Amar o Caos

11 O Fogo Queimou e Agora?


Na manhã seguinte, Yuna mal tocou no café da manhã.

Disse que estava cansada. Que tinha dormido mal. Que era coisa da escola.

Mas Hana, mãe é mãe.

Sentiu na pele que algo estava diferente.

Nos olhos da filha havia um brilho estranho…

Nem tristeza, nem alegria. Era desejo misturado com dor.

E isso só significava uma coisa:

A menina estava amando errado. Do jeito que machuca.

Hana ficou atenta.

Calada, mas de olho.

E à medida que os dias passavam, viu Yuna mudando.

Mais vaidosa.

Mais ausente.

Mais misteriosa.


Do outro lado da cidade, Félix também não estava melhor.

Natasha estava lá, espalhada pela casa feito perfume caro, sorrindo como quem sabia o que queria — mas ele não sorria de volta.

Ele tentava. Tentava com força.

Levar Natasha para os bares, para os encontros, para a cama.

Mas o nome que escapava na cabeça, mesmo no silêncio mais íntimo, era um só: Yuna.

E pior: ele sabia que ela estava se afastando.

Porque ninguém segura a espera por muito tempo.

Ele se perguntava se ela o odiava.

Se aquele abraço tinha sido só medo, ou se era algo mais.

E se era algo mais… por que não podia simplesmente esquecer?

Do lado de fora, tudo parecia bem.

Mas por dentro, um coração jovem aprendia o gosto amargo do amor proibido, e o outro, já calejado, se afundava na culpa de desejar o que não devia.


O sol já tinha começado a se esconder atrás dos prédios, quando o sinal bateu.

Yuna saiu da escola cercada por colegas e risadas, mas algo parou seus passos.

Do outro lado da rua,

Felix estava lá.

Encostado na moto como quem não tem pressa,

braços cruzados, expressão fechada, mas os olhos... os olhos eram só dela.

Ela não percebeu de imediato.

Mas quando notou, foi como levar um choque.

O tempo parou.

Os risos das amigas viraram murmúrios longínquos.

O coração acelerou.

Ele não sorriu. Não acenou. Não disse nada.

Apenas ficou ali, olhando.

Furando a alma dela com aquele olhar cheio de conflito, saudade, raiva, desejo.

Yuna ficou parada.

Tentou decifrar.

"Por que está aqui?"

"Por que me olha assim?"

"Por que apareceu se vai embora?"

E antes que ela pudesse atravessar a rua, ele subiu na moto, ligou o motor e partiu.

O ronco do escapamento ainda ecoava quando ela sussurrou, mais pra si mesma do que pra alguém:

— Decide, Felix... me quer ou quer me apagar?

Mas a resposta não vinha.

Só o vento no rosto e uma saudade mal resolvida.


Foram dias assim.

Felix surgia nas sombras, aparecia e sumia como fumaça.

No ponto do ônibus, na esquina da escola, no mercado, no parque.

Sempre olhando. Nunca se aproximando.

Yuna fingia não notar, mas por dentro ardia.

A cada olhar, um grito preso na garganta.

A cada silêncio, uma vontade louca de quebrar tudo.

Até que chegou o dia.

Ela acordou com os olhos em brasa.

Não ia mais esperar.

Não ia mais fugir.

Vestiu-se sem pressa.

Mas com intenção.

Olhos delineados, boca firme, passos decididos.

Sabia o caminho — mais do que deveria.

O galpão onde Felix morava desde sempre.

O covil do lobo.

Bateu na porta com força.

Nada.

Bateu de novo.

Silêncio.

Ia virar as costas, mas a porta rangeu, e ele estava lá.

Camisa aberta, expressão surpresa.

Um cheiro de fumaça e couro no ar.

— O que você tá fazendo aqui, Yuna? — a voz dele saiu baixa, mas firme.

Ela entrou sem pedir.

Fechou a porta atrás de si.

Olhou ao redor, absorvendo tudo.

Depois o encarou, olhos faiscando.

— Chega, Felix. Se vai continuar me vigiando feito um fantasma, então me encara de frente. Me diz o que quer. Me diz por que não me deixa em paz.

Ele engoliu seco.

Não esperava.

Não essa versão dela.

— Você é só uma garota.

— E você é um covarde.

Silêncio.

Pesado.

Explosivo.

Felix deu um passo à frente.

Yuna não recuou.

Os dois tremiam — de medo, de raiva, de desejo.

E ali, entre caixas velhas e lembranças perigosas,

as cartas foram lançadas.


O ar ficou denso.

As paredes pareciam mais próximas, o mundo mais pequeno.

O tempo se dobrou.

Felix a olhava como quem enxerga um milagre e um pecado ao mesmo tempo.

E num segundo, o instinto falou mais alto.

Sem palavra, sem explicação.

Ele a puxou pela cintura e a beijou.

Mas não era beijo de cinema.

Era de sangue quente. Era de corpo faminto.

Yuna perdeu o chão.

Literalmente.

Ele a ergueu no colo como se ela não pesasse nada

e a carregou até o quarto, sem parar de beijá-la.

As mãos firmes, seguras, exigentes.

O quarto era escuro, bagunçado —

reflexo da alma dele.

Ali, ela sentiu.

Sentiu tudo.

O medo, o frio na barriga… e o calor que subia como um incêndio.

Ele não pediu.

Não perguntou.

Só tomou.

E ela deixou.

O desejo explodiu em ambos.

Felix era um lobo —

e Yuna, a caça que escolheu se deixar devorar.

Ela fechou os olhos.

Não pensou.

Não analisou.

Cada toque, cada beijo, cada pedaço da roupa arrancado com pressa.

Cada gemido abafado na pele.

Era uma guerra de vontades, uma dança de almas.

Felix não foi gentil.

Foi real.

Foi cru.

Foi tudo.

E Yuna se entregou.

Inteira.

Sem medo.

Como quem sabe que já era tarde demais para voltar.


Já era tarde quando Yuna abriu os olhos.

O peito ainda arfava, mas não de desejo —

de confusão.

Felix não estava ali.

O espaço ao lado ainda morno, mas vazio.

Como se ele tivesse fugido de si mesmo.

Como sempre.

Ela se senta na cama devagar.

Sente o corpo pesado.

Não de arrependimento — mas de intensidade.

Na cômoda, uma garrafa pela metade e um bilhete.

Quando ela abriu o papel, leu o que ele tinha escrito com sua caligrafia ligeiramente inclinada:

"Tome isso. É importante. Confia em mim.

Levonorgestrel 1,5mg — *(pílula do dia seguinte)

Yuna ficou olhando para o papel por um tempo que pareceu eterno.

Sentiu o rosto queimar.

Não foi indiferença.

Foi o tipo de preocupação que ele sabia demonstrar.

Cravado no silêncio.

Rabiscado num papel amassado.

No chão, as roupas jogadas às pressas.

No espelho, o reflexo de uma garota… que não é mais menina.

Do lado de fora,

Felix está encostado na varanda, cigarro na mão,

mas não aceso.

Olhar perdido no nada, como quem acabou de cometer o crime mais doce e imperdoável do mundo.

Yuna se aproxima, tímida.

Ele não a olha.

Mas sabe que ela está ali.

O silêncio entre os dois é ensurdecedor.

Ela não diz nada.

Espera que ele diga.

Mas Felix não fala.

Porque não sabe o que dizer.

A única frase que ecoa na cabeça dele é:

Ela era inocente demais pra mim.

E agora… não é mais.

Ela, tentando parecer firme, engole seco e pergunta:

— É isso?

Felix acende o cigarro, dá uma tragada profunda e responde com a voz rouca:

— Isso… nunca foi só isso.

Mas talvez... não devesse ter sido nada.

Yuna sente um nó na garganta.

Mas não chora.

Não dá esse gosto a ele.

— Tarde demais, Felix.

Agora eu sei o gosto do seu nome.

Ele se vira pra ela, finalmente.

E o olhar dele diz tudo:

arrependimento, desejo, medo… e paixão.

Mas ele não diz nada.

E volta o olhar pro horizonte.

Covarde.

Ela vai embora.

Sem drama, sem escândalo.

Mas por dentro?

Tudo quebrado.


O sol nasceu igual — teimoso, quente, impiedoso.

Mas dentro de Yuna… tudo era diferente.

O corpo doía em lugares que ela nem sabia nomear.

Mas não era dor.

Era memória.

Era pele queimada por toque.

Era Félix, ainda nela, mesmo ausente.

Ela se olhou no espelho do banheiro.

Eram os mesmos olhos.

Mas havia algo ali…

Uma sombra nova.

Ou talvez, uma luz.

Ela não sabia dizer. Só sabia que não era mais a mesma.

Vestiu o uniforme como se fosse uma máscara.

Mas o corpo, aquele corpo que antes era só dela, agora carregava um segredo, um fogo aceso por alguém que nunca soube amar com calma.

Na escola, os risos pareciam mais altos.

As amigas falavam de besteiras.

Mas Yuna ouvia tudo como se estivesse debaixo d’água.

Ela via Félix em tudo.

No calor que subia pelas costas.

No cheiro do banco da moto que passava na rua.

No som do zíper da mochila.


E ele?

Félix passou a noite inteira em claro.

De olhos abertos, o gosto de Yuna ainda na boca.

A pele dela ainda em seus dedos.

E o papel que deixou pra trás?

Um jeito tosco de dizer que se importava.

Que pensava no depois.

Mesmo quando parecia só querer o agora.

Mas agora…

Agora ele queria mais.

Não só o corpo.

Queria a alma.

Queria o olhar de novo se rendendo.

Queria ver ela lutar e ceder de novo.

Queria ouvir o sussurro que ela deu quando perdeu o medo e ganhou desejo.

Ele não era romântico.

Nunca foi.

Mas aquela menina mexeu onde ninguém mais tocou.

Yuna agora tentava se distrair.

Mas a lembrança era cruel.

E doce.

E latejava.

A guerra tinha mudado.

Ela não era mais menina.

Ele não era mais intocável.

E a pergunta agora era só uma:

quem vai dar o próximo passo?