Amar o Caos

32 Feridas que ainda respiram


Yuna foi direto para a empresa depois de sair da cafeteria.

Mas o corpo parecia ter chegado antes da mente.

O prédio seguia igual.

Funcionários andando apressados pelos corredores de vidro.

Elevadores abrindo e fechando sem parar.

Teclados, notificações, reuniões e telas iluminadas.

A vida continuava exatamente como deveria.

Só que dentro dela… alguma coisa tinha saído do lugar.

Yuna tentou trabalhar.

Tentou responder e-mails.

Tentou focar nas apresentações abertas no notebook.

Mas toda vez que abaixava os olhos…

via Félix.

A voz rouca.

O olhar cansado.

O jeito como ele disse:

“Você foi a única coisa que eu nunca consegui controlar.”

Aquilo ainda ecoava dentro dela como uma ferida recém aberta.

Na hora do almoço, ela encontrou Do-yun num restaurante próximo da empresa, um daqueles lugares modernos e silenciosos frequentados por executivos da região.

Do-yun já estava sentado quando ela chegou.

Camisa social impecável.

Notebook aberto ao lado do prato.

O celular vibrando sem parar com mensagens do trabalho.

Ele sorriu assim que viu ela.

E Deus… aquilo apertou o peito dela de outro jeito.

Porque Do-yun era gentil.

Seguro.

Presente.

O completo oposto do caos que Félix sempre carregou.

— Finalmente conseguiu fugir da empresa? — ele brincou enquanto fechava o notebook.

Yuna forçou um pequeno sorriso antes de sentar.

— Mais ou menos.

Do-yun começou a falar quase imediatamente sobre o novo projeto em que estava trabalhando. Um contrato importante. Investidores estrangeiros. Possível expansão da empresa para Busan no próximo semestre.

Yuna escutava.

Ou pelo menos tentava.

Porque a mente dela continuava presa naquela cafeteria pequena escondida numa esquina de Seoul.

No olhar de Félix.

Na tristeza silenciosa dele.

No jeito como ainda parecia carregar culpa até na forma de respirar.

— Yuna?

Ela piscou algumas vezes, voltando para a realidade.

— Hm?

Do-yun franziu levemente a testa.

— Eu perguntei se você acha melhor fecharmos primeiro com a equipe de design ou tecnologia.

Ela demorou um segundo demais para responder.

E ele percebeu.

Claro que percebeu.

Do-yun apoiou os talheres devagar no prato antes de olhar melhor para ela.

— Tá tudo bem?

Yuna abriu a boca automaticamente.

“Tá.”

Mas a palavra morreu antes de sair.

Porque não estava.

Não completamente.

Ela abaixou os olhos para o copo de água.

E aquilo bastou para Do-yun entender que havia alguma coisa errada.

Talvez não o quê.

Mas havia.

— Aconteceu alguma coisa na oficina? — ele perguntou mais baixo.

O coração dela tropeçou imediatamente.

Félix.

Só de pensar o nome dele perto de Do-yun, Yuna sentia uma culpa estranha crescendo dentro do peito.

Porque antes… Félix era tudo.

O centro.

O caos.

O amor que consumia cada parte dela.

Mas agora existia Do-yun.

E aquilo complicava tudo.

Porque Do-yun ocupava um lugar precioso dentro dela também.

Um lugar tranquilo.

Seguro.

Com ele, Yuna conseguia enxergar futuro.

Conseguia imaginar estabilidade, paz, uma vida construída sem medo.

Já Félix…

Félix sempre parecia tempestade.

Intenso demais.

Imprevisível demais.

Perigoso demais.

O tipo de amor que aquece e destrói ao mesmo tempo.

Yuna respirou fundo antes de finalmente responder:

— Eu encontrei alguém hoje.

Do-yun ficou em silêncio.

E pela primeira vez naquele almoço…

Yuna percebeu que sua vida talvez estivesse prestes a mudar outra vez.

— Alguém importante, pelo jeito… posso saber quem é?

A pergunta veio calma.

Sem pressão.

Sem ciúme aparente.

Mas Yuna conhecia Do-yun o suficiente para perceber a mudança sutil no olhar dele.

Ela desviou os olhos por um instante antes de suspirar baixo, cansada.

— Alguém do meu passado.

Aquilo bastou para acender uma preocupação silenciosa dentro dele.

Porque Yuna quase nunca falava sobre o passado.

Na verdade… evitava completamente.

Do-yun sempre soube que existia alguém antes dele.

Alguém que deixou marcas profundas demais.

Mas nunca insistiu.

Se Yuna não queria contar, ele respeitava.

Era assim que funcionavam.

Sem pressão.

Sem invasão.

Sem feridas abertas à força.

Mas dessa vez parecia diferente.

Porque ela estava abalada de verdade.

Yuna apertou levemente os dedos em volta do copo antes de continuar:

— O nome dele é Félix.

Do-yun permaneceu quieto.

Atento.

E então ela completou, a voz falhando levemente:

— Ele foi meu…

A frase morreu no meio.

Como se nem ela soubesse definir direito o que Félix tinha sido.

Amor?

Lar?

Destruição?

Tudo ao mesmo tempo?

Yuna abaixou os olhos antes de terminar mais baixo:

— Durante muito tempo… ele foi alguém muito importante pra mim.

O clima na mesa mudou imediatamente.

Pesou.

Do-yun fechou o notebook devagar, sem tirar os olhos dela.

O barulho discreto pareceu ainda mais alto naquele silêncio.

Yuna percebeu na hora.

— Bem… eu não gostaria de ter essa conversa com você agora — ela falou rapidamente. — Você tá no meio de um projeto importante e eu não quero te deixar desconfortável.

Do-yun ficou olhando ela por alguns segundos.

Sério agora.

Mais humano do que executivo.

Mais homem do que profissional.

Então respondeu calmamente:

— Yuna… você sabe o quanto é importante pra mim.

Aquilo apertou o peito dela.

Porque havia sinceridade ali.

Presença.

Do-yun apoiou os braços sobre a mesa.

— Se você acha que devemos ter essa conversa agora… então vamos ter.

Yuna sentiu a garganta apertar.

Porque naquele instante percebeu uma coisa cruel:

Do-yun nunca exigia espaço na vida dela.

E talvez fosse exatamente isso que tornava tudo ainda mais difícil.


Yuna demorou alguns segundos antes de começar a falar.

Como se precisasse escolher cuidadosamente cada palavra para não abrir feridas demais.

O restaurante continuava movimentado ao redor deles, mas a mesa parecia isolada do resto do mundo agora.

Ela respirou fundo.

— Eu conheci o Félix quando era muito nova.

A voz saiu baixa.

Distante.

Como alguém revisitando uma vida que parecia pertencer a outra pessoa.

— E… a gente acabou se envolvendo de um jeito muito intenso.

Do-yun permaneceu em silêncio.

Só escutando.

Sem interromper.

Yuna continuou devagar:

— Ele tinha problemas. Muitos.

Ela soltou um pequeno riso sem humor.

Triste.

— Só que eu amava ele mesmo assim.

A sinceridade daquela frase apertou alguma coisa dentro de Do-yun, mas ele não demonstrou.

Yuna mexeu distraidamente no guardanapo entre os dedos.

— Depois as coisas ficaram… complicadas. Violentas às vezes. Não comigo, mas com a vida dele. Com as pessoas ao redor. Com tudo.

Ela engoliu seco antes de continuar:

— E então ele simplesmente foi embora da minha vida.

Os olhos dela abaixaram por um instante.

— Sem me deixar escolher nada.

Do-yun observava em silêncio.

Agora entendendo finalmente por que existia tanta tristeza escondida dentro de alguém aparentemente tão controlada quanto Yuna.

Ela respirou fundo outra vez.

— Hoje foi a primeira vez que eu vi ele depois de muitos anos.

Silêncio.

Do-yun apoiou as mãos unidas sobre a mesa, pensativo.

— Ele pediu pra você voltar?

Yuna ergueu os olhos rapidamente.

— Não.

E aquilo era verdade.

Félix não pediu nada.

Não implorou.

Não tentou puxá-la de volta.

Talvez isso tivesse tornado tudo ainda pior.

Ela desviou os olhos outra vez.

— Ele só… apareceu de novo.

Do-yun observou ela por alguns segundos.

Então completou a frase que ela claramente não conseguia dizer sozinha:

— Mas você ficou mexida.

Aquilo acertou em cheio.

Yuna abaixou o olhar imediatamente.

Virou levemente o rosto para o lado, fingindo observar a rua pela janela do restaurante numa tentativa inútil de esconder a própria confusão.

Porque estava óbvio.

Óbvio demais.

O silêncio dela respondeu antes mesmo das palavras.

E Do-yun percebeu.

Ele conhecia Yuna o suficiente para notar cada pequena mudança nela.

A respiração mais presa.

Os dedos inquietos.

O olhar perdido.

Ela demorou alguns segundos antes de finalmente falar baixo:

— Eu achei que tinha enterrado tudo isso.

A voz falhou um pouco.

— Mas quando eu vi ele hoje…

Ela não terminou.

Nem precisava.

Porque parte dela ainda estava naquela cafeteria.

Sentada na frente de Félix.

Tentando entender por que alguns amores nunca morrem direito — apenas aprendem a ficar quietos por um tempo.