Amarras do Passado
34 No Ordinary Love - The Civil Wars
Notas iniciais
Passado
Katniss
"...I gave you all the love I got
Gave you all that I could give, Gave you love
I gave you all that I had inside and you took my love
Took my love
I keep crying, Keep trying for you
I keep trying, I keep crying for you
This is no ordinary love, No ordinary love..."
***
Eu espero em pé próxima a estação de trem, minhas costas doem pela mochila pesada que eu carrego. Caído ao lado do meu pé esquerdo existe uma segunda mala grande. Isso é tudo o que tenho no mundo, todas as coisas dentro da mala e da mochila são tudo o que eu tenho. Além desses meus poucos pertences, eu carrego algo muito mais importante. A arco que meu pai me deu, ele esta bem guardado em uma bolsa especial que eu estou segurando pelas alças.
Algumas pessoas me olham curiosas, eu apenas finjo que não estou vendo ninguém. Odeio xeretas, odeio essa curiosidade que não me permite ter privacidade. Até parece que eles nunca viram alguém chorar.
Não que eu esteja dando um vexame, muito pelo contrário. Meu rosto esta avermelhado e meus olhos levemente inchados pelo choro, mas eu choro muito discretamente, sem fazer barulho nenhum, apenas posso sentir as lágrimas que descem pelas minhas bochechas.
Me desculpe, pai. Eu peço em pensamentos. Me perdoe por não realizar o seu sonho.
Agora mesmo todo o meu futuro está preso na passagem em minhas mãos. Estou apostando tudo o que tenho nesse novo Distrito.
Tive muito dificuldade em me movimentar pela Capital com todas essas coisas. Pagar um táxi está totalmente fora de questão. Eu tenho algum dinheiro guardado no banco o que me ajuda muito. Ainda bem que eu fui responsável nesses meses todos, ainda bem que eu fazia aquelas horas de trabalho na lanchonete do campus estudantil. Se eu não tivesse esse dinheiro guardado eu teria que recorrer a minha mãe, o que está fora de questão, já que nós não nos falamos. Eu poderia pedir ajuda para Gale, mas isso é outra coisa que eu não faria.
Gale. Ele deve estar surtando agora. Morto de preocupação. Eu não deveria ter ligado para ele, mas é que eu não pensei direito no que estava fazendo, eu apenas precisava desabafar com alguém, e agora eu deixei o meu amigo preocupado pela minha irresponsabilidade.
Isso não é bom, isso não é nada bom mesmo.
Agora eu só quero ir embora o mais rápido possível daqui. Se eu tiver opção eu nunca mais vou voltar aqui na Capital.
– Passageiros com destino ao Distrito Sete, embarque imediato na plataforma três. — Ouço uma voz feminina anunciar pelos alto falantes da estação de trem. — E atenção! Passageiros com destino ao Distrito Sete, embarque imediato na plataforma três.
Eu suspiro de alivio ao me dirigir para a plataforma indicada, sinto os meus braços protestarem pelo peso excessivo da minha bagagem.
É estranho estar indo embora, estranho e aliviante ao mesmo tempo.
Me lembro de chegar aqui com tantos planos e sonhos, eu estava tão cheia de esperança e determinação. Pela primeira vez em minha vida eu me sentia a pessoa mais sortuda do mundo. É claro que o meu peito estava explodindo de orgulho por eu estar realizando o sonho do meu pai de me ver estudando aqui na Capital. Na época eu tinha certeza que até mesmo Prim estava contente por me ver dando um passo tão importante na minha vida.
E agora, tudo o que eu sinto ao embarcar em um trem que vai me levar para bem longe daqui é tristeza e dor. Não sinto dor por deixar a Capital, eu nunca gostei muito de centros urbanos tão lotados e caóticos, eu devo ser a tipica garota de cidade pequena, acostumada com mais gentileza do que eu encontrei aqui.
Aqui na Capital tudo é grande demais, muito brilhante e exagerado. As pessoas, não todas é claro, são extremamente fúteis e temperamentais. Eu fui criada e educada para buscar outros valores que não os puramente estéticos e mundanos. Então por esse lado, deixar a Capital é um alivio, não vou ter que fingir sem educada todo o tempo, ou me importar com as conversas rasas do pessoal daqui.
Eu nunca pensei que iria embora daqui dessa forma, tão humilhada e ridicularizada. Como se eu fosse a porcaria de um nada. Todo o tempo investido foi jogado no lixo. Todo o esforço empregado foi desperdiçado.
O que eu vou fazer agora? Eu não sei. Juro que não sei, porém sinto que tenho que me afastar urgentemente daqui. Tenho que buscar novos ares, uma nova paisagem para admirar. Algo que seja mais parecido com o meu gosto pessoal, com a minha personalidade. E sei que não conseguiria voltar para o Distrito Doze agora, tenho que colocar a minha vida em ordem mais uma vez, tenho que primeiro me curar dessa dor, voltar para o Doze agora iria apenas me causar mais sofrimento e angústia, principalmente por saber que Peeta é do mesmo Distrito que eu. E eu não quero estar perto de nada que me lembre dele. Não posso, ou vou enlouquecer.
Nem ao apartamento dele eu fui para recolher os meus poucos pertences que estavam lá. Eu apenas entreguei a chave do apartamento nas mãos da mãe dele e me afastei.
O Distrito Sete me parece ser um bom lugar para morar, lá tem uma floresta enorme, e a economia local é regida principalmente da extração de madeira. No Distrito Doze eu tenho uma floresta enorme que esta em volta dele, eu cresci nela, aquela floresta está impregnada no meu sangue, e é o meu lugar favorito em toda Panem. Então, foi por isso que eu escolhi o Distrito Sete, de alguma forma eu sinto que vai ser um bom lugar para eu me recuperar de todo esse pesadelo que eu vivi aqui na Capital.
Tenho um pouco de dificuldade para embarcar com as minhas malas. Ainda mais dificuldade em conseguir andar pelos corredores estreitos do trem. Todavia, felizmente eu consegui encontrar um vagão vazio, então entrei nele com presa para me livrar de todo o peso que carrego.
Quando eu estou confortavelmente sentada no banco estofado da cabine, com as minhas coisas guardadas em uma prateleira grande acima do meu banco, um ótimo lugar já que eu posso ficar atenta nas minhas preciosas posses, eu me encolho no banco e abraço os meus joelhos. Descanso a minha cabeça nos meus braços e olho pela janela do trem.
Sei que logo ele vai estar andando tão rápido que a paisagem fora do trem será apenas um grande borrão, mas por enquanto eu ainda tenho como desfrutar de um pequeno descanso do aperto que tenho sentido no meu peito desde que ouvi a voz de Peeta naquela gravação. Eu estou ciente que logo mais uma rodada de dor vai se instalar no meu coração e se espalhar pelo meu corpo, como uma doença que me deixa tonta e febril.
É complicado aceitar que ele me dispensou tão facilmente. O que diabos eu fiz para ser descartada dessa maneira? Eu fui muito tola em acreditar que um homem igual a ele se apaixonaria por uma mulher igual a mim. Esse tipo de amor não existe, quer dizer existe. Mas, ele esta restrito as telas de cinema, aos livros de romance.
A vida real é muito diferente.
Lentamente eu me encolho ainda mais quando eu sinto uma outra onde de dor crescer em meu peito.
A única coisa que peço é que eu possa me recuperar disso. Algum dia talvez, ou nunca.
Eu não consigo entender porque as pessoas continuam me abandonando.
Primeiro o meu pai ao morrer, sendo seguido poucos anos depois por minha irmãzinha Prim. Minha mãe foi embora não muito depois, me deixando sozinha em nossa casa fria na costura. E agora o único homem que eu verdadeiramente amei também me abandonou, eu entreguei tudo o que eu tinha para ele, tudo o que eu era. Entreguei todos os meus sonhos e coloquei todas as minhas esperanças nas mãos dele.
E Peeta me abandonou.
Como eu posso me recuperar disso? Como eu faço a dor ir embora?
Não tenho respostas para essas perguntas. Mas, o trem começa a andar e eu tento me manter sã ao saber que nunca mais vou olhar nos olhos azuis dele, ou apreciar o modo como ele sorria ao acordar ao meu lado, ao o som da sua voz grossa chamando o meu nome quando fazíamos amor.
Como eu posso esquecer isso? Como eu posso esquecer Peeta Mellark?
***
Dois Dias Antes
– Você realmente acha que pode se esconder de mim? — Ouço a voz de Glimmer ao me abordar depois do termino de minhas aulas.
– Eu não tenho nada para falar com você. — Eu respondo ao encará-la. — Pare de me seguir, isso não é um jogo e não tem graça.
E não tinha mesmo. Não era engraçado eu andar pelos corredores da Universidade e ouvir pessoas me xingando de nomes ruins, apenas porque Glimmer pediu. Ou pior, não tem graça alguma quando os rapazes de outros cursos, homens que eu nunca vi antes vem me abordar para perguntar quanto eu cobro para dormir com eles.
Glimmer é a culpada por tudo isso. Eu sei, não sou idiota. Mas, o que eu posso fazer, eu já fiz duas denúncias na secretaria do Campus, e eles fizeram alguma coisa para me ajudar? Claro que não. Eu sou uma bolsista, Glimmer é uma aluna pagante, e os pais dela financiam algumas coisas para a Universidade. Que chance eu tenho contra ela?
Onde está Peeta? Eu não sei, ele enfrentou o primeiro dia de tormento comigo, eu não fui para o apartamento dele naquela noite, mas quando fui procurá-lo no segundo dia, depois de ter sido abordada duas vezes por rapazes diferentes, eu apenas não consegui encontrá-lo em lugar nenhum. A noite, depois de uma dia infernal, eu apenas fui para a apartamento dele. Entretanto, ele não estava lá, tinha uma nota no balcão da cozinha, dizendo que ele tinha ido viajar para resolver algumas coisas com o pai dele, alguma especie de problema ocorreu em uma das filias da padaria Mellark e ele teve que correr para ajudar o seu pai.
Ótimo! Pensei ao ler a nota. Isso era tudo o que eu precisava nesse momento.
Na nota não tinha um número de telefone que eu poderia ligar, e nem nenhum meio de me comunicar com ele, também não dizia quando ele iria voltar. Eu ficaria sozinha na Capital, enfrentando Glimmer e sua gangue de otários por não sei quantos dias.
Ele nem ao menos se despediu de mim. Nenhum beijo ou abraço. Nada de nada.
– Você é realmente uma vagabunda de esquina, não é não? — Diz Glimmer ao me puxar para o presente com ela. — Como você ousou tentar roubar o Peeta de mim? Você acha que realmente tem alguma chance com ele. Ele está te usando sua vagabunda. Todo homem adoro passar tempo com uma mulher fácil que nem você...
– Eu não sou vagabunda. — Falo para ela, posso notar que alguns estudantes da minha sala de aula param para ver de camarote o nosso confronto. — E que eu saiba o Peeta esta comigo agora, e não com você. Ouviu, aguada? Ele escolheu ficar comigo, porque ele gosta de mim.
– Gosta de você? Katniss, não se iluda. Homens iguais a Peeta não se envolvem com vagabundas...
– E é por isso que eu sempre me perguntei o que ele estava fazendo com você. — Cuspo o mais venenosa possível. Sei que Peeta me pediu para ignorar os insultos de Glimmer, mas não posso. Não quando ela não para de me atacar um minuto sequer.
– Sua puta pobre. Você é um lixo vindo do Distrito Doze, tão patética que nem a sua mãe te quer ao lado dela. — Eu a ouço dizer e congelo no lugar, como ela sabe que eu tenho problemas com a minha mãe? Eu nunca contei para ninguém isso. A não ser Haymitch, Peeta e Thresh.
Eu aposto que Thresh deu com a língua nos dentes e contou todos os meus segredos para ela. Confio em Peeta e sei que ele não faria algo assim. Ele guarda os meus segredos, e eu guardo os dele. Nós nos protegemos.
– Não ouse falar da minha mãe, Glimmer. Ela não tem nada a ver com isso tudo. Você esta com raiva porque estou saindo com Peeta, e eu peço desculpas por ter ficado com ele enquanto vocês ainda estavam juntos. — Eu digo tudo isso muito rapidamente, nunca quis me desculpar com ela antes, e nem quero fazer isso agora, mas talvez seja isso o que ela precise escutar para me deixar em paz. — Eu me apaixonei por ele, eu o amo.
– Essa é boa, é a primeira vez que eu vejo uma puta amar. Quanto você cobrou para deixar ele te comer, me diz. Eu pago o dobro para você se afastar do meu namorado. — Ela esta mentindo, esta dizendo tudo isso apenas para me insultar, me humilhar. — Você acha que eu quero as suas desculpas, eu só quero que você saiba que eu vou destruir tudo o que você é, vou expulsá-la dessa cidade e você vai deixar o meu namorado em paz, por bem ou por mal.
Ela me dá as costas logo em seguida e sai muito rapidamente das minhas vistas. Eu também me afasto, mas tomo um caminho contrário ao dela. Não faço a menor ideia do que ela vai aprontar, mas não gostei do seu tom de voz. Os insultos não me aborrecem, Glimmer é uma neurótica, maluca que não sabe perder. Eu apenas queria que Peeta estivesse aqui ao meu lado, enfrentando tudo isso comigo.
Me sinto incrivelmente só. Ainda tenho o apoio de Finnick e Annie, eles demonstram estar no meu lado agora, porém não sei até quando eu vou ter a boa vontade deles. Cato e Clove deixaram de falar comigo, não que eu sinta muita saudade deles, nós nunca fomos muito amigos. Eles estão do lado de Glimmer, e é bem provável que estejam ajudando a cadela loira psicótica a transformar o minha vida em um inferno.
Peeta não pode me ligar pois não instalou o aparelho telefônico em seu apartamento. Ele queria ficar invisível na Capital, o apartamento sempre foi um lugar para ele relaxar e pintar. Eu é que invadi o lugar e ele nunca se opôs a minha presença. Eu até mesmo adorava a ideia de ninguém ficar nos atormentando, e agora eu me recinto disso. Queria tanto ouvir a voz dele, ter um pouco do seu apoio nessa hora.
– Katniss? Ei, Katniss? — Sou abordada por Cashmere que vinha apressada pelo corredor. — Você precisa vir comigo agora.
– Cashmere? — Pergunto confusa quando ela segura em um dos meus braços e começa a me puxar para a saída do campus. — O que aconteceu? Você precisa de algo.
– Aconteceu algo terrível, você vai ter que ver Katniss. Eu não posso contar aqui se não você vai surtar. — Ela me diz com rapidez, eu para de relutar e começo a segui-la para fora do centro estudantil.
Meu coração disparou no peito ao segui-la até a entrada do dormitório feminino. Um pequena multidão de curiosos já estava na porta, e quando em viram começaram a cochichar uns com os outros, algumas pessoas tinham expressões felizes e divertidas, outras expressão de pena.
O que tinha acontecido? Não faço a minima ideia do que tinha acontecido, mas quando o vi o rosto sorridente de Glimmer em meio a um bando de amigas loiras eu me permiti pensar no pior.
– Vem Katniss. — Insistia Cashmere ao me arrastar para dentro do grande prédio. Ela me levou até a entrada do meu pequeno quarto. A porta estava entreaberta e ela e eu paramos de frente.
Eu não tinha deixado a minha porta aberta, eu nunca esqueci de trancá-la. O que estava acontecendo?
Cashmere apenas me impulsionou para frente, me fazendo acordar de meu estupor. Eu até mesmo podia ver as minhas mãos tremendo quando eu as estiquei na frente do meu corpo com a intenção de abrir a porta.
Quando a porta esteve aberta eu mal pude acreditar no que vi. Todo o meu quarto, e eu vou repetir para deixar bem claro. Eu disse que todo o meu quarto estava de pernas para o ar, tudo estava uma bagunça completa, parecia que eu tinha entrado em uma zona de guerra em meu pequeno mundo verde.
Meus poucos móveis estavam virados, minha roupa de cama estava rasgada e suja no chão, meus livros acadêmicos tinham sido feitos em pedaços, minhas fotografias estavam no chão, o vidro dos quadros de cada uma tinha sido pisoteado com força, as fotos não se rasgaram, mas os porta-retratos já não podiam ser usados. As roupas que eu deixei fora do guarda roupa também tinham sido rasgadas e seus pedaços estavam espalhados pelo chão, eu tive que colocar a minhas mãos na boca para não gritar de frustração e raiva.
A primeira coisa que fiz foi me ajoelhar no chão, tomando um cuidado extremo para não me cortar nos cacos de vidro e retirei todas as fotos da minha família dos porta-retratos quebrados, quando todas estavam salvas eu fui até uma cadeira virada no chão e a coloquei em pé novamente, depois eu depositei as fotografias cuidadosamente sob a cadeira e me virei para a porta, Cashmere e mais algumas meninas do dormitório estavam olhando para dentro do quarto, algumas com os olhos curiosos, outras estavam apenas me encarando com pena.
Eu sentia os meus olhos queimarem pelas lágrimas recém formadas, ainda assim eu estava me segurando para não chorar. Tudo isso era um pesadelo terrível, eu sabia muito bem quem tinha feito essa destruição no meu quarto, não por mãos próprias, já que ela estivera conversando comigo um pouco mais cedo naquele mesmo dia, provavelmente me distraindo para que outro alguém fizesse tudo isso.
– Katniss? — Ouço Cashmere me chamar, eu não tinha percebido que estava parada a muito tempo contemplando a minha parede pintada de vários tons de verde.
– Como foi que isso aconteceu? — Me escutei perguntado ao me abaixar para vasculhar se tinha sobrado algo dos meus livros acadêmicos. — Você ouviu alguma coisa? Viu alguém fazendo isso?
– Não, sinto muito. Eu estava na aula quando aconteceu, a Narthy teve que voltar mais cedo porque tinha esquecido um livro e ao passar pelo seu quarto viu que a porta estava aberta, ela abriu e encontrou essa bagunça. Ela não te conhece então me mandou uma mensagem, eu vim o mais rápido que eu pude e logo que vi o que fizeram no seu quarto eu apenas corri para te encontrar. — Me conta ela.
– E as câmeras de segurança? — Eu volto a perguntar.
– Estão desligadas, todas elas foram desligadas. Quem quer que fez isso não queria ser identificado. Eu perguntei se outras meninas tiveram os seus dormitórios arrombados, mas parece que foi somente o seu. — Termina de dizer.
– Eu sei quem fez isso. Eu sei. — Digo ai sair do quarto e correr para o lado de fora de prédio.
Ignoro todas as pessoas a minha volta e vou em direção a pessoa que me fez tanto mal.
– Olha só, você por aqui novamente. — Diz Glimmer com um sorriso debochado na cara. — Olá Katniss, eu soube que você esta redecorando.
Ela e as amigas começam a rir como hienas.
Eu apenas olho para Glimmer com sangue nos olhos e ataco rapidamente. Minha mão encontra o rosto dela com uma precisão impressionante, eu acho que ela nunca esperou que eu a atacasse. Para minha alegria o tapa é tão forte que a faz cambalear alguns passos para trás. Imediatamente sinta a palma da minha mão queimar.
Um pequena multidão de pessoas esta em nossa volta, mas eu não posso ouvir o que eles estão dizendo, não entendo uma palavra sequer do que esta sendo dito. Tudo o que sei é que eu quero cometer um assassinato. Quando eu tomo impulso para voar nos cabelos bem arrumados de Glimmer, eu sou bruscamente puxada para trás, por braços fortes.
– Vagabunda. — Eu grito. — Por que você fez isso, Glimmer? Você sabe que eu sou bolsista que não vou conseguir repor os meus livros...você é uma desgraçada...Me solta que eu vou matá-la.
– Sinto muito, docinho. Não posso permitir que você faça isso. — Escutei Haymitch dizer próximo ao meu ouvido. — Agora fique quieta, e pare de tentar se soltar.
–Haymitch. — Eu digo surpresa ao me virar e encará-lo. — Oh, Haymitch. Destruíram tudo. Essa vadia arrombou o meu apartamento e destruiu tudo o que eu tinha.
– Você vai me pagar por isso, Katniss Everdeen. — Ouço Glimmer me dizer, uma de suas mãos esta em seu rosto tapando o lado onde a minha mão atingiu. Os olhos dela queimam nos meus, e um sorriso malvado estampa a sua boca. — Você não tem como provar que fui eu, e eu garanto para você. Sua puta, vadia pobre, que eu vou garantir que você seja expulsa daqui. Você vai me pagar por esse tapa, e por roubar o meu namorado.
– Peeta? — Eu grito ao tentar me soltar dos braços de Haymitch para me lançar em Glimmer, meu cérebro queima de ódio nesse momento. — Se você quer mesmo saber, eu e Peeta transamos muito, em todos os momentos temos juntos, ele terminou com você para ficar comigo, e agora ele é meu. Engula essa realidade Glimmer e pare de me perseguir. Eu só estou revidando porque você me atacou primeiro.
– Sua cadela maldita, isso é o que nós vamos ver. — Ela me diz e depois virá as costas e anda para longe do dormitório feminino.
Haymitch precisa me sacudir algumas vezes, para que a raiva que sinto abaixe o suficiente para que eu possa me acalmar e pensar racionalmente novamente.
– Katniss, esta melhor agora? Não vai sair por ai atacando ninguém? — Ele me pergunta com os olhos brilhando de raiva. — A proposito a parte em que você gritou que estava transando mesmo com o namorado dela foi muito boa, mas bater nela não foi muito inteligente, não com uma multidão de alunos assistindo.
– Haymitch, ela destruiu tudo, não sobrou nada, não sobrou...- Eu congelo no lugar imediatamente ao lembrar de algo que não podia, de modo algum ser destruído. — Não, não pode ser...eu tenho que ir, me largue...
Ele me solta, provavelmente preocupado com o meu estado emocional, ou com a próxima loucura que eu sou capaz de realizar. Bater em Glimme foi um erro? Não para mim, eu só queria ter batido mais forte, já que apenas consegui dar um golpe nela.
Aquela cadela rica, nunca vai saber o tanto que eu lutei para comprar o meu material escolar, para comprar os livros mais importantes que foram exigidos pelos professores. É obvio que eu não comprei todos, não tinha tanto dinheiro assim, então constantemente eu utilizava os livros da biblioteca.
Volto a me encaminhar para dentro do dormitório estudantil e corro para o meu quarto, alguns curiosos continuam perto, essas pessoas parecem abutres em busca de carniça. Odeio tanto esse povo da Capital agora, apenas quero que todos me deixem em paz para chorar o meu ódio por Glimmer.
Eu entro em meu quarto como um furação, não me incomodo de pisar em nada, já que tudo esta no chão. Apenas vou até o meu guarda-roupas que estava com suas duas portas abertas, enquanto tudo o que tinha dentro estava no chão, e eu com muito força consigo arrastá-lo da parede. Por ser uma monstruosidade antiga, a madeira é pesada o que impossibilitou a pessoa que destruiu o meu quarto de derrubá-lo no chão.
Atrás do guarda-roupa, eu uma bolsa de couro velho firme, está escondido o tesouro mais precioso que eu tenho. O arco que meu pai me deu.
A bonita arma sempre pertenceu a ele, acho que foi ele que fez quando era jovem. Graças a tudo o que é bom que a pessoa maligna que destruiu muitas das minhas coisas, porque eu ainda tenho que verificar se vou poder salvar alguma coisa dessa bagunça, não encontrou o meu tesouro mais precioso.
Esse arco tem um valor sentimental muito forte para mim. Eu ficaria devastada se ele fosse destruído.
Eu volto a ajoelhar no chão e como uma maluca eu apenas abraço a bolsa de couro onde o arco descansa. Estou tão aliviada, tão feliz que não aconteceu nada de mais com ele, que eu quase posso chorar de alegria.
De repente, sem motivo algum eu lembro de um ditado do meu pai, que eu o ouvia falar quando eu era criança, que coisas ruins sempre vem acompanhadas por três. E de certa forma eu passei a acreditar nisso.
Primeiro o meu pai morreu, alguns anos depois Prim e Rue também morreram, e um ano depois a minha mãe me abandonou sozinha em nossa casa velha e fria na costura. Três males, três coisas ruins interligadas.
Não gosto disso, não gosto de pensar nisso, mas a sensação que eu tenho no fundo da minha alma é que outras duas coisas ruins estão me espreitando nesse exato momento, apenas esperando o momento certo para explodir na minha cabeça.
– Ual, que bagunça. — Ouço a voz de Haymitch atrás de mim ao adentrar o quarto. Eu me levanto e me viro para encará-lo. Meu arco ainda esta bem guardado em meus braços. — Tem certeza que vandalizaram esse lugar, você é meia bagunceira, sabe disso não é?
Eu apenas fico encarando-o muito seriamente. Não consigo achar graça de nada nesse momento.
– Desculpe, foi uma brincadeira idiota. — Ele me diz ao me encarar serio. Se eu não estivesse tão em choque pela destruição do meu quarto, eu com certeza ficaria surpresa por ele pedir desculpas. -Então, o que devemos fazer primeiro. Não me diga que vai chorar, por favor grite comigo, mas não chore, eu não sei o que fazer com as lágrimas de uma mulher.
– Eu não vou chorar. — Digo e essa é a verdade, estou com os meus olhos secos de raiva, sou incapaz de chorar por qualquer coisa nesse momento. — Eu apenas quero justiça pelo o que me fizeram, quero que Glimmer pague por isso.
– Ok, eu entendo. Você tem certeza que foi a loirinha que fez isso? — Pergunta ele ao olhar em volta.
– Sim! — Afirmo cheia de certeza. — Ela me ameaçou mais cedo, disse que faria qualquer coisa para me tirar do campus.
– E você, com sua genialidade deu um tapa nela na frente de algumas dezenas de fofoqueiros. — Diz ele com um olhar reprovador. — Sinceramente Katniss, você não pensa no que faz?
– Ela vem me perseguindo à dias, Haymitch. Esta fazendo da minha vida aqui na Universidade um inferno enorme, eu não tenho como andar nos corredores sem uma duzia de desconhecidos me chamarem de vagabunda ou puta, e ela até pediu que alguns rapazes me abordassem para me perguntar quanto eu cobro para dormir com eles. Eu até mesmo já fiz duas reclamações sobre isso, mas nada esta sendo feito, e agora olha o que ela fez no meu quarto. — Eu confesso tudo muito rapidamente, não sei se ele estava ciente disso, porém não consigo mais segurar tudo isso dentro de mim. Não sem Peeta ao meu lado para me ajudar. — Como é que eu vou repor o meus livros, e o meu material escolar? Minhas roupas pessoais e roupas de cama? Eu sou bolsista Haymitch, o único dinheiro que eu recebo vem das horas em que eu trabalho como garçonete na lanchonete aqui do campus, mas ainda assim não é o suficiente para repor tudo isso...eu, eu...
– Katniss. — Haymitch me interrompe ao dar dois passos em minha direção e pegar em meus ombros me forçando a encará-lo. — Calma, me deixe falar.
Quando eu paro para ouvi-lo ele me olha cheio de determinação.
– Eu vou te ajudar, ok? Eu sou o seu mentor. Vou comprar o seu material escolar e os livros desse semestre, depois nós vemos o que foi destruído para que eu possa repor. — Fala Haymitch ao me encarar. Eu mal posso acreditar que ele vai fazer tudo isso por mim.
– Desculpe, Haymitch. — Digo ao abraçar o arco do meu pai mais apertadamente. — Eu fico agradecida, mas não posso aceitar. Você vai gastar muito dinheiro com isso. Não posso aceitar...
– Fique quieta, queridinha. Pare de falar besteiras antes que eu me irrite profundamente. Você vai aceitar porque eu estou dizendo que vai. — Diz ele com os olhos cheios de determinação e raiva. — Em nenhum momento eu perguntei se você queria isso, eu estou falando que vai acontecer e pronto.
Eu não sei o que dizer, é difícil ceder a isso. Principalmente quando eu não estou acostumada a ter pessoas cuidando de mim, e se preocupando com o meu bem estar.
– Obrigada. — Consigo dizer, depois de algum tempo. Sinto o meu rosto esquentar de vergonha.
– Não precisa me agradecer, apenas venha aqui e me deixe te abraçar um pouco. — Ele não espera que eu me aproxime e vem ao meu encontro de qualquer forma.
Sinto os braços dele em volta do meu corpo, e o calor que ele desprende ao me abraçar apertado. Haymitch descansa o queixo no topo da minha cabeça. O contado é muito forte para mim. E eu sinto vontade de chorar, à tanto tempo que eu não sou abraçada desse modo. Peeta costuma de abraçar o tempo todo, e eu me sinto segura em seus braços, isso porque eu o amo.
Agora Haymitch me abraça da forma que um pai deve abraçar a sua filha, e eu sinto isso. O abraço dele é muito diferente do abraço do meu pai, mas a sensação é muito parecida. O que me desconcerta, e enche o meu coração de dor. Entretanto, eu seguro todas as lágrimas dentro de mim. Não me permito chorar.
Glimmer não vai ver eu derramar uma lágrima por me torturar. Sou mais forte do que isso.
Haymitch me solta depois de alguns minutos e me olha com seus olhos cheios de calor.
– Você não precisa se preocupar, Katniss. Eu estou aqui para te ajudar, sou seu mentor, nunca esqueça disso. Eu vou pedir apenas que você tenha cautela de agora em diante, eu não acho que a loira não vá retaliar o tapa que você deu nela. — Ele me diz seriamente. — Talvez eu viaje amanhã, tenho alguns assuntos governamentais para resolver, coisas ridículas como passeatas pelos direitos civis, e segurar alguns crianças remelentas pelo bem da nação. Coisas por eu ser um herói nacional, essa baboseira toda. Por isso eu peço que você me espere, não mate ninguém sem me consultar antes. Eu vou deixar tudo acertada na secretaria da universidade para que você tenha todo o apoio necessário até conseguir arrumar essa bagunça.
Eu apenas aceno a minha cabeça afirmativamente. Ainda estou muito emocionada para falar alguma coisa, tenho medo de abrir minha boca e cair no choro em sua frente.
– Eu tenho que ir agora, para começar a resolver essas coisas. Você vai ficar bem? — Me pergunta ele ainda me encarando. Depois seus olhos dão uma outra olhada atenta a tudo a nossa volta.
– Vou sim. — Surpreendentemente eu acho a minha voz, e consigo me expressar sem desmoronar em uma bolha de lágrimas. — Obrigada Haymitch, isso significa muito para mim. Espero algum dia poder retribuir tudo o que você esta fazendo.
– Você é minha aluna mais brilhante, não precisa me agradecer e nem se preocupar em retribuir nada, também é minha compatriota de Distrito. Apenas não me deixe sozinho nas aulas com os alunos desmiolados da capital e eu vou me sentir recompensado. — Diz ele sorrindo.
Eu até mesmo consigo sorrir um pouco com o seu comentário, tipicamente Haymitch de ser.
Ele passa a mão na minha cabeça mais uma vez, e depois de me lançar um olhar paternal sai do meu quarto bagunçado. Os seus passos ao se afastar fazem barulho por causa dos cacos de vidro no chão.
Eu o vejo sair e depois olho em volta cheia de raiva e cansaço. Vou levar um dia inteiro para limpar essa destruição toda.
E foi isso mesmo o que aconteceu, eu levei um dia todo e muitos sacos de lixo para deixar o meu quarto limpo mais uma vez. A pessoa que tentou destruir tudo o que eu tenho, não fez um grande trabalho em minhas roupas, talvez por não ter mais tempo para fazer a destruição depois de cortar e rasgar todos os meus livros acadêmicos e meus cadernos. Algumas roupas foram cortadas, especificamente a roupa de cama, mas minhas blusas e calças, shorts e vestidos foram salvos das mãos malditas do meu agressor.
Foi uma chateação ter que limpar toda a bagunça do meu quarto. Eu consegui a proeza e não derramar uma lágrima sequer. Apenas fiquei sentindo a raiva em meu peito apertar e apertar, de tempos em tempos eu ficava com tanto ódio que eu só queria ter Glimmer novamente em minha frente.
Eu dormi muito pouco nessa noite, e evitei sair do quarto o máximo possível, detesto ser o centro da fofoca alheia. Annie me ligou no final da noite, ela e Finnick queriam vir me ver por causa do que aconteceu, mas eu os dispensei da forma mais educada que consegui. Eu não queria ver ninguém, não queria os olhares cheios de pena em cima de mim.
Estava tão cansada emocionalmente na madrugada que quando apaguei eu apenas desliguei completamente, não tive sonho algum. Tudo foi um grande nada negro na minha mente.
Tive que me forçar a ir assistir as aulas da manhã, ainda bem que não deixei a mochila no quarto, então eu ainda possuía um caderno bom para escrever e algumas canetas. Consegui assistir as aulas, evitando de proposito os olhares e cochichos dos alunos próximos. Me sentia um animal preso em um zoológico. A coisa esquisita que todos queriam olhar e comentar.
Ainda bem que nenhum homem veio me abordar para sexo eu ele correria um risco serio de ter as suas bolas arrancadas. Não vi Glimmer em lugar nenhum durante todo o dia. Mas a sensação de que havia alguma coisa errada acontecendo não deixou o meu peito em nenhum momento.
Depois do almoço eu fui para o meu treino de arco e flecha e passei as duas horas mais deliciosas da última semana. Durante o treino eu senti a minha mente esvaziar completamente dos problemas exteriores. E forcei a minha concentração a ficar apenas no presente momento, no arco que eu estava usando, na fecha que estava seguramente apontada entre os meus dedos, e no alvo moveu que estava em minha frente.
Em seguida veio as aulas da tarde, o que significava que eu voltaria para o inferno estudantil.
Eu estava entrando para assistir uma das minhas aulas mais importantes quando fui abordada por uma segurança do campus.
– Sra. Everdeen? — Perguntou ela seriamente.
– Sim. — Respondi ao encará-la.
– Você precisa me acompanhar imediatamente. — Disse ela ao me apontar um caminha para seguir.
– Eu vou ter aula agora, não posso passar na secretaria depois, seja lá o que for pode esperar, não? — Perguntei confusa.
– Não. não pode esperar. Sinto muito, mas você tem que vir comigo. — Ela insistiu mais seriamente, e não gostei do seu tom de voz. Havia algo lá, alguma coisa muito ruim. E eu me lembrei.
Que os males vem em três.
Silenciosamente eu a segui pelo campus, algumas pessoas começaram a cochichar assim que nós passávamos por elas, eu apenas os ignorei. Talvez, Haymitch tenha dado parte do arrombamento no meu quarto e eu precisava depor na segurança do campus. Essa era um bom chute em meio a muitas possibilidades.
Não demoramos muito a chegar na segurança do campus, e logo eu soube que não era nada relacionado ao meu quarto e a destruição feita por algum filho da puta. A coisa era muito pior, eu só não entendi o que Glimmer estava fazendo sentada em um sofá, junto com uma mulher alta e loira, tão parecida com Glimmer que só poderia ser a sua mãe.
Glimmer estava com olhos cheios de lágrimas e a mulher ao seu lado me olhou cheia de desgosto e ódio.
Um outro guarda e o chefe da segurança do campus me aguardavam silenciosamente. Todos eles me olharam com olhos cheios de desconfiança.
– Aconteceu alguma coisa? — Perguntei ao me manter séria. — Eu não entendo por que eu fui chamada até aqui, eu estou perdendo uma aula importante.
– Sra. Everdeen. — Disse o homem que parecia o chefe da segurança, um senhor pançudo e de bigode azul forte. Esses nascidos da Capital podem ser bem ridículos quando querem. — Você pode me acompanhar?
Eu aceno afirmativamente e o acompanho para dentro de uma sala grande, onde parecia ser o seu escritório. Fiquei surpresa ao encontrar o reitor da universidade sentado confortavelmente em uma poltrona verde escura. Ele não se levantou ao me encarar, apenas fez uma careta de desgosto. Aquele tipo de careta que você faz quando percebe que pisou em algo desagradável.
– Sra. Everdeen, por gentileza queira se sentar, temos alguns assuntos importantes para esclarecer com você. — O reitor me disse, ao apontar uma cadeira de frente a sua poltrona.
Eu me sentei, mas por mais que a cadeira tivesse um bom estofamento, eu ainda me senti incrivelmente desconfortável. Meus olhos atentos iam do reitor para o chefe da segurança.
– Nós ficamos sabendo que a senhorita agrediu a sua colega de faculdade ontem a tarde. Isso é verdade? — Perguntou o reitor, ele segurava uma pasta marrom fina em suas mãos, eu a olhava apreensiva. O que será que tinha lá dentro?
– Sim, eu dei um tapa em Glimmer, ela invadiu ou pediu que alguém invadisse o meu quarto no dormitório feminino e destruiu todas os meus pertences. — Eu respondo ao voltar a encará-lo. Então era por isso que Glimmer estava aqui?
– Sra. Everdeen, você esta ciente que pelas normas da Universidade qualquer tipo de agressão é proibida? — Voltou a perguntar o reitor, com olhos afiados.
– Sim. Eu tenho senhor, mas eu me descontrolei ao saber que ela tinha destruída tudo o que eu tinha, ela rasgou minhas roupas, destruiu todos os meus livros acadêmicos e revirou o meu quarto do teto ao chão. — Eu respondi tentando conter a minha frustração.
– A senhorita tem alguma forma de provar que foi a menina Glimmer que fez isso? — O reitor continuou com o seu questionamento.
– Não. As câmeras do meu corredor foram desligadas ontem a tarde, na hora do ataque, ninguém viu quem entrou no meu quarto. Mas, a Glimmer tinha me ameaçado no mesmo dia, disse que faria de tudo para eu ser expulsa do universidade...
– Se você não tem provas que foi a menina Glimmer, como pode ter tanta certeza que foi ela? Ao meu ver isso tudo não passa de...
– Eu estou dizendo que ela me ameaçou no mesmo dia, alguns instantes antes de eu descobrir da invasão ao meu quarto, e eu até fiz uma queixa alguns dias atrás aqui na segurança de que a Glimmer estava me perseguindo aqui no campus, isso não conta para nada? — Pergunto começando a me irritar profundamente com esse reitor.
O chefe de segurança aqui do campus apenas me olhava com uma expressão seria no rosto.
– Isso é irrelevante quando você ataca uma aluna sem defesa. — Começa a dizer o reitor, mas eu logo volto a cortá-lo.
– Aluna sem defesa? Você esta falando de Glimmer? — Pergunto irritada e descrente. — Você não pode estar falando sério, como assim a minha queixa contra a perseguição dela é irrelevante?
– Acontece Sra. Everdeen, que a menina Glimmer trouxe até nós duas queixas hoje contra a senhorita. A primeira é a de agressão e a segunda é a de roubo de uma joia dela. — Disse o reitor, seu rosto não transmitia nada a não ser irritação por estar ali.
– Roubo? — Eu pergunto rapidamente, minhas mãos se fecham em punhos e meu coração dispara no peito. — Eu nunca roubei nada em minha vida. Ela esta mentindo.
– Bom, a senhorita nos permitiria dar uma olhada em sua mochila? — Perguntou o chefe da segurança, se manifestando.
– Claro que sim. — Digo indignada, ao me levantar e entregar a minha mochila velha para ele.
Eu o vejo abrir o zíper principal da mochila e lentamente começar a vasculhar os meus pertences. Sei que não tenho nada que temer, eu nunca encostei em nada que pertencesse a piranha da Glimmer. Dessa vez ela não vai se dar bem.
Após alguns momentos o reitor tira de um bolso lateral do mochila uma pequena pulseira brilhante.
Meus olhos se arregalam pela surpresa e por alguns instantes eu não consigo dizer nada sobre isso, apenas fico olhando a pulseira que antes não estava na minha bolsa. Como aquilo foi parar lá? Quem colocou dentro do bolso?
– Eu não fiz isso...- Me ouço dizer atônita.
– Aqui está a pulseira desaparecida. Você tem algo a dizer senhorita? Tem como explicar isso? — Perguntou o reitor me olhando selvagemente.
– Eu não fiz isso, não sei como isso foi parar na minha bolsa. Mas, eu não roubei nada, não sou ladra. — Tento explicar. — Glimmer fez isso, ela deve ter dado algum jeito de colocar isso na minha bolsa mais cedo, quando eu estava treinando na quadra de arco e flecha. Vocês tem que acreditar, eu juro que não fiz isso.
– Sra. Everdeen, você agrediu a menina Glimmer ontem e roubou a pulseira dela. — O reitor me disse, sua voz parecia querer me convencer de que eu tinha feito essas coisas. — Esses comportamentos são completamente inaceitáveis para a nossa universidade.
– Eu não fiz isso. — Repito irritada e temerosa. — Por que você não pode acreditar em mim, puxe as imagens das câmeras a entrada do vestiário na quadra de arco e flecha, alguém deve ter entrado lá quando eu estava sozinha fazendo o meu treinamento. Eu juro que não roubei esse pulseira. Sim, eu dei um tapa em Glimmer, mas foi apenas porque ela me irritou muito ao invadir o meu quarto e destruir minhas coisas.
– Nós não temos tempo para perder com trivialidades, a pulseira foi encontrada dentro da sua mochila. — Disse o reitor abrindo a pasta em suas mãos.
– Não tem tempo para perder com trivialidades, ou não quer encarar a verdade que eu não fiz isso? — Pergunto mais irritada do que nunca, ele esta fazendo isso apenas porque eu sou bolsista. Mas, isso não vai ficar assim. Eu não estou sozinha nessa. — Onde esta o meu mentor Haymitch? Ele tinha que estar aqui, ele sabe da verdade, sabe que eu não sou ladra. E ele viu a Glimmer me ameaçar ontem...
– O professor Haymitch, esta em uma viajem patrocinada pelo governo, ele tem assuntos importantes a tratar fora da Capital, não pode estar presente para resolver esse assunto. Mas, assim que ele voltar vai ficar sabendo o que a aluna dele fez contra um membro importante da nossa comunidade. — Disse o Reitor me entregando alguns papeis.
Eu os olhei, porém estava com tanta raiva que mal consegui ler uma palavra que estava escrita.
– Como você poderá observar, esses são os seus papeis de dispensa da Universidade, a partir de hoje você não é mais uma aluna nossa. Esta sendo expulsa por agressão e roubo. — O reitor me disse com voz de sono.
– Vocês não podem fazer isso. Não podem me expulsar sem provas, eu estou dizendo que não fiz isso, puxem as imagens das câmeras, me deem pelo menos isso para me defender. Eu sei que sou bolsista, que não pago pelas mensalidades exigidas aqui. Mas, eu não sou ladra. Glimmer esta se vingando de mim porque o ex-namorado dela esta saindo comigo. — Começo a implorar, eu seguro os papeis em minhas mãos e eles tremem sem parar. — Chamem Haymitch, ele vai me ajudar, ele disse que iria me ajudar. Por favor, me deem uma semana para que eu posso me defender dessas acusações. Todo o meu futuro depende de me formar, de estar aqui, era o grande sonho do meu pai.
– Você deveria ter pensado nisso antes de ter comportamentos tão desrespeitosos dentro do campus. Entretanto, não podemos esperar o prazo que você quer, na verdade, você tem que entregar o seu quarto ainda hoje. — Disse o reitor sem se comover nenhum pouco. — Um guarda do centro universitário irá segui-la até os seus aposentos e vai esperar até que você retire todos os seus pertences de lá. A senhorita deverá entregar a chave do seu dormitório para o guarda, e depois deixar o campus o mais rápido possível. Tenho que lembrá-la de que nossos oficiais podem chamar as autoridades se a pegarem vagando por aqui.
– Mas, isso é injusto, vocês não vão nem me permitir uma defesa? — Pergunto, minha voz esta um pouco estrangulada em minha garganta. — Haymitch não esta sabendo isso, eu sei que não está...
– Nosso assunto esta encerrado, por favor não volte a Universidade da Capital. — Depois disso ele apenas acenou para o chefe da segurança, que se levantou e depois de dar um volta em sua escrivaninha de madeira, foi até a porta do escritório e a abriu. — Por gentileza, queira se retirar.
Eu me levantei em estado de choque, sentia os meus membros dormentes. Quando eu cheguei a porta do escritório, o chefe da segurança me entregou a minha mochila surrada. Eu mal notei que a segurava até que eu estava do lado de fora do escritório. Glimmer e a mulher loira ainda estavam ali.
Só que Glimmer não estava mais chorosa como antes, um pequeno sorriso estampava os seus lábios. Ela e a mãe se levantaram e se dirigiram para dentro do escritório. Não me disseram nada em nenhum momento.
Eu estava tão em choque que a única coisa que conseguia fazer era ficar parada as observando entrar no aposento. A porta estava quase se fechando quando eu ouvi um pequeno trecho da conversa que eles iniciavam.
– Enfim a justiça foi feita. — Ouvi a voz de reitor dizer. — Agora nós podemos tratar da reforma na biblioteca do campus que seu marido, como benfeitor, vai pagar...
Não pude ouvir mais nada depois disso. Um guarda jovem se aproximou de onde eu estava.
– Por gentileza, senhorita. Eu tenho que acompanhá-la até o seu dormitório e me certificar que você o deixe em duas horas. Você tem que vir comigo agora mesmo. — Falou ele, ao puxar o meu braço e me fazer segui-lo. Assim que eu pude voltar um pouco para a realidade, eu puxei o meu braço de seu agarre.
– Não toque em mim. — Rosnei para ele. Os males sempre vem em três, esse era o segundo da minha semana. Eu não sabia qual era o terceiro, mas eu não estava preparada para enfrentá-lo.
Então era isso. O pai de Glimmer iria pagar a reforma da biblioteca do campus, e em troca eu seria expulsa, conforme a vontade de sua filha mimada? Essa era toda a justiça que eu iria ganhar?
Todavia, as coisas não acabariam dessa forma, eu iria lutar pela minha vaga aqui. Eu tenho certeza que Haymitch não sabia que eles pretendiam me expulsar, ou não teria partido em sua viagem. Não depois de me prometer que iria me ajudar a recuperar tudo o que Glimmer tinha destruído.
Eu iria retirar as minhas coisas do dormitório estudantil e iria levar tudo para o apartamento de Peeta. Quando ele voltasse de viagem nós resolveríamos tudo isso. Não vou aceitar ser expulsa por uma acusação falsa de Glimmer.
As próximas duas horas, foram um inferno na minha vida, eu tive que fazer as minhas malas com tudo o que eu tinha no mundo, dei uma atenção especial a bolsa de couro que continha o meu arco, e depois que tudo estava pronto, eu tranquei o quarto vazio e entreguei a chave da porta para o guarda que me seguia como um urubu.
Quando nos estávamos do lado de fora, ele partiu com um lembrete para que eu não ficasse andando pelo campus, ou a universidade chamaria as policiais da capital. Depois que eu estava sozinha, carregando uma mochila grande e pesada, uma mala de alças também cheia e a bolsa com o arco do meu pai, eu fui abordada por uma senhora muito bem arrumada.
O seu cabelo castanho claro, estava muito bem partido em duas partes perfeitas, nenhum fio de cabelo estava fora de lugar, e suas roupas eram muito finas, muito caras. Ele usava um colar bonito de ouro que combinava perfeitamente com seu anel e seu relógio cheio de brilhantes.
– Sra. Everdeen? — Me perguntou ao se aproximar de onde eu estava.
– Sim, sou eu. — Disse o mais educada possível, eu estava com sérios problemas para manter a minha raiva de toda aquela situação contida dentro do meu peito.
– Olá, senhorita. Eu sou a mãe de Peeta. — Ela me disse ao sorrir calorosamente.
– Oh! — Exclamei surpresa ao encará-la mais atentamente. Essa senhora era a mãe de Peeta? Meu coração voltou a disparar dentro do peito. — É um prazer conhecê-la, senhora Mellark.
– Será que podemos conversar durante alguns instantes? — Ela me perguntou ao sorrir.
– Claro que sim. — Disse nervosamente. — Onde a senhora gostaria de fazer isso? Eu te convidaria para entrar em meu dormitória, mas como você pode ver eu estou deixando o Campus. A senhora tem noticias de Peeta? Eu preciso tanto falar com ele.
– Sim, eu tenho falado com ele, ele é meu filho mais querido sabe. — Ela me disse e é obvio que ela tem falado com ele, me sinto idiota por ter perguntado algo tão obvio. — Ele não consegue ligar muito para cá, as linhas telefônicas do distrito cinco estão dando problemas, mas ele me passou uma mensagem para ser entregue a você o quanto antes. Eu sugiro que nós duas conversemos em um parque bonito que tem aqui na frente. O que acha?
– Claro. — Eu respondo nervosa, não estou acreditando que estou conversando com a mãe de Peeta, ela é uma senhora muito bonita. E é difícil acreditar que ela é a minha sogra. Já que Peeta e eu estamos juntos. Eu apenas gostaria de tê-la conhecido em um melhor momento, não toda desgrenhada e carregando um monte de malas.
Nós duas não demoramos muito a sair do campus e atravessar a grande avenida em direção ao parque, fazemos o nosso trajeto em completo silêncio, eu estou tão ansiosa sobre receber qualquer noticia de Peeta que me sinto suar de ansiedade.
Assim que encontramos um banco vazio, nós duas nos sentamos e ela me espera até que eu descarregue as minhas bagagens no chão para me encarar. Seus olhos castanhos são muitos diferentes dos que Peeta. Ela não parece muito com ele, sem dúvida Peeta é uma copia de seu pai.
– O meu filho me mandou essa mensagem ontem, ele implorou que eu a repassasse o mais rápido possível. — Disse ela ao me entregar um pequeno dispositivo de áudio. Algo moderno. — Eu preciso que você ouça a mensagem dele para você.
– Ok, senhora Mellark, muito abrigada por ter vindo até aqui me trazer essa mensagem. Eu não sei se você sabe, mas eu e Peeta estamos nos vendo. — Eu digo para ela com um pequeno sorriso no rosto.
– É claro que eu sei, querida. Peeta é o meu filho predileto, não me esconde nada. — Diz ela ainda sorrindo.
Eu passo o meu dedo sobre a tela sensível do dispositivo e aciono o botão de começar. A mensagem é um pouco chiada no começo, mas logo eu sou banhada na voz de Peeta. Eu estou com tanta saudade dele que quase posso chorar ao ouvir o som de sua voz.
– Eu não sei como te explicar isso, mas você tem que entender. Eu sinto muito, mas eu mudei de ideia muitas vezes, e posso garantir que não vou mais mudar. — A voz dele diz muito seriamente pela dispositivo. — Ficar com você todo esse tempo foi um erro terrível, eu errei e não quero continuar a insistir em algo que não vai dar certo. Você e eu não podemos continuar juntos. Eu não quero você. Meu pai esta certo em dizer que ficar com você não vai me levar a lugar algum, eu quero que você saia da minha vida de uma vez por todas...
Eu sinto o meu corpo enrijecer imediatamente. O que diabos é isso que eu estou ouvindo? Não pode ser verdade. Não pode. Peeta esta terminando comigo.
– ...Glimmer, eu a amo...- Nesse momento acontece um chiado na gravação e eu tenho que prestar atenção para ouvir atentamente. -...Insistir em nós dois foi um erro. Eu sinto muito, me desculpe. Mas, eu não amo você. De uma vez por todas eu vou pedir que você saia da minha vida. Eu quero que você pare de me procurar, pare de vir atrás de mim. Glimmer, é ela que eu amo...
Acontece outro grande chiado na gravação.
– Estou terminando com você de uma vez por todas, saia da minha vida. Eu não estava te usando, mas eu estou muito convicto da minha decisão... — Aconteceu outro chiado na gravação, esse menor que os anteriores. — ...Katniss, você tem que me deixar...
Outro chiado na gravação.
– Eu estou em viagem agora e quando eu voltar para a Capital eu espero nunca mais te ver. Adeus e tenha uma boa vida. — A gravação é terminada logo em seguida.
Saber que eu tinha sido expulsa me deixou em choque.
Saber que Peeta estava me deixando, estava acabando comigo. Sem pedir permissão, eu apenas coloquei a gravação para tocar mais uma vez. Isso parecia um pesadelo, um pesadelo horrível.
Depois de ouvir a gravação por uma terceira vez, a mãe de Peeta me tocou no ombro. Ela não estava mais sorrindo como antes, apenas me olhava com pena nos olhos.
– Os chiados que você pode escutar são dos telefones com problemas. Eu sinto muito, querida. — Ela me diz com uma voz suave.
– Ele disse que ficaríamos juntos, ele me disse que enfrentaria tudo comigo. — Eu me escuto sussurrar.
– Os homens são assim mesmo, são criaturas inconstantes. — Ela me diz ao passar uma das mãos pelos meus cabelos. — Ele é meu filho, mas o comportamento dele é reprovável.
– Mas, o que eu vou fazer agora, eu não tenho para onde ir, eu estava indo ficar no apartamento dele, até que eu consiga alugar o meu próprio espaço. — Eu confesso, meu coração esta se rasgando por dentro, mas eu ainda não consigo derramar nenhuma lágrima. Ainda não acredito que isso esta acontecendo. — Quando ele te mandou essa mensagem?
– Ontem a noite. — Ela me responde. — E eu receio que não posso deixar você ficar no apartamento dele, como sua mãe eu tenho que apoiar as decisões do meu filho. Mesmo que elas sejam erradas.
– O que eu vou fazer? Por que ele esta fazendo isso comigo? Eu acabei de ser expulsa da Universidade por me envolver com ele. — Eu confesso para a mãe dele. — Por que ele esta fazendo isso comigo? Eu o amo tanto...
– Querida, quem pode saber dos motivos dele? O que eu sei é que ele não vai voltar para a Capital até o fim do mês. — Ela me disse com um sorriso triste nos rosto. — Você é uma moça muito bonita, tenho certeza que logo vai encontrar outro alguém. Que dessa vez vai saber apreciá-la como se deve.
– Senhora Mellark, tem certeza que eu não posso falar com ele? De repente se você me passar o número do telefone eu vou poder ligar e acertar toda essa bagunça...
– Você quer mesmo falar com ele depois disso? — Pergunta ela incrédula.
O que me faz parar e pensar, eu quero mesmo falar com ele depois de ele me mandar uma mensagem dizendo que ama Glimmer e que eu devo me afastar o mais rápido possível? Não, eu não quero me arrastar para ele, como um verme. E ela é a mãe dele, não mentiria para mim sobre isso.
– A senhora tem razão, eu quero nunca mais falar com ele. — Digo, eu prometi para mim mesma que não deixaria Peeta me pisar nunca mais. Não foi ele que estava beijando Glimmer alguns dias atrás? Me deu uma desculpa idiota sobre um último beijo, mas eu deveria saber que ele não mudaria, que só queria me foder mais uma vez. — Mas, o que eu vou fazer agora?
– Você tem que sair da Capital, querida. — Ela me diz com uma voz séria. — Ir para bem longe de tudo isso, começar de novo onde ninguém a reconheça. Eu faria isso se estivesse na sua pele.
Eu ainda tenho algumas economias no banco, eu não preciso de Peeta. Não preciso dele para nada em minha vida. Ele que vá para o inferno. Já que fez a sua escolha de se afastar de mim.
– É isso que vou fazer. — Digo ao me levantar do banco e entregar o dispositivo de áudio de novo para as mãos da mãe dele. — Senhora Mellark, foi um prazer conhecê-la, mesmo que a situação não tenha sido agradável, eu agradeço o seu tempo de vir me procurar e me entregar a mensagem de Peeta.
– Você precisa de alguma coisa? Talvez dinheiro para a passagem de trem? Ou talvez, um pouco mais para alugar um quarto por alguns dias em outro distrito? — Pergunta ela também se levantando.
– Não. — Respondo o mais educada possível. — Eu não preciso de nada. Acho que vou indo agora, tenho que ir para o terminal de trem o mais rápido possível.
– Eu vou levar você até lá. É o minimo que que posso fazer. — Fala ela ao começar a andar. — Venha, meu motorista esta logo ali na frente.
– Não. — Eu disse negando. — Eu vou fazer isso sozinha. Agradeço, mas não é necessário.
Eu não sei como eu consegui controlar o meu choro até fazer a ligação para o Distrito Dois, estava gastando um dinheiro que eu não tinha, mas agora que eu não estava mais na presença da mãe de Peeta, e que minha passagem para o Distrito Sete já estava comprada, eu precisava falar com ele, precisava ou morreria. Eu tinha que desabar com alguém que eu amava. Ou o veneno do desespero poderia acabar comigo. Antes que a senhora bem arrumada fosse embora, eu entreguei a chave do apartamento de Peeta em suas mãos. Não disse o endereço do lugar, ela já deveria saber de qualquer jeito.
Para a minha vergonha eu comecei a chorar depois que o Bilhete do Distrito Sete estava seguro em minhas mãos, muitas pessoas me olhavam curiosas. Entretanto, eu não conseguia parar de chorar, alguma coisa dentro de mim estava morrendo naquele momento.
Gale atendeu o telefone no terceiro toque.
– Hawthorne. — Disse ele seriamente. Eu liguei para o número que ele me deu à muitos meses atrás, quando enfim conseguiu uma promoção e ganhou uma mesa no departamento de policia que trabalhava.
– Gale? — Eu volto a soluçar histericamente. Somente ouvir a voz do meu amigo mais amado poderia me ajudar nesse momento. — Sou eu, Katniss.
– Katniss? Aconteceu alguma coisa? Você esta chorando. — Ouço a voz dele perguntar do outro lada da linha e até posso notar a preocupação crescendo em seu timbre.
– Oh, Gale. — Eu volto a soluçar. — Tudo deu errado, eu fui expulsa da Universidade, uma garota inventou uma história dizendo que eu tinha roubado uma pulseira dela, e o reitor me expulsou hoje de tarde.
– Como assim ele te expulsou? — Escuto a voz dele indignada pelo outro lado da linha.
– Ele não me deixou apresentar nenhuma prova de que eu era inocente, apenas me expulsou se me mandou sair do centro universitário o mais rápido possível...Eu não sei o que fazer, não sei para onde ir...eu...eu...- Sou tomada por outro ataque de lágrimas.
– Isso é preconceito, Katniss. Não é porque você é bolsista que não tenha direito nenhum. Onde está o seu mentor? — Gale me perguntou indignado.
– Eles aproveitaram que Haymitch esta viajando para me expulsar. — Eu respondo quando posso me controlar mais uma vez.
– E aquele cara, o Mellark? — Perguntou Gale irritado.
– Ele me deixou Gale, nem teve a coragem de me dizer pessoalmente, mandou uma mensagem pela mãe dele me dispensando. — Digo ao sentir o meu coração queimar de tanta dor. Peeta me deixou, eu mal posso suportar essa realidade. — A universidade era o sonho do meu pai, Gale. Você sabe o que ela significava para mim.
Volto a chorar compulsivamente. Gale tem que esperar alguns minutos para que eu me acalme o suficiente para prestar atenção no que ele esta dizendo.
– Escute Katniss. — Ele começa, sua voz é muito fria pelo telefone, eu até posso vê-lo espumando de raiva pelo outro lado da linha. — Eu disse para você que esse garoto era problema, naquele dia na praia eu disse que ele iria fazer você sofrer. Mas, não se preocupe, eu vou matar o desgraçado...
– Não Gale, por favor, não o machuque. Eu o amo tanto, e ele não me ama. Apenas tenho que aprender a aceitar isso. Mas, não o machuque. — Eu peço. Não posso imaginar Peeta machucado. Me deixa doente imaginar isso.
– Você vai alugar um quarto ai na Capital, eu estou indo imediatamente até a estação de trem e vou te buscar ai, você vai ficar comigo algum tempo aqui no dois, meu apartamento é pequeno, mas vai dar certo para nós dois...
– Mas, e Madge? — Pergunto confusa, eu sei que estou fazendo tudo errado. Tenho o dom de estragar a vida das pessoas ao meu redor. — Você não pode fazer isso Gale, eu agradeço. Você é meu melhor amigo e eu sinto tanto a sua falta, porém não posso aceitar isso. Eu tenho dinheiro guardado, vou me reerguer em algum lugar.
– Não, Katniss. — Ele me responde bravo. — Não vou deixar você sozinha, depois de tudo isso. Eu quero estar com você. Madge vai entender.
– Não, ela não vai. E eu sei que vocês estão noivos agora. — Eu digo tentando controlar os meus soluços. — Não posso fazer isso com você, não posso. Eu vou ficar bem eu juro que vou, você me conhece. Eu sou forte, sou muito corajosa. Eu apenas queria ouvir a sua voz mais uma vez, desculpe se eu liguei e te preocupei. Eu vou ficar bem eu juro, tenho que desligar agora, os meus créditos estão acabando. Eu entro em contato em breve. Adeus.
– Katniss, espere....espere. — Ouço-o dizer, mas a ligação cai logo em seguida.
Depois que eu desligo a ligação, eu coloco o resto dos meus créditos e ligo para um outro número de telefone. Como é esperado, ninguém atende o telefone na casa de Haymitch, quando a caixa eletrônica sinaliza que eu deve deixar uma mensagem, eu tomo fôlego para me despedir de outra pessoa importante em minha vida.
– Haymitch. — Eu começo, e faço o meu melhor para esconder os meus soluços. — Eu fui expulsa da Universidade, quando você voltar de viagem eu já vou ter partido, mas eu quero que você saiba que eu sou inocente das acusações que me fizeram, eles não deixaram que eu me defendesse, Glimmer ganhou no final.
Tenho que tomar mais fôlego para continuar falando. Já que a emoção é muito grande em meu peito.
– Eu e Peeta terminamos, estou indo embora da Capital. — Continuo a dizer cheia de dor, me despedir de Haymitch é mais difícil do que parece, eu me sinto rasgar por dentro ao me lembrar do abraço que ele me deu ontem. — Não precisa se preocupar, eu vou me cuidar, vou tirar um tempo para pensar no que fazer. Eu gostaria que você soubesse que eu sou muito grata pela oportunidade que você me deu. Eu nunca vou me esquecer disso. Obrigada, obrigada e Adeus.
Eu me afasto do telefone cheia de dor, será possível que eu não consigo fazer nada sem trazer preocupação ou sofrimento para alguém?
Eu me afasto dos aparelhos telefônicos e vou me sentar em um banco mais afastado dos olhares dos curiosos. Tomo todo um cuidado com a minha bagagem e logo eu estou enterrando o meu rosto em minhas mãos. Males sempre acontecem em três, e esse era o terceiro mal.
Todos os meus sonhos mais importantes foram destruídos hoje. Eu apenas quero parar de chorar. Mas, não consigo.
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