Amar o Caos

18 Grades Invisíveis


Félix estacionou a caminhonete em frente à casa.

Era uma construção grande, mas com um ar pesado — paredes em tons escuros, janelas altas, e aquela sensação de que cada canto tinha olhos.

— Pode entrar — ele disse, abrindo o portão automático. — Aqui é onde você vai morar agora.

O hall de entrada era amplo, mas no piso de baixo o clima mudava. No sofá de couro preto, espalhados como se fosse território deles, estavam Jim, Kim, Kako e Kadu. Todos pararam o que estavam fazendo para encarar Yuna. Não havia sorriso, apenas aquele olhar avaliador de quem mede cada movimento.

Jim, o mais velho e com o olhar frio, cruzou os braços.

Kim, sempre com um ar debochado, ergueu o queixo num cumprimento quase irônico.

Kako, com a postura mais descontraída, apenas levantou uma sobrancelha.

Kadu, o mais calado, observava em silêncio, mas seus olhos seguiam cada passo dela.

— O quarto dela é lá em cima? — perguntou Kim, sem disfarçar a curiosidade.

— Sim — Félix respondeu firme. — Ela vai ficar comigo.

Quando subiram para o quarto, ele colocou a mala num canto e, antes mesmo que ela pudesse desfazer, a segurou pela cintura.

— Agora você é minha de verdade, Yuna… minha mulher — disse, com aquela voz grave que não deixava espaço para dúvidas.

Ela sentiu um arrepio percorrer a espinha. Pela primeira vez, percebeu que ali não havia volta. Aquela noite não seria só o início de uma nova vida… seria a marca de um pacto silencioso entre eles, de corpo e destino.

Naquele quarto novo para ela, mas tão familiar para ele, Yuna se deitou sentindo o peso de tudo que havia deixado para trás. Félix, já mais à vontade, tirou a camisa e deitou-se ao lado dela, puxando-a para perto.

— Agora sim… do jeito que sempre tinha que ser — murmurou, com aquele tom possessivo que ele usava quando queria marcar território.

Lá fora, no piso de baixo, o burburinho dos capangas diminuía aos poucos. Jim e Kim jogavam cartas, Kako e Kadu discutiam sobre algo que só eles entendiam. A casa, apesar de cheia, parecia silenciosa para quem estava no quarto.

Yuna, ainda dividida entre o medo e a estranha sensação de segurança, sentiu o braço dele firme ao seu redor. Félix fechou os olhos satisfeito, como se finalmente tivesse conquistado o que queria.

— Dorme… amanhã começa a vida nova — disse, antes de adormecer.


A madrugada estava pesada, o ar parado como se o mundo tivesse prendido a respiração.

O silêncio entrou pela janela entreaberta, trazendo um frio leve que arrepiou a pele de Yuna.

Ela abriu os olhos devagar. No escuro, só conseguia distinguir o contorno do corpo de Félix ao seu lado — pesado, imóvel, respirando fundo como quem dorme um sono de pedra. Ele não se mexia nem com o vento batendo nas cortinas.

Yuna ficou ali, deitada, ouvindo o nada. Cada batida do próprio coração soava alta demais. Não sabia se era a estranheza da nova casa, ou o peso de tudo que tinha deixado para trás, mas sentia como se algo do lado de fora a observasse.

Lentamente, ela virou o rosto para a janela. As sombras pareciam mais escuras do que deviam.

Quando percebeu, um fio dourado de luz já atravessava a cortina, desenhando uma faixa quente no lençol.

Félix continuava dormindo como se o mundo não existisse.

Yuna se sentou na cama, puxou os joelhos contra o peito e ficou olhando o sol tomar conta do quarto. Era um amanhecer bonito, mas nela não havia paz — só aquela sensação estranha que havia começado no silêncio da madrugada e agora parecia mais viva sob a luz do dia.

O calor suave do sol não trouxe o conforto que Yuna esperava. Pelo contrário — parecia iluminar ainda mais os pensamentos que ela queria manter escondidos.

Sentiu um nó no estômago, uma inquietação que não sabia explicar.

Levantou-se devagar, tentando não acordar Félix. Os pés tocaram o chão frio, e ela atravessou o quarto em silêncio.

Abriu um pouco mais a cortina, e a claridade inundou o espaço. Lá fora, a rua ainda estava calma, mas já havia sinais de vida — um carro passando devagar, o som distante de uma porta se fechando.

Yuna inspirou fundo, tentando prender o ar como quem segura um impulso. Mas não conseguiu.

Voltou-se para a cama e olhou para Félix. Por um momento, pensou em acordá-lo, dizer tudo que estava preso na garganta. Mas o peso da manhã e o medo de quebrar aquele instante a fizeram recuar.

Foi até a cozinha, acendeu o fogão e colocou água para ferver. Não sabia se queria café ou apenas um motivo para se manter ocupada.

O aroma forte e quente do café se espalhou pela casa, atravessando o corredor e alcançando o quarto.

Félix abriu os olhos devagar, ainda com o corpo pesado de sono, e soltou um suspiro satisfeito.

— Hm… isso é café… — murmurou, com um meio sorriso preguiçoso.

Sentou-se na cama, passou a mão pelos cabelos e ficou alguns segundos parado, ouvindo o leve tilintar de xícaras vindo da cozinha.

Desceu os degraus calmamente, ainda descalço, e encontrou Yuna junto ao balcão, mexendo o café com um ar sereno, como se já fizesse parte daquela casa há anos.

O café esfumaçava sobre a mesa, espalhando um aroma quente pela cozinha. Félix se encostou na cadeira, observando Yuna em silêncio por alguns instantes, como se estivesse medindo cada expressão dela.

— Dormiu bem? — ele perguntou, casual, mexendo a xícara.

— Mais ou menos — ela respondeu, olhando pela janela. — Pensei muito essa noite.

A conversa começou com trocas simples, quase pacíficas, mas o tom mudou quando Yuna suspirou fundo.

— Félix… eu queria que você tivesse conversado comigo antes de decidir que vamos morar juntos. Isso é importante… é a nossa vida.

Ele ergueu uma sobrancelha, como se aquilo fosse um detalhe menor. Tomou um gole de café, apoiou a xícara na mesa e disse, num tom baixo e firme:

— Você já teve a chance de se arrepender antes. A partir daquele dia em que não quis voltar com seu pai, mas escolheu ficar comigo, já estava decidido. Seu destino foi traçado. Seu presente e futuro… eu decido.

Os olhos de Yuna endureceram na mesma hora. O café que ela segurava perdeu o calor, e o sabor já não importava.

Ela encarou Félix, sentindo um nó apertar no peito. Não era medo — era um misto de indignação e ferida aberta. A voz saiu baixa, mas carregada de tensão:

— Então é assim… você acha que pode decidir por mim… como se eu fosse uma peça no seu tabuleiro?

Félix não respondeu de imediato, apenas sustentou o olhar.

Yuna se levantou devagar, cada movimento calculado para não deixar transparecer o tremor nas mãos. Caminhou até a janela, deixando que a luz do sol queimasse seu rosto, talvez para esconder o brilho úmido nos olhos.

— O que mais você vai decidir no meu lugar, Félix? — perguntou, sem se virar.

O silêncio entre os dois ficou tão denso que parecia empurrar as paredes para mais perto.

Ele nada falou, sentiu a tensão atravessar o ar como uma lâmina.

Os ombros de Yuna estavam rígidos, e o modo como ela evitava encará-lo dizia mais do que qualquer palavra.

Félix inspirou fundo, mas engoliu a vontade de se justificar. Sabia que qualquer frase mal colocada poderia acender ainda mais o incêndio.

Ela permaneceu diante da janela, imóvel, como se buscasse forças lá fora para não desmoronar ali dentro. O som distante da rua parecia zombar do silêncio sufocante que tomava o cômodo.

Ele deu um passo, mas parou no meio do caminho, preso entre o impulso de se aproximar e o receio de quebrar de vez o frágil fio que ainda os mantinha ligados.


Dias se passaram depois e a conversa ... essa nuca foi finalizada.

Félix retornou a sua rotina, passava mais tempo fora do que dentro de casa.

Yuna caminhou pela sala em passos lentos, sentindo o eco de sua própria respiração.

A casa, grande , parecia mais um cofre do que um lar.

Encostou-se no batente da porta, olhando de relance para o capanga sentado no sofá, distraído com o celular. Era sempre assim: uma sombra constante, um lembrete vivo de que ela nunca estava realmente sozinha. Félix dizia que era para protegê-la — afinal, ele tinha inimigos. Mas, no fundo, Yuna sabia que aquilo era mais sobre controle do que sobre segurança.

Sentou-se na poltrona perto da janela, puxando o casaco para se aquecer. O silêncio ali dentro tinha peso, mas não liberdade. O único som era o do relógio marcando o tempo, e cada tic-tac parecia zombar dela, lembrando que, mesmo longe de Félix, ela ainda vivia dentro dos muros que ele ergueu.

Seus dedos roçaram a aliança no anelar, quase num gesto automático. O capanga levantou os olhos por um instante, só para voltar à distração de antes. Yuna respirou fundo, desejando, pela primeira vez em semanas, que alguém ou algo rompesse aquela prisão silenciosa.

A culpa queimava. Ela sabia que não tinha perdido o controle — ela o entregou. Entregou fácil demais. No começo, parecia proteção, cuidado… agora era só um contrato silencioso em que ela havia vendido sua liberdade.

Félix podia até sentir algo por ela, disso Yuna não duvidava. Mas ele não era um homem que cedia, que deixava algo escapar entre os dedos. Controle, para ele, não era capricho — era regra de sobrevivência. E, para seu azar, ela tinha se tornado parte dessa regra.

Respirou fundo, mas o ar parecia curto. Ali, com a capanga vigiando, Yuna percebeu que não era só o corpo que estava trancado. A mente também já tinha grades.