Amar o Caos

14 Cicatrizes


Félix dormia tarde e acordava mais tarde ainda. Passava as manhãs jogado no sofá, café frio na mesa, rabiscando números e nomes num caderno amassado. Verificava o que tinha vencido, quem estava devendo, a quem devia — e, quando necessário, fazia visitas rápidas a certos “amigos” de farda para manter tudo rodando. Um envelope grosso mudava de mãos, um aceno seco, e a cidade seguia fingindo que não via.


Enquanto isso, Yuna tentava segurar o pouco de normalidade que restava. Ia à escola, voltava sozinha quando ele não aparecia para buscá-la, e corria para casa para ajudar a mãe e adiantar a lição. Ela sabia que bastava o telefone tocar ou o som do motor dele na rua para tudo parar. Não importava se estava no meio de uma frase, de um desenho ou de um sonho — largava tudo e ia.


Os pais já tinham desistido de discutir. Ficaram como plateia muda, olhando de longe, sentindo aquele fio de medo que só cresce quando se sabe que a história pode acabar mal, mas ninguém ousa dizer em voz alta.


O celular vibrou na mesa.

Uma única frase:

"Vou sair da cidade por alguns dias. Se comporte."

Nada de explicações. Nada de despedida.

Yuna encarou a tela por longos segundos, sentindo aquele frio conhecido percorrer a espinha. Não respondeu. Não adiantava — ele não queria conversa, queria obediência.


Os dias sem Félix eram estranhos.

A casa parecia maior, o silêncio mais pesado — mas era um peso diferente, quase suportável. Yuna podia dormir sem se assustar com passos no corredor, podia respirar sem medir cada movimento.

Ainda assim, a ausência dele não trazia paz completa.

Era como se a cidade estivesse em pausa, esperando o retorno de alguém que mexia com cada engrenagem. E no fundo, ela sabia: quando ele voltasse, cobraria cada instante de liberdade que ela ousou sentir.


O celular vibrou outra vez.

Félix: Voltei, tô te esperando.

O frio percorreu a espinha de Yuna. Ela foi sem questionar — porque com ele não havia espaço para perguntas.

Quando Yuna chegou, o ar da noite parecia mais pesado. Assim que entrou, viu Félix e alguns dos seus capangas sentados, com cortes, hematomas e a roupa suja de sangue.

— O que aconteceu? — a voz dela saiu trêmula.

Félix riu, um som rouco e cansado.

— Negócios.

— Mas, se está assustada com o que vê, devia ver como ficaram os outros… — ele lançou um olhar rápido para os homens ao redor, que riram da piada. Todos, menos Yuna, que permaneceu imóvel, pálida, com o coração acelerado.

— Sobe — ordenou.

Minutos depois, ele entrou no quarto, fechando a porta. Ligou o chuveiro e fez um gesto para que ela entrasse com ele.

— Vem. Me ajuda a tirar isso — murmurou, referindo-se à camisa rasgada e suja.

A água quente caiu sobre a pele dele, revelando cortes recentes, roxos espalhados e o peso da luta estampado no corpo. Yuna pegou a esponja, passando devagar pelos ombros, braços e costas dele. Ele reclamou algumas vezes, o corpo reagindo à dor, e ela sentia o estômago apertar — não estava acostumada a vê-lo assim.

Quando terminaram, Félix deitou-se na cama sem dizer nada.

— Deita aqui — pediu, com a voz mais baixa. — Hoje não quero nada… só o teu corpo quente perto do meu.

Ela se aproximou, e ele a envolveu num abraço firme. O silêncio tomou o quarto, e pela primeira vez naquela noite, ele relaxou.

O quarto estava escuro, apenas a luz fraca da rua entrando pelas frestas da cortina.

Félix respirava pesado, o corpo ainda quente contra o dela.

Cada vez que se movia, um leve gemido de dor escapava, e Yuna sentia o coração apertar.

Ela ficava imóvel, com medo de machucá-lo mais, mas também não queria se afastar.

O silêncio era quebrado apenas pelo som do vento lá fora.

Ele, mesmo exausto, passou o braço por cima dela num gesto quase instintivo, como se quisesse ter certeza de que ela estava ali.

Ela fechou os olhos, tentando se acalmar — não estava acostumada a vê-lo vulnerável, muito menos tão ferido.

O cheiro dele, misturado ao sabonete e ao calor da pele, a envolvia por completo.

E, sem perceber, foi esse calor que a fez adormecer, colada a ele, sentindo cada batida lenta do coração de Félix sob sua mão.

O amanhecer entrou tímido pela janela, espalhando um tom dourado sobre o quarto.

Yuna já estava de pé, os cabelos presos de qualquer jeito, o corpo ainda sentindo o peso da noite anterior.

Na cozinha, o som do café pingando na cafeteira se misturava ao cheiro forte e acolhedor que começava a tomar conta da casa.

Na mesa, algumas canecas já estavam postas — uma para cada um dos feridos que, mesmo tentando descansar, não conseguiam apagar completamente as dores.

O aroma quente se infiltrou pelo corredor e chegou até o quarto.

Félix, ainda deitado, sentiu o perfume familiar e abriu os olhos devagar. O corpo reclamou no primeiro movimento.

Passou a mão pelo rosto, soltando um suspiro pesado, e ficou alguns segundos apenas respirando aquele cheiro.

Não era só café — era a sensação de que, por mais quebrados que estivessem, havia alguém cuidando.

Ele se ergueu lentamente, ainda cambaleante, e deixou que o cheiro o guiasse até a cozinha.

Ao vê-lo, Yuna colocou uma caneca à frente dele, sem dizer nada. Apenas um olhar rápido — cansado, mas firme — e um gesto para que ele se sentasse.

Ele obedece, e enquanto ela serve o café, Félix percebe que, apesar do rosto calmo, há uma sombra de preocupação escondida no olhar dela.

— Não fica preocupada — ele diz, a voz baixa, quase um sopro. — Você se acostuma…

Yuna para por um instante, a concha suspensa sobre a panela. Os olhos dela endurecem.

— Eu não quero me acostumar — retruca, sem elevar o tom, mas com uma firmeza que corta o ar. — Não quero achar normal ver você assim.

Félix tenta sorrir, mas o canto da boca não acompanha. Ele desvia o olhar para a xícara, sentindo o calor do café subir como um conforto estranho.

— A vida que eu levo é assim — murmura, mais para si do que para ela. — Machuca… mas passa.

— E um dia não vai passar — Yuna rebate, pousando a concha na pia. — Um dia, isso vai te quebrar de vez.

Pausa.

— Minha vida sempre foi uma luta diária — ele diz, firme, mas sem arrogância. — Isso aqui é fichinha perto do que eu já passei.

Ela o encara, percebendo que não é bravata. É sobrevivência.

— É… mas toda luta deixa marca — responde, quase num sussurro. — E você já carrega mais do que devia.

Ele respira fundo, como quem engole lembranças que não quer revisitar.

— Algumas marcas a gente aprende a ignorar. Outras… a gente aprende a usar como armadura.

E, por um instante, ela percebe que por trás da dureza dele existe um corpo inteiro costurado de cicatrizes invisíveis.