Amar o Caos

31 Isso Ainda Não Acabou


Yuna permaneceu parada perto da entrada da oficina, segurando a bolsa com tanta força que os dedos começavam a doer.

O coração parecia enlouquecido agora.

Porque durante anos ela imaginou aquele momento de mil formas diferentes.

Raiva.

Choro.

Perguntas.

Acusações.

Mas agora que Félix realmente estava ali…

ela não conseguia pensar em nada.

Ele parou a poucos passos dela.

Perto demais.

E por um instante Félix quase perdeu o controle outra vez.

Porque Yuna estava ainda mais bonita de perto.

Mais mulher.

Mas ainda carregava aquele mesmo olhar que sempre desmontava ele inteiro.

O silêncio entre os dois ficou pesado.

Quente.

Perigoso.

Então Félix respirou fundo e finalmente falou, a voz mais rouca do que deveria:

— Você não parece estar no lugar certo.

Aquilo pegou Yuna desprevenida.

Porque era tão absurdamente a cara dele esconder o próprio caos atrás de uma frase seca.

Ela abriu a boca, mas nenhuma palavra saiu.

Félix percebeu imediatamente o estado dela.

Paralisada.

Confusa.

Tentando entender se aquilo era real.

E pela primeira vez desde que saiu da prisão…

ele teve medo de verdade.

Não da polícia.

Não da prisão.

Não do passado.

Medo de olhar para ela…

e não conseguir ir embora dessa vez.


Yuna passou a mão rapidamente sob os olhos tentando conter as lágrimas antes que elas realmente caíssem.

Mas era inútil.

O coração dela parecia incapaz de acompanhar tudo aquilo.

Félix ali.

Livre.

Tão perto outra vez.

Depois de anos de silêncio.

Ela respirou fundo algumas vezes, mas o ar parecia não entrar direito nos pulmões.

— Eu… preciso de uma água.

A frase saiu quase num sussurro.

Félix percebeu imediatamente.

Ela estava à beira de desmoronar.

E, honestamente…

ele também não estava muito longe disso.

Os outros mecânicos continuavam trabalhando no fundo da oficina, fingindo não prestar atenção, embora claramente percebessem que alguma coisa importante estava acontecendo ali.

Félix passou a mão pela nuca, pensativo por um instante.

Eles precisavam conversar.

Não no meio daquele lugar.

Não cercados de barulho, motores e olhares curiosos.

Então ele respirou fundo antes de falar mais baixo:

— Tem uma cafeteria na esquina.

Yuna ergueu os olhos lentamente para ele.

— É tranquila.

A voz dele permanecia controlada.

Calma.

Mas ela conseguia perceber a tensão escondida ali.

— A gente pode conversar lá… se você quiser.

Aquilo atingiu Yuna de um jeito estranho.

Porque fazia anos desde a última vez que Félix realmente abria espaço para ela permanecer.

Mesmo que fosse apenas um convite simples.

Ela demorou alguns segundos antes de conseguir assentir devagar.

Félix pegou as chaves do carro das mãos dela com cuidado, evitando tocar demais nos dedos dela porque tinha medo do próprio autocontrole naquele momento.

— Me dá dois minutos.

Yuna franziu levemente a testa, sem entender.

— Eu só vou me limpar antes.

Ela apenas assentiu.

Félix desapareceu rapidamente pelos fundos da oficina, passando pela pequena porta que levava ao vestiário improvisado dos funcionários.

Yuna ficou parada perto da entrada, tentando organizar os próprios pensamentos enquanto escutava o som distante das ferramentas e motores.

O peito dela ainda parecia apertado demais.

Poucos minutos depois, Félix voltou.

Sem o macacão sujo de graxa.

Agora vestia uma camiseta preta limpa que marcava discretamente os braços fortes, e o cabelo ainda estava levemente úmido depois de ter lavado o rosto e as mãos. O cheiro de óleo tinha diminuído, substituído por um aroma suave de sabonete e algo amadeirado que ela lembrava perfeitamente.

Yuna sentiu o coração tropeçar outra vez.

Porque até aquilo parecia cruelmente familiar.

Félix percebeu o olhar dela por um segundo, mas desviou antes que acabasse pensando demais nisso.

— Vamos?

Ela apenas concordou em silêncio.

Os dois saíram juntos da oficina sob o calor abafado do fim da tarde.

E caminharam lado a lado pela calçada sem saber exatamente como agir um perto do outro agora.

O silêncio entre eles não era vazio.

Era pesado.

Cheio de anos mal resolvidos.

A cafeteria ficava realmente perto, numa esquina mais tranquila longe do movimento principal da avenida. Pequena, aconchegante, iluminada por luzes amareladas suaves e o cheiro confortável de café recém passado.

Félix abriu a porta para ela entrar primeiro.

Outro gesto simples.

Mas Yuna sentiu o coração apertar de novo.

Porque até os pequenos hábitos dele continuavam exatamente os mesmos.

A conversa começou difícil antes mesmo das palavras realmente saírem.

Mas nada ali conseguia aliviar a tensão entre eles.

Yuna mantinha as mãos em volta do copo d’água gelado como se precisasse daquilo para continuar inteira.

Félix observava ela em silêncio do outro lado da mesa.

Oito anos.

E ainda parecia impossível olhar para Yuna sem sentir o peito apertar daquele jeito.

Foi ele quem falou primeiro.

A voz baixa. Controlada demais.

— Você parece bem.

Yuna ergueu os olhos lentamente.

Félix sustentou o olhar dela por alguns segundos antes de completar:

— Os anos foram bons pra você.

Aquilo arrancou dela um pequeno riso irônico.

Fraco.

Quase triste.

— E pra você não, né?

A frase bateu nele de um jeito familiar.

A ironia.

O jeito direto.

Exatamente como antes.

Félix abaixou a cabeça por um instante, soltando um pequeno sorriso pelo nariz enquanto pegava a xícara de café.

Sem humor nenhum.

Tomou um gole antes de responder:

— Acho que prisão normalmente não entra na lista de experiências enriquecedoras.

Yuna desviou os olhos imediatamente.

Porque ouvir ele falar assim… tão casualmente sobre algo que destruiu os dois… doía mais do que deveria.

O silêncio voltou por alguns segundos.

Pesado.

Desconfortável.

Até que Yuna respirou fundo.

— Você devia ter me avisado.

Félix ergueu os olhos devagar.

— Sobre o quê?

Ela franziu a testa imediatamente, como se a pergunta fosse absurda.

— Que saiu da prisão.

A voz falhou levemente no final.

— Mesmo depois de tudo… mesmo depois de ter me afastado todos esses anos… eu não queria descobrir desse jeito.

Aquilo fez alguma coisa endurecer dentro dele.

Não por raiva.

Por defesa.

Félix apoiou o braço na mesa, encarando o café por alguns segundos antes de responder:

— Eu não queria perturbar sua paz.

Yuna engoliu seco.

Porque aquela frase parecia cruelmente calculada.

Como se ele ainda acreditasse que desaparecer fosse amor.

Félix continuou:

— Sua vida parece finalmente estar no eixo agora.

— Trabalho bom.

— Apartamento bonito.

— Relacionamento estável.

Os olhos dele ergueram lentamente até encontrarem os dela outra vez.

— Então pra que estragar tudo aparecendo de novo?

O coração de Yuna apertou forte.

Porque aquilo ainda era muito Félix.

Decidir sozinho o que era melhor pra ela.

Mesmo oito anos depois.

Ela respirou fundo tentando se controlar.

Mas então ouviu a próxima frase:

— Eu sei sobre o Do-yun.

E aquilo fez ela travar.

Claro.

Claro que ele saberia.

Controlador.

Observador.

Silencioso.

Félix sempre dava um jeito de enxergar tudo mesmo à distância.

Yuna recostou lentamente na cadeira, cruzando os braços numa tentativa inútil de se proteger daquele impacto emocional.

— Você sabe sobre minha vida inteira então?

Félix percebeu o tom imediatamente.

E pela primeira vez desde que sentaram ali… desviou os olhos.

Porque a verdade era feia demais quando dita em voz alta.

— Eu só queria saber se você tava bem.

Yuna soltou um riso baixo.

Doloroso.

— Engraçado.

— Porque durante oito anos você fez parecer exatamente o contrário.

Aquilo acertou Félix em cheio.

Ele permaneceu em silêncio.

E Yuna percebeu.

Percebeu no maxilar travado.

Nos dedos apertando a xícara.

Na forma como ele evitava olhar diretamente pra ela agora.

A maturidade deixou Yuna mais forte.

Mas não o suficiente para impedir o coração de tremer sentado na frente dele outra vez.

E Félix percebeu isso também.

Percebeu nas lágrimas presas.

Na respiração instável.

No jeito como ela ainda olhava pra ele como alguém tentando entender uma ferida antiga que nunca cicatrizou direito.

E pela primeira vez desde que saiu da prisão…

Félix começou a entender que talvez afastar Yuna nunca tenha realmente libertado nenhum dos dois.

Yuna sustentou o olhar dele por alguns segundos em silêncio.

Então respirou fundo.

E quando voltou a falar, a voz saiu diferente.

Mais fria.

Mais firme.

Como alguém cansada de sangrar sozinha.

Yuna soltou um pequeno riso sem humor antes de completar:

— O que você pensou, Félix?

— Que se eu descobrisse que saiu da prisão ia correr atrás de você outra vez?

— Implorar pelo seu amor igual antes?

Aquilo acertou ele em cheio.

Félix abaixou os olhos por um instante, passando lentamente o polegar pela lateral quente da xícara.

O silêncio dele já não parecia controle agora.

Parecia culpa.

Yuna sentiu o peito apertar mesmo irritada.

Porque odiava o fato de ainda conseguir ler ele tão facilmente depois de tantos anos.

Félix soltou um suspiro baixo antes de finalmente responder:

— Não.

A voz saiu rouca.

Sincera demais.

Ele ergueu os olhos novamente para ela.

— Eu sabia que você não faria isso.

Yuna franziu levemente a testa.

E então Félix completou, com um pequeno sorriso triste no canto da boca:

— Porque você finalmente aprendeu a não deixar ninguém destruir você desse jeito outra vez.

Aquilo desmontou parte da raiva dela instantaneamente.

Droga.

Ele ainda fazia isso.

Ainda sabia exatamente onde tocar.

Yuna desviou o olhar para a janela da cafeteria tentando recuperar o controle da própria respiração.

Mas Félix continuou observando ela em silêncio.

E pela primeira vez desde que a reencontrou…

começou a perceber que a garota que ele deixou para trás realmente não existia mais — ou pelo menos era isso que Yuna fazia parecer, porque no fundo ela ainda estava escondida embaixo de uma armadura muito bem construída por ela mesma.

Mais forte.

Mais ferida.

E talvez perigosa justamente porque já sabia sobreviver sem ele.

Yuna desviou o olhar para a janela da cafeteria por alguns segundos, tentando controlar a própria respiração.

O movimento da rua seguia normal lá fora.

Pessoas andando.

Carros passando.

A vida continuando.

Enquanto dentro dela…

parecia tudo bagunçado outra vez.

Félix continuava observando ela em silêncio.

Quieto.

Atento.

Como sempre fazia.

Então ele falou.

A voz baixa.

Rouca.

Cansada demais.

— Eu não espero mais nada de você.

Yuna voltou os olhos lentamente para ele.

Félix sustentou o olhar dela por alguns segundos antes de continuar:

— Você já me deu tudo o que eu… talvez um dia tenha merecido.

Aquilo apertou o peito dela imediatamente.

Mas ele não parou.

Porque depois de oito anos enterrando sentimentos…

parecia incapaz de segurar tudo de novo.

Félix soltou um pequeno sorriso sem humor enquanto mexia distraidamente na xícara de café.

— Amor.

— Paz.

— Um lugar pra voltar no fim do dia.

Os olhos dele abaixaram por um instante.

— Coisas que homens como eu normalmente não têm por muito tempo.

Yuna sentiu a garganta apertar.

Porque havia algo profundamente triste no jeito como Félix falava sobre si mesmo.

Como se ainda se enxergasse preso naquele passado.

Como se acreditasse que felicidade fosse sempre temporária nas mãos dele.

Ela respirou fundo antes de responder mais baixo:

— Você ainda fala como se fosse impossível alguém amar você sem acabar se destruindo.

Félix deu um pequeno riso pelo nariz.

Amargo.

— E não acabou?

Silêncio.

A pergunta ficou entre os dois pesada demais para ser ignorada.

Yuna abriu a boca para responder…

mas não conseguiu.

Porque parte dela realmente tinha se quebrado tentando amar Félix.

E os dois sabiam disso.

Félix desviou o olhar outra vez, cansado.

— Foi por isso que eu fui embora da sua vida, Yuna.

A voz saiu firme agora.

Mas os olhos…

os olhos continuavam cheios daquela tristeza silenciosa que ela conhecia bem demais.

— Porque uma hora eu percebi que, se continuasse segurando você perto de mim…

ia acabar arrastando você pro fundo junto comigo.

Yuna sentiu o coração apertar violentamente.

Porque depois de tantos anos…

ainda era amor.

Mesmo machucado.

Mesmo torto.

Mesmo tarde demais.

Yuna inclinou levemente o corpo para frente na mesa, os olhos fixos nele agora.

A voz saiu mais firme.

Mais viva.

— Você não tinha o direito de escolher isso por mim.

Félix fechou os olhos por um segundo, como se a frase tivesse atingido um lugar que ele vinha evitando há anos.

Quando abriu de novo, já não havia defesa no olhar.

Só exaustão.

— Eu sei.

A resposta veio baixa.

Simples demais.

Yuna piscou, surpresa com a falta de resistência.

Félix passou a mão pelo rosto devagar, apoiando o cotovelo na mesa.

— Eu sei que não tinha esse direito.

Um silêncio curto caiu entre eles.

Mas ele continuou, como alguém que já não consegue mais guardar tudo dentro de si.

O olhar dele encontrou o dela de novo.

Diferente agora.

Mais cru.

Mais humano.

— Eu achei que te afastar ia te salvar de mim.

Yuna sentiu a garganta apertar.

Porque aquilo não parecia desculpa.

Parecia verdade.

Félix soltou um riso fraco, sem alegria nenhuma.

— Engraçado… eu passei anos achando que conseguiria controlar o estrago que eu fazia nas pessoas.

Ele balançou levemente a cabeça.

— Mas você foi a única coisa que eu nunca consegui controlar.

Aquelas palavras ficaram suspensas no ar.

Pesadas.

Perigosas.

E, pela primeira vez naquela conversa…

Félix não parecia um homem tentando se justificar.

Parecia alguém finalmente admitindo que perdeu algo que nunca soube segurar direito.

Yuna baixou o olhar por um instante, respirando fundo.

Mas não se afastou.

Nem levantou.

Só ficou ali.

Diante dele.

Como se, mesmo depois de tudo, ainda existisse alguma coisa que nenhum dos dois tinha coragem de nomear completamente.

O silêncio que veio depois foi pesado.

Até o celular dela vibrar em cima da mesa.

Uma mensagem de Do-yun:

“Tá tudo bem? Como foi na oficina?”

Aquilo quebrou o clima na mesma hora.

Como se o mundo lembrasse aos dois que nada ali estava isolado do resto da vida.

Yuna olhou para a tela.

Depois para Félix.

— Eu preciso ir agora… tenho coisas pra resolver.

Félix assentiu devagar, como se já esperasse aquilo.

— Claro. E o carro?

Yuna já se virava em direção à saída. Quando ele continuou:

— Pode deixar comigo. Depois alguém da oficina te liga passando o orçamento e tudo mais.

Ela parou por meio segundo.

Só um.

— Tá.

E voltou a andar.

Mas quando já estava quase saindo, ela freou os passos.

O silêncio pesou de novo.

Yuna virou o rosto.

Os olhos encontraram os dele outra vez.

— A gente ainda não terminou essa conversa.

Félix não respondeu de imediato.

Só ficou olhando.

Aquele olhar cansado, antigo, cheio de coisa não dita.

Então, quase num suspiro:

— Eu sei.

Yuna saiu.

E a porta fechou devagar atrás dela