Amarras do Passado
52 Red - Taylor Swift
Notas iniciais
Passado
Katniss
"...Remembering him comes in flashbacks, in echoes
Tell myself it's time now
Gotta let go
But moving on from him is impossible
When I still see it all in my head
Burning red
Loving him was red..."
Taylor Swift
***
— Não se preocupe, Katniss. Você e Elika vão ficar bem, Effie e eu já nos certificamos disso. — Escuto Haymitch me dizer quando estamos prestes a embarcar em um trem que nos levará direto para a Capital.
Não posso deixar de sentir as minhas pernas tremerem um pouco, minha respiração está descompassada dentro do meu peito e tudo o que posso fazer é tremer em pé. Quando eu entrar nesse trem tudo vai mudar, voltar para a Capital nunca foi algo que quis e tenho vergonha em admitir que me sinto amedrontada e encurralada.
Eu não esperava que as coisas fossem mudar tão drasticamente e rapidamente. Haymitch está aqui a menos de dois dias e já estou com minha vida arranjada por, pelo menos, um ano.
Um emprego fixo com um ótimo salário, uma casa confortável, escola para minha filha. Uma vida que sonhei em ter desde o momento em que descobri da minha gravides, uma vida que não consegui ter mesmo batalhando diariamente por ela. E agora tudo estava ao meu alcance, por, pelo menos, um ano de contrato. O único problema era que tudo isso estava ao meu alcance na Capital.
A Capital. Meu cérebro me martela de lembranças desagradáveis de meus últimos dias lá.
Não podia ser em qualquer outro lugar, qualquer outro distrito? Tinha que ser na Capital?
Com firmeza me escuto suspirar, Elika está inquieta em meus braços, ela está cheia de vontade de entrar no trem e começar a sua viagem, para a minha pequena tudo é uma nova aventura, uma brincadeira, uma diversão nova esperando pela sua curiosidade e coragem.
Eu é que sou a covarde aqui, estou relutante em entrar no trem, mesmo que o primeiro apito para o embarque já tenha sido tocado.
Em minha volta, uma pequena quantidade de pessoas embarcam apressadas, eu é que estou travada no chão, meus pés criaram raízes justo nesse momento e posso admitir que não me sinto muito segura se ir é o melhor a fazer.
No fundo do meu peito sinto que se eu for até a Capital tudo em minha vida vai mudar. Lentamente olho para o lado e me permito encarar o meu ex-mentor da Universidade, ele me olha muito atentamente, seus olhos não demonstram nada, ele deveria estar aborrecido por eu travar justamente agora, mas não está. Haymitch apenas me olha como se estivesse me estudando, o que não me incomoda e se olhar atentamente até posso ver um pouco de diversão em seus olhos. Não consigo entender o que ele está achando engraçado. Estou em pânico.
Minha bagagem mais pesada já foi embarcada, Haymitch está carregando minha bagagem de mão e minha bolsa com as principais coisas de minha filha.
Sei que devo estar muito patética parada aqui, perto da porta de embarque e sem conseguir me mover.
—Vamos Mamãe, vamos. — Elika me incentiva com sua voz animada. Ela dá leves pulos em meus braços doloridos de carregar o seu peso infantil. Minha menina já não é mais uma bebê e seu peso cansa os meus braços mais rapidamente.
Sem que perceba começo a me mover lentamente e de forma muito automática entro no vagão de trem, não me permito pensar em nada, apenas deixo que meu ex-mentor assuma a liderança. Dessa vez, fica mais difícil para ele esconder um sorriso sarcástico. Não posso ser teimosa pois sei que não tenho outra opção.
Quando entramos em nossa cabine grande e luxuosa é que tenho a real noção de quanto Haymitch está gastando comigo nesse momento.
— Você deveria ter comprado passagens simples para minha filha e eu. Não deveria ter gastado tanto Haymitch. — Digo ao me sentar em uma poltrona confortável localizada à esquerda da porta de entrada, quando Haymitch fecha a porta da cabine é que ponho Elika no chão para que ela possa explorar as coisas ao seu redor.
A boneca que Haymitch deu para a minha filha antes de embarcarmos está bem segura nos braços do meu passarinho. Ela adorou tanto o presente que não consegue soltá-la de forma alguma. Isso leva um sorriso triste aos meus lábios. Esse foi o único presente de aniversário que minha menina pode ganhar.
— Não reclame, docinho. Você sabe muito bem que não poderia deixar a pequena viajar em uma cabine comunitária, ela não teria espaço para brincar e essa viagem será bem longa. — Ele me disse ao se sentar em uma outra poltrona perto de uma janela, o trem ainda não tinha partido, então a única vista para se admirar era a de pessoas indo e vindo na pequena estação metroviária do Distrito Doze. — Apenas relaxe e descanse um pouco, sei que arrumar as suas coisas não foi fácil. Mas, agora tudo vai ficar bem.
Apenas consigo acenar levemente com a cabeça em concordância, mas por dentro não consigo sossegar o meu coração com suas palavras, sinto que não vai ficar tudo bem e devo admitir que realmente estou muito cansada. Eu não sei se consigo manter uma conversa com ele agora, não sei se consigo falar com ninguém, tenho que fazer um grande esforço para conseguir me manter atenta em minha filha.
Não percebo quando o trem inicia a viagem até a Capital, estou perdida em pensamentos revivendo o dia anterior e tudo o que aconteceu nessas poucas horas desde que Haymitch veio ao Distrito Doze.
Quer dizer, eu nunca esperei que ele fosse aparecer por aqui, nem nos meus sonhos mais malucos eu achei que ele largaria todos os seus compromissos na Capital e viria tão longe por causa da carta que escrevi. Eu esperava uma resposta também por carta, já que nunca tive um telefone instalado em minha modesta casa na Costura.
E nem tive que esperar muito por sua resposta, esperei mais de uma semana por uma carta e certamente teria esperado muito mais por uma resposta, mas qual foi a minha surpresa quando na tarde de domingo do dia anterior, depois de um longo dia caçando na mata fria ainda depois de ter vendido boa parte da pouca caça que consegui no açougue, eu volto para casa cansada e estou fazendo o jantar para minha filha e eu, quando escuto batidas na porta da sala.
Elika achando que era Grease Sae acaba por correr na frente e atender a porta antes que eu consiga chegar a tempo.
— Mamãe. — Escuto o seu chamado. — Mamãe...
Rapidamente larguei tudo o que estava em minhas mãos e corri para ver o que era, de forma inconsciente também achei que era Grease Sae, afinal consegui o suficiente na caça daquele dia para comprar no dia seguinte um pequeno e modesto bolo de chocolate para o aniversário da minha filha. Achei que era Grease que tinha chegado para nos fazer companhia em um jantar modesto.
É claro que não esperava encontrar o meu antigo mentor parado no batente da minha porta, com os olhos arregalados ao encarar a minha menina. Elika o olhava com timidez e logo que me viu correu para se agarrar em minhas pernas.
— Haymitch. — Falei assustada, tive um pouco de dificuldade de andar com Elika agarrada em mim tão fortemente. — Filha, me solta, deixa eu conversar com o homem na porta, vá lá para o seu quarto brincar que a mamãe já te chama, Ok?
Minha menina não parecia feliz com o acordo.
— E o meu aniversário? Mamãe, eu quero bolo. — Elika me disse com sua voz suave e envergonhada.
— Mamãe está terminando de fazer o jantar e você sabe que seu aniversário é amanhã. — Murmurei ao me abaixar e ficar na altura dela. — Depois do jantar, nós vamos cantar suas músicas preferidas e brincar do que você quiser, gosta dessa ideia? Agora, vá para o quarto arrumar os brinquedos que você deixou em cima da cama.
Elika ainda deu um olhar atento em Haymitch antes de sair correndo e subir as escadas para o quarto que dividíamos no andar de cima. Não tinha dúvidas nenhuma que em poucos minutos ela estaria de volta, toda curiosa e saltitante.
A observei sair e depois me virei para a porta, onde Haymitch ainda estava esperando.
— Você quer entrar? — Perguntei um pouco tímida, na verdade estava sem chão algum. Nunca foi a minha intenção que Haymitch descobrisse da minha filha dessa forma e nem de nenhuma outra forma. Ou que ele aparecesse na minha casa.
Haymitch apenas entrou fechando a porta atrás de si mesmo. Depois ficou parado me olhando.
— Eu acho que preciso sentar por um momento. — Ele disse já atravessando a minha pequena sala de estar e indo se sentar no sofá velho que eu tinha. Antes disso ele para e olha atentamente para as minhas fotografias em cima da velha lareira, seus olhos espertos passam pelas poucas fotografias que tenho.
Haymitch mantém uma expressão atenta em cada uma delas, minhas mãos tremiam levemente, eu não sabia o que dizer ou fazer por isso me mantive imóvel a sua espera. Ele ainda olha ao redor da minha humilde casa e sei que seus olhos estão examinado tudo ao seu redor.
O que será que ele está pensando? Me pergunto e logo fico constrangida pelo meu lar pobre. Pelo papel de parede velho e rasgado em várias partes, pelos meus poucos movéis dispostos. O que me alivia é saber que a minha casa está limpa, não há brinquedos de Elika espalhados ou sujeira jogada em qualquer canto.
Eu conheço a história do Haymitch, sei que ele nasceu na Costura no tempo onde os Jogos Vorazes ainda eram permitidos. O que será que ele enxerga dentro dessa casa? Sua própria vida há muitos anos, quando ele ainda era um garoto e vivia nas mesmas condições que estou vivendo agora? Ou ele apenas pode ver a pobreza em que vivo, será que já esqueceu das privações que sofreu enquanto crescia?
O que ele está fazendo aqui? Por que não pode apenas me responder por carta?
— Quando eu era criança a lareira da minha casa ficava desse outro lado. — Foi o que ele me disse apontando para uma outra parede. — Já tinha me esquecido o quanto as casas da Costura podem ser aconchegantes. — Terminou, sua voz agora estava cheia de uma nostalgia triste, estar em minha casa deve trazer o pior de tudo o que ele já viveu.
— Se você não gosta deveria ter mandado uma carta em resposta em vez de atravessar metade do país para me encontrar. — Digo ao cruzar os meus braços fortemente, não posso evitar ser rabugenta, quando me sinto ameaçada costumo atacar.
— Como se uma carta fosse resolver alguma coisa. — Ouço a sua resposta acompanhada de um bufar irritado, seus olhos expressivos queimam nos meus. — Então, quer dizer que você agora é mãe?
— Sim, eu sou mãe. — As palavras saem de meus lábios mais ríspidas do que esperava, não sei o porque, mas estou bastante assustada nesse momento, não gosto de admitir mas me sinto ameaçada e isso não está facilitando nosso reencontro.
— E onde está o pai da sua filha? — Ele me pergunta ao me olhar de forma quase divertida, dá para ver nitidamente em seu olhar que ele sabe a resposta para a sua pergunta. Ele sabe quem é o pai da minha menina. Elika é muito parecida com o pai dela e mesmo se não fosse, os seus brilhantes olhos azuis a entregariam.
— Não sei e não estou interessada em saber. — Respondo muito calmamente, me orgulho em notar o quanto a minha voz se manteve estável e fria.
— Queridinha, eu vou reformular a pergunta porque ainda estou tentando entender tudo isso. Peeta sabe da existência dessa criança? — Suas mãos apontam para a escada que leva ao andar de cima, por onde Elika passou para arrumar os brinquedos do quarto.
Eu fico quieta e não respondo a sua pergunta, não tenho como responder isso, o que vou dizer? Haymitch não precisa saber desse meu passado e não quero que ele saiba de nada, ele deveria ter me respondido por carta e não estar aqui na minha sala de estar me questionando a respeito do pai da minha filha.
Ele nem deveria ter dito o nome do pai de Elika aqui, faz tantos anos que não escutava aquele nome. Senti o meu peito sangrar lentamente e novamente fico contente em dizer que me mantive integra e não demonstrei nenhuma emoção que me entregasse.
— Não quer me dizer? Então vou supor pelo que conheço dele que o garoto não faz a menor ideia que tem uma filha em algum lugar do mundo. — Haymitch continuou, mesmo depois do meu silêncio.
— Você está dizendo que ele é o pai, não afirmei nada. — Apenas empurro as palavras para fora do meu peito.
— Por favor, docinho, você sabe que mente muito mal não é mesmo? — Ele alfineta com um sorriso de lado. — Então, vamos cortar a enrolação e você me conta o que aconteceu com você nesses últimos anos, onde estava enfiada com essa criança e o que você está fazendo vivendo nessa casa caindo aos pedaços.
— É uma história bem longa e de verdade não posso falar agora, amanhã é um dia especial para minha menina e preciso terminar de fazer o jantar. — Falo apontando para a cozinha, não pude segurar o escape de um suspiro cansaço do meu peito. — Eu vou te contar as coisas Haymitch, mas vamos combinar algo, eu não vou falar do pai de Elika, então aceite isso ou saia.
Haymitch ficou me encarando por alguns minutos e depois perguntou.
— Amanhã é o aniversário da sua filha? Qual é o nome dela?
— Ela se chama Elika Everdeen e sim, amanhã é o aniversário dela, não vou fazer uma festa, mas quero fazer um bolo e cantar os parabéns, você está convidado a ficar e participar. Serão apenas uma vizinha aqui da costura, a neta dela, Elika e eu. — Falei com um aperto no coração.
É triste saber que o aniversário de minha menina seria celebrado com tão pouco, pelo menos as pessoas que estarão ao lado dela a amam de verdade.
—Vamos na cozinha, preciso verificar a comida. — Murmuro ao me levantar e esperar que ele me siga.
É claro que Haymitch não demora a me seguir, seus olhos afiados continuam a passar por todos os lugares, ele é bom em disfarçar a sua curiosidade e pena, mas posso notar pela sua expressão fechada que algo está muito errado.
Depois de apontar um lugar para ele se sentar na mesa da cozinha, volto a minha tarefa principal diante do fogão, não posso deixar que essa comida estrague no fogo ou Elika e eu não teremos o que jantar.
Sinto os olhos afiados de meu antigo mentor preso em minhas costas. Ele não me faz perguntas, mas posso sentir que está se segurando para despejar uma centena de perguntas sob a minha cabeça.
Confesso que não estou preparada para responder nenhuma delas. Tudo é tão confuso. Não que eu seja ingrata por ele ter atravessado o país para me ver, fico muito feliz por Haymitch estar aqui, é bom olhar para ele e ouvir sua voz de trovão mais uma vez, eu fui tomada pelo choque afinal não esperava nenhuma visita dele. De todo coração acreditei que ele apenas responderia a minha carta e não viria me ver pessoalmente. Porém, conhecendo um pouco do meu antigo mentor da Universidade não estou tão surpresa assim que encontrá-lo aqui.
Depois que verifiquei o pouco arroz com vegetais para cozinhar e a carne dos dois esquilos que cacei também para cozinhar, não esquecendo de verificar a temperatura de fogão enfim pude puxar uma cadeira da mesa da cozinha e me sentar, fiquei encarando Haymitch durante poucos segundos.
— Você quer beber alguma coisa? Eu posso fazer um chá para nós dois. — Digo ao encará-lo de forma mais tímida. Algumas folhas de hortelã são tudo o que tenho para fazer um chá.
— Não precisa, docinho. — Ele me diz. — Porém, eu gostaria de um pouco de água.
Novamente me levanto para servir isso ao meu amigo, depois de servi-lo me sento mais uma vez.
— Então, você vai me contar ou vamos ficar nos encarando? — Haymitch me pergunta ao sorrir.
E eu conto, não tudo é claro, evito os detalhes mais sórdidos e apenas relato o que me aconteceu de principal, dos distritos onde fiquei, dos trabalhos que tive até agora e como vim parar novamente aqui em nosso velho Distrito Doze.
Haymitch em nenhum momento me interrompe, ele me escuta atentamente e dá para perceber que quer me perguntar muito mais do pouco que ousei revelar, seus olhos queimam de curiosidade, mas ele se controla e poucas vezes me interrompe para saber algum detalhe especifico.
Qual é a idade de Elika? Onde eu dei a luz? Onde está a minha mãe? Por que nunca entrei em contato antes? Essas são algumas das suas perguntas mais simples de responder. Tenta dizer o máximo de verdade sem revelar detalhes que possam entregar verdades absolutas.
Haymitch respeita o meu silêncio, respeita a minha dor oculta e meu relato simplificado do que ocorreu em minha vida.
Nossa conversa é interrompida quando escutamos um barulho alto vindo do andar de cima. Imediatamente peço licença e vou verificar o que Elika está fazendo. Quando a encontro no meu quarto, descubro que ao fechar a sua caixa de brinquedos ela sem querer deixou a tampa escorregar de seus dedos pequenos, o que acabou por fazer o barulho de algo batendo.
Imediatamente descemos de volta para o andar de baixo, seguindo direto de volta para a cozinha. Peço que Elika trate muito bem o meu amigo, seja educada e gentil com ele, pois ele é um amigo meu. Minha filha concorda com o meu pedido, seus olhos azuis brilhando de curiosidade ao entrarmos na cozinha.
Ela olha para o meu mentor em pé perto dos armários e caminha diretamente para ele.
— Olá, eu sou Elika. — Diz minha menina ao estender uma de suas mãos pequenas em cumprimento.
Vejo os olhos de meu antigo mentor queimar com adoração. Eu sei bem o que ele está passado, Elika causa esse efeito nas pessoas, ela é tão adorável que acaba por derreter até os corações mais duros.
— Olá, pequena Elika, sou Haymitch, amigo de sua mãe. — Ele responde ao segurar a pequena mão de minha filha e balançar suavemente. — É um prazer conhecê-la, baixinha.
— Eu sou baixinha agora, mas amanhã é o meu aniversário e vou crescer e ficar linda igual à minha mamãe. — Minha menina diz toda orgulhosa.
Isso faz com que Haymitch gargalhe alto.
— Vai sim baixinha, tenho certeza disso. — Ele diz ao esticar a mão esquerda e fazer um carinho desajeitado nos cabelos de Elika.
A nossa noite não muda muito depois disso, não voltamos a tocar no assunto dos meus anos passados, muito disso apenas por respeitar a presença de minha filha. Depois, coloco na mesa um jantar muito simples, ainda bem que tinha na geladeira alguns vegetais que encontrei na floresta.
Haymitch jantou conosco o que deixou Elika muito contente, ela gosta de conhecer pessoas e fazer novas amizades. Eu fiquei envergonhada do pouco que pude oferecer no jantar simples, mas ele não reclamou em nenhum momento, foi muito educado. Passou quase o tempo todo conversando com minha filha o que a deixava com suas bochechas vermelhas de felicidade.
Elika contava para ele a sua rotina, suas brincadeiras. E em algum momento ela apenas pulou da cadeira onde estava e foi se sentar no colo de Haymitch, é claro que ele não negou seu colo para ela, ele apenas ria e ria. É sério, nunca vi o meu antigo mentor rir tanto.
No meio de sua conversa com minha filha, eu tentava também manter uma conversa com ele, perguntava sobre seu trabalho na Universidade, sobre Effie. Haymitch e eu somos parecidos, devo admitir, pois ao relatarmos algum evento contamos apenas o essencial. Não gostamos de expor nossas vidas, então resumimos tudo ao máximo.
Depois do jantar, quando terminei de arrumar a cozinha e fiz o chá de hortelã, Elika foi brincar na sala e me sentei a mesa para tomar chá com o meu amigo.
— Faz muito tempo que não tomo chá. — Ele me disse ao aceitar uma xícara de chá forte.
Eu pego o meu próprio chá e coloco um pouco de açúcar na minha xícara.
— Então, queridinha, como estão as coisas por aqui? — Ele me pergunta depois de um gole de seu chá.
— Dificies, Haymitch. — Digo depois de um suspiro cansado. — Eu tenho um emprego, mas ele mal paga as minhas contas mais básicas, tive que voltar a caçar para tentar aumentar a minha renda. E me sobra pouco tempo com Elika. Foi por isso que te escrevi preciso de um emprego que me pague mais, eu não me importo com o que seja, apenas quero ter o suficiente para manter minha filha segura. Eu sei que não devia ter te mandado nenhuma mensagem, fiz você atravessar o país e sinto muito por isso, Elika e eu não somos sua responsabilidade, mas você foi um bom amigo para mim e eu não tenho mais ninguém que pudesse me ajudar nesse sentido.
— Peeta pode te ajudar e você nunca mais vai ter que trabalhar, sabe disso, não é? — Ouço sua voz e mal posso segurar os batimentos doloridos do meu coração.
—Esqueça isso Haymitch, você está insistindo nesse assunto e é loucura. Eu nunca disse que ele é o pai.
— E precisa dizer? — Ele me interrompe com um sorriso sarcástico no rosto.
— Haymitch se você continuar a insistir nesse assunto vou ter que pedir que saia. Não quero saber dessa pessoa, ele não faz parte da vida da minha filha e nem da minha. — Digo o mais séria possível, não deixo de encarar seus olhos em nenhum momento.
Meu antigo mentor apenas suspira e cruza os braços.
— Ok queridinha, vamos fazer o seguinte, eu decidi fazer essa viagem para conversar com você pessoalmente depois que recebi sua carta, conversei com Effie e ela me ajudou a encontrar um emprego para você com um conhecido dela. Ele é estilista e precisa de uma secretária urgentemente, Effie pessoalmente te indicou, sei que vocês se viram poucas vezes, mas ela também gosta de você, mesmo você tendo essa sua personalidade de arco-íris brilhante.
Meu coração disparou no peito depois da sua declaração, até deixei passar o sarcasmo no final, quando ele insultou a minha personalidade. Um emprego? Secretária?
— Cinna, o estilista, oferece um bom salário, você vai trabalhar em horário comercial e terá mais alguns benefícios que talvez vá te ajudar bastante, como auxílio a moradia e até mesmo um auxílio na escola da sua menina, não que no momento em que Effie me explicou sobre a vaga eu achasse que você precisaria disso, mas agora vejo que estava errado. — Sua voz de trovão vai fazendo meu coração disparar no peito, isso é mais do que eu achei que conseguiria.
No fundo no meu coração pensei que se Haymitch realmente conhecesse alguém que quisesse me contratar, a pessoa ofereceria alguma vaga de limpeza ou talvez garçonete, já que não tenho um curso universitário, tendo apenas referências de trabalho em lanchonetes e agências de eventos onde também servia comida e bebidas.
E o estilista ainda me ajudaria com moradia e escola para a minha filha. Sim, isso era tudo o que preciso para recomeçar em algum outro lugar.
— Mas, docinho, os contratos de trabalho de Cinna tem duração de um ano, sendo renovado todos os anos se ele gostar do trabalho de cada funcionário e você teria que voltar para a Capital. — Ouço atentamente suas palavras e essa última afirmação quase tirou o meu chão.
—Capital? — Pergunto em um sussurro assombrada, essa vaga realmente estava muito boa para ser verdade.
No passado jurei nunca mais pisar os meus pés naquele lugar infernal. Depois de tudo o que eu passei ali, depois de todas as lágrimas e de toda a decepção. Não acho que consigo voltar a morar lá e principalmente porque o pai da minha filha ainda mora lá e se eu acabar encontrando-o? Esse pensamente faz meu corpo se arrepiar e não de um jeito bom. De todas as pessoas que me magoaram, ele foi o pior.
— Eu não sei Haymitch. — Deixo as palavras escaparem de meus lábios quase que de forma mecânica. — Não quero voltar para a Capital.
— Pelo que eu estou vendo, você não tem muita opção no momento, pense bem Katniss, eu sei que é difícil para você, mas pense e seja esperta. Agora não é hora de tomar decisões erradas, você pode aceitar um emprego que vai te dar certa estabilidade para cuidar da sua filha, talvez até guardar algum dinheiro em uma poupança e viver de forma mais tranquila ou você pode continuar aqui e você sabe que a costura não é um bom lugar para educar a sua filha. — Sua voz martela o meu cérebro.
— Não existe nada de errado com o Distrito Doze. — Imediatamente defendo o meu Distrito, ele também é do Doze, não deveria falar assim do Distrito em que nasceu.
— Não estou falando do Distrito Doze de forma específica.
E é quando entendo, não é o Distrito e sim a minha situação atual tendo um trabalho que não paga o suficiente para me sustentar, tendo que caçar para sobreviver, passando muitas horas longe da minha filha e mal tendo comida para colocar na mesa, morando em uma casa que está caindo aos pedaços e agora até desconfio que antes do jantar, quando tive que sair para trazer Elika, Haymitch deve ter espionado dentro dos armários aqui na cozinha, armários estes que estão completamente vazios, a não seu por um saco plástico com um pouco de arroz e um pote com folhas de chá.
Trazer Elika para está casa nas circunstancias em que ela está nunca foi o meu objetivo. Ao olhar ao redor sei que não quero que Elika cresça assim, tão pobre, nem tenho mais certeza se já não atravessamos a linha da extrema pobreza. Provavelmente sim ou então estamos penduradas nela.
Eu sei que tenho que me mudar, tenho que fazer isso por Elika. Todavia, é difícil ter que tomar a decisão de voltar para um lugar que particularmente não gosto e em que sofri.
Moradia e escola.
Sempre quis colocar minha filha em uma escola, ela está ficando grande e precisa ser estimulada de forma certa por uma professora, assim seu desenvolvimento será pleno. Quem sabe ela até consiga fazer amizade com crianças da mesma faixa etária.
Aqui no Distrito Doze eu tentei colocar Elika na Educação Infantil, mas não obtive sucesso pois as escolas já estavam lotadas. Teria que esperar até o próximo ano para lutar por uma vaga para ela. E mesmo assim a Educação pública dos distritos não é muito boa.
— Quando eu teria que me mudar? — Ouso perguntar.
— Seria bom que você voltasse comigo amanhã mesmo, você teria um período de uma semana para adaptação na Capital e começaria o trabalho na próxima semana. — Haymitch me responde ao se recostar na cadeira.
— Tão rápido? — Me escuto dizer.
— É o melhor Katniss, acredite. A Capital é grande, você não vai precisar encontrar ninguém que não queira.
Haymitch parece que sabe exatamente quais são os meus medos. E ele está certo, a Capital é o maior centro urbano de Panem, se eu for cautelosa não vou precisar encontrar o pai da minha filha nem ninguém que conhecia naquela época.
O que eu faço? O que eu faço?
Fico presa em meus pensamentos até que Elika adentra a cozinha e vem se aconchegar no meu colo. No momento em que encaro os seus olhos azuis tão bonitos sei exatamente o que tenho que fazer.
Haymitch está certo, eu não tenho mais o direito de pensar em mim, agora tenho que pensar na minha filha e no que é melhor para ela.
— Essa vaga realmente está certa, Haymitch, se eu for para lá vou ter um emprego? — Pergunto ao encarar seus olhos.
— Sim, Katniss e além do emprego você vai ter amigos. Effie quer muito você lá, eu também vou gostar da sua presença, você sabe o quanto as pessoas na Capital não ridículas. — Ele me diz e acabo sorrindo mesmo sem querer.
Sei que é loucura largar tudo o que tenho, e isso é muito pouco, por uma promessa de que tudo vai mudar se eu for para a Capital, mas esse é exatamente o grau do meu desespero. Depois que Elika ficou tão doente e eu não tinha dinheiro para cuidar dela, as minhas perspectivas mudaram drasticamente.
— Docinho? — Haymitch chama a minha atenção e me olha de forma bem intensa. — Eu prometo que você vai ficar bem, prometo que vou te ajudar, se você não gostar desse emprego, nós procuramos outro, se ficar na Capital for tão terrível, então eu tento conversar com alguns amigos que moram em outros Distritos, mas Katniss peço que você ao menos tente.
Voltando ao presente, aqui estou eu vendo minha filha explorar o vagão do trem em que estamos, e tendo meu antigo mentor da Universidade ao meu lado. Estou tentando. Por Elika, porque minha filha merece o melhor e tenho que ser madura o suficiente para agarrar essa oportunidade. Eu confio em Haymitch e confio em sua esposa Effie, sei que eles estão do meu lado.
E ir para a Capital não significa que vou reencontrar o pai da minha filha. Ele é meu passado e não vou esbarrar com ele nem nada disso, pertencemos a classes sociais diferentes.
Nós nunca vamos nos encontrar.
De certa forma isso me dá tranquilidade ao mesmo tempo dilacera o meu coração.
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