Amarras do Passado
50 Please Don't Stop The Rain - James Morrison
Notas iniciais
Passado
Katniss
"...And if it's going to be a rainy day
ThereÂ's nothing we can do to make it change
We can pray for sunny weather
But that won't stop the rain
You're feeling like you've got no place to run
I can be your shelter til it's done
We can make this last forever
So please don't stop the rain
Let it fall, let it fall, let it fall
Please don't stop the rain
Let it fall, let it fall, let it fall
Please don't stop the rain..."
***
Você consegue. Você consegue. Você consegue. Eu canto isso várias vezes em minha mente. Estou ansiosa e cheia de adrenalina em meu corpo, essa não é uma sensação agradável, não hoje, não nesse momento e certamente não para essa pessoa.
Não quero ligar para ele. Eu penso ansiosa. Eu preciso ligar para ele.
Estou parecendo uma maluca na frente desse telefone público, com algumas poucas moedas em minhas mãos. Meu coração está tão disparado dentro do peito que eu tenho que pôr a mão por cima do meu peito em um ato inconsciente para acalma-lo, e para segurá-lo dentro do meu peito. Minhas mãos estão geladas e suando.
Estar assim é me entregar para uma das piores sensações da minha vida, se eu não estivesse tão consciente da minha situação e me segurando em todas as minhas forças eu bem poderia me entregar para o ataque de pânico que está muito perto em minha mente confusa. Apenas esperando o melhor momento de fraqueza para aparecer.
Ela está com fome, minha filha está com fome e doente. E mesmo que eu também esteja com fome, eu ignoro o desconforto do meu corpo, até pude notar que minhas roupas estão mais folgadas, mas isso com toda certeza não é algo que eu deva me preocupar agora.
Não consigo me preocupar com o meu estômago faminto, não quando a minha filha está com o seu pequeno estômago faminto roncando muito alto em nossa casa fria. Mas, isso é algo que as mães fazem, não é? Ignoram o próprio desconforto em detrimento de um desconforto mais importante.
E minha filha é tudo para mim. É minha vida inteira, meu único motivo para continuar lutando, dia após dia, noite após noite. Tudo é para ela, toda a minha vida tem girado em torno dela, mas que outra opção eu tenho, minha menina é tudo o que eu tenho, tudo o que me sobrou.
E ela está doente, com muita febre e precisando de remédios para cura -la. Remédios que eu não encontro na floresta. Remédios da Capital. Medicamentos bons e antibióticos fortes para curá-la. Catapora não mata, pelo menos foi isso que a pediatra que Elika se consultou me disse, mas mesmo assim, minha filha está sofrendo muito.
A Doutora Michay me passou uma receita de remédios que eu tinha que comprar para a minha filha melhorar, medicamentos caros que eu não tenho dinheiro para comprar. Nenhum dinheiro, minhas economias estão no vermelho mensalmente, tenho me segurado em qualquer moeda que encontre, tenho revisado cuidadosamente os meus gastos mensais, e só não estou passando fome porque consigo caçar nos finais de semana e acabo por conseguir um dinheiro extra para os meus gastos na semana. Dessa vez eu não tive para onde correr e nem onde tirar dinheiro. Com Elika doente não pude sair para caçar, quem cuidaria dela durante um dia inteira, doente com uma doença contagiosa, que rapidamente se espalharia pela Costura como pólvora em palha seca?
Ainda faltam duas semanas para eu receber o meu salário no Boticário onde trabalho meio-período. Eles são pessoas boas, mas não vão me adiantar o pagamento. Eu sei, já pedi e minha resposta foi não.
Agora com as últimas moedas da semana, eu finalmente entrei em desespero. Meu passarinho está com muita febre, suas feridas estão inchadas e sangrando muito onde ela coça, os pequenos caroços estão inflamados e se espalhando muito rapidamente, preciso comprar os remédios para ela. Preciso disso para ontem. E comida para deixá-la forte.
Toda a comida que temos está acabando muito rapidamente e mesmo que eu evite comer várias vezes ao dia, dando a maior parte para a minha filha, até onde o meu próprio corpo vai aguentar com isso. Elika nunca passou fome, disso eu posso me orgulhar. Eu nunca permitiria que ela passasse por isso. Mas, o meu dinheiro está acabando, estamos no meio do inverno, a caça na floresta é pouca, o que mais eu posso fazer?
Ligue para ele. Grita o meu cérebro com raiva, minha consciência começa um novo discurso em minha mente. Ligue para ele de uma vez e acabe logo com isso. Você apenas precisa pedir o dinheiro dos medicamentos, ele não precisa ver a filha de vocês, ele não vai querer vê-la de qualquer forma. Vocês foram rejeitadas, isso eu sei. Entretanto, ele tem uma responsabilidade sendo o pai dela. E esse é um dinheiro que não vai fazer falta para ele. Apenas ligue de uma vez!
Em minhas mãos suadas estão um pequeno pedaço de papel, onde está rabiscado o telefone da casa do pai de minha filha. Eu não falo com ele há muitos anos. Mesmo que o meu coração ainda seja dilacerado todas as vezes em que eu sonho com os seus olhos azuis. Todavia, aos poucos eu estou me esquecendo das pequenas coisas, dos pequenos detalhes. Minha mente está focada de mais em sobreviver, em manter nossa filha em segurança e alimentada.
As vezes, nos dias mais solitários, eu me pego pensando se os seus olhos realmente me olhavam com os sentimentos que eu via ali, ou se tudo era uma pegadinha do meu cérebro apaixonado? Se o ruido dos seus pés no corredor do apartamento na Capital, o nosso pequeno esconderijo, realmente faziam o meu coração disparar e se o som de sua risada em meu ouvido depois de uma noite de sexo me aquecia os ossos da forma que eu sempre imaginei que aqueciam? Eu passei por tudo isso mesmo? Até que ponto o meu amor por ele foi tão real do jeito que eu supus que era?
Normalmente esses pensamentos pessimistas são afastados da minha mente assim que eu coloco os meus olhos em nossa filha. Elika está crescendo para se parecer muito com o pai dela. Cada dia que passa eu sou surpreendida pelo seu jeito doce de ver a vida, pelos seus olhos azuis curiosos e amorosos, pelo seu jeito de gesticular quando fala comigo. O pai dela fazia a mesma coisa e eu sempre achei isso encantador.
E é aí que eu esqueço os meus pensamentos pessimistas e aceito que tudo foi real, pelo menos da minha parte foi real o suficiente. Elika pode não ter sido planejada por nenhum de nós dois, porém é a prova viva de que tudo foi real.
Lentamente eu começo a inspirar e expirar, faço os meus batimentos cardíacos acalmarem enquanto eu coloco duas fichas dentro do telefone e disco os números no pequeno aparelho. Antes que eu posso perceber minhas mãos começam a tremer e minha respiração acelera de supetão dentro dos meus pulmões.
Elika, é ela que importa. Você está fazendo isso por ela e não por ele, por eles. Tanto o pai de Elika, quanto a sua família nos rejeitaram. A mãe dele até me mandou dinheiro para abortar a própria neta, chamou minha filha de bastarda e eu de aproveitadora. O dinheiro ainda está guardado e eu nunca tocarei em nenhum centavo daquele valor. Não preciso do dinheiro da mãe dele. Eu nem queria falar com ele, não quando pensar em seu rosto é uma dor constante, não quando lembrar do que nós dois vivemos me rasga por dentro.
Ele me enganou, ele deve estar casado com aquela loira maldita. Glimmer puta. Começo a me enfurecer quando penso que eles devem ter rido muito da minha cara, eles devem ter se divertido muito em me enganar.
Fui somente mais uma conquista para ele, mais um buraco de foder que ele brincou e enjoou. Me largando logo em seguida para ficar com a namorada rica. Eu fui tão idiota, tão burra em acreditar nele, tão ingênua em meu amor.
Ainda assim, eu tenho que ficar grata ao maldito por ele ter me dado a coisa mais importante da minha vida, minha filha amada, minha pequena família. E agora ela está doente e eu não tenho dinheiro para ajudá-la.
Você só precisa pedir um pouco de dinheiro, é o dever dele. Ela também é filha dele. Minha consciência continua gritando em minha mente. Eu sei que faz anos que vocês não se falam e que você continua mantendo esse amor platônico por ele, mas isso não é sobre você agora. Isso é sobre a saúde da filha de vocês. Você não tem opção.
E é esse o problema, eu ainda sou apaixonada pelo babaca, o que apenas prova que que sou uma grandissimamente masoquista. Eu não sei como vou reagir assim que escutar a sua voz, não sei até que ponto vou conseguir ser imparcial em meus sentimentos. Eu ainda o amo, o que é completamente irracional depois de tudo o que ele me fez passar.
— Alo, quem está falando? — Diz uma voz feminina no telefone. Uma voz que faz o meu estômago revirar de ódio. Marribell. Eu nunca me esqueceria dessa voz. Até posso me imaginar implorando para falar com o filho dela, enquanto a maldita me humilha mais um pouco.
Antes que ela possa dizer mais alguma coisa, eu apenas desligo o telefone com um baque forte e começo a tremer por inteira. Algumas grossas lágrimas escorrem pelo meu rosto enquanto eu cerro o meu maxilar. Quero gritar de frustração.
Estou tão sozinha, estou com tanta raiva e com tanto medo.
Minhas lágrimas continuam a cair muito silenciosamente e quase me cegam para a loja um pouco à frente de onde estou, na esquerda da grande praça do Distrito Doze, a placa anunciando a loja de penhor está quase inteiramente escondida por galhos de uma frondosa árvore.
Meu coração dispara no peito quando eu penso em mais uma possibilidade que tenho, eu ainda não estou completamente sozinha em minhas opções. Ainda tenho mais uma carta na manga antes de desistir e ligar implorando a ajuda de uma família que me despreza.
Com mais empolgação do que deveria eu permito que meu cérebro se lance em todas as possibilidades que eu tenho.
O que em minha humilde e pobre casa eu tenho que possa ser penhorado e me trazer um pouco de dinheiro. O que? O que?
Eu não possuo nenhuma joia de família, nenhum dos porta-retratos que tenho são de um material nobre, as roupas da minha filha e as minhas não são caras, não tenho sapatos caros e nenhum material realmente rentável financeiramente falando. Eu tenho o um jogo de pratos realmente bonitos, que ganhei da empresa de eventos em um natal no Distrito Onze. Posso penhorar isso e conseguir algum dinheiro.
Mas, isso não é o suficiente, não para os meus gastos imediatos. Preciso de algo mais, algo que dê mais dinheiro. Sinto o meu estômago gelar quando descubro o que é que eu tenho que penhorar.
Isso é a única coisa valiosa que tenho, e não apenas pelo seu valor de mercado, mas ainda mais pelo valor sentimental.
O arco de meu pai.
Ele é muito bem esculpido e tem um material bem nobre. Meu pai era um ótimo fabricador de arcos e esse que ele me deixou era o seu preferido. E tirando uma foto antiga, esse arco é tudo o que eu tenho dele.
Novamente o meu peito já machucado é atormentado por uma forte onda de dor. O arco é a única recordação que eu tenho dele, a única coisa que nos mantém juntos, mesmo depois da sua morte. Me surpreendo com a força da dor que se apossa do meu corpo e com a frieza que invade os meus pensamentos.
Meu amado pai está morto. Mas, minha filha está viva e precisando da minha ajuda. Eu não vou conseguir caçar sem este arco, mas ainda posso montar armadilhas para coelhos. É melhor do que nada.
E se eu correr Elika pode começar a tomar os medicamentos ainda hoje e ter uma boa refeição quente para dormir. Eu posso comprar mais carvão para nos aquecer durante a noite. E talvez até sobre dinheiro para eu comprar um pequeno bolo na próxima semana, no aniversário de três anos de minha filha.
Enxugando rapidamente as lágrimas de meu rosto, eu empurro a tristeza para longe dos meus pensamentos e me movo rápido pelas calçadas do Distrito Doze, quero voltar ligeiramente para a minha casa na Costura. Elika está com Grease neste momento, ela está me fazendo um grande favor em ficar com a minha filha por algumas horas a mais de seu pequeno expediente.
Tenho que chegar em casa rápido e pegar os pratos e o arco de meu pai. Vou penhorá-los ainda hoje, minha menina não vai passar nenhuma hora a mais com dor e sofrendo pela catapora, com a medicação certa dentro de poucos dias ela já vai estar curada e feliz.
Também empurro a minha consciência para o fundo da minha mente. Hoje não será necessário que eu me humilhe para o pai da minha filha para conseguir o remédio da minha filha. Eu posso fazer isso. Mesmo que me mate de dor ficar sem o arco, eu tenho que priorizar a minha filha.
Meu pai está morto há muitos anos e minha filha está viva e precisando da minha ajuda. A decisão pode ser dolorosa, no entanto não é tão difícil de ser realizada assim.
Sinto as minhas panturrilhas queimando pelo esforço que estou fazendo ao andar apressada, estou colocando todas as minhas energias em chegar logo em casa. Ainda tenho muita coisa para fazer.
***
— Já está parando de coçar? Quer que a mamãe passe mais pomada em você, meu passarinho? — Eu pergunto ao dar mais uma colherada de canja de galinha com legumes para a minha filha, sua boca abre em um grande círculo para receber o alimento que ofereço. Faço questão de alisar os seus cabelos escuros, um carinho que ela muito precisa nesse momento.
— Agora não está coçando tanto, mamãe. — Ela me diz depois de engolir mais uma colherada da canja de galinha que fiz para ela.
Eu sorri o melhor que posso ao oferecer mais uma colherada. Elika come com gosto a sua canja quentinha. Sua pele está ainda meio molhada da pomada para Catapora que eu comprei para ela, também já dei uma colherada cheia de antibiótico que comprei mais cedo. E ainda existe um pó azulado que eu tenho que aplicar antes de ela dormir, para evitar inflamação na pele e cicatrizes.
Os olhos azuis de Elika, que estavam mais cedo tão tristes e sofridos pela dor da doença, agora já voltavam a ter o brilho habitual de sempre. E em minha opinião, não existe nada melhor que isso, nenhuma sensação é mais prazerosa do que tirar o sofrimento de seu filho.
Não consegui muito dinheiro com as minhas penhoras, na verdade consegui menos do que eu esperava, mas não senti que estava sendo enganada pelo lojista. Ele foi bem sincero sobre o valor de mercado dos meus itens e me deu um preço justo por eles, mas ainda foi menos do que eu precisava. Todavia, consegui o suficiente para nos manter até o dia do meu pagamento. Eu apenas tenho que ser cautelosa.
Elika não vai ter bolo de aniversário esse ano. Estou pensando em algum jeito de conseguir comprar pelo menos uma fatia de bolo para ela. É melhor do que não ter nada. E minha menina ama chocolate e vai adorar a surpresa.
Sou acordada de meus pensamentos quando o meu estômago ronca audivelmente. Elika chega a parar de mastigar e olha curiosa para a minha barriga. Eu estou com fome, não posso negar, entretanto não me permito comer da comida de minha filha, se eu jantar, amanhã o que darei para Elika?
Elika está doente, precisa de alimento mais do que eu, e não vai me matar não jantar durante duas semanas. Posso sobreviver esses quinze dias apenas com um café da manhã rápido e um almoço no trabalho. Mas, Elika precisa de comida forte para melhorar da Catapora.
— Mamãe, janta comigo? — Elika me diz ao me olhar confusa.
— Obrigada, passarinho, mas mamãe vai comer apenas depois que você dormir. — Eu digo para Elika, faço um grande esforço para sorrir tranquilamente enquanto deposito beijos suaves no seu rosto infantil.
Elika continua a me olhar confusa, mas não nega as colheres seguintes. Quando eu noto que ela já comeu o suficiente para eu estar satisfeita com a sua alimentação, e um ar satisfeito e sonolento toma conta dela, eu apenas pego-a no colo e depois de fazer uma rápida higienização nela em nosso banheiro, eu jogo algum carvão que comprei hoje no aquecedor de nosso quarto e me deito com ela na cama que dividimos.
Antes, logicamente que eu volto a aplicar mais remédio em sua pele machucada e uso o cilindro prateado para espalhar cuidadosamente o pó azulado em suas feridas mais fortes. Assim que o remédio toca em sua pele frágil, minha filha suspira de alivio.
Eu volto a abraçá-la depois da aplicação dos medicamentos e começo a cantar para fazê-la dormir.
Elika gosta de dormir esparramada em meu corpo. Igual ao pai dela e com suas mãos pequenas me segura com força, os dedos pequenos agarrados em minhas roupas, ou em meus cabelos. Isso acontece até que ela pegue no sono, depois acaba por se esparramar na cama, seus braços e pernas abertos em sono profundo. O pai dela também fazia a mesma coisa e essa é outra de suas semelhanças que me fazem amá-la ainda mais.
Quando isso acontece e ela me solta, eu apenas me levanto silenciosamente e depois de me certificar de que minha filha está coberta e quente eu acabo voltando para a cozinha. Antes é claro eu passo pela pequena sala e vou direto encarar a fotografia do meu pai que está acima da chaminé de pedra. Eu não posso deixar de pegar o pequeno porta retratos e ir com ele até o sofá.
Eu me sento o mais confortável possível e lentamente permito o meu corpo se soltar das amarras que eu faço diariamente.
Amarras de um passado que me enchem de dor, porém é apenas depois de ouvir o meu estômago roncar com força e a queimação por não me alimentar é que eu começo a chorar.
Não é sempre que eu faço isso, não é sempre que eu solto a tristeza que carrego diariamente e me permito desmoronar por alguns instantes. Sinto tanto a falta do meu pai, sinto tanto essa constante necessidade de ouvir o som rouco de sua risada nessa sala, o tipo de risada que sempre me fazia rir, que me aquecia até a medula de meus ossos e me fazia arrepiar de amor. Essa casa sempre foi pequena, sempre foi humilde, mas existiu um tempo em que ela estava cheia de amor. Meu pai se sentava no mesmo lugar onde eu estou sentada agora. E se eu fechar os meus olhos e me concentrar eu quase posso ver isso acontecer.
Meu pai aqui, ao meu lado, minha mãe na cozinha preparando o nosso modesto, mas delicioso jantar, haveria flores recém colhidas da floresta em um vaso sobre a lareira e raios brilhantes de sol entrando pela janela, eu estaria brincando no chão, com minha irmã ainda bebê, minha patinha Prim. Ela estaria dando os seus primeiros passos e meu pai me aconselharia a ficar de olhos bem abertos em nosso pequeno tesouro delicado. Prim era curiosa de mais.
O seu arco preferido estaria ao seu lado no sofá, ele traria consigo coelhos gordos que minha mãe estaria cozinhando e depois de muitas risadas por partes dos dois, eu apenas me aconchegaria em seu colo, os seus braços fortes estariam lá para me manter aquecida e segura.
Eu até posso me ver implorando para ele me levar até a floresta, para me ensinar a caçar.
Essas lembranças são tão preciosas para mim, tão importantes e é tão triste abrir os meus olhos e me ver sozinha nessa casa tão fria. Não existe mais sol entrando pela janela, não existe mais o riso rouco do meu pai a me aquecer por dentro, nem seus braços me protegendo, nem minha patinha Prim curiosa, nem minha mãe sorridente. Está morto, está tudo morto e a única herança que eu realmente prezava do meu pai, já não é mais minha.
Talvez eu nunca mais vá ver o arco. Quando é que eu vou ter dinheiro para pagar pelo penhor, se eu não tenho nem dinheiro para comprar o jantar para mim, e tenho que escolher alimentar Elika.
Estou tão cansada de tudo isso, estou tão cansada de sempre estar preocupada e cheia de saudade de algo que não vai mais acontecer, algo que não me pertence mais. Acho que o pior é isso, é me ver sozinha com Elika em meus braços.
Esse é meu destino, ficar amarrada em um destino que eu não posso ter? Apenas ver através de uma vidraça as lembranças que passam.
Eu volto a olhar o retrato do meu pai e choro ainda mais quando sou tomada por mais uma onda de saudade.
É de forma sombria que eu aceito que por um lado é bom a minha filha não ter contato com o pai dela, não crescer conhecendo-o, assim ela nunca vai sofrer por perdê-lo. O pior é que no fundo eu sei que esse é um pensamento horrível, mas o que adianta ela saber da existência dele, se ele não vai amá-la, se vai rejeitá-la e sua família vai humilhá-la?
Agora que estou sem o meu arco, vou ter que pensar em outras coisas para manter Elika. Apenas colocar armadilhas não vai adiantar, principalmente neste inverno
Não posso ligar para Johanna, ela surtaria com a minha situação e sei que ela não está muito melhor do que eu.
Existe uma pessoa que eu posso recorrer. É alguém que eu não falo há muitos anos, alguém que talvez nem queira me ajudar. Afinal de contas, eu não estou mais na Universidade, isso acabou quando eu fui expulsa, e ele nada tem a ver com os meus problemas. É bem certo que ele nem vai querer me ajudar, mas estou tão desesperada.
Preciso de ajuda, essa situação já foi longe demais e já que não posso contar com o pai de minha filha, quem sabe o meu antigo mentor pelo menos possa me mostrar um caminho, uma direção. Não é vergonha nenhuma pedir ajuda, meu orgulho nada vai me ajudar aqui.
Eu posso escrever para ele, ainda tenho o endereço da sua caixa postal na Universidade. Ele pode nem trabalhar mais lá. O endereço pode até não ser mais dele, mas não custa nada tentar. Quer dizer, o que eu vou perder tentando? Ele pode me responder um não e por outro lado ele também pode acabar me ajudando.
Não é como se eu fosse pedir dinheiro, isso eu me recuso a fazer, mas talvez eu posso perguntar se ele não conhece alguém que queira me empregar em qualquer função decente, não me importo com o emprego, apenas tenho que ganhar mais do que ganho aqui no boticário, que é quase nada.
Antes que eu perca a coragem eu apenas corro atrás de caneta e papel, ainda tenho guardado as moedas da ligação que não fiz para o pai de minha filha. Posso comprar um selo de entrega para a Capital e esperar por uma resposta dele.
Uma resposta negativa por carta é mil vezes melhor do que uma resposta negativa por telefone, eu não suportaria ouvi-lo rejeitar uma ajuda pelo telefone, mas uma carta é mais fácil, menos pessoal.
Com esse objetivo em mente eu passo mais algumas horas da noite escrevendo algo para o meu antigo mentor. A carta leva mais tempo para ser escrita do que eu gostaria, mas no final eu fico satisfeita com as palavras que escrevi.
De: Katniss Everdeen
Para: Haymitch Abernathy
Olá Haymtch, você está bem? Ainda trabalhando na Universidade da Capital?
Eu espero que sim, de outra forma a minha carta apenas vai parar na lata do lixo.
Desculpe estar entrando em contato depois de tantos anos. Sei que não sou sua responsabilidade e nem quero ser, mas de certa forma eu te considerei um amigo. Sempre vou me lembrar que foi você que me ofereceu a bolsa de estudos aí na Capital. Foi uma pena que circunstâncias divergentes alteraram a sua gentileza.
Não quero me alongar no que aconteceu no passado, eu apenas espero que você esteja bem.
O motivo da minha procura é que estive me perguntando se você não conhece alguém que queria me empregar, não sou exigente e não me importa o distrito e estou aceitando qualquer função digna. Sei que não tenho um curso Universitário para me ajudar, mas aprendo rápido e estou disposta a trabalhar imediatamente.
Fico no aguardo de uma resposta,
Um abraço,
Katniss Everdeen.
Eu li e reli a procura de algo que pudesse desmerecer o meu pedido, não era nada que transparecesse a minha situação caótica no momento, era apenas uma carta segura, destinada a uma outra pessoa. Não havia nada na carta que pudesse transparecer a existência de Elika.
E se ele respondesse de volta me indicando um emprego em algum outro distrito eu apenas teria que largar tudo no Doze mais uma vez e correr por Panem com minha filha nos braços, mas isso era melhor do que arriscar que ela passe fome aqui no Distrito Doze.
Eu queria que ela crescesse aqui, mas se as circunstancias e os preconceitos dos outros não permitem que uma mãe solteira crie sua filha aqui, eu apenas teria que buscar um outro caminho.
Amanhã bem cedo eu vou levar essa carta até a centro de correios mais próximo.
É melhor eu começar a preparar o meu coração desde já, a ansiedade da espera de uma resposta do meu antigo mentor.
Quando enfim fui dormir eu não pude me negar e lentamente rezei para que a carta fosse parar nas mãos de Haymitch e que ele pudesse me indicar um caminho a seguir.
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