Amar o Caos
22 Mais Perto do Abismo
A vida de Félix continuava um caos silencioso.
Ele saía antes do anoitecer e quase sempre voltava quando a cidade já estava afogada na madrugada.
Cheiro de chuva, fumaça e rua impregnados na roupa.
Yuna sabia que existia uma parte da vida dele que permanecia escondida atrás de portas fechadas e respostas vagas.
Ela saía cedo para a faculdade.
Quando voltava, ele raramente estava em casa.
E, às vezes, Félix aparecia no meio da noite como alguém carregando o peso do mundo nos ombros. Procurava ela no escuro, abraçando seu corpo em silêncio, como se aquilo fosse o único instante em que conseguia respirar de verdade.
Naquela madrugada, porém, algo estava diferente.
Yuna acordou com vozes masculinas vindas do escritório.
Baixas. Tensas.
O lado da cama estava vazio.
Ela saiu devagar do quarto, os pés frios contra o chão, e percebeu a porta do escritório entreaberta no fim do corredor.
Homens desconhecidos estavam lá dentro.
Mais velhos.
Mais sofisticados.
E muito mais perigosos que os homens habituais de Félix.
Os ternos escuros impecáveis, os relógios caros e o jeito controlado de falar davam a sensação desconfortável de que dinheiro e violência andavam juntos naquele mundo.
Yuna se manteve escondida atrás da parede, observando em silêncio.
— O serviço saiu do controle — um dos homens disse, girando lentamente um copo de bebida entre os dedos. — Era pra ser apenas transporte. Discreto. Sem atenção.
Félix permaneceu sentado atrás da mesa, expressão fechada.
— E foi isso que eu fiz.
— Não completamente.
O homem apoiou o copo na mesa com calma irritante.
— Houve perseguição. Um acidente. Dois mortos.
Yuna sentiu o estômago afundar.
Félix passou a mão lentamente pelo maxilar, claramente perdendo a paciência.
— Não foram homens meus.
— Mas aconteceu durante o transporte.
O silêncio ficou pesado.
Félix trabalhava com rotas ilegais, contrabando de mercadorias, documentos falsificados, equipamentos proibidos de circular… coisas caras o suficiente para envolver gente poderosa e perigosa.
Mas o tipo de homem que pagava por esses serviços nunca tinham mãos limpas.
E, quando algo dava errado, sempre sobrava sangue para alguém limpar.
— A polícia começou a fazer perguntas em Busan — outro homem comentou. — Isso nos prejudica.
Félix ergueu os olhos lentamente.
Frio. Controlado.
— Então resolvam antes que vire um problema maior.
Yuna conhecia aquele tom.
Era o tom que Félix usava quando estava perigosamente perto de perder a calma.
Um dos homens soltou um riso baixo.
— Você anda distraído ultimamente.
Aquilo mudou o clima da sala.
Félix descruzou os braços devagar.
— Escolhe melhor as próximas palavras.
O homem apenas sorriu de lado.
— Só ouvi dizer que existe uma garota morando aqui agora.
O ar pareceu congelar.
Yuna prendeu a respiração imediatamente.
E pela primeira vez, entendeu uma coisa que nunca tinha encarado de verdade:
Félix talvez não fosse o pior homem daquele mundo.
Talvez ele fosse apenas o homem tentando sobreviver dentro dele.
Os homens foram embora perto das quatro da manhã.
A porta da frente se fechou devagar, seguida pelo som distante dos carros deixando a propriedade.
O silêncio que ficou depois pareceu ainda pior.
Félix permaneceu alguns segundos parado no escritório, as mãos apoiadas na mesa, respirando fundo como quem tentava organizar a própria cabeça antes de voltar para cima.
Mas encontrou Yuna parada no corredor.
Braços cruzados.
Olhar firme apesar do sono acumulado.
Ele travou por um instante.
— Você devia estar dormindo.
— E você devia me explicar que merda tá acontecendo aqui.
A voz dela saiu baixa, mas sem hesitação.
Félix fechou os olhos por um segundo, já cansado daquela conversa antes mesmo de começar.
— Não é assunto pra você.
Yuna soltou uma risada curta, desacreditada.
— Engraçado. Porque acontece dentro da casa onde eu moro.
Ele passou por ela em direção à cozinha.
— São negócios, Yuna. E acabou.
Mas dessa vez ela não deixou escapar.
Foi atrás dele imediatamente.
— “Negócios”? Você chama homens com cara de mafiosos entrando na sua casa de madrugada de negócios?
Félix abriu a geladeira sem nem olhar para ela.
— Você ouviu coisa demais.
— Porque ninguém me conta nada!
Aquilo fez ele finalmente virar.
O olhar escuro encontrou o dela no mesmo instante.
— E é exatamente assim que eu quero manter.
Yuna sentiu a raiva subir quente pelo peito.
— Não, Félix. Você quer controle. Tem diferença.
O maxilar dele travou.
Ela respirou fundo antes de continuar:
— Eu moro aqui agora. Durmo do seu lado. Convivo com essa vida sem entender metade dela. E sinceramente? Isso tá começando a me assustar.
Por um segundo, algo mudou no olhar dele.
Não irritação.
Culpa.
Mas passou rápido demais.
— Você não precisa entender essas coisas.
— Preciso sim.
Ela deu um passo mais perto.
— Porque se você não consegue dividir nada comigo além dos pedaços convenientes… então talvez eu realmente não devesse estar aqui.
Aquilo atingiu Félix como um soco.
O silêncio ficou pesado entre os dois.
Ele odiava quando Yuna falava em ir embora.
Porque ela não dizia aquilo como ameaça.
Dizia como alguém começando, finalmente, a considerar essa possibilidade.
Félix desviou o olhar primeiro.
Passou a mão pelo rosto cansado antes de falar mais baixo:
— Meu trabalho envolve gente perigosa. Transporte ilegal, favores, rotas… coisas que homens ricos pagam pra manter longe dos olhos da polícia. Às vezes algo dá errado. E quando dá… sobra problema pra todo mundo.
Yuna permaneceu em silêncio.
— Eu não sou assassino — ele continuou, duro. — Mas também não sou inocente.
A sinceridade na voz dele pesou mais que qualquer mentira bonita.
Yuna engoliu seco.
Porque no fundo ela sempre soube.
Só nunca tinha ouvido Félix admitir em voz alta.
Félix apoiou as duas mãos na bancada da cozinha, mantendo os olhos baixos por alguns segundos antes de voltar a encará-la.
O cansaço deixava sua voz mais rouca. Mais pesada.
— Não finja surpresa, Yuna. Você sabia muito bem quem eu era antes de vir atrás de mim.
Ela permaneceu em silêncio.
— Sabia que eu cresci entrando e saindo de instituições para menores infratores. Sabia que conheci os meninos e metade dos caras que trabalham comigo lá dentro. Aqui ninguém teve infância bonita. Ninguém ganhou segunda chance de graça.
Ele soltou um riso sem humor.
— Cada um carrega uma história podre nas costas. Roubo, briga, violência… sobrevivência. É assim que funciona.
Yuna observava ele em silêncio agora.
Porque Félix nunca falava do passado.
Nunca.
— Ninguém aqui é inocente — ele continuou. — Bem… além de você. Ou pelo menos era, antes de se envolver comigo.
Aquilo bateu nela de um jeito estranho.
Porque não havia deboche dessa vez.
Nem arrogância.
Só uma verdade cansada.
Yuna cruzou os braços lentamente.
— Você fala como se eu tivesse escolhido me apaixonar por você conscientemente.
Félix ergueu os olhos.
E aquilo ali… aquilo era perigoso demais de ouvir às quatro da manhã.
Ela percebeu tarde demais o que tinha acabado de admitir.
O silêncio ficou pesado.
Félix deu um passo na direção dela.
— Yuna…
— Não muda de assunto.
Ela desviou o olhar rapidamente, respirando fundo antes de continuar:
— Eu sabia que você era problemático. Sabia que vivia cercado de coisa errada. Mas existe diferença entre imaginar… e ouvir homens falando sobre perseguição, polícia e gente morta dentro da sua casa.
O maxilar dele endureceu.
— Você acha que eu gosto disso?
— Eu acho que você se acostumou.
Aquilo acertou em cheio.
Félix ficou quieto por um instante.
E esse silêncio confirmou mais do que qualquer resposta.
Ele tinha se acostumado.
Acostumado a viver sempre armado.
Sempre desconfiando.
Sempre resolvendo problemas sujos de homens mais poderosos que ele.
Como um cão treinado para sobreviver na violência até esquecer como viver de outro jeito.
Yuna sentiu o peito apertar ao perceber isso.
Porque por trás do homem difícil, arrogante e controlador…
Existia alguém cansado.
Muito mais cansado do que ela imaginava.
— Eu não quero essa vida pra você — Félix falou de repente, mais baixo.
Ela soltou uma risada amarga.
— Meio tarde pra isso, não acha?
Ele se aproximou mais um passo.
— É exatamente por isso que eu escondo certas coisas.
Yuna ergueu os olhos devagar.
— E você acha mesmo que me manter no escuro vai me proteger?
Félix não respondeu.
Porque talvez, no fundo, ele também começasse a perceber que estava perdendo Yuna justamente tentando segurá-la perto demais.
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