Amar o Caos
33 O Homem Que Nunca Foi Embora
Depois da conversa, Yuna voltou para a empresa com o peito pesado.
Mais pesado do que antes.
Porque agora não era só o reencontro com Félix bagunçando tudo dentro dela.
Era a culpa também.
Culpa por nunca ter contado a verdade inteira para Do-yun.
Durante anos ela evitou falar sobre Félix como se esconder o passado fosse uma forma de finalmente enterrá-lo. Sempre que o assunto chegava perto demais, Yuna mudava de direção. Dizia apenas que tinha vivido um relacionamento difícil quando era mais nova.
Nada além disso.
Nunca o nome.
Nunca a intensidade.
Nunca o estrago.
E agora ela começava a pensar que talvez aquilo tivesse sido um erro.
Talvez, se tivesse contado antes…
o impacto daquele reencontro fosse menor.
Talvez Do-yun não estivesse tentando processar tudo de uma vez agora.
Ela fechou os olhos por alguns segundos encostada na cadeira da sala de reunião vazia.
Mas no fundo sabia o verdadeiro motivo do silêncio.
Félix nunca foi apenas “um ex”.
Félix tinha sido uma versão inteira da vida dela.
Uma versão intensa, perigosa e viva demais para ser explicada facilmente.
Enquanto isso, do outro lado da mesa do almoço, Do-yun tinha tentado permanecer calmo.
E conseguiu.
Pelo menos por fora.
Fez perguntas com cuidado.
Escutou sem pressionar.
Respeitou os silêncios dela como sempre fazia.
Mas Yuna conhecia os pequenos sinais.
O jeito como ele ficou mais quieto depois do nome Félix surgir.
O olhar perdido por alguns segundos.
Os dedos batendo levemente na lateral do copo quando estava nervoso.
Do-yun não era ingênuo.
Ele entendeu imediatamente o que realmente assustava naquela história.
Não era apenas o passado.
Era o fato de que o passado ainda parecia vivo.
E isso apavorava ele.
Porque pela primeira vez desde que começou a construir uma vida ao lado de Yuna… Do-yun percebeu que talvez existisse uma parte dela que nunca pertenceu completamente ao presente.
Uma parte que ainda respondia ao nome de Félix Park.
E pior:
ele tinha medo de que Yuna também percebesse isso.
O celular de Yuna vibrou em cima da mesa.
Ela demorou alguns segundos para olhar.
Talvez porque, no fundo, já soubesse.
Notificação da oficina.
O orçamento do carro.
O coração dela apertou imediatamente.
Yuna abriu a mensagem devagar, sentindo um cansaço estranho crescer dentro do peito enquanto lia os detalhes do conserto. Nada grave. Algumas peças, revisão no motor e prazo de entrega.
Simples.
Deveria ser simples.
Mas não era.
Porque agora até um carro quebrado parecia emocionalmente perigoso.
Ela deixou o celular virado sobre a mesa e passou a mão lentamente pelo rosto.
Se entregasse aquilo para Do-yun resolver…
ele provavelmente iria até a oficina.
E encontraria Félix.
A ideia fez o estômago dela se contrair na mesma hora.
Não porque acreditasse que Félix faria alguma coisa.
Mas porque os dois mundos dela jamais deveriam se tocar daquele jeito.
E então existia a outra possibilidade.
Ela mesma ir até lá.
O problema era que Yuna não sabia se teria forças para encarar Félix outra vez tão cedo.
Não depois daquela conversa.
Não depois daquele olhar.
Droga.
Yuna fechou os olhos por alguns segundos, encostando a cabeça na cadeira.
Porque parte dela queria fugir completamente daquela situação.
Mas outra parte…
Outra parte sabia que aquilo era inevitável.
Uma hora ou outra eles precisariam terminar aquela conversa interrompida na cafeteria.
Precisariam falar sobre os anos perdidos.
Sobre o amor que nunca morreu direito.
Sobre tudo aquilo que ainda permanecia entre os dois como uma ferida aberta.
E talvez fosse justamente isso que mais assustava Yuna naquele momento.
Não o reencontro.
Mas perceber que, no fundo…
ela ainda queria voltar.
Nos dias seguintes, Do-yun tentou agir normalmente.
Como se nada tivesse mudado.
Continuou mandando mensagens durante o expediente.
Levando café para Yuna nas manhãs corridas.
Falando sobre trabalho, planos, viagens e o futuro que os dois vinham construindo juntos há tanto tempo.
Por fora… tudo parecia igual.
Mas não estava.
E ele percebia isso cada vez mais.
Yuna ainda respondia.
Ainda sorria.
Ainda permanecia ao lado dele.
Só que havia uma distância nova ali.
Pequena.
Silenciosa.
Quase invisível.
Mas suficiente para incomodar um homem atento como Do-yun.
Ela ficava distraída no meio das conversas.
Perdia partes do que ele dizia.
Passava segundos longos demais olhando para lugar nenhum.
Como alguém vivendo metade no presente… e metade presa em outro tempo.
E aquilo começou a irritar ele profundamente.
Não uma irritação explosiva.
Pior.
Daquelas silenciosas que vão crescendo dentro do peito devagar.
Porque Do-yun entendia exatamente o que aquilo significava.
Félix ainda existia dentro dela.
Forte demais.
Vivo demais.
E a ideia começou a corroer ele aos poucos.
Como era possível um único encontro bagunçar tanto alguém daquele jeito?
Tinham se passado anos.
E mesmo assim bastou Félix reaparecer para alguma coisa dentro de Yuna sair completamente do eixo outra vez.
Aquilo machucava o orgulho dele de uma forma cruel.
Porque Do-yun esteve ali esse tempo inteiro.
Presente.
Constante.
Construindo uma vida real ao lado dela.
Enquanto Félix tinha sido ausência.
Dor.
Silêncio.
E ainda assim…
parecia ocupar um espaço dentro dela que ninguém conseguia alcançar.
Numa noite particularmente silenciosa, os dois jantavam no apartamento enquanto a televisão ligada preenchia o ambiente com ruídos baixos.
Yuna mexia distraidamente na comida sem realmente comer.
Do-yun observou aquilo por alguns segundos antes de finalmente perder a paciência.
— Você tá em outro lugar faz dias.
A frase saiu mais seca do que ele pretendia.
Yuna ergueu os olhos imediatamente.
Surpresa.
Do-yun soltou o garfo devagar sobre o prato.
— Eu tô tentando entender. Sério. Mas parece que desde aquele encontro…
Ele parou por um instante.
Respirando fundo.
Tentando manter a calma.
— Você simplesmente não voltou mais pra cá.
Aquilo bateu forte nela.
Porque parte dela sabia que ele tinha razão.
Yuna abriu a boca tentando responder alguma coisa.
Mas Do-yun continuou antes.
A voz mais baixa agora.
Mais honesta.
— E o que mais me irrita…
Ele soltou um riso curto, sem humor.
— É perceber que talvez eu nunca tenha competido de verdade com ele.
Silêncio.
Pesado.
Yuna sentiu o coração apertar imediatamente.
Porque aquilo não era ciúme barato.
Era medo.
Medo de descobrir que o homem que ela tentou esquecer durante por anos ainda era capaz de abalar tudo ao redor dela apenas aparecendo novamente.
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