Amarras do Passado
39 Open Your Eyes - Snow Patrol
Notas iniciais
Dias Atuais
Peeta
"...All this feels strange and untrue
And I won't waste a minute without you
My bones ache, my skin feels cold
And I'm getting so tired and so old
The anger swells in my guts
And I won't feel these slices and cuts
I want so much to open your eyes
´Cause I need you to look into mine..."
***
Eu entro na casa dos meus pais como um maniaco desesperado, não me importo em ser educado com nenhum de nossos empregados, eu apenas preciso falar com a minha mãe o mais rápido possível.
Meu coração está tão disparado no peito que eu acho que vai parar de bater a qualquer momento, mas novamente eu não me importo com isso. Eu nunca poderia imaginar que a minha mãe faria algo tão cruel, tão sujo e malévolo quanto o que eu descobri.
Estou segurando firmemente alguns papeis nas mãos. Não posso deixar de me agarrar a isso, como se fosse a minha tabua de salvação, ou então a chave que abriu o cadeado de todas as verdades que eu desconhecia.
Eu fui enganado, eu fui traído. Mas, não foi por Katniss. Foi minha mãe, a cadela tentou destruir a minha vida. E sim, eu digo minha vida, porque minha filha é minha vida, mesmo que eu não a conheça, ela ainda é sangue do meu sangue, carne da minha carne. Minha filha.
Encontro o motivo de toda a minha desgraça tomando chá na sala de visitas.
Ela me olha com seus olhos castanhos cheios de raiva, nunca vai me perdoar por não ter me casado com quem ela queria. Estou me fodendo para o que ela quer. Minha mãe tem muito o que explicar e ela não vai se safar dessa tão rapidamente.
Eu já sei a verdade, eu apenas quero ouvir dos lábios dela. Eu quero ouvi-la dizer bem alto o que fez contra mim, o que fez contra Katniss e o que quase fez contra Elika.
– Peeta. — Diz ela em sua voz irritada. — O que faz aqui? Sabe que não quero te ver, não depois da desfeita que você me fez passar com...
– Cala a boca! — Digo com raiva, minha voz está tão grossa pela emoção que eu quase não consigo obrigar as palavras a saírem da minha boca.
– Como ousa falar assim comigo, eu sou a sua...
– Cala a porra da boca! — Dessa vez eu não me prendo, e o grito sai rápido e cortante de meus lábios. Eu entro na sala de visitas e corro para ficar na sua frente, com força eu bato os papeis do banco na mesa de centro em sua frente, quase derrubando o jogo de chá preferido dela. — Você vai me explicar o que significa isso de uma vez por todas, o que você fez com Katniss Everdeen.
Minha mãe não me responde imediatamente, ela apenas me olha com olhos arregalados, eu nunca a tratei de forma tão brusca, nunca sequer levantei a minha voz ao lado dela. Não importava o quanto injusta ou ruim ela fosse, eu sempre a respeitei por ser minha mãe.
Mas, o respeito acabou e eu não vou sair daqui sem verdades, eu não vou sair daqui até que ela saiba todo o mal que me fez. Até que eu possa dizer tudo o que esta engasgado dentro da minha garganta.
– Como você pode fazer isso comigo, com o seu próprio filho? — Pergunto irritado, não posso conter a minha voz de sair de modo estridente.
Minha mãe apenas me olha com os olhos arregalados e não me diz nada, eu sei se ela está evitando essa conversa da mesma forma que faz com qualquer coisa que não seja do seu agrado. Dessa vez não vai funcionar, pois não pretendo cair em nenhuma de suas maquinações.
– Você vai me responder, querendo ou não. Não se finja de inocente, você vai ter que me contar a verdade. — Estou gritando agora, enquanto caminho alguns passos de um lado para o outro, meus olhos permanecem nela.
– Peeta, filho. Eu não sei do que você esta falando. — Minha mãe me diz ainda assustado e confusa.
– Você não sabe do que eu estou falando? Não sabe mesmo? Então eu vou te esclarecer algumas coisas. — Digo ao parar de andar e focar os meus olhos raivosos nela.- Deixe-me ver por onde eu começo, é que são tantas coisas...já sei... Que ligação foi essa que eu fiz para Katniss Everdeen terminando tudo com ela? E não finja não saber do que eu estou falando, à alguns anos atrás você mostrou uma ligação para ela onde eu terminava tudo com ela. Ela foi embora da Capital no mesmo dia achando que eu não a amava, e você ainda teve coragem de ir ao reitor da universidade para pedir que ela fosse expulsa...
– Aquela garota estava atrás do seu dinheiro, Peeta. Era uma menina suja, morta de fome...
Minha mãe para de falar imediatamente quando me vê avançar alguns passos para perto dela, é claro que eu nunca bateria em mulher nenhuma, mas estou prestes a dar algumas sacudidas na minha mãe. Ela deve ter visto algo perigoso no meu olhar, pois parou de insultar Katniss no mesmo momento.
– Nunca, e eu vou repetir para que isso fique bem claro. Nunca, insulte Katniss Everdeen na minha frente. — Eu digo com uma voz potente, mas ao mesmo tempo macia e ameaçadora. — Você me afastou dela, você foi a culpada por ela sumir da minha vida, por ter fugido grávida com um filho meu.
As últimas palavras parece que, enfim, tiveram algum resultado em afetar o seu emocional de pedra. Os seus olhos ficam mais brilhantes e suas bochechas ficam coradas. Eu não sei se ela esta envergonhada de seus atos, ou se está realmente machucada pelo que fez.
– Quem te disse isso? — Minha mãe me pergunta, com uma voz mais rouca que antes. — Você voltou a falar com aquela garota, ela esta mentindo filho...ela...
Minha mãe pula assustada do sofá onde estava sentada e acaba soltando um grito de terror quando eu vou até a mesinha de centro em nossa sala, onde estão os papeis comprovando o deposito em uma valor exorbitante da conta dos Mellark's para a conta de Katniss.
Katniss não mentiu sobre o deposito e se ela não mentiu sobre isso, tudo o que me disse até então foi verdade? O pouco que Haymitch me contou também é verdade? Não posso suportar pensar que eu vivi todo esse tempo rodeado de mentiras.
Eu tive que esperar até segunda para ir até o banco e junto com o gerente fazer o requerimento desses documentos de depósitos tão antigos. O resultado quase me matou.
Em pleno surto de raiva eu seguro a mesa de centro com muito força e praticamente a lanço para o outro lado da sala, escuto um estrondo alto quando a madeira pesada bate contra uma parede e se espatifa no chão, posso ouvir vidro se quebrando e suponho que o jogo de chá predileto da minha mãe já não existe mais.
– Mentirosa. Pare de mentir! — Grito ao caminhar apressado para o outro lado da sala e lançar os meus punhos em uma parede qualquer, nunca estive tão violento igual a esse momento. Depois da pancada eu sinto uma dor forte nas juntas dos meus dedos, minha mão está sangrado o que significa que eu bati com muita força. Sei que vou me arrepender disso depois, todavia não posso mudar o que já fiz. E para falar a verdade eu nem quero mudar coisa alguma do que fiz.
– Peeta! — Minha mãe grita assustada. Ela me olha como se não me reconhecesse, e de certa forma isso é a realidade, eu não sou o filho fraco que ela criou e pensou que eu fosse. — O que deu em você? Você enlouqueceu?
– Não, eu não enlouqueci. Pare de fugir e apenas responda as minhas fodidas perguntas. — Rosno cheio de raiva. Nós ficamos apenas nós encarando por alguns instantes. Minha mão começa a latejar pela dor.
Eu estou pensando seriamente em ir até ela e sacudi-la um pouco. Olho em volta pensando no que mais posso quebrar para esvaziar um pouco que toda a minha agressividade, tentar me controlar é minha melhor opção, mas isso é mais difícil do que parece.
– O que está acontecendo aqui? — Ouço a voz do meu pai perguntar ao entrar na sala e olhar em volta.
– Rodrick, ele enlouqueceu. — Minha mãe diz ao se aproximar do lugar onde o meu pai está parado com seus olhos azuis curiosos. — Peeta enlouqueceu...
– Marrybel, o que diabos você fez agora? — Ele pergunta para a minha mãe, ela o olha indignada e se volta para onde eu estou.
– Você estava envolvido também? — Ouço-me perguntar de forma muito macia e fria, estou ao ponto de colocar essa casa abaixo apenas com os meus punhos.
Meu peito doí ainda mais ao pensar que o meu pai, que sempre foi um homem que eu admirei acima de qualquer outra pessoa possa estar envolvido em toda essa sujeira com a minha mãe. Será que ele a ajudou a destruir o que eu tinha com a Katniss, mesmo depois de todos aqueles discursos de como eu deveria seguir o meu coração e toda aquela baboseira sentimental?
Faço com que meus olhos o fuzilem com ódio, se ele estiver envolvido em tudo isso é bem capaz que eu me afaste de uma vez por todas da minha família. Não vou querer ver nenhum dos dois enquanto eu viver.
Percebo que seus olhos sempre tão expressivos estão chocados com meu tom de voz frio, mas não deixo que minha raiva diminua, muito pelo contrário. Olhar em seus olhos azuis me deixa ainda mais raivoso, esses são os olhos da minha filha, a mesma tonalidade, o mesmo formato, e eles não existiriam se Katniss tivesse aceitado a oferta da minha mãe e abortado o nosso pequeno milagre.
– Peeta, explique-se imediatamente. — Diz ele em sua voz mais autoritária, o mesmo tom que ele só usa quando algum de seus filhos aprontou alguma coisa. — O que significa tudo isso?
– Você a ajudou? — Volto a perguntar, mal posso conter o rancor no meu tom de voz, o meu nojo por tudo isso. — Me responda agora.
– Ajudei o que? Alguém quer me dizer o que esta acontecendo aqui! — Seu pedido soa estrondoso no ambiente silencioso, acredito que se uma alfinete caísse no chão nesse exato momento todos nós poderíamos ouvir.
Eu avanço pelo sala a caço entre as coisas que eu joguei as folhas que eu tinha trago comigo, sobre a transferência bancária, não demoro muito a encontrar o que estava procurando, e por muito sorte que o bule de chá, agora em vários pedaços, estava vazio. O que ajudou a não manchar a papelada que comprovava o que Katniss tinha dito.
Depois de ter as folhas salvas em minhas mãos eu sigo até onde o meu pai esta parado e entrego as folhas em sua mão. Minha mãe esta com os olhos apreensivos ao seu lado. Eu continuo a encará-la com asco.
– Você ajudou a minha mãe a separar Katniss do meu lado, naquele tempo quando eu ainda estudava na Universidade? — Pergunto ao me afastar de ambos. Meus olhos grudam em meu pai e eu continuo as minhas perguntas. — Você a autorizou a mandar dinheiro para que Katniss pudesse abortar de um filho meu?
É difícil descrever o que vi no rosto do meu pai naquele momento, ele apenas olhou para o papel na sua mão e depois de um longo suspiro ele olhou para a minha mãe.
– Eu não entendo. Filho? Filho de quem? Quem pediu um aborto? E que dinheiro foi esse que foi depositado na conta de Katniss Everdeen? — Ele pergunta hora focando em minha mãe, hora focando onde eu estou parado de braços cruzados no peito.
– Esse dinheiro foi entregue a Katniss para que ela abortasse de um filho meu. Eu não fazia ideia disso, nunca sequer imaginei que algo desse tipo estava acontecendo, mas eu voltei a encontrar com Katniss à algumas semanas atrás, e depois de muita insistência e muita procura eu acabei sabendo da verdade, fiquei sabendo que quando ela foi embora ela estava grávida de um bebê, nosso filho e que ligou aqui para casa para me contar, mas a mãe atendeu o telefone e depois de conversar com ela, acabou mandando esse dinheiro para que ela abortasse de nosso bebê. — Respondo a sua pergunta, e tento manter a minha voz estável apenas porque o meu pai demonstra que não sabia de nada disso. E meu pai não é um homem que mente. — É claro que eu não acreditei nela, mas Katniss me disse que se eu quisesse saber a verdade que ela ainda tinha o valor depositado na época e que nunca tocaria em nosso dinheiro amaldiçoado.
Meu pai apenas me escuta muito calmamente, porém seus olhos queimam com algo que eu nunca vi nele antes. E por um lado é assustador de ver.
– Marrybell, o que significa isso? Você fez algo assim? — Ele pergunta muito seriamente.
Minha mãe apenas olha de um para o outro, com seus grandes olhos castanhos cheios de emoções conflitantes. Dá para ver que dentro de seu peito ela esta cheias de dúvidas sobre contar ou não a verdade. No final de sua pequena reflexão ela decide contar a verdade.
– Eu não tive escolha, ela estava aplicando um golpe de gravidez no meu filho. Peeta tinha começado a sair com a Glimmer novamente. Eu fiz pela família, para nos manter unidos, para que essa menina não se saísse bem com o seu plano...
– Você mandou dinheiro e chantageou uma pobre menina para que ela abortasse um neto nosso? — Meu pai pergunta com completo horror em sua voz grossa. E eu acredito nele, meu pai não estava envolvido em nada disso. Não sabia de nada dos planos da minha mãe, de certa forma isso é bem relaxante. Eu sentiria muito ter que me afastar dele de uma vez por todas.
– Não foi só isso, ela e Glimmer foram até a Universidade e forçaram o reitor a expulsar Katniss com uma falsa acusação de roubo. Katniss não foi embora da Capital porque quis, ela foi coagida e ir embora, a me abandonar e sumir em Panem sem deixar rastros, eu nunca pude entender a sua partida e você foi a culpada. — Primeiramente eu estava falando com o meu pai, agora eu simplesmente termino a minha sentença mantendo os meus olhos grudados nos da minha mãe.
Meu pai passa as mãos pelo cabelo curto umas duas vezes, ele tem os meus mesmos gestos de nervosia.
– Vocês não entendem. Aquela moça iria destruir a nossa família, eu tive que fazer isso, tive que mandar o dinheiro, e mesmo que hoje eu me arrependa, não existe nada mais que eu possa fazer. A garota já abortou, isso é passado e não devemos ficar remoendo esse tipo de acontecimento. — Diz a minha mãe de forma exasperada.
– De que forma uma menina pobre, e sem ninguém no mundo destruiria a nossa família, Marrybell? De que forma um neto não seria bem vindo nessa casa, principalmente nascendo de uma menina tão digna e cheia de valores corretos? — Meu pai pergunta colérico ao olhar para a minha mãe, eu apenas observo de longe, estou levemente enjoado de tudo isso.
Quero sair daqui, quero nunca mais olhar nos olhos da minha mãe. Essa mulher horrível, cruel e calculista. Percebo que a expressão dela é de puro terror e arrependimento.
– Eu errei, eu sei disso. Um neto, mesmo nascendo daquela garota insignificante, seria amado por nossa família. Eu errei, não posso mudar o que fiz, e se Peeta tivesse apenas se casado com Glimmer, agora nós teríamos muitos outros netos e netas para amarmos. A culpa é de Peeta por transar sem camisinha, ele foi o irresponsável, ele...
– Sim, eu fui irresponsável, Katniss também foi e não foi nossa intenção. Mas, nós dois assumiríamos esse criança com muito amor, eu nunca permitiria que ela passasse por uma gravidez sozinha. Como você pode tramar tudo isso, e destruir todo o amor que Katniss tinha por mim? Ela ainda acredita que eu terminei com ela, que eu a mandei embora da Capital, que fui eu que me afastei, quando a verdade é que foi você e Glimmer que me fizeram tudo isso.
– Eu estou tentando entender porque você faria isso? Porque você permitiu que uma garota inocente passasse por isso sozinha? Você destruiu o futuro daquela garota. Marrybell, você sabe que os Everdeens nunca tiveram muita coisa da vida, você sabia que a garota era bolsista, você estava ciente que ela precisava de ajuda, e quando ela nos ligou pedindo ajuda você mandou dinheiro para que ela abortasse. — As palavras do meu pai estão cheias de horror e raiva, nunca vi esse sentimento tão profundo brilhando fortemente em suas pupilas. — Você praticamente assassinou um recém nascido.
– Eu sei. — Grita ela limpando as lágrimas que escorriam pelo seu rosto. — Eu sei de tudo isso, ok? E eu realmente me arrependo. Fui impulsiva, e agi errado. Mas, eu não sou uma pessoa má, eu sempre fiz de tudo para manter essa família unida. Como vocês acham que eu durmo a noite tendo que lidar com o que eu fiz para essa jovem, o que eu fiz para esse neto? Eu queria voltar no tempo e mudar tudo isso, mas não posso. Eu nunca pude e agora não a nada o que fazer.
As lágrimas dela podem ser verdadeiras, todavia eu não posso me importar de verdade com isso. Não sinto nada por seu sofrimento, apenas rancor pelo o que ela me fez. Katniss está certa, ela não merece nunca chegar perto de Elika.
Elika, minha filha. A neta que ela sempre quis ter e que meus irmãos foram incapazes de dar isso a ela. Não existem netos do sexo feminino nessa família. Sou tio de três garotos, e se for depender dos meus irmão, não haverão mais netos na família, já que suas esposas decidiram não ter mais filhos para não estragarem os seus corpos magros.
Katniss conseguiu dar para a minha mãe aquilo que ela mais quis na vida, uma menina na família Mellark. Não que a escolhe do sexo da nossa criança tenha sido dela, isso é algo biológico muito além da capacidade humana. Entretanto, não diminuem a realização da coisa em si. E minha mãe não merece chegar perto da neta, não depois de tudo o que ela fez para humilhar e diminuir a mulher que eu sempre amei.
– E a culpa não é só minha, eu mandei o dinheiro. Mas, foi a Everdeen que fez o aborto, ela também é culpada, ela...
– Katniss nunca abortou! — Afirmo com uma voz firme, a sala onde estamos é tomada por um silêncio prolongado. Meus pais me olham aflitos e confusos, por isso eu decido continuar a minha explicação. — Você acreditou mesmo que Katniss mataria o nosso filho? Ela seria incapaz de realizar um ato tão cruel e mesquinho, não importa o tanto de dificuldades que ela teve que passar, ela decidiu que valeria a pena ter um filho meu. Uma filha para falar mais claramente. Elika Everdeen.
O silêncio continua por alguns instantes até que meu pai suspira aliviado.
– Eu sabia que aquela menina tinha os valores corretos. — Ele sussurra depois de passar as mãos pelo rosto e me encarar. — Ela te procurou para contar? Você viu a criança? Quando podemos vê-la?
– Katniss não me procurou, é uma longa história, mas depois do Outdoor com a foto dela, eu acabei ficando sabendo que ela estava de volta aqui na Capital, depois de muito procurar nós dois acabamos que nos esbarramos em um restaurante, e eu descobri onde ela morava e a vi com a menina. Eu pensei que ela tinha se casado com outro homem, mas à alguns dias atrás Haymitch e Finnick me contaram a verdade. Eu mal podia acreditar que isso pudesse ser verdade, e fui atrás de Katniss e eles estavam certos, aquela menina é minha filha.
De repente eu sinto uma enorme urgência de explicar isso para ele, de dizer o que eu estava sentindo, essa dor imensa que domina o meu peito, essa escuridão que me cerca que está em conflito com a grande sensação de satisfação ao descobrir que eu sou pai.
– Pai. — Digo ao me aproximar dele, minha voz está pesada e cheia de sentimento. — Ela é tão linda, minha filha é perfeita. Tem os nossos olhos azuis, nosso sorriso, nossos gestos. Eu não pude ficar muito tempo com ela pois Katniss não me quer perto da nossa filha. Ela me confirmou a paternidade de Elika, mas deixou claro que não precisa de minha ajuda para nada, e que não quer que nossa família se aproxime da nossa filha. Eu tenho uma filha com a mulher que sempre amei e eu não fazia ideia nenhuma disso. E Haymitch disse...
Eu paro de falar porque a emoção é muito grande em meu peito, eu sinto as lágrimas escorrerem pelo meu rosto e não consigo freá-las por nada no mundo. Pensar em tudo o que eu perdi em todos esses anos enche o meu peito de dor. Fazendo com que as sombras ao meu redor fiquem ainda mais fortes.
– O que Haymitch disse? — Meu pai pergunta ao interromper o meu momento de sofrimento. Seus olhos azuis estão assombrados.
– Me disse que foi ele que conseguiu um emprego para Katniss aqui na Capital, que ela tinha escrito uma carta para ele pedindo ajuda, e que pelo o que pode notar a minha Katniss e minha filha estavam vivendo uma vida miserável e pobre no Distrito Doze. Passando fome, pai. Eu sei que Katniss cuidou para que nossa filha sempre tivesse o que comer, ela é muito responsável, muito abnegada pelos que ama, mas e ela? Quantas vezes ela deixou de comer para que pudesse alimentar a nossa filha? Quantas vezes ela passou frio e medo, sem saber o que fazer com a minha filha nos braços? Pensar nisso me deixa doente e está me matando, pai.
Eu passo as mãos no rosto e evito olhar para qualquer pessoa enquanto soluço em minhas mãos. A dor é tão grande dentro de meu corpo, envenenando a minha mente que eu me sinto tremer fortemente. Meu pai tenta me abraçar, mas eu apenas o afasto com um braço e volto a andar pela sala.
– E a culpa é toda sua, não foi Katniss que me privou de Elika, a culpa não é dela. — Eu cuspo para a minha mãe quando consigo me controlar, ela ainda está impassível perto do meu pai, seus olhos arregalados pela surpresa. — Foi você que me afastou da minha filha, é lógico que Katniss não me quer perto da menina, que não quer que nossa família se aproxime da nossa filha. Isso aqui não é uma casa, não é um lar, é um maldito hospício. Quem me privou da minha filha foi você, e por sua culpa eu perdi os melhores momentos da minha vida, eu perdi a gravidez da mulher que amo, eu perdi o parto da nossa filha, eu perdi o primeiro sorriso de Elika, o crescimento de seu primeiro dente, a primeira gargalhada e perdi também as primeira palavras, os primeiros passos. Os abraços e os beijos da minha filha. Não foi Katniss que me tirou tudo isso, foi você com seu egoismo e com suas tramoias.
Depois de recuperar o fôlego eu continuo ao ser impulsionado pela raiva.
– Katniss deve ter passado esses anos todos de forma infernal, eu não faço a menor ideia do que ela passou, mas ela não quer você perto de Elika, e eu apoio a decisão dela, nem eu mesmo quero você perto da minha filha. Ou perto de Katniss, ou de mim. — Continuo a dizer o mais ferozmente possível. — Eu não sei como eu vou recuperá-las, e não sei se o que você fez foi irreversível, porém eu vou lutar com todas a minhas forças para ter a minha filha nos meus braços, para ter Katniss em minha vida, para protegê-las e amá-las e cuidar para nada nunca mais falta para elas. E depois de hoje eu juro que você nunca mais vai me ver, ou botar os seus olhos na minha filha. Você não é digna de respirar o ar que a minha filha respira, não me importa o quanto arrependida você esteja, eu não vou cair e acreditar em seu arrependimento fajuto.
– Peeta, filho eu...
– Não me diz nada, eu não quero ouvir as suas mentiras. — Interrompo-a quando ela cria coragem para me dizer qualquer coisa. — Eu estou indo embora agora, vou reconquistar a minha mulher e criar a minha família, bem longe de você. Eu espero nunca mais ver o seu rosto novamente.
Saio da sala imediatamente, não espero nada para me distanciar da minha mãe. Quando eu estiver com a cabeça mais fria eu posso conversar com o meu pai. Entretanto, agora não é um bom momento para isso. Eu sei que eles vão conversar, eu sei que ele vai perdoá-la, afinal de contas é o marido dela.
Eu cansei disso, estou tão exausto de conviver com a minha mãe. Somente olhar para ela enche o meu coração de raiva, ainda não posso acreditar que ela teve coragem de mandar dinheiro para Katniss abortar de um filho meu. De um neto dela. Que mulher é essa? Não existe motivo suficientemente força para ela pedir algo tão monstruoso.
Ela não somente machucou Katniss, fazendo com que a minha morena passasse por situações horríveis sozinha. Minha mãe também me prejudicou pessoalmente, me impedindo de ser feliz com quem eu amo, me impedindo de ter essas pequenas experiências com a minha filha.
E pensar na minha pequena boneca perfeita enche o meu peito de calor. Ela é minha. Eu quero conhecê-la, quero amá-la. Não posso suportar saber que ela existe e que não sabe que eu sou o pai dela, eu quero saber como é o som da sua risada, quais são os seus sonhos infantis, do que minha menina gosta de comer, e quais são suas brincadeiras prediletas.
Caramba. Penso irritado. Eu ficaria feliz apenas em saber qual é a data de seu nascimento.
Assim que estou fora do prédio onde os meus pais moram eu caminho até uma cabine telefônica e depois de pagar a taxa da ligação eu espero que Haymitch atenda.
Ele já deve estar cansado de ouvir o som da minha voz, mas não sei em quem mais eu posso confiar. Se nem na minha família eu posso. Haymitch é o único que pode me ajudar agora. Se ele somente me ouvir já vai ser de uma grande ajuda. Finnick ainda deve estar no trabalho agora. Eu também deveria estar trabalhando, mas não fui hoje. Qualquer um de meus irmãos vai ter que assumir o meu serviço na empresa.
Meu pai não vai poder ficar bravo comigo, afinal a culpada por minha vida estar um pesadelo é da minha mãe.
– Haymitch? — Eu chamo quando o escuto atender a ligação. — É Peeta. É verdade Haymitch, minha mãe mandou dinheiro para Katniss abortar, ela realmente tinha me ligado para contar da gravidez e eu não sabia de nada, eu juro que não sabia. Me esconderam isso tudo e eu acabei perdendo a mulher que amo. Você tem que me ajudar, eu não posso perder Katniss, eu não posso perder a minha filha, eu nem a conheço, qual é a data de seu aniversário? Katniss está trabalhando agora, eu quero ver Elika, agora...
– Peeta, Peeta! — Haymitch tem que gritar no telefone para que eu possa ouvi-lo. Meus pensamentos não estão nada coerentes. Estou até tonto e fora de foco pela minha agitação. — Pare de falar um pouco, eu não estou entendendo nada do que você esta dizendo. Acalme-se, por favor, respire um pouco.
Eu apenas respiro algumas vezes, permito que o ar enche os meus pulmões e percebo que isso me acalma muito lentamente.
– Pronto? — Pergunta meu antigo mentor. — Você vai ter calma agora?
– Sim, me desculpe. — Eu peço mais calmo, a todo o momento eu sinto que posso cair no mesmo estado de agitação desesperada de antes, mas tento me conter o máximo possível. Eu estou em pé em frente ao precipício da loucura, pronto para pular a qualquer momento.
– Vamos começar novamente. O que você precisa saber agora? Que história de aborto é essa? E sim, Katniss está trabalhando agora. — Ele me diz, sua voz grossa é como um trovão pelo telefone.
– Minha mãe mandou dinheiro para Katniss abortar, ela tinha ligado para a Capital para me contar, e minha mãe mandou dinheiro para ela abortar. Eu não sabia de nada, é por isso que Katniss não me quer perto da minha filha? Ela pensa que eu estava envolvido com isso? — Pergunto o mais calmo que consigo. Sei que a histeria esta muito próxima de mim nesse momento. Algo difícil de controlar, não posso cair nesse buraco agora.
– Nossa, eu não sabia dessa história de aborto. Katniss nunca me contou nada disso, ela apenas me disse que não queria a sua família perto da filha dela. Isso é mais complicado de se resolver do que as outras coisas. — Ele me disse depois de um suspiro cansado. — Eu andei conversando com a docinho e você sabe o quanto ela pode ser teimosa. As noticias não são muito boas, mas eu acho que consegui convencê-la a não fugir novamente.
– Fugir? Como assim fugir? — Pergunto ao congelar no lugar, minha voz sai muito fria, quase congelante de medo.
– Você sabe, ela estava com uma ideia idiota de pegar a menina e ir embora para bem longe da sua família e de você. Eu consegui convencê-la a não ir, mas...
– Quando ela disse isso? Quando ela pretende me deixar? — Interrompo com presa, essa noticia enche o meu peito de medo. Isso é muito pior do que eu pensava. Ela não pode ir embora, não pode levar a minha filha para longe de mim. Eu não fiz nada para ela me odiar da forma que odeia.
– Veja bem garoto, não é assim mais...
– Ela não pode fazer isso Haymitch, Elika também é minha filha e eu não vou permitir que ela a afaste de mim, não interessa o que minha mãe fez, eu não fiz nada. — Estou praticamente gritando ao telefone. A histeria? Bom, a histeria já não esta tão longe de onde eu estou no momento.
– Peeta, calma, vamos começar novamente. Você não esta me ouvindo...
Eu apenas desligo o telefone na cara do meu antigo mentor e me afasto apressado para o meu carro. Katniss não pode estar falando sério, ela não pode tirar Elika de mim, eu nem ao menos a conheço. Não é justo e eu não vou permitir isso.
Sinceramente eu não sei como consigo dirigir pela Capital sem matar ninguém ou bater o carro. Dirijo feito um maluco e passo vários sinais vermelhos ao longo do caminho.
Ela vai me deixar, ela vai me deixar, ela vai me deixar. Meus pensamentos giram apenas sobre isso, esse mantra macabro e cheio de medo. Toda a angustia que eu senti em todos esses anos sem saber onde ela estava me enchem o peito de uma vez só.
Eu sofri muito em sua ausência. Um vazio que nunca poderia ser preenchido, algo horrível de ser lembrado, e eu a encontrei à tão pouco tempo que é injusto ela me deixar novamente, não posso permitir isso. Eu tenho que reconquistá-la, ela tem que me dar uma chance para eu me explicar.
E agora tudo se agrava com a descoberta de Elika. Eu tenho uma filha com ela. E minha pequena nem ao menos sabe quem eu sou. Como posso me afastar das duas quando elas são tudo o que eu mais quero no mundo? Eu quero cuidá-las, protegê-las, amá-las pelo resto da minha vida.
Na minha presa eu estaciono o meu carro em um lugar proibido e me lanço para fora do veiculo com pressa, estou de frente para o prédio comercial onde Katniss trabalha. Vou conversar com ela, ela tem que me ouvir, tem que acreditar que eu não sabia de nada, que eu nunca terminaria com ela, que eu nunca a abandonaria grávida de um filho meu, que tudo o que eu mais quero é que ela me dê uma segunda chance, que ao menos me escute. Eu sei que ela pediu um tempo para pensar, pediu que eu tomasse um tempo para pensar e que depois nós dois conversaríamos sobre toda essa situação.
Mas, eu não posso esperar esse tempo, não quando o que Haymitch disse esta martelando dentro da minha cabeça. Ela não pode ir embora, não pode me deixar assim.
Depois de passar pelas grandes portas de vidro giratórias eu entro em um grande salão, o chão é de mármore e as paredes também, tudo é muito grande e muito limpo. Alguns seguranças vestidos de preto passeiam a esmo pelo lugar, sem me importar com eles, eu vou até a grande recepção do lugar onde duas recepcionistas muito bem arrumadas estão sentados digitando em seus notebooks modernos.
– Boa tarde, eu preciso falar com Katniss Everdeen. — Digo a uma delas, não olho direito para a moça, meus olhos estão cravados nas catracas de aço no lado esquerdo do prédio, alguns pessoas entram e saem depois de encostarem cartões magnéticos nos leitores brilhantes. Eu preciso de um cartão dessas para entrar no prédio.
– Boa tarde, você deseja falar com Katniss Everdeen? O senhor tem hora marcada? Sabe em que empresa ela trabalha? O andar? — A recepcionista me pergunta com uma voz suave.
– Não. — Eu respondo ao encará-la. Espero não estar com uma expressão de maluco. — Eu não tenho hora marcada, ela trabalha para Cinna, não sei o seu cargo dentro da empresa. É urgente.
– E qual é o seu nome? — A moça me pergunta educada.
– Peeta, Peeta Mellark. — Eu respondo e na mesma hora eu me arrependo do meu ato, eu deveria ter dado outro nome, Katniss pode não querer falar comigo agora, se passaram apenas dois dias desde o dia no parque. Ainda é muito cedo. Eu deveria ter dado o nome de Haymitch, ou aquele namorado dela. Darius alguma coisa.
Eu vejo a recepcionista fazer a ligação, ela leva algum tipo de equipamento auditivo para fazer a chamada, o tempo todo ela está digitando em um teclado invisível para mim. Posso sentir o meu coração disparar dentro do peito de ansiedade.
– Senhor Mellark? — Chama a recepcionista quando eu estou distraído. Eu a encaro ansioso. — Desculpe informá-lo, mas a Senhorita Everdeen não vai poder atendê-lo nesse momento, ela e seu Chefe Cinna não estão no prédio.
– Onde ela está? — Eu pergunto apreensivo.
– Informação confidencial, Senhor Mellark. O escritório não me disse. — Ela termina me lançando um sorriso formal.
Eu apenas a encaro e depois de agradecer me afasto.
Katniss não está no prédio, onde será que ela está? Preciso falar com ela agora. Um pensamento ruim invade o meu cérebro nesse momento. Eu vejo Katniss em casa, correndo e arrumando a sua bagagem, preparando tudo para ir embora com a minha filha.
Elika deve estar na escola agora, ela não vai tirar a menina de mim. Não, sem antes conversarmos. Não vou permitir ser afastado delas novamente. Não sem lutar.
Um plano meio maluco começa a se formar em minha mente, é arriscado e Katniss vai querer me matar, não me importo nem um pouco com isso. Só sei que ela não vai embora, não sem Elika.
Saio do prédio com pressa e logo vou para o meu carro novamente. Mais uma vez eu atravessa a cidade igual a um maluco. Ainda lembro do endereço da colégio da minha filha. E em menos de vinte minutos eu estou com o meu carro estacionado no pequeno estacionamento da escola onde a minha pequena estuda.
Eu saio do carro e vou direto para dentro da escola, o primeiro grande portão é aberto, então não tenho dificuldade de entrar no lugar, tudo é muito limpo e bonito aqui. Todas as paredes são pintadas com cores fortes e muito coloridas, uma decoração infantil muito bonita e alegre.
Meu estado de espirito não combina com nada desse lugar, é assustador me ver aqui, estou cheio de ansiedade já que vou ver a minha filha, e dessa vez eu não vou largá-la, vou apertar os meus braços em torno dela e ninguém no mundo vai poder tirá-la de mim.
Tenho que parar em uma recepção grande na entrada da pequena escola infantil, eu não vejo nenhum segurança em lugar nenhum, o que é ótimo já que não haverá ninguém para me deter.
– Boa tarde. — Eu digo para a senhora na recepção da escola. Existem grandes portões nas entradas da escola, ninguém entra sem a permissão da recepção. E parece ser por aqui que as crianças entram e saem dos seus turnos de estudo. Eu preciso fazer com que ela me deixe entrar. Sou a pai de Elika, é meu direito ver a minha filha. — Vim buscar Elika Everdeen, ela tem três anos e estuda aqui.
– Olá, boa tarde. Qual é o seu nome? — A senhora me pergunta com uma voz gentil, imediatamente ela começa a digitar em uma computador lateral, eu não consigo ler o que ela escreve pois o monitor não esta visível para mim.
– Sou Peeta Mellark, o pai de Elika. — Eu digo de forma firme, sinto a minha mão abrir e fechar pelo nervoso. Eu não notei antes, mas existe um pouco de sangue seco em minhas juntas, de quando eu soquei a parede da sala na casa dos meus pais.
A senhora me sorri e continua a digitar, seus olhos estão atentos no que ela esta fazendo.
– Elika Everdeen, filha de Katniss Everdeen. Ela está no terceiro ano do infantil, uma menina muito adorável eu tenho que dizer. — Diz a mulher gentilmente, e isso me tira o primeiro sorriso sincero do dia. É claro que minha filha é uma garotinha adorável, ela é perfeita.
– Sim, ela é. — É apenas o que eu consigo dizer, não vou sair daqui sem a minha filha, nem que eu tenha que derrubar esse portão com os meus braços.
– Desculpe, Senhor. O seu nome não está na lista das pessoas que podem retirar Elika da escola. As únicas pessoas que tem essa autorização são a mãe dela, uma senhora chamada Annie Cresta Odair, Haymitch Abernathy e Effie Trinket. — A senhora me diz de forma séria, acho que ela se deu conta que não estou aqui para brincadeira. Ou apenas viu as marcas de sangue seco no meu punho.
– Eu não me importo que meu nome não esteja na lista, Elika Everdeen é minha filha e eu vou levá-la, depois eu me acerto com Katniss. — Digo para a mulher na recepção.
Estou mais do que zangado no momento. Haymitch Abernathy tem autorização para retirar a minha filha da escola, Annie Cresta Odair tem autorização para retirar a minha filha da escola e eu não. Eu sou a porcaria do pai dela, eu tenho todo o direito do mundo de retirar a minha filha de qualquer lugar e levá-la comigo.
Katniss está tão encrencada comigo, não posso acreditar que ela não colocou o meu nome nessa maldita lista.
– Desculpe, Senhor Mellark. Mas, você não está autorizado para isso. A Senhorita Everdeen não deixou o seu nome na lista e não posso autorizar um estranho a retirar a menina da escola. — A mulher me diz muito seriamente. Seus olhos castanhos brilham com hostilidade.
– Estou pouco me fodendo para essa autorização, eu não sou um estranho eu sou pai da Elika. Ela é minha filha e eu vou levá-la. — Rosno de forma abrupta e nervosa. — Abra o maldito portão agora mesmo, e me diga em que sala minha filha está.
– Não posso fazer isso, Senhor, vou ter que pedir para você se retirar da escola imediatamente. No cadastro de Elika Everdeen não consta o nome de nenhum pai biológico, eu não sei quem você é. Mas, sem a autorização da mãe da criança, a menina não vai sair daqui.
Eu viro as minhas costas para o balcão da recepção, estou cheio de raiva, nunca estive tão nervoso em toda a minha vida. Vou direto para o portão fechado da escola, o que me separa da minha filha e ao pegar nas grades eu o sacudo fortemente.
Katniss não colocou o meu nome como pai biológico da nossa filha. Eu me lembro de algo que ela me disse no parque: "...eu sou a mãe e o pai de Elika..." Isso me deprime e me deixa possesso, estou com raiva de tudo.
– Abra esse maldito portão. — Grito ao sacudir o portão, um pequeno alarme soa em algum lugar, mas eu mal o escuto devido ao zumbido fino que está em meus ouvidos agora. Eu vejo tudo em vermelho. Vejo Katniss indo embora com minha filha, para um lugar onde eu não vou poder alcançá-las. Isso não vai acontecer. Não vou permitir.
Eu não sei como começa, só sei que estou sendo arrastado para fora da recepção por dois homens grandes, seguranças da escola.
– Elika! — Grito ao tentar voltar para o portão. — Filha...
Sou empurrado para trás e logo volto a me soltar, começo uma briga com não sei quem, talvez os dois homens ao mesmo tempo. Não vejo rostos apenas barreiras me separando de Katniss e de Elika. Tudo é vermelho em minha cabeça, tudo é raiva e medo.
Não posso ficar sem elas, não posso. Penso ao lutar com quem estava tentando me parar.
Não sei como acontece, mas sei que levo um soco poderoso no rosto, algo que me derruba com muita força no chão. Eu respiro rapidamente, sem fôlego pelo golpe poderoso. Também não sei quanto tempo leva, apenas sei que estou sendo carregado para dentro de um carro preto e algo em meu cérebro me mostra que esse é um carro da policia da Capital, focando o meu olhar no rosto dos homens que estão me carregando eu posso ver que eles estão uniformizados. O que não é nada bom.
Eles são policiais e eu estou sendo preso. A minha mente me alerta.
Mas, ainda estou muito tonto pela surra que levei e estou muito enjoado, acho que tenho uma concussão. Meu olho esquerda esta se fechando e doí como o inferno.
Eu não posso perdê-las, eu não posso. Penso ao conseguir clarear os meus pensamentos. A realidade começa a me voltar muito lentamente, e de repente eu percebo o que eu fiz, o que tentei fazer, e o que isso faria com Katniss.
Não posso acreditar que eu realmente tentei tirar Elika dela, que eu tentei levá-la para longe de sua mãe. Katniss ficaria destruída se isso acontecesse. O que eu fiz? Estou ficando maluco, tudo esta acontecendo muito rápido.
E eu sei que mereço ser preso, alguém tem que me conter antes que eu faça alguma loucura.
Elika é tudo para Katniss, eu não preciso conhecer a pequena para saber disso, Katniss morreria longe da filha. Eu nunca posso fazer algo assim, nunca posso afastá-las. Estou tão arrependido agora que a nevoa de raiva e medo começam a diminuir dentro de mim, agora que a histeria não domina mais o meu corpo. Posso ver claramente novamente, e isso é bom e ruim ao mesmo tempo.
Tenho que conversar com Katniss, tenho que pedir desculpas. Será que ela vai me perdoar? Ela tem que me perdoar.
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