Amar o Caos

24 O Preço da Sobrevivência


A chuva caía fina sobre Busan naquela noite, escorrendo pelos enormes vidros da sala enquanto Félix organizava algumas coisas sobre a mesa.

Yuna estava sentada no sofá com o notebook no colo, fingindo prestar atenção num exercício da faculdade.

Fingindo.

Porque já tinha percebido o jeito inquieto dele havia horas.

Félix raramente parava quieto quando alguma coisa grande estava prestes a acontecer.

— Vou precisar ir pra Seoul amanhã cedo — ele disse de repente.

Yuna ergueu os olhos devagar.

— Quanto tempo?

— Alguns dias.

Negócios.

Ele não precisou dizer.

Ela também não perguntou.

Já tinha aprendido que certas portas na vida de Félix permaneciam fechadas mesmo quando ele parecia próximo.

Félix pegou a jaqueta sobre a cadeira antes de continuar:

— Jim vai comigo os outros ficam aqui cuidando das coisas… e da sua segurança.

Yuna suspirou discretamente.

Lá vinha.

Ele caminhou até ela devagar.

— E, por favor, Yuna… não faz nada fora do comum enquanto eu estiver fora, ok?

Ela abaixou o notebook lentamente.

Indignada.

— Quando foi que eu te causei problemas?

Félix soltou um pequeno riso cansado pelo nariz.

— Você não me causa problemas.

Então se inclinou um pouco na direção dela, o olhar ficando mais sério.

— Mas manter você segura é um problema muito sério pra mim.

Aquilo desmontava a raiva dela de um jeito irritante.

Porque Félix falava essas coisas com sinceridade demais.

Ele passou a mão pelos cabelos escuros antes de completar:

— Só… não inventa de sair sozinha. Nem visitar seus pais sem me avisar antes.

O tom era calmo.

Mas ainda era uma ordem.

Yuna fechou o notebook com força suficiente para arrancar um som seco da capa.

— Você percebe como isso soa absurdo às vezes?

— Percebo.

— Então por que continua fazendo?

Félix sustentou o olhar dela por alguns segundos.

Longos segundos.

— Porque eu sei coisas que você não sabe.

A resposta caiu pesada entre os dois.

Yuna odiava aquilo.

O mistério constante.

As meias verdades.

A sensação de estar vivendo ao lado de alguém que sempre enxergava um perigo invisível rondando cada esquina.

— Você fala como se eu estivesse em risco o tempo inteiro.

O olhar dele mudou quase imperceptivelmente.

E isso respondeu antes mesmo das palavras.

— Comigo… você está.

O silêncio tomou conta da sala.

Lá fora, a chuva continuava caindo sobre a cidade iluminada de neon.

Yuna desviou o olhar primeiro.

Porque começava a perceber uma coisa assustadora:

Talvez Félix não estivesse exagerando.

Talvez o mundo dele fosse realmente perigoso o bastante para transformar até amor em ameaça.


Seoul parecia ainda mais fria vista do alto naquela madrugada.

Luzes infinitas cortavam a cidade enquanto Félix permanecia sentado dentro do carro preto estacionado numa rua silenciosa próxima ao rio Han.

Jim estava no banco da frente, atento, mãos cruzadas.

— Isso tá com cara de armadilha — ele murmurou.

Félix não respondeu.

Porque já sabia.

Quando homens da divisão de inteligência da polícia marcavam encontros fora de delegacias, longe de câmeras e relatórios oficiais… era porque aquilo ultrapassava o normal.

Poucos minutos depois, outro carro parou mais à frente.

O agente desceu sozinho.

Terno escuro.

Postura calma.

Olhar cansado de quem vive cercado por mentiras há tempo demais.

Ele entrou no banco traseiro sem pedir licença.

— Park Félix.

— Se veio me prender, perdeu viagem.

O homem soltou um pequeno sorriso.

— Se eu quisesse prender você, não teria vindo sozinho.

Silêncio.

O agente colocou uma pasta sobre o banco.

Fotos.

Relatórios.

Gravações.

Transporte ilegal.

Rotas clandestinas.

Dinheiro movimentado por empresas fantasmas.

O suficiente para destruir Félix muitas vezes.

Jim ficou tenso imediatamente.

Mas o agente manteve a calma.

— A verdade é que você não é nosso alvo principal.

Félix ergueu os olhos lentamente.

— Então chega logo na parte interessante.

O homem abriu outra pasta.

Mais fotos.

Homens que Félix conhecia bem demais.

Figuras maiores. Mais perigosas. Os verdadeiros donos daquele submundo escondido entre portos, empresas e corrupção.

— Queremos eles.

Félix soltou um riso baixo.

Sem humor.

— E acha que eu vou entregar gente desse nível pra vocês?

— Acho que você gosta de continuar respirando.

A resposta veio seca.

Jim se moveu no banco da frente imediatamente, irritado.

Mas Félix levantou uma mão, mandando ele ficar quieto.

O agente então puxou uma última fotografia.

E foi aí que o ar mudou dentro do carro.

Yuna.

Saindo da faculdade.

Sentada na cafeteria do campus.

Rindo ao lado de Minho.

Os olhos de Félix escureceram no mesmo instante.

— O que é isso?

A voz saiu baixa. Perigosa.

— Seu problema.

O agente deslizou mais algumas imagens.

Minho falando com homens desconhecidos.

Entrando num carro registrado em nome de uma empresa fantasma ligada a um dos grupos acima de Félix.

— Há alguns meses alguém infiltrou esse garoto na universidade da sua garota.

Jim xingou baixo na frente.

Félix continuava imóvel.

Mas a raiva começava a subir lenta e violenta dentro dele.

— O objetivo era simples — o agente continuou. — Vigiar Yuna. Descobrir seus hábitos. Se aproximar o suficiente para usar ela contra você quando fosse necessário.

Félix apertou a mandíbula com tanta força que doeu.

O agente observava ele atentamente.

— Você entende agora por que precisa cooperar?

Mas Félix quase não ouviu o restante da frase.

Porque naquele instante só existia uma coisa queimando dentro dele:

Alguém tinha chegado perto demais de Yuna.

E isso…

Isso era algo que Félix Park jamais perdoaria.

O silêncio dentro do carro ficou pesado depois das fotos.

Pesado demais.

Félix continuava olhando a imagem de Yuna ao lado de Minho, os dedos apertando a fotografia até amassar levemente a borda.

A raiva dentro dele era fria.

Controlada.

O tipo mais perigoso.

O agente fechou a pasta devagar.

— Então? — perguntou calmamente. — Coopera com a gente, entrega os nomes certos e acaba com isso de uma vez. Sua pena diminui, os grandes caem… e talvez, no fim, você ainda consiga ter uma vida normal com a garota que ama.

Jim soltou um riso desacreditado na frente.

— Vida normal? Você realmente não conhece a gente.

Mas Félix permaneceu em silêncio.

Porque aquela proposta era cruel justamente por parecer possível por alguns segundos.

Uma vida longe daquela guerra.

Longe de rotas ilegais.

Longe de homens perigosos observando Yuna.

O agente percebeu a hesitação.

— Você sabe como isso termina se continuar desse jeito. Mais cedo ou mais tarde alguém vai usar ela contra você.

Aquilo acertou exatamente onde precisava.

Félix fechou os olhos por um instante.

E viu Yuna.

Dormindo tranquila.

Rindo na cozinha.

Brigando com ele.

Tentando construir uma vida normal numa faculdade enquanto o mundo ao redor deles apodrecia lentamente.

Quando voltou a abrir os olhos, havia algo diferente neles.

Decisão.

— Se eu fizer isso… quero condições.

O agente ficou imóvel.

— Meus homens ficam fora.

Jim virou o rosto imediatamente.

— Félix—

— Cala a boca.

A voz saiu firme.

Fria.

Félix voltou a encarar o policial.

— Kako, Kadu, Kim, Jim… eles não entram nisso. Eu assumo tudo. Dou rotas, nomes, operações, o que você quiser.

O agente observava ele atentamente agora.

— E em troca?

— Segurança.

A palavra saiu pesada.

— Garantias de que ninguém meu vai desaparecer no processo. Nenhuma prisão inventada. Nenhum “acidente”. Nenhuma bala perdida.

O homem inclinou levemente a cabeça.

— Você tá pedindo muito.

Félix deu um sorriso pequeno.

Perigoso.

— E eu tô oferecendo muito mais.

Silêncio.

A chuva continuava escorrendo pelo vidro do carro enquanto Seoul brilhava do lado de fora como uma cidade bonita demais para esconder tanta sujeira.

Então Félix falou a parte mais difícil:

— Inclusive eu.

O agente estreitou os olhos.

— Você quer imunidade?

— Quero sobreviver.

A sinceridade crua na voz dele fez até Jim ficar quieto.

Porque pela primeira vez em muitos anos…

Félix parecia cansado de verdade.

Cansado de correr.

Cansado de lutar.

Cansado de viver esperando o próximo problema explodir na porta.

Tudo que ele queria agora era uma chance absurda e quase impossível:

Manter Yuna viva longe daquele inferno.

Mesmo que, para isso…

Precisasse destruir o próprio mundo primeiro.