Amar o Caos

16 Entre o Mar e a Fúria


A rotina voltou como um relógio maldito que nunca atrasa.

Félix, outra vez, pelas ruas como se fosse dono delas. Os capangas passando de porta em porta, cobrando os comerciantes com aquele jeito que não deixava espaço pra discussão.

Os bares, sempre cheios, ruidosos, fumaça no ar, risadas misturadas com conversas sussurradas e olhares que evitavam encarar demais. O bairro crescia, e junto dele crescia também a influência de Félix.

Enquanto isso, Yuna corria contra o tempo. As últimas semanas de provas consumiam suas noites e deixavam seus dias mais pesados. Faltava pouco — logo ela terminaria o ginasial. Cada página estudada era um passo a mais pra longe daquela realidade sufocante… ou pelo menos era o que ela queria acreditar.

Assim que você terminar o ginasial, vamos fazer uma pequena viagem, só para relaxar — disse Félix.

Yuna se alegrou; aqueles meses tinham sido pesados, e ela precisava desse tempo para respirar.

Félix voltou para a rua ainda cedo, como de costume, deixando Yuna com um sorriso bobo no rosto só de imaginar a viagem.

Os dias seguintes passaram arrastados entre provas, trabalhos e aquele calor sufocante do bairro.

À noite, ela ouvia ao longe o som das conversas nos bares, o ronco das motos dos capangas e, às vezes, a risada de Félix ecoando por alguma esquina.

Faltavam apenas duas semanas para o fim das aulas, e Yuna já contava cada dia como quem risca os últimos números num calendário.

Era bom ver como seria a vida com Félix fora daquele ambiente, distante de tudo, será que ele se abriria mais Yuna se pegava pensando nisso enquanto estudava — como seria ver Félix longe das ruas, sem os olhares de respeito misturados com medo, sem o peso constante do comando.

Talvez, em outro lugar, ele relaxasse, mostrasse um lado que ela ainda não conhecia.

Será que ele riria mais? Será que falaria sobre o passado, ou sobre o que realmente queria para o futuro?

Ela tinha a sensação de que, longe dali, poderia descobrir se aquele homem que a protegia e dominava o bairro era o mesmo homem que, às vezes, a olhava com um carinho silencioso, mas intenso.


Ufa até que enfim férias. O lugar escolhido era perto da praia, ele alugou uma cabana simples mais aconchegante, era mais que o suficiente.

Yuna sentiu o cheiro do mar antes mesmo de vê-lo.

O som das ondas chegava como um convite preguiçoso, e a brisa salgada batia no rosto, trazendo uma sensação de liberdade que ela não sentia havia muito tempo.

A cabana que Félix havia escolhido ficava a poucos metros da areia. Madeira rústica, varanda pequena com duas cadeiras e uma rede, e aquele silêncio quebrado apenas pelo mar.

Nada de luxo, nada de exageros — e justamente por isso, perfeito.

Ele colocou as malas no canto e disse apenas:

— Aqui é pra descansar, Yuna. Só descansar.

E ela percebeu que, pela primeira vez, ele realmente parecia… leve.

— Faz tanto tempo que não viajo de férias… — disse Yuna, quase cantando, enquanto amarrava a parte de cima do biquíni. O olhar dela brilhava como o sol entrando pela janela da cabana. — Não vejo a hora de entrar no mar.

Félix, largado na rede, soltou um resmungo preguiçoso:

— Eu nunca tive férias…

Ela riu, balançando a cabeça.

— Pois é, está mais do que na hora de aprender o que é isso.

— E o que é, exatamente? — ele perguntou, com um meio sorriso irônico.

— É desligar do mundo. Esquecer relógio, esquecer problemas… e se deixar levar.

— Perigoso — ele provocou.

— Delicioso — ela corrigiu, já pegando a toalha e puxando-o pelo braço. — Anda logo antes que eu vá sozinha.

Ele suspirou, mas levantou. No fundo, sabia que, se havia alguém capaz de lhe ensinar a gostar de férias, era ela.

Os pés de Félix afundavam na areia molhada, e ele sentia a água gelada bater nos tornozelos. O som das ondas misturava-se com a risada leve de Yuna, que corria de um lado para o outro, deixando que a maré a alcançasse.

— Quem bom que você tá feliz — ela disse, olhando-o com ternura, como se quisesse guardar aquele momento para sempre.

Félix desviou o olhar, meio sem jeito, mas o sorriso permaneceu. Era raro. Era sincero.

— Talvez… seja porque é a primeira vez que sinto que não preciso me preocupar com nada — respondeu, a voz baixa, quase como se tivesse medo de quebrar a magia daquele instante.

Yuna se aproximou, pegando sua mão.

— Então aproveita. Esquece tudo lá fora. Hoje é só a gente e o mar.

Ele respirou fundo, deixando o vento salgado encher os pulmões. Pela primeira vez em muito tempo, não parecia impossível.

Os dias eram calmos e deliciosos. Até uma festa na praia muita gente bebida, som alto. Félix não queria ir mas Yuna insistiu ela estava animada. Ela colocou um top e um short o corpo ficou mais exposto que o normal Félix não gostou muito mas preferiu não falar, afinal ela estava com ele quem seria o cara com coragem para mexer com ela.

A música da festa se misturava ao som das ondas, criando um clima elétrico. As luzes piscavam, iluminando rostos suados e sorridentes. Yuna dançava no ritmo, livre e despreocupada, enquanto Félix, mais retraído, a observava de perto.

Ele não conseguia evitar que seus olhos seguissem cada movimento dela. Não era só ciúme — era a sensação estranha de que o mundo inteiro podia perceber o quanto ela era linda.

Em determinado momento, um rapaz, já alterado pela bebida, tentou puxar conversa com Yuna. Félix, rápido, se colocou ao lado dela, com aquele olhar sério que não precisava de palavras para dizer “não chega mais perto”. O cara entendeu o recado e se afastou.

Yuna notou, mas ao invés de repreendê-lo, apenas sorriu de canto, continuando a dançar — como se dissesse que sabia se cuidar, mas que também gostava dessa proteção silenciosa dele.

— Vem dançar! — Yuna puxou sua mão, sorrindo.

— Eu não sei dançar — ele resmungou, mas ela insistiu.

— Então só fica aqui comigo, ninguém vai reparar.

Os músculos dos ombros estavam duros, a mandíbula travada. Não era ciúmes qualquer, era instinto puro. Félix não estava acostumado a ser um desconhecido sem peso no nome. Ali, ninguém sabia quem ele era. Ninguém temia seu olhar.

Félix aperta o maxilar, o sangue ferve.

Ele não precisa perguntar nada, sabe muito bem o tipo de olhar que alguns ali lançam para Yuna.

Se afasta alguns passos dela, mas só para ter visão de tudo.

Os dedos dele coçam, e não é de nervoso — é de vontade de quebrar dentes.

Um grupo de rapazes ri alto, e um deles deixa o olhar correr de cima a baixo em Yuna, sem o menor pudor.

Félix dá dois passos firmes até eles.

— Continua olhando e eu arranco esses olhos — disse, baixo, mas com a calma perigosa de quem não precisava gritar para ser ouvido.

O rapaz desviou o olhar de imediato, e o grupo se dispersou, murmurando. Yuna o encarou, meio surpresa, meio desconfortável.

Félix aperta o maxilar, ainda sentindo a raiva fervendo nas veias, mas quando vê o jeito tenso de Yuna, ele respira fundo.

Sem dizer nada, segura firme a mão dela e a conduz pela praia, atravessando a música alta e os olhares curiosos.

Ele caminha ao lado de Yuna, ainda com os ombros tensos, como se cada passo fosse um esforço para manter-se calmo. O vento do mar já não tinha mais graça para ele, e o barulho das ondas não abafava a fúria silenciosa que latejava dentro de si.

— Não gosto daqueles olhares — ele disse por fim, num tom baixo, quase rouco. — E muito menos de saber que você acha normal.

Yuna abaixou o olhar, sentindo aquele misto estranho de segurança e medo. Era bom ser desejada a ponto de despertar ciúmes nele, mas… Félix não era como os outros. Ele carregava algo sombrio, um lado que ela ainda não conhecia por completo.

Ela sabia que, se alguém o provocasse demais, ele não pensaria duas vezes antes de reagir. E isso… poderia custar caro.

— Vamos pra casa — ela respondeu suavemente, tentando evitar mais tensão.

Félix apenas assentiu, mas o olhar dele dizia que aquela conversa ainda não tinha acabado.

Quando chegam à cabana, ele larga a chave sobre a mesa com força.

— Não gosto de como te olharam — diz, firme, sem deixar margem para discussão.

Yuna respira fundo, controlando o impulso de retrucar. — Eu não fiz nada…

— Eu sei. — Ele a encara, e é aí que ela percebe: não era apenas ciúmes, era instinto de posse, algo mais profundo.

Dentro dela, um misto de calor e alerta. O lado protetor dele a atraía, mas o temperamento imprevisível acendia um sinal vermelho.

Ela pensava: e se um dia essa fúria não tiver motivo?

As férias passaram como um sopro — rápidas demais para quem queria eternizar cada instante, lentas demais para quem carregava o peso de conversas mal resolvidas.

Ao voltarem, a vida retomou seu compasso habitual. Yuna voltou às obrigações, aos compromissos e ao convívio com pessoas que, de repente, pareciam mais observadoras do que antes. Félix mergulhou no trabalho, mas não com o mesmo humor; ele estava mais vigilante, mais presente… quase possessivo.