Amarras do Passado
46 All You Never Say - Birdy
Notas iniciais
Passado
Katniss
"...Are you uncertain?
Or just scared to drop you guard?
Have you been broken?
Are you afraid to show your heart?
Life can be unkind
But only sometimes
You're giving up before you start..."
***
– Calma, passarinho, não chora. Mamãe esta aqui por você, mamãe chegou para te proteger. — Eu digo a minha filha chorona, ela estava tão desesperadamente sozinha e triste, tão suja de comida e com febre que eu estou a um passo de ter um colapso nervoso. Beijo os cabelos escuros da minha filha e a aperto mais em meu peito, quero que ela sinta que existe alguém no mundo por ela, quero que perceba que não vou mais me afastar dela.
Minha Elika esta com um ano e seis meses agora, é a garotinha mais linda que eu já vi, com os maiores olhos azuis de Panem, eu culpo e ao mesmo tempo agradeço o pai dela por isso. Ela é tão bonita, tão delicada e esperta, e não merece sofrer o que passou hoje.
Se Johanna estivesse aqui, nada disso teria acontecido, minha filha nunca estaria nessa situação de completo abandono, eu estava trabalhando e não sabia que minha menina estava passando por isso. Mas, a culpa de tudo isso não é da minha Elika, ela é um bebê. A culpa é da minha mãe.
Ela tinha que surtar logo essa semana, tinha que se desligar justamente agora? Eu preciso dela, preciso de sua ajuda e novamente não posso contar com ela. Novamente ela me abandona com uma criança nos braços para que eu me vire com ela.
No passado foi minha irmã Primrose, logo após a morte do meu pai, minha mãe entrou em um quadro profundo de depressão e apenas não conseguia fazer nada, foi quando eu aos doze anos de idade, tive que tomar as rédeas da situação financeira da minha casa, e sair para a floresta para caçar e provar a minha irmã pequena.
Agora é minha filha que passa isso, e Elika é muito mais jovem do que Prim era, na época. Elika é um bebê. Não pode se virar sozinha, não faz nada sem ajuda de um adulto. Ela começou a andar a pouco tempo, e já fala algumas palavras, entretanto isso não a qualifica como alguém independente. Ela é mais frágil do que Prim foi, e minha mãe que prometeu me ajudar, novamente se mostra uma completa inútil.
Estou com tanta raiva agora que grossas lágrimas escorrem por meu rosto, quero gritar de frustração, quero bater fortemente no rosto da mulher que me pôs no mundo, eu realmente não entendo o que existe de errado com ela, mas não posso suportar pensar que ela negligenciou a minha filha por todos esses dias.
Viver no Distrito Quatro não esta sendo nada do que eu achei que seria, isso aqui parece um pesadelo terrível, eu me arrependo muito de ter vindo para cá, queria sair correndo de volta para o Sete, queria ter Johanna aqui para me ajudar, ela é madrinha de minha filha e jamais permitiria que alguém maltratasse a minha menina como a minha mãe indiretamente fez.
Lentamente eu trato de enxugar as grossas lágrimas que insistem em cair dos meus olhos, e ao segurar a minha filha nos braços eu apenas vou para a cama e a deito muito lentamente sobre o seu trocador, tiro a sua calça de moletom totalmente infestada de um cheiro ruim e me assusto com o que vejo, a frauda descartável que minha filha usa transbordou, o que não é um caso assombroso, mas dessa vez não foi a única vez que transbordou, minha mãe não a tinha trocado por pelo menos duas vezes e o cocô estava melando tudo por dentro. O xixi também tinha transbordado para fora da frauda super lotada o que certamente fez um meleca grudenta, pastosa e incrivelmente mal cheirosa.
Elika continuava a espernear a plenos pulmões, o que não é usual, já que a minha filha tem uma natureza muito calma desde o dia em que nasceu. E eu consigo ver entre toda a sujeira, descaso e sem nem tirar a frauda, que ela esta muito assada.
Isso sem contar a roupa e os cabelos sujos de comida, sua boca também esta suja, o que significa que nem banho minha mãe se dignou a dar em minha filha.
Eu tive que passar o últimos dias servindo comida e bebidas para o meu novo emprego, já que eu trabalho em uma agencia de eventos. E deixei a minha mãe cuidando de Elika, ela me prometeu cuidar da minha filha, mas de longe dá para ver que minha mãe nem tentou cuidar da neta.
Minha mãe esta apagada em sua cama. Um vidro com calmantes abertos bem ao lado dela, dormindo pacificamente.
Eu cheguei na casa que divido com ela para encontrar a minha filha se acabando de tanto chorar na sala de estar, sentada sobre o tapete da sala e completamente sozinha, sem supervisão alguma e nesse estado lastimável.
Lentamente eu tiro a frauda da minha filha, e a todo o momento eu tento acalmá-la com palavras bonitas e carinho na cabeça. Elika gruda os seus pequenos dedos na minha mão e me segura com muita força, seus olhos azuis estão inchados de tanto chorar o que mostra que ela passou as últimas horas em completa agonia e sozinha.
– Mamãe chegou, mamãe esta aqui com você. Mamãe te ama, meu passarinho. Não chora, tudo vai ficar bem, mamãe não vai mais te deixar, eu prometo. — Insisto a todo o momento, e continuo tentando segurar as lágrimas que insistem em cair dos meus olhos.
Depois de usar praticamente uma caixa de lenços umedecidos, eu enfim consigo limpar a sujeira da minha filha, ela ainda não se acalmou, esta completamente aterrorizada de me perder de vista.
Da forma que eu imaginava ela esta muito assada, toda a sua parte intima e bumbum estão em carne viva, e até as coxas estão assim. Quando eu a deixei com a minha mãe, o máximo que Elika tinha era uma vermelhidão, que eu pedi, insisti e implorei que minha mãe ficasse de olho. Comprei até mesmo um tubo novo de pomada para assaduras, para que não houvesse um risco de acabar a que eu já tinha aqui em casa, e agora eu vejo o tubo ainda lacrado e fechado sobre a minha mesa de cabeceira, o outro tubo, o que já estava aberto, continua intocável mostrando que minha mãe nem sequer o abriu.
Ela surtou quando eu sai para trabalhar? Assim que eu sai para cumprir esse viagem patética? Minha filha esta negligenciada desde então, sozinha com uma lunática em casa?
Imediatamente eu tiro toda a roupa de Elika, e corro para o chuveiro do apartamento, encho a banheira até a medida certa para a minha filha se sentar confortável e verifico várias vezes a temperatura da água, não pode estar muito quente para não queimá-la e nem muito fria. Elika continua esperneando em meus braços, suas mãos roliças estão fortemente agarradas aos meus cabelos enquanto grossas lágrimas escorrem por seu rosto. Eu forço delicadamente os seus dedos a abrirem e somente depois eu a coloco na banheira e começo a dar o seu banho, meio tenho que forçá-la a permanecer na água, já que esta deve estar queimando a suas várias assaduras, mas não tenho escolha. Eu tenho que dar banho nela, e cuidar da minha menina.
Eu dou banho o mais rápido possível, lavo os seus cabelos e seu rosto sujo de comida seca, passo sabonete infantil em sua pele e evito os lugares assados o máximo que posso. Em poucos minutos o meu passarinho já esta livre da banheira, e nem me importo em limpar a bagunça que fiz no banheiro, minhas mãos tremem ligeiramente pelo nervosismo que estou, minha mente parece que vai pifar a qualquer momento.
Elika já esta mais calma e deixou de chorar, provavelmente pelo alivio momentâneo de ter a sua pela limpa mais uma vez, porém sei que esse alivio vai passar no momento que suas assaduras começarem a queimar mais uma vez. E minha pequena ainda esta muito sensível para se afastar do meu abraço, ela esta confortavelmente envolta em sua toalha felpuda e quente. Uma de suas mãos esta na boca enquanto ela resmunga e ressona chorosa.
Eu a deito em nossa cama e o mais rápido que posso apenas corro na limpeza da sujeira que fiz com o trocador. Jogo a frauda suja e as roupas que ela estava usando fora, já que estão completamente podres, e volta a minha atenção para a minha menina, ela estava com os olhos ainda cheios de lágrimas, me olhando desconsolada do lugar onde eu a coloquei, eu separo um pijama limpo e quente para ela, e pego uma frauda descartável para usar na minha pequena.
Começo a cantar, pois sei que a minha voz acalma o meu passarinho, ela sempre fica atenta quando eu estou cantando, e pede isso quando esta indo dormir. Parece que é só isso que realmente a deixa tranquila no momento, eu uso muita pomada de assadura nela, praticamente o dobro do necessário, entretanto não consigo me controlar de preocupação. Depois eu coloco a frauda nova nela e a visto com um pijama limpo e macio, em seguida eu pego sua pequena escova de cabelo e passo em sua cabeça até que os nós de seus cachinhos sumam.
– Mamá, mamãe, fome! — Elika me diz com a voz embargada. Um de suas mãos esta no meu rosto enquanto a outra vai até a minha camiseta, ela segura o tecido com força e puxa de forma desajeitada para baixo.
– Esta com fome, passarinho. Quer mamar? — Eu pergunto já tirando a camiseta e a jogando em um canto qualquer do nosso pequeno quarto.
Minha filha praticamente se joga em meus braços assim que eu me sento na cama, eu abaixo a alça do meu sutiã e posiciono a minha filha no meu seio. Elika suja com força assim que tem a oportunidade, ela esta tão faminta que suas pequenas mãos tremem.
Eu aninho Elika nos meus braços e sem me importar com o desconforto das suas primeiros mamadas eu apenas faço carinho em seus cabelos e em seu rosto e braços, onde minhas mãos conseguem tocá-la com amor, eu o faço. Elika mantém os seus olhos no meu rosto e suas mãos fazem carinho no meu colo.
Já não esta mais chorando, mas os olhos azuis continuam inchados e vermelhos. Eu volto a cantar para ela em meio as minhas lágrimas.
Nunca pensei que passaria por isso, nunca pensei que minha filha sofreria esse tipo de abandono, de maus-tratos. Eu sempre estive presente, sempre tomei cuidado para que nada de ruim acontecesse para ela, e olha só quem fez mal para a minha menina inocente?
Minha própria mãe, que esta apagada no quarto ao lado, muito dopada para que eu vá acordá-la e exigir uma explicação.
Minha canção é muito triste pelo tom da minha voz. E mesmo em meio as lágrimas, eu não deixo de cantar ou beijar a minha filha, quero dar todo o consolo que ela merece, quero que ela saiba que eu não vou mais me afastar dela. De forma desajeitada, mas eficaz eu puxo um cobertor para cima de Elika, deixo apenas o seu rosto livre para que ela respire tranquila, mas faço questão de cobrir o seu corpo frágil.
Elika adormece ainda com seu lábios em volta do meu seio. Quando eu tento afastá-la para deitá-la na cama que divido com ela todas as noites, minha pequena apenas acorda assustada e grita em desespero, voltando a grudar os seus dedos em meus cabelos longos e sugando o meu seio de forma forte.
Tenho que tentar durante três vezes, em um período de quase duas horas até enfim conseguir fazer que ela caísse em um sono profundo, eu a deito muito lentamente em nossa cama e a cubro com mais cobertores.
Depois eu volto a passar a alça de meu sutiã pelo braço, cobrindo o meu seio exposto e caminho pelo nosso quarto desarrumado.
Vou para a sala de estar, deixando a luz do quarto acessa atrás de mim, no caso de Elika acordar assutada, e observo tudo em volta. Vejo que uma manta cor de rosa de Elika esta jogada de qualquer jeito no sofá e me aterroriza pensar que minha filha passou a noite ali, sozinha.
Uma menina de um ano e seis meses tendo que se virar sozinha. Passo várias vezes as mãos pelo meu rosto e cabelo e não posso evitar que um acesso de choro tome conta de mim. A dor e medo são muito grandes para que eu tente trancar tudo isso no peito.
Minha mãe não deveria ter agido dessa forma, e eu tenho certeza que ela nem notou que Elika estava aqui, implorando a plenos pulmões que alguém cuidasse dela, que trocasse sua frauda e lhe desse o que comer, que desse banho nela e que a beijasse para deixá-la feliz.
Foi a mesma coisa com Prim, só eu sei o inferno que passei quando eu tive que cuidar de Prim sozinha, uma criança cuidando de outra. Minha mãe fez a mesma coisa, se ausentou completamente da realidade e eu passei a cuidar de tudo sozinha e manter Prim limpa e alimentada. Da melhor forma possível cozinhar a pouco comida que tínhamos sozinha e me esforçar para lavar a nossa roupa.
Prim estava aterrorizada, todavia eu estava lá por ela. Agora quem estava aqui por minha filha? Por meu passarinho? Ninguém. E eu sou a culpada por isso.
Não fazia a menor ideia de que minha mãe ainda tinha seus surtos de depressão, não sabia que ela ainda passava por esse tipo de coisa ou teria pensado duas vezes antes de me mudar para o Distrito Quatro.
É claro que eu não tive muito opção, estava ficando desesperada e precisava que alguém me ajudasse com Elika, não podia mais jogar essa grande responsabilidade nos ombros de minha amiga Johanna, ela foi muito boa com Elika e eu, mas nós duas não eramos suas responsabilidades e ela estava começando a ser prejudicada pela nossa convivência em sua casa.
Enquanto eu estava de licença maternidade, e recebendo por isso, tudo estava indo muito bem, os primeiros meses foram muitos difíceis, mas não impossíveis e com jeitinho eu consegui me adaptar ao pior da mudança que um filho fez na minha vida. Elika valia todo o sacrifício e noites mal dormidas. Eu tinha tempo suficiente para fazer as minhas coisas e ainda cuidar da minha filha.
Johanna estava tão apaixonada por Elika quanto eu. Ela era atenciosa com a minha menina, a chamando de "pequena gatinha" e sempre me ajudava nas trocas de fraudas. A maternidade não é nada do que eu achei que seria, é totalmente diferente, e como ser jogada em uma guerra sem arma alguma para se defender.
Eu tinha um bebê nos braços e nenhum conhecimento de como ser uma mãe. Foram as enfermeiras do hospital onde Elika nasceu que me ensinaram a forma certa de alimentá-la, e as primeiras vezes foram uma tortura pura, depois eu acabei me acostumando com o sugar exigente e faminto da minha filha, e Elika só queria mamar, sendo de dia ou de noite, ela me acordava com um berro exigente todas as vezes que estava com fome ou de frauda suja.
E esses primeiros meses foram exaustivos, e maravilhosos ao extremo, nunca vou me esquecer do primeiro sorriso de Elika, do seu perfume gostoso de recém nascido, ou da sua primeira noite de sono ininterrupto. Da forma em que seus olhos grandes mudaram de um azul profundo e escuro, para a cor luminosa e veraneia que é agora.
Quando a minha licença maternidade acabou, depois de seis meses, eu tive que voltar para o meu trabalho na lanchonete, para a minha sorte Johanna e eu tínhamos horários de trabalho diferentes. Johanna cuidasse de Elika na parte da manhã, e eu cuidava no decorrer na noite e madrugada. E nos mantivemos nessa rotina maluca e exigente por alguns meses.
Quando Elika completou um ano de idade, eu e Johanna comemoramos a sua data festiva com um bolo preparado por mim, já que Johanna não consegue cozinhar nem para salvar a própria vida, e nós duas cantamos parabéns para a minha menina feliz. Eu mal podia acreditar que o meu passarinho já estava tão crescida. Esse foi um bom dia, nós brincamos com Elika e tiramos muitas fotos dela. Entretanto, as coisas ficaram mais difíceis no trabalho, algumas meninas foram demitidas e eu morria de medo de atrasar ou faltar, Johanna tentou muito me ajudar, mas ela mesma estava preocupada de ser mandada embora do trabalho, e eu não podia exigir nada dela.
Eu tentei colocar Elika em uma escola primária, mas depois de uma tentativa em uma escola local em que notei que minha filha voltou com arranhões no braço em que as instrutoras e professoras mal encaradas dessa escola não sabiam me explicar de onde tinham surgido eu apenas desisti desses locais naquele momento, minha menina ainda é muito nova para ficar em uma instituição tão cedo. Ela não tem culpa que sua mãe não tem muito dinheiro, e tudo o que eu recebo vai para Elika, o aluguel, comida, remédios e fraudas, muitas fraudas descartáveis.
Com o tempo ficou claro que eu já não podia arcar com essa responsabilidade sozinha, foi quando eu liguei para a minha mãe, nós não nos falávamos à mais de dois anos, e ela ficou muito surpresa com as minhas novidades recentes. Nós duas passamos a nos falar mais por telefone, até que eu pedi para passar um tempo com ela no Distrito Quatro. Minha mãe me assegurou que minha filha e eu seriamos bem vindas a ficar na casa dela pelo tempo necessário até que eu me restabelecesse.
Eu pensei muito nisso, e não ter mais a despesa do aluguel me ajudaria de várias formas, eu poderia guardar mais dinheiro na poupança e começar a juntar o suficiente para reformar a minha velha casa na Costura.
Johanna brigou muito quando eu a avisei que estava indo embora do Distrito Sete, que iria atrás de minha mãe, e que ficaria com ela por uns tempos. Johanna gritou um bocado comigo.
" Você quer mesmo que eu acredite que a mulher que não fala com você à mais de dois anos agora caiu na real e quer você de volta na vida dela?" Foi uma das coisas que ela me disse.
" E estamos falando da mesma mulher que você me contou que te abandonou sozinha no Distrito Doze pouco tempo depois que sua irmã morreu, Katniss seja razoável, você esta cometendo um erro enorme." Ela tentou me dissuadir, mas eu estava decidida a me mudar. Faria bem para a minha filha ficar perto da avó. Afinal de contas, o passado uma hora ou outra tinha que morrer, nos duas erramos uma com a outra, e mesmo que eu não pudesse perdoá-la inteiramente, eu tinha que pensar em minha filha.
Johanna não reclamaria, mas eu estava atrapalhando a sua vida, ela já não tinha encontros ou saia para passear e curtir porque estava cuidando da minha filha enquanto eu estava trabalhando. E essa rotina dura já estava cobrando muito dela.
" Eu já te disse um milhão de vezes que não me importo de ficar com a sua filha, afinal eu sou a madrinha dela, eu amo aquele pedaço de ser humano cagão. Ok? Entenda isso." Johanna insistia.
Mas, o fato principal era que eu tinha ouvido uma conversa no Clont's, lanchonete onde trabalhava, e se tudo estivesse correto, eu estaria desempregada em poucos dias. Já não era uma funcionária que rendia muito, nunca podia fazer horas extras, nunca podia assumir turnos diferentes e nunca podia trocar os dias da minha folga, e mesmo que Johanna estivesse no mesmo barco que eu, ela ainda assim tinha mais tempo de trabalho do que eu.
Ou seja, eu me tornei um problema para a empresa.
Johanna batia o pé e dizia que isso nunca iria acontecer, todavia ela sabia bem lá no fundo que não estava sendo sincera, e assustadoramente, ela estava sendo apenas otimista, algo muito incomum em sua personalidade.
Três semanas depois eu estava assinando a minha carta de dispensa do Clont's, fui mandada embora com todos os meus direitos, o que não me animava em nada já que eu tinha uma filha em meus braços e não podia ficar de forma alguma desempregada.
Dessa vez, Johanna não pode argumentar muito, estava já sem voz e enraivecida por eu ter sido demitida. Eu podia ter procurado um outro emprego no Distrito Sete, mas acontece que eu realmente queria ver a minha mãe.
Duas semanas depois de isso ter acontecido minha filha e eu estávamos embarcando em um trem direto para o Distrito Quatro. Eu estava apostando muito nesse Distrito e nessa inédita aproximação entre a minha mãe e eu.
Eu estava tão enganada, esse foi o pior Distrito em que eu já estive, minha relação com a minha mãe não se alterou em nada, e mesmo morando em sua casa e dividindo as despesas com ela, nós duas ainda eramos as mesmas estranhas que nos transformamos depois da morte da minha irmã.
Minha mãe gostou muito de Elika, e minha filha gostou muita da avó. Ainda assim eu pude notar o distanciamento que ela mantinha com a minha filha, e me irritava todas as vezes que ela trocava o nome de Elika por Prim.
Eu fiz vista grossa na maioria das vezes, mas algumas eu apenas não podia me controlar e pedia que minha mãe não troca-se os nomes daquela forma.
Nós dividíamos o seu pequeno apartamento em uma zona afastada e pobre do Distrito Quatro, nada de praias e céu azul, eu não tive nenhuma oportunidade de ver o mar, não que eu queria que isso acontece já que o mar me faz lembrar o pai da minha filha, e a última vez em que estivemos juntos na praia.
O apartamento onde a minha mãe morava era muito frio para o meu gosto, todas as paredes eram pintadas de um branco gelo, e minha mãe quase não tinha moveis, a casa era muito impessoal e eu não conseguia entender como ela podia viver em um lugar tão sem energia e congelante, eu tentei modificar algumas coisas, como colocar fotografias nas estantes, mas no outro dia tudo o que eu tinha mudado estava delicadamente em cima da minha cama, e eu entendi que minha mãe me permitiu viver com ela, mas não aceitava nenhuma mudança em sua casa estéril.
Elika nunca deu muito trabalho, e eu tinha o mesmo trato com a minha mãe, que eu tinha com Johanna, enquanto eu estava procurando trabalho, a minha mãe iria cuidar de Elika, e depois eu voltaria o mais rápido possível, porque minha mãe iria para o hospital onde trabalhava e começaria o seu turno de enfermeira.
Isso pareceu dar certo e no começo até que deu, eu estava a tanto tempo afastada de minha mãe que até tinha esquecido o quanto eu sentia falta dela, ela pode ter seus problemas e defeitos, eu também os tenho, entretanto Lizbeth ainda é a minha mãe e eu não a odeio. Nós duas temos as nossas diferenças e arrependimentos e eu realmente pensei que ver Elika mudaria algo nela, algo em nossa relacionamento complicado.
Não foi o que aconteceu. Lá estava eu apresentando minha filha a minha mãe e tudo o que eu podia ver em seus olhos eram surpresa e desconcerto. O que mais me irritava como eu disse anteriormente eram todas as vezes em que ela chamava a minha filha de Prim, eu sei que ela apenas confundia, mas me dava medo ver isso acontecer, me dava angústia ver a minha mãe conversando com a minha filha da mesma forma que falava com a minha irmã. Até que ponto a minha mãe estava quebrada, até que ponto ela chegou sustentando a sua instabilidade mental?
Isso ocorre apenas por olhar e conviver com a minha filha, ou ela tem essa instabilidade com qualquer criança?
Vou ter que começar a pensar em sair dessa situação o mais rápido possível. Minha menina não pode passar por isso mais uma vez, eu prefiro cuidar sozinha de Elika e assumir a responsabilidade total dela, do que confiar o meu bem mais precioso nas mãos de quem não vai cuidá-la com carinho e atenção.
A cada hora eu volto no quarto onde deixei Elika e tiro a sua temperatura, ela estava com um inicio de febre, mas depois do banho e da alimentação, a temperatura abaixou para o normal e não voltou a subir. Elika ainda acorda mais duas vezes e me tira de meus pensamentos confusos com seus gritos sofridos ao se deparar sozinha na cama.
Eu tenho toda a paciência do mundo para cuidar dela, para acalmá-la. Nunca vi Elika tão preocupada em se afastar de mim, ela gruda os seus braços em volta do meu pescoço, ou segura com força os meus cabelos em suas mãos, e não solta por vários minutos.
Eu sei que depois do que ela passou tudo o que ela quer é se assegurar de que a mãe dela não vai mais sair de suas vistas. Eu também fico de olho durante toda a noite e de três em três horas eu troco a frauda que ela usa, estando suja ou não e depois de fazer uma boa higienização tirando a pomada velha e seca eu passo uma nova camada de pomada curativa de assaduras. A pele de Elika esta muito melhor, não tem mais a aparência de queimada de antes, apenas um leve rosado ainda colore a sua pele macia de bebê.
Quase perto do amanhecer e depois de limpar a casa inteira, eu enfim deito ao lado de minha menina para dormir. Tomei um banho rápido e não sequei os meus cabelos, apenas apliquei um pouco de óleo de coco para pentear e depois fiz uma trança. Passei os meus braços em volta da minha filha e depois de encostar o meu rosto perto dos cabelos escuros da minha garotinha eu apenas nos cubro e caio em um sono conturbado. Em meus sonhos eu vejo Elika seguindo, com suas pequenas pernas de bebê a minha mãe por todos os cômodos da nossa casa, enquanto minha mãe muito dopada e surtada pelas lembranças do passado apenas a ignora e sempre se afasta quando minha filha em prantos se aproxima dela. Nos lábios dela tudo o que posso ouvir são o nome de minha irmã se repetindo uma e outra vez.
Acordo assustada poucas horas depois que eu cai no sono.
Elika esta sentada ao meu lado, com seus brilhantes olhos de bebê cheios de lágrimas, ela não esta chorando, mas esta quase.
– Bom dia, passarinho. — Eu digo ao esticar as minhas mãos e acariciar muito delicadamente o seu rostinho suave. — Já esta acordada? Não quer deitar aqui com a mamãe?
Os cabelos de minha filha estão adoravelmente bagunçados pelo seu sono. Ela tem uma aparência muito frágil ao me olhar. Mas, é claro que logo que me vê acordada, ela apenas aproxima mais o seu corpo do meu e se enrosca em meus braços. Eu a aninho em meu corpo, dando todo a amor e carinho que posso para ela.
Elika tem um cheiro de bebê muito bom.
– Mamãe eu quero mamar. — Ouço a sua voz dizer e sempre me surpreendo com o quanto eu gosto de ouvir o seu timbre delicado. Amo tanto a minha menina.
– Quer que a mamãe faça uma mamadeira para você? Um chocolate quente, ou um mingau bem gostoso? — Eu pergunto para ela, minhas mãos continuam a acariciar os cachinhos no seu cabelo.
Elika esta saindo do peito, eu lentamente a estou tirando de mamar em meus seios. Eu sei que existem mulheres que param de dar de mamar depois de seis meses do nascimento, eu não fui assim pois não vi necessidade alguma de tirar de Elika algo que a fazia feliz. Existe uma ligação entre mãe e filho na amamentação, e apesar do desconforto inicial, eu nunca estive mais feliz do que quando a minha filha esta mamando e tranquila em seus braços. Eu sempre tive muito leite, Elika sempre se alimentou bem.
Foi apenas no último mês, depois de eu ter chegado aqui no Distrito Quatro que eu decidi, por conta do novo trabalho que eu tive que começar a tirá-la do peito, começando a dar mamadeiras para ela. Elika já se alimentava se alimentos sólidos, ela come arroz, feijão, batata cozida e carne, mas eu mantive a amamentação dela.
Eu estranho que ela não tenha largado dos meus seios desde a noite passada, mas entendo que ela estava se sentindo sozinha e abandonada, e que precisava da ligação entre mãe e filha mais do que nunca, que precisava me sentir próxima a ela. Afinal de contas, eu sou a mamãe dela e sou tudo o que ela tem no mundo.
– Não, mamãe. Eu quero peito. — Ela me responde ao puxar o sutiã esportivo confortável que eu costumo dormir, para baixo. Tentando livrar um dos meus seios para a sua boca. Eu a ajudo e em poucos segundos ela esta muito concentrada mamando, os seus olhos azuis estão nos meus e eu sorrio para ela.
Ela me encara muito seriamente, e seus olhos deixam de lacrimejar. Depois de algumas sugadas Elika me dá o primeiro sorrio desde que voltei.
– Amo você, passarinho. Amo muito. — Eu digo para ela. — A vovó maltratou você, foi?
Eu perguntei com o coração apertado dentro do peito.
Elika apenas me encarou, seu sorriso sumindo dos lábios e acenou com a cabeça. Depois que terminou de mamar, eu vesti novamente o meu sutiã esportivo e coloquei uma blusa de frio sobre o meu corpo. Em seguida eu verifiquei mais uma vez a assadura de Elika e voltei a medir a sua temperatura, quando eu estava satisfeita com o que vi, eu agasalhei a minha filha e a levei para a cozinha, mas antes passei pelo quarto da minha mãe e confirmei que ela já não estava mais em sua cama, nem em casa ela estava, certamente tinha ido trabalhar. Eu apenas fiquei feliz por não ter que confrontá-la na frente de Elika, ainda estou muito zangada e nada de bom sairia da minha boca agora de manhã. Não para a minha mãe, pelo menos.
Apenas me irrita saber que ela foi muito covarde para ir me acordar e enfrentar o que fez. Ela é sã o suficiente para ir trabalhar, mas não é para cuidar da própria neta, da forma que me assegurou que faria.
Passo o meu dia inteiro com Elika e não a deixo sozinha um minuto sequer, faço tudo o que ela gosta durante todo o dia, nós brincamos e ela me ajuda a fazer o nosso almoço e jantar. Ela ainda chora e fica angustiada quando corria para algum comodo e se via sozinha, mas eu logo a encontrava e abraçava firmemente. Também dei de mamar todas as vezes em que ela pediu fazendo com que ela acabasse cochilando em meus braços, e mesmo quando eu a colocava adormecida em nossa cama, eu apenas voltava a cada hora para verificar o seu sono.
Quando a minha mãe apareceu, já no inicio da noite, eu aproveitei que Elika ainda estava dormindo para conversar com ela de uma vez por todas, não adiaria essa conversa tão importante e não permitiria que o acontecido passasse em branco.
– O que você estava pensando ao abandonar a minha filha de uma ano e seis meses para se virar sozinha por dois dias? Eu perguntei para você, eu deixei Elika em sua responsabilidade pois acreditava que você pudesse cuidar dela, você me disse que cuidaria, que a olharia, mas você não fez isso e você por algum motivo que eu desconheço apenas se ausentou da promessa e da sua mente, e deixei um bebê sozinho para cuidar de si mesmo. — Desabafo irritada quando entro no quarto da minha mãe naquela noite.
Ela estava sentada em sua cama, ainda usando o uniforme da hospital em que trabalha, seus olhos não estavam nos meus, ela apenas encarava a parede ao seu lado.
– Por que fez isso? Por que maltratou a minha filha? Você me odeia tanto assim que teve que descontar a sua frustração em uma bebê inocente? E se um dos vizinhos escutasse Elika chorando durante horas e resolvesse chamar a policia? E se os policiais a tivessem tirado de mim? Você se importa com a sua neta? Ela não é Prim, mas ainda é sangue do seu sangue, e merece mais do que você fez por ela. — Continuo o discurso quando não ouço uma resposta de minha mãe.
Minha mãe continua imperturbável, minhas palavras nem sequer surge efeito em seu expressão de pedra. Eu não digo mais nada, apenas espero a sua reação.
– Prim...- Ouço-a sussurrar e depois cair no choro. Isso me irrita mais do que nunca.
É claro que a morte de minha irmã nos abalou mais do que a morte de meu pai. Minha irmã era muito pura e inocente e não merecia a morte que teve. E de um modo ou de outro nós duas nunca vamos esquecê-la. A dor sempre existiria, mas já fazia anos que isso tinha acontecido e Prim, minha patinha, estava morte. Todavia, Elika, meu passarinho, estava viva e não merecia passar pelo inferno que passou.
– Pare de chorar por Prim, pelos céus, deixe-a descansar em paz, ela esta morta há muitos anos e você não pode mais ajudá-la, não que você tivesse ajudado muito depois da morte do papai, mas ela também morreu e surtar como se apenas você sofresse por isso não ajuda ninguém, você é muito egoísta achando que apenas você sofre pela morte dela. Prim era minha irmã, eu a mantive alimentada e cuidei dela quando você se ausentou. Eu a amava mais do que qualquer pessoa no mundo. Eu a perdi também, você já chegou a parar e pensar nisso? E eu perdi muito, eu perdi o papai, eu perdi Prim e perdi você. Não me sobrou nada e ainda assim você não me viu surtando e me ausentando da realidade, eu sobrevivi, e eu luto diariamente com essa dor. — Eu desabafo para a minha mãe, eu não perdi somente a minha família, e perdi o pai da minha filha. Ele, graças aos céus, não estava morto, eu não sei o que sentiria se descobrisse que ele não existia mais no mundo, que seus bonitos olhos azuis já não brilhavam, mesmo que ele não me queira mais ao seu lado, eu o amei profundamente, e se eu for bem sincera comigo mesma, eu sei que ainda o amo. E eu o perdi.
– Minha filha estava sozinha, em carne viva de tanto que estava assada, com sua frauda tão suja que tinha transbordado pela caça de moletom que usava, a mesma que eu a troquei antes de sair, ela estava com febre e morrendo de fome e suja de comida velha que você ao menos a serviu antes de surtar, e ter uma das suas crises. Quando eu te liguei e perguntei se podia ficar aqui com você durante alguns meses, eu realmente pensei que você queria ver a neta, fazer parte da vida dela. Você me disse, me garantiu que cuidaria dela. Ela é tudo o que eu tenho, você não tinha o direito de se ausentar, tomar calmantes e apagar durante esses dias que eu estive fora. Quem você achou que cuidaria de Elika?
– Eu não queria fazer isso, eu não sei por que tive a crise, porque apaguei, eu não me lembro muito bem, me desculpe mas eu apenas não quero mais passar por isso. E ter vocês aqui não me ajuda, eu queria ser uma mãe melhor, uma avó melhor, mas ela me lembra muito a Prim quando era bebê, e eu não posso passar por isso novamente...
– O que você quer dizer com isso? — Pergunto cheia de dor, ela não precisa me responder, eu sei bem o que ela quer e é ridículo pensar nisso, saber que Johanna estava certa. Minha mãe não estava lá quando eu precisei dela aos doze anos e tinha acabado de perder o meu pai, ela não estava lá para cuidar de Prim e eu sozinha, e quando Prim morreu alguns anos depois, ela não ficou para ver o que sobraria de mim.
Não sei por que me surpreendo agora. Minha filha e eu somos as intrusas, as indesejadas nessa casa. Minha mãe fugiu porque não aguentava a peso da dor, mas me ver novamente trouxe tudo de volta para ela. Ela nunca vai se curar enquanto eu estiver por perto.
– Katniss, filha eu apenas...Me desculpe, eu amo vocês duas, mas eu não posso...
– Não diz mais nada, eu sei exatamente o que você não pode. Vou começar a fazer as minhas malas e assim que possível eu saio da sua casa. Apenas quero que você saiba que eu não posso mais ficar tentando, eu tenho uma filha agora, ela depende inteiramente de mim...- Eu sinto as lágrimas dominarem a minha vista e tenho que segurar cada uma delas para não cair, não me permito dizer mais nada, e não deixo que minha mãe continue o seu pedido de desculpas.
Eu entro no quarto que divido com minha filha e me deito ao seu lado, seu corpo quente aquece o meu coração gelado, e ao olhá-la eu tiro forças para continuar lutando, não luto mais por mim, luto apenas por ela. Sou muito sortuda em tê-la na minha vida, meu pequeno passarinho, minha filha. Ao contrário, eu apenas estaria completamente sozinha no mundo.
Na semana seguinte, depois de muito conversar com a minha chefe, ela muito sensibilizada com o que passei no último final de semana, me oferece uma vaga de trabalho, na verdade uma transferência, para a filial de eventos que estava abrindo no Distrito Onze. Eu não teria nenhuma ajuda da empresa para a mudança, mas teria o meu emprego lá, se eu quisesse.
E eu aceitei. Depois disso, em menos de uma semana eu estava na estação de trem mais uma vez, minha mãe não veio se despedir, nós pouco nos falamos nesses dias todos, eu a vi secretamente pedindo desculpas para Elika, a beijando fortemente nas bochechas e chorando enquanto mantinha a minha filha nos braços. Minha filha apenas a encarava pacientemente. Não sei se vou voltar a ver a minha mãe algum dia, eu não sei se Elika vai voltar a vê-la também.
Mas, eu não posso me prender aos sentimentos de uma pessoa que já não acredita no amor, ou nas coisas boas. Eu não sou a pessoa mais otimista do mundo, porém eu tenho a minha filha nos meus braços, e seu sorriso me faz sorrir. Seus olhos azuis acalentam o meu peito machucado, e eu continuo por Elika.
Apenas torço para que o Distrito Onze seja melhor do que o Distrito Quatro e que eu possa cuidar da minha filha em paz.
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Passado
Peeta
"...You've been searching
Have you found many things?
Time for learning
Why have I not learnt a thing?
Words with no meaning
Have kept me dreaming
But they don't tell me anything..."
***
Eu já não sei se o que eu sinto é amor ou obsessão.
Já fazem quase três anos que eu não vejo Katniss, não tenho nenhuma noticia dela. Hoje é o aniversário do dia em que eu recebi a ligação de Finnick me pedindo para voltar para a Capital, pois Katniss não era encontrada em nenhum lugar. E eu apenas não faço a menor ideia de porque eu comprei a passagem para cá e vim aqui no Distrito Doze nesse dia ruim.
Eu não vou mais encontrá-la, eu sei disse. Se Katniss quisesse me ver ela já teria aparecido, teria me procurado de alguma forma. O que apenas prova que ela não estava tão apaixonada quanto me disse. Me esquecer deve ter sido muito fácil para ela.
Eu sou patético por ainda sentir o meu peito queimar por uma mulher que não me deseja, por ainda sentir dor com a sua partida.
O amor é uma porcaria.
Será que eu achava mesmo que a encontraria aqui no Distrito Doze, morando sozinha naquela casa velha. Que me receberia para um café, e que me deixaria entrar novamente em sua vida. Eu poderia implorar por uma segunda chance, por mais uma oportunidade de amá-la e dessa vez eu a amaria mais que antes, não cometeria os mesmos erros, não me deixaria enganar por nada.
Porém, Katniss não esta aqui e não vai voltar para a minha vida.
Faz tanto tempo que eu não sei nada dela, essa dor ainda me rasga por dentro. Eu a amei tanto. E não disse para ela.
Foi os meus erros que a afastaram de mim? Ela não acreditou no que eu disse, quando a assegurei que não encostaria mais em Glimmer? Foi por isso que ela me deixou?
Amor, ou obsessão? O que eu sinto agora?
Apenas sei que os olhos cinzentos continuam a invadir os meus sonhos, não tanto quanto antigamente o que me assusta muito. Será que eu comecei a esquecê-la? Será que eu serei capaz disso algum dia?
As ruas sujas da costura e o clima frio parecem transparecer o que eu estou sentindo por dentro.
Se eu encontrasse Katniss agora, o que eu faria?
Eu provavelmente contaria que estou noivo de Glimmer à muitos anos, e que estou enrolando para marcar a data do casamento. Eu perguntaria por que ela foi embora, e talvez chorasse pela nossa sorte ruim.
Ninguém mais toca no nome de Katniss na minha frente, a não ser Glimmer quando quer me irritar, ou quando estamos discutindo. Ela adora jogar a minha traição no meu rosto. Acho que tem um pequeno prazer em me lembrar que Katniss me abandonou e foi embora.
Tem dias que eu apenas gostaria de não amar Katniss. Ou gostaria de nunca ter olhado em seus olhos cinzentos.
Essa vai ser a última visita que eu faço no Distrito Doze, não vou mais correr atrás do fantasma dela, não posso, me machuca muito todas as vezes em que volto para a Capital de mãos vazias, com a mesma desesperança no olhar.
Eu tento ser maduro em relação a isso, tento ser um homem mais forte e frio.
São os sonhos, eu os culpo por isso.
As vezes, passo vários dias sem pensar ou sonhar com Katniss. Estou muito ocupado com meu mais novo cargo dentro da Mellark's, não quero decepcionar o meu pai. Mas, quando os sonhos vem, eu apenas não consigo detê-los e quando acordo sinto toda a dor voltar.
Já aceitei que Glimmer nunca poderá ocupar o lugar de Katniss em meu coração, e acho que nenhuma outra mulher terá esse poder. O meu coração é dela desde crianças, e ela não fazia a menor ideia disso.
Dessa vez ninguém sabe da minha viagem, eu não contei para ninguém, nem mesmo para Haymitch, que é um grande amigo agora. Eu sei que não posso enganá-lo, ele é muito observador e nota em minha expressão que algo esta errado, é claro que sabe de todo o meu desespero por não encontrar Katniss. Ele, de certa forma, também a perdeu.
Mas, eu tenho que ser sincero e dizer que eu parei de tentar encontrá-la, essa é a primeira vez em mais de um ano que eu viajo para tentar encontrá-la. Mais uma vez, foi dinheiro e tempo jogados fora.
Ela deve estar com outro homem, alguém que não foi burro o suficiente para ter dúvidas em relação a outra mulher. Será que esta casada?
Me sinto queimar por dentro quando imagino um outro homem com as mãos no corpo da minha morena, da mulher que amo.
Isso é uma doença, gostar tanto de alguém e por tanto tempo não é saudável. É horrível, amar não deveria ser assim tão forte e doloroso. As vezes eu apenas quero me livrar disso, arrancar o coração do meu peito com minhas próprias mãos e lançá-lo para bem longe.
Dessa vez o sonho que me motivou a vir aqui no Distrito Doze, foi uma lembra de nosso tempo na Capital.
No sonho-lembrança nós dois estávamos caminhando pelo Museu da Liberdade, dessa vez estávamos vendo uma exposição sobre as arenas do Jogos Vorazes. Várias maquetes enormes estavam espalhadas pelas várias salas do museu, todas replicas exatas das arenas reais, enquanto que várias armas reais usadas nos jogos e várias armadilhas já desmontadas, mas mortais estavam espalhadas pelos corredores ou em salas menores. Um público grande estava admirando todo o horror. Katniss e eu apenas estávamos fazendo uma pesquisa para as provas semestrais.
Ao fundo, o nome de cada participante dos Jogos Vorazes, vitorioso ou não estava sendo dito de forma firma e triste. E em algumas paredes tínhamos hologramas exatos dessas crianças já mortas.
Nas piores salas, e também as mais lotadas o museu oferecia a exibição das lutas e mortes sangrentas. Entretanto, Katniss e eu evitamos essas salas. Estávamos mais focados na questão politica da coisa, e não na exibição de mortes sem fim.
Eu não sei bem quem levantou a questão, pois já faz muito tempo que isso aconteceu, mas em um momento nós dois começamos a conversar e fazer suposições sobre o que aconteceria se os rebeldes não tivessem lutado e vencido, a guerra quase dizimou a população de Panem.
– Imagina, nós dois seriamos obrigados a participar das colheitas todos os anos até completarmos dezoito. Seus irmãos também participariam, e minha irmã também. — Ela me disse com uma voz firme. Seus dedos estavam entrelaçados nos meus, enquanto os seus olhos vagavam por uma armadilha mortífera que atirava bolas de fogo nos participantes, exatamente como bolas de canhão.
– Não tenho certeza se nós participaríamos, pense bem, eram milhares de outras crianças participando. — Eu argumento ao aproximar o meu rosto do dela e depositar um beijo tranquilo em suas bochechas. — A chance disso acontecer seria muito pequena.
– Sim, mas ainda haveria uma chance, lembre-se que eu sempre morei na costura e certamente eu teria que dispor das tésseras. Essa não seria uma realidade para você, filho do padeiro do Distrito Doze, e morador do centro. Mas, seria para mim. — Ela me responde muito seriamente.
– Isso ainda não me convence, pois se pensarmos nas tésseras, temos que lembrar que outras centenas de crianças na costura também pegariam essa moeda de troca e você é uma ótima caçadora, teria se virado muito bem sem as tésseras. — Eu digo para ela.
– Não Peeta, você não esta me escutando. — Ela me diz sorrindo. — Com a minha sorte eu teria sido sorteada assim que completasse doze anos. Não! Pior ainda, eu teria sido sorteada juntamente com você, em uma momento histórico para o Distrito Doze, onde um garoto do centro iria para o Jogos Vorazes.
Eu caio na risada nesse momento. Nós dois sendo sorteados para a mesma edição do Jogos Vorazes? Isso é loucura total, e se eu pensar bem a respeito e cogitar o que ela esta me dizendo, eu apenas entro em desespero total.
– Se você tivesse ido para o Jogos Vorazes, você seria a vitoriosa, ninguém seria capaz de te parar com um arco e flechas na mão. — Eu digo ao passar os meus braços em volta da sua cintura e a puxando para mais perto do meu corpo. — Eu teria que te proteger na arena, pense só nisso, nós dois seriamos basicamente amantes desafortunados.
– Eu teria te protegido. — Ela me diz sorrindo ao passar os braços ao redor do meu pescoço.
– Ou não. Nós dois seriamos inimigos dentro da arena, você me jogaria uma colmeia de teleguiadas na cabeça, é isso o que você faria. — Eu estou brincando com ela, pois acabamos de passar por uma sala onde vimos uma duzia de ninhos antigos de teleguiadas usados em uma arena especifica no decimo quinto Jogos Vorazes, essa sala nos deixou muito aflitos. Teleguiadas ainda existem e são muito perigosas. — Eu é que protegeria você. Teria que ficar com os carreiristas e despistá-los de você.
– E eu, ao ver você com os carreiristas ficaria terrivelmente irritada e somente então eu jogaria uma colmeia de teleguiadas em sua cabeça, que tal isso? — Ela me diz depois de sorrir brilhantemente.
– Você é malvada. — Eu digo ao me inclinar e beijar os seu lábios bonitos, os olhos cinzentos brilham para mim. — Mas a verdade é que eu acho que nós protegeríamos um ao outro.
– Sim, mas novamente com a minha sorte é bem capaz que eu participasse não de um, mas de dois Jogos Vorazes. — Katniss faz uma careta muito adorável quando me diz isso. — E teríamos Haymitch como nosso mentor.
– Nós já o temos sendo mentor das nossas bolsas de estudo. — Eu lembro para ela.
– Verdade, mas ele foi o seu mentor primeiro, e agora é o meu. Mas imagina ficar vinte e quatro horas por dia convivendo com Haymitch. Eu teria que matá-lo, tenho certeza disso. — Katnis me diz ao pegar na minha mão e me puxar para outra sala.
Nos dois olhamos em volta e nossos sorrisos morrem ao ver o que estava sendo apresentado nessa sala. Em todos os lados existem imagens de um Haymitch muito jovem, juntamente com um holograma dele se movendo próximo a uma grande maquete de arena.
Ficamos em silencio por todo o percurso. Olhamos tudo com um olhar muito clinico e tentamos ser imparciais sobre tudo o que vemos, o que é impossível já que nós dois conhecemos o vitorioso apresentado nessa arena. Ele foi o vitorioso do segundo Massacre Quartenário. Esse foi o último Jogos Vorazes da história de Panem, logo em seguido entramos em guerra com a Capital, e por um grande milagre e ajuda do Distrito Treze nós vencemos.
– Talvez nós dois não devêssemos ser tão duros em relação ao Haymitch. — Eu digo depois que nós dois examinamos a maquete da grande arena e vemos as armadilhas perigosas que poderiam ter tirado a vida do nosso velho mentor.
– Eu concordo. — Katniss me responde. — Deve ter sido muito difícil ter vivido a coisa na prática, um verdadeiro pesadelo.
Eu a olhei, e realmente pensei no que eu sentiria se a visse nos Jogos, se eles ainda existissem e a levassem dos meus braços. Eu a imaginei morrendo em uma arena sangrenta, apenas para divertir os nascidos na Capital. Nesse momento, eu sinto os meus pelos do corpo arrepiarem e um terror profundo me imunda. Eu a teria protegido, daria a minha vida por isso.
O meu sonho acabou bem ai, e eu acordei assustado na cama. Suando muito. Depois desse sonho, eu apenas tive que tentar mais uma vez. As palavras que usamos, os olhares, as mãos dadas.
Sua partida nunca fez sentido, e depois de quase três anos continuam a não fazer sentido algum.
Mas, esta na hora de eu acabar com essa tristeza, com essa obsessão. Vou voltar para a Capital e continuar a minha vida, chega de viver pensando em Katniss Everdeen.
Chega de me machucar, de não entender.
Ela quis ir embora, então eu vou permitir isso.
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