Amarras do Passado
2 Holy Ground - Taylor Swift
Notas iniciais
Passado – Seis anos antes
Peeta
"...'Cause, darling, it was good, Never looking down
And right there where we stood, Was holy ground..."
Taylor Swift
***
— Peeta, meu bom homem. — Escuto a voz de Cato me chamar através da multidão de alunos no corredor central do centro Universitário.
— Fala, Cato! — Cumprimento-o sincero. — Você viu a Glimmer?
— Perdeu a namoradinha, foi? — Pergunta ele, um sorriso sacana formando-se em seu rosto.
— Você é tão otário, Cato. — Respondo depois de dar um soco em seu braço, ele finge que desvia do golpe e depois tenta me devolver o soco, eu saiu rápido de seu alcance, e ambos estamos gargalhando da nossa luta improvisada. — Cadê a Clove? Já está correndo atrás dela feito um cachorro no cio, ou vai dar para a garota o dia de folga?
— Há-há. Bem que ela queria um dia de folga. — Debocha Cato dando um sorriso sacana. — Deixa eu te lembrar de uma coisa, Mellark. A Clove ainda vai ser minha, ela só não entendeu que nós nascemos um para o outro.
Nós dois rimos alto agora.
— Porra, cara, eu nem vim aqui para falar da Clove. — Diz Cato, seus olhos brilham como uma criança em manhã de natal. — Hoje é dia de gostosa nova na área.
— Gostosa? — Pergunto curioso.
Para uma garota tirar a atenção de Cato da Clove, ela tem que ser realmente gostosa.
— Gostosa de mais.- Fala ele ao ficar empolgando. — Eu soube que ela veio de transferência de algum dos distritos mais afastados.
Agora fiquei realmente curioso, qual será o distrito que ela veio? Eu sou do distrito doze, um dos mais afastados da Capital, também é considerado um dos distritos mais pobres de todos.
Como eu vim parar na Capital? Eu conto.
Acontece que meu pai é um padeiro, e nossa pequena padaria no distrito doze foi descoberta por um mestre de culinária aqui da Capital. Como esse cara foi parar em nossa padaria pequena no distrito doze, eu não faço a mínima ideia, só sei que depois de uma transação complicada entre o negociador e meu pai, ele enfim conseguiu o financiamento certo para começar uma nova empresa aqui na Capital.
Eu era muito menino quando sai daquele distrito. Então não tenho muitas lembranças de lá. Lembro de pequenas coisas, por exemplo, a floresta que cerca o distrito, o cheiro do pão recém-assado em nossa antiga casa, o canto dos pássaros ao entardecer, e uma menina de vestido vermelho que conseguia calar todos os pássaros em volta apenas com sua voz doce.
Essas são lembranças preciosas e felizes para mim.
A nova padaria da minha família aqui na Capital fez bastante sucesso, e dentro de poucos anos conseguimos abrir mais três filiais.
Agora já estamos em seis Mellark's funcionando o todo vapor.
A satisfação do cliente é o que importa.
Para falar a verdade eu amo o que eu faço. Por isso estou no primeiro ano da faculdade de gastronomia. Mais dois anos e eu vou poder assumir como um mestre de culinária na Mellark's. Antes de começar o meu curso de culinária, que é o que eu realmente gosto de fazer, eu tive que aprender a administrar uma empresa, fiz o curso aqui mesmo. Foram os três anos mais chatos da minha vida.
— Você já viu a garota? — Perguntei a Cato.
— Já sim. — Responde ele. — Foi o Thresh que me mostrou, ele jura que já está apaixonado por ela.
— Qual é o nome dela?
— Não sei.- Responde ele dando de ombros, mostrando indiferença. — O Thresh vai descobrir ainda hoje. Cadê o Finnick? Tenho que espalhar a notícia para ele.
— Você vai sair contando para todos os nossos amigos que tem uma gostosa nova na área? — Não posso deixar um pouco de incredulidade vazar em minha voz.
— Pode apostar que sim – Diz ele depois de me dar um tapinha nas costas. — Isso, meu amigo, é um dever. Quantas novatas gostosas você já viu por aqui? Tirando o início do semestre, a mulherada aqui parece que vai se afeiando quando as provas chegam.
— Afeiando? Existe isso? — Pergunto rindo. — E a Clove?
— Minha baixinha está fora dessa lista.
— Cato, eu tenho namorada. — Acho que está na hora de lembrá-lo desse fato. — Não fico olhando para outras garotas.
E isso é verdade. Glimmer é minha namorada há dois anos e eu nunca a trai.
— Ter namorada, não significa ser cego, companheiro. — Ele fala como se fosse a coisa mais obvia do mundo. — E para todos os efeitos não machuca ninguém você admirar a paisagem.
Quando ele diz paisagem, ele desenha um violão no ar.
— Peeta! — Ouso alguém me chamar.
É Glimmer que vem correndo até onde Cato e eu estamos.
— Glimmer.- Abro meus braços para recebê-la com um abraço apertado.
— Estava com saudade de você, meu amorzinho. — Diz ela com voz de bebê, depois de me dar um beijo estalado no rosto.
Não gosto muito quando ela faz essa voz enjoada, mas cansei de tentar mudá-la. Ela gosta de fazer essa voz e me tratar assim. Sei que não é por mal. Por isso permito que ela faça.
Cato acho hilariante essa situação, mas tem a decência de não rir na frente dela.
— Também estava. — Digo ao entrelaçar nossos dedos.
— Oi loira, você viu o Finnick? — Pergunta Cato à Glimmer.
— Olá loiro. — Responde ela sorrindo, não ligo para seus apelidos, eles são amigos desde criança. — Ele estava com a Annie no refeitório.
Sem esperar por mais nenhuma interrupção, Glimmer me pega de surpresa em um beijo longo. Seus lábios têm gosto de batom e bala de menta.
— Bom, meu amor, eu vou para a aula, tenho uma apresentação importante hoje. — Diz ela sorrindo. — Me deseje sorte.
— Você vai ser perfeita na apresentação. — Digo para ela.
— Eu sei. — Me responde feliz e logo se afasta apressada.
Estou vendo-a se afastar quando Cato me dá um soco no braço para chamar a minha atenção
— Lá vem ela.
Com pouca curiosidade olho em volta a procura da garota da vez.
Muitas poucas pessoas no mundo podem dizer que já ficaram petrificados ao encontrar com uma outra pessoa. Por exemplo: amor a primeira vista. Não é bem o meu caso, mas puta merda. Eu não estava preparado para o que eu vi.
A garota andava pelo corredor totalmente alheia a todas as pessoas que abriam espaço para vê-la passar. E todos os caras que a olhavam cobiçosos.
Ela usava uma calça jeans justa, que se ajustava maravilhosamente a suas pernas longas e bem torneadas. Tinha os quadris largos e uma cintura fina, seus seios cheios, suculentos de olhar. Mas, não eram roupas vulgares, era apenas porque ela é gostosa.
Por Deus, eu posso ficar excitado apenas olhando para ela. Penso.
Seu cabelo era escuro, mas não preto. E seu rosto suave, simétrico, como os de bonecas de porcelana.
Há medida que ela se aproximava eu podia notar outros detalhes. A boca carnuda, de lábios rosados naturalmente, o tipo de boca que implora por beijos longos. O cabelo cumprido que estava preso em uma trança lateral.
Entretanto, foram os olhos que mais me chocaram e excitaram. Olhos cinzentos, grandes e brilhantes. Lindos. A sensação de olhá-los era muito estranha, como reconhecimento, uma sensação de calor e paz, de voltar ao lar.
Foi nesse momento de minha contemplação que, como nos filmes, nossos olhares se encontraram. Eu se senti puxado pelo olhar dela, como um ímã que encontra a sua polaridade exata.
A garota me olha, e sei que ela me reconheceu.
O momento passa muito rápido, para o meu gosto, e ela desvia o olhar, seu rosto compenetrado, sem transmitir emoções, mas levemente corado.
Ela passa bem ao meu lado, e eu sinto meu coração disparar no peito e tenho que controlar uma vontade enorme de rir alto ao comprovar que o mundo realmente é um lugar muito pequeno.
Eu conheço essa garota, por mais que eu fique surpreso ao descobrir a bela mulher que ela se tornou, eu nunca poderia esquecer esses olhos cinzentos, como uma tempestade de verão. Eu a reconheceria em qualquer lugar.
Eu nunca me esqueceria da menina de vestido vermelho, que tinha uma voz de anjo, seu cantar faz com que os pássaros em volta parem de cantar apenas para ouvi-la.
Foi por causa dessa menina de vestido vermelho que eu chorei feito uma garotinha quando tinha doze anos de idade, e estava indo embora do distrito doze.
Katniss Everdeen.
— Limpa a baba, Mellark – Sussurra Cato rindo discretamente ao meu lado. Vejo Katniss se afastar sem olhar para trás e percebo que estou olhando descaradamente o traseiro empinado dela rebolar enquanto andava. — Pelo menos tenta disfarçar.
— O que? — Pergunto ainda olhando para Katniss, ainda sinto meu corpo endurecido pelo choque de reencontrá-la.
— Ei, Peeta! Acorda, seu conquistador. — Cato me dá um tapa leve na cabeça.
— O que você quer? — Pergunto irritado. Na mesma hora eu olho em volta para ver quantos panacas, imbecis, estão olhando para a minha garota.
Minha garota? De onde eu tirei isso?
— Nada, pode olhar a vontade, apenas fica esperto com a Glimmer, ela pode te pegar no flagra.
—Glimmer? — Pergunto confuso. Caramba, é verdade, eu tenho uma namorada. — Eu não estava fazendo nada de mais, apenas olhando a paisagem.
— O que? — Pergunta Cato alto, depois de se recuperar de uma gargalhada. — Peeta, do momento em que você colocou os seus olhinhos azuis naquela gostosa, é hilário ter que falar isso, mas parecia que você queria arrancar a roupa daquele corpo e mandar brasa agora mesmo, nesse chão.
Quando abro a boca para retrucar algo agressivo, Thresh nos interrompe com um sorriso sacana no rosto.
— Vocês a viram? — Pergunta ele para ambos.
— A gostosa? — Cato retruca. — É claro.
Não gosto do jeito como Cato a chama de gostosa. Sinto algo queimar no meu peito.
— Não é só gostosa, Cato!- Afirma Thresh com seus olhos escuros brilhando de malícia. — Aquela ali será minha futura esposa.
Não respondo nada. Não sorrio. A única coisa que consigo pensar é, Vai sonhando. Katniss nunca será sua.
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