Amar o Caos

15 O Lugar Onde o Lobo Descansa


A noite desce fria, carregada pelo som constante da chuva batendo contra o vidro.

A luz fraca que entra pela janela se espalha pelo quarto, recortando no chão e nas paredes a silhueta do corpo nu de Félix, ainda marcado por machucados recentes.

Yuna o observa em silêncio, o peito apertado.

O medo lhe corrói por dentro — medo de que ele desapareça, de que o mundo lá fora o engula e ele nunca mais volte para casa.

Naquele instante, mais do que qualquer palavra, ela sente que sua presença é tudo o que pode oferecer para mantê-lo ali.

Durante a madrugada, o som da chuva ainda ecoando lá fora, Félix se aproxima, buscando o calor do corpo de Yuna.

Mesmo ferido, seus dedos a encontram, sua respiração é carregada de desejo e necessidade.

Ela hesita — não quer causar-lhe mais dor, não quer abrir feridas que ainda não cicatrizaram.

Mas ele é insistente, não com pressa, mas com um anseio silencioso que a envolve.

E quando finalmente se entrega, ele a toca com uma delicadeza rara, como se cada movimento fosse medido, cada gesto fosse um cuidado para não machucá-la — e, ainda assim, a intensidade entre eles é inevitável.

Na manhã....

Félix já estava de pé, a cicatriz recente ainda marcando sua pele como um lembrete cruel do quão perto esteve do fim. O frio da madrugada cortava, mas ele parecia ignorar. Vestia o casaco, ajeitava o coldre e olhava para Yuna como quem pede desculpas sem dizer nada.

— Não demora… — ela disse, tentando controlar o tremor na voz.

Ele apenas sorriu de canto, aquele sorriso de quem sabe que não pode prometer nada. A porta fechou-se atrás dele e Yuna sentiu o vazio se espalhar pela casa.

Nas horas seguintes, a chuva engrossou. O relógio parecia zombar dela, cada minuto arrastando-se como chumbo. Até que o barulho de um carro na rua fez seu coração disparar. Félix voltou… mas não estava sozinho. Dois homens o acompanhavam — rostos marcados pela rua, olhar de quem já viu sangue demais.

Yuna entendeu que aquela noite seria um divisor de águas. O mundo dele estava entrando pela porta, e não havia mais como fingir que não existia.

Dias depois daquela noite chuvosa, Félix já conseguia se mover melhor, as marcas no corpo começavam a sumir, mas os olhos… esses ainda carregavam um peso que Yuna não sabia decifrar. Ele passava horas em silêncio, mexendo em coisas que ela não podia ver, saindo e voltando sem explicar.

Yuna percebia que estava sendo puxada para um mundo que não era o dela — e que talvez fosse perigoso demais para permanecer. Ainda assim, não conseguia se afastar. Ele tinha um jeito de prendê-la, mesmo sem prometer nada.

Félix, ainda debilitado, decide que Yuna ficará mais segura longe dele. Sem discutir, ele a acompanha até a casa dos pais, onde ela ainda vive como estudante. O caminho é silencioso, só o som da chuva batendo no asfalto. Quando chegam, ele segura a mão dela por um instante mais longo do que deveria, como se quisesse gravar aquele toque. Não diz “adeus”, mas os olhos dele deixam claro que teme não vê-la tão cedo.

— Vou precisar sair por uns dias… terminar o que comecei — disse Félix, a voz grave e séria. — Você vai ficar com seus pais. Quando voltar, eu te aviso.

Yuna sentiu o coração apertar. O medo pela segurança dele era quase sufocante. Segurou o braço de Félix antes que ele se afastasse.

— Por favor… tenha cuidado — pediu, o olhar implorando por uma promessa que ele não podia garantir.

Félix apenas assentiu, mas nos olhos havia uma determinação silenciosa — e um perigo que Yuna sabia que ele não podia evitar.

Quase uma semana se passou sem qualquer notícia.

O celular de Yuna permanecia silencioso, e cada vez que vibrava, era apenas alguma mensagem irrelevante.

Na sala de aula, o professor falava, mas as palavras soavam distantes.

A ansiedade corroía por dentro; ela não conseguia se concentrar em nada.

Era um tempo pesado, angustiante, que parecia se arrastar eternamente.

Ao sair da escola, o coração de Yuna quase parou.

Lá estava ele, encostado na moto, em frente ao portão — a postura relaxada, mas o olhar fixo nela.

No instante em que seus olhos se encontraram, um alívio avassalador tomou conta dela, seguido de uma emoção tão forte que quase a fez chorar.

— E então? Como foi tudo? — ela perguntou, a voz carregada de ansiedade.

Félix não respondeu de imediato. Apenas lhe lançou um olhar demorado e deixou escapar um leve sorriso de canto de boca — enigmático, quase provocador. Nada além disso.

O silêncio dele dizia muito… e ao mesmo tempo não dizia nada.

Félix não perdeu tempo. Mal haviam trocado duas palavras e já a conduzia para o quarto, como se cada segundo de distância fosse uma tortura. Fazia quase uma semana que não se tocavam… e a fome do lobo era implacável. Seu olhar queimava, as mãos firmes, o corpo tenso — pronto para reivindicar o que era dele.

Ele fechou a porta atrás de si, o som seco ecoando no pequeno quarto. Yuna mal teve tempo de respirar antes de sentir o peso da presença dele se aproximando. Os dedos de Félix roçaram sua pele, e um arrepio percorreu sua espinha. Não havia pressa… mas também não havia espaço para hesitação. A semana sem ele tinha sido um deserto, e agora cada toque era um gole de água depois de dias de sede.

Ele a puxou para si com um impulso firme, como se o corpo dela fosse o único lugar onde ele encontraria paz.

Os lábios se encontraram num beijo carregado de urgência, quente, sem pausas.

As mãos dele exploravam cada curva, memorizando o que já conheciam, mas que pareciam redescobrir.

A respiração de Yuna ficou curta, o coração acelerado.

O “lobo” dentro dele não pedia licença — tomava, possuía, reivindicava.

Entre carícias e suspiros, a distância daquela semana inteira se dissolvia, até que o mundo fora do quarto deixou de existir.

O quarto ainda guardava o calor dos dois. A respiração pesada ia cedendo espaço a um silêncio carregado, quase palpável.

Felix, como sempre, não disse nada — nunca foi homem de desperdiçar palavras. O silêncio era o refúgio que ele mais prezava.

Levantou-se devagar, pegou um cigarro no criado-mudo e foi até a janela. Acendeu-o, tragando fundo, enquanto a luz prateada da lua atravessava a cortina e caía sobre seus ombros.

Yuna, com os cabelos ainda bagunçados e a pele quente, vestiu uma camisa dele, larga demais para o seu corpo. Aproximou-se por trás, envolvendo-o num abraço apertado, como se quisesse impedir que ele se afastasse outra vez.

— Senti tanto a sua falta… — sussurrou, a voz embargada, o rosto encostado em suas costas.

Ele a puxou suavemente pela cintura, fazendo-a encostar o rosto em seu peito. Ficaram assim, sem pressa, ouvindo apenas a respiração um do outro e o som distante da noite lá fora.

Ele acariciou a pele de Yuna — macia, quente, impregnada com aquele perfume que ele não conseguia esquecer.

Aproximou-se, a voz quase inaudível:

— Também senti a sua falta.

Era a primeira vez que ele deixava escapar o que guardava no peito.

Yuna fechou os olhos, apertando o abraço como se quisesse colá-lo nela para sempre.

— Então não some mais… — murmurou, a voz carregada de saudade e um leve tremor.

Felix soltou uma risada curta, sem humor. Seus olhos estavam mais suaves que de costume, mas ainda havia algo de indecifrável ali. Ele passou o polegar pela bochecha dela, como se quisesse memorizar cada traço.

— Não prometo nada… mas vou tentar.

O silêncio voltou a tomar conta do quarto, quebrado apenas pelo vento entrando pela janela. E, por um instante, parecia que o mundo lá fora não existia.

Ela respirou fundo, tentando conter o turbilhão que aquela simples frase provocara.

Ele, por sua vez, não desviou o olhar. Era como se, naquele instante, nada mais existisse além dos dois.