Amar o Caos
9 Jogo de Damas
Era fim de tarde
Félix estava encostado num poste velho, cigarro queimando à toa entre os dedos.
Parecia perdido dentro de si.
Jim, o capanga mais próximo, observava de longe.
Sabia ler seu chefe como ninguém — e algo estava fora do lugar.
Aproximou-se devagar, sem cerimônia.
— Cê tá estranho.
Félix não respondeu. Apenas tragou o cigarro e soltou a fumaça devagar.
Jim olhou ao redor, depois voltou os olhos pra ele.
— Fica assim quando se mete em coisa que não devia. Só que dessa vez… não tem briga, não tem dívida. Tem garota.
Félix desviou o olhar. O silêncio entregava mais do que queria.
— Vi o jeito que saiu depois daquele dia. Tá remoendo, né?
— Ela não devia tá aqui. — murmurou, quase num lamento.
— Mas tá. E cê deixou ela entrar. Agora segura.
— Achei que se eu assustasse ela, sumia. Mas não… Ela não fugiu.
Jim riu de canto, seco.
— Menina dessas não corre fácil. E você sabe disso. Por isso tá assim: perdido. Porque ela olhou no fundo dos seus olhos e não tremeu.
Silêncio de novo. Só o som da cidade ao longe.
Jim se virou pra sair, mas lançou a última frase:
— Se quer que ela suma, desaparece antes. Porque da próxima vez… vai ser ela que te derruba.
Félix ficou ali, parado.
O cigarro caiu da mão. Nem percebeu.
Os dias arrastavam-se como um cigarro mal apagado.
Félix sumiu da praça, das ruas, da própria sombra.
Recluso. Trancado no sobrado onde o cheiro de gasolina e couro costumava trazer paz. Agora, tudo cheirava a desordem.
Jim bateu à porta uma, duas vezes. Sem resposta.
Do outro lado, Félix encarava o teto. O telefone pesava na mão, mas ele já tinha discado.
— Preciso que venha.
A voz do outro lado era suave, melosa, com um rastro de memórias.
— Quanto tempo, hein? Senti sua falta, meu bem.
Ele não respondeu.
— Tá fugindo de quê agora, Félix?
— De mim. — murmurou.
Dois dias depois, a mulher chegou. Alta, bonita, segura de si. Daquelas que sabiam jogar o jogo e usar o silêncio como arma. Se chamava Natasha. Já tinha estado ali antes. Já tinha dividido aquela cama, aquele sofá, aquele copo de whisky.
Ela entrou, observou o estado da casa e dele.
— Ainda escondendo o caos embaixo do tapete, Félix?
Ele ofereceu um cigarro. Ela aceitou.
Os dois sentaram na varanda como velhos cúmplices.
Mas o olhar de Félix… estava distante.
Lá fora, Yuna passava apressada. Não viu nada.
Ainda.
Mas alguém viu.
Jim.
Que cruzou os braços, encostado na moto, e pensou alto:
— Essa história ainda vai estourar feito bomba mal armada.
Yuna caminhava pelo bairro com o uniforme da escola ainda grudando no corpo. Estava quente, o sol preguiçoso da tarde despencando no horizonte. No fundo, esperava cruzar com Félix… Mesmo que fosse só um relance. Só para ver se ele também andava meio fora do ar.
Foi quando parou.
Na frente da casa de Félix, a moto de Jim. E uma risada feminina escapando da janela entreaberta.
Curiosa, deu dois passos.
E então viu.
Uma mulher. Alta, cabelos presos num coque bagunçado e um vestido preto colado no corpo como provocação. Ela ria de algo que Félix disse — ele estava ali, na sala, camisa meio aberta, cigarro na mão, mas… de um jeito leve. Como se tivesse voltado a respirar.
Yuna sentiu o mundo desalinhar.
Não ficou. Nem precisava.
Ela se virou sem pressa, mas o olhar dela, se alguém estivesse prestando atenção, diria: Isso não acaba aqui.
Dentro da casa…
Natasha percebeu o incômodo na nuca de Félix. Ele estava ali, mas não inteiro.
— Ela passou por aqui?
Ele fingiu que não entendeu.
— Quem?
Ela riu, amarga.
— A garota que te deixou assim. Não adianta, Félix. Quando um homem se tranca com outra pra esquecer, é porque já perdeu.
Ele fechou os olhos com força.
— Não quero confusão, Natasha. Só… um tempo.
— Tempo é coisa que a paixão não respeita, querido. Ela queima.
Natasha bebeu um gole do whisky e deixou o copo na mesa.
Levantou-se com o andar de quem conhece o próprio veneno e sorriu, venenosa:
— Se você não a quer, alguém vai querer. E se quer, então pare de bancar o mártir. Tá ficando patético.
Ele a encarou. Pela primeira vez, a raiva voltou ao rosto.
Mas ela apenas piscou.
— Pensa nisso.
E lá fora, Yuna, sentada na varanda de casa, escrevia no caderno sem foco. O coração cheio de um sentimento novo:
ciúmes misturado com desejo de guerra.
Se ela veio achando que ia ganhar, veio pro jogo errado.
Félix agora fazia questão de aparecer.
Com Natasha na garupa da moto.
Com Natasha rindo alto no bar da esquina.
Com Natasha andando grudada nele como se já fosse dona do pedaço.
E Yuna via.
Sempre via.
Por acaso? Não.
Félix fazia de propósito.
Achava que se ela visse, entenderia que ele era terra proibida.
Achava que ia afastá-la.
Ou pior, que ela desistiria.
Mas tudo o que conseguiu foi o contrário.
Yuna passava cabisbaixa pela rua, os fones no ouvido, o olhar perdido.
Quando o som da moto dele a arrancou da bolha.
O coração bateu forte antes mesmo de olhar.
Ali estavam.
Ele e ela.
Natasha usava um vestido vermelho, provocante. O tipo de roupa que Yuna nunca ousaria usar.
Ela desceu da moto como se estivesse em um filme. Sorriu.
Segurou a mão dele.
Félix, por um segundo, olhou direto nos olhos de Yuna.
E o que ele viu…
Não foi medo.
Não foi ódio.
Foi mágoa.
Os olhos marejados dela diziam tudo:
Eu queria estar no lugar dela. Mas você não me deixou nem tentar.
Ela não parou. Continuou andando. Mas o passo era firme.
E lá no fundo… nascia algo perigoso.
Uma raiva silenciosa.
Uma vontade de virar o jogo.
Naquela noite…
Félix estava no telhado da oficina, cigarro aceso, Natasha dormindo lá dentro.
Mas era outra que ele via.
Yuna, com os olhos brilhando de tristeza. A boca entreaberta, como se quisesse dizer algo e não soubesse como.
Ele bateu com força no parapeito. Xingou-se em voz baixa.
— Idiota.
Porque ele sabia.
Sabia que tinha quebrado algo precioso.
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