Amarras do Passado

23 Could It Be Any Harder - The Calling


Notas iniciais
Olá pessoas, tudo bem? Eu estou sem internet em casa, e a vivo não vem arrumar >.< Por isso me desculpem se eu passar algum dia sem postar, eu espero que até segunda ele seja resolvido. Estou na casa de uma tia postando para vocês. Espero que vocês gostem do capítulo de hoje. Enfim, enjoy!

Dias atuais

Peeta

"...You left me with goodbye and open arms
A cut so deep I don't deserve
Well, you were always invincible in my eyes
The only thing against us now it time
Could it be any harder to say goodbye and live without you?
Could it be any harder to watch you go, to face what's true?
If I only had one more day..."

***

Todos, eu digo todos os músculos do meu corpo estão congelados.

Não sei nem se estou respirando nesse momento. Não pode ser ela, não pode.

Olho para o sinal de trânsito esperando que ele abra o mais rápido possível. Meu coração começa e disparar no peito.

Penso ao tentar acalmar as batidas no meu peito. E sem conseguir me conter eu volto a olhar para o lugar do outro lado da calçada onde estou, muito a frente na esquina, onde eu jurava ter visto Katniss Everdeen.

Mas não pode ser ela, não pode. Não com uma criança nos braços. Eu estou ficando doido, é isso o que esta acontecendo. Minha ansiedade é tanta por reencontrá-la que agora eu a estou vendo em pessoas desconhecidas da Capital.

Mas, parecia ser tanto com ela, e a mulher até chegou a desviar a atenção de meus olhos, escondendo o seu rosto com os cabelos castanhos longos, com a criança em seus braços. Não pode ser Katniss, não pode. Não com uma criança.

Eu tenho que me acalmar a pensar racionalmente.

A mulher com a criança nos braços entrou em uma lanchonete, pelo o que eu reparei. Eu posso ir lá e confrontá-la.

Isso, Peeta. Faça justamente isso. Pensa meu cérebro de forma malvada. Faça papel de idiota na frente de uma mãe de família na Capital, quem sabe o marido não vai estar com ela? Assim você acaba por levar umas pancadas nessa cabeça dura e deixa de ser um imbecil.

Estou ficando maluco, é isso o que eu estou. E eu não posso agir como um maluco. Não agora. Não hoje.

Hoje eu tenho que confrontar o meu velho mentor. Tenho que encurralá-lo em suas mentiras e questionar o por que de ele não estar sendo sincero comigo.

Por que ele me mandou para o Distrito Doze, sabendo que Katniss não estaria lá, e que foi ele mesmo que a tirou de lá?

Haymitch me fez de bobo e eu quero saber o porquê. Que tipo de jogo ele esta fazendo? A minha busca por Katniss não é algo que deva ser levado como uma brincadeira. Não é algo engraçado.

Atravesso a rua assim que percebo a mudança no sinal de trânsito. Ando rapidamente pelas ruas, deixando as pessoas mais lentas para trás. Meus passos me levam até a lanchonete onde a mulher com a criança entraram, eu seguro maçaneta prateada da porta de vidro do estabelecimento, mas meu corpo trava.

Não consigo entrar no lugar, e posso ver através da porta que a moça não esta visível na área central da lanchonete. Respiro profundamente ao notar que eu estou parecendo um maniaco. Essa mulher não é Katniss, eu estou me iludindo e enganando. Procurando capturar fumaça com as mãos.

Tem uma pessoa que sabe onde ela esta, e sua casa se encontra apenas a dois quarteirões daqui. Não posso ficar me atrasando. Tenho coisas mais importantes para fazer do que apenas seguir uma sombra, alguém que eu sei que não é ela.

O que vai acontecer quando eu entrar nesse lugar e descobrir que não é Katniss quem eu vi? Vou me decepcionar ainda mais. Estou procurando tristeza se continuar nesse caminho. E ainda que tenha algo em minha cabeça, algo perigoso me incitando a entrar nesse lugar, eu resolvo afundar essa vontade lá no fundo e me desprendendo da porta eu viro as minhas costas e sigo pela avenida.

Quando estou próximo a casa de Haymitch eu me sinto mais inquieto do que nunca. Meu cérebro grita que eu deveria ter conferido, que eu fui um idiota por ter dado as costas. Mas, agora já é tarde demais, eu não posso ficar me prendendo a esse tipo de coisa.

Bato a porta da casa de Haymitch e espero para ser atendido. Ele não demora para aparecer, o que é bom.

– Garoto. Você voltou rápido do Distrito Doze. — Me cumprimenta ao cruzar os braços no peito. — Vamos entre.

– Haymitch. — Digo apenas ao entrar na casa dele. — Nós precisamos conversar.

– Eu sei, eu sei. — Diz ele fechando a porta atrás de mim. Depois se vira para o corredor e me faz acompanhá-lo até a sua sala de estar. — O que você precisa chorar, quer dizer, me contar hoje.

Eu apenas o encaro antes de me sentar em uma poltrona grande perto da janela. Imediatamente sou tomado por uma perfume antigo, algo que eu não sentia a muito tempo. Tenho que fechar os meus olhos para senti-lo com mais intensidade. O cheiro é muito suave, muito fraco. Uma fragrância limpa, quente e levemente floral. É o cheiro do perfume de Katniss.

Eu estou ficando louco. Penso confuso enquanto a fragrância muito fraca é inspirada para dentro de meus pulmões.

– Algum problema? — Haymitch me pergunta com um sorriso sarcástico nos lábios.

– Não é nada, é que eu achei que senti...esse perfume é de...- Estou confuso, meu cérebro deve estar me pregando alguma peça. — Esqueça.

– E o que é que você quer conversar comigo? — Pergunta ele se sentando em uma sofá do outro lado da sala.

– Você sabe o que é que eu quero conversar com você. Por que me deixou ir para o Distrito Doze se sabia que Katniss não estava lá, por que você a tirou de lá alguns meses atrás? — Consigo falar sem gritar com ele, o que é um avanço no que eu esperava do nosso confronto. — Você me disse que não tinha nenhum contato com ela, que não sabia onde ela estava , que em todos esses anos ela nunca entrou em contato com você, que...

– Espera um pouco garoto. — Me interrompe Haymitch se inclinando no sofá. — Eu não disse nada disso. Você supos todas essas coisas.

– Você me disse na última conversa que nós tivemos, antes de eu ir para o Distrito Doze, que não sabia onde ela estava. Eu te perguntei se você achava que ela estava de volta na Capital e você me respondeu...

– Eu não respondi nada. — Me interrompe novamente, o sorriso em seu rosto desaparece ao olhar para mim. — Você deve se lembrar que eu respondi com uma pergunta que foi, se eu me lembro bem, por que a queridinha iria procurar contato comigo.

– Você desconversou Haymitch. Você se lembra que me prometeu que se soubesse de qualquer coisa a respeito do seu paradeiro, que você me contaria? Você me prometeu. — Digo a ele, não vou deixá-lo sair dessa tão facilmente. Ele me deve explicações.

Haymitch não me responde de imediato, ele apenas se levanta de onde esta sentado e passa a andar pela sala.

– O que foi que você descobriu dessa vez? — Me pergunta seriamente.

– Eu sei que ela estava lá a alguns meses, morando naquela casa que ela herdou dos pais. — Conto, minha voz estranha pela raiva que estou tentando controlar. Só de pensar em Katniss morando sozinha naquela casa velha, caindo aos pedaços em sua cabeça, enche o meu peito de aflição. — E que ficou lá por uma tempo até que você apareceu e ambos foram embora juntos.

Minha voz esta embargada nessa hora. Sinto um nó se formando em minha garganta e fica difícil falar. Meu ex-mentor não me diz nada, apenas me encara seriamente, seus olhos inteligentes presos no meu.

Passa as mãos no meu rosto nunca fraca tentativa de voltar a razão, já quase não posso mais sentir o perfume de Katniss, o que em leva a crer que realmente o inventei.

– Onde ela está Haymitch? Para onde você a levou? O que você foi fazer lá? Por que ela te procurou? — As perguntas jorram de meus lábios e eu não consigo detê-las. — Ela está bem? Esta segura? Por que você não me contou? O que está acontecendo?

– Calma rapaz, são muitas perguntas e a maioria eu não posso responder. — Ele me responde depois de voltar a se sentar no sofá. — Eu vou te contar algumas coisas, mas não posso te contar tudo, porque primeiro eu não sei, você sabe o quanto a Katniss é reservada, e segundo porque ela me fez prometer que não diria a ninguém. E eu vou respeitar o desejo dela.

– Haymitch, eu preciso saber de tudo...- Começo a dizer, mas sou novamente interrompido, dessa vez pelo seu olhar severo.

– Eu vou te contar apenas o que eu posso, Peeta. É pegar ou largar. — Retruca ele mais rispidamente.

– Tudo bem, eu aceito isso. — Falo rapidamente antes que ele mude de ideia. Sinto cada batida do meu coração martelando dentro do peito.

– Para começar eu não menti para você sobre o paradeiro de Katniss, eu realmente não sabia onde ela estava até poucos meses atrás. E fiquei muito surpreso quando ela me procurou através de uma carta. — Haymitch começa a me contar, todo o meu corpo esta tenso pela minha ansiedade. — Na carta ela me perguntava se eu conhecia alguém que poderia empregá-la. Eu fiquei preocupado então notei que o remetente vinha do Distrito Doze. Imediatamente eu fui para lá, e a encontrei vivendo naquela casa situada na costura, com goteiras, vazamentos, mofo, uma despensa vazia e algumas outras surpresas. O que eu poderia fazer, deixá-la lá? Assim como eu fui o seu mentor na Universidade, eu também fui o dela. Eu não podia suportar que uma aluna que foi tão brilhante nas minhas aulas, menos na sua escolhe de par romântico...- Ele me lança um olhar zombeteiro agora. — Estivesse em uma situação financeira tão precária, e com tantas responsabilidades.

Ele pausa para suspirar audivelmente.

– Pelo que ela me contou, ela esteve vivendo em alguns distritos, ao longo desses anos, O Distrito Sete, o Onze e o Quatro. Deve ser por isso que você não conseguiu encontrá-la. Ela nunca esteve morando em um distrito por muito tempo. — Continuou ele, e meu coração se apertou ainda mais em dor. — Para acalmar esse seu coração apaixonado, saiba que ela está bem agora, eu cuidei para que ela ficasse segura e que encontrasse um emprego decente. Ela não quer ser encontrada por ninguém. Quer viver uma vida quase de eremita, ouso dizer. Você a conhece, ela pode ser bem teimosa, então me fez prometer que não contaria a ninguém onde ela esta agora.

– Ela esta aqui na Capital? — Pergunto mesmo assim.

– Você é surdo garoto? já disse que não posso dizer. — Responde ele de forma cínica.

– Mas, Haymitch. — Insisto ao me levantar e passear pela sala dele. — Isso não faz o menor sentido. Você a mandou para outro distrito? Ela está aqui na Capital? O que a demais em me responder isso?

– Se eu responder isso, você vai correndo atrás dela. E a queridinha teimosa não quer ser encontrada. — Responde ele depois de um suspiro.

– E se eu prometer não ir atrás dela? — Pergunto em uma mentira, deixo o meu rosto o mais suave possível.

– Você não iria atrás dela? — Me questiona ele em sua resposta. Imediatamente começando a rir alto. — Você acha que vai mesmo me convencer que não iria atrás dela?

– Ok, eu iria, não posso mentir a respeito disso. — Digo frustrado. Haymitch é o único que nunca caiu em nenhuma mentira minha. Ele é perspicaz demais. — Mas, eu tenho que falar com ela de alguma forma.

– Não, você não tem. Você se convenceu que tem, mas na verdade não tem. — Diz ele carrancudo. — Katniss esta bem, esta viva. Saber disso não basta para você?

– Não, não basta. Você não pode simplesmente me contar que tem contato com Katniss, e esperar que eu não queira saber onde ela esta. — Continuo a insistir, tenho que deixar bem claro para ele que eu não vou desistir da minha busca. — Mesmo que você não me diga, eu vou continuar em minha busca para encontrá-la.

– Boa sorte com isso então. Vou torcer por você. — Fala ele ironicamente.

– Mas, eu não entendo o por que de ela não querer me ver? Ela falou alguma coisa sobre mim? Perguntou a meu respeito alguma vez? — Essa dúvida ainda martela dentro da minha cabeça. A curiosidade de impulsiona para frente e meu querer por ela é algo que eu não posso negar.

– Não e não. Ela nem sequer cita o seu nome. — Disse ele de forma calma. — É como se você não existisse.

Isso me irrita, me irrita muito. Como assim é como se eu não existisse? Eu existo e existi na vida dela. Penso nervoso ao fechar minhas mãos em punhos e respirar fortemente pelo nariz.

–Ela realmente nunca perguntou de mim? — Pergunto chocado. Não consigo entender isso. Não consigo aceitar isso. É impossível, principalmente porque eu não consigo não dizer o nome dela. Ou não pensar nela.

– Estou falando, garoto. Ela não pergunta de você. — Volta a me responder, quase posso notar um olhar de pena em seu rosto, mas esse olhar some muito rapidamente. — Ela está muito ocupada cuidando da própria vida e cheia de responsabilidades.

Continuo a andar pela sala de estar dele. Tento pensar em algum argumento, realmente muito bom, que vai fazê-lo falar. Quebrar essa promessa inútil que ele fez. É quando eu noto algo em uma bancada. Curioso vou até lá e pego nas mãos uma pequena boneca de pano. Apenas o rosto é o que me parece ser porcelana, e ela está vestida com um bonito vestido rosa.

Uma boneca? Desde quando Haymitch tem bonecas de porcelana em seus móveis? Quer dizer, Effie é um pouco excêntrica, mas não é o tipo de mulher que tem coleção de bonecas. E essa não parece ser nova, absolutamente falando.

Já está gasta. Como uma boneca veio parar na casa de Haymitch?

Um gostoso perfume infantil, doce e frágil exala dos cabelos e vestido da boneca.

– Desde quando você coleciona bonecas? — Minha voz o questiona de forma divertida e curiosa.

– O que? — Pergunta ele ao se aproximar de onde estou e olhar a boneca que seguro em minhas mãos. — Droga...

– Não sabia que você gostava de crianças? Na verdade eu não sabia que você conhecia alguma criança. — Digo rindo, a boneca me distraiu um pouco das minhas questões mais urgentes.

– Crianças, não. Apenas uma garotinha. — Diz ele ao pegar a boneca das minhas mãos. E olhar para o brinquedo com carinho. Sério, eu nunca vi esse olhar nos olhos de Haymitch antes, é um pouco assustador. Nunca pensei que ele pudesse ser paternal de alguma forma. — Depois vou devolvê-la para a dona.

Ele não me diz mais nada e eu decido não questioná-lo, afinal não é da minha conta se ele e Effie recebem visitas de pessoas que tem filhas.

– Peeta, querido. — Sou surpreendido com a voz de Effie ao me cumprimentar. Ela entra na sala de modo quase flutuante. Effie é excêntrica, mas ainda é uma colírio para os olhos. — Haymitch deveria ter me avisado que você tinha chegado. Eu estou terminando de fazer o almoço.

Sem que ela perceba Haymitch e eu nos entreolhamos cautelosamente. Nós dois temos um histórico complicado de tentativas frustradas de digerir a comida que Effie cozinha.

– Quer ajuda para colocar a mesa? — Pergunta Haymitch impassível.

– Claro que não Hayhay. — Diz ela doce ao se aproximar dele e depositar um beijo suave em sua bochecha. Eu sempre quero rir quando a escuto chamar Haymitch e Hayhay. Mas, não posso, levei um soco da última vez que ri disso. — Tudo esta perfeito, perfeito. E o almoço esta delicioso. Eu peguei a receita com...

Ela para de falar e me olha rapidamente. Haymitch também olha para ela, e Effie ri disfarçando alguma coisa. Não entendo o que aconteceu agora. Effie é estranha.

– Bom, não importa com quem eu peguei a receita. O importante é que esta deliciosa. — Diz sorrindo, depois se afasta para a porta. — Vou voltar para a cozinha para conferir o meu assado.

Quando ela sai da cozinha eu digo.

– Acho que eu tenho que ir embora Haymitch.

– De jeito nenhum. Eu respondi muitas das suas perguntas, agora você vai ter que me ajudar nisso. — Diz ele carrancudo. — Se eu vou ter que comer a comida dela, você também vai.

Respiro profundamente ao notar que vou passar mais uma noite com dor de estômago.

– Katniss levou Elika com ela? — De repente pergunto. A curiosidade de saber mais sobre esse pássaro.

Haymitch trava no lugar. Seu olhar fica afiado no meu rosto. Sua postura rígida enquanto me encara.

– O que você sabe de Elika? — Sua voz forte me pergunta seriamente. Nunca o vi tão nervoso por responder uma pergunta tão simples.

– É o pássaro de Katniss, não? — Estou confuso agora, será que fui enganado do Distrito Doze. Não pode ser, não pela postura que Haymitch assumiu com a minha pergunta. — No Distrito Doze, eles me disseram que ela tinha um passarinho chamado Elika.

– Sim, um passarinho. — Confirma ele ainda com os olhos desconfiados.

– Então, ela ainda o tem? Ou o libertou antes de te acompanhar para onde quer que você a tenha levado. — Volto a perguntar.

– Katniss nunca vai libertar aquele passarinho. Ela o amo demais. — Haymitch responde a minha pergunta ao levantar os ombros em um gesto de que não se importa de verdade com isso. Sua postura tensa muda rapidamente para algo descontraído.

Eu não sabia que Katniss tinha tanto apresso pelas animais, nem que ela tinha o interesse de ter um para ela. Katniss nunca pareceu o tipo de pessoa que gosta de ver animais presos. Principalmente os pássaros, mas se ela gosta eu posso comprar várias aves para ela. Assim que eu a encontrar, é claro.

– Bom, se você me dizer onde ela está eu poderia dar vários passarinhos para ela. — Digo, agora que eu sei que Haymitch tem contato com ela, vou insistir nisso tanto, que uma hora ele vai se cansar e acabar me contando onde ela está.

– Eu tenho certeza que você poderia. — E por algum motivo que eu desconheço ele começa a rir. Quase se engasga pela piada que somente ele entende. Conversar com meu velho mentor pode ser algo desafiador e frustrante ao extremo.

***

– Então é isso. — Termino de contar o meu relato dos últimos dias para Finnick. Nós estamos sentados em bancos lado a lado em um bar no Centro da Avenida Amarela. Próxima de onde estamos em telões grandes, esta passando algum jogo estúpido de Futebol.

– Caramba. — Diz ele depois de respirar profundamente. — Você acha que ele esta mentindo?

– Não, não acho. Mas, com Haymitch não dá para saber. Ele pode estar ou não. — Resmungo depois de passar uma de minhas mãos pelo cabelo. Se tem uma coisa que eu detesto é me sentir impotente a respeito de algo, e é assim que eu me sinto agora que sei que Katniss mantém contato com nosso antigo mentor. — De qualquer forma eu vou ter que confiar nele.

Depois de um suspiro irritado levo o copo de uísque até os lábios e dou um gole na bebida. De certa forma o gosto forte me acalma.

– E o que você pretende fazer agora? — Finnick pergunta depois de dar um gole em sua cerveja.

– Vou continuar a procurá-la, estou certo que posso encontrá-la. — Falo resignado.

– Você tem certeza que quer fazer isso, Peeta? Quer dizer, ela não te procurou em cinco anos, será que procurá-la é o certo? — As perguntas dele não me irritam como fariam à algum tempo atrás. Não agora que estou decidido. — Você não acha melhor deixar Katniss em paz, vivendo a vida dela da maneira que ela quer.

– Eu não poderia. Não conseguiria parar de procurar, Finnick. — Respondo sinceramente. — E ainda não faz cinco anos que ela foi embora, vai fazer. Haymitch em nenhum momento disse que ela esta comprometida com alguém, ela não esta casada. Você sabe o que isso significa? Eu ainda posso ter uma segunda chance com ela, Finnick.

– Mas, você nem ao menos sabe onde ela esta. — Resmunga ele ao me encarar. — E se ela não quiser mais você.

– Ela vai querer. — Digo sem duvidar.

– Você não pode ter tanta certeza disso, Peeta. A nossas vidas mudaram tanto. — Tenta justificar depois de me dar dois tapinhas nos ombros.

– Eu sei que mudaram, Finnick. Mas, eu me lembro que uma vez você me disse, na época em que eu ainda estava confuso dos meus sentimentos, que o que eu sentia por Katniss era o mesmo que você sentia por Annie. E você estava certo! — Afirmo ao encara-lo, minha voz esta cheia de emoção. — Eu sei o que eu sinto por Katniss, eu não me engano sobre isso. Estar longe dela é horrível, todos esses anos me iludindo com Glimmer, agindo como um covarde babaca. Eu me sinto sufocar ao estar afastado de Katniss. Há anos que eu não sei o que é ter uma noite tranquila de sono. Se Annie estivesse afastada de você, então você saberia o que é se sentir afogar em miséria.

– Falando em Glimmer, como anda as coisas no apartamento? — Pergunta ele curioso.

Quase tenho uma crise de riso com sua pergunta. Glimmer é uma vadia vingativa.

– Ela destruiu o meu apartamento. Quebrou tudo o que podia, de espelhos a moveis, rasgou meu sofá em pedacinhos e o colchão da minha cama, todas as minhas roupas foram picotadas e não tem um eletrodoméstico que ainda funcione. Enfim, o lugar é um lixão. Vou ter que mandar reformar para que eu possa vendê-lo. Não consegui salvar nada. — Conto depois de tomar mais um gole do meu copo de uísque.

– Mulheres, quem vai entendê-las. — Diz ele depois de rir. — O prejuízo deve ter sido enorme, mas pense pelo lado positivo, agora você não vai ter que se casar com uma mulher louca, bêbada e egocêntrica.

Tenho que rir de sua lógica. Isso é verdade. Só de pensar que eu não estou mais amarrado com ela, faz o dia mais obscuro o mais brilhante em questão de segundos.

– Ela escreveu no espelho do banheiro... — Que por sinal foi o único que ela não quebrou. -... Queime no inferno, cuzão. Dá para acreditar?

Finnick teve que tampar a boca com as mãos para não cuspir a cerveja que estava bebendo. Depois que ele enfim engole, o bar todo é infestado de sua gargalhada estrondosa.

– Porra, cara. Você tirou uma foto. Me diga que tirou? — Ele ainda esta rindo como uma criança. Na hora que eu vi o meu apartamento despedaçado, e que encontrei a mensagem dela no banheiro, eu não achei nada engraçado. Porém, agora até que eu posso ver a graça de tudo isso. Quer dizer, a situação fica engraçada até eu relembrar o prejuízo financeiro que tive que o nosso termino de noivado.

– Annie esta bem? — Faço um tentativa de mudar de assunto. Pensar em Glimmer e no que ela fez ao meu antigo apartamento me deixa com muita dor de cabeça.

– Esta sim. — Ele diz, mas conhecendo-o como eu o conheço, dá para perceber que existe alguma coisa errada.

– Aconteceu alguma coisa? Você quer me contar? — Pergunto depois de uns momentos, o bar a nosso volta se enche de gritos de outros homens comemorando o gol de algum time. Por isso temos que esperar um pouco para que ele possa me responder.

– Ela esta bem, apenas estranha. Eu não sei, acho que ela esta me escondendo alguma coisa. — Disse ele dando outro gole em sua cerveja. — Nós não escondemos nada um do outro, mas de repente eu a vejo cheia de segredos e ligações estranhas durante a tarde, ou nos nossos dias de folga. Eu já a questionei, mas ela diz que não é nada sério, ou me diz que estava falando com os pais dela, quando eu sei que não esta.

– Que estranho. Annie não é de fazer esse tipo de coisa. — Digo para ele. — Você não esta exagerando o problema, talvez ela esteja ligando para alguma amiga, ou seja uma ligação de trabalho.

– Eu não sei, pode ser isso. — Finnick resmunga cabisbaixo. — Mas, eu prometo que vou investigar. Não sei o que ela está escondendo, mas eu vou descobrir.

– Você é um babaca ciumento. — Digo ao finalizar o meu segundo copo de uísque. Acho que não é uma boa ideia pedir um terceiro. Não quero ir para o Hotel onde estou me hospedando bêbado. Mesmo que amanhã seja domingo e eu não tenha nada para fazer.

Ficamos em silêncio por algum tempo, apenas olhando para a tela grande onde o jogo de futebol ainda rolava. Nunca gostei de futebol, acho um esporte tão estúpido. Gosto mesmo das lutas. As vezes me bate uma saudade de lutar, de me exercitar. Não que eu não o faça, eu corro sempre que posso, um habito que adquiri com Katniss, e que mesmo depois de tanto tempo eu ainda levo comigo.

– Eu pensei tê-la visto hoje. — Me ouço dizer a Finnick, meu olhos ainda estão no jogo, mas verdadeiramente não o estou assistindo. Estou me lembrando da mulher que vi de manhã, a morena com a menina nos braços.

– Katniss? — Finnick pergunta surpreso. — Onde?

– Perto da casa do Haymitch. Mas, não era ela, não podia ser ela. — Respondo tristemente. Sou tão patético que não consigo disfarçar a minha tristeza.

– Você confirmou? — Volta a me perguntar ele. — Se estava perto da casa de Haymitch podia muito bem ser ela.

– Eu não confirmei, confirmei. Porém, não podia ser ela, a mulher estava com uma menina nos braços, ou seja ela era claramente uma mãe. E Katniss não tem filhos. — Explico para ele.

– Bom, você tem razão. Eu não consigo imaginar a magrela com filhos.- Diz ele ao entender o meu ponto de vista.

Eu posso. Penso mais triste ainda. Eu posso imaginá-la com uma filha, ou um filho nos braços, eu posso imaginá-la sendo uma mãe. Uma mãe de um filho meu.

Uma pontada forte se apodera de meu peito. E eu me curvo pela dor conhecida, mas tento disfarçar. Acho que consegui já que Finnick não me olha estranho.

Deixamos o bar pouco depois, Finnick segue para a própria casa e eu entro no meu carro e dirijo até o hotel onde tenho passado as últimas noites.

Antes que eu perceba já estou atravessando a porta do meu quarto confortavelmente frio, caro e solitário. Fecho a porta atrás de mim sem sequer notar e caminho até a cama grande localizada na parede esquerda do quarto, ao seu lado uma comprida janela de vidro mostra a Capital em suas luzes reluzentes.

Eu já fui apaixonado por essas luzes, hoje já não sou.

Não há nada que me prenda aqui na Capital. Tem o meu emprego na Mellark's, mas se eu quiser eu posso ir administrar qualquer filial em qualquer distrito em que temos a nossa padaria, não preciso necessariamente trabalhar aqui na Capital, meu pai não me impediria de ir, até ficaria agradecido se eu fosse administrar pessoalmente alguma filial em outros distritos. Evitaria que mensalmente algum membro da administração, ou seja meu pai, meus irmãos ou eu tivesse que fazer esse trabalho exaustivo.

Entretanto, se eu for, vai ser mais difícil conseguir encontrar a Katniss, o seu rastro esta muito fresco, e de certa forma estou mais próximo dela do que estive nos últimos anos. Se eu deixar esse rastro escapar é bem capaz que eu nunca mais consiga encontrá-la.

Suspiro audivelmente ao lembrar o que disse para Haymitch assim que estávamos nos despedindo na frente da sua casa hoje.

– Haymitch, se você mantém contato com ela, por favor, poderia passar um recado meu? — Perguntei para ele.

Ele apenas ficou me encarando em silêncio durante algum tempo. Seus olhos espertos estavam atentos nos meus.

– Diga. — Foi o que ele disse. — Já que sou a porcaria de um cupido agora.

– Diga que eu quero encontrá-la, que eu preciso conversar com ela. — Começo a dizer, finjo que não ouvi o seu comentário anterior, com Haymitch a melhor coisa para manter uma amizade é fingir que não ouviu metade de seus resmungos. — Por favor, fale para ela que eu disse que ela me deve isso. Que eu estou disponível para conversar com ela em qualquer lugar à qualquer hora. Você pode dizer isso? Pode me prometer que vai dizer isso a ela?

– Ok, garoto. — Retruca ele rispidamente. — Eu prometo, eu prometo. Agora apenas saia da minha casa e me deixe descansar nas minhas férias.

– Obrigado, Haymitch. — Sinto o meu coração quase saltando do peito.

– Mas, não prometo que ela vá ouvir, ou que vá te mandar algum recado, então não fique muito esperançoso. — Foi seu último conselho antes de fechar a porta no meu rosto.

Agora eu estou aqui, pensando em como ela vai receber o meu recado. Será que vai responder de volta? Será que vai pensar no meu pedido?

Katniss não é uma covarde, é uma das mulheres mais fortes que eu conheço, ela enfrenta tudo de peito aberto. Nunca conheci alguém tão cheio de coragem para lidar com as adversidades da vida.

Talvez ela aceite o meu pedido, talvez ela decida que é hora de me encontrar. Talvez ela também queira isso.

Sei que posso estar me enganando, me iludindo com possibilidades que não são reais. Mas, se eu não tiver esperança, o que me sobra?

Eu queria muito voltar no tempo e fazer tudo diferente, eu queria muito que naquela época eu tivesse a maturidade que eu tenho hoje. Se eu soubesse que ela não estaria na minha vida, se eu soubesse o tipo de dor que enfrentaria diariamente por não tê-la ao meu lado, eu certamente nunca teria permitido que ela se afastasse de mim.

As pessoas não podem prever o quanto uma pessoa vai significar na vida delas. Não podem prever até que ponto as relações e os sentimentos vão estar envolvidos. E eu sempre quis Katniss. Eu a quis quando criança e não sabia o que fazer com os meus sentimentos grandiosos e infantis. Eu a quis quando a reencontrei, desde o primeiro momento até o nosso último.

O último beijo, o último abraço. Se eu soubesse que seria tão difícil viver a minha vida sem ela ao meu lado. Sem seu olhar, sem seu perfume, sem seu corpo quente, sem seu sorriso, sem o som de sua voz, que sempre era tão melodioso nos meus ouvidos.

Me deixa doente saber que ela estava vivendo quase que em completa miséria. Por tudo o que é mais sagrado, ela estava passando fome e eu não fazia ideia. Eu devia estar lá para protegê-la, para cuidar dela.

E eu sei que ela pode cuidar de si mesma sozinha, como eu disse anteriormente, ela é uma das pessoas mais maduras e fortes que eu conheço. Mas uma vida sozinha é uma vida muito triste, e eu sei que Katniss se sente sozinha. Posso sentir no fundo do meu ser que ela se sente sozinha. Porque eu também me sinto sozinho.

Seja lá o que for que nos uniu, uniu muito mais que apenas carne e ossos.

E hoje eu sei, que mesmo que eu nunca tivesse visto Katniss na minha vida, que eu não tivesse crescido com ela no mesmo distrito. Que nós não tivéssemos nos relacionado na faculdade. Se eu crescesse nessa realidade paralela e estivesse andando pela Capital e esbarrasse com ela no metrô ou em algum restaurante, ela ainda seria a mulher mais bonita que eu vi, ela ainda me chamaria e me encantaria com seu charme, com seus olhos, com seu jeito. E nossas vidas ainda assim se entrelaçariam de uma forma ou de outra.

Se eu abandonasse as minhas buscas hoje, o que seria da minha vida no futuro? Quem eu seria como homem?

Será que me apaixonaria novamente por outra mulher? Mesmo sabendo que no fundo, alguma parte minha sempre pertenceria a Katniss.

Uma vez, ainda na Universidade, depois que Katniss e eu fizemos as pazes depois de uma briga, ela me perguntou com lágrimas nos olhos se eu ficaria com ela. E eu respondi sem nem pestanejar.

– Sempre.

Agora já esta na hora de eu cumprir a minha promessa. De provar que o que eu falei era verdadeiro. Eu não sei o que o futuro me reserva. Entretanto, eu tenho esperança que ela vai estar nele.

Notas finais
Eu já disse que eu adoro a psicologia reversa do Haymitch? Cara, como eu amo esse homem. Effie sua sortuda *.* Até segunda (=