Amarras do Passado
51 Oceans - Seafret
Notas iniciais
Dias Atuais
Katniss
" It feels like there's oceans
Between me and you once again
We hide our emotions
Under the surface and tryin' to pretend
But it feels like there's oceans
Between you and me"
***
Segure-se. É o que eu digo várias vezes ao dia. O que está feito está feito e não há nada que eu possa fazer para mudar o que foi dito nessa sala.
Mesmo quando eu vejo o meu passarinho conversando com o pai dela através do aparelho de telefone.
Minha menina é muito inocente para entender o porque de o pai dela não estar mais morando conosco. Muito inocente para compreender que tudo acabou.
Peeta telefona para ela todos os dias, nas tardes antes do jantar, eles conversam por vários minutos sobre diversos assuntos. Minha filha está perdida de saudades do pai dela, não posso mentir e dizer que eu também não estou perdida de saudades por ele, mas o que está feito, está feito.
Já faz mais de uma semana que ele não mora mais aqui, a sua saída dessa casa foi bem conturbada para nós dois. E diariamente eu tento me convencer que tudo vai ficar bem e que eu fiz o melhor.
Minha mente sempre acaba voltando para o mesmo momento sombrio quando eu voltei do trabalho e encontrei as malas de Peeta na sala de estar, ele também estava lá sentando no sofá me esperando. Seu rosto sóbrio não demonstrava nenhuma emoção, o que me preocupou logo de cara.
Nossos olhos se cruzaram e eu senti meu peito apertar de apreensão, ligeiramente corri os meus olhos para as grandes malas fechadas e de volta para onde ele estava. Minhas mãos agarravam as alças da minha bolsa com tanta força que os nós dos meus dedos estavam esbranquiçados, acho que senti minhas pernas tremendo um pouco, mas não dei muita atenção para elas.
Foi apenas quando eu senti o meu peito doer é que percebi que estava prendendo a respiração em meus pulmões.
— Onde está Elika? — Eu perguntei ainda em pé próximo a porta de entrada.
— Ela está com o Haymitch, ele a trará para você em duas horas. Não fique preocupada, ela está bem. — Peeta me respondeu com sua voz forte, o seu rosto poderia estar sem nenhuma expressão, entretanto a sua voz estava carregada de muitos sentimentos.
Engoli em seco quando ouvi sua resposta, minha garganta estava se fechando em um nó. Nós continuamos a nós encarar e é claro que fui eu que dei o primeiro passo, não sei de onde eu tirei forças para me mover, acho que foi um gesto inconsciente, eu apenas me afastei das malas próximas a porta de entrada e atravessei a minha pequena e organizada sala de estar indo direto para a cozinha, o tempo todo eu sentia os olhos de Peeta em minhas costas, era um comichão forte na minha pele do pescoço e não era uma sensação boa.
Entrei na cozinha e nem ao menos tirei os sapatos de salto alto que estavam me matando durante todo o dia, eles não eram importantes, nada era importante, eu sentia que estava ficando levemente incoerente, me lembro de ter jogado a minha bolsa em cima da mesa da cozinha e ido direto para a pia, enchi um copo de água fria e o bebi em poucos goles, minha cabeça estava começando a rodar e eu não gostava nada disso, sentia os músculos do meu corpo enrijecidos pela tensão.
Eu ouvi os seus passos se aproximarem da cozinha e mesmo assim não pude virar e encará-lo. O que estava acontecendo? Minha mente me bombardeou no mesmo instante.
Quando eu enfim me virei, Peeta estava encostado no batente da porta da cozinha, seu corpo também estava enrijecido, e seus olhos azuis queimavam nos meus com uma raiva pouco contida.
— Você vai embora. — Apenas pude afirmar e não era uma pergunta, era um fato.
Peeta confirmou com a cabeça, sua mandíbula estava travada.
Imediatamente eu senti todas as muralhas que protegiam o meu emocional subirem ao meu redor, uma redoma protetora que não me permitiria cair diante dele. Eu já senti na pele a dor da partida dele, e a dor seria muito maior agora, então antes que eu pudesse senti-la e permiti-la em meus pensamentos e corpo eu apenas construi uma muralha protetora em volta do meu coração. Eu tinha que ser forte.
— O que não foi o bastante, Katniss? O que eu deixei de fazer nos últimos meses? O que eu não provei para você? — Ele perguntou para mim, sua voz estava cheia de uma amargura antiga.
— Eu não entendo as suas perguntas. — Digo o mais fria possível, no fundo do meu peito eu estava levemente anestesiada.
— Você não entende as minhas perguntas? O que não está claro para você? — Ele voltou a me questionar, de dentro do bolso do seus jeans ele tirou dois pedaços de papel pequeno e os depositou em cima da mesa. — Será que isso te ajuda a entender?
Eu ainda o encarei durante alguns instantes, até de tomar força e me dirigir para a mesa do outro lado da cozinha, lentamente meus olhos caíram sobre os dois pedaços de papel e eu soube imediatamente do que ele estava falando.
Eram os bilhetes de trem para Elika e eu, passagens compradas para o nosso retorno ao Distrito Doze, eu os comprei um pouco depois de reencontrar Peeta aqui na Capital, quando o meu coração estava amedrontado de mais para sequer cogitar a possibilidade de ele descobrir sobre a nossa filha.
Os bilhetes eram para daqui há umas duas semanas e meia. Algo que eu não cancelei, algo que eu ainda pretendia seguir, algo que não o incluía.
Os bilhetes estavam guardados dentro de uma bolsa minha, Peeta deve ter mexido nas minhas coisas se ele apenas descobriu sobre isso. E por um momento eu também fico com raiva, ele não tinha o direito de mexer nas minhas coisas. Invadir a minha privacidade dessa forma.
Meus olhos foram até onde ele estava e permaneceram lá. Peeta estava fervendo de raiva, dava para ver na sua expressão, ou no brilho gelado de seus olhos azuis.
— O que você quer que eu diga? Eu ainda não entendo onde você quer chegar. — Digo com o meu coração disparado dentro do peito. Agora eu sei muito bem onde ele quer chegar, estou fazendo isso apenas de raiva, para me vingar um pouco do ato mesquinho dele de mexer no que não deve. Ele não tinha nenhum direito de mexer nas minhas coisas, não dessa forma.
— Você só pode estar brincando com a minha cara, Katniss Everdeen. Como assim você não entende onde eu quero chegar? Me diga que isso é algum tipo de piada...- Ele quase grita ao apontar para os bilhetes em cima da mesa. — ...por que se não for eu vou embora, eu juro que vou sair por aquela porta e não vou voltar.
Meu coração aperta dolorosamente com as palavras dele, mas uma frieza antiga toma conta de meus batimentos cardíacos.
— Não é uma piada, minha filha e eu estamos voltando para o Distrito Doze daqui a algumas semanas. — Minha voz e calma igual a um fio de seda. Por dentro eu estou queimando.
— E você não pensou em me avisar, não pensou em me dar alguma explicação, um pequeno comunicado, ou qualquer maldita coisa sobre isso? Por que você faria algo assim? Por que me afastaria da minha filha e de você?
— Você sabe muito bem os meus motivos, você sabe muito bem que nosso acordo era de você ficar algumas semanas nessa casa, mas que isso não significaria nada para nós dois, era apenas algo destinado a nossa filha, em você criar um elo com ela, uma intimidade...
— Besteira, isso tudo é uma grande besteira. A verdade é que você ainda acha que eu sou o culpado por tudo, pela nossa separação, pelo seu sofrimento com Elika, pela vida dificil que você foi obrigada a abraçar para manter nossa filha em segurança. Você me culpa por tudo isso, não consegue ver além desses anos, não pode ver além de seu ódio e não pode acreditar que eu não tive nada a ver com isso e que fui uma vítima das tramas da minha mãe, igual a você. — Peeta me diz enfurecido, seu rosto e pescoço estão vermelhos de raiva, seus olhos são selvagens ao me encarar.
— Não é nada disso... — Eu tento dizer mais sou novamente interrompida por ele.
— Sim, é isso. Não minta para mim e pare me mentir para você mesma, será que não vai entrar na sua cabeça que eu fui uma vítima tanto quanto você, você ficou com a parte mais difícil, isso é obvio e acredite quando eu digo que eu tomaria toda a dor que você passou com a nossa filha apenas para mim. Se eu pudesse desfazer tudo eu faria, se eu tivesse suspeitado que minha mãe tinha feito essas coisas eu nunca teria permitido que vocês fossem tiradas de mim. Porcaria, Katniss, eu também sofri, eu passei anos miseráveis longe de você e agora você apenas compra passagens para ir embora, sem ao menos me comunicar, você pode não gostar, ou não aceitar muito bem, mas Elika Everdeen também é minha filha e eu não quero ficar longe dela, não quero visitas de finais de semana, nem dividir férias com você para que eu posso ficar alguns dias com a minha filha, eu não quero que você me deixe, eu não quero ficar longe de Elika...
— Isso vai muito além de você e eu, ok? — Eu digo no mesmo tom que ele, meus olhos também estão queimando agora. — Eu estou pensando em Elika e no que é melhor para ela.
— E o melhor para nossa filha é ficar longe do pai dela? É não ter a família dela unida? Me explique isso Katniss, porque eu não estou entendendo mais nada. — Ele praticamente grita.
— O que eu não quero é que ela cresça em uma família desestruturada, o que eu não quero e que minha filha sofra metade das coisas que a sua família me fez sofrer, você não sabe porcaria nenhuma das coisas que eu tive que passar, você sofreu? Nossa, deve realmente ter sido horrível morar em um apartamento enorme e caro, com uma noiva linda ao seu lado, com um bom trabalho e curtindo duas férias no ano. O seu sofrimento realmente me comove muito, Peeta Mellark. Eu nem ao menos posso dizer que estava vivendo, pois a verdade é que eu apenas sobrevivia com a nossa filha nos meus braços, você quer que eu apenas esqueça tudo o que passei e corra para os seus braços como se nada tivesse acontecido, como se você fosse o meu grande salvador? Adivinhe, você não é, eu consegui me reerguer com muita força de vontade e a ajuda de nossos amigos, mas você não estava lá...
— Você esta sendo má Katniss, sabe muito bem que não é nada disso que eu espero, sabe muito bem que eu não sou o salvador de ninguém. Você esta distorcendo o que eu disse, você é incapaz de olhar para nada mais do que o passado, ele te marcou Katniss, e agora é a sua vez de adivinhar, ele me marcou também. Você pode ter sofrido, e eu não nego isso, porém você tinha nossa filha em seus braços, e o que eu tinha Katniss? Lembranças de nós dois, era apenas isso que eu tinha. Você acha que eu vou me perdoar por não estar presente nos primeiros anos de vida de Elika? Que eu não vou sentir dor pelo resto da minha vida por não ter essas lembranças, por ter perdido isso? Ela é minha filha, tanto quanto é sua e você apenas quer tirá-la de mim, levando-a para o outro lado do país e sem nenhum aviso prévio sobre isso. Todas essas noites onde nós dois transamos até o cérebro explodir não significaram nada para você?
Meu coração estava tão acelerado com as palavras dele que eu me sentia mais que entorpecida, era como se uma enxurrada de sentimentos estivessem sendo tirados das minhas costas.
— Você sabe que significaram alguma coisa, de outra forma eu nunca teria permitido que isso acontecesse e não, eu não quero tirar Elika de você, eu apenas preciso de tempo para pensar sobre tudo isso...- Tentei explicar por outro ponto de vista.
— E porque você não pensa sobre isso aqui, ao meu lado? Elika, você e eu juntos, você vai poder pensar sobre o que quiser, apenas não a tire de mim assim, como se eu não significasse porcaria de nada, você não podia ter tomado essa decisão sem ao menos me comunicar. Quando você iria me dizer, um dia antes de ir embora? Me ligaria da estação de trem quando estivesse embarcando com a minha filha para o Distrito Doze? — Peeta me acusa, sua voz grossa estava cheia de ressentimento.
— Eu iria te dizer, só não sei quando, ok? E eu sinto muito Peeta, mas não posso ficar. Meu lugar não é aqui na Capital e quero que Elika também cresça no Distrito Doze, não quero que ela amadureça igual as moças daqui. Isso não tem nada a ver com você, eu já disse isso...
— Elika é minha filha, qualquer decisão que você tome em seu nome é da minha conta, se você quer ir para o Distrito Doze, então vamos para o Distrito Doze, eu apenas não quero ser excluído dessas decisões, da minha filha e da sua, eu levei muitos anos te buscando, desesperado para te encontrar e agora você acha mesmo que eu vou aceitar você tomar essas decisões sem a minha opinião antes. Agora não é apenas Elika e você, eu estou aqui também e mereço mais crédito e respeito do que você esta me oferecendo. — Peeta praticamente cospe as palavras para mim, seu rosto esta mais vermelho de raiva do que antes.
— Eu não posso aceitar isso, quero um tempo sozinha para pensar e descobrir o que eu quero, você não pode me impedir Peeta, eu já tomei a minha decisão. Nessas primeiros dias você poderá ver nossa filha sempre que tiver vontade, mas eu não sei o que eu quero ainda, eu disse para você que não tinha muito amor para mais ninguém, eu te disse que o tempo que você passaria dentro desta casa era passageiro, eu tive muita coisa da vida Peeta e não sei mais se eu posso me entregar da forma que você precisa que eu me entregue. — Confessei sem medo algum, a verdade era essa, eu o amo, mas não sei até que ponto posso confiar em alguém, mesmo nele.
— Você não vai esquecer não é mesmo? Não vai esquecer o passado e nós dar uma nova oportunidade, colocar nessa sua cabeça teimosa que eu não tive nada a ver com a nossa separação? — Ele perguntou ao aproximar-se de onde eu estava parada próximo a mesa, suas mãos se levantam para tocar o meu rosto, mas eu as bloqueio antes que ele consiga me tocar, eu preciso ter a minha mente limpa para pensar e quanto Peeta me toca eu deixo de pensar racionalmente.
— Eu sei que você não teve nada a ver com aquilo. — deixo as palavras escorregarem de meus lábios de forma mais macia. — E eu não estou dizendo que nós não vamos nos ver nunca mais, eu apenas estou pedindo algumas semanas para colocar a minha cabeça em ordem, me deixe sair da capital, me deixe respirar um pouco de ar fresco e arrumar um pouco da minha vida...
— E para onde você vai Katniss? Em que lugar do Distrito Doze vai ficar? — Ele me pergunta de forma exasperada.
— Eu não estou totalmente sem dinheiro Peeta, trabalhei duro esse ano e tenho uma boa economia no banco, Elika e eu voltaremos para o Doze, ficaremos em um hotel até a reforma da minha casa estar em ordem, eu tenho o dinheiro para isso. É assim que vai ser e já até tenho uma entrevista de emprego marcada na prefeitura do Doze, como secretária executiva...
— Você ao menos escuta o que está dizendo? — Ele me pergunta de forma muito rancorosa. — "Elika e eu isso", "Elika e eu aquilo", eu não estou nos seus planos...todo esse papinho de "Eu preciso de um tempo" é mentira, a verdade é que você esta sendo mesquinha e egoísta. Você não pensa em mim, você não pensa nem em Elika, você pensa apenas em si mesmo.
As palavras dele são iguais a punhais em meu peito, minha boca imediatamente se enche com um gosto ruim de amargor.
— Você pode pensar o que quiser, Peeta. Não me importo com isso. Mas, saiba que Elika é a principal prioridade da minha vida, eu a amo mais do que tudo. — Deixei que as palavras escapem dos meus lábios.- Você não quer me ouvir, você não quer aceitar que eu preciso de um tempo, que nem tudo gira em torno de você e seu amor juvenil, amadureça Peeta Mellark, você acha que é o único que sofre com tudo isso, porém eu também sofro e sei que esse tempo é necessário para nós dois, as coisas estão acontecendo muito rápido, ok? Eu apenas não sei o que fazer, e estou fazendo o melhor com o que eu tenho em mãos. Ontem mesmo Annie me perguntou quando vamos nos casar e eu apenas não sabia o que responder. Eu não estou dizendo que não quero você na minha vida, entenda isso, eu apenas preciso de um tempo para recomeçar a minha vida e a de Elika.
Peeta apenas me encarou durante alguns segundos, seus olhos queimando em chama fria. Quando eu me canso da nossa batalha de olhares eu apenas me virei e tentei passar por ele para chegar até a sala de estar, suas mãos foram rápidas em me parar e antes mesmo que eu possa entender de onde veio nos estamos presos em um longo e molhado beijo. Nossas línguas se massageiam e nossas bocas se provam, o beijo dele tinha gosto de desejo e raiva, acho que ele nunca me beijou de forma tão voraz. Seus braços estão em volta da minha cintura, suas mãos apertam a minha carne e me marcam de desejo. Os meus próprios braços estão em volta do seu pescoço, minhas mãos estão nos seus cabelos macios. Também estou com raiva e estou mais entregue do que nunca.
Nós somos dois seres de fogo, queimando um nos braços do outro. Quando sinto o meu ventre contraindo-se fortemente de vontade de tê-lo profundamente dentro do meu corpo, Peeta apenas se afasta e me dá as costas.
E é por isso que eu tenho que me afastar dele por alguns dias, ou talvez até mesmo algumas semanas, tudo é muito intenso quando Peeta me toca, tudo é muito quente e brilhante e cheio de prazer, eu fico entorpecida por esse homem e tenho que travar as minha mãos em punhos cerrados para não esticá-las e o puxar para os meus braços mais uma vez. Sinto que o ar em nossa volta é cheio de eletricidade parada, uma energia estagnada de um desejo sexual não realizado.
— Peeta...- eu me impulsionei para dizer, porém, em realidade eu não sabia o que dizer.
Os olhos dele se voltaram para os meus e ele deu apenas um passo em minha direção, eu acompanhei esse passo com antecipação, meu corpo gritava por aquilo, minha mente nublada para a nossa briga, e ao mesmo tempo minha mente seguia uma direção totalmente diferente, eu sentia uma guerra sendo travada dentro do meu corpo.
Ele para antes de dar um segundo passo e ao invés de vir em minha direção, eu apenas o vejo seguindo para onde as malas dele estão encostadas. Peeta para de frente a porta com a mão na maçaneta e lentamente volta a me olhar.
— Você quer alguns dias para pensar, eu vou te dar isso, Katniss. Eu não vou me despedir de vocês na estação de trem, manterei contato com a minha filha por telefone e você e eu nós encontraremos muito em breve para uma conversa definitiva. — Ele me disse com a voz grossa cheia de emoções escondidas.
Sem nem mesmo esperar uma resposta minha, Peeta apenas abriu a porta e em posse das suas malas, foi embora.
Eu não me lembro ao certo, entretanto acredito ter ficado em pé durante vários minutos, no mesmo lugar onde ele me deixou, com meus olhos ainda presos na porta. Vê-lo partir destruiu muito da barreia que eu criei em volta do meu coração. Quando ele fechou a porta atrás de si, eu apenas queria gritar com todas as minhas forças para ele voltar, para não me deixar novamente, nunca mais. Eu sentia que havia um oceano entre nós dois, mais uma vez.
Devo admitir que me senti a pior estúpida do mundo, a criatura mais tola de Panem. De uma vez eu me deixei ir para o chão e de joelhos eu chorei todas as lágrimas que podia chorar. A dor de sua partida foi algo que eu, sem dúvida, não esperei. Foi muito pior do que eu achei que seria e por muitos minutos eu apenas não conseguia pensar em nada, eu não era mais a moça inocente que ele encontrou quando eu iniciei o meu curso de graduação aqui na Capital, eu apenas me sentia essa mulher que novamente tomou decisões erradas, não importava mais o passado, eu sentia isso nos meus ossos, o passado não importava nada, eu apenas o queria perto de mim, eu apenas o queria de volta nessa casa, em nosso pequeno lar.
E naquele momento eu apenas teria que aceitar que ele tinha ido embora, e que fui eu que o mandei embora, agora eu estava novamente sozinha e tinha sido por escolha própria.
Não sei bem quanto tempo fiquei naquele estado de miséria pura, apenas sei que em algum momento eu pude me levantar e começar a agir como um ser humano novamente, eu tinha que ser forte não apenas por mim, mas por minha filha. Elika chegaria a qualquer momento e eu não poderia permitir que ela me encontrasse naquele estado.
Eu tomei banho, lavei a roupa suja, fiz o jantar de forma muito mecânica, ainda não conseguia aceitar que Peeta realmente tinha ido embora e que fui eu que o mandei sair. Em algum momento antes de Haymitch trazer a minha filha, eu consegui voltar ao meu normal, ou quase. Naquele dia Haymitch não ficou para o jantar, acho que ele entendeu que eu não queria conversar com ninguém. Mas, a sua expressão fechada me mostrava que Peeta já tinha conversado com ele.
Apenas ver o rosto da minha filha conseguia trazer um sorriso ao meu rosto, mas a dor estava lá o tempo todo em meu peito.
"Eu o mandei embora, eu o mandei embora, eu o mandei embora". Essa era a frase que se repetia uma e outra vez em minha mente, essa frase acompanhada de: "Foi melhor assim. A dor vai passar. Foi melhor assim. A dor vai passar."
É claro que a dor não passou, é claro que eu continuei a repetir essas palavras dentro da minha cabeça uma e outra vez durante essa uma semana em que Peeta foi embora, eu não o vi em nenhum dia. Apenas atendo as suas ligações e as transfiro para Elika.
A verdade é que Peeta Mellark sumiu, eu não consigo encontrá-lo em lugar nenhum. As vezes eu acredito que fiz uma burrada enorme em pedir um tempo para ele, não que eu não precise desse tempo, eu preciso, é só que eu não estou conseguindo ligar com essa separação. Sinto profundamente dentro do meu peito que temos que conversar novamente, eu apenas preciso colocar meus olhos nele mais uma vez.
Essa semana infernal passou da pior forma possível, a cama onde durmo, que sempre achei aconchegante, agora parece uma esteira de palha seca. Acabo por passar as minhas noites em claro, tirando apenas algumas poucas horas de cochilo. E como tenho muito tempo livre, já que meu contrato com Cinna acabou, eu apenas estive cuidando de Elika, ligando para o Distrito Doze atrás de empreiteiras para a reforma da minha casa e fazendo as malas para voltar para o Distrito Doze.
E apenas isso me dá muito tempo livre para pensar e remoer minha capacidade de estragar tudo. Quando estávamos brigando, naquele pequeno espaço de tempo, pareceu tão certo pedir um tempo. Eu realmente não deveria estar me sentindo tão mal assim. Hoje eu acredito que ele não teve nenhum envolvimento nas maldades da mãe, Peeta foi um joguete, igual a mim. E eu quero estar com ele. Peeta Mellark é o grande amor da minha vida, eu sei que nunca vou amar nenhum outro homem da forma intensa, pura e necessária que eu amo o pai da minha filha.
Apenas estou confusa, preciso pensar, preciso colocar a minha vida e a de Elika no lugar. Minha filha precisa de segurança para crescer e se desenvolver em uma mulher integra, e eu tenho que dar isso para ela.
Talvez, quando nós duas estivermos instaladas e com a vida mais organizada eu acabe por reatar o meu envolvimento com ele, mesmo que Peeta não apareça na minha vida, eu posso ir atrás dele.
"Nós vamos ter uma conversa definitiva" Foi o que ele me disse. O que será que isso quer dizer? Será que vai aceitar o nosso termino e nunca mais me procurar? quando esse pensamento surge em minha mente sou imediatamente sou tomada de ansiedade e medo, um frio transpassa a minha espinha dorsal o que faz com que minha pele se arrepie.
Segure-se, segure-se. Fico repetindo isso uma e outra vez em minha mente. O que esta feito, feito está. Mesmo que eu me sinta rasgar por dentro. Acho que não posso mudar as coisas, principalmente quando não consigo encontrar o pai da minha filha em lugar nenhum.
Eu queria conversar com Haymitch, entretanto ele está me evitando nos últimos dias, ele também está muito bravo pela minha decisão de ir embora da Capital, mesmo que o meu novo emprego na Secretária do Distrito Doze esteja praticamente em minhas mãos. Meu antigo mentor não consegue aceitar que vou tirar Elika de suas vistas, Effie e ele estão insuportavelmente grudados na minha menina nessas últimas semanas. Eu ainda tenho mais alguns dias aqui na Capital antes da minha partida para o meu Distrito de nascimento.
Finnick e Annie também nos visitam bastante, porém o casal não toca no nome de Peeta e evitam o assunto quando eu tento buscar alguma informação deles. Annie está com uma barriga enorme e redonda, seus pés estão inchados e ela é sem dúvida nenhuma a grávida mais bonita que eu já vi. O bebê não deve demorar muito tempo em nascer, o casal já está preparado para vinda de seu primeiro filho. Os olhos de Finnick brilham o tempo todo e ele está agindo de forma bem irritante com toda a preocupação a respeito de Annie.
Elika pergunta de Peeta o tempo todo, eu não sei o que meus amigos dizem para ela, já que minha garotinha é bem insistente, mas seja lá o que for eu apenas sei que eles conseguem acalmar a saudade que meu passarinho tem do pai dela. Eu desconfio de que Peeta, a esteja encontrando na casa de Finnick ou Haymitch, sem que eu saiba. Ainda sim, todas as vezes em que ela pergunta do pai, eu sinto o meu coração sangrar um pouco por causa disso. Sem contar na vergonha que sinto em saber que eu sou o motivo por eles estarem afastados.
O que eu faço? Que caminho devo seguir? Detesto me sentir sem caminho, encurralada em um canto.
No fundo eu não acredito que pedir um tempo foi algo ruim, sei que isso teria que acontecer em algum momento, eu preciso disso para colocar a minha cabeça no lugar e quando Peeta esta por perto, eu não consigo fazer nada disso. Também sei que esse tempo é importante para ele, Peeta não deve se sentir encurralado em um relacionamento apenas porque eu sou a mãe da filha dele. Todos nós devemos ter opções.
A saudade doí? É claro que doí, em todos os minutos. Quando ele está longe, eu apenas sinto que algo foi arrancado de mim. Esse é um vazio que nem o meu amor por minha filha pode preencher.
Eu tenho que ser madura e ter atitudes que correspondem com isso. E principalmente, eu tenho que saber arcar com as consequências de meus atos. Peeta disse que me daria o tempo que eu tanto pedi, porém ele não me disse o quanto esse tempo duraria. Será que é isso que está me deixando tão ansiosa?
Ou essa ansiedade surge apenas porque sei que estou novamente mudando a minha vida? Mudar de um Distrito para o outro é algo estressante, sempre foi. E eu espero de verdade que essa seja a última vez.
Eu preciso de estabilidade para Elika e eu.
Eu preciso conversar com Peeta mais uma vez.
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