Amar o Caos

19 O Peso de Ser Sua


O silêncio da casa pesava, quebrado apenas pelo som distante da televisão que o capanga deixara ligada na sala. Yuna olhou para o celular sobre a mesa. Seus dedos hesitaram antes de tocar o nome que não via fazia meses: Gina.

O telefone chamou três vezes.

— Alô? — a voz veio carregada de surpresa e um leve riso. — Não acredito… Yuna?

— Sou eu… — a voz de Yuna saiu baixa, quase um sussurro. — Eu… precisava ouvir alguém que me conheça de verdade.

— Tá tudo bem? — Gina perguntou, mas pelo tom já sabia que não estava. — Você sumiu do mapa, menina.

Yuna respirou fundo, os olhos marejando.

— Não tá, Gina. Eu não mando mais em nada da minha vida. Eu deixei… eu deixei ele decidir tudo por mim. E agora… eu não sei como voltar atrás.

— "Ele"… o Félix? — o nome saiu com uma ponta de desprezo. — Eu te avisei, Yuna. Homem que controla até a forma como você respira não tá te protegendo, tá te prendendo.

— Eu sei… — ela murmurou, a mão apertando o celular. — E o pior… é que parte de mim acredita que ele me ama. Mas ele nunca vai ser o tipo de homem que perde o controle… de nada. Nem de mim.

Gina fez uma pausa longa, o som de um suspiro pesado atravessou a linha.

— Então você tem duas escolhas: ou você aprende a jogar o jogo dele… ou você acha um jeito de quebrar a mesa.

— Eu não sei se tenho força pra isso… — a confissão veio embargada.

— Tem sim. Só que você esqueceu disso. — Gina respondeu firme. — E enquanto você esquecer, ele vai lembrar por você… todos os dias.

O silêncio entre as duas pesou, mas não era desconfortável. Era o silêncio de quem sabia que a conversa não terminava ali — e que talvez fosse o primeiro passo para Yuna se lembrar de quem era.


No dia seguinte ...

Félix estava sentado na poltrona, o olhar afiado preso no celular. O som da chuva fina contra a janela preenchia o silêncio. Yuna se aproximou devagar, como quem mede cada passo.

— Estava pensando… — ela começou, mexendo nas próprias mãos. — Estou com saudades dos meus pais. Queria visitá-los.

Ele ergueu o olhar, sem pressa, os olhos estreitando levemente.

— Em breve eu levo você lá.

— Não precisa — ela rebateu, tentando manter o tom leve. — Eu posso ir sozinha, afinal… é só uma visita.

Félix apoiou o cotovelo no braço da poltrona, inclinando-se um pouco para frente. O couro da jaqueta rangeu com o movimento.

— Sozinha? — repetiu, lento, como se experimentasse a palavra. — Não, Yuna. Você sabe que eu tenho inimigos. Não é seguro.

Ela sentiu o estômago pesar, mas manteve o sorriso disfarçado.

— Eu sei, mas… eu não vou me meter em confusão. Vou direto, volto no mesmo dia.

Félix balançou a cabeça, soltando um suspiro impaciente.

— Yuna … comigo, ou não vai.

O tom final não deixava espaço. Yuna baixou os olhos, escondendo a frustração.

Por dentro, ela queimava com a sensação de estar presa… mas, por fora, só acenou em silêncio.


Os dias foram passando lentos e pesados para Yuna.

A madrugada pesava na casa silenciosa quando a porta se abriu devagar. Félix entrou como um fantasma cansado, mas ainda com aquela energia perigosa que o acompanhava. A jaqueta de couro caiu sobre a poltrona, o cheiro da rua e da noite densa colando nele como segunda pele.

Sem pressa, caminhou até o banheiro. O som da água quebrando o silêncio ecoou pelo quarto. O vapor invadiu o ar, e ali, debaixo do chuveiro, Félix deixou que a água quente levasse parte da sujeira e do peso do dia — mas não a tensão. Essa ele carregava por escolha.

Saiu, nu, a pele ainda úmida, e deitou-se ao lado de Yuna. Ela dormia profundamente, o corpo pequeno aninhado sob o lençol. Ele estendeu a mão, puxando-a para perto.

— Félix…? — a voz dela veio baixa, embargada de sono, os olhos pesados, quase fechados.

— Shh… — ele roçou os lábios na curva do pescoço dela. — Quero você agora.

Ela suspirou, sentindo o toque quente dele, o corpo firme colando-se ao seu. Não havia espaço para negar ou perguntar — Félix tinha esse jeito de tomar para si o momento, como se o mundo inteiro fosse moldado ao seu desejo.

As mãos dele percorreram a pele dela devagar, mas com intenção. Yuna, ainda entorpecida pelo sono, deixou-se levar, sentindo o peso e o calor dele cobrindo o seu corpo. A noite, que antes era calma, se incendiou no quarto.

Na manhã seguinte, Yuna acordou com o sol filtrando pela cortina entreaberta. A cama estava vazia, como de costume — Félix já tinha sumido para cuidar dos seus “assuntos”.

O cheiro de café vindo da cozinha indicava que ele, pelo menos, tinha deixado algo pronto antes de sair.

Ela se levantou devagar, sentindo o corpo ainda marcado pela noite anterior. Vestiu o robe e foi até a cozinha. Sobre a mesa, encontrou a caneca de café, um prato com pão e um bilhete curto, escrito à mão, com aquela caligrafia firme e apressada dele:

"Não espere por mim para o almoço. Cuide-se."

O papel parecia frio, distante, quase como ele quando queria se manter inalcançável.

Yuna suspirou, apoiando-se na mesa. A casa parecia enorme e silenciosa demais sem a presença dele — e, ao mesmo tempo, era como se o fantasma dele estivesse em cada canto.

Enquanto tomava o café, pensou em como Félix vivia entre duas vidas: a dela e a outra, cheia de riscos e segredos.


A manhã ainda estava fresca quando Yuna, com o coração acelerado, decidiu colocar o plano em prática. Jim estava trancado no escritório, entretido com ligações e papéis — um homem que, quando ocupado, esquecia até que os outros existiam.

Ela pegou a bolsa discretamente, evitou qualquer barulho que pudesse denunciar sua saída e atravessou o corredor com passos leves, como uma sombra. Ao abrir a porta da frente, respirou fundo: o ar livre parecia mais saboroso do que nunca.

Chamou um táxi duas ruas adiante, onde sabia que as câmeras de segurança da casa não alcançavam. A cada quarteirão que se afastava, sentia uma mistura de alívio e ansiedade — afinal, visitar os pais sem permissão de Félix e sem que Jim soubesse era mais do que uma simples escapada; era quase um ato de rebeldia.

Quando o carro se afastou da casa e a cidade começou a se transformar em bairros mais simples e familiares, Yuna sentiu o peito aquecer. Lá, no fim daquela viagem, estavam eles — o lar onde ela nasceu, e o abraço que sempre a lembrava de quem realmente era.

Ao chegar, encontrou a mãe varrendo o quintal.

— Yuna? — a voz da mãe misturava surpresa e alegria.

— Sou eu, mãe… — ela sorriu, sentindo a garganta apertar.

A mãe a abraçou forte, como quem tenta segurar a filha um pouco mais no colo. O pai apareceu logo depois, trazendo um sorriso cansado, mas sincero.

— A gente sente tanto a sua falta… — disse ele, com os olhos marejados.

— Eu também sinto… mais do que vocês imaginam — respondeu Yuna, sentando-se à mesa da cozinha, já recebendo uma xícara fumegante de café.

Eles conversaram sobre coisas simples — a horta, os vizinhos, a reforma da cerca —, mas nos olhos dela havia um peso que nem mesmo o calor da casa conseguia apagar.

Já estava lá algumas horas nem percebeu que o tempo passou , quando o celular vibra era uma mensagem de Félix: onde você está?

O coração de Yuna gelou. Ela encarou a tela por alguns segundos, como se o aparelho tivesse acabado de se tornar uma armadilha. Os dedos tremiam levemente — Félix nunca perguntava, ele mandava. Aquela pergunta soava mais como um aviso.

Respirou fundo, tentando pensar rápido. Se respondesse que estava na casa dos pais, ele poderia ir até lá. Se mentisse, corria o risco de ser pega. A mente fervilhava, lembrando-se do jeito dele de aparecer sem aviso, de sempre saber mais do que parecia.

Enquanto olhava pela janela da cozinha da mãe, via o céu nublado, pesado… exatamente como a sensação que a dominava naquele instante.

Ela digitou uma resposta curta. Precisava decidir — e decidir rápido.

Yuna respirou fundo e, com os dedos firmes, digitou:

"Já estou indo."

Apertou enviar antes que a coragem vacilasse. Guardou o celular no bolso, virou-se para os pais com um sorriso rápido e ensaiado.

— Preciso ir, tenho uns compromissos — disse, tentando soar casual.

A mãe fez menção de perguntar, mas Yuna já estava recolhendo a bolsa. Abraçou-os rápido, como quem teme que mais um segundo ali a faça mudar de ideia, e saiu para a rua.

O vento úmido da tarde bateu no rosto quando levantou o braço para chamar um táxi. Assim que entrou no carro, encostou a cabeça no vidro, observando a cidade correr lá fora. A sensação era de que cada quilômetro a aproximava de um turbilhão que ela mesma tinha escolhido voltar.

Quando o táxi parou, Yuna pagou rapidamente e entrou. Mal cruzou a porta da sala e deu de cara com Félix, encostado à mesa, braços cruzados, expressão fechada.

— Todo mundo, lá fora — ordenou ele, sem levantar a voz, mas com um tom que não deixava espaço para discussão.

Os outros se entreolharam, desconfortáveis, mas obedeceram em silêncio. Um a um, saíram, fechando a porta atrás de si.

O silêncio que ficou era pesado, quase palpável. Só então Félix descruzou os braços e deu um passo à frente, os olhos cravados nela.

— Eu já falei, você não sai sozinha — a voz de Félix soou firme, quase como um aviso.

Yuna ergueu o queixo, tentando manter a calma.

— Foi só uma visita rápida aos meus pais, nada demais.

— Você ainda não entendeu, Yuna — disse ele, cada palavra saindo baixa, mas carregada de autoridade. — Aqui, você não toma decisões sem me consultar. Nenhuma.

Ela franziu o cenho, sentindo o sangue ferver.

— Eu não preciso pedir permissão pra ver meus pais.

Ele deu um passo à frente, diminuindo a distância entre eles.

— Precisa sim — retrucou, com um tom frio que não deixava espaço para réplica. — Enquanto estiver sob meu teto, tudo passa por mim.

O silêncio que se seguiu não era apenas incômodo, era quase palpável. Ela respirou fundo, tentando conter a vontade de responder à altura, mas sabia que cada palavra ali poderia virar pólvora.

Yuna subiu as escadas com passos apressados, quase tropeçando na pressa, o coração martelando no peito. Sentia o olhar de Félix queimando suas costas até o último degrau.

Assim que entrou no quarto, bateu a porta com força, como se aquilo fosse o bastante para barrar o peso que ele exercia sobre ela. A respiração vinha rápida, e as mãos tremiam.

Ali, cercada pelas paredes familiares, ela queria acreditar que estava segura. Mas a verdade é que a presença dele parecia infiltrar-se até ali, como uma sombra que não respeitava fechaduras.

Félix subiu atrás dela com passos firmes e calculados, cada batida do sapato no piso ecoando como uma sentença. Ele não era homem de aceitar que alguém lhe desse as costas — e Yuna não seria exceção. O orgulho falava alto, mas por baixo dele ardia algo mais profundo e perigoso: aquela mulher tinha se entranhado no seu coração, e isso o irritava tanto quanto o fascinava.

Quando entrou no quarto, fechando a porta atrás de si, o ar pareceu ficar mais pesado. Sem pedir, sem hesitar, ele se aproximou, impondo sua presença até que não restasse espaço entre eles. Era um ato claro, uma demonstração crua de autoridade e posse. Para Félix, ela não tinha o direito de se afastar, nem de se zangar — não dele.

Yuna sentiu o corpo retesar, a respiração falhar. Sabia que, se negasse, poderia tornar tudo pior. Então cedeu, não por rendição completa, mas por entender que naquele momento o embate não traria vitória. Mesmo assim, no fundo, algo nela permanecia em alerta — porque ceder não era esquecer.

O quarto ainda estava carregado pelo cheiro de suor e desejo misturado à tensão não dita. Félix permanecia deitado, apoiado no cotovelo, os olhos fixos nela como se quisesse ter certeza de que sua presença não escaparia. Yuna, sem dizer palavra, pegou a toalha e seguiu para o banheiro.

A água quente caiu sobre seus ombros como um abraço falso, queimando a pele e tentando, em vão, lavar o peso que ela carregava no peito. Fechou os olhos, respirou fundo, mas a lembrança da forma como ele a havia tomado, mais como imposição que como entrega, não saía da mente.

Do lado de fora, Félix permanecia em silêncio, mas cada batida firme do seu pé no assoalho denunciava que ainda queria manter o controle — até no silêncio. Ela sabia que quando saísse dali, o jogo de poder não teria acabado.

O clima segue tenso. Nos dias seguintes, Félix percebe que Yuna está mais quieta do que de costume.

O sorriso fácil não aparecia mais, e uma sombra parecia ter se instalado sobre ela, apagando o brilho que antes iluminava seus olhos.

Ele sentia a distância crescendo, mesmo quando ela estava ali, ao alcance das mãos.

E, no fundo, sabia que tinha algo a ver com a maneira como havia imposto sua vontade naquela noite — mas o orgulho e a necessidade de controle o impediam de dar o braço a torcer.