Amar o Caos
23 O Infiltrado
A faculdade continuava sendo o único lugar onde Yuna conseguia respirar sem sentir o peso constante da casa de Félix sobre os ombros.
Os trabalhos acumulavam.
As provas chegavam como tempestades.
As aulas de programação avançavam rápido demais, misturando coreano técnico com linhas intermináveis de inglês no telão.
E, estranhamente… Yuna gostava daquilo.
Gostava do cansaço comum.
Dos corredores lotados.
Do cheiro de café barato espalhado pelos prédios da universidade.
Mas depois da conversa daquela madrugada, alguma coisa mudou dentro dela.
Pela primeira vez, Yuna começou a se perguntar se Félix realmente exagerava sobre os perigos ao redor deles.
Porque agora ela sabia.
Sabia que aqueles homens existiam.
Sabia que Félix estava envolvido com gente pesada demais para simplesmente sair andando sozinho pelas ruas sem olhar para trás.
E talvez…
Talvez Kako e Kadu não estivessem ali apenas para vigiar ela.
Mesmo assim, a sensação de estar sempre sendo observada continuava sufocante.
Principalmente porque Minho seguia se aproximando.
De forma calma. Natural. Quase imperceptível.
Ele aparecia ao lado dela na biblioteca.
Guardava lugar na sala.
Comprava café sem perguntar o pedido porque já tinha decorado.
Às vezes parecia apenas um garoto inteligente tentando se aproximar.
Outras vezes…
Yuna não sabia.
Porque Minho fazia perguntas demais.
Perguntas pequenas. Casuais. Mas frequentes.
— Você mora longe daqui?
— Seu namorado trabalha com o quê?
— Ele sempre manda alguém te buscar?
— Você nunca sai com o pessoal depois da aula?
— Você parece cansada ultimamente… tá tudo bem?
E tinha algo no jeito como ele observava as respostas dela.
Atento demais.
Naquela tarde, os dois estavam sentados lado a lado no laboratório de informática enquanto o restante da turma terminava um exercício.
As luzes frias dos monitores iluminavam o rosto cansado dos estudantes ao redor.
Minho girava uma caneta entre os dedos enquanto olhava a tela dela.
— Você é boa nisso.
Yuna soltou um riso baixo.
— Mentira.
— Não é. Você aprende rápido.
Ela agradeceu com um movimento pequeno de cabeça e voltou ao código.
Então veio outra pergunta.
— Seu namorado trabalha com o quê, afinal?
Os dedos dela pararam sobre o teclado.
De novo isso.
— Negócios.
Minho sorriu de lado.
— Isso não significa nada.
— Talvez seja porque eu não queira explicar.
A resposta saiu mais seca do que ela pretendia.
Mas Minho não pareceu ofendido.
Só inclinou a cabeça, observando ela por alguns segundos.
— Você não parece muito feliz quando fala dele.
O coração de Yuna tropeçou no peito.
Ela desviou os olhos rapidamente para a tela.
— Você tá tirando conclusões demais.
— Talvez.
A voz dele saiu baixa.
Calma.
— Ou talvez eu só esteja prestando atenção.
Aquilo deixou Yuna desconfortável de um jeito difícil de explicar.
Porque Félix controlava demais.
Mas Minho observava demais.
E, pela primeira vez desde que conheceu ele…
Um pequeno alerta acendeu no fundo da mente dela.
Minho não era quem Yuna pensava.
A simpatia fácil.
Os sorrisos tranquilos.
O jeito gentil e distraído de universitário cansado…
Tudo aquilo era cuidadosamente construído.
Porque por trás das conversas sobre programação, cafés divididos e piadas em corredores lotados, existia outro motivo para ele estar ali.
Félix.
Ou, mais especificamente…
As fraquezas de Félix.
Minho não tinha entrado naquela faculdade por acaso.
Nem se aproximado de Yuna por coincidência.
Ele foi colocado ali.
Observando.
Esperando.
Se aproximando devagar o suficiente para não assustá-la.
O homem que o contratou nunca mencionava o nome de Félix diretamente. Homens daquele nível raramente faziam isso.
Mas a mensagem tinha sido clara:
“Descubra o que mantém Park Félix vulnerável.”
E Yuna… era a primeira coisa que vinha à mente de qualquer um observando Félix ultimamente.
Antes dela, Félix era conhecido justamente por não ter ponto fraco.
Não se envolvia emocionalmente.
Não confiava.
Não mantinha ninguém perto tempo suficiente para virar alvo.
Então Yuna apareceu.
E, de repente, Félix começou a mudar rotina.
Mandar segurança fixa para a faculdade.
Cancelar encontros de negócios por causa dela.
Desaparecer noites inteiras depois de brigas.
Gente perigosa percebe essas coisas rápido.
Naquela noite, Minho estava sentado sozinho numa pequena barraca de comida de rua, o capuz escuro escondendo parte do rosto.
O celular vibrando sobre a mesa.
— Ela suspeita de alguma coisa? — a voz perguntou do outro lado da linha.
Minho observou os carros passando pela avenida molhada antes de responder:
— Ainda não.
— E Félix?
O olhar dele escureceu levemente.
— Protetor demais. Controlador. Igual descreveram.
Houve silêncio por alguns segundos.
— Continue próximo dela.
Minho apoiou os cotovelos na mesa.
— Isso tá começando a ficar complicado.
O homem soltou uma risada baixa.
— Você tá dizendo que ficou com pena da garota?
Minho não respondeu imediatamente.
Porque esse era o problema.
Yuna não parecia alguém vivendo no meio daquele inferno por escolha.
E quanto mais tempo passava perto dela…
Mais difícil ficava separar o trabalho da culpa.
— Só quero terminar isso rápido — ele respondeu por fim.
— Então descubra alguma coisa útil. Rotas. Horários. Fraquezas. Qualquer coisa que me ajude a derrubar o Félix.
A ligação encerrou logo depois.
Minho ficou olhando a tela apagada do celular por alguns segundos.
O vento frio atravessava as ruas iluminadas de Busan enquanto pensamentos desconfortáveis começavam a crescer dentro dele.
Porque aquilo deveria ser simples.
Se aproximar.
Descobrir informações.
Ir embora.
Mas Yuna começava a tornar tudo mais difícil.
E, naquele tipo de jogo…
Sentimentos eram exatamente o tipo de erro que fazia gente desaparecer.
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