Amarras do Passado
29 All this time - OneRepublic
Notas iniciais
Dias atuais
Peeta
"...All this time We were waiting for each other
All this time I was waiting for you
We got all these words
Can't waste them on another
So I'm straight in a straight line
running back to you..."
***
– Finnick, você enlouqueceu. — Digo para ele ao dirigir o meu carro. Meus olhos estão atentos no trânsito na minha frente.
– Enlouqueci uma porra. — Retrucou ele rispidamente. Seus olhos verdes estavam vermelhos nas extremidades, mostrando que ele ou estava resfriado, ou tinha chorado em algum momento. Adivinha qual era a alternativa certa? Sim, ele tinha chorado mais cedo.
Vou deixar mais claro. Finnick Odair tinha chorado pelas últimas horas em que estivemos juntos. O motivo? Ele de algum modo, colocou na cabeça que Annie, sua esposa, o estava traindo.
Eu sei que é ridículo até cogitar essa possibilidade. Entretanto ele é um teimoso e eu quis rir alto em vários momentos, só em pensar que essa cara de quase dois metros de altura, com a aparência de um modelo de cueca, que por onde andava deixava mulher atrás de mulher de queixo caído, rosto vermelho e suspirando por ele, agora estava chorando igual a um recém nascido por desconfiar da traição da esposa.
E eu conheço a esposa dele, ela é uma boa amiga. Annie é uma das mulheres mais adoráveis que eu já conheci, ela é doce, educada, bonita e totalmente apaixonada por meu amigo. Finnick é um idiota por desconfiar dela. Ele estava sendo absurdo e agindo ridiculamente.
– Annie não está te traindo, seu idiota! Aquela mulher é louca por você. — Insisto em meu argumento ao mesmo tempo que tento controlar o riso. — De onde mesmo é que você tirou essa história maluca?
– Ela esta estranha, Peeta. Eu disse para você isso naquele dia no bar. Mas, agora piorou muito. — Respondeu Finnick me encarando. — Lembra que eu te disse que ela estava chegando tarde do trabalho sem desculpa nenhuma? E que estava atendendo ligações estranhas em nossa casa e que depois inventava que estava conversando com seus pais. Mas, isso é mentira porque eu falei com Peggir e Noola e eles não receberam nenhuma ligação de Annie nos últimos dias. E também existe o fato de que em alguns finais de semana ela sumir durante horas e não me contar para onde esta indo. Ou ela acaba inventando alguma desculpa idiota para sair do tipo " Vou comprar flores!" e depois de horas ela aparece em casa sem flor nenhuma.
Ok. Penso cheio de apreensão e divertimento. Agora ele esta tentando controlar um soluço. Bem patético, eu sei.
– Deve haver alguma outra explicação. — Tento argumentar mais uma vez. — Annie ama você.
– Não me ama mais. — Ele realmente soluçou dessa vez, seu maxilar estava travado com força enquanto tentava controlar um ataque de lágrimas. — Ela tem chorado nos últimos dias, eu andei observando. Ela não quer me contar o que esta acontecendo mais eu a vejo suspirando pela casa, e sempre esta concentrada em alguma coisa. Algo que ela está me escondendo. Pois eu digo que ela está saindo com algum desgraçado. Eu sempre soube que ela boa demais para mim. Mas, eu prometo que vou matar o filho da puta que esta saindo com a minha mulher.
Finnick acha que descobriu onde vai ser o próximo encontro de Annie com o "suposto amante", e é por isso que eu estou envolvido nessa. Tenho que acompanhá-lo para que ambos possamos dar uma boa surra no mané imaginário.
Como se eu já não tivesse os meus próprios problemas para resolver. Penso depois que um longo suspiro cansado escapa de meus lábios. E falando em problemas lá esta um deles.
Propositalmente eu diminuo a velocidade que estou dirigindo e olho o mais atentamente possível, sem acabar causando um acidente, para o Outdoor enorme que esta com a foto de Katniss em uma campanha para a grife de moda Cinna. Essa maldita grife que não quer, por nada no mundo, me passar o endereço ou o telefone dela.
Eles alegam que fazem isso pela privacidade da modelo.
Privacidade uma ova. É o que eu digo, não é como se eu fosse um perseguidor, ou um assassino em serie escolhendo a próxima vitima. Eu era amigo dela, amante dela e eu quero saber onde Katniss está. Eu tenho que saber onde ela esta.
E tudo bem, eu até sei de alguém que sabe onde ela esta.
Haymitch Abernathy, nosso antigo mentor. Nosso amigo.
Ele diz que não vai me contar, no começo eu até pensei que com muita insistência acabaria vencendo. Mas, Haymitch não pode ser forçado a dizer nada que ele não queira dizer. E ele me disse a poucos dias atrás que passou a meu recado para ela, o que Katniss respondeu? Que iria pensar no assunto.
"Pensar no assunto!"
Eu estou saindo da minha mente de ansiedade pela possibilidade de reencontrá-la em algum dia, e ela simplesmente vai "pensar no assunto". Isso é tão frustrante. Ainda assim, essa foi a primeira comunicação verdadeira que eu tive com ela em anos. Isso ainda vale alguma coisa.
– Você vai ver, Finnick. — Digo ao sair dos meus pensamentos e voltar a me concentrar no problema do meu amigo. — Nós vamos nesse restaurante e você vai encontrar Annie fazendo o seu horário de almoço com, sei lá, por exemplo a Clove. E você vai fazer papel de idiota mais uma vez.
O restaurante era onde o suposto encontro aconteceria. Finnick não atrapalharia o almoço de Annie apenas, ele atrapalhou o meu almoço, o próprio almoço e o almoço de seja lá quem for que estiver com a esposa dele.
– Você fica rindo, mas não sabe o quanto eu estou sofrendo. — Choraminga ele ao fungar. — Annie é a minha esposa, é a mulher da minha vida, e não vou perdê-la para nenhum filho da puta. Mas, você vai ver, eu vou atravessar esse cuzão com o meu tridente de pesca. Vou obrigá-lo a engolir as próprias bolas, vou...
E lá vem uma enxurrada de coisas que ele vai fazer para se vingar do amante imaginário de Annie. Tenho que segurar uma risada ao ouvi-lo.
Continuo a dirigir e chegamos ao restaurante dez minutos depois do horário marcado para o encontro acontecer. Eu estaciono o carro do outro lado da rua, em uma vaga distante da entrada do lugar.
Finnick é o primeiro a sair, eu saio do carro logo em seguida e aciono a trava de segurança.
– Não consigo enxergar nada daqui. — Resmunga ele.
– Eu também não. Vamos nos aproximar e procurá-la . — Digo isso apenas para não contrariá-lo. — Nós ficamos escondidos e observamos antes de você começar a torturar o amante.
– Amante? — Rosna ele com ódio no olhar. — Que tal chamá-lo de defunto. Agora, pare de me distrair e vamos logo.
Atravessamos a rua e nós aproximamos das portas do restaurante, entrar nele não foi difícil. O lugar era enorme e tinha uma boa quantidade de mesas já ocupadas. Muitas homens de terno e gravata e mulheres vestidas de social. Algumas pessoas usavam cores mais excêntricas em suas roupas formais. Uma coisa dos nascidos aqui na Capital.
– Ali está ela. — Disse Finnick apontando com o queixo na direção de uma mesa no fundo do restaurante.
Quando eu olhei para o lugar indicado eu pude ver que realmente era Annie que estava sentada lá, ela estava compartilhando uma mesa com um homem ruivo. Ambos estavam sorrindo enquanto conversavam distraidamente.
Ela até mesmo estava rindo de alguma coisa que ele tinha contado, enquanto bebiam de suas taças de vinho. A mesa onde eles estavam sentados era redonda com três lugares postos, mas um deles estava desocupado.
– Eu disse para você. — Resmunga Finnick com o maxilar travando de raiva logo em seguida, eu sentia um intenso ódio saindo do corpo dele em ondas que logo explodiriam.
– Você não sabe se é um encontro romântico, pode ser algo relacionado ao trabalho, sei lá...- Me apresso em dizer.
– Ele comprou flores para ela. Esse filho da puta acha que pode conquistar a minha mulher com flores e um almoço? — Grunhi Finnick no mesmo instante em que sinto que toda a graça da situação foi embora. — Eu vou acabar com essa palhaçada agora...
Annie realmente estava traindo o marido com esse desconhecido? Penso aflito. Já sei que vou ser obrigado a entrar nessa briga, nem que seja para salvar a vida dessa pobre moribundo.
Entretanto, no momento eu estou apenas preocupado com Finnick. O meu amigo é um cara calmo, boa pinta. Porém, as coisas mudavam quando o assunto era a Annie, por sua esposa ele fazia tudo e sempre ficava meio maluco. E agora, esse desconhecido esta prestes a ter a cara arrebentada, eu espero conseguir salvar alguma coisa dele.
Com pressa Finnick se lança igual a um lunático para a mesa onde Annie e o homem ruivo estavam sentados.
Vou atrás já preparado para separar uma briga daquelas. Interiormente eu torço para que Annie tenha uma explicação muito convincente para essa situação ou então não vou conseguir segurar a irá de Finnick por muito tempo. É claro que o meu amigo não ousaria encostar em Annie com raiva. Ele nunca levantaria uma mão para bater nela. Mas, com o homem ruivo já é outra história.
– Então quer dizer que esse era o almoço com as amigas que você faria? — Pergunta Finnick assim que chegamos a mesa. Seus olhos estão assustadoramente saltados, sua postura é de alguém que quer destruir algo.
– Finnick!? — Diz Annie com os olhos confusos e surpresos e seu rosto imediatamente fica mais pálido que antes e o riso de antes sumiu. Os olhos dela travam em mim, e seu rosto empalidece ainda mais profundamente, seu olhar vai imediatamente para a porta do restaurante que esta localizada atrás de onde estou. Mas, logo sua atenção volta para o marido. — O que você esta fazendo aqui?
– O que eu estou fazendo aqui? — Retruca ele ao soltar uma gargalhada insana. — Ela me perguntou o que eu estou fazendo aqui...Eu vou te dizer o que eu estou fazendo aqui, eu vou quebrar a cara desse filho da puta que esta tentando te roubar de mim.
– O que? — Volta a perguntar Annie ao olhar assustada para o homem sentado ao lado dela. Imediatamente o seu rosto volta a ter cor, e uma tonalidade vermelha cobre suas bochechas e pescoço.
– Você me seguiu até aqui, Finnick Odair? — Questiona ela com a voz fria. Eu já vi Annie com essa expressão antes, ela esta ficando colérica de raiva.
– Claro que eu te segui, você é a minha esposa. — Responde ele sem medo ao olhar para o homem ruivo sentado em seu lugar, com uma expressão de pura confusão. — Vamos conversar lá fora, almofadinhas. Eu quero arrastar o seu rosto no asfalto...
– Espere um pouco. — Diz o sujeito estranho. — Isso é um mal entendido. Você acha que eu estou saindo com a sua mulher?
Ao meu lado Finnick apenas ri ainda mais alto, o que chama a atenção das pessoas que estão nas mesas próximas. E eu, que estou ao seu lado de braços cruzados sobre o peito decido que vou ajudar o meu amigo a quebrar a cara desse dissimulado. Homens como ele merecem apanhar.
Olho de relance para Annie e me surpreendo ao vê-la ainda mais vermelha que antes, seu rosto esta cheio de indignação ao olhar para o marido. Ela até chega a se levantar de onde estava sentada ficando em pé.
– Finnick Odair, você é um idiota. Você não entende nada e não tinha o direito de me seguir. Darius não esta comigo... — A voz dela aumenta de tom.
– Se ele não esta com você com quem ele esta? — Finnick Grunhi a pergunta, seus punhos estão fechados ao lado do corpo.
– Ele esta comigo. — Diz uma voz doce em minhas costas.
Essa voz.
Eu nunca poderia esquecer esta voz, nem em um milhão de anos eu esqueceria desse timbre. Desse cantar.
Instantaneamente eu sinto o meu corpo congelar no lugar. Em meus pensamentos eu canto "que seja ela, que seja ela, por favor, que seja ela" como um mantra que ressoa em minha cabeça. Em seguida eu sinto o perfume, ele toma conta do lugar onde estou e eu quase grunho ao sentir essa fragrância limpa, quente e levemente floral entrando pelas minhas narinas. Não tenho coragem de olhar para trás, ao invés disso eu olho para o Finnick ao meu lado, ele olha para trás de onde estou e o seu rosto está cheio de assombro.
Eu prendo a respiração ao sentir o meu corpo descongelar e lentamente eu me viro e olho para a dona da voz. Meu coração quase para quando eu volto a encarar os olhos cinzentos que tanto me perturbam em meus sonhos e lembranças. Tenho certeza que o meu coração deixou de bater algumas vezes. É como se tudo fosse tomado pelo Tum-Tum do meu peito, e pela tempestade de seus olhos.
Katniss Everdeen.
– Katniss. — Diz Finnick que ainda esta tão chocado quanto eu.
– Oi Finnick. — Fala Katniss com um sorriso doce em seus lábios.
E posso jurar que Katniss está mais bonita do que nunca, eu nunca a vi tão espetacular como agora. Não sei se isso tem a ver com a saudade absurda de colocar os meus olhos nela mais uma vez. Essa Katniss é tão diferente e tão igual a Katniss do meu passado.
Por tudo o que é sagrado. Penso ao deixar os meus olhos passearem pelo corpo dela mais uma vez. Tenho certeza que o meu cérebro virou gelatina dentro da cabeça, pois me pego não conseguindo juntar duas palavras em uma frase.
Uma forte sensação de ligação percorre o meu corpo, e um arrepio poderoso atravessa a minha espinha. Essa sensação me leva a crer que tudo em minha vida me levou para esse lugar, para esse tempo, para esse restaurante, para os olhos dela mais uma vez, para sentir o perfume dela queimar a minha saudade e os olhos dela marcarem a minha alma e a minha sanidade.
– Desculpe o atraso, Annie. Tive um pequeno imprevisto hoje. — A voz de Katniss continua melodiosa, quase um cantar de sereia em meus ouvidos. Mas, os seus olhos encontraram os meus apenas uma vez e agora é como se ela estivesse me evitando. E é claro que eu, grande idiota que sou, me pego desesperado para ter o olhos dela nos meus uma vez mais. Quase ao ponto de me sentir congelar em meus pés.
Fico completamente bestificado pela mulher ao meu lado.
Uma saudade profunda cresce em meu peito, e eu literalmente o sinto doer por isso. Katniss é tão linda. Seus cabelos escuros estão soltos sobre as costas, descendo pelos ombros em ondas macias de seda. Ela usa um vestido cinza escuro, sem decote algum, não que isso faça alguma diferença já que eu me pego olhando fixamente para os seus seios cheios. Sua cintura é tão fina, e esta muito bem marcada pelo vestido, seus quadris são largos e suas pernas longas, eu me lembro perfeitamente da sensação avassaladora de estar entre essas pernas. Para fechar, ela usa salto alto.
Eu nunca a vi usando saltos tão altos, e quero morrer ao perceber o quanto ela fica sensual usando-os.
Ela não usa muita maquiagem, mas isso é de esperar já que Katniss odiava usá-las no passado. Mas, a pouca maquiagem que ela usa apenas serviu para acentuar os seus traços já perfeitos. Ficar mais velha realmente fez muito bem a ela.
Katniss é quente como o inferno ao vestir esse vestido discreto, mas que marcam muito bem as suas curvas. E não me envergonho de dizer que estava difícil controlar a minha ereção.
Katniss. Penso ao suspirar em pensamente. Minha Katniss.
Entretanto, ela continua a não me olhar, é quase como se eu não estivesse ali. Isso começa a me irritar, mesmo que eu ainda não consiga formar nenhuma frase, com o meu cérebro feito gelatina pela sua repentina volta, eu me contento por alguns minutos a apenas admirá-la.
– Darius. — Diz ela sorrindo para o homem ruivo que se levantou quando ela apareceu. — Essas flores são para mim?
– Claro Katniss. — Responde ele ao passar ao meu lado para abraçá-la.
– Obrigada Darius. — Fala Katniss sorrindo abertamente pela primeira vez. Fico chocado ao ver o sujeito depositando um beijo suave em sua bochecha. — Acho melhor apresentá-los para que não haja mais nenhuma confusão. Esses são Finnick Odair, que é marido de minha amiga Annie, e esse é Peeta Mellark.
É impressão minha ou ela engasgou ao dizer o meu nome? Penso irritado pela proximidade desse homem com minha Katniss. Mas, ouvi-la dizer o meu nome teve o efeito desejado em minha mente e somente assim eu lembrei de como falar mais uma vez.
– Katniss. — Consigo dizer e me assusto com o som grave da minha voz. O seu nome saiu dos meus lábios quase como um rosnar.
– Peeta. — Ouço-a dizer de maneira fria. — Quanto tempo.
Quero gritar com ela. Quero gritar tudo o que estava trancado em meu peito. Quero que o mundo inteiro saiba que eu voltei a encontrá-la. Quero perguntar o por que de ela ter me abandonado. Quero colocá-la sobre os meus joelhos e dar uma palmadas em sua bunda por ela ter me afastado de sua vida. Quero beijá-la até que não exista nada entre nós dois.
Sim, quero abraçá-la muito apertado, manter os meus braços firmemente agarrados nela.
– Desculpe Annie, não vou poder ficar para o nosso almoço. Tenho que algumas coisas importantes para resolver no escritório e Cinna realmente precisa que eu esteja ao seu lado hoje. — Fala Katniss diretamente para Annie. — Eu sinto muito por cancelar.
– Tudo bem Katniss, não precisa ficar preocupada. Eu tenho que conversar muito seriamente com o meu marido. — Ouço Annie responder, mas não a veja fazer isso porque a minha atenção esta toda voltada para a mulher na minha frente, a tão poucos passos de onde estou.
– Marcamos para um próxima dia, que tal? — Katniss fala, ainda continua a não olhar para onde estou. — E dessa vez Finnick, seu grande ciumento, você vai estar convidado.
Escuto um sorriso fraco vindo de onde Finnick esta.
– Será um prazer Katniss, eu senti a sua falta, magrela. — O tom ríspido de sua voz esta totalmente desaparecido agora. — Temos muito o que conversar.
– Claro que temos, e eu também senti a sua falta. — O seu sorriso tímido enche o meu coração de calor. Como eu sentia falta de ver esse sorriso. — Annie, lembre-se que você não pode ficar nervosa, não faz bem a você.
Começo a sentir o meu sangue queimar nas veias. Por que ela esta me ignorando desse jeito?
Ainda me ignorando de forma brutal e proposital, Katniss se vira para o sujeito chamado Darius e sorri.
– Podemos tomar um chocolate quente no caminho do meu escritório, o que acha? — Pergunta ela para o homem ruivo. E o idiota sorri para ela como se fosse manhã de natal.
– Será um prazer, moça. Eu estou com saudades de você, mas posso esperar até o fim de seu turno. — Responde ele ao se inclinar para ela e beijar os seus lábios ternamente.
O beijo foi rápido, mas encheu o meu coração de ódio. Tive que fechar as minhas mãos com força para não arrancar esse homem dela.
Nesse momento uma coisa estranha aconteceu. Enquanto ela permitia que ele a beijasse os seus olhos de tempestade não se fecharam como deveriam, ao contrário eles encaram os meus fixamente. Tudo esta extático nesses lentos segundos de tormento. Existe uma eletricidade no ar enquanto os nossos olhos queimam juntos.
Quem esse homem pensa que é para beijá-la assim? Para tocá-la assim? Penso irritado. O que diabos esta acontecendo aqui?
Depois de se desprender dos braços desse homem, ela se afasta um pouco dele e dá alguns passos para onde estou parado. Eu congelo e ao mesmo tempo esquento com a proximidade, mas Katniss não me abraça ou toca, ela apenas se inclina na mesa ao meu lado, tão perto do meu corpo que eu posso sentir o calor que emana do dela, ela apenas pega as flores que Darius tinha dado a ela e se afasta de mim.
Tudo isso levou apenas segundos para acontecer, mas eu senti o tempo parar e se estender com a proximidade de seu corpo.
– Nos vemos depois Annie, e Finnick. — Diz ela sorrindo no mesmo instante em que o homem ruiva tira do bolso de seu casaco uma carteira. Depois ele deixo sob a mesa algumas notas de dinheiro.
– Foi um prazer conhecê-los e desculpem pelo mal entendido. — Os olhos castanhos dele passam por todos nos, mas em nenhum momento eu consigo sorrir para o desgraçado.
Sem demora, eu vejo Katniss e Darius indo embora. A mão dele esta nas costas dela, de maneira muito intima e protetora. Eles são um casal. E eu mal posso acreditar nisso.
Me sinto tonto por todas essas novidades. Desde o momento em que eu acordei eu não suspeitei que meu mundo mudaria tão drasticamente e que hoje eu encontraria Katniss, que meus anos de busca estavam encerrados. E que ela estaria com outro homem.
Eu a vejo ir embora, sair do restaurante e mal posso segurar o meu corpo no lugar, sem nem perceber eu estou caminhando para fora do restaurante, mas Finnick me barra antes de eu chegar a porta do lugar ao segurar os meus braços.
– Ei, Peeta. Não faça isso, seu idiota. — Grunhi ele me puxando de volta para a mesa onde Annie nos aguardava. — Não é o momento, vamos conversar primeiro.
Eu apenas olho para ele e o sigo totalmente atônito. Meu coração esta disparado no peito e eu ainda olho para a porta por onde ela passou. Isso foi um sonho? Aconteceu de verdade?
– Finnick Odair, isso é tudo culpa sua. Por que diabos você me seguiu até aqui? — Annie pergunta quando voltamos para a mesa onde ela estava.
– Katniss estava aqui, Annie. Você sabe o que isso significa para Peeta? Por que não contou que a viu antes? Que seu encontro era com ela? — Finnick também pergunta.
– Não ouse desconversar, você acha que vai escapar tão facilmente do seu erro? Mas, não vai. Você não tem a minima ideia da encrenca em que se meteu. Eu estou com tanta raiva agora. Mal posso acreditar que você me fez passar por isso no meu restaurante que eu sempre almoço. — A voz de Annie estava bem controlada para a situação.
Eu estou sentado ao lado de Finnick e ainda me pego olhando para a porta do lugar. Não poderia me importar com nada nesse momento, se uma outra inundação acontecesse agora destruindo toda Panem, eu nem notaria.
Estou me sentindo levemente incoerente e desligo a discussão do casal ao meu lado, eles continuam a brigar, suas vozes são controladas para não chamar a atenção das pessoas ao redor, e em um momento de distração pude notar que o rosto de Finnick estava vermelho de vergonha, seus ombros estavam levemente curvados para frente, e ele tinha no rosto uma expressão arrependida.
Já Annie ainda se mantinha austera, soberana nesse lugar. Eu não gostaria de estar no lugar de Finnick nesse momento. Volto a me desligar da conversa deles, meu cérebro volta a não obedecer os comandos mais simples, nunca estive assim antes, nunca estive tão confuso pela enxurrada de sentimentos todos se digladiando dentro do meu peito ao mesmo momento.
Estou feliz, estou triste, estou eufórico, estou assustado, estou com raiva, estou confuso.
Em um momento da conversa entre Finnick e Annie, eu a ouso dizer.
– Diamantes, Finnick! Muitos diamantes, e perolas e aquela casa na praia ao lado da casa dos meus pais, é isso que você vai ter me dar para eu posso pensar em te perdoar. — Sua voz doce é ríspida e nervosa.
– Veja bem, a casa ao lado da de seus pais é exagero, você não acha? E quem precisa de diamantes quando o que mais importa é o amor...
– Amor? Amor? Você só pode estar de brincadeira comigo. Pois saiba que eu nunca fui tão humilhada em toda a minha vida. Você achou que eu estava te traindo? Que tipo de mulher você acha que eu sou? — Pergunta ela irritada.
Antes que Finnick possa responder eu interrompo da forma mais suave que consigo.
– Annie, você tem que me ajudar, me explicar o que aconteceu aqui. — Imploro para ela, que para de olhar para Finnick e olha diretamente para mim. — Desde quando Katniss esta aqui na Capital? Ela acabou de chegar? Quem era aquele homem?
Annie continua me encarando em silêncio, mas eu sei o que ela estava fazendo. Estava colocando a raiva dela sob controle, por isso eu controlo a minha ansiedade e espero por suas respostas.
– Desculpe, Peeta. — Começa ela ainda sem olhar para o marido. — Eu sei que isso é muito difícil para você e eu tenho certeza que você não gostaria de reencontrá-la nessas condições. Katniss, já esta aqui na Capital à alguns meses, ela trabalha em um escritório aqui perto e eu venho me encontrando com ela a algum tempo, eu não disse nada porque ela me pediu para não contar. Ela não queria que ninguém soubesse de sua volta. Eu não posso te dizer muita coisa pois prometi sigilo de sua intimidade. Mas, aquele é Darius, ele e ela são namorados. É tudo o que posso dizer.
– Isso não tem nenhum sentindo. — Digo para ela, meus pensamentos ainda estão confusos, mas um sentimento se sobrepõe acima dos outros. Raiva. — Onde ela mora? Você poderia me passar o endereço, eu preciso falar com ela, preciso conversar com ela. Ela tem telefone?
Estou perdendo a minha mente, estou com tanta raiva agora. Mas, não posso descontar em Annie, primeiro porque Finnick ao meu lado me destruiria em segundos. Segundo porque ela não tem culpa de nada.
Esse encontro foi descoberto por acaso e se Finnick não tivesse encontrado o endereço e desconfiado de algo errado, eu ainda não saberia que Katniss estava na Capital. E já esta aqui à meses e Haymitch não me contou. E Annie não me contou. Me sinto tão traído agora, e essa sensação é horrível, amarga em minha boca e queima em meu estômago.
– Desculpe Peeta, eu não posso te dizer, ou te passar essas informações. Você é meu amigo, mas Katniss também é. — Ouço-a dizer e não consigo ficar satisfeito com suas respostas. — E bom, ela não queria encontrar ninguém até agora, mas já que aconteceu tenho certeza que ela vai querer conversar com você. Agora que já não é mais segredo que ela esta aqui, eu estou certa que vocês vão ter uma oportunidade de se encontrar novamente. Eu prometo que vou conversar com ela sobre isso.
– É isso ai, Peeta. Annie vai cuidar disso, vai conversar com ela. Agora que a magrela esta aqui na Capital fica muito mais fácil procurar por ela. — Finnick me diz depois de me dar dois tapas nas costas. Um sinal de apoio.
Eu escuto o que eles dizem, mas não fico convencido de nada. Preciso falar com Katniss, preciso conversar com Haymitch sobre isso. Preciso vê-la novamente, agora. Nesse instante. Eu apenas quero colocar os meus braços em volta dela mais uma vez, sentir o calor de seu corpo colado ao meu, tomar os seus lábios nos meus. Sentir o gosto doce de seus lábios, de sua língua.
Tenho que fechar os olhos e suspirar para me acalmar.
Katniss, a minha Katniss está de volta. Penso feliz, e de repente é como se um mundo inteiro de problemas e desilusões fossem tirados dos meus ombros, nunca me senti tão leve como agora.
Eu sei que é uma perspectiva estranha e pouco convincente, mas minhas esperanças foram renovadas. Pela primeira vez em muito tempo eu posso respirar aliviado. Pois ela já não esta mais sozinha em algum distrito de Panem, Katniss está aqui na Capital. Eu só tenho que descobrir onde ela mora. Fazer algumas visitas, afugentar esse namorado dela, e fazê-la minha mais uma vez.
Ela tentou esconder, mas eu pude ver a chama que ainda queima em seus olhos.
Eu deveria ter ido atrás dela? Me pergunto confuso, mas já colocando os meus pensamentos em ordem. Não! Eu tenho que ter paciência, saber chegar até ela sem afugentá-la ainda mais da minha vida.
Eu nunca desistiria de Katniss. Ela sabe disso e é por isso que ela andou se escondendo, me mantendo afastado. Não querendo encontrar ninguém, além de Haymitch e Annie, os dois são leais a ela, mas os outros amigos não. E qualquer outra pessoa me contaria sem pensar duas vezes que ela tinha voltado.
Por um lado eu admiro a lealdade deles por ela. Porém, me manter afastado não faz nenhum sentindo. Eu nunca faria mal para ela, sou incapaz de machucá-la intencionalmente.
– Eu tenho que voltar para o trabalho agora, não posso me atrasar hoje. — A voz de Annie me acorda dos meus devaneios. — Peeta, apenas fique tranquilo. Eu prometo conversar com ela, assim que possível.
– Eu te levo para a empresa. — Finnick falou imediatamente. — Vou apenas pedir alguma coisa de comer para você levar, já que você não comeu nada hoje.
– Eu vou comprar alguma coisa no caminho do escritório, não preciso da sua ajuda. — Ela diz rispidamente. — Não ouse me seguir novamente Finncik Odair, nós vamos continuar essa conversa em casa, e eu acho melhor você pensar em algo grande para se desculpar comigo, ou vai dormir no sofá pelo próximo mês.
Com isso ela se levanta, pega um pequena bolsa de ombro e sai do restaurante sem olhar para Finnick nenhuma vez.
– Puta que pariu, eu estou tão ferrado. — Ele diz depois de passar as mãos nervosamente pelos cabelos.
– Não se preocupe, ela vai te perdoar. — Digo para ele.
– Você não conhece, Annie. Ela não mentiu sobre aquele sofá. — Fala ele sorrindo de forma triste. — Por que eu sempre fodo tudo? Mas, não importa. Vem você vai me acompanhar em algumas lojas de joias, e depois nós vamos para algum bar afogar as nossas mágoas.
Sim. Penso ao me levantar de onde estou sentado. Eu preciso disso, antes de começar a traçar planos para encontrar Katniss novamente e reconquistá-la.
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