que é madrinha da minha garotinha? Quando é que você vai deixar de frescura e trazê-la aqui em casa...
Tenho que respirar várias vezes, tentando acalmar o meu gênio ruim que queria mandá-lo se foder e me deixar em paz.
– ...Eu comprei um monte de tintas para ela pintar no jardim, e você a levou embora naquele dia. Queridinha, eu não vou pegar uma fila desgraçada e trocar aquelas pintas não. É melhor você trazer a menina aqui para que ela possa brincar...
– Johanna é uma boa madrinha para Elika, ela ama a minha filha, ok? Podemos deixar isso em paz? — O Interrompo nervosa. — Escute Haymitch, eu vou levar Elika esse final de semana, está satisfeito? Mas, você tem que me prometer que ele não vai estar ai? Ou eu não vou mais levá-la, ouviu?
– Ok, ok. O garoto não vai estar aqui. Eu vou cuidar disso.- Respondeu ele com uma voz mais suave. — Mas, eu tenho um recado dele para você.
– Recado? Que recado? Ele me viu mesmo naquele dia? — As perguntas jorram de meus lábios. — Você disse que eu estava aqui na Capital? Contou de Elika?
– Não, relaxe nervosinha, ele não viu nada. E eu não contei nada. — Responde Haymitch. — Ele sabe que nós voltamos a nos falar. Porém, ele não sabe que você está na Capital, e nem sabe da existência de Elika, o que eu acho bem errado. Você sabe disso.
– Eu tenho os meus motivos Haymitch, e não quero falar sobre isso. — Resmungo para ele.
– Bom, algum dia você vai ter que falar, não é mesmo? Cantar como um canário e tudo mais. — Diz ele visivelmente irritado. — Enfim, ele quer que vocês se encontrem novamente. Ele quer conversar com você. Provavelmente quer casar com você e te dar um montão de passarinhos...
Esse último comentário o faz explodir em uma alta gargalhada, então não dá para saber se o que ele falou era verdade ou uma brincadeira.
– Eu não tenho nada para falar com ele. — Digo apenas, não considero por nenhum momento a possibilidade de falar com ele no presente momento.
– Você deveria pensar nisso, o garoto não vai te morder Katniss. Apenas quer saber se você está viva e bem, conversar com ele é quase como fazer caridade, e não iria te arrancar pedaço nenhum. — Diz Haymitch. — Mas, já que você é tão fechada e agourenta como uma manhã de inverno eu vou dizer ao garoto que você vai pensar sobre isso.
– Eu não vou pensar sobre nada. — Respondo rapidamente.
– Eu sei que você não usa essa sua cabeça para muito coisa. — Ouço-o dizer depois de um risinho. Esse bêbado maldito.
– Tenho que desligar Haymitch, tenho que voltar ao trabalho. — Disse nervosa.
– Espero você e Elika à uma da tarde. Faço a favor de não atrasar ou Effie vai ficar chateada. — Responde ele e depois desliga o telefone.
Sou puxada para o presente ao ouvir a risada melodiosa de Elika. Ela estava perto, Darius ainda a carregava nos braços e apontava para ela um pequeno cardume de minúsculos peixes brilhantes em um aquário próximo a nossa mesa.
Talvez eu devesse fazer isso. Talvez eu devesse falar com o pai de Elika. Se a única intenção dele era saber que eu estava viva e bem, talvez eu pudesse me mostrar uma única vez, em uma conversa rápida. E pedir para ele me esquecer, parar de me procurar, como eu sei que ele anda fazendo desde que a minha foto foi exposta nos Outdoors, pedir para ele parar de importunar Haymitch com perguntas sobre o meu paradeiro.
É uma possibilidade que eu poderia começar a pensar. No momento somente pensar em estar em um mesmo ambiente que ele enche o meu coração de expectativa, faz com que minhas mãos soem e meu coração dispare no peito. Também faz com que eu me sinta um pouco enjoada e temerosa.
Felizmente, não tenho que resolver isso nesse exato momento. Tenho tempo para pensar e resolver algumas coisas mais urgentes.
Vejo Darius voltar com Elika para a nossa mesa, e decido me preocupar apenas com isso. Com a noite de hoje, com Darius, com minha filha e em construir um novo futuro para nós duas. Para dar a Elika o que ela precisa, um pai presente e amoroso.
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