Amar o Caos

13 A Tempestade Chegou


Os portões rangem.


Yuna para diante deles, o coração aos pulos, mãos suadas — mas o olhar firme.

Ela sente que está pisando em outro mundo, onde as regras que conhece não valem mais nada.

Assim que ela cruza a entrada, dois capangas erguem o queixo, prontos pra barrar qualquer um.

Mas bastou a verem, trocaram olhares e… baixaram a guarda.

Ela entrou.

Pela primeira vez, não como intrusa.

Mas como a mulher dele.

No salão principal, olhares se voltam.

Alguns curiosos, outros desconfiados.

Natasha ainda não tirou os pertences dela dali, mas todos sabiam: o jogo tinha virado.

Yuna caminha devagar, tensa, mas decidida.

E então, ele aparece.

Félix, de camisa aberta até o meio do peito, colar prateado, aquele olhar felino de quem sabe que domina tudo que toca.

Ele desce os degraus como um rei que vai ao encontro de sua rainha.

Sem dizer palavra, toma a mão dela.

E diante de todos os olhos, puxa-a pela cintura e dá um beijo — quente, lento, marcado com posse.

Não um beijo de afeto.

Mas de domínio.

Yuna, ainda ofegante, sente o mundo girar.

Ele a encara e diz, com voz firme:

— Agora todo mundo sabe.

— Você é minha.

— E ninguém mais toca no que é meu.

Yuna treme. Não de medo.

Mas de um frio que desce pela espinha e aquece por dentro.

Era o começo de uma nova era.

Ela não era mais só a aluna tímida.

Agora ela era a mulher de Félix.

A loba recém-desperta.


Toda escolha tem um preço — e Yuna está prestes a aprender isso na pele.

E Hana… ah, Hana vai sentir o mundo desmoronar sob os pés de mãe.

Yuna voltou pra casa no fim da tarde.

O corpo exausto, a mente em chamas.

O perfume dele ainda preso à pele, os lábios vermelhos demais, o pescoço marcado de desejo.

Ela entrou em casa como se estivesse pisando em campo minado.

Sabia que não era mais a mesma.

O espelho a olhou de volta com outros olhos.

E ali, no fundo da mochila, entre os cadernos de química e as anotações da aula de literatura, estava a cartela:

anticoncepcionais.

Ela não sabia ainda como esconder aquilo.

Não sabia se queria esconder.

Mas esqueceu.

Ou talvez, no fundo, quisesse ser descoberta.

Hana arrumava o quarto.

O velho gesto de mãe que sente que algo está fora do lugar.

Viu a mochila.

Abriu, como fazia desde sempre, meio sem pensar.

A menina sempre confiava nela, não havia segredos entre as duas…

Mas naquele dia, havia.

Ao tocar a cartela, Hana sentiu o chão sumir.

Pegou o papel de dentro.

Leu o nome.

Reconheceu.

Sabia o que era.

O coração disparou.

Foi até a sala.

Sentou no sofá, o rosto pálido, mãos trêmulas.

Demorou quase meia hora pra conseguir chamar a filha.

— Yuna… — a voz saiu baixa, quebrada. — Isso aqui… é seu?

Yuna, parada no batente, sentiu o corpo gelar.

Olhou nos olhos da mãe.

Não mentiu. Não fugiu.

Apenas assentiu.

Silêncio.

Hana não gritou.

Não fez escândalo.

Mas o olhar dela… doeu mais que mil palavras.

— Ele te deu isso, não foi? — ela pergunta, já sabendo.

— Você… está com ele?

Yuna apenas abaixou a cabeça.

Hana se levantou devagar, com os olhos marejando.

Se aproximou da filha e segurou o rosto dela entre as mãos.

— Minha filha… o que ele te prometeu?

Yuna queria falar.

Queria gritar que não foi por promessa.

Foi desejo. Foi impulso. Foi verdade.

Mas não conseguiu.

Hana então disse, como um sussurro:

— Você acha que está no controle… mas esses homens sabem exatamente o que fazem.

Deu as costas e foi pro quarto.

Yuna ficou ali, sozinha.

A cartela ainda na mão.

E naquele instante, ela sentiu:

Seu corpo agora era um campo de guerra.

E o amor… ou o que quer que fosse aquilo com Félix… tinha deixado marcas invisíveis que não sumiriam fácil.


Na escola, os sorrisos sumiram.

Vieram os olhares tortos, os cochichos, os dedos apontando discretamente.

Yuna andava pelos corredores como quem pisa em vidro.

Mas fingia força.

Seguia o jogo.

Como se nada a tocasse.

Mas tocava.

— É verdade? — murmuravam pelas costas.

— Ela tá mesmo com o Félix?

— Dizem que ele vai buscá-la de moto toda semana…

— Ela não tem nem idade pra isso, só problema…

Não demorou para as professoras olharem torto.

Para as amigas se afastarem.

E para o nome dela virar sinônimo de escândalo.

A filha de Junho, diziam com um ar de decepção quase teatral.

Como se um único erro apagasse uma vida inteira de obediência.

Só que o erro… não parecia erro pra Yuna.

Era vício. Era fascínio. Era carne.


Félix não escondia.

Chegava na frente da escola, com a moto roncando como fera selvagem.

Óculos escuros, cigarro no canto da boca, e o sorriso debochado de quem sabe que o mundo não o alcança.

Quando ela saía, ele erguia o queixo:

— Sobe.

E ela subia.

Sem dizer uma palavra.

Mas com o coração batendo como tambor de guerra.

Até que um dia… o Sr. Junho soube.

Soube do boato.

Soube da moto.

Soube do nome.

E, principalmente, soube que era Félix.

Um velho conhecido.

Um nome que carregava sombra, bagunça e sangue.

Sr. Junho fechou o jornal com força.

Os olhos apertados, a mandíbula dura.

— Ele… — sussurrou.

— Esse moleque ?

A esposa tentou acalmar.

Hana, em prantos, apenas disse:

— É mais sério do que parece… ele já a marcou.

Junho levantou.

Vestiu o casaco como quem prepara armadura.

— Então ele vai descobrir o peso do meu nome.

Junho apareceu na porta da oficina onde Félix costumava ficar depois das aulas. O barulho das ferramentas, o cheiro de óleo e o som grave de uma música velha enchiam o ar.

Ele respirou fundo antes de entrar. Não era um homem de brigas, nunca foi — acreditava que problemas se resolvem com calma e palavra firme. Mas ali não era só sobre princípios, era sobre a filha dele.

Félix estava de costas, agachado, limpando as mãos com um pano, a jaqueta jogada sobre uma cadeira.

— Félix… — a voz de Junho saiu firme, mas não agressiva. — Eu preciso falar com você.

O rapaz ergueu os olhos, um meio sorriso surgindo no canto da boca, como se já soubesse o assunto.

— Fala aí, seu Junho.

O homem hesitou, engoliu seco, mas sustentou o olhar.

— Eu não sei o que você quer com ela, mas minha filha não é… não é um troféu pra você desfilar por aí. Ela é jovem demais pra essa vida. Eu não quero ver a Yuna se perdendo no meio disso.

Félix jogou o pano de lado, se levantou devagar. A postura dele não era de quem ia pedir desculpas.

— A vida dela não é o senhor que manda mais, não é? — a voz era calma, mas carregada. — Ela escolhe onde quer estar… e ela escolheu estar comigo.

Junho sentiu o peso daquelas palavras. Quis retrucar, dizer que ainda era pai e que aquilo não mudava. Mas a coragem que trouxe até ali se misturou com um medo silencioso: o medo de perder Yuna de vez.

Junho não sabia mas Yuna estava ali, no quarto de Félix e ouve tudo, Félix faz questão de chama-la e pergunta quer ir com seu pai pode ir, mas se for não volta mais e é a última chance de sair

Yuna estava parada, escondida atrás da porta, com o coração batendo tão alto que parecia ecoar no quarto. O diálogo entre Junho e Félix era como um soco em câmera lenta — cada palavra carregava peso, ameaça e escolha.

Félix, percebendo sua presença, abriu um meio sorriso cínico e, sem desviar os olhos de Junho, chamou:

— Entra, Yuna. Já que tá ouvindo… vamos resolver logo.

Ela entrou devagar, os olhos passando do pai para Félix, sentindo o ar pesado de tensão. Então, ele disparou:

— Quer ir com seu pai? Vai. Mas se for, não volta mais. É sua última chance.

Junho engoliu seco, tentando manter a calma, mas a postura do corpo traía a urgência. Yuna sentiu o peso da decisão esmagando seus ombros — entre o sangue e o perigo, entre a proteção e o vício que a prendia ali.

Yuna sente o coração apertar como se estivesse sendo puxado para dois lados.

O amor e o respeito pelo pai pesavam como chumbo nos ombros, mas o que ela sentia por Félix queimava como fogo — e fogo, quando pega, não apaga fácil.

Ela olha para Junho, os olhos marejados, e diz com a voz trêmula, porém firme:

— Appa… eu te amo. Mas… não vou.

Junho sente como se tivesse levado um soco no estômago. Félix, encostado na parede, cruza os braços, vitorioso e desafiador.

O silêncio se prolonga, pesado, até Junho suspirar fundo e dar um passo para trás. Ele entende que, a partir daquele momento, a filha não é mais só dele — e isso o dilacera.

Então, a escolha de Yuna ali é como um ponto de virada silencioso.

Ela volta para casa fisicamente, mas algo já mudou dentro dela. Aos olhos do pai, ela continua sendo sua filha debaixo do mesmo teto, mas no íntimo, ela já havia entregue a chave do próprio destino a Félix.

Não era sobre morar com ele ou fugir de imediato — era sobre lealdade.

Félix não precisava vigiar, porque agora tinha um poder que ninguém tiraria: ela obedecia a ele, não por medo, mas por um vínculo que já se enraizara.

Naquele instante, mesmo longe, ele seria a voz mais alta dentro dela.


No mesmo dia, já de noite, o telefone de Yuna vibra. É Félix. A voz dele é firme, quase seca:

— Desce. Estou do outro lado da rua.

Ela vai até a janela e o vê, encostado na moto, o olhar inabalável. Ele não sorri, não acena — só espera.

— E avisa seus pais… — a pausa é carregada de intenção — …que hoje você não dorme em casa.

O coração dela disparou. Não era só um convite. Era um recado. Um desafio. A forma dele dizer que, a partir dali, o domínio dela não pertencia mais àquela casa.

Yuna entrou na sala. O pai estava lendo o jornal, a mãe assistindo novela.

Ela ficou ali, de pé, até que a mãe ergueu os olhos.

— Que foi, filha?

— Não volto pra dormir hoje. — disse, sem florear. — Ele mandou avisar.

O silêncio caiu pesado. O pai baixou o jornal devagar, como se quisesse ganhar tempo pra processar. A mãe arqueou as sobrancelhas, o queixo erguido.

— Ele quem? — a mãe insistiu, mesmo já sabendo a resposta.

— Félix. — Yuna respondeu, firme.

O pai fechou o jornal. — Esse rapaz acha que é o quê? — a voz carregava mais incredulidade do que raiva.

— Ele acha… — Yuna respirou fundo, encarando os dois — que agora eu pertenço a ele.

A mãe apertou os lábios, o olhar misto de choque e de quem lembra que já foi jovem e já ouviu algo parecido. O pai não disse mais nada. Apenas olhou pra filha, como se medisse o quanto estava perdendo o controle da situação.


Yuna sobe na moto de Félix, o motor ronca baixo, e ele arranca pela rua, levando-a direto para sua casa. O vento bate no rosto dela, e o coração acelera mais pela proximidade dele do que pela velocidade. Nenhum dos dois fala durante o trajeto — é como se o silêncio carregasse mais significado que qualquer palavra. Ao chegarem, Félix estaciona, desce primeiro e segura a porta para ela entrar.


A noite cai, a casa está em silêncio, apenas o som distante da cidade filtrando pelas janelas. Félix e Yuna estão sozinhos — só eles e o compasso acelerado dos próprios corações. No quarto, a tensão que vinha crescendo entre os dois finalmente explode. Não há mais hesitação, apenas toques, olhares e respirações entrecortadas.

Ele não foi delicado — e ela não queria que fosse. Félix a tomou como um lobo faminto que finalmente encontra sua presa, cada movimento carregado de força e urgência. Yuna conhecia aquele jeito, era o único que realmente incendiava suas veias: intenso, cru, quase selvagem.

Os toques eram firmes, o beijo ardente, como se ele quisesse marcar cada pedaço dela. E ela se entregava inteira, sabendo que amar, para ela, sempre foi assim — no limite, sem freios, como se a cada vez fosse a última.

Ele ficou sentado na beira da cama, ainda nu, o suor secando na pele quente. Os olhos dele, escuros e diretos, a prenderam.

— Era assim que você imaginava? — a voz grave, quase um desafio. — Lembra quando eu disse que aqui não era o seu lugar? Está arrependida agora?

Yuna ainda estava deitada, sentindo o corpo vibrar, os pensamentos embaralhados. Olhou para o objeto sobre a cômoda, como se ele pudesse responder às perguntas que nem ela conseguia formular. Não era como tinha imaginado. Era mais intenso. Mais perigoso. O gosto dele era melhor do que qualquer rotina segura que já tivera — e isso a assustava tanto quanto a atraía.

Félix terminou de abotoar a camisa, os movimentos calmos, mas o olhar carregado de um aviso silencioso.

— Você sabe que comigo não tem meio-termo, Yuna. Ou você entra de cabeça… ou sai agora.

Ela sustentou o olhar, sentindo o coração acelerar.

— Eu já entrei, Félix.

Ele se inclinou, aproximando-se até que o perfume dele se misturasse ao ar que ela respirava. A voz veio baixa, quase um toque:

— Então se prepare… porque comigo é sempre tempestade.

E ela soube, ali, que a vida ao lado dele nunca seria calma. Nunca seria simples. Félix era o caos… e agora, ele também era dela.