Amar o Caos

10 Entre o Silêncio e a Tempestade


O nome dele era Min-jun.

Atleta do time da escola, cabelo impecável, o tipo galanteador que sabia que era bonito — e fazia questão de mostrar.

Yuna nunca deu bola. Sempre achou superficial demais.

Mas agora...

Agora ela via uma oportunidade.

Naquela sexta-feira, quando a turma saiu da escola direto pra pracinha onde a galera se reunia, Yuna apareceu diferente.

Roupa justa, perfume marcante. Cabelo solto, passos seguros.

Ela sabia que Félix estaria por perto.

E ele estava.

Com Natasha sentada no colo dele, rindo de algo que ninguém mais achava graça.

Yuna ignorou.

Foi direto até Min-jun.

— Tá afim de me mostrar aquele atalho novo que você falou outro dia?

Ele arregalou os olhos.

Sorriu como quem ganhou na loteria.

E foram.

Félix quase quebrou o copo de cerveja que segurava.


No beco entre as casas, Min-jun a encostou na parede, querendo beijá-la.

Yuna fingiu um sorriso.

Deixou ele chegar perto, mas não muito.

Ela não queria ele.

Queria que Félix visse.

Queria causar.

E conseguiu.

Porque quando saíram do beco, ela de mãos dadas com Min-jun, rindo sem graça — Félix estava lá.

Os olhos dele queimavam.

Mas ele não disse nada. Nem um gesto. Nem um olhar direto.

Só se virou...

E foi embora com Natasha puxando o braço dele.

Yuna sentiu o coração afundar.

Não era isso que ela queria.

Ela queria que ele a puxasse. Que dissesse : Para com isso, você é minha.

Mas tudo o que ganhou foi o próprio veneno.

Ela jogou — e perdeu.

Ou talvez...

O jogo ainda estivesse só começando.


Nos dias que seguiram, Yuna era vista ao lado de Min-jun em todos os cantos.

Na escola, no ponto de ônibus, na lanchonete da esquina.

Ela ria de tudo.

Jogava o cabelo, tocava o braço dele com delicadeza, fazia questão de que todos vissem.

Mas ninguém via como ela mordia o lábio quando Félix passava sem sequer olhar.

Como apertava o punho quando ele sorria — ainda que falso — ao lado de Natasha.

O jogo seguia, mas estava ficando perigoso.

Porque ela estava se perdendo no personagem.

E ele…

Ele fingia não se importar, mas toda vez que ouvia aquela risada forçada dela, o estômago embrulhava.

Ele sabia.

Sabia que era pra ele.


Certa tarde, na pracinha, Min-jun a pegou pela cintura e tentou roubar um beijo.

Yuna virou o rosto.

— “Calma, Min-jun…”

— “Você tá me enrolando, é?”

— “A gente só tá se conhecendo…”

Ele riu, meio sem graça, mas o clima ficou estranho.

E foi nesse exato momento que Félix apareceu, do outro lado da rua.

Os olhos dele encontraram os dela.

Firmes. Duros.

Mas no fundo... havia uma pontada de dor.

Como se dissesse: Pra quê isso, Yuna?

Ela segurou o olhar.

Não desviou.

E sorriu. Um sorriso irônico, amargo, cheio de orgulho e veneno.

Doía, mas ela não recuaria.


A noite estava abafada. O ar, denso.

As ruas do bairro estavam cheias, mas Félix seguia por um caminho mais quieto, querendo silêncio, longe de vozes, longe de risos, longe dela.

De Yuna.

Ou pelo menos ele tentava.

Foi então, no beco entre duas casas, que a paz se partiu.

— Não, Min-jun, eu não quero, pare, por favor... — a voz tremia, desesperada, e Félix parou no mesmo instante, como se o chão tivesse puxado seus pés.

— Para de enrolar, Yuna... Agora é só eu e você.

O mundo parou de girar.

Félix sentiu o estômago revirar, os punhos se fecharem.

Num segundo, ele já estava lá.

Entrou no beco como um raio. E o que se viu foi rápido demais.

Min-jun com os braços prendendo Yuna contra a parede, ela tentando afastá-lo com os olhos arregalados, o medo estampado.

PAF!

Um soco seco, brutal.

Min-jun voou pra trás, caiu no chão como uma sacola de ossos.

Félix agarrou a gola da camisa dele e o ergueu com uma força que nem sabia que tinha.

— Encostar nela de novo e eu te quebro. Você entendeu? — a voz dele era fria, cortante.

Min-jun mal conseguiu responder, gaguejou algo incompreensível antes de Félix o largar como um trapo.

Yuna estava ofegante. Os olhos cheios d’água.

Mas mesmo assustada, firme. Orgulhosa.

Ela olhou pra ele e murmurou:

— Você me seguiu?

Félix desviou o olhar, limpou o sangue da mão no jeans.

— Eu ouvi sua voz. Só isso.

Silêncio.

Ela queria dizer algo, agradecer, correr, chorar… mas nada saiu.

Ele virou as costas.

Ia embora.

Mas parou.

Virou o rosto por cima do ombro.

— Esse jogo tá indo longe demais, Yuna.

— Então para de fugir. — ela respondeu num fio de voz, mas firme como uma flecha.

Ele ficou ali, imóvel, com a alma em guerra.

Droga… ela é mesmo o meu caos.

Félix virou de costas. Ia embora.

As mãos ainda trêmulas. O coração uma explosão surda no peito.

O cheiro dela, o som da respiração ofegante — tudo grudado nele feito maldição.

Mas antes que pudesse dar dois passos, sentiu.

Os braços dela.

Um abraço quente, apertado, desesperado.

Sem pedir permissão. Sem pensar.

Yuna o agarrou por trás, como se o mundo fosse desabar se ela não fizesse aquilo.

O rosto dela se afundou nas costas dele, os dedos se cravaram na camisa como se quisessem dizer fica aqui, só mais um pouco.

Félix congelou.

O corpo inteiro entrou em alerta.

E por um segundo, ele fechou os olhos…

Sentiu.

Sentiu tudo.

O medo dela. A entrega. A confiança.

A raiva que ele sentia evaporou.

A culpa explodiu como vidro.

E restou só ela.

Ali.

Abraçada a ele.

Félix levou a mão devagar até a dela, ainda agarrada ao tecido.

Mas não afastou.

Apenas segurou.

Ficaram assim. Parados. No meio do nada.

Dois corpos em silêncio.

Mas por dentro...

Era grito.

Era tormenta.

Era um grito mudo de tudo que eles nunca disseram.

Ficaram assim por longos minutos.

No meio da rua deserta, debaixo do calor abafado da noite, os dois imóveis — ligados por um abraço que não era só físico.

Era tudo o que eles estavam tentando negar desde o começo.

Félix sentia o coração dela batendo contra suas costas.

Rápido.

Descompassado.

Como o dele.

Ele queria virar, segurá-la, protegê-la do mundo — mas não podia. Não devia.

Ela era jovem demais. Ingênua demais.

E ele…

Ele era tudo o que ela não precisava.

Com cuidado, como quem desmonta uma bomba, ele desprendeu os braços dela.

Devagar.

Com firmeza.

E sem dizer uma única palavra…

Ele foi embora.

Não olhou pra trás.

Não hesitou.

Seguiu em frente como se não tivesse deixado metade de si naquele abraço.

Yuna ficou parada.

Braços caídos, olhos marejados.

Sabia que, mesmo sem dizer nada, ele tinha dito tudo.

Não posso.

Não devo.

Mas como eu queria.

A noite seguiu.

Mas nada nela foi igual depois disso.