Amar o Caos

17 Sem Volta


A rotina, que antes era um porto seguro para os dois, agora carregava um fio de tensão. As trocas de mensagens se tornaram mais frequentes, mas também mais carregadas de subentendidos. E, no fundo, Yuna sentia que aquele “velho normal” já não existia mais — algo havia mudado, e não tinha volta.

Yuna chegou em casa distraída, ainda tirando o casaco, quando a voz grave de Félix ecoou pela sala.

— Sr. Junho, D. Hana… o negócio é o seguinte. — Ele estava sentado no sofá, mas a postura era de quem ocupava a sala inteira. — Sei que não pedi permissão para ficar com Yuna. Até porque… não precisei. Nem preciso.

O silêncio caiu como uma pedra. O pai de Yuna encarava-o, os dedos tamborilando no braço da poltrona. A mãe mantinha o semblante tenso.

Félix continuou, firme:

— Mas agora que ela terminou o ginásio, quero que venha morar em definitivo comigo.

Yuna sentiu o estômago gelar. Não sabia se estava mais surpresa por vê-lo ali ou pela forma como ele falava — como se a decisão já estivesse tomada.

O silêncio que se seguiu pareceu mais longo do que realmente era.

Sr. Junho o fitou, impassível, como se estivesse digerindo cada palavra.

Já D. Hana, não. O choque não a calou.

— Mas ela ainda é muito nova… — rebateu, a voz carregada de preocupação. — E a faculdade?

No canto da sala, meio escondida, Yuna observava. Seu coração batia forte, como se cada sílaba fosse uma corda puxada para o limite. Ela não perdia um gesto, um tom, uma respiração.

Sr. Junho respira fundo, o maxilar travado, os olhos fixos em Félix como se tentasse medir até onde ele iria com aquilo.

— E o que exatamente você acha que pode oferecer pra minha filha, Félix? — pergunta, a voz baixa, mas carregada de peso.

Félix não recua.

— Tudo o que ela precisar. E mais — diz, firme. — Não estou pedindo, estou dizendo. Ela já decidiu.

Sra. Hana balança a cabeça, indignada.

— Decidiu? Yuna mal terminou o ginásio, tem uma vida inteira pela frente! Você quer trancar a porta dela pro futuro?

De canto, Yuna sente o coração disparar. Ela queria intervir, mas sabia que aquele momento era entre eles. Seu pai permanece imóvel, mas os dedos batendo na mesa entregam que está prestes a explodir.

Félix, impassível, finaliza:

— Eu não vim aqui pedir. Vim deixar claro que vou cuidar dela, dar um lar, dar segurança. Faculdade, se ela quiser, vai fazer. Mas comigo.

Yuna, no canto da sala, sente o coração disparar. Ela sabe que essa conversa é mais do que sobre morar juntos — é sobre enfrentar o mundo de frente, sem volta para a vida que tinha antes.

Yuna se aproxima devagar, sentindo o peso dos olhares. A mãe, com o semblante sério, pergunta:

— Yuna, olha bem pra mim… é isso mesmo que você quer?

O pai, com a voz grave, completa:

— Você está de acordo com o que ele disse? Está pronta pra assumir as consequências disso?

O coração dela bate como um tambor. Ela olha para Félix — ele está firme, mas os olhos carregam um pedido silencioso. Depois, encara os pais.

— Eu… estou — diz, a voz trêmula no começo, mas ganhando força. — Eu confio nele. E sei que não vou desistir dos meus sonhos, mas quero construí-los ao lado dele.

A sala fica mergulhada num silêncio denso. A mãe respira fundo, o pai a observa, como se procurasse alguma hesitação no rosto da filha.

A mãe de Yuna cerra os lábios, desviando o olhar por um instante. Ela cruza os braços, como quem luta entre o instinto de proteger e o de respeitar.

— Você sempre foi teimosa… — murmura, mas há um traço de orgulho na voz. — Espero que essa teimosia não te machuque.

O pai permanece imóvel por alguns segundos, olhando fixo para a filha. Então solta um suspiro pesado, como quem solta junto um pedaço do próprio controle sobre ela.

— Se é assim… não vou impedir. Mas lembre-se: uma vez que a porta se abre, não dá pra fingir que ela nunca existiu. — Ele lança um olhar firme para Félix, como um aviso silencioso. — E você… cuide bem dela.

Félix apenas inclina a cabeça em respeito.

A mãe se aproxima, ajeita uma mecha de cabelo no rosto de Yuna e sussurra:

— Você escolheu seu caminho. Agora ande por ele sem olhar pra trás.


Yuna subiu para o quarto com o coração acelerado, ainda digerindo tudo.


Na sala, o clima era pesado. Sr. Junho ajeitou-se na poltrona, os dedos tamborilando no braço de madeira, o rosto fechado como uma muralha — ele não dizia nada, mas o olhar denunciava que estava tentando medir as consequências. Já D. Hanna não conseguia se conter: braços cruzados, respiração curta, encarava Félix como se tentasse arrancar dele alguma hesitação.

— Você fala como se fosse a coisa mais simples do mundo — disse ela, com a voz carregada de incredulidade. — E se ela não se adaptar? E se for cedo demais?

Félix manteve-se firme, sem baixar o olhar.

— Eu não dou ponto sem nó, dona Hana.

O silêncio do Sr. Junho pesou ainda mais. Não era um “sim”, mas também não era um “não”. Era o tipo de silêncio que deixava claro: ele queria ver até onde essa história iria antes de cravar sua posição.

Enquanto isso, lá no quarto, o som da mala sendo aberta e o zíper deslizando ecoava como um anúncio: a decisão estava em movimento.

Yuna desceu devagar, a mala arrastando no degrau de madeira que rangia como se também não quisesse que ela fosse. No corredor, o cheiro familiar de café e incenso ainda pairava — um cheiro de lar, de tudo que ela conhecia.

Yuna parou na porta, os dedos apertando a alça da mala como se fosse sua âncora. O ar da casa parecia mais pesado, impregnado com memórias de infância, risos na cozinha, broncas do pai, o perfume do café da manhã preparado pela mãe.

Sr. Junho estava de braços cruzados, tentando manter o semblante firme, mas o maxilar travado denunciava a luta interna para não pedir que ela ficasse. Sra. Hanna segurava um pano de prato, os olhos marejados, e não disse nada — talvez porque qualquer palavra pudesse fazer a voz falhar.

— Vou… — Yuna respirou fundo, a garganta apertada — vou cuidar de mim, mãe. Pai.

Félix, encostado no carro do lado de fora, fez um leve aceno para apressá-la. Yuna deu o último passo para fora, sentindo que cada centímetro de chão que deixava para trás levava um pedaço dela junto.

A porta se fechou atrás dela com um som seco, e o silêncio que ficou dentro da casa pareceu ecoar pelos dois corações que ainda estavam ali.