Amar o Caos
25 Dias Antes da Queda
Busan ainda despertava quando Félix voltou.
O céu da manhã permanecia nublado, tingido naquele azul frio antes do nascer completo do sol. As ruas molhadas refletiam luzes de neon quase apagadas enquanto o carro atravessava a cidade silenciosa.
Félix parecia mais cansado do que nunca.
Não fisicamente.
Pior.
Cansado por dentro.
Quando entrou na casa, encontrou os rapazes espalhados pela sala e cozinha, alguns ainda acordados da noite anterior, outros claramente esperando notícias desde a madrugada.
O clima pesou imediatamente.
Jim fechou a porta atrás dele.
Ninguém brincou.
Ninguém perguntou sobre Seoul de forma casual.
Porque todos perceberam a expressão dele.
Ruim.
Félix tirou a jaqueta devagar antes de falar:
— A gente precisa conversar.
Aquilo bastou.
Os rostos mudaram na hora.
Minutos depois, todos estavam reunidos na sala enquanto a chuva fina batia contra as janelas da casa.
Félix explicou tudo.
A polícia.
A investigação.
Os chefões.
O acordo.
E principalmente:
As prisões.
O silêncio depois da explicação foi pesado o suficiente para sufocar o ambiente.
Então veio a explosão.
— Ficou maluco?! — Kako levantou primeiro. — Você vai se entregar sozinho por causa desses desgraçados?
— Não é “por causa deles” — Félix respondeu frio. — É o único jeito de acabar com isso sem todo mundo morrer.
— Então deixa a gente cair junto! — outro rebateu irritado. — A gente entrou nisso com você!
Mas Félix já estava decidido.
E todos ali conheciam aquele olhar.
Quando Félix Park colocava algo na cabeça… nem tempestade mudava.
— Já acabou — ele cortou seco. — Vocês vão ser presos junto comigo no começo. Faz parte do plano. Mas eu organizei tudo.
Ele puxou uma pasta escondida dentro da mochila e jogou sobre a mesa.
Documentos.
Contas falsas.
Investimentos.
Félix tinha escondido dinheiro durante anos.
Muito dinheiro.
Não por ganância.
Por sobrevivência.
— Tem empresas no exterior, contas separadas e investimentos suficientes pra vocês recomeçarem quando isso acabar.
Kim encarou ele desacreditado.
— Você planejou isso há quanto tempo?
Félix não respondeu.
Talvez porque homens como ele sempre planejassem rotas de fuga mesmo sem admitir.
Kadu passou a mão no rosto, claramente irritado.
— E você? Vai apodrecer sozinho numa prisão?
— Melhor eu do que vocês.
— Para de agir como mártir, inferno.
Mas Félix apenas desviou o olhar.
Porque aquilo não era heroísmo.
Era cansaço.
Cansaço de fugir.
De dever favores.
De viver cercado de violência.
Então veio a pergunta que realmente importava.
— E a Yuna? — Kadu perguntou mais baixo dessa vez. — O que vai acontecer com ela?
O ambiente inteiro ficou em silêncio.
Félix demorou alguns segundos para responder.
Longos demais.
Então apoiou os braços nos joelhos e falou sem olhar para ninguém:
— Ela vai ter a vida que merece.
Jim franziu a testa.
E Félix completou, quase num murmúrio cansado:
— Bem longe de mim.
Aquilo bateu pesado na sala.
Porque todos ali sabiam.
Félix amava Yuna de um jeito perigoso demais.
E talvez justamente por isso…
Estava escolhendo soltá-la antes que aquele mundo destruísse ela completamente.
Os dias seguintes se transformaram numa confusão silenciosa dentro de Félix.
Medo.
Raiva.
Dúvida.
Cansaço.
Tudo misturado.
Mas nada pesava mais do que uma única certeza:
Ele perderia Yuna no meio daquele processo.
E talvez esse fosse justamente o preço para mantê-la viva.
Por isso Félix tomou a decisão mais difícil até então:
Não interferir em Minho.
Mesmo sabendo exatamente quem ele era.
Mesmo querendo arrancá-lo da faculdade pelos cabelos no instante em que descobriu a verdade.
Qualquer movimento brusco poderia levantar suspeitas.
Estragar a operação.
Alertar os homens acima dele.
Então Félix suportou.
Engoliu o ciúme.
A desconfiança.
A raiva que queimava toda vez que via mensagens chegando no celular de Yuna ou escutava o nome de Minho surgir casualmente durante o jantar.
Aquilo o destruía aos poucos.
Porque agora ele enxergava perigo em cada aproximação.
E, ao mesmo tempo, precisava fingir normalidade.
Yuna percebeu que algo tinha mudado nele depois da volta de Seoul.
Félix começou a voltar mais cedo para casa.
Mais quieto.
Mais presente.
Às vezes ela descia para beber água de madrugada e encontrava ele sentado sozinho na sala escura, observando a chuva cair pelas janelas como alguém perdido nos próprios pensamentos.
Outras vezes…
Ele simplesmente precisava dela perto.
O toque de Yuna virou o único lugar onde Félix conseguia desligar a cabeça por alguns minutos.
À noite, ele a puxava para perto devagar, enterrando o rosto no pescoço dela, segurando sua cintura como se tentasse decorar a sensação antes de perdê-la.
E Yuna sentia.
Sentia o jeito como ele permanecia abraçado nela por mais tempo.
Como os beijos carregavam algo diferente agora.
Quase despedida.
Mas Félix nunca dizia nada.
Porque contar a verdade significaria arrastar Yuna para o centro do desastre.
Então ele fazia a única coisa que ainda sabia fazer:
Aproveitava cada instante ao lado dela como alguém tentando guardar memórias antes da tempestade chegar.
E isso, ironicamente…
Só fazia ele se apaixonar ainda mais.
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