Amarras do Passado
40 Lost - Katy Perry
Notas iniciais
Passado — 2 MESES DEPOIS
Katniss
"...Caught in the eye of a hurricane
Slowly waving goodbye like a pageant parade
So sick of this town pulling me down
My mother says I should come back home
But can't find the way 'cause the way is gone
So if I pray am I just sending words into outer space
Have you ever been so lost?
Known the way and still so lost?
Another night waiting for someone
To take me home
Have you ever been so lost?..."
***
– Katniss, sua louca. Você vai dobrar hoje também? — Sou surpreendida com a voz aguda e irritada de Johanna Mason as minhas costas. Eu me viro e a encaro solenemente.
Minha colega de apartamento e de trabalho é como um predador faminto, você tem que sempre saber a hora exata de manter os olhos focados nela e quando deixar de olhá-la. Ela sempre esta atenta, é muito observadora. O que me irritava um pouco no começo de nossa frágil convivência, talvez ambas sejamos muito parecidas, mas o fato é que depois de dois meses morando com ela, tudo o que eu posso dizer é que me acostumei com suas crises malucas e seu olhar atento.
Eu sei que não é algo pessoal. Johanna age assim com todos que conhece.
– Vou sim. — Respondo resoluta enquanto equilibro uma bandeja grande com vários pratos de hambúrgueres com batatas fritas para os clientes da lanchonete onde trabalho. A Clont's era uma ótima lanchonete. — Vou fazer algumas horas extras.
– Qual é o seu setor hoje? — Ela me pergunta com um olhar reprovador digno de esfriar a alma de uma pessoa fraca de espirito. Como esse não é o meu caso eu apenas sorrio de modo inocente para ela.
Johanna apenas continua a mascar o seu chiclete de morango enquanto aguarda a minha resposta. Ela esta vestida com o uniforme da Clont's. Eu visto o mesmo que ela.
O uniforme de garçonete que usamos consiste em uma vestido verde selva que vai até os joelhos, bem acinturado e com decote generoso na parte da frente e mangas curtas com o simbolo da lanchonete costurado no ombro esquerdo e a bandeira do distrito sete costurada no ombro direito, sapatilhas pretas resistentes e um pequeno broxe com o nome de casa um sob o peito ao lado do coração. Um uniforme horrível, com um tecido que pinica a minha pele.
– Lateral esquerda e setor de bar, e você? — Pergunto ao dar a volta em algumas mesas e anotar alguns pedidos.
– Lateral esquerda e bar. Vamos trabalhar juntas hoje, Kateimosa. — Riu-se Johanna. — Quer apostar de eu ganho mais gorjetas que você? Podemos tomar uns drinks naquele bar cheio de gostosos, depois do trabalho?
– Você não vai ganhar mais gorjetas que eu, estou trabalhando desde a abertura, e já peguei o café da manhã e o almoço do Clont's. — Digo para ela ao voltar para pegar sucos e refrigerantes para uma mesa cheia de adolescentes. Quando passo por Johanna eu apenas mostro a minha língua para ela. — E você sabe que eu não bebo, e não quero ir atrás de homem nenhum.
– Medrosa, e é você que está perdendo, tem certeza que não é lésbica? Desde que veio para cá eu nunca vi você sequer olhar para nenhum homem, e olha que você tem uma legião de fãs por aqui. — Escute Johanna rindo atrás de onde estou, ela também começou a atender algumas mesas.
Eu apenas me recuso a responder, mostro minha língua para ela mais uma vez e depois de um sorriso eu me afasto, é inacreditável que depois de toda a dor que eu passei, que eu ainda consiga encontrar forças para me tornar amiga de alguém, para dar algo a alguém. As vezes eu penso que tudo ficou com Peeta, todo o amor que eu sentia, toda a pouca gentileza que eu cultivei, todos os sentimentos bons do meu coração, e que as vezes eu penso que fiquei com tão pouco que não posso mais sentir nada direito. Mas, minha amizade recente com Johanna é um alivio pequeno em todas as ondas de dor que eu ainda estou envolvida. Me pergunto se algum dia eu vou poder esquecer que amei Peeta Mellark e voltar a ser como eu era antigamente, eu acho que isso não vai acontecer em um futuro próximo, e isso me assusta como o inferno.
Estou terminando o meu segundo mês desde que cheguei aqui no Distrito Sete, as coisas que no inicio pareciam bem difíceis, agora começam a melhorar, eu tenho uma amiga que confio, por mais improvável que seja a nossa amizade, mas estar com Johanna é como eu imagino ter uma irmã mais velha. E depois de tudo o que aconteceu na Capital, esse Distrito acabou se tornando um refúgio para os meus pedaços quebrados. E mesmo que eu tenha aparecido aqui apenas com Cara e a Coragem, eu tenho muito disposição para trabalhar e mudar o meu destino. Eu sei que tenho pouco dinheiro, entretanto espero mudar isso em breve.
Ainda bem que não demorei muito em conseguir um emprego. Graças a tudo o que é bom pelas pessoas me acharem razoavelmente bonita. Ser garçonete não é bem o que eu estava procurando, mas depois de ser expulsa vergonhosamente e injustamente da Universidade da Capital, esse emprego é um bote salva-vidas onde eu posso me segurar e ter certeza de que ainda tenho fôlego para lutar.
Minha amizade com Johanna aconteceu quase que imediatamente, eu não tenho ninguém no mundo, além da minha mãe que não se importa comigo, e minha amiga é órfã, pobre e sozinha no mundo. Temos muitas coisas em comum, incluindo a rabugice que temos e que é a cola na nossa amizade.
É difícil dizer isso, todavia eu confio em Johanna.
– Há quantos dias você vem dobrando aqui, Katniss? — Johanna me pergunta na primeira oportunidade que temos, ou seja quando todas as mesas do nosso setor foram atendidas e agora nós duas estavam em pé ao lado do grande balcão esperando algum cliente acenar pedindo ajuda. O que acontece logo em seguida, por isso tenho que respondê-la rapidamente.
– Eu já perdi as contas. — Confesso para ela, eu sei que estou cansada, extremamente cansada para falar a verdade.
Logo estou de volta no balcão entregando outro pedido para os cozinheiros.
A lanchonete estava bem cheia, normalmente era assim, o que me deixava bem feliz. Com mais clientes eu posso dobrar os meus turnos de trabalho sem dar explicação para ninguém e ainda ganho mais gorjetas.
E mais gorjetas significavam mais dinheiro e eu sei o quanto preciso encher a minha fraca poupança. Além do mais, me desgastar tanto no trabalho e me doar por inteira a isso, me ajudava a esquecer e não lembrar de um certo loiro de olhos azuis. Um tal Peeta que esmagou a meu coração e sua namorada loira que destruiu o meu futuro acadêmico.
Peeta. Suspiro ao me lembrar dele, e de seu sorriso feliz, logo o meu coração se enche de dor, uma dor que se caminha pelo meu corpo e se instá-la em meu ventre.
– Você não pode trabalhar tanto, Katniss. — Johanna me repreende assim que consegue me abordar mais uma vez. Ela para bem na minha frente e me olha irritada. — Quer se matar? Por que se quiser eu te digo que o meu machado é mais rápido. Você ao menos comeu alguma coisa hoje?
– Ainda não tive tempo de comer, Johanna. — Respondo com uma voz séria, mas como estou cansada a minha voz não é forte e decisiva como eu gostaria, ela apenas sai frágil e cansada.
– Pois vá comer agora, ou eu juro que eu vou pegar o meu machado no porão e te dou uma lição. — Ameaça a minha amiga com seus olhos brilhando furiosos nos meus.
– Quem vai te ajudar aqui? — Pergunto colocando uma mão na cintura.
– Oras, Riketa e eu damos um jeito, trabalho aqui a mais tempo KatKat, você acreditando ou não eu sei me virar, agora vá e faça a sua hora de almoço. — Termina ela quase me empurrando para fora do salão de lanchonete.
Isso é irritante, mas eu obedeço apenas porque estou faminta, e quando eu digo faminta eu realmente quero dizer isso. Meu estômago reclama de forma alta a neglicencia que eu o submeti hoje.
– Ok, coisa mandona. — Resmungo como uma menina malcriada ao me dirigir para fora da área de atendimento, ao sair eu guardo a caderneta de pedidos no bolso do vestido que uso. Johanna ainda esta me seguindo. — A mesa sete quer hamburguês de carne com queijo extra, o pedido já era para estar pronto. A mesa cinco quer refrigerantes e batatas fritas com molho de churrasco.
– Obrigada por avisar, o que seria das minhas gorjetas sem você. — Eu já disse que sarcasmo nunca é algo demais para Johanna? — Agora vá comer!
Já passam das três horas da tarde quando eu enfim faço a minha pausa e vou em direção a cozinha. Lá dentro da área dos funcionários, em uma parede branca ficava um sistema automático de ponto eletrônico para marcação do horário de entrada e saída dos funcionários de seus turnos de trabalho. Era só encostar o indicador no marcador de leitura de digitais e pronto e ponto estava marcado.
Ao lado do ponto de marcação, havia uma despensa de comida e depois dela um lugar reservado para a convivência dos funcionários, com algumas poltronas velhas encostados nas paredes e os armários individuais. Mas, eu não fui para esse lugar, eu passei direto e fui para a cozinha pegar o meu almoço, somente depois é que eu fui me sentar na área de convivência.
Hoje o chefe da cozinha da Clont's, um homem alto e exigente chamado Robbie caprichou no meu prato de comida. Meu almoço continha arroz branco com cenoura ralada, cozido de frango com ameixa e tomate e uma deliciosa salada verde que continha pequenas pedaços de torrada. Um belo pedaço de bolo de chocolate para a minha sobremesa e um copo de suco de laranja natural.
Meu estômago roncava alto só de olhar para todas essas delicias, e minha fome quase me matou. Lógico que não pude evitar de devorar o meu almoço com sofreguidão. E em poucos minutos a comida tinha desaparecido para dentro de mim. Ainda bem que todo o meu enjoo das primeiras semanas aqui no Distrito Sete já tinha passado.
Me lembro de sofrer muito com o meu estômago irritado, tudo o que eu comia eu vomitava, isso foi um verdadeiro inferno, as piores semanas da minha vida. O engraçado é que da mesma forma que os enjoos começaram, eles sumiram como em um passe de mágica. Ainda acontecia de eu me sentir enjoada com algumas comidas especificas, mas já não é o inferno que eu enfrentei.
Não fui ao médico pois não tinha dinheiro, não tinha para pagar a consulta e muito menos para pagar o preço de medicamentos. A sonolência forte que eu senti também foi difícil superar, para falar a verdade agora mesmo depois de uma belo almoço a única coisa que eu quero e me encostar na minha cama e dormir pelo resto da tarde. Eu posso fazer isso? Claro que não! E a sonolência aconteceu pelo horário estranho do Distrito Sete, só podia ser por isso. Não existe outra explicação.
Agora, ao finalizar o meu segundo mês nesse novo Distrito a única coisa física que sofro é uma fome gigante, enorme e terrível. Uma fome que dura o dia todo, e algumas noites também. Eu mal posso acreditar que acordo de madrugada para atacar a geladeira igual a uma desesperada. As vezes acho que posso enlouquecer se não comer determinado alimento, um exemplo foram os morangos cobertos com chocolate que eu vi, na minha vinda para o trabalho, em uma vitrine de doceria. Eu fiquei tão louca por isso que eu tive que pegar um pouco das minhas gorjetas do dia e correr de volta na doceria no horário do meu almoço, apenas para comprar o doce. Depois de comê-lo minha sanidade voltou ao normal.
Isso é muito esquisito. Sem contar que frequentemente eu ando sonhando com os pães de queijo maravilhosos que o Peeta faz, eu cheguei a chorar em uma madrugada ao acordar e me deparar com a realidade de que nunca mais vou vê-lo na minha vida, e nem vou comer os seus pães de queijo.
Essa comilança toda é a culpada por eu estar engordando feito uma rolha de poço. Johanna brinca dizendo que os meus peitões podem matar um homem asfixiado. Eu não acho graça nenhuma nisso, o meu uniforme já esta apertado, muito apertado e a maioria das minhas calças jeans já não fecham mais, foi por isso que à alguns dias atrás eu iniciei um regime. Pela primeira vez na minha vida eu tive que tomar essa atitude.
E não é exagero, pois eu nunca fui muito preocupada com essas coisas de boa forma. Entretanto, engordar sem parar não é uma boa ideia. Principalmente porque eu não tenho dinheiro para comprar roupas novas, logo o melhor é emagrecer e voltar a entrar nas minhas velhas roupas. Eu tenho passado uma fome desgraçada nos últimos dias e isso me deixa muito irritada.
Ao me espreguiçar preguiçosamente na poltrona onde estou sentada eu rapidamente me encolho com a pontado forte que sinto no ventre, tive até que me encolher e abraçar a minha cintura por causa da dor latejante. Já fazia alguns dias que eu ando sentindo essa dor e isso é muito chato. Eram como beliscões por dentro e uma forte queimação. Não parece infecção urinária, mas eu não sou médica, então até pode ser isso. Esses beliscões sempre demoravam para passar, hoje foi um dia muito difícil para mim. Parece que a dor esta mais intensa.
E eu odeio isso, odeio sentir dor ou desconforto. O meu corpo tem que entender que eu não tenho dinheiro para gastar com médicos. Eu não posso ficar doente, pois ou eu pago uma consulta no médico, ou eu pago a conta de água desse mês. Ou eu pago uma fortuna em medicamentos, ou eu pago o meu aluguel, e de jeito nenhum eu vou ligar para a minha mãe para chorar dores no corpo.
Já faz mais de um ano que eu falei com ela pela última vez, e é sempre eu que ligo, sempre eu que corro atrás, nossas ligações sempre são desconfortáveis e curtas. Não vou procurá-la, eu me recuso a correr atrás de quem não quer me ver.
Trabalhar muito já esta me ajudando a resolver o pior de minhas economias. Eu até já consigo guardar um pouco toda semana em minha conta no Banco de Panem. O que me ajuda são as gorjetas, esse santo milagre que não vai me deixar morrer de fome ou desabrigada. Sendo o desabrigada mais fácil de acontecer do que morrer de fome, já que eu sou uma excelente caçadora, e o Distrito Sete tem uma reserva florestal bem extensa.
Depois da minha vergonha na Capital, eu consegui a muito custo formar um novo objetivo em minha vida. Vou restaurar a casa que o meu pai me deixou no Distrito Doze. Quero reformar cada cômodo e deixar a casa habitável mais uma vez. Claro que tudo vai ser muito modesto, pois eu acho difícil conseguir dinheiro para fazer uma reforma muito grande, todavia se eu conseguir arrumar o pior da velha casa, já vai ser de grande ajuda. Vou conseguir viver de forma decente lá, no meu Distrito.
E como sempre, pedir dinheiro para a minha mãe esta fora de cogitação. Eu vou fazer vinte e dois anos, e desde os meu doze que eu já não dependo dela financeiramente. A grande verdade é que eu não preciso da minha mãe.
Forço a minha mente a voltar para o presente, ainda estou me abraçando com força enquanto respiro muito lentamente. Tento a todo custo fazer a dor ir embora. Ao passar a mão na minha testa eu fico surpresa ao notar o suor frio impregnado na minha pele.
Será que estou com febre? Penso ao colocar a palma da minha mão no minha testa e depois no meu pescoço e checar a minha temperatura. Não estou tão quente. Será que a comida não me caiu bem no estômago?
Para me distrair agora que a dor no meu ventre parece que deu uma diminuída eu vou levar a minha bandeja de comida para a cozinha. E lá, depois de entregar a bandeja na mão de uma auxiliar de cozinha eu vou direto beber um grande copo de água gelada. Acho que isso vai me ajudar.
– Você está bem, Katniss? — Ouço Robbie perguntar as minhas costas, ao me virar para encará-lo eu noto que seus olhos são cautelosos nos meus.
– Claro que estou. — Respondo ao me esforçar em um sorriso amarelo para tranquilizá-lo. Tento ao máximo esconder o meu desconforto quando uma nova pontada me aperta o ventre. — É somente o calor dessa cozinha, aqui é bem abafado.
– Você está muito pálida...tem certeza que está bem? — Ele volta a insistir.
– Tenho sim, eu até já estou voltando para o meu lugar no salão. Vou voltar para as minha gorjetas. — Eu deixo que um sorriso ainda mais amarelo irradie em meu rosto. Isso não está nada bom, eu sei, porém não existe nada que eu possa fazer. A dor vai passar, ela sempre passa. Quase me dou um tapa para não esquecer de bater o ponto de entrada do almoço.
Passo as mãos pelo rosto para afastar o suor frio de minhas feições e depois de respirar fundo eu volto para a área de atendimento.
Johanna faz uma careta de desaprovação assim que eu boto os meus pés no salão. Ela sabe que eu não fiz uma hora de pausa. Mas, não me importo com a suas caretas, minha amiga sempre esta com uma carranca.
Eu só posso dizer que as três horas seguintes são uma completa provação para mim. Uma verdadeira tortura se eu for bem sincera.
Primeiramente a dor em meu ventre aumentou consideravelmente. Passando de beliscões chatos para uma verdadeira cólica insuportável. E a cada poucos minutos eu tinha sido tomada por calafrios e um suor gelado que insistia em não ir embora por nada no mundo. Depois de duas horas disso eu passei a trincar os meus dentes para não chorar de dor. E a terceira hora eu passei me segurando para não cair por causa das tonteiras.
Logicamente eu comecei a errar pedidos e demorar em minhas entregas.
Johanna me olhava com olhos afiados que faziam a minha alma gelar, dava para ver que ela estava preocupada. Eu apenas me mantive afastada dela e sorria toda vez que ela me olhava.
O que estava acontecendo comigo? Eu me perguntava a todo momento. Será que o ar condicionado do Clont's estava quebrado? Eu me sentia queimar dentro desse vestido estupido e feio. Estava muito calor.
Não pude aguentar quando senti uma outra pontada em meu ventre. Essa foi mais forte do que todas as outras anteriores e eu tive que me curvar para não gritar. Tudo aconteceu muito rápido, em uma momento eu estava caindo e caindo, vendo o chão se aproximar muito rapidamente do meu rosto e no outro momento eu senti que braços fortes rodeavam-me pela cintura e me impediam de cair de cara no chão da Clont's.
Fui arrastada para a área de funcionários por várias pessoas. Eu não conseguia falar nada por causa da dor, uma tentativa me faria gritar até não ter nenhum voz dentro do meu corpo. Grossas lágrimas escorriam pelos meus olhos e eu não conseguia detê-las. Apenas passei os meus braços pela minha cintura próxima ao meu ventre e me encolhi de forma fetal.
– Katniss? Katniss?! — Ouvia alguém me chamar, porém eu não tinha forças para responder. — Pode me ouvir? Me responde...
Outra pontada ainda maior que a anterior queimou tudo o que eu tinha por dentro. Isso era horrível, meu cérebro estava quebrando também. Dessa vez eu não pude esconder um pequeno lamento de dor. Ele escapou de meus lábios igual a uma maldição.
– Katniss? — A pessoa na minha frente insistiu em seu chamado, eu sentia que tinha sido sentada em uma das poltronas velhas da área de convivência, as coisas estavam começando a me fugir. Isso não era não bom. — Droga, alguém chame uma ambulância. O que diabos vocês pensam que estão fazendo parados ai olhando para ela como idiotas? Liguem para um ambulância agora!
Johanna? O nome surge em minha mente quando eu reconheço o timbre irritado e perverso da minha colega de apartamento.
Já não posso esconder a dor que sinto e começo a gemer muito sofridamente, as lágrimas continuam a verter de meus olhos, estou morrendo, isso só pode ser morrer. E estou com medo, muito medo. A sensação que eu tinha agora era a de alguém tinha enfiado uma faca em meu útero e a estava girando com força. Mas que droga de dor era essa? Eu nunca tenho dor, nunca. Sou muito saudável, sempre fui.
– Katniss, vai ficar tudo bem, apenas me diga o que está sentindo...- Johanna me pede ao se ajoelhar ao meu lado, a voz dela ecoa em meio a minha dor.
– Doí Johanna. — Eu consigo cuspir as palavras entre os meu soluços. — Doí muito...
Depois de dizer isso eu apenas tive que morder o meu lábio inferior para não gritar quando outra onde de dor me abateu, era uma atrás da outra, eu já não tinha pausas. Meu corpo estava tremendo inteiro e por poucos segundos eu acho que a minha mente chegou a me abandonar.
– Aonde doí, Katniss? — Eu a ouço insistir quando começa a passar as mãos nos meus cabelos. — Vamos, se concentre e me diga aonde esta doendo?
– Aqui! — Eu disse ao apontar para o meu ventre, até consegui por poucos segundos manter os meus olhos nos de Johanna. Logo tive que voltar para a minha posição curvada, pois outra onda de dor me abateu.
– O que diabos você andou aprontando Katniss? — Ouço-a perguntar, mas já não consigo manter os meus pensamentos muito tempo coerentes.
Não conseguia entender a sua pergunta, não conseguia entender nada do que estava acontecendo ao meu redor, tudo era dor e eu estava presa nesse mundo. Uma dor cada vez mais forte, cada vez mais intensa. Não sei quanto tempo se passou.
– Katniss, vamos a ambulância chegou. — Ouço a voz de Johanna dizer a muitas milhas de distancia de onde eu estou. — Você tem que levantar.
Eu nem sequer movi um dedo, apenas me encolhi ainda mais. Depois eu senti braços passarem pelo meu tronco e me levantar de onde estava encolhida, eu não sei quem era a pessoa, mas o homem me segurou em pé e me encorou fortemente.
– Merda, você está sangrando e muito. — Ouço Johanna dizer em algum lugar próxima a mim.
Eu olho para baixo e vejo um verdadeiro riu vermelho de sangue quente escorrer pelas minhas coxas e tornozelos. Eu abafo um gemido de surpresa e meu corpo todo treme ao sentir uma nova onde de tontura. Meu cérebro nubla.
Desmaio logo em seguida.
Minhas próximas memorias são muito confusas, eu me lembro de acordar várias vezes e em vários lugares diferentes e brilhantes demais para a minha visão debilitada.
Sei que chamei o nome de Peeta em algumas ocasiões, eu estava com muito medo e muita dor. As pessoas a minha volta pediam para eu me acalmar a todo momento.
Tentava falar coisas mais construtivas e não conseguia, desmaiava em todas as tentativas, uma máscara de oxigênio estava em meu rosto e alguém me dizia para aguentar firme. Eu ainda estava presa em meu mundo de dor.
Em algum momento a dor deixou de existir.
Eu estava grogue, e muito sonolenta, acordei e não fazia ideia de onde estava, mas ao olhar em volta eu percebi que estava deitada em uma cama de hospital, isso foi o que pude notar logo de cara, um monitor grande e brilhante marcava os meus batimentos cardíacos, e havia outro ligada mancando outros batimentos, eu não fazia ideia de por que eu precisava de dois monitores cardíacos, mas se isso tudo era para mim, eu realmente deveria estar muito doente.
Em que hospital eu estava? Meu cérebro começou a perguntar, minha mente ainda estava muito confusa e eu estou com muito sono. O que tinha acontecido?
Não pude correr atrás de respostas pois estava muito cansada, o meu corpo exigia descanso e um descanso agora. Por isso eu apenas me entreguei ao mundo dos sonhos e voltei a dormir.
Não sei quanto tempo se passou, entretanto eu sei que a próxima vez que desperto eu estou muito mais atenta que antes. Estou dolorida, mas estou bem. Os monitores cardíacos ainda estão ao meu lado. Por que diabos eu preciso de dois? Será que estou sofrendo alguma doença grave no coração? Também estou mais atenta que antes, e isso é bom, não gosto da sensação de impotência que os remédios me dão. Olhando discretamente em volta eu noto que estou dentada confortavelmente em uma cama de hospital, em um quarto muito iluminado. Ainda estou cansada, mas já consigo manter um pensamento coerente.
Escuto um barulho de tosse e viro a minha atenção para o lado esquerdo. Vejo Johanna sentada em uma cadeira ao meu lado, seus olhos estão me olhando muito preocupados. Ela esta com uma aparência abatida de quem não dormiu.
– Onde estou? — Pergunto aflita assim que consigo achar a minha voz.
– No Hospital CentruSete. — Respondeu Johanna com uma voz rouca. — Como está se sentindo?
– Me sinto dopada. — Digo e até consigo sorrir um pouco. — O que aconteceu?
– Muita coisa aconteceu, Katniss! — Johanna afirma sem sorrir, sua voz é muito séria o que me faz temer por algo. — Você dormiu por dois dias seguidos.
– Dois dias? — Eu quase grito ao arregalar os meus olhos e tentar me sentar, claro que não consigo fazer isso e acabo voltando a me deitar cheia de dor.
Isso é impossível! Penso aflita. Não posso ter dormido por dois dias seguidos.
– Por que não me contou, Katniss? — Sou interrompida de meu surto quando escuto a pergunta de Johanna, ela parece magoada e infeliz ao me olhar. — Você é algum tipo de maluca ou algo assim?
– Não contei o que? — Pergunto ao olhar para a minha amiga, ela está mal humorada isso dá para perceber, mas por que está magoada? — Por que estou aqui? O que aconteceu?
Foi nesse momento que eu me lembrei das dores fortes em meu ventre, da sensação de que estava sendo rasgada por dentro. E havia sangue também, um rio de sangue que descia por minhas pernas.
– Que está grávida, Katniss! — Ela praticamente grita isso para mim. — Você estava abortando sua idiota.
As palavras dela demoram a fazer sentido dentro da minha cabeça. E mesmo quando eu consigo processá-las em meu cérebro, eu ainda não consigo entender o significado do que ela dizia.
– Grávida? — Me escuto perguntar aflita. — Quem está grávida?
– Você, sua maluca. — Retrucou Johanna mal humorada, mas seus olhos já não estão tão raivosos quanto antes. — E quase perdeu o bebê.
– Deve haver um engano, eu não posso estar grávida. — Digo quando consigo encontrar a minha voz. — Isso é impossível.
– Não, não é impossível. Mamãe urso, o seu ovulo foi fecundado. Não vai me dizer que você é daquelas que só descobrem que estão grávidas quando a criança nasce no vaso sanitário? — Johanna pergunta agora com um pequeno sorriso no rosto, ela deve estar se divertindo com a minha cara de perplexa.
– Do que diabos você está falando? — Eu pergunto ao obrigar que minha atenção esteja cem por cento ligada em minha amiga.
– De você, Katniss. Vai me dizer que não sabia? — Volta a me perguntar com um sorriso divertido no rosto.
Eu não consigo dizer nada por alguns momentos, tudo é muito turvo, muito confuso. E eu me lembro da dor, muita dor. Estava me rasgando por dentro.
– Eu estava grávida? — Pergunto, mas não é necessariamente para a minha amiga, acho que no fundo eu estava perguntando isso para eu mesma.
– Errado, você não estava grávida, você está grávida! — Johanna diz ao tocar o meu braço, seu olhos são muito sérios. — Os médicos conseguiram interromper o aborto, conseguiram salvar você e o bebê.
Eu sinto que todo o sangue é drenado do meu coração e do meu cérebro. Estou viajando em um mundo confuso. Isso não pode ser verdade, não posso estar grávida.
Grávida? Penso no instante que meu coração dispara no peito, acho que vou desmaiar novamente. Eu estou grávida!
– Mas, já fazem uns três meses que eu não...
Oh, eu não acredito! Volto a pensar com medo. Quando foi a última vez que eu menstruei? Eu faço as contas em meus pensamentos, desesperada por uma noticia positiva para o meu caso, para provar que essa gravidez é uma absurdo dos médicos, porém eu não consigo lembrar qual foi a última vez que eu menstruei.
Não acho que ocorreu nos últimos meses. Por que eu não me lembro da última vez que eu sangrei?
– Os médicos acham que você está de três ou quatro meses. — Johanna continua a dizer, ela até parece animada com a noticia.
– Isso não faz o menor sentido. — Eu digo quando os meus olhos caem em um dos monitores cardíacos ao meu lado, eu vejo com horror e admiração os batimentos fortes, eu sigo a fiação complicada desse monitor até pequenos adesivos que estavam indo por debaixo do meus cobertores hospitalares, quando eu passo a mão eu os sinto grudados em minha barriga, próximo ao meu ventre.
Minha barriga esta dura onde eles estão colados, mas isso tudo é muito maluco, eu deveria estar gorda e não grávida.
Tem uma criança dentro de mim. Um bebê crescendo dentro do meu corpo.
Eu acaricio a minha barriga muito calmamente, meus olhos estão arregalados de surpresa. Existe inegavelmente uma saliência ali, meu ventre está levemente distendido. Minha barriga é uma pequena bola redonda.
Peeta! Penso aflita no mesmo instante. Esse bebê é de Peeta. Ele e eu vamos ser pais.
Eu vou ter um bebê de Peeta Mellark.
Como isso aconteceu?
Quer dizer, eu sei muito bem como isso aconteceu, na verdade eu sei exatamente bem como foi que eu fiquei grávida. Os orgasmos que ele me deu eram de explodir a mente e ainda me assombram nas madrugadas. E nas semanas antes da nossa separação nós dois parecíamos mais um casal de coelhos no cio. E eu me entreguei algumas vezes sem camisinha, na verdade eu mal notava se ele as usava ou não já que tudo o que eu queria quando nós estávamos juntos era ele dentro do meu corpo.
Mas, uma mulher precisa de muito mais do que apenas algumas noites de paixão sem proteção para engravidar. Não precisa?
Um bebê de Peeta. Penso e isso quase me faz explodir em lágrimas. Uma criança loira de olhos azuis que vai me chamar de mamãe. Eu vou ser mãe, mas a dor era muito grande.
De repente o monitor com os batimentos cardíacos da minha criança já não me convencem mais de que ela esta bem.
– Eu perdi? — Ouço a minha voz cheia de medo perguntar. Meu coração esta disparado dentro do peito. — Meu bebê está bem?
– Não, mas foi por muito pouco. — Johanna me conta, sua voz é quase serena quando me olha. Uma de suas mãos estão nos meus cabelos me fazendo um carinho bom, uma atitude muito estranha dela. — Você e o bebê vão ficar bem. Agora fique calma, você não pode ficar estressada de modo algum.
Somos interrompidas pela entrada de uma médica no quarto onde estou. Suas feições eram muito calmas, seus olhos castanhos eram espertos e atentos e combinavam com a cor de seu cabelo.
– Senhorita Everdeen, que bom que você esta acordada. — Cumprimentou ela ao se aproximar da cama onde eu estava deitada. Sua voz é muito doce e é quase um cantar. — Você nos deu um grande susto.
– Hum... — É tudo o que posso expressar, afinal ela é uma estranha e eu acabei de acordar de um inferno de dor para descobrir que vou ser mãe.
– Desculpe, eu não me apresentei. Eu sou a doutora Katita Makrow, sou obstetra do Hospital CentruSete, e eu estou cuidando do seu caso. — A doutora me diz ao me estender uma mão, eu a aperto com dúvidas.
– Obrigada. — Digo ainda confusa, ela cuidou do meu caso, ela salvou o meu bebê. — Eu não sabia que estava grávida...Eu estou grávida, não estou?
– Sim, definitivamente você esta grávida. E não fique preocupada, não saber que se está grávida é mais comum do que você imagina. — Disse Katita ao sorrir de modo amável e divertido. — Mas, hoje nós duas temos que conversar muito seriamente, senhorita Everdeen.
– Ok. — Respondo ao encará-la. Eu estou mesmo grávida, minha mão volta a cair em cima da minha barriga, bem onde a bolo redonda está.
– Você teve um inicio de aborto, felizmente minha equipe e eu conseguimos interromper isso e reverter o seu quadro. Você vai ficar bem, e seu bebê também vai ficar bem, mas você vai ter que seguir algumas recomendações importantes. — A doutora começa a dizer. Seus olhos estão nos monitores e na minha ficha médica enquanto conversamos. As vezes ela foca em mim, o que me desconcerta.
– Recomendações de que tipo? — Eu pergunto.
– Bom, seu incio de aborto pode ter acontecido por diversas causas, estresse, má alimentação, esforço física demasiado...Esse é o seu primeiro filho? — Ela me pergunta ao me encarar.
– Sim. — Eu repondo, minha voz é baixa. No fundo eu ainda acho que posso acordar a qualquer momento e isso não vai estar acontecendo.
– Bom, pode ter sido isso também. — A doutora me diz séria. — Toda gravidez é delicada, mas geralmente a primeira é a que mais dá dor de cabeça para as futuras mamães. E em todas os primeiros meses são extremamente importantes. Veja bem, o feto está se formando e crescendo e mãe e criança requerem uma atenção toda especial, muito descanso, muita comida, as vitaminas certas, e nada de estresse. Para você manter uma gravidez saudável de agora em diante é de extrema importância que você não se irrite, felizmente no seu caso não houve um deslocamento de placenta, o que no seu estágio seria muito prejudicial. Você não pode ficar estressada, não pode se desgastar. Você precisa se alimentar corretamente e não pode esquecer de tomar as vitaminas pré-natais.
Ela vai me dizendo tudo isso e eu apenas consigo achar que estou dentro de uma sonho. Vamos lá, eu tento acordar e não consigo.
Peeta. Penso nervosa, como eu posso não me estressar se eu vou ter que falar com Peeta. Ele que me mandou pastar ao terminar o nosso romance e que não quer me ver.
– Você perdeu bastante sangue... — Continua a doutora sem notar que eu viajei um pouco. -...e sua colega me disse que você estava se excedendo muitos turnos no lugar onde trabalha, muito tempo em pé, sem descanso, com uma alimentação fraca e demorada. Você não pode mais seguir nesse linha, de agora em diante eu quero o seu comprometimento que isso vai mudar. Senhorita Everdeen é de extrema importância que você siga essas recomendações. Quero ser a sua médica e cuidar pessoalmente do seu pré-natal.
Eu me distraio ao ouvir Johanna rir ao me lado.
– Eu queri poder gravar esse momento. O seu rosto está hilário. — A minha amiga diz.
Não demoro a fechar o meu rosto para ela, faço a minha habitual carranca e volta a encarar a doutora. Não consigo entender como Johanna pode dar risada de um momento como esse. Eu estou aqui sendo bombardeada por todas essas informações novas, minha vida vai mudar completamente e Johanna está dando risada.
– Senhorita Everdeen. — A doutora Katita volta a chamar a minha atenção. — Não fique preocupada, o pior já passou. Se você seguir essas recomendações, sua gravidez será um sucesso. Agora se você quiser eu posso trazer os equipamentos necessários para fazer o seu primeiro ultrassom. Você vai poder ver o seu bebê e até descobrir se é menina ou menino.
Eu estou começando a sair da minha condição de vegetal. As informações já não me assustam tanto, eu já não acho que eu estou em um sonho. Tudo ainda é confuso, não posso negar, mas eu quero esse bebê, eu quero esse filho de Peeta.
Eu estou grávida de Peeta Mellark.
Peeta. Penso ao suspirar. Onde será que ele está agora?
Eu tenho que contar para ele, que ele vai ser pai. Ele pode não querer mais nada comigo, mas não vai rejeitar o nosso filho.
Minha cabeça gira com tantas decisões para ser tomada. Qual deveria ser a primeira?
Depois de suspirar eu decido começar pelas coisas mais simples.
– Sim, eu gostaria de um ultrassom. — Respondo para a doutora. Essa era a melhor forma de comprovar essa loucura toda, meus olhos vão para o monitor cardíaco do meu bebê. Eu só vou acreditar quando ver isso em uma tela.
Quando a médica sai, Johanna diz que vai ao banheiro e que já volta para assistir ao ultrassom. Eu volto a acariciar a minha barriga. Tem uma vida crescendo dentro de mim. E tudo isso parece mais um sonho do que a realidade, eu não posso acreditar que Peeta e eu criamos uma vida. Estou morrendo de medo e curiosidade.
Eu vou me tornar mãe. Vou ter minha própria família agora, não vou estar mais sozinha no mundo. Isso é tão assustador, eu já perdi todos aqueles que eu amo, não posso perder esse bebê.
O que será que Peeta vai dizer quando eu contar, eu preciso contar para ele. Ele é o pai dessa criança. Eu sou muito nova ainda, vou fazer vinte e dois anos e já vou ser mãe. Peeta também é jovem. Eu não sei nada sobre ser mãe.
Não tenho como criar uma criança sozinha, não sem a ajuda dele. Eu nunca pensei em pedir o dinheiro dele para nada, mas talvez ele possa me ajudar nos primeiros anos de vida do nossa criança, até que eu posso me virar sozinha. Eu sei que ele não quer mais me ver, mas isso já não é sobre nós dois, agora temos um vida em jogo.
Um pequeno bebê inocente dos erros de seus pais está a caminho desse mundo. E se ele não quiser ter nada a ver com a nossa criança? Talvez eu possa conversar com a mãe dele, ela me pareceu ser uma senhora muito educada e certa. Ela não gostou do que Peeta fez comigo, mas não podia interferir.
E ela é mulher.
Minha cabeça começa a girar e eu deixo os meus olhos presos no monitor cardíaco do meu bebê. Eu nunca mais vou ficar sozinha, eu preciso cuidar dessa criança, mantê-la segura em meus braços.
– Desculpe. — Eu peço em um sussurro ao acariciar a minha barriga. — Mamãe não sabia que você estava ai dentro, eu não queria te machucar. Vou cuidar de você agora. Mamãe promete.
Algumas lágrimas escorrem pelos meus olhos, mas não são de tristeza, estou tão radiante e com medo e curiosa. Dentro do meu peito uma enxurrada de sentimentos brigam pelo domínio do meu corpo. Todavia, eu estou feliz. Vou ser mãe.
Fechando os meu olhos eu posso ver uma bebê com as feições de Peeta, com o sorriso dele, e os cabelos loiros dele. Já estou apaixonada por essa criança.
***
É agora ou nunca, eu estou em um telefone publico e tenho os créditos suficientes para ligar para a casa de Peeta. Felizmente eu tinha o telefone anotada em um dos meus cadernos escolares. Algo que eu deveria ter jogado fora, mas eu que não pude fazer.
Meu coração está batendo tão fortemente que eu sinto que ele quer pular pela minha garganta. Não sei como vou fazer isso, não sei nem se quero fazer isso. Eu poderia criar essa criança sozinha, eu poderia manter nós duas em segurança, vai ser difícil? Sim, mas não é impossível.
Descarto esse pensamente imediatamente, Peeta é o pai, ele vai querer saber que tem uma vida crescendo dentro de mim. Nosso milagre particular. Talvez ele ame o nosso bebê.
Sem em permitir enrolar por mais nenhum segundo eu apenas faço a ligação. Estou a poucos metros do apartamento de divido com Johanna no Distrito Sete, ela esta lá dentro me esperando para contar as novidades, com muito insistência ela me deixou ter esse momento de privacidade. Minha amiga pode ser incrivelmente bisbilhoteira.
Eu aperto o fone do telefone no meu ouvido e aguardo a chamada ser completada.
– Marribell. — A ligação é atendida, quase desmaio nessa hora. Vamos lá, diga alguma coisa.
– Olá, boa tarde. Eu preciso falar com Peeta Mellark. — Digo nervosa, estou torcendo os dedos da minha mãe de tanta ansiedade.
– Eu sou a mãe dele, sou Marribell Mellark, quem gostaria de falar com o meu filho? — A voz dela é fria e curiosa.
Ufa. Penso mais calma. É a mãe dele. Talvez isso seja fácil no final das contas.
– Olá, senhora Mellark, você está bem? Eu sou Katniss Everdeen, lembra de mim? Nós conversamos no último dia em que eu estive ai na Capital. — Eu estou enrolando, eu sei. Fecho a minha boca para não confessar tudo de uma vez.
– Katniss Everdeen, eu me lembro de você. — É a única coisa que ela me diz. Eu acho estranho ela estar sendo tão fria comigo. Talvez ela esteja ocupada com alguma coisa.
– Senhora Mellark, desculpe ligar assim do nada, mas eu realmente preciso falar com Peeta. Eu sei que ele pediu para eu afastar, porém o que eu tenho a dizer é importante. — Eu digo, tento passar o máximo de informações verdadeiras. — Espero não estar interrompendo o seu dia. A senhora sabe me dizer onde Peeta está? Ele está por ai agora?
– E qual seria o assunto que você tem para falar com ele? Eu sou a mãe dele sabe...- Ela me diz ainda muito friamente, isso não esta saindo de forma muito boa, talvez eu deva contar para ela.
– Eu estou grávida. — Deixo que as palavras saiam dos meus lábios, meu coração volta a disparar no peito. — Eu sei que tudo foi muito rápido e eu descobri a pouquíssimo tempo, é uma história longa, mas eu estou tão animada e assutada, tenho certeza que ele vai querer saber disso.
Fico esperando ela me dizer alguma coisa, qualquer coisa que alivie a minha ansiedade.
– Onde você está agora? — Ela me pergunta depois de alguns segundos, eu entendo que a noticia pode ter sido um choque para ela, com certeza foi um choque para mim.
– Estou no Distrito Sete, eu tenho um trabalho aqui. — Eu respondo. — A senhora pode me passar o telefone do apartamento de Peeta, ou do trabalho dele? Eu não quero...
– Você é exatamente da forma que eu achei que seria. — Ouço-a me interromper e paro de falar no mesmo momento. — Você acha mesmo que eu vou deixar o meu filho ser pego em uma armadilha de uma garota como você? Você acha que é a primeira mulher no mundo a fazer isso? Está grávida de Peeta? Isso é uma grande humilhação para a minha família. Como você ousa ligar para a minha casa para pedir qualquer coisa. Para exigir qualquer coisa...
– Eu não estou pedindo nada, não estou exigindo nada, eu apenas quero que Peeta saiba que vai ser pai, eu não planejei isso, não estou tentando nada indecente...
– Cala a boca, morta de fome. Você e sua mãe são da mesma laia de prostituta que eu adoraria cuspir na cara. Um bastardo na minha família? Só por cima do meu cadáver. Eu soube no momento em que descobri que Peeta estava saindo com você o que é que você queria ao estar indo atrás dele. — Ela me diz e existe tanto raiva em sua voz que me deixa desconcertada. Essa não é a mulher doce que me ajudou quando eu tive que sair da Capital. — Ele é um idiota, isso eu tenho que dizer, como deixou se enganar por uma coisinha insignificante como você eu nunca vou entender. Fique sabendo sua aproveitadora que você não vai mais enganar o meu filho, ele está de casamento marcado com Glimmer, aquele garota maravilhosa e bem nascida, eles já compraram um apartamento e estão muito felizes juntos, você não vai destruir isso. Ele não quer te ver, e tenho certeza que também vai abominar esse bastardo que você carrega. Você acha que pode tirar dinheiro dessa família? É somente isso que você quer, dinheiro? Eu vou depositar hoje uma quantia boa na sua conta, faça um favor a si mesma e a essa família e aborte. É o melhor coisa que você pode fazer, pois nada de bom nasce de uma Everdeen.
Ficamos em silêncio por alguns instantes, eu estou tão chocada com tudo o que ela disse, que parece que minha boca está cheia de cola. Não consigo dizer nada.
– Me ouviu golpista. — Ela me chama, me acordando de meus devaneios. — Vou depositar uma quantia na sua conta, não precisa me passar o número, eu vou pegar com o reitor da universidade que você foi expulsa por roubo. Everdeen, aborte esse bastardo e fique longe da minha família, meu filho está muito bem longe de você e...
– Peeta vai se casar com Glimmer? — Eu a interrompo muito suavemente. Eu acabei de sair da Capital e ele vai casar com Glimmer? — Ele está morando com ela?
– Sim, ouviu bem coisinha pobre. Ele vai se casar, quer que eu te mande um convite, somente depois de você abortar. Vou te colocar para assistir a cerimonia na primeira fileira...
Eu desligo o telefone imediatamente. Estou igual a uma morta viva andando para longe do aparelho telefônico. Isso é assustador, isso é terrível. Eu me sinto traída de uma forma horrível, do pior jeito. Como ele pode fazer isso comigo? Casamento? Com Glimmer? Aquela puta!
Não percebo quando entro no apartamento onde moro, acho que fiz o trajeto muito rapidamente. Eu tranco a porta atrás de mim e me encosto nela.
Johanna está em cima de onde estou logo em seguida, seus lábios estão abertos em uma grande sorriso.
– E então, quando o sortudo vem te buscar? — Ela pergunta feliz.
– Ele não vem...- Digo e fico surpresa por ainda conseguir falar alguma coisa.
– Como assim ele não vem? — Pergunta ela desconfiada. — É você que vai encontrá-lo? Eu devo dizer que isso não é muito cavalheiro e...
– Ninguém vai encontrar ninguém, Johanna. — Eu falo ainda com minha voz morta por dentro.
Johanna me encara muito seriamente.
– O que está acontecendo, Katniss? É melhor você me contar. — Ela exige.
– Ele vai se casar e a mãe dele mandou eu abortar o bastardo. — Eu digo ao me afastar da porta e passar por ela, caminho até o sofá da sala e me sento encarando a janela pequena. Hoje o dia está cinzento e triste.
– Aquele filho da puta, Peeta é o nome dele não é mesmo? Vou fazer uma visitinha para ele com o meu machado...eu vou...
– Você não vai fazer nada. Por favor não diga mais o nome dele, eu não posso ouvir isso hoje. — Eu passo a mão na minha barriga de grávida e embalo o meu bebê. Mamãe vai proteger você, eu prometo.
Abortar? Aquela mulher horrível mandou eu abortar o próprio neto. Essa é a família que eu quero dar a meu bebê? Não! De jeito nenhum.
Ele vai se casar. Só noto que estou chorando quando Johanna me abraça apertado.
– Vamos lá Katniss, você não pode ficar estressada, não faz bem para o seu bebê. Você não precisa deles, não precisa se humilhar pedindo nada a eles, eu sou sua amiga não sou, você pode ficar no apartamento, nós vamos fazer isso dar certo, e eu sempre quis ser tia. — Ele me diz tentando acalmar os meus soluços.
Peeta Mellark. Eu o odeio. Nunca mais direi ou pensarei em seu nome enquanto viver. Essa é uma promessa que eu juro manter. Por esse bebê que cresce em meu ventre, por nosso filho que sua mãe quer que eu aborte eu juro que nunca mais vou dizer, pensar, sonhar com o seu nome. Nunca mais vou procurá-lo.
Como ele pode fazer isso comigo? Casar com Glimmer é baixo até para ele. A cadela destruiu o meu futuro acadêmico e ele me usou. Não servi de nada para ele, nada.
Eu sempre soube que não era boa o bastante para ele, que nosso romance era muito melhor do que eu merecia que fosse, garotas pobres e insignificantes como eu não ficam com homens iguais a ele. Como eu fui ingenua, uma menina tola em acreditar que ele poderia me amar também. Um pássaro preso nas garras de uma gato caprichoso.
Nunca me permitirei amar dessa forma novamente, nunca vou me permitir cair nas garras dele. Ele pisou no meu coração pela a última vez, isso eu posso jurar. ElE vai se casar com a loira, que queimem juntos, eu odeio os dois. Odeio todos os Mellark's.
Todas as coisas que eu deixei no apartamento dele devem ter ido para o lixo no dia seguinte da minha partida. Como ele deve ter rido de mim. Como deve ter me esquecido rapidamente. O traidor maldito.
Eu deveria estar bem e me sentindo feliz por ele não me enganar mais. Entretanto, eu não estou nada bem. Essa dor é muito grande, perdê-lo está me dilacerando por dentro, mudando algo fundamental em minha alma, no que eu sou. Mudando as estruturas de quem eu sou interiormente.
Eu estou perdida sem ele, porque eu ainda o amo. Eu estou perdida.
Esse bebê é tudo o que eu tenho. Tudo o que me sobrou dele. Vou proteger essa criança, vou amá-la, vou cuidá-la.
Mamãe está aqui. Penso ao tentar me acalmar, ficar tão triste pode prejudicar o meu bebê. Mamãe nunca vai te abandonar, eu prometo.
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