Amar o Caos
21 Entre Códigos e Correntes
Depois da discussão com Félix, Yuna tomou uma decisão que já vinha crescendo dentro dela havia muito tempo: finalmente entrou para a faculdade.
Escolheu Ciência da Computação e TI sem hesitar.
Não foi impulso. Nem rebeldia.
Era o que ela queria desde antes de toda aquela bagunça começar.
Enquanto outras pessoas dormiam, Yuna passava noites vendo vídeos, desmontando programas, aprendendo lógica por conta própria e tentando entender como um mundo inteiro podia existir escondido atrás de linhas de código. Gostava da sensação de resolver problemas sozinha. Gostava do silêncio das madrugadas iluminadas pela tela do notebook. Gostava, principalmente, da ideia de construir algo usando apenas a própria cabeça.
Os dias começaram a ganhar uma nova rotina.
Toda manhã, um carro preto já esperava na frente da casa.
Kako no volante.
Kadu encostado no banco, mexendo no celular ou reclamando do trânsito como um velho rabugento de quarenta anos preso num corpo jovem demais.
Na volta, a mesma coisa.
Sem atrasos.
Sem desvios.
Sem liberdade.
— Isso é ridículo — Yuna resmungou certa vez, jogando a mochila no banco de trás. — Eu só tô indo pra faculdade, não entrando num programa de proteção à testemunha.
Kako soltou um riso abafado.
— Reclama com o chefe.
— Eu reclamo. Ele só ignora.
Kadu virou o rosto, apoiando o braço na janela.
— O Félix tem inimigo até respirando, princesa. Relaxa.
Mas Yuna não relaxava.
Porque, no fundo, aquilo já começava a parecer menos proteção… e mais vigilância.
Ela percebia os olhares discretos.
Os relatórios silenciosos.
As ligações rápidas quando ela demorava cinco minutos a mais pra sair do campus.
Félix sempre sabia.
Quem falou com ela.
Quem sentou perto dela.
Que horas saiu da aula.
Aquilo começou a incomodar de verdade.
Principalmente porque a faculdade estava mostrando um mundo novo.
Um mundo sem grades invisíveis.
Os corredores viviam cheios.
Gente correndo com notebook nos braços.
Professores cansados.
Alunos sobrevivendo na base de café e desespero acadêmico.
E Yuna gostava disso.
Gostava da bagunça comum.
Da normalidade.
Pela primeira vez, ela conseguia se sentir parecida com pessoas da idade dela.
Até conhecer Minho.
Ele apareceu durante um trabalho em grupo, atrasado, com o cabelo bagunçado e duas olheiras fundas de quem claramente dormia pouco e vivia muito.
— Foi mal o atraso — ele disse, largando a mochila no chão. — Meu computador decidiu morrer exatamente hoje. Drama digno de novela.
Yuna riu sem perceber.
E aquilo…
Aquilo já era perigoso demais.
Minho não entrou na vida dela como uma tempestade.
Foi chegando devagar, nos espaços pequenos do cotidiano.
Primeiro vieram as perguntas durante as aulas.
— Você conseguiu entender essa parte do código?
— Me passa suas anotações depois?
— Esse professor fala coreano ou algum dialeto perdido da programação?
Yuna acabava rindo sem querer.
E, aos poucos, começou a esperar por aquelas interrupções no meio dos dias cansativos.
Minho era diferente dos homens ao redor de Félix.
Não tinha aquele olhar constantemente armado, como se o mundo inteiro fosse uma ameaça esperando o momento de atacar.
Ele era leve.
Não de um jeito vazio — porque Minho também carregava suas próprias pressões, noites mal dormidas e olheiras profundas de universitário sobrevivendo à base de café instantâneo — mas havia calma nele.
Uma calma que Yuna não conhecia.
Os dois começaram a passar tempo juntos entre as aulas.
Na biblioteca silenciosa.
Na cantina lotada.
Nos corredores abarrotados de estudantes correndo de um prédio para outro enquanto misturavam coreano rápido com termos em inglês técnico.
— “Database”, “framework”, “machine learning”... — Minho reclamou certa vez, jogando a cabeça para trás. — Acho incrível como a faculdade consegue fazer a gente sofrer em dois idiomas ao mesmo tempo.
Yuna riu baixo.
E aquilo começou a assustá-la.
Porque perto dele tudo parecia… normal.
Como se ela fosse apenas mais uma universitária comum da Coreia do Sul tentando sobreviver ao caos acadêmico.
Mas a vida de Yuna nunca permitia normalidade por muito tempo.
Na saída da faculdade, ela sempre dava um jeito de manter distância.
Às vezes saía mais cedo.
Às vezes demorava propositalmente dentro da sala.
Tudo para evitar que Kako ou Kadu vissem ela e Minho juntos.
Porque Yuna sabia exatamente como Félix funcionava.
Para ele, qualquer aproximação podia virar ameaça.
Qualquer olhar errado podia virar problema.
E mesmo que entre ela e Minho não existisse nada além de amizade…
Ainda assim, ela tinha medo do que Félix poderia enxergar.
Numa tarde chuvosa, Minho percebeu.
Os dois estavam parados perto da escadaria principal enquanto estudantes passavam correndo sob guarda-chuvas escuros.
Yuna olhava para o estacionamento pela quarta vez.
Minho acompanhou discretamente o movimento dela antes de perguntar:
— Tem alguém esperando você?
Ela hesitou por um segundo.
— Mais ou menos.
Ele arqueou uma sobrancelha, curioso.
— Você fala disso como se estivesse sendo escoltada pela polícia.
Yuna soltou uma risada curta pelo nariz.
— Às vezes parece.
Minho sorriu, mas dessa vez havia atenção real no olhar dele.
— Seu irmão?
Ela demorou para responder.
— Não.
— Então… namorado?
A pergunta veio cuidadosa, quase casual.
Mas o corpo de Yuna endureceu no mesmo instante.
Minho percebeu.
E não insistiu.
Só desviou o olhar para a chuva descendo pelas escadas de concreto da universidade.
— Tudo bem. Você não precisa responder.
Yuna abaixou os olhos.
Porque explicar Félix era impossível.
“Namorado” parecia uma palavra pequena demais.
Simples demais.
E Félix…
nunca teve nada de simples.
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