O barulho do motor cortou o ar abafado da escola.

A turma ainda estava saindo, mochilas nas costas, calor grudando na pele.

Yuna ajeitava os livros, distraída, os pensamentos ainda longe.

Ela sentia.

Sentia antes de ver.

Um arrepio na nuca, um pressentimento.

Quando virou, lá estava ele.

Félix.

Encostado na moto preta, jaqueta de couro, olhar afiado como navalha.

Parecia mais adulto. Mais selvagem.

Mais certo do que queria.

As conversas cessaram.

Os risos morreram.

Todo mundo olhou.

Mas só uma pessoa importava.

Ele não sorriu.

Não pediu.

Não explicou.

O lobo veio buscar o que é dele.

E dessa vez, nem o céu quente teve coragem de impedir.

— Sobe.

Só isso.

Dito com a voz rouca, firme, sem margem pra dúvida.

Não era convite.

Era ordem.

Era destino.

Yuna congelou por um segundo.

O coração disparado.

A garganta seca.

Mas os pés…

Ah, os pés sabiam o caminho.

Ela andou até ele como se fosse chamada por um feitiço antigo.

Subiu na moto sem olhar pra ninguém.

A mochila ainda nos ombros.

As mãos hesitaram antes de tocar a cintura dele.

Mas quando tocaram…

O mundo desapareceu.

Félix ligou a moto.

E os dois sumiram na esquina.

Sem explicar nada.

Sem olhar pra trás.

Na escola, ficou só o burburinho.

Na cidade, o rastro de poeira.

E nos dois… o início do que não tinha mais volta.


A moto para numa casa afastada. Não era o covil de sempre, era outro lugar — discreto, silencioso, como se o mundo tivesse ficado longe demais pra ouvir.

Yuna desce, ainda meio sem saber o que esperar.

Ele desce também.

Não há sorrisos.

Não há charme.

Só intenção crua.

Entram.

Ele joga as chaves na mesa, tira a jaqueta.

O silêncio pesa.

Yuna respira fundo.

A sala tem cheiro dele.

Cheiro de couro, cigarro fraco e algo mais… quente.

Então ele fala:

— Agora você vai ter o que tanto queria.

Ela arregala os olhos.

Félix caminha até a mochila dele, tira algo do bolso interno da jaqueta e joga sobre a mesa com um *ploc seco*.

Uma cartela de anticoncepcional.

— Toma isso a partir de hoje. Sem esquecer. Entendido?

Ela não responde de imediato. O coração martela.

As palavras pesam mais do que ela esperava.

— Sua vida agora é minha, Yuna.

Ele não gritou. Não precisou.

A firmeza dele era o próprio grito.

Ela sente o corpo estremecer.

Medo?

Talvez.

Confusão?

Sem dúvida.

Mas mais forte que tudo isso… o desejo de ficar.

O desejo de ser dele.

— Você tá falando sério? — ela pergunta, quase num sussurro.

Ele se aproxima devagar.

Levanta o queixo dela com dois dedos, sem pressa, olhando direto nos olhos.

— Tô mais sério do que nunca estive. E você sabe.

— Não tem mais volta. Agora é minha. De verdade.

Ela não desvia o olhar.

As pernas tremem.

Mas não sai correndo.

Ao contrário.

Fica ali.

E aceita.

Sem dizer, mas aceitando.

Porque alguma parte dentro dela — talvez a mais escondida — sempre quis isso.

E no fundo, no fundo… ela não queria ser livre. Queria ser dele.


Naquele mesmo quarto abafado, Yuna segura a cartela de comprimidos como quem segura o destino nas mãos.

As instruções estavam claras.

A voz dele ainda ecoava:

— Agora é minha.

Félix, encostado na parede, a observa.

Cigarro entre os dedos, olhos semicerrados.

Ele gosta de ver ela ali.

Frágil.

Mas entregue.

— Toma. — ele ordena.

Não é um pedido.

Yuna senta-se na beirada da cama.

Tira o primeiro comprimido da cartela.

Olha nos olhos dele.

E engole.

Não precisava dizer nada.

A submissão foi selada.

Félix se aproxima.

Puxa a cadeira, senta de frente pra ela.

Sem tocar, sem sorrir.

— Tá com medo?

Ela hesita.

Mas responde:

— Um pouco.

— Mas eu quero isso.

Ele encosta os cotovelos nos joelhos, aproxima o rosto do dela.

— Quero deixar uma coisa clara. Eu não sou bom, Yuna.

Não sou príncipe.

Sou o lobo que te mordeu, e agora vai te marcar todos os dias.

Ela engole seco.

Mas não desvia o olhar.

— Eu sei.

— Mas foi você quem eu quis.

Um meio sorriso aparece no canto da boca dele.

Não era ternura.

Era poder.

— Então tira essa roupa.

Ela obedece.

Sem cerimônia.

Sem charme.

Félix se levanta.

Vai até ela.

Devagar.

Como predador que já sabe que a caça está rendida.

Ele a deita.

Beija seus ombros.

Seu pescoço.

E murmura:

— Agora eu vou te mostrar o que é ser minha de verdade.

E o resto é ofegante.

Suado.

Descontrolado.

Feito de pele e urgência.

Nada era doce.

Era voraz, como se o mundo fosse acabar naquela cama.

Yuna fecha os olhos.

Não queria pensar.

Queria sentir.

Porque naquele momento, ela não foi só tocada.

Foi domada.

E uma parte dela — uma parte que ela nem sabia que existia — gostou.


Depois de levar Yuna de volta Felix vai para o covil e passa uma nova ordem.

Natasha entra como sempre — salto alto, vestido justo, aquele ar de quem se acha insubstituível.

Mas dessa vez, a atmosfera está diferente.

O ar pesa.

A postura de Félix é fria.

Gélida.

Ele está de pé, braços cruzados, apoiado na mesa.

Olhos fixos nela.

— Pode parar por aqui, Natasha.

— Sua presença... não é mais necessária.

Ela ri, debochada.

— Ah, que gracinha. Tá me dispensando agora?

— Quem é a nova vagabundinha? Aquela colegialzinha sonsa?

O tapa não vem.

Mas as palavras cortam mais que mão aberta.

— Cuidado com o que fala.

— A partir de hoje, a única que entra aqui sem ser anunciada... é Yuna.

Natasha dá um passo pra trás.

— Você tá brincando comigo.

Félix assovia.

Dois dos capangas se aproximam, discretos, como cães que esperam o comando.

— Avisa todo mundo.

— Portões abertos pra Yuna. Qualquer um que levantar a mão pra ela, olha torto, ou ousar desrespeitar… vai responder direto pra mim.

Ele vira-se lentamente pra Natasha.

— E você...

— Some da minha vista.

Ela tenta manter a pose.

Mas por dentro, o castelo dela ruiu.

Era o fim de um reinado.

E a nova rainha tinha nome.