Amarras do Passado

33 I Never Told You - Colbie Caillat


Notas iniciais
Olá pessoas, tudo bem? Muito obrigada por todos os comentários, não me canso de dizer o quanto vocês são incríveis. Muita coisa vai acontecer hoje, então eu espero que você desfrutem do capítulo. Como eu disse anteriormente, eu estou postando de madrugada e é possível que os capítulos sejam postados dessa forma de agora em diante. Enfim, enjoy!

Dias atuais

Katniss

"...And now, I miss everything about you
I can't believe that I still want you,
And after all the things we've been through
I miss everything about you, Without you
I see your blue eyes, Everytime I close mine
You make it hard to see
Where I belong to, When I'm not around you
It's like I'm alone with me
But I never told you, What I should have said
No, I never told you, I just held it in..."

***

Peeta.

Olhos azuis brilhantes que me perseguem.

Peeta.

Sorriso que faz o meu estômago gelar.

Peeta.

Braços que me prendem apertado em seu calor.

Peeta Mellark. O que eu faço para esquecer o nome novamente?

O que tenho que fazer para não me lembrar do som de nome dele em meus lábios, ou ecoando em meus pensamentos?

Por mais de quatro anos eu consegui me conter, e nem em sonhos eu dizia o nome. Me machucava muito pensar nele. Não que ainda não me machuque, mas hoje tudo é diferente.

Eu nunca estive tão assustada em toda a minha vida quando eu o encontrei no restaurante, se Annie não estivesse lá eu teria apenas me virado de costas e me afastado o mais rápido possível, mas houve uma pequena confusão com Finnick achando que Darius e ela estavam se encontrando as escondidas, o que é uma grande mentira já que sou eu que estou saindo com ele. Tive que dar a cara a tapa e me mostrar para todos de uma vez.

Foi um grande passo, eu estava tremendo por dentro, por isso coloquei a máscara mais fria que conseguia e me aproximei. Claro que olhar nos olhos azuis de Peeta mais uma vez me desconcertou tanto que eu tive medo de começar a chorar ali mesmo, na frente dele, me envergonhando miseravelmente mais uma vez.

Ele ficou tão petrificado em me ver, aposto que ele não desconfiou nem um pouco que eu estivesse aqui na Capital. Não depois de tanto tempo e mesmo que o Haymitch insista que ele estava enlouquecidamente me procurando, eu não acredito que ele tirou mais de um dia ou dois para pensar em mim.

Peeta Mellark pode fazer isso com uma mulher, ele é do tipo que gosta de jogar e quando cansa do brinquedo ele simplesmente o descarta como se o antigo brinquedo já não valesse muita coisa. Eu sei disso, porque fui seu brinquedo por muito tempo, e ele não pensou duas vezes em me descartar.

Eu nunca vou me esquecer das palavras dele quando me abandonou e me pediu para sair da sua vida. No momento em que eu mais precisei dele, ele facilmente me virou as costas e foi tão covarde que pediu para a mãe dele me dispensar. O canalha não teve coragem de fazer isso cara a cara.

Não que a mãe dele seja coisa boa. Acho que toda a família Mellark tem um pé podre. Todos eles são esnobes, orgulhosos e preconceituosos com pessoas de classe social mais baixa. Eu achei que Peeta e o pai dele eram diferentes, eu quase me enganei com o rosto de boa pessoa que eles mostram.

Esse é um dos motivos por eu não querer a minha menina perto dessa família. Fui tão humilhada pela mãe dele em nossa última conversa pelo telefone, quando eu tentei ligar para Peeta para avisar de Elika, que até tenho medo do que essa velha maldita pode fazer com a minha menina inocente. Ela é um mostro e eu quero toda família Mellark bem distante da minha filha.

Elika vai crescer em um lar cheio de amor, de aceitação. Eu vou batalhar todas as lutas que eu tiver que enfrentar para poder proporcionar a minha menina todas as melhores oportunidades na vida. Ela vai se sentir amada todos os dias, porque ela não tem culpa de família de seu pai não a querer. E ela é o mundo todo para mim.

Agora que eu reencontrei Peeta, eu sei que a mãe dele nunca disse para ele da minha gravidez, e eu me pergunto o por que disso? O que eu fiz de tão errado para essa mulher apenas me odiar tanto, eu nunca a conheci até o dia da minha partida da Capital, ela me ajudou naquele dia. Ou eu pensei que tinha me ajudado. Agora eu sei que ela estava ajudando a Glimmer e a si mesma.

Eu era um problema a ser resolvido, algo que impedia o filho dela de fazer um bom casamento, logo eu deveria ser descartada. Na época eu não senti que ela estava agindo com segundas intenções, eu apenas achei que ela estivesse me ajudando porque o filho dela tinha sido um bastardo comigo.

Aquela maldita ligação, eu nunca vou me esquecer do som da voz dele naquela gravação me pedindo para sumir de sua vida, para eu nunca mais procurá-lo.

Eu perdi muita coisa naquele dia.

E agora que eu sei que Peeta não tem a menor ideia da existência de Elika, eu me pergunto constantemente o que eu tenho que fazer. Talvez, ir embora seja a melhor opção, eu vou estar quebrando o meu contrato com Cinna por alguns poucos meses, mas se for para proteger a minha menina, então eu posso fazer isso.

Para protegê-la eu fiz muitas coisas.

Se Peeta conhecer a sua filha, o que será que vai acontecer? Sinto os meus músculos se enrijecerem de medo. Ele não a maltrataria, eu estou certa disso. Peeta pode ter os seus defeitos, mas não é um bastardo tão sangue frio ao ponto de maltratar uma criança. Principalmente a própria filha. E se ele quiser Elika para ele? E se quiser tirar a minha filha de mim?

Qualquer um que me conheça com algum tipo de intimidade sabe que eu estive correndo para longe da linha da extrema pobreza durante boa parte da minha vida. Quando Cinna me empregou ele me ajudou de um modo que eu nunca vou poder ser grata o suficiente. Ter que me agarrar a toda moeda como uma tabua da salvação é uma situação que somente aqueles pouco afortunados vão saber descrever. Passar as noites em claro desesperada porque eu não tinha mais dinheiro para comprar comida para Elika e para mim, é algo que somente uma mãe vai saber entender. Quantas vezes eu deixei de comer para que minha filha pudesse ter o seu jantar? Eu nem ao menos posso fazer essa conta, já que foram muitas vezes.

Johanna sempre foi desesperada para me ajudar financeiramente, principalmente por ser a madrinha de Elika. Porém, ela mesma tem tão pouco da vida, que eu sempre achei injusto ter que pedir algo para ela.

Peeta tem o dinheiro necessário para manter Elika com tudo de bom e do melhor na vida, sem nem suar muito para isso. E se ele quiser tirar ela de mim? Alegando que pode cuidar dela e eu não.

Eu fecho os meus olhos e praticamente posso ouvir a sua voz grossa em meu ouvido.

– Eu amo você, Katniss Everdeen. Eu errei muito no passado, eu não te disse isso em nenhum momento, mesmo amando você por toda uma vida.– Me disse ele ontem naquele maldito beco depois de me dar a maior e melhor beijo de toda a minha vida.

Ainda de olhos fechados eu posso puxar uma lembrança antiga da mãe de Peeta, sua voz me dizendo pelo telefone.

– Ele disse que te amava? — Ouço a voz dela sibilar pela linha telefônica. Quando eu respondi que não, mas que eu o amava ela apenas riu de mim. Essa risada debochada nunca vai ser apagada da minha memória.– Pobre criança, você é muito jovem ainda para saber que homens falam qualquer coisa para manter uma mulher em suas camas, e se ele nem ao menos pode dizer que te ama, nem por uma mentira, eu tenho pena do que te espera. Apenas acredite em mim, que sou muito mais velha que você. Jovenzinhas iguais a você, tão bonitas e tão pobres só servem para esquentar a cama de alguns homens por poucas semanas. Procure um outro homem para enganar e depois de algumas noites apenas o force a pagar as suas contas. Deus sabe que só existem dois tipos de mulheres no mundo, aquelas para casar e aquelas que os homens usam.

A mãe de Peeta achava que eu estava tentando um golpe da barriga nele. E por que ela não pensaria nisso, já que eu nunca tive muita coisa na vida, e Peeta sempre teve muito dinheiro.

Eu nunca pensei em ficar com ele pelo dinheiro, eu sempre o amei por quem ele era. Todavia, o amor muitas vezes não é bastante.

Mulheres para casar e mulheres que são usadas pelos homens. Isso é tão ridículo e medieval. Mulheres não servem apenas para isso, é triste ouvir uma do meu próprio sexo nos classificando como mercadorias baratas.

É claro que ela me disse muito mais naquele ligação, isso não foi nada comparado as barbaridades que eu tive que ouvir daquela senhora.

Bom, o que eu sei é que a situação é muito diferente do que à um ano atrás, agora eu tenho um bom emprego, um bom salário e posso manter Elika e eu nem precisar escolher passar fome para que a minha menina tenha o que comer.

Quando eu era apenas Katniss Everdeen, e cuidava apenas de mim, eu nunca tive problemas em me manter financeiramente, eu ganhava pouco, mas o pouco que eu ganhava era o suficiente para me manter. Eu até tinha algumas magras economias no banco. É claro que esse época existiu depois que eu sai do Distrito Doze.

Entretanto, quando Elika nasceu eu deixei de ser apenas Katniss Everdeen, agora eu era uma mãe e tive que enfrentar uma montanha de novos desafios, tudo isso tendo uma criança pequena em meus braços que dependiam inteiramente de mim, e minhas frágeis economias foram morrendo muito rapidamente.

– Katniss? — Sou bruscamente acordada de meus devaneios, quando Darius sacode levemente a minha mão. — Você esta bem? Estava viajando em outro planeta.

– Desculpe, eu apenas me distrai com algumas coisas — Eu responde depois de me forçar a sorrir, ele estava me levando para ir buscar Elika na casa do Haymitch. Eu tive que fazer hora extra no trabalho e não tinha como pegar Elika na escola, Effie se ofereceu para me ajudar essa semana, nos dias que eu precisar. Hoje já é o segundo dia que minha filha fica na casa de Haymitch — Você estava dizendo?

– Na verdade nós paramos de conversar alguns semáforos atrás, eu percebi que você não estava muito animada para conversar. Aconteceu alguma coisa? Já fazem alguns dias que eu noto que você esta mais distante, mais fria. — Ele diz, seu olhos castanhos estão muito sérios. — Quer conversar sobre isso?

– Desculpe, não é nada relacionado a você, eu apenas estou preocupada com o fim de meu contrato de trabalho aqui na Capital. Acho que Cinna vai pedir para que eu renove o meu contrato com ele, mas não estou segura que essa é a melhor opção. — Eu volto a responder, e por um lado eu não estou contando nenhuma mentira, apenas estou omitindo alguns fatos.

Eu não vou contar para o Darius que a minha estranheza e preocupação dos últimos dias se devem ao fato de eu ter reencontrado o pai de Elika, e que ele me beijou tão ardentemente que eu quase tive um orgasmo em pé e vestida.

Não há como negar. Peeta e eu temos uma química que me deixa desconcertada, com um toque e em um instante eu passo de uma pessoa normal e controlada, para uma bola de fogo totalmente tomada pela emoção e pelo desejo.

E aquele maldito beco continua a me assombrar constantemente, apenas pensar em Peeta já me deixa acessa e eu posso sentir o meu sexo se contrair de vontade de me enfiar em uma cama com ele durante uma semana e não sair de jeito nenhum.

– Bom, se você quiser conversar comigo, eu estarei aqui para te ouvir. — Diz ele quando estamos parados no trânsito. Darius até mesmo chega e se inclinar para depositar um beijo suave nos meus lábios. Eu o beijo, e tento colocar o máximo de vontade no ato, mas a única coisa que sinto são seus lábios quentes e molhados nos meus.

Foi somente eu colocar os meus olhos em Peeta mais uma vez para que toda uma avalanche de desejo reprimido durante anos explodisse em minha mente, eu já não posso dormir a noite, porque fico tão desejosa de suas caricias que meu corpo treme de vontade de sentir o corpo dele pesando no meu mais uma vez, enquanto eu o sinto profundamente dentro do meu sexo.

E ter estado com Peeta naquele beco não me ajudou em nada, eu fiquei tão descontrolada que o teria permitido me tomar ali mesmo. Apenas porque era ele me tocando depois de tantos anos, ele me apertando, ele me beijando, ele me olhando cheio de paixão. E o meu corpo estava faminto disso, eu não sabia que uma coisa dessas poderia acontecer, não tão rapidamente assim.

Eu termino o meu beijo com Darius e o escuto suspirar feliz.

– Queria ter você hoje na minha casa. — Ele disse ao passar as mãos em meu rosto. Eu não respondo nada, pois não sei o que dizer sem que seja uma mentira terrível.

– Eu tenho que cuidar de Elika. — Digo de improviso e tento ser o mais sincera possível. Isso não é uma mentira. Se eu fosse para a casa do meu namorado, quem cuidaria da minha filha?

– Eu sei, moça! — Afirma ele sorrindo depois de voltar a dirigir. — Sabe eu realmente acho que nós dois temos que fazer um pequeno quarto para Elika lá na minha casa, tipo um quarto de brinquedos, o que você acha? Vocês duas podem passar as tardes de folga comigo e nós não precisaríamos correr em todos os nossos passeios, com perigo de perdermos o horário de Elika jantar ou dormir.

– Eu acho uma boa ideia, nós podemos pensar nisso. — Falo depois de sorrir.

Darius sorri feliz e volta a encarar o trânsito a sua frente, nós já estamos chegando na casa do meu antigo mentor. Ele não vai poder ficar pois logo tem que ir trabalhar, já que hoje ele vai estar de plantão na delegacia.

Enquanto a mim, não vejo a hora de apertar o meu passarinho nos braços e sentir o seu perfume gostosa queimar a minha alma de mãe.

Ainda é muito difícil me afastar de Elika por longos períodos de tempo, eu ainda a considero um bebê, e não quero perder essa sensação de ser necessária para a minha filha. Acho que toda mãe passa por isso. A minha mãe deve ter passado, ela só esta quebrada demais para ver qualquer coisa que não seja a sua dor, por isso se afoga em seu trabalho sem se importar com nada mais do que ela mesma.

Darius estaciona o carro na frente da casa de Haymitch.

– Quer que eu entre com você? — Ele me pergunta.

– Não, não é preciso. Eu vou buscar Elika, tomar um café com Effie e depois vou para casa. — Eu digo depois de me inclinar e depositar um pequeno beijo em sua bochecha. — Nos vemos no final de semana?

– Sim, eu te ligo antes de ir te buscar na sua casa. — Ele me diz antes que eu coloque a alça da minha bolsa social no ombro e saia do carro.

Ele não me espera entrar na casa do meu antigo mentor e sem demora segue para a delegacia.

Eu caminho lentamente até a porta da casa de Haymitch e em seguida aperto o botão da campainha na porta de entrada. Se eu me aproximar da porta posso ouvir o riso infantil de minha filha ecoando feliz.

Quem abre a porta e Effie e ela não demora em fazer com que eu me sinta a vontade, na sua sala de estar.

– Mamãe! — Elika grita feliz ao me encontrar, ela vinha correndo da cozinha. Seus olhos azuis brilhavam de felicidade e sua boca estava toda suja de chocolate. Um grande sorriso traveso estampa os seus lábios. — Eu estava com muita saudade mamãe, muita muita. Eu juro, minha saudade vai daqui ao parque das borboletas.

– Nossa, isso é muita saudade. — Eu digo ao pegá-la no meu colo e apertar o seu pequeno corpo em uma abraço cheio de saudade. — Eu também tive muito saudade, minha saudade vai daqui ao Distrito Sete.

Minha filha ri feliz ao passar os seus braços pequenas pelos meus ombros, logo ela esconde o rosto em meu pescoço e se esfrega um pouco me fazendo rir, estou ficando toda suja de chocolate grudento.

– Quer dizer que o titio Haymitch te deu chocolate, quando eu disse para não dar? — Eu perguntei com um sorriso nos lábios. Elika me olha assustada, mas logo o susto se transforma e ela esta me encarando toda travessa novamente. — Essa já é a segunda vez nessa semana.

– Foi só um pouquinho e é porque eu fui uma boa menina e comi toda a comida do meu prato. — Ela tenta justificar, eu caminho com ela em meu colo até o sofá e me sente ainda abraçando-a. Elika passa a alisar lentamente o seu rosto com suas mãos sujas de chocolate, ainda bem que o doce esta seco ou eu teria muito problema em ficar toda melada de doce. Para tentar brincar com ela, eu finjo que vou morder os seus dedos o que a faz esconder as mãos atrás de suas costas e gargalhar de riso.

– Você é uma danadinha, passarinho. — Eu digo ao beijar as bochechas fofas da minha filha. Não demoro a abrir a minha bolsa e retirar uma pequena caixa com lenços umedecidos, coisa que toda mãe precavida acaba levando consigo. Eu levo os lenços para emergências. Depois que retiro dois deles do pacote eu começo a limpar a minha menina dos rastros de chocolate.

É nessa hora que Haymitch e Effie entram na sala. Ela carrega uma pequena bandeja com café e uns biscoitinhos em vários formatos, alguns com cobertura de chocolate, outros com cobertura de morango.

– Obrigada Effie. — Agradeço quando ela coloca a bandeja em um moveu perto de onde estamos sentadas.

Os olhos de Elika brilham ao olhar os doces, mas eu a mantenho firme em meus braços.

– Nada disso. — Digo para ela, fazendo-a me olhar. — Não até que eu te limpe um pouco. De passarinho você esta parecendo um porquinho. Agora me dá a sua outra mão.

Elika me estende a mão esquerda e eu começo a minha tarefa de mãe de deixar minha filha limpa. Graças a todas as forças boas que Elika é uma criança muito obediente, exceto quando o assunto é comer legumes, mas o restos das coisas ela é uma menina muito tranquila, de espirito doce. Seus olhos demonstram chateação por eu não deixá-la correr para o prato de doces, mas se ela comer muito doce ela vai ficar extremamente hiperativa e não vai fazer nada mais do que correr e gritar durante horas. Sem contar o fato que ela pode ficar doente.

– Katniss. Você demorou, eu já estava ficando maluco com essa baixinha correndo de um lado para o outro. Eu estou ficando velho, sabe. — Haymitch me diz ao se sentar em uma poltrona próximo a janela.

– A culpa foi sua por dar chocolate para ela. Eu disse para não fazer isso. — Eu respondo sorrindo, acho o máximo Elika ter cansado essa velho chato até a exaustão. Eu avisei sobre dar doces para ela.

Ele apenas faz um barulho de chateação com a boca e me olha irritado.

–Mamãe, mamãe eu brinquei de um monte de coisas e eu comi chocolate, e sorvete e franguinho e batata frita. — Elika começa a me contar como foi o dia dela. — E a titia me deu outra fita de cabelo e eu apostei corrida com o titio, mas ele não é muito rápido...

– É claro que eu não sou rápido, menina. Eu tenho mais de quarenta! — Diz Haymitch ao fingir estar irritado.

– Eu queria que a titia brincasse de corrida comigo, mas ela disse que somente aqueles que não usam salto alto podem brincar de corrida...- Elika continua a me contar sem prestar atenção na interrupção dele. -...e ai eu e a Bubu brincamos de casinha e depois eu esperei para falar com o amigo do titio, mas ele não ligou e não veio trazer o meu chocolate...

– Que amigo do titio? — Eu pergunto curiosa ao terminar de limpar o rosto da minha filha dos últimos rastros de chocolate.

– Ele tinha um nome engraçado, mas bonito. — Ela me responde ao me olhar nos olhos. — Titio, qual era o nome do moço do telefone?

– Peeta, menina. Você falou com Peeta. — Haymitch fala sem nem ao menos esperar.

Eu sinto que uma bomba acabou de explodir em meu cérebro.

– Isso. — Grita Elika feliz. — E ele gostava de chocolate e disse que iria me trazer chocolate depois. Mas, ele não veio, titio liga para ele?

– Por que você não diz para a sua mãe que foi você que pediu para ele te trazer chocolate. — Diz Haymitch brincando com Elika.

– É verdade titio, mas a Bubu queria chocolate também. — Responde a minha filha com as bochechas coradas. Eu estou petrificada no meu lugar.Por um instante eu tenho certeza que o todo o meu sangue se transformou em gelo puro.

Effie continua a andar em volta como se nada tivesse acontecido, ela até me serve uma xícara de café e coloca o prato com as bolachas em cima de uma mesa de centro da sala bem na minha frente. Haymitch me olha cheio de humor, eu apenas aperto Elika mais forte em meu corpo e me obrigo e respirar devagar.

Não posso surtar agora, não posso. Penso ao tentar acalmar os meus batimentos cardíacos.

– Você deixei que Elika conversasse com Peeta? — Eu me escuto perguntar. — Quando foi que isso aconteceu?

– Isso aconteceu no começo da semana, e eu não só deixei como incentivei a menina a conversar com o pai dela, não é mesmo Elika? — Responde ele depois do se espreguiçar no sofá.

Elika continua a sorrir, mas seus olhos curiosos e atentos vão de onde estou até Haymitch. A informação parece que chegou mais rápido para ela do que para mim, que ainda estou tentando absorver tudo.

– Meu papai? — Pergunta ela curiosa.

– Sim, baixinha. Você conversou com o seu papai pelo telefone. Não foi legal conversar com ele? Você não gostou disso? Não quer fazer de novo? — Haymitch pergunta para Elika.

Minha filha apenas abre o maior sorriso do mundo e grita de felicidade.

– Sim! Eu gostei de falar com ele, mamãe eu falei com o meu papai. Posso falar com ele de novo, posso? Posso? — A voz de Elika é muito animada, ela chega a pular no meu colo enquanto se inclina para frente e me abraça, sinto ela me beijar na bochecha pouco depois. — E ele disse que gostava de chocolate...

Eu apenas olho para ela com meus olhos arregalados de pavor. Depois olho para Haymitch e o vejo me olhar muito seriamente.

– Ele veio aqui? — Pergunto, tenho que entender direito essa história toda.

– Eles conversaram pelo telefone. — Me responde ele sério.

– Você contou para ele? — Essa pergunta é quase um sussurro.

– Elika, querida. Você não quer ir na cozinha com a titia um pouquinho, vamos pegar um copo de leite para você, o que acha? — Ouço Effie dizer, minha filha apenas pula do meu colo e vai até onde a esposa de Haymitch estava em pé, logo segura a sua mão estendida e ambas saem da sala. Elika sai da sala contando tudo a respeito de como o papai dela gosta de chocolate.

Eu continuo imóvel onde estou. Meus olhos estão presos em meu colo, onde Elika estava sentada, eu estou olhando as minhas mãos juntas.

– Eu não contei nada para ele, juro que não contei nada sobre Elika, mas já esta na hora desse segredo acabar. — Ele me disse e somente depois de ouvir essas palavras é que eu pude me acalmar de fato.

– E para que você precisava contar isso para Elika? — Eu pergunto irritada. — O que você fez...

– Eu não fiz nada, docinho. — Me interrompe ele. — Quem fez foi você e o garoto à alguns anos atrás. Quem já viu, com vinte anos nas costas a não saber para que serve um preservativo. Não que eu esteja reclamando, já que a baixinha é um tesouro...

Não posso acreditar que ele esta desconversando.

– Eu tenho que ir embora daqui. — Digo para ele.

– Agora? É muito cedo ainda. — Diz ele olhando em seu relógio de pulso.

– Não, Haymitch. Você não entendeu. — Chamo a atenção dele. — Eu tenho que ir embora da Capital, mas não posso voltar para o Distrito Doze, não agora. Peeta sabe que eu voltaria para lá. Eu tenho que ir para um lugar que ele não posso me encontrar, que não possa tirar Elika de mim, não possa magoar a minha menina. Eu nunca fui para o Distrito Três, e nem para o Seis...

Sei que estou balbuciando como uma maluca, porém não posso evitar o meu nervosismo. Como é que eu vou fugir com Elika me perguntando constantemente sobre o pai, largando o meu contrato sem finalizar e fugindo igual a uma criminosa que eu não sou? Meus devaneios são interrompidos quando escuto a gargalhada alta de Haymitch.

– O que foi? — Pergunto irritada, ele certamente esta rindo de mim. E eu quero saber qual é o motivo da graça.

– Eu estou me perguntando como foi que eu escolhi ser mentor da garota mais burra de Panem. — Diz ele com lágrimas nos olhos de tanto rir. — Sério, Katniss? Você vai embora? Vai esconder Elika do pai dela? Por quanto tempo você pretende fazer isso? É uma honra ver o seu cérebro funcionar, faz a diversão do meu dia.

Sinto o meu sangue ferver na veia com o deboche dele. Haymitch é um descarado.

– Isso não tem graça Haymitch. — Digo zangada. Não vejo motivo nenhum para dar risada.

– É claro que não é engraçado, o que é engraçado é a sua infantilidade em lidar com essa assunto. Que tipo de pessoa você acha que Peeta é? O tarado da machadinha? — Me pergunta ele mais controlado agora. — Quando é que você vai por nessa sua cabeça que não você não fez essa menina sozinha. Ele tem todo o direito de saber dela, e se você quiser realmente saber a minha opinião saiba que o único risco que Elika vai correr ao lado dele, é o de ser mais amada do que nunca. Aquele garoto vai amar o chão que essa menina pisa, Katniss. Como é que você consegue ser tão cega e não notar isso?

– Peeta não é o principal problema, Haymitch. A família dele é, a mãe dele é, eu não quero Elika perto daquela mulher...- Insisto, sei que estou sendo irracional e que talvez ele esteja certo. Todavia, estou tão confusa e perdida que não sei o que fazer. Contar para Peeta a verdade me parece ser a única opção que eu tenho.

– Mande a família dele para o diabo, ele tem que saber a verdade. Ele é o pai dela. Nós dois sabemos que aquela mãe dele não é uma boa pessoa, mas e dai? O mundo não esta cheio de arco-iris e abraços não. Está na hora de você acordar, você não vai conseguir proteger Elika de tudo, ou você quer que ela cresça uma desmiolada e uma alienada da vida. Igual aquela namorada do Peeta, qual é mesmo o nome dela? — Me pergunta ele irritado.

– Glimmer. — Respondo ao levantar uma sobrancelha.

– Sim, essa garota. Você quer proteger tanto Elika que ela vai acabar uma iludida igual a essa menina estranha. — Continua ele.

E seu discurso tem o efeito certo em meu cérebro, eu realmente não quero proteger tanto a minha filha ao ponto que acabe sufocando a sua personalidade até que ela se transforme em alguém tão vazia, igual a Glimmer.

– Você esta certo Haymitch, ok? Você tem razão. — Retruco irritada ao me levantar do sofá onde estou e cruzar a sala de estar dele para ficar de frente para a janela da sala. — Eu apenas não sei como fazer isso. Não sei como contar para ele isso, não quando eu pensava que ele já sabia. Ele nunca vai acreditar quando eu disser que a mãe dele já sabia de Elika.

– Você não vai ter certeza disso até contar para ele, docinho. Pelo bem dele, acabe com os lamentos daquele padeiro. Dê algo para ele pensar que não seja você, antes que eu enlouqueça com todo esse drama. — Diz ele ao passar as mãos pelo rosto de forma áspera.

Miseravelmente eu tento preparar o meu emocional para a conversa que vou ter com Peeta. Já sei que não vai ser agradável, e nem bonito de forma alguma. Já, até mesmo posso sentir uma dor de cabeça se formando. Algo do tipo que não vai me fazer dormir a noite.

Como eu vou fazer isso?

– Oi, Peeta. Vamos esquecer o que aconteceu naquele beco. — Me imagino dizendo.– Por favor pare de me olhar como se estivesse me imaginando nua. É sério Peeta, eu tenho algo importante para dizer. Você tem uma filha que vai fazer quatro anos, mas eu não quero que sua família a conheça. Na verdade eu não queria nem que você a conhecesse. Sua mãe sabia que eu engravidei de você, mas ela me mandou dinheiro para abortar, é lógico que eu não fiz isso. Você não precisa nunca se aproximar dela se não quiser. Eu estou indo embora da Capital, mas não vou te dar o meu endereço porque eu ainda tenho tesão em você, mas eu te desejo uma boa vida. Adeus.

É, isso vai dar muito certo. Essa conversa tem tudo para ser um sucesso estrondoso. E por mais que exista uma urgência nisso, eu não estou nem um pouco a fim de enfrentar essa realidade, e esse momento que além de constrangedor tem tudo para ser um desastre.

– Eu vou contar para ele, eu só preciso de umas duas semanas para descobrir como eu vou fazer isso. — Digo depois de voltar a atravessar a sala de Haymitch e me sentar em seu sofá.

– Essa foi sua primeira frase inteligente em muito tempo, eu deveria ter tirado uma foto dessa momento para guardar para a posteridade. Um momento de inteligencia de Katniss Everdeen. — Retruca ele me olhando divertido e um pouco de irritação.

– Eu já disse que não gosto de você? — Falo para ele. É mentira, eu gosto de Haymitch, ele apenas me irrita até os ossos com esses comentários babacas dele.

– Já fazia alguns meses que você não repetia isso. — E um novo sorriso debochado é estampado em suas feições cansadas.

Eu também não posso evitar que um sorriso se forme nos meus próprios lábios.

Notas finais
Eita eita, que dor de cabeça, que sono, que Katniss complicada. Alguém tem que colocar esses dois para conversar, na verdade acho interessante forçar essa conversa a acontecer! >.< Brinks, logo logo eles vão conversar. O capítulo de quarta promete!!! O que acharam? Estão curiosas para ver o fim de Katniss e Peeta no passado? Até quarta (=