Amarras do Passado
10 Breathless - Corinne Bailey Rae
Notas iniciais
Passado
Katniss
"...Cause ive tried to do this right in your own time
I've been telling you with my eyes, my heart's on fire,
Why dont you realise?..."
Corinne Bailey Rae
***
Eu beijei Peeta Mellark.
Caramba. Penso aflita. Eu realmente beijei Peeta e isso foi um tremendo erro.
Um erro enorme.
Ok. Agora eu estou exagerando e sendo absurda.
Dane-se! Grito comigo em pensamento. Eu não consigo parar de pensar nisso.
E o que mais confunde a minha mente é que Peeta Mellark me beijou de volta.
Por que será que ele fez isso? Será que ficou com pena ao me ver catatônica?
Na hora não pareceu isso. E eu não sei porque iniciei aquele beijo.
Ele é meu amigo. E tenho que admitir que aqui na Capital, sem Gale ao meu lado, em pouco tempo Peeta se tornou uma das pessoas mais importantes na minha vida.
E eu acabo me sentindo a pessoa mais confusa do mundo por isso. O que deu na minha cabeça para eu fazer aquilo?
Ok. Não posso ser hipócrita e dizer que não gostei do beijo, ou que não sabia o que estava fazendo.
Se eu for bem sincera comigo mesmo, vou admitir que beijá-lo já era uma coisa que eu queria fazer a algum tempo.
E no momento em que ele me abraçou, eu me senti derreter em seus braços, foi como se minhas angústias e sentimentos ruins fossem lavados de meu corpo. Seus braços fortes e quentes espantaram o meu pesar.
Quando encarei seus belos olhos azuis, tão sensíveis e gentis, olhos que as vezes queimavam nos meus com algo que eu não sabia nomear, sendo que esse algo estava direcionado apenas a mim. Peeta tinha um certo olhar que era somente meu.
Um olhar que fazia meu corpo estremecer, e sempre que chamava o meu nome me fazia ficar sem fôlego. Peeta me fazia desejar algo que eu não tinha parado par analisar e pensar direito.
E naquele dia, os seus olhos azuis estavam daquela forma, o preto de suas pupilas estava dilatado, fazendo com que a cor azul ficasse ainda mais forte, mais intensa. Eu senti como se estivesse saindo do meu próprio corpo e por um momento eu afrouxei as rédeas de minhas vontades, que sempre estavam devidamente presas, permitindo que meu corpo e meus desejos ficassem livres para fazerem o que quisessem.
O resultado?
Um beijo de tirar o folego. Muito melhor do que eu esperava.
E eu esperava aquele beijo?
Bom, não posso dizer que não, pois mentiria terrivelmente. Já tinha, em ocasiões passadas, imaginado secretamente como seria beijá-lo. Posso ser amiga dele, mas ele ainda é um homem atraente.
Qual seria a sensação de seus lábios nos meus, seus braços me prendendo junto ao seu corpo. Mas, sempre que tinha esses pensamentos eu imediatamente os bloqueava.
Peeta tinha namorada e eu não estou procurando um romance com ninguém.
Entretanto, a verdadeira sensação de estar nos braços dele foi inigualável. Algo de outro mundo. Sei que é muito clichê dizer que nunca experimentei nada tão forte em toda a minha vida, mas essa é a verdade.
Não que eu seja uma especialista em relacionamentos, eu sei que não sou. E sendo bem sincera, nunca estive em um relacionamento sério, com ninguém. Apenas me permiti alguns beijos, quando mais nova.
E somente com dois rapazes, ambos do distrito doze. Thom e Gale.
Thom e eu estudávamos juntos e sempre fomos moradores da Costura. Foi nele que eu dei meu primeiro beijo, da minha parte foi mais pela curiosidade de ser beijada, e não por estar apaixonada. Ele sempre foi um bom amigo, divertido, engraçado, e nós nos beijávamos de vez em quando, eram beijos bons, mas nunca senti nada muito forte.
Quando ele começou a me pressionar para assumirmos um namoro, eu tive que recusar e me afastar, não gostava dele tanto assim para formamos um casal. Nós continuamos amigos, não tão próximos como antigamente, mas mantivemos um relacionamento educado e cordial.
E teve Gale.
E isso sim foi um erro enorme.
Conheço Gale desde menina, e acho que sempre fomos melhores amigos.
Ele é outro morador da costura e o seu pai, igual ao meu, morreu no mesmo acidente de trabalho. E mesmo sendo dois anos mais velho que eu, nós nos tornamos amigos.
Acabamos por dar suporte a dor um do outro. E caçávamos juntos na floresta ao redor do distrito doze. Crianças são proibidas de trabalhar pelas leis de Panem, mas quem assumiria as responsabilidades de nossos lares?
Caçávamos escondidos das autoridades do Doze, e juntos mantínhamos nossas famílias alimentadas.
Nós já eramos melhores amigos a algum tempo, e pouco depois de eu dar um basta nos meus beijos ocasionais com Thom. Gale, em uma manhã perfeita de caça, me beijou.
Foi um beijo muito bom, me lembro que deixou minhas pernas bambas, mas também foi somente isso que senti. Em nenhum momento minha mente foi desligada, e meu corpo assumiu o comando de minhas vontades.
Depois do ocorrido eu disse a ele que não estava interessada em nenhum relacionamento, que não tinha interesse em me apaixonar por ninguém, pois estava pensando em vir para a Capital, realizar o sonho de meu pai, de me ver formada. Enfim, expliquei para ele tudo o que eu já tinha explicado para Thom.
Gale deixou de falar comigo por quase um mês. E somente depois que nossa amizade voltou a ser reatada foi que descobri que ele estava saindo com minha amiga Madge. Foi bom voltarmos a nossa velha amizade, ele nunca mais tocou no ocorrido e eu tampouco.
Agora, o beijo de Peeta não me deixou apenas de pernas bambas. Eu pude sentir o beijo em cada célula de meu corpo, algo quente e forte que pulsava em meu peito, fazendo com que meu coração disparasse, e que meu sangue corresse por minhas veias pegando fogo.
Com um beijo, ele pode fazer com que eu esquecesse, por um tempo, a perda de meus entes queridos. Me fazendo esquecer das lembranças dolorosas e me dando algo em que eu pudesse me segurar em minha solidão.
E quando ele me fez adormecer em seus braços, eu me senti protegida e segura. Desde a morte de meu pai, eu não tinha me sentindo assim.
Sei que ainda estava adormecida quando Peeta teve que ir embora, porém ele me beijou de livre e espontânea vontade. Se eu achei que tinha exagerado nas sensações que tive quando eu o beijei, quando ele me beijou tudo voltou a acontecer com uma intensidade alarmante. Assim que seus lábios encostaram nos meus eu voltei a sentir meu coração disparar no peito e meu sangue queimar nas veias. Meu corpo inteiro pulsava por continuar.
O beijo foi muito breve.
E depois que ele se foi eu me senti mais sozinha que antes, meu coração ameaçava se partir de tristeza quando eu me virei na cama e senti o cheiro do perfume de Peeta no meu travesseiro.
Imediatamente abracei meu travesseiro com força e somente assim pude voltar a dormir.
Agora, uma semana depois do ocorrido estou eu, sentada sozinha no parque, divagando comigo mesmo, como uma otária.
Não importa se o beijo foi bom ou não. Tenho que colocar de vez na minha cabeça que Peeta tem namorada, e que eu não estou interessada em relacionamentos e nem em me apaixonar. Não foi para isso que eu lutei tanto para estudar aqui na Capital. Tenho muitas responsabilidades, muitas metas a serem alcançadas. Preciso estar totalmente focada nos meus estudos.
Haymitch Abernathy, aquele velho bêbado e irritante. Mentor da minha bolsa de estudos aqui na Capital, vai me matar se eu não passar com notas altas nas provas semestrais.
O engraçado é que ele também foi mentor da primeira graduação de Peeta aqui na Universidade, e se meu amigo pode aguentar Haymitch, eu também posso.
Aliás, Peeta e eu entramos em um acordo silencioso de não comentar nada do ocorrido. E durante essa semana foi como se o nosso beijo não tivesse acontecido.
As vezes, eu o pegava me olhando com aquele velho algo no olhar, ele tentava disfarçar, mas seus olhos queimavam em mim.
Eu mesma não podia deixar de desejar me jogar em seus braços e beijá-lo por uma vida toda, ou até ser consumida por esse fogo que arde sempre que eu me encontro sozinha ao lado dele.
Estou realmente preocupada com a viagem que os garotos estão combinando para o final do mês. Todos querem aproveitar o feriado da libertação de Panem, que foi o dia em que a guerra dos Distritos contra a Capital, há mais de vinte anos foi vencida, para irem ao Distrito Quatro, lar de Annie e Finnick, curtir o final de semana.
Por um lado estou muito ansiosa, pois será a primeira vez que eu verei o mar.
Annie, já me emprestou dois biquínis lindos e disse que eu podia ficar na casa de seus pais com ela e Clove. Eu comprei o que era estritamente necessário para realizar essa viagem, apenas um protetor solar e uma canga de praia.
Ainda bem que eu trabalho alguns finais de semana na lanchonete da Universidade.
Não pude resistir e acabei convidando Gale, ele disse que tentaria ir, mas é bem provável que não vá, pois está muito ocupado com sua especialização na Polícia do Distrito Dois.
Madge também não vai poder vir, ela me disse que tem muitos relatórios administrativos para terminar, já que a pouco tempo ela começou a trabalhar no gabinete de seu pai, na prefeitura do Distrito Doze.
Estou com tanta saudade de meus amigos mais antigos. Já faz sete meses que eu estou aqui no Capital.
Tão pouco tempo que conheço Peeta.
Fecho a minha expressão ao notar que novamente estou pensando em Peeta Mellark.
Peeta e seus olhos azuis. Peeta e seu sorriso de lado sensual. Peeta e seus braços fortes. Peeta e sua gentileza cavalheiresca. Peeta e seu perfume gostoso.
Chega! Grito dentro de minha cabeça. Pare de pensar em Peeta Mellark, Katniss.
— Katniss? — Ouço aquela voz me chamar, lentamente sinto que fico sem fôlego.
Como ele pode ter esse efeito sobre mim? Que encanto é esse?
Olho para trás e encaro e rosto do garoto que vem tirando o meu juízo nesses últimos meses.
— O que você faz aqui sozinha? — Peeta pergunta ao se aproximar de mim.
Pensando em nosso beijo, e em você. Penso, mas digo outra coisa.
— Estava tentando terminar aquela redação sobre os tributos, que Haymitch pediu na última aula. — Mostro o caderno em minhas mãos. — Mas, não consigo me concentrar.
Peeta se aproxima do lugar onde estou sentada e se senta ao meu lado na grama.
— Essa lição é para daqui a um mês. — Retruca ele ao sorrir de lado. Sinto meu coração disparar, e tenho que me concentrar muito para não encarar seus lábios bonitos.
— Eu sei, eu queria adiantar, mas não estou com muito inspiração.
— Ah, não. O que está distraindo os seus pensamentos da lição? — Pergunta ele de forma inocente, lentamente ele coloca uma mecha de meu cabelo atrás da minha orelha. Onde os dedos dele tocam a minha pele, sinto um rastro de fogo queimar.
É isso que está me distraindo, ele está me distraindo.
E o pior, é que Peeta parece não notar a química entre os nossos corpos, essa sincronia que acontece quando ele está perto de mim.
Será que ele não sente isso? Pergunto a mim mesmo.
— Eu apenas estou com saudades do meu distrito, de caçar, sabe...- Invento sem coragem de encará-lo, principalmente quando a minha face queima.
Ele gargalha alto e com um dedo em meu queixo, me força a encará-lo.
— Sei do que você está falando. — Sussurra ao me olhar, suas feições são suaves, mas seus olhos queimam. — Vem comigo, estou indo visitar uma das padarias do meu pai. Ela está fechada para reforma, mas eu tenho que treinar algumas receitas para apresentar na Universidade e meu pai permitiu que eu usasse a cozinha da padaria.
— Eu não sei, Peeta. — Digo ao afastar sua mão do meu queixo, tenho a sensação de que se ele continuar a me tocar eu vou beijá-lo novamente.
Nesse mesmo instante o meu estômago, esse maldito traidor, ronca alto.
Ao ficar em pé ele me estende uma mão.
— Não vou aceitar um não como resposta. Você vai ser minha cobaia hoje, Katniss. — Fala sorrindo.
Não posso resistir e depois de um suspiro eu permito que ele me puxe para cima.
Fecho o caderno que está em minhas mãos e o coloco dentro da minha mochila surrada.
Não demoramos a chegar a padaria de sua família. O Local, como ele disse, está fechado para reforma, e tem uma placa bem grande avisando isso.
Dentro da padaria, tudo está incrivelmente limpo. Mesas e cadeiras estão dispostas agradavelmente pelo espaço do pequeno salão, dando ao ambiente um ar aconchegador. Prateleiras vazias estão dispostas em várias paredes, e plásticos transparentes grandes cobrem alguns moveis.
— Vocês não estão em reforma? — Pergunto confusa, ao olhar o ambiente a minha volta.
Peeta tranca a porta atrás de nós e sorri, enquanto anda para os fundos do lugar, onde uma grande porta de aço está disposta.
Eu o acompanho olhando tudo a minha volta com grande curiosidade.
— Estamos sim. — Me responde ainda sorrindo, ele segura a porta que leva a cozinha para que eu passe. — Estamos nos últimos ajustes, provavelmente vamos abrir na final da próxima semana.
Não posso deixar de me encantar com a cozinha do lugar, é a maior cozinha que eu já entrei. Com janelas altas nas paredes, tudo é muito claro e acolhedor. E todos os utensílios são novos em folha.
Peeta entra depois de mim, e se move pela cozinha com total desprendimento.
Caminho pelo local com curiosidade, mas evito tocar nas coisas, não quero estragar nada, ou mexer em algo que não sou autorizada. Observo quando ele vai em direção a algumas sacolas sobre uma bancada de mármore escuro.
Ele começa a tirar várias coisas de dentro.
— Eu vou fazer um bolo de chocolate e pães doces de morango e creme branco. — Disse ele sorrindo, enquanto separa os ingredientes que vai utilizar. — Você quer me ajudar?
—Não. — Sou rápida em negar, não sou uma boa cozinheira. Eu até cozinho se sou obrigada, mas não tenho o dom para a coisa. — Eu prefiro assistir você fazer.
— Vamos, Katniss. — Pede ele. — Você pode me ajudar lavando os morangos e separando a farinha.
— Eu vou estragar tudo Peeta, não sei cozinhar. — Digo com um sorriso de deboche.
— Não vai não. — Responde ele me estendendo uma caixa cheia de morangos suculentos e apontando para a grande pia da cozinha.- Eu vou te ajudar.
Depois de um suspiro resignado, eu pego a caixa com os morangos e vou para a pia.
As próximas horas passam dessa forma, eu ajudando o mínimo possível, Peeta cozinhando. Não posso deixar de dizer que foi muito divertido.
Passamos a tarde rindo e conversando, ele reclama quando me vê comendo alguns morangos escondida, mas depois de rende e come alguns comigo. Eu fico abismada com sua habilidade na cozinha, a forma como ele mistura os ingredientes, com total confiança.
Não percebo, mas passo a suspirar muito mais que antes, e em alguns momentos sinto que o ar da cozinha é pouco para nós dois. E a todo o momento me pego pensando em inclinar o meu corpo no dele e o beijar apaixonadamente.
Sinto crescer dentro de mim, uma vontade incontrolável de provar que o que eu senti na semana passada ainda pode acontecer.
Algumas vezes sinto que não sou apenas eu que estou pensando em coisas pecaminosas. Mas, o que podemos fazer? Nada.
A não ser cruzar os braços e esperar que a vontade passe.
Não demoramos em colocar os pães de morango com creme branco dentro de um dos fornos para começar a assar.
— Você está com farinha no seu rosto. — Diz Peeta, apontando com seus dedos sujos de farinha para a minha bochecha.
Tento limpar o lugar, mas não consigo acertar onde está sujo, por isso acabo me sujando ainda mais o que faz com que ele tenha um pequeno ataque de riso.
— Não fique rindo de mim. — Em um surto de raiva e divertimento, passo a minha mão sobre a bancada cheia de farinha e depois a levo no rosto de Peeta. — Pronto, você está todo sujo também.
Os olhos dele estão arregalados de diversão.
— Você não devia ter feito isso. — Retruca ele, e seus olhos azuis faíscam com ameaça.
Não tenho tempo de correr quando ele me pega em um abraço apertado e passa o seu rosto no meu, me sujando ainda mais.
Meu riso é alto quando tento me soltar de seus braços, consigo que um de meus braços fiquem livres e logo estamos em um luta de farinha, ele me suja e eu o sujo. Nossas risadas se misturam enquanto corremos pela cozinha com as mãos sujas de farinha e os olhos brilhando pela brincadeira.
Eu sou bem rápida, mas Peeta é mais forte e assim que ele consegue colocar suas mãos em mim, ele não solta.
Estamos recuperando o fôlego de nossa brincadeira imprópria. O coração dele está tão disparado quanto o meu, eu encosto o meu rosto em seu peito para escutar melhor as batidas.
Peeta me encosta na bancada de mármore, enquanto me abraça, seu rosto está escondido nos meus cabelos. Eu sinto a sua respiração quente no meu pescoço.
Sei que a magia desse momento vai acabar, e por um instante não posso suportar me afastar dele.
Levanto o meu rosto de seu peito e o encaro.
Estou paralisada pelo momento.
Sem pensar direito no que estou fazendo, eu me inclino, e o beijo.
No momento em que nossos lábios se encostam eu sinto o corpo dele tremer junto ao meu.
No instante seguinte, sou tomada pelo meu ato, e me afasto dele.
O que eu estou fazendo? Pergunto aflita. Será possível que eu não consigo me afastar dele, controlar meus desejos?
Peeta deve me achar uma perdedora estúpida.
— Peeta, eu...- Não consigo terminar de falar, pois ele me puxa novamente para seus braços e me beija com força.
Existe uma urgência em seu beijo, quando ele me beija não permite que eu me afaste, ele toma tudo de mim. Praticamente exige que eu abra minha boca, para que sua língua explore a minha. Sua boca tem gosto de morango e açúcar. Seu corpo pressiona o meu e a tanta entrega que não posso resistir. Não posso frear minha vontade de retribuir com tudo o que tenho.
Uma de minhas mãos está em seu cabelo loiro, os fios são muito sedosos em meus dedos, e meu braço está em volta de seu pescoço. Mantenho ele preso junto a mim. Me sinto queimar lentamente por ele.
Nunca senti algo assim.
Os braços de Peeta estão em minha cintura, ele me mantém firmemente presa em seu corpo. Uma de suas mãos entra por dentro da minha camiseta e sinto sua palma quente em minhas costas.
É muito bom, a sensação é deliciosa.
Mas, me assusta.
Sei que Peeta é um homem experiente.
Eu não sou, vou fazer vinte anos e ainda sou virgem. E sei que devo parar com isso agora mesmo, antes que eu acabe perdendo minha virgindade na cozinha de uma padaria.
Juntando uma força de vontade que eu não sabia que tinha, eu me afasto de seus beijos. Estou ofegante e ele também.
— Ainda temos que fazer um bolo de floresta negra, lembra? — Digo a ele, seus lábios estão levemente inchados, os meus devem estar da mesma forma.
— Eu não me lembro de mais nada depois desse beijo. — Retruca ele sorrindo, seus braços ainda estão fortemente ao meu redor, me mantendo presa a ele. — Não sei nem o meu nome.
— Seu nome é Peeta Mellark, você é padeiro e está me assediando. — Falo rindo para ele. Não posso suportar a vontade e me permito distribuir beijos curtos em sua mandíbula.
Ele ri gostosamente e me encara divertido, a mão que está dentro da minha camiseta faz carinhos vagarosos em minha pele.
— Eu estou te assediando? — Pergunta incrédulo. — Você me beijou primeiro Katniss, e fica difícil não te assediar quando você me beija assim.
— A culpa é toda sua. — Respondo precipitadamente, meus lábios ainda encostados em sua pele. Sinto ele se arrepiar com minhas palavras, seus olhos estão levemente fechados ao desfrutar do meu carinho desajeitado.
Pois não faço a miníma ideia do que estou fazendo.
— Minha culpa? — Volta a me perguntar, sua outra mão também entra dentro na minha camiseta e ambas sobem pelas minhas costas me fazendo suspirar de prazer. — Como pode ser minha culpa?
Não respondo a sua pergunta, tento manter um pouco da minha dignidade, pois sei que já falei muito.
Ele percebe que não vou responder e volta a me apertar em seus braços, seus lábios descem nos meus e não tenho força para afastá-lo.
Depois de outro beijo arrebatador, minha mente nublada pelo desejo, sinto que fica cada vez mais difícil pensar com clareza.
— Por que é minha culpa? — Pergunta ele, sua voz é um veludo rouco e só isso já me tira um pouco de sério.
Tenho que forçar meus pensamentos a se ordenarem. Tudo fica mais difícil quando Peeta desce seus lábios para o meu pescoço e sua língua lambe a minha pele exposta.
Mordo meu lábio inferior para não gemer.
Minha nossa! Penso afoita e acalorada. Isso é ainda melhor.
— Vamos Katniss. — Insiste ele, sua boca próxima ao meu ouvido. — Por que é minha culpa?
— Hum...- Começo a dizer, meus pensamentos ainda nublados.- Você fica me olhando com esses olhos azuis, e esse sorriso. É tudo sua culpa.
Sinto ele rindo no meu pescoço, depois sua cabeça sobe e ele volta a me encarar.
Peeta me presenteia com o sorriso mais sacana que eu já vi em seu rosto. Depois me beija novamente. Seus dentes mordem de leve o meu lábio inferior.
De repente ele se afasta, me solta e se apoia na bancada onde estou encostada. Seus movimentos são tão abruptos que me deixam desconcertada.
— Vamos, Katniss. Temos que terminar um bolo de floresta negra. — Diz ele, seus olhos ainda queimam nos meus, mas ele tem um ar brincalhão em volta de si.
Eu permito que um riso salte de meus lábios e depois me viro para a bancada.
Voltamos a trabalhar, ele fazendo todo o trabalho importante e eu ajudando o mínimo possível, mas dessa vez existe algo diferente no ar.
Peeta não permite que eu me afasta mais de meio metro dele, e a todo momento ele me toca. Seus lábios estão lá também. As vezes no meu rosto, as vezes no meu pescoço em um beijo rápido, outras vezes ele pega uma de minhas mãos e a beija.
Lembro de meu pai fazer a mesma coisa com a minha mãe. E isso me desconcerta.
Mas o melhor ainda é quando ele me encosta em algum lugar e me rouba um beijo quente.
Estamos agindo como namorados que não somos.
Isso me entristece, mas não quero estragar esse momento.
Estávamos envolvidos em um longo beijo molhado quando eu escuto uma agitação fora da cozinha.
Com presa, eu me afasto de Peeta que logo reclama e tenta me pegar novamente, mas eu aponto para fora da cozinha e ele parece notar pela primeira vez o barulho.
Como eu tenho ouvidos de caçadora, acabo escutando coisas com mais facilidade.
No mesmo momento a porta da cozinha se abre e um homem loiro entra.
Ele nos olha e parece perplexo por alguns segundos. Depois coloca uma máscara de indiferença no rosto e sorri para nós.
—Filho. Achei que você estaria sozinho aqui. — Diz o senhor, sua voz grossa retumbando no ambiente.
Ele é o pai de Peeta. Penso afoita, pois as mãos de seu filho ainda estavam na minha cintura. Faço questão me de afastar e posso sentir meu rosto queimar de vergonha.
— Pai. — Responde Peeta, acordando de seu estupor. — Eu não sabia que você viria aqui hoje.
— Depois que você me disse que usaria a cozinha daqui eu achei que podia ajudar um pouco. — Disse o senhor ao se aproximar sorrindo. — Não vai me apresentar sua amiga?
— Claro. — Diz Peeta, ele era muito melhor em disfarçar um embaraço. — Pai, essa é Katniss Everdeen. Katniss, esse é meu pai.
— Rodrick Mellark. — Fala o senhor ao me estender uma de suas mãos.
Depois de retribuir o cumprimento, ainda não posso deixar de me sentir envergonhada.
— É um prazer conhecê-lo Sr. Mellark. — Falei timidamente. — Peeta sempre me falou muito bem de você.
— É muito bom ouvir isso Katniss. Posso te chamar assim? — Pergunta o Sr. Mellark.
— Claro que sim. — Respondo ainda vermelha, e não posso acreditar que quase fui pega em uma situação comprometedora com o filho do padeiro.
— Desculpe a minha curiosidade, mas você é filha de Lizbeth Everdeen, do Distrito Doze? — Perguntou o pai de Peeta.
Agora que pai e o filho estavam lado a lado, eu podia notar a semelhança entre eles, os mesmos olhos azuis, o mesmo queixo quadrado, a mesma postura orgulhosa, o mesmo jeito atarracado de ser. O cabelo loiro de ambos era da mesma cor, exceto que os do Sr. Mellark já estavam grisalhos.
— Sim, Lizbeth é minha mãe, e sou do Distrito Doze. — Respondo sorrindo, e me amaldiçoo por sempre ser péssima em deixar uma boa impressão no primeiro encontro. — Você a conheceu, Sr. Mellark?
— Sim, eu a conheci. Não foi somente pelo nome que eu a reconheci, você se parece muito com sua mãe, exceto o cabelo e os olhos escuros. — Elogiou o pai. — Como ela está?
Peeta permanecia em silêncio ao lado de seu pai.
— Muito bem, eu acho. — Respondi o mais sincera possível, fazia um tempo que não falava com minha mãe.
— Katniss está estudando na mesma Universidade que eu, ela ganhou uma bolsa de estudos. — Contou Peeta ao pai.
— Uma bolsa? — O Sr. Mellark parecia surpreso. — Você deve ser uma jovem muito inteligente.
— Nem tanto. — Começou a dizer, mas foi interrompida por Peeta.
— Ela é brilhante pai. — A voz de Peeta parecia orgulhosa.
Pude sentir minhas bochechas queimarem novamente. Ao olhar para Peeta, eu podia ver os lábios dele inchados e sabia que os meus estava da mesma forma.
— Bom, eu tenho que ir agora. — Disse de supetão ao caminhar até minha bolsa que estava sobre um banco. — Tenho que terminar minha redação para o Haymitch.
Logo voltou a se aproximar de onde pai e filho a estavam encarando.
O rosto do Sr. Mellark parecia divertido com toda a situação. Já Peeta, a olhava com apreensão.
— Você não precisa ir agora Katniss. — Pediu Peeta. — Vamos terminar o bolo.
— Não posso, já está ficando tarde, acho melhor ir embora. — Falou sorrindo envergonhada. — Sr. Mellark foi um prazer conhecê-lo. Peeta pode me levar até a porta?
— Claro. — Respondeu ele ao me seguir.
Assim que eles saíram da cozinha Peeta a segurou pelo braço.
— Eu sinto muito, não sabia que meu pai viria aqui. — Disse ele ao me olhar.
Eu apenas aceno com a cabeça e continuou a andar até a porta da padaria.
— Eu sei Peeta. — Sussurrou ao olhá-lo, minha mão vai até o rosto dele. — Espero que isso não prejudique você.
— Não vai Katniss. — E sem esperar por uma resposta minha, ele se inclina e volta a me beijar.
Foi um alívio sentir meus músculos retesados relaxarem com o beijo. Os braços dele eram reconfortantes e seguros.
— Nos vemos depois? — Tive que perguntar ao roçar os meus lábios nos dele.
— Sim. Nos vemos depois.
Passado
Katniss
"...Cause ive tried to do this right in your own time
I've been telling you with my eyes, my heart's on fire,
Why dont you realise?..."
Corinne Bailey Rae
***
Eu beijei Peeta Mellark.
Caramba. Penso aflita. Eu realmente beijei Peeta e isso foi um tremendo erro.
Um erro enorme.
Ok. Agora eu estou exagerando e sendo absurda.
Dane-se! Grito comigo em pensamento. Eu não consigo parar de pensar nisso.
E o que mais confunde a minha mente é que Peeta Mellark me beijou de volta.
Por que será que ele fez isso? Será que ficou com pena ao me ver catatônica?
Na hora não pareceu isso. E eu não sei porque iniciei aquele beijo.
Ele é meu amigo. E tenho que admitir que aqui na Capital, sem Gale ao meu lado, em pouco tempo Peeta se tornou uma das pessoas mais importantes na minha vida.
E eu acabo me sentindo a pessoa mais confusa do mundo por isso. O que deu na minha cabeça para eu fazer aquilo?
Ok. Não posso ser hipócrita e dizer que não gostei do beijo, ou que não sabia o que estava fazendo.
Se eu for bem sincera comigo mesmo, vou admitir que beijá-lo já era uma coisa que eu queria fazer a algum tempo.
E no momento em que ele me abraçou, eu me senti derreter em seus braços, foi como se minhas angústias e sentimentos ruins fossem lavados de meu corpo. Seus braços fortes e quentes espantaram o meu pesar.
Quando encarei seus belos olhos azuis, tão sensíveis e gentis, olhos que as vezes queimavam nos meus com algo que eu não sabia nomear, sendo que esse algo estava direcionado apenas a mim. Peeta tinha um certo olhar que era somente meu.
Um olhar que fazia meu corpo estremecer, e sempre que chamava o meu nome me fazia ficar sem fôlego. Peeta me fazia desejar algo que eu não tinha parado par analisar e pensar direito.
E naquele dia, os seus olhos azuis estavam daquela forma, o preto de suas pupilas estava dilatado, fazendo com que a cor azul ficasse ainda mais forte, mais intensa. Eu senti como se estivesse saindo do meu próprio corpo e por um momento eu afrouxei as rédeas de minhas vontades, que sempre estavam devidamente presas, permitindo que meu corpo e meus desejos ficassem livres para fazerem o que quisessem.
O resultado?
Um beijo de tirar o folego. Muito melhor do que eu esperava.
E eu esperava aquele beijo?
Bom, não posso dizer que não, pois mentiria terrivelmente. Já tinha, em ocasiões passadas, imaginado secretamente como seria beijá-lo. Posso ser amiga dele, mas ele ainda é um homem atraente.
Qual seria a sensação de seus lábios nos meus, seus braços me prendendo junto ao seu corpo. Mas, sempre que tinha esses pensamentos eu imediatamente os bloqueava.
Peeta tinha namorada e eu não estou procurando um romance com ninguém.
Entretanto, a verdadeira sensação de estar nos braços dele foi inigualável. Algo de outro mundo. Sei que é muito clichê dizer que nunca experimentei nada tão forte em toda a minha vida, mas essa é a verdade.
Não que eu seja uma especialista em relacionamentos, eu sei que não sou. E sendo bem sincera, nunca estive em um relacionamento sério, com ninguém. Apenas me permiti alguns beijos, quando mais nova.
E somente com dois rapazes, ambos do distrito doze. Thom e Gale.
Thom e eu estudávamos juntos e sempre fomos moradores da Costura. Foi nele que eu dei meu primeiro beijo, da minha parte foi mais pela curiosidade de ser beijada, e não por estar apaixonada. Ele sempre foi um bom amigo, divertido, engraçado, e nós nos beijávamos de vez em quando, eram beijos bons, mas nunca senti nada muito forte.
Quando ele começou a me pressionar para assumirmos um namoro, eu tive que recusar e me afastar, não gostava dele tanto assim para formamos um casal. Nós continuamos amigos, não tão próximos como antigamente, mas mantivemos um relacionamento educado e cordial.
E teve Gale.
E isso sim foi um erro enorme.
Conheço Gale desde menina, e acho que sempre fomos melhores amigos.
Ele é outro morador da costura e o seu pai, igual ao meu, morreu no mesmo acidente de trabalho. E mesmo sendo dois anos mais velho que eu, nós nos tornamos amigos.
Acabamos por dar suporte a dor um do outro. E caçávamos juntos na floresta ao redor do distrito doze. Crianças são proibidas de trabalhar pelas leis de Panem, mas quem assumiria as responsabilidades de nossos lares?
Caçávamos escondidos das autoridades do Doze, e juntos mantínhamos nossas famílias alimentadas.
Nós já eramos melhores amigos a algum tempo, e pouco depois de eu dar um basta nos meus beijos ocasionais com Thom. Gale, em uma manhã perfeita de caça, me beijou.
Foi um beijo muito bom, me lembro que deixou minhas pernas bambas, mas também foi somente isso que senti. Em nenhum momento minha mente foi desligada, e meu corpo assumiu o comando de minhas vontades.
Depois do ocorrido eu disse a ele que não estava interessada em nenhum relacionamento, que não tinha interesse em me apaixonar por ninguém, pois estava pensando em vir para a Capital, realizar o sonho de meu pai, de me ver formada. Enfim, expliquei para ele tudo o que eu já tinha explicado para Thom.
Gale deixou de falar comigo por quase um mês. E somente depois que nossa amizade voltou a ser reatada foi que descobri que ele estava saindo com minha amiga Madge. Foi bom voltarmos a nossa velha amizade, ele nunca mais tocou no ocorrido e eu tampouco.
Agora, o beijo de Peeta não me deixou apenas de pernas bambas. Eu pude sentir o beijo em cada célula de meu corpo, algo quente e forte que pulsava em meu peito, fazendo com que meu coração disparasse, e que meu sangue corresse por minhas veias pegando fogo.
Com um beijo, ele pode fazer com que eu esquecesse, por um tempo, a perda de meus entes queridos. Me fazendo esquecer das lembranças dolorosas e me dando algo em que eu pudesse me segurar em minha solidão.
E quando ele me fez adormecer em seus braços, eu me senti protegida e segura. Desde a morte de meu pai, eu não tinha me sentindo assim.
Sei que ainda estava adormecida quando Peeta teve que ir embora, porém ele me beijou de livre e espontânea vontade. Se eu achei que tinha exagerado nas sensações que tive quando eu o beijei, quando ele me beijou tudo voltou a acontecer com uma intensidade alarmante. Assim que seus lábios encostaram nos meus eu voltei a sentir meu coração disparar no peito e meu sangue queimar nas veias. Meu corpo inteiro pulsava por continuar.
O beijo foi muito breve.
E depois que ele se foi eu me senti mais sozinha que antes, meu coração ameaçava se partir de tristeza quando eu me virei na cama e senti o cheiro do perfume de Peeta no meu travesseiro.
Imediatamente abracei meu travesseiro com força e somente assim pude voltar a dormir.
Agora, uma semana depois do ocorrido estou eu, sentada sozinha no parque, divagando comigo mesmo, como uma otária.
Não importa se o beijo foi bom ou não. Tenho que colocar de vez na minha cabeça que Peeta tem namorada, e que eu não estou interessada em relacionamentos e nem em me apaixonar. Não foi para isso que eu lutei tanto para estudar aqui na Capital. Tenho muitas responsabilidades, muitas metas a serem alcançadas. Preciso estar totalmente focada nos meus estudos.
Haymitch Abernathy, aquele velho bêbado e irritante. Mentor da minha bolsa de estudos aqui na Capital, vai me matar se eu não passar com notas altas nas provas semestrais.
O engraçado é que ele também foi mentor da primeira graduação de Peeta aqui na Universidade, e se meu amigo pode aguentar Haymitch, eu também posso.
Aliás, Peeta e eu entramos em um acordo silencioso de não comentar nada do ocorrido. E durante essa semana foi como se o nosso beijo não tivesse acontecido.
As vezes, eu o pegava me olhando com aquele velho algo no olhar, ele tentava disfarçar, mas seus olhos queimavam em mim.
Eu mesma não podia deixar de desejar me jogar em seus braços e beijá-lo por uma vida toda, ou até ser consumida por esse fogo que arde sempre que eu me encontro sozinha ao lado dele.
Estou realmente preocupada com a viagem que os garotos estão combinando para o final do mês. Todos querem aproveitar o feriado da libertação de Panem, que foi o dia em que a guerra dos Distritos contra a Capital, há mais de vinte anos foi vencida, para irem ao Distrito Quatro, lar de Annie e Finnick, curtir o final de semana.
Por um lado estou muito ansiosa, pois será a primeira vez que eu verei o mar.
Annie, já me emprestou dois biquínis lindos e disse que eu podia ficar na casa de seus pais com ela e Clove. Eu comprei o que era estritamente necessário para realizar essa viagem, apenas um protetor solar e uma canga de praia.
Ainda bem que eu trabalho alguns finais de semana na lanchonete da Universidade.
Não pude resistir e acabei convidando Gale, ele disse que tentaria ir, mas é bem provável que não vá, pois está muito ocupado com sua especialização na Polícia do Distrito Dois.
Madge também não vai poder vir, ela me disse que tem muitos relatórios administrativos para terminar, já que a pouco tempo ela começou a trabalhar no gabinete de seu pai, na prefeitura do Distrito Doze.
Estou com tanta saudade de meus amigos mais antigos. Já faz sete meses que eu estou aqui no Capital.
Tão pouco tempo que conheço Peeta.
Fecho a minha expressão ao notar que novamente estou pensando em Peeta Mellark.
Peeta e seus olhos azuis. Peeta e seu sorriso de lado sensual. Peeta e seus braços fortes. Peeta e sua gentileza cavalheiresca. Peeta e seu perfume gostoso.
Chega! Grito dentro de minha cabeça. Pare de pensar em Peeta Mellark, Katniss.
— Katniss? — Ouço aquela voz me chamar, lentamente sinto que fico sem fôlego.
Como ele pode ter esse efeito sobre mim? Que encanto é esse?
Olho para trás e encaro e rosto do garoto que vem tirando o meu juízo nesses últimos meses.
— O que você faz aqui sozinha? — Peeta pergunta ao se aproximar de mim.
Pensando em nosso beijo, e em você. Penso, mas digo outra coisa.
— Estava tentando terminar aquela redação sobre os tributos, que Haymitch pediu na última aula. — Mostro o caderno em minhas mãos. — Mas, não consigo me concentrar.
Peeta se aproxima do lugar onde estou sentada e se senta ao meu lado na grama.
— Essa lição é para daqui a um mês. — Retruca ele ao sorrir de lado. Sinto meu coração disparar, e tenho que me concentrar muito para não encarar seus lábios bonitos.
— Eu sei, eu queria adiantar, mas não estou com muito inspiração.
— Ah, não. O que está distraindo os seus pensamentos da lição? — Pergunta ele de forma inocente, lentamente ele coloca uma mecha de meu cabelo atrás da minha orelha. Onde os dedos dele tocam a minha pele, sinto um rastro de fogo queimar.
É isso que está me distraindo, ele está me distraindo.
E o pior, é que Peeta parece não notar a química entre os nossos corpos, essa sincronia que acontece quando ele está perto de mim.
Será que ele não sente isso? Pergunto a mim mesmo.
— Eu apenas estou com saudades do meu distrito, de caçar, sabe...- Invento sem coragem de encará-lo, principalmente quando a minha face queima.
Ele gargalha alto e com um dedo em meu queixo, me força a encará-lo.
— Sei do que você está falando. — Sussurra ao me olhar, suas feições são suaves, mas seus olhos queimam. — Vem comigo, estou indo visitar uma das padarias do meu pai. Ela está fechada para reforma, mas eu tenho que treinar algumas receitas para apresentar na Universidade e meu pai permitiu que eu usasse a cozinha da padaria.
— Eu não sei, Peeta. — Digo ao afastar sua mão do meu queixo, tenho a sensação de que se ele continuar a me tocar eu vou beijá-lo novamente.
Nesse mesmo instante o meu estômago, esse maldito traidor, ronca alto.
Ao ficar em pé ele me estende uma mão.
— Não vou aceitar um não como resposta. Você vai ser minha cobaia hoje, Katniss. — Fala sorrindo.
Não posso resistir e depois de um suspiro eu permito que ele me puxe para cima.
Fecho o caderno que está em minhas mãos e o coloco dentro da minha mochila surrada.
Não demoramos a chegar a padaria de sua família. O Local, como ele disse, está fechado para reforma, e tem uma placa bem grande avisando isso.
Dentro da padaria, tudo está incrivelmente limpo. Mesas e cadeiras estão dispostas agradavelmente pelo espaço do pequeno salão, dando ao ambiente um ar aconchegador. Prateleiras vazias estão dispostas em várias paredes, e plásticos transparentes grandes cobrem alguns moveis.
— Vocês não estão em reforma? — Pergunto confusa, ao olhar o ambiente a minha volta.
Peeta tranca a porta atrás de nós e sorri, enquanto anda para os fundos do lugar, onde uma grande porta de aço está disposta.
Eu o acompanho olhando tudo a minha volta com grande curiosidade.
— Estamos sim. — Me responde ainda sorrindo, ele segura a porta que leva a cozinha para que eu passe. — Estamos nos últimos ajustes, provavelmente vamos abrir na final da próxima semana.
Não posso deixar de me encantar com a cozinha do lugar, é a maior cozinha que eu já entrei. Com janelas altas nas paredes, tudo é muito claro e acolhedor. E todos os utensílios são novos em folha.
Peeta entra depois de mim, e se move pela cozinha com total desprendimento.
Caminho pelo local com curiosidade, mas evito tocar nas coisas, não quero estragar nada, ou mexer em algo que não sou autorizada. Observo quando ele vai em direção a algumas sacolas sobre uma bancada de mármore escuro.
Ele começa a tirar várias coisas de dentro.
— Eu vou fazer um bolo de chocolate e pães doces de morango e creme branco. — Disse ele sorrindo, enquanto separa os ingredientes que vai utilizar. — Você quer me ajudar?
—Não. — Sou rápida em negar, não sou uma boa cozinheira. Eu até cozinho se sou obrigada, mas não tenho o dom para a coisa. — Eu prefiro assistir você fazer.
— Vamos, Katniss. — Pede ele. — Você pode me ajudar lavando os morangos e separando a farinha.
— Eu vou estragar tudo Peeta, não sei cozinhar. — Digo com um sorriso de deboche.
— Não vai não. — Responde ele me estendendo uma caixa cheia de morangos suculentos e apontando para a grande pia da cozinha.- Eu vou te ajudar.
Depois de um suspiro resignado, eu pego a caixa com os morangos e vou para a pia.
As próximas horas passam dessa forma, eu ajudando o mínimo possível, Peeta cozinhando. Não posso deixar de dizer que foi muito divertido.
Passamos a tarde rindo e conversando, ele reclama quando me vê comendo alguns morangos escondida, mas depois de rende e come alguns comigo. Eu fico abismada com sua habilidade na cozinha, a forma como ele mistura os ingredientes, com total confiança.
Não percebo, mas passo a suspirar muito mais que antes, e em alguns momentos sinto que o ar da cozinha é pouco para nós dois. E a todo o momento me pego pensando em inclinar o meu corpo no dele e o beijar apaixonadamente.
Sinto crescer dentro de mim, uma vontade incontrolável de provar que o que eu senti na semana passada ainda pode acontecer.
Algumas vezes sinto que não sou apenas eu que estou pensando em coisas pecaminosas. Mas, o que podemos fazer? Nada.
A não ser cruzar os braços e esperar que a vontade passe.
Não demoramos em colocar os pães de morango com creme branco dentro de um dos fornos para começar a assar.
— Você está com farinha no seu rosto. — Diz Peeta, apontando com seus dedos sujos de farinha para a minha bochecha.
Tento limpar o lugar, mas não consigo acertar onde está sujo, por isso acabo me sujando ainda mais o que faz com que ele tenha um pequeno ataque de riso.
— Não fique rindo de mim. — Em um surto de raiva e divertimento, passo a minha mão sobre a bancada cheia de farinha e depois a levo no rosto de Peeta. — Pronto, você está todo sujo também.
Os olhos dele estão arregalados de diversão.
— Você não devia ter feito isso. — Retruca ele, e seus olhos azuis faíscam com ameaça.
Não tenho tempo de correr quando ele me pega em um abraço apertado e passa o seu rosto no meu, me sujando ainda mais.
Meu riso é alto quando tento me soltar de seus braços, consigo que um de meus braços fiquem livres e logo estamos em um luta de farinha, ele me suja e eu o sujo. Nossas risadas se misturam enquanto corremos pela cozinha com as mãos sujas de farinha e os olhos brilhando pela brincadeira.
Eu sou bem rápida, mas Peeta é mais forte e assim que ele consegue colocar suas mãos em mim, ele não solta.
Estamos recuperando o fôlego de nossa brincadeira imprópria. O coração dele está tão disparado quanto o meu, eu encosto o meu rosto em seu peito para escutar melhor as batidas.
Peeta me encosta na bancada de mármore, enquanto me abraça, seu rosto está escondido nos meus cabelos. Eu sinto a sua respiração quente no meu pescoço.
Sei que a magia desse momento vai acabar, e por um instante não posso suportar me afastar dele.
Levanto o meu rosto de seu peito e o encaro.
Estou paralisada pelo momento.
Sem pensar direito no que estou fazendo, eu me inclino, e o beijo.
No momento em que nossos lábios se encostam eu sinto o corpo dele tremer junto ao meu.
No instante seguinte, sou tomada pelo meu ato, e me afasto dele.
O que eu estou fazendo? Pergunto aflita. Será possível que eu não consigo me afastar dele, controlar meus desejos?
Peeta deve me achar uma perdedora estúpida.
— Peeta, eu...- Não consigo terminar de falar, pois ele me puxa novamente para seus braços e me beija com força.
Existe uma urgência em seu beijo, quando ele me beija não permite que eu me afaste, ele toma tudo de mim. Praticamente exige que eu abra minha boca, para que sua língua explore a minha. Sua boca tem gosto de morango e açúcar. Seu corpo pressiona o meu e a tanta entrega que não posso resistir. Não posso frear minha vontade de retribuir com tudo o que tenho.
Uma de minhas mãos está em seu cabelo loiro, os fios são muito sedosos em meus dedos, e meu braço está em volta de seu pescoço. Mantenho ele preso junto a mim. Me sinto queimar lentamente por ele.
Nunca senti algo assim.
Os braços de Peeta estão em minha cintura, ele me mantém firmemente presa em seu corpo. Uma de suas mãos entra por dentro da minha camiseta e sinto sua palma quente em minhas costas.
É muito bom, a sensação é deliciosa.
Mas, me assusta.
Sei que Peeta é um homem experiente.
Eu não sou, vou fazer vinte anos e ainda sou virgem. E sei que devo parar com isso agora mesmo, antes que eu acabe perdendo minha virgindade na cozinha de uma padaria.
Juntando uma força de vontade que eu não sabia que tinha, eu me afasto de seus beijos. Estou ofegante e ele também.
— Ainda temos que fazer um bolo de floresta negra, lembra? — Digo a ele, seus lábios estão levemente inchados, os meus devem estar da mesma forma.
— Eu não me lembro de mais nada depois desse beijo. — Retruca ele sorrindo, seus braços ainda estão fortemente ao meu redor, me mantendo presa a ele. — Não sei nem o meu nome.
— Seu nome é Peeta Mellark, você é padeiro e está me assediando. — Falo rindo para ele. Não posso suportar a vontade e me permito distribuir beijos curtos em sua mandíbula.
Ele ri gostosamente e me encara divertido, a mão que está dentro da minha camiseta faz carinhos vagarosos em minha pele.
— Eu estou te assediando? — Pergunta incrédulo. — Você me beijou primeiro Katniss, e fica difícil não te assediar quando você me beija assim.
— A culpa é toda sua. — Respondo precipitadamente, meus lábios ainda encostados em sua pele. Sinto ele se arrepiar com minhas palavras, seus olhos estão levemente fechados ao desfrutar do meu carinho desajeitado.
Pois não faço a miníma ideia do que estou fazendo.
— Minha culpa? — Volta a me perguntar, sua outra mão também entra dentro na minha camiseta e ambas sobem pelas minhas costas me fazendo suspirar de prazer. — Como pode ser minha culpa?
Não respondo a sua pergunta, tento manter um pouco da minha dignidade, pois sei que já falei muito.
Ele percebe que não vou responder e volta a me apertar em seus braços, seus lábios descem nos meus e não tenho força para afastá-lo.
Depois de outro beijo arrebatador, minha mente nublada pelo desejo, sinto que fica cada vez mais difícil pensar com clareza.
— Por que é minha culpa? — Pergunta ele, sua voz é um veludo rouco e só isso já me tira um pouco de sério.
Tenho que forçar meus pensamentos a se ordenarem. Tudo fica mais difícil quando Peeta desce seus lábios para o meu pescoço e sua língua lambe a minha pele exposta.
Mordo meu lábio inferior para não gemer.
Minha nossa! Penso afoita e acalorada. Isso é ainda melhor.
— Vamos Katniss. — Insiste ele, sua boca próxima ao meu ouvido. — Por que é minha culpa?
— Hum...- Começo a dizer, meus pensamentos ainda nublados.- Você fica me olhando com esses olhos azuis, e esse sorriso. É tudo sua culpa.
Sinto ele rindo no meu pescoço, depois sua cabeça sobe e ele volta a me encarar.
Peeta me presenteia com o sorriso mais sacana que eu já vi em seu rosto. Depois me beija novamente. Seus dentes mordem de leve o meu lábio inferior.
De repente ele se afasta, me solta e se apoia na bancada onde estou encostada. Seus movimentos são tão abruptos que me deixam desconcertada.
— Vamos, Katniss. Temos que terminar um bolo de floresta negra. — Diz ele, seus olhos ainda queimam nos meus, mas ele tem um ar brincalhão em volta de si.
Eu permito que um riso salte de meus lábios e depois me viro para a bancada.
Voltamos a trabalhar, ele fazendo todo o trabalho importante e eu ajudando o mínimo possível, mas dessa vez existe algo diferente no ar.
Peeta não permite que eu me afasta mais de meio metro dele, e a todo momento ele me toca. Seus lábios estão lá também. As vezes no meu rosto, as vezes no meu pescoço em um beijo rápido, outras vezes ele pega uma de minhas mãos e a beija.
Lembro de meu pai fazer a mesma coisa com a minha mãe. E isso me desconcerta.
Mas o melhor ainda é quando ele me encosta em algum lugar e me rouba um beijo quente.
Estamos agindo como namorados que não somos.
Isso me entristece, mas não quero estragar esse momento.
Estávamos envolvidos em um longo beijo molhado quando eu escuto uma agitação fora da cozinha.
Com presa, eu me afasto de Peeta que logo reclama e tenta me pegar novamente, mas eu aponto para fora da cozinha e ele parece notar pela primeira vez o barulho.
Como eu tenho ouvidos de caçadora, acabo escutando coisas com mais facilidade.
No mesmo momento a porta da cozinha se abre e um homem loiro entra.
Ele nos olha e parece perplexo por alguns segundos. Depois coloca uma máscara de indiferença no rosto e sorri para nós.
—Filho. Achei que você estaria sozinho aqui. — Diz o senhor, sua voz grossa retumbando no ambiente.
Ele é o pai de Peeta. Penso afoita, pois as mãos de seu filho ainda estavam na minha cintura. Faço questão me de afastar e posso sentir meu rosto queimar de vergonha.
— Pai. — Responde Peeta, acordando de seu estupor. — Eu não sabia que você viria aqui hoje.
— Depois que você me disse que usaria a cozinha daqui eu achei que podia ajudar um pouco. — Disse o senhor ao se aproximar sorrindo. — Não vai me apresentar sua amiga?
— Claro. — Diz Peeta, ele era muito melhor em disfarçar um embaraço. — Pai, essa é Katniss Everdeen. Katniss, esse é meu pai.
— Rodrick Mellark. — Fala o senhor ao me estender uma de suas mãos.
Depois de retribuir o cumprimento, ainda não posso deixar de me sentir envergonhada.
— É um prazer conhecê-lo Sr. Mellark. — Falei timidamente. — Peeta sempre me falou muito bem de você.
— É muito bom ouvir isso Katniss. Posso te chamar assim? — Pergunta o Sr. Mellark.
— Claro que sim. — Respondo ainda vermelha, e não posso acreditar que quase fui pega em uma situação comprometedora com o filho do padeiro.
— Desculpe a minha curiosidade, mas você é filha de Lizbeth Everdeen, do Distrito Doze? — Perguntou o pai de Peeta.
Agora que pai e o filho estavam lado a lado, eu podia notar a semelhança entre eles, os mesmos olhos azuis, o mesmo queixo quadrado, a mesma postura orgulhosa, o mesmo jeito atarracado de ser. O cabelo loiro de ambos era da mesma cor, exceto que os do Sr. Mellark já estavam grisalhos.
— Sim, Lizbeth é minha mãe, e sou do Distrito Doze. — Respondo sorrindo, e me amaldiçoo por sempre ser péssima em deixar uma boa impressão no primeiro encontro. — Você a conheceu, Sr. Mellark?
— Sim, eu a conheci. Não foi somente pelo nome que eu a reconheci, você se parece muito com sua mãe, exceto o cabelo e os olhos escuros. — Elogiou o pai. — Como ela está?
Peeta permanecia em silêncio ao lado de seu pai.
— Muito bem, eu acho. — Respondi o mais sincera possível, fazia um tempo que não falava com minha mãe.
— Katniss está estudando na mesma Universidade que eu, ela ganhou uma bolsa de estudos. — Contou Peeta ao pai.
— Uma bolsa? — O Sr. Mellark parecia surpreso. — Você deve ser uma jovem muito inteligente.
— Nem tanto. — Começou a dizer, mas foi interrompida por Peeta.
— Ela é brilhante pai. — A voz de Peeta parecia orgulhosa.
Pude sentir minhas bochechas queimarem novamente. Ao olhar para Peeta, eu podia ver os lábios dele inchados e sabia que os meus estava da mesma forma.
— Bom, eu tenho que ir agora. — Disse de supetão ao caminhar até minha bolsa que estava sobre um banco. — Tenho que terminar minha redação para o Haymitch.
Logo voltou a se aproximar de onde pai e filho a estavam encarando.
O rosto do Sr. Mellark parecia divertido com toda a situação. Já Peeta, a olhava com apreensão.
— Você não precisa ir agora Katniss. — Pediu Peeta. — Vamos terminar o bolo.
— Não posso, já está ficando tarde, acho melhor ir embora. — Falou sorrindo envergonhada. — Sr. Mellark foi um prazer conhecê-lo. Peeta pode me levar até a porta?
— Claro. — Respondeu ele ao me seguir.
Assim que eles saíram da cozinha Peeta a segurou pelo braço.
— Eu sinto muito, não sabia que meu pai viria aqui. — Disse ele ao me olhar.
Eu apenas aceno com a cabeça e continuou a andar até a porta da padaria.
— Eu sei Peeta. — Sussurrou ao olhá-lo, minha mão vai até o rosto dele. — Espero que isso não prejudique você.
— Não vai Katniss. — E sem esperar por uma resposta minha, ele se inclina e volta a me beijar.
Foi um alívio sentir meus músculos retesados relaxarem com o beijo. Os braços dele eram reconfortantes e seguros.
— Nos vemos depois? — Tive que perguntar ao roçar os meus lábios nos dele.
— Sim. Nos vemos depois.
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